Blog

lhe

Vendo Artigos etiquetados em: lhe

Em busca do grupo perfeito…

Certa feita uma mãe, que havia sido praticante de capoeira, resolveu sair em busca do grupo ideal para seu filho, logo na primeira esquina percebeu uma academia com grande propaganda de aulas de capoeira. Em sua chegada ao local havia uma escada que dava acesso ao pavimento superior, onde funcionavam as aulas de capoeira. A escada era toda enfeitada com muitas fotos e banners com imagens de homens musculosos sem camisa executando movimentos aéreos, alongados e na maioria das vezes, com expressões faciais simulando raiva ou dor.

A mãe pensou:  …..esta capoeira aqui esta diferente daquela que pratiquei, mas talvez seja porque estou muitos anos sem praticar e isso tudo represente a evolução da capoeira…..    Já no piso superior, a mãe notou que havia uma pessoa dando aula para muitas outras, na sala havia uma musica muito alta e com ritmo acelerado, as pessoas estavam perfiladas, todas de frente para um homem musculoso e com uma roupa cheia de marcas, como um estandarte humano de propaganda. Este homem também conduzia a aula com gritos fortes, palavras de ordem e uma voz intimidadora de grande expressão.  A mãe pensou:  …..esta capoeira aqui esta diferente daquela que pratiquei, mas talvez seja porque estou muitos anos sem praticar e isso tudo represente a evolução da capoeira…..

A mãe, de forma paciente, aguardou o termino da aula e dirigiu-se para falar com o professor, inicialmente a mãe lhe perguntou: Que estilo de capoeira se pratica aqui, pois estou procurando um bom grupo para meu filho? O professor então, com um sorriso largo e simpático, tomou um gole de um isotônico famoso, da mesma marca que estava estampada em seu uniforme e disse: …Aqui nos praticamos a capoeira moderna, uma capoeira mais ágil, forte, bonita e acima de tudo, muito eficiente como luta……   A senhora já ouviu falar em Anderson Silva, campeão do UFC?  Antes da mãe responder o professor continuou: …..Pois então, como estou lhe dizendo, a capoeira hoje já esta ate no vale tudo e aqui nos ensinamos de tudo…. Pode ficar tranquila, aqui seu filho vai aprender a ser homem, pois eu mesmo vou acompanha-lo de perto, ensinando-lhe desde o nosso aperto de mão oficial de nosso grupo ate as melhores técnicas de finalização em situações de jogo mais duro. Aqui com certeza vamos coloca-lo no eixo e ele ainda estará pronto para resolver qualquer situação nas ruas.

A mãe agradeceu ao professor pela explicação e de maneira educada foi se despedindo e se afastando, quando o professor lhe disse: E sobre seu filho, quando a senhora ira traze-lo para fazer a matricula?….Tenha muito cuidado, pois os grupos de capoeira desta região não são bons…O nosso esta mais preparado para atende-la, pois temos muitas filiais espalhadas pelo mundo e eu ainda sou professor de Educação Física…..  A mãe, que já não suportava mais ficar calada, educadamente pediu um minuto de atenção ao professor, sentou-se em um local mais reservado com o mesmo e lhe disse: … Professor, como se chama? Ele respondeu:… Sou conhecido nas rodas como “Xicara sem alça”…   A mãe disse: … Muito prazer senhor Xicara…  Quero lhe agradecer novamente pelas explicações, mas não tenho intenção de matricular meu filho aqui, pois fiquei imaginando como se sente um parafuso torto recebendo marteladas para ficar no eixo….Com certeza, se o parafuso pudesse falar diria ..AI AI…Está doendo, e como meu filho pode falar, iria incomodar muito o senhor com seus gritos…. Sobre a parte da eficiência técnica para luta, penso que não será necessária para ele, pois tenho ensinado para meu filho que a melhor maneira de lidar com os conflitos será sempre o dialogo e por incrível que pareça, aprendi isso com um capoeira chamado Joao Pequeno de Pastinha, mas com certeza o senhor não deve conhece-lo, pois …..esta capoeira aqui esta diferente daquela que pratiquei, mas talvez seja porque estou muitos anos sem praticar e isso tudo represente a evolução da capoeira….. A mãe continuou …Gostaria de encontrar um grupo para meu filho que fosse capaz de ensina-lo  a conviver com a diversidade e aqui o senhor me disse que ate o aperto de mão esta padronizado. Quero um grupo em que meu filho possa desenvolver sua individualidade na relação com o coletivo e que acima de tudo SEJA FELIZ…..Quando vi a forma que o senhor ensina, percebi logo que o senhor conhecia uma parte da Educação Física tecnicista, pois também sou professora de Educação Física, contudo, penso que este método adotado aqui não esta de acordo com a ancestralidade da capoeira, pois mata a autonomia e diminui o poder de criatividade e criticidade dos educandos, portanto professor “Xicara”, recomendo ao senhor que estude mais sobre a capoeira e os antigos Mestres e só depois tente verificar, qual corrente metodológica da Educação Física será mais apropriada para cumprir nossa tarefa ancestral com a capoeira.

O professor “Xicara sem alça” ficou em silencio, ainda perplexo com tudo que havia escutado da simples mãe. A mãe despediu-se e com um sorriso feliz, desejou ao professor um bom dia e lhe fez um ultimo pedido. Que buscasse os mais antigos e com eles tentasse entender o significado de SER capoeira, pois o objetivo principal da capoeira, como pratica humana, sempre será levar felicidade aos seus praticantes, independente de estilos e formatações mercadológicas, pois se esta capoeira atual representa a evolução, tenho medo de como será no tempo de meus netos.

A historinha acima, mesmo que de maneira fantasiosa, ilustra bem os conflitos vividos na capoeira nos dias de hoje, assim precisamos ficar atentos para não reforçarmos o “opressor” que vive sendo “gestado” internamente, por conta de nossa formação tradicional, adestradora e comercial.

 

Fraternalmente..

Mestre Jean Pangolin

 

“Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo…”
Nemo Nox

Jean Adriano Barros da Silva
www.guetocapoeira.org.br
Tel: 55 71 8109 2550 / 3363 4568 / 3366 4214 
75 9168 7534 / 75 3634 2653
Bahia – Brasil

Mestre Camisa recebe título de Doutor Honoris Causa

A Universidade Federal de Uberlândia entregou , em 5 de maio de 2011, o diploma de DOUTOR HONORIS CAUSA a José Tadeu Carneiro Cardoso, o Mestre Camisa.

Para homenagear meu mestre e registrar seu reconhecimento como DOUTOR também pelos poetas populares da LITERATURA DE CORDEL, escrevi este pequeno poema intitulado “NA ARTE DA CAPOEIRA MESTRE CAMISA É DOUTOR”

 

NA ARTE DA CAPOEIRA MESTRE CAMISA É DOUTOR
Autor: Victor Alvim (Lobisomem)

Nesse mundo em que vivemos
É difícil imaginar
Por mais que nos esforcemos
É impossível vislumbrar
As surpresas que Deus guarda
Pro futuro revelar

Na década de 50
No interior da Bahia
O povo de Jacobina
Jamais imaginaria
O destino de mais uma
Criança que ali nascia

Dona Edésia sua mãe
Também não imaginava
O futuro de seu filho
Que no ventre carregava
E os caminhos que o destino
Para ele reservava

Nem tampouco seu Lindolfo
Seu pai podia prever
As estradas que seu filho
Viria a percorrer
E a bela história de vida
Que ele iria escrever

Nem Mari-inha a parteira
Não tinha a real noção
Da responsabilidade
E da divina missão
Que ajudava a vir ao mundo
Tão importante varão

Igualmente não sabia
E jamais faria tino
O próprio José Tadeu
Qual seria o seu destino
Pois brincar era a única
Preocupação do menino

Mas brincar é coisa séria
Foi assim na brincadeira
Que o menino Tadeu
Conheceu a capoeira
Dando seus primeiros passos
Pra uma caminhada inteira

Seu irmão Camisa Roxa
Que muito lhe ensinou
Duvido que àquele tempo
Sequer ele imaginou
Que o seu irmão mais novo
Chegaria onde chegou

E nem mesmo o Doutor Bimba
Como todo o seu reinado
Não acredito que ao menos
Houvesse desconfiado
Que aquele aluno menino
Herdasse seu doutorado

Mas a capoeira foi
Uma espécie de semente
Plantada no coração
De uma criança inocente
Encontrando solo fértil
E brotando lentamente

O menino foi crescendo
O tempo ia passando
Junto dele também ia
Sempre lhe acompanhando
O amor a capoeira
Cada vez mais aumentando

Todo tempo que podia
Estava em treinamento
A arte da capoeira
Carregava em sentimento
Pra onde quer que ele fosse
A levava em pensamento

Na fazenda, na escola
E nas horas de lazer
Quanto mais ele aprendia
Mais queria aprender
E os mestres desta arte
Gostava de conhecer

Deus então o colocou
Nas mãos de um professor
Muito mais que especial
Mais que mestre, um doutor
Manoel dos Reis Machado
Seu guia orientador

E a semente capoeira
Plantada no coração
Daquele jovem baiano
Recebeu a proteção
Regada por Mestre Bimba
Junto a sua plantação

Com sol quente ou chuva forte
Brisa mansa ou ventania
Tudo é vontade divina
Como o vento que um dia
Levou o mestre e o menino
Para longe da Bahia
No vestibular da vida

Passou com pouca idade
Agora o mundo seria
Sua universidade
Calouro inexperiente
Novato na faculdade
Estudante dedicado

Muito atento as lições
No trote do preconceito
Passou por humilhações
Sempre de cabeça erguida
Buscou suas soluções

Convivendo entre estudantes
De áreas convencionais
Medicina, arquitetura
E ciências sociais
Entre outras respeitadas
Carreiras profissionais

Foi cercado por pessoas
Com curso superior
Estudava a capoeira
Por ela tinha amor
E decidiu: – Nesta arte
Um dia vou ser doutor!

E em todas as matérias
Gostava de estudar
A história da capoeira
Muitas formas de treinar
Sua musicalidade
Compor, tocar e cantar

Aprendeu a ensinar
E criou seu próprio jeito
Convivendo entre os bambas
Foi tratado com respeito
Procurando agir certo
E fazer tudo bem feito

E o aluno se tornou
Um professor dedicado
Continuou estudando
Sem ficar acomodado
Tornando-se um grande mestre
Cada vez mais respeitado

E o Mestre Camisa hoje
É uma árvore sagrada
Com sua raiz bem forte
Por toda a Terra espalhada
Sua madeira é de lei
Sua sombra abençoada

Que tem galhos muito fortes
E dá frutos aos milhões
Suas folhas se renovam
Por diversas gerações
Suas flores mais bonitas
Se eternizam em canções

Semente que Deus criou
Ele eternizará
O Jardineiro Sagrado
Da árvore cuidará
Na história da capoeira
Meu mestre é um baobá

Em mais de quarenta anos
Estudando sem parar
Todo tempo a enfrentar
Os preconceitos tiranos
Sofrendo com desenganos
Resistindo com vigor
Com fé, trabalho e amor
À cultura brasileira
NA ARTE DA CAPOEIRA
MESTRE CAMISA É DOUTOR

Viajando o mundo inteiro
Divulgando a nossa arte
Ensinando em toda parte
Do Brasil e do estrangeiro
É um orgulho brasileiro
Exaltando o valor
Desse povo sofredor
Honrando a nossa bandeira
NA ARTE DA CAPOEIRA
MESTRE CAMISA É DOUTOR

Muitos mestres e doutores
De várias modalidades
Grandes universidades
Solicitam-lhe favores
Enaltecem seus valores
Tratando lhe com louvor
Elogiam seu labor
Por nossa Terra inteira
NA ARTE DA CAPOEIRA
MESTRE CAMISA É DOUTOR

Luiz Gonzaga no baião
No choro foi Pixinguinha
No Candomblé Menininha
No cangaço Lampião
Zumbi contra a escravidão
Pelé como jogador
Tiradentes foi senhor
Da inconfidência mineira
NA ARTE DA CAPOEIRA
MESTRE CAMISA É DOUTOR

Gandhi na sabedoria
Garrincha foi no driblar
Jesus Cristo em perdoar
Castro Alves na poesia
Freud em psicologia
Deus é como o Criador
Grande Otelo como ator
Cartola foi da Mangueira
NA ARTE DA CAPOEIRA
MESTRE CAMISA É DOUTOR

As forças da natureza
Doutoras em perfeição
O mar em imensidão
As florestas em beleza
O céu doutor em grandeza
Em sutileza é a flor
Sol e fogo em calor
Em água é a cachoeira
NA ARTE DA CAPOEIRA
MESTRE CAMISA É DOUTOR

Rio de Janeiro, 05 de maio de 2011
Autor: Victor Alvim (Lobisomem)

Pesquisa sobre Capoeira

Buscando colaborar e fomentar os estudos e pesquisas que envolvem a nossa capoeiragem e todas as suas manifestações correlatas, o Portal Capoeira, se coloca ao lado de todos os pesquisadores, docentes e profissionais envolvidos neste contexto e deste modo, nosso camarada Diogo Marinho, nos apresenta sua pesquisa e pede nossa ajuda para poder completar este importante trabalho.

Luciano Milani

 

PESQUISA SOBRE CAPOEIRA

Saudações Capoeiras!

Estamos pesquisando a capoeira em quatro capitais do Brasil: Florianópolis (SC), Curitiba (PR), Rio de Janeiro (RJ) e Salvador (BA), este trabalho irá compor uma dissertação para o mestrado em Patrimônio Cultural e Sociedade da UNIVILLE.
Necessitamos de um grande número de participantes para que a pesquisa tenha validade, para tanto, pedimos para que praticantes de capoeira, de ambos os sexos, maiores de 18 anos, de qualquer grupo/associação/estilo e de qualquer graduação/nível de capoeira destas capitais, participem.

O objetivo desta pesquisa é identificar as representações sociais sobre a capoeira através de seus agentes (Mestres, Contra-Mestres, Prof.º e alunos). Basta enviar seu e-mail para [email protected] , que lhe enviaremos o formulário de pesquisa e maiores informações.

Por favor, colaborem! Estou fazendo a minha parte, estudando e defendo a capoeira no meio acadêmico, faça você também a sua! Muito obrigado,

AXÉ!

Diogo Marinho – (Mestrando em Patrimônio Cultural e Sociedade/ pesquisador)

Para acompanhar a pesquisa ou entrar em contato, acesse as redes sociais:

http://www.orkut.com.br/Profile?uid=8170367735573038901&mt=2

http://www.youtube.com/watch?v=inoRkwJ-zEk

http://www.facebook.com/event.php?eid=165488306839403

http://twitter.com/#!/diogomarinhocap

http://pesquisadorcapoeira.blogspot.com/2011/02/pesquisa-sobre-capoeira-representacoes.html

Presidente Lula: O Capoeirista

Lula diz ser capoeirista e desafia rivais eleitorais

Em seu primeiro discurso de 2010, em evento que anunciou recursos para programas de moradia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou um recado para os adversários das eleições de outubro. Lula pediu para se “evitar o jogo rasteiro na campanha” e disse que é “capoeirista” e está preparado “para não deixar o pé chegar no meu peito”.

 

Folha Online

O Capoeirista

Ao advertir que neste ano não encarnará o “Lulinha paz e amor” e que está pronto para revidar o “jogo rasteiro” da oposição e os chutes “do peito para cima”, o presidente Lula propositadamente elevou o tom, antecipando a escala e os instrumentos que pretende usar para tentar eleger a sua sucessora.

Mesmo sem intimidade alguma com essa dança-jogo-luta e seus maravilhosos e criativos golpes – rabo-de-arraia, meia-lua, queixada, bênção, martelo e tantos outros –, há tempos Lula pratica o que há de mais precioso na capoeira: a ginga.

Com maestria, ginga entre falar uma coisa e fazer outra – embalado não pela cadência do berimbau, mas pelo som de sua própria voz.

Esconde-se na hora certa, sabe tudo e, quando lhe convém, nada sabe. Acusa outros por delitos que lhe estão por demais próximos e move-se habilmente entre ofensores e ofendidos, entre seus ricos hábitos e os daqueles que vivem na miséria.

Read More

Capoeira paulista no séc. XIX – Santos / SP

E as hostilidades, platônicas de início, constantes de remoques, indiretas, versos sarcásticos nos jornais, serenatas provocadoras, logo descambaram para o terreno da desforra pessoal, em choques de capoeiragem – a degradante luta física tão da época -, e em sangrentos conflitos, dificilmente contidos pela polícia, mantida sempre em permanente e previdente alerta. Com a lenta infiltração do ideal republicano nos dois grupos, a harmonia e a mútua aproximação foram se estabelecendo entre ambos, e quando a Abolição e a República eclodiram em bem da Pátria, Quarteleiros e Valongueiros, os velhos e rancorosos “inimigos”, fraternizaram afinal”.
Carlos Cavalheiro

 

HISTÓRIAS E LENDAS DE SANTOS

1944 – por Guedes Coelho


Em 26 de março de 1944, o diário santista A Tribuna publicou uma edição especial comemorativa do cinqüentenário desse jornal (exemplar no acervo do historiador Waldir Rueda), que incluiu matéria de três páginas escrita pelo médico sanitarista e vereador Heitor Guedes Coelho (1879-1951), que também se destacou como filantropo e historiógrafo, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santos (grafia atualizada nesta transcrição):

A metamorfose de Santos

Panorama santista do último quartel do século passado (N.E.: século XIX) – O flagelo das epidemias que dizimavam a população adventícia – Obras de melhoramento urbano – Vultos notáveis que muito contribuíram para o saneamento e aformoseamento da atual “Cidade-Ninféia”

Guedes Coelho
(Especial para a edição do Cinqüentenário da A Tribuna)

“Patriam libertatem et charitatem docui”

Modelo de concisão e expressão, a se condensarem nestas quatro simples palavras três séculos da existência de Santos, à nossa legenda faltariam, contudo, para maior latitude, amplitude da significação procurada, mais duas bem curtas: “et Redemptionem”. Nela, lacônica e sintética evocação: relembra-se a germinação, plantada por Braz Cubas, da árvore da Caridade, de conseqüente frondejamento pelo Basil afora nas primitivas capitanias.

Recorda-se a partida, serra acima, do príncipe galante, e na imediata materialização no Ipiranga, do patriótico objetivo dos Andradas, daqui, seu berço, partidos para, ou em Lisboa, no Parlamento, ou no Rio, quer nos Paços Regenciais, quer no seio do povo carioca, tecer a trama patriótica e sagrada, que se epilogaria na radiosa manhã de 7 de setembro de 1822.

Para completar-lhe, integrar-lhe mais a ampla e justa comemoração, se ao dístico cívico, já consagrado pelo Tempo, e identificado na própria consciência nacional, se pudesse modificar ao sabor das conveniências eventuais ou inesperados sucessos, impor-se-lhe-ia o acréscimo de mais duas reminiscências – do movimento abolicionista e da propaganda republicana. Porque, se aquele se estendeu, com intensidades diversas, segundo os climas regional-sociais, como no Ceará, terra de João Cordeiro, já redenta antes de 13 de maio de 1888, em Santos é que o ideal libertário conseguiu, a completar teóricas, retóricas e platônicas incursões manifestas alhures, o ambiente de verdadeira e eficiente praticidade.

No seio da adiantada sociedade santista formou-se uma legião de abnegados, de moços animados de nobres pensamentos e varonis energias, a “Boemia Abolicionista”, que fazia coletas, subscrições, a fim de comprar cartas de alforria ou organizar espetáculos beneficentes, como aquele célebre, da representação de “A sombra da cabana”, de José André do Sacramento Macuco, para com o seu produto possibilitar a entrega, em cena aberta, do documento redentor a um escravo mulato claro, quase tão branco como seus protetores.

O faro sherlockiano dos igualitaristas santistas indicou-lhes, malgrado o sigilo mantido pelos interessados, a passagem num pequeno barco procedente do Sul, e amarrada ao mastro principal do navio, de uma jovem escrava, branca de cor, a vender-se na praça do Rio.

…E Santos libertou-a!

E eles, num largo gesto de abnegação, cotizaram-se para o seu resgate ao preço de seiscentos mil réis, bem alto para tal “mercadoria”, inferior na valia a um bom cavalo de corrida.

Quis o Destino, cumulando-a de bens, que a moça alforriada, não destituída de graças físicas, se casasse vantajosamente com um bom esposo, abonado de fortuna.

Em Santos, mais do que em São Paulo, aprazia aos dois grandes próceres da Abolição, já lendários hoje, Luiz Gama, primeiro, Antônio Bento depois, pronunciar as famosas conferências no Teatro Guarani, assistidas e aplaudidas por Geraldo Leite da Fonseca, João Otávio dos Santos, Xavier Pinheiro, dr. Alexandre Martins Rodrigues, Luiz de Matos, Américo e Francisco Martins dos Santos, José Teodoro dos Santos Pereira (Santos Garrafão), Henrique Porchat, dr. Vicente de Carvalho, dr. Rubim César, João Guerra, Júlio Conceição, Júlio Maurício, Eugênio Wansuit, ex-imperial marinheiro, bravo agitador em comícios públicos…

A dois santistas, dr. Joaquim Xavier da Silveira e o farmacêutico José Inácio da Glória, na “Imprensa”, órgão de combate fundado em 1871, pôde-se atribuir o início da campanha abolicionista intensiva.

A súbita morte, vitimado por varíola, de Xavier da Silveira, geralmente estimado, filho estremecido de Santos, adorável poeta, bom advogado, eloqüente tribuno, forrado de extremada bondade e simpatia, comoveu tanto a população de Santos que, exaltados os ânimos políticos na população de seu bairro, os Quartéis, de idéias conservadoras, e a do Valongo, o mais rico e valorizado, liberal na convicção, ressurgiu a velha rivalidade com pleno recrudescimento do antigo ódio, latente de muito tempo, em pacífico rescaldo.

E as hostilidades, platônicas de início, constantes de remoques, indiretas, versos sarcásticos nos jornais, serenatas provocadoras, logo descambaram para o terreno da desforra pessoal, em choques de capoeiragem – a degradante luta física tão da época -, e em sangrentos conflitos, dificilmente contidos pela polícia, mantida sempre em permanente e previdente alerta. Com a lenta infiltração do ideal republicano nos dois grupos, a harmonia e a mútua aproximação foram se estabelecendo entre ambos, e quando a Abolição e a República eclodiram em bem da Pátria, Quarteleiros e Valongueiros, os velhos e rancorosos “inimigos”, fraternizaram afinal.

A Palmares santista

Quando o mísero negro fugido, vindo do interior, atingia o alto da Serra de Paranapiacaba, e divisava o Mar, ajoelhava-se e rendia graças a Deus, porque também via a liberdade, o remate de tormentos cruéis…

É que então, através as névoas da distância, ele percebia a Canaã dos oprimidos, aquele novo Palmares incruento, inacessível à sanha truculenta do “capitão do mato”, reduto do pacífico “Zumbi”, Quintino de Lacerda, o negro analfabeto que um dia ascenderia à curul de vereador da Municipalidade Santista. Preto de alma branca – o largo coração transbordante de bondade e caridade padecente das mesmas dores que torturavam seus irmãos de raça, de cuja triste sorte compartilhava antes – não só entre estes, como no seio da população inteira, estimado e admirado pela sua cívica coragem toda dedicada à luta contra o escravagismo – era ele, antigo cozinheiro dos irmãos Lacerda Franco, e ex-ensacador de café de meu pai, quando comissário e exportador.

José Guedes Coelho, jovem ainda, aos 30 anos de idade, logo empobrecia em 1887, quando do grande “crack” financeiro produzido pela súbita, inesperada, imprevista depreciação do café nos grandes mercados importadores de Liverpool, Rotterdam, Havre, Bremen, Hamburgo, Antuérpia, e só determinada e conhecida bem tarde, pouco antes da entrega do café já em adiantada viagem e, a pagar-se ao preço do dia, o que importou na falência dele, de Matias Costa, de Simão da Silveira e de muitas outras firmas prestigiosas.

Fato bem interessante, demonstrativo da dedicada afeição granjeada por Quintino, deu-se no instante de sua posse como camarista municipal, após legítimo pleito. Depois de assinada a ata por seus colegas, quando em último lugar lhe coube a vez, ele se quedou perplexo ante o livro, pois não sabia escrever. O presidente da sessão, ante este fato inédito, único, ia suspendê-la quando, a “una voce”, todos os muitos espectadores, inúmeros amigos de Quintino, se lhe opuseram; e, à vista da pacificidade tolerante da força policial, fiscal e garantia da mesma, e da resoluta decisão de Quintino em se apossar “à outrance”, o digno chefe da Edilidade renunciou à vereança e à presidência da corporação. Sendo empossado como edil, o suplente Antônio Dias Pina e Melo, elevado à presidência da Câmara, investiu-o em sua nova dignidade municipal.

A política federal, na infância da República, foi agitadíssima, e, rota a hemi-secular paz que nos envolveu durante a fase monárquica, não só na própria Nação, como nos Estados e nos Municípios, sob o influxo de ambiciosas paixões, ao desvario de espíritos desorientados, golpes de Estado, revoluções, dissoluções de assembléias, rupturas de cartas constitucionais se sucediam, anarquisando a Pátria.

E aquela Câmara, perturbada por acesa politicagem, recheou-se de incidentes tumultuários e deselegantes, culminados na renúncia coletiva de seus membros, à exceção dele, Quintino, único a se manter firme em seu posto. Saídos seus pares, vendo-se só, ele fechou a sala das sessões e, enfiando a chave no bolso, as retirou, se retirou, dizendo: “Agora sô vereadô municipá e gerá…”

Do antigo presidente da Municipalidade, Antônio Dias Pina e Melo, durante curto período, nortista de origem, morto há cerca de 20 anos, e com quem entretive relações de amizade, eu soube ter sido uma das maiores vítimas da grave crise financeira do Estado do Amazonas. Atingido pela ruidosa “debacle” econômica, conseqüente à queda da exportação da borracha, vencida na competição comercial pela vantajosa superioridade da concorrente malaia, procedente dos seringais de Java e Sumatra.

Despachante aduaneiro, e moço ainda, indo para o Amazonas, em pleno fastígio então – quando em Manaus, modelarmente urbanizada, se construía o melhor teatro do Brasil – o pequeno capital que levou, multiplicando-se, creditou-lhe uma fortuna de vários milhares de contos de réis, possuidor que se fez de importantes e produtivos seringais e de muitos barcos de navegação fluvial.

E a Fatalidade que a tantos arruinou, despenhando-os dos píncaros da Fortuna ao abismo da Miséria, arrancou-lhe o produto legítimo de inteligentes esforços.

E, mais pobre que antes, ele, superiormente conformado, voltou para reencetar aqui suas atividades aduaneiras interrompidas pela miragem amazônica, colocando-se na casa A. Freire e Cia.

A exemplo de idêntico procedimento da província do Ceará, Santos dera ao Brasil esplêndida lição de Fraternidade no dia 14 de março de 1886, com a redenção do último escravo residente em seu âmbito, e promovida pela Sociedade 27 de Fevereiro.

As grandes batalhas de Santos

Pela última década da monarquia, no Brasil inteiro, vindos desde 1872, da célebre convenção de Itu, republicanos havia e muitos, mas, comodistas, sossegados, teóricos, platônicos, e que ao Tempo, numa paciente fé de indolente beduíno, confiava o desenvolvimento e a eclosão feliz de seu ideal. Mister se fazia, entretanto, para a vitória da propaganda audaz, destemerosa, a afrontar revides traiçoeiros, reações violentas, em desprezo da própria vida, com o objetivo de infiltrar o credo democrático na consciência do exército e das massas populares.

E então, predestinados, surgiram a arriscar a existência através perigos e insídias, Lopes Trovão, na Corte, e Silva Jardim em Santos e São Paulo. E este, onde amadureceu suas convicções, urdiu seu audacioso plano, senão na silenciosa Santos, enquanto iluminava cérebros infantis na histórica Escola José Bonifácio? Santos, pois, no concerto das grandes cidades brasileiras, sagrou-se pioneira e campeã de quatro grandes campanhas: da Caridade, da Independência, da Liberdade do Negro escravo, da República.

 

Para quem quiser mais informações sobre essa rivalidade entre moradores de dois bairros santistas, Valongo e Quartéis, um livro interessante e que também trata dos quilombos e da luta pela abolição na cidade é Uma cidade na transição – Santos: 1870-1913, de Ana Lúcia Duarte Lanna, em especial o capítulo 1. A informação é de que a fraternização veio, na verdade, do interesse de ambas as partes em enfrentar a derrubada da Igreja de Santo Antonio, em fins de 1860, para a construção da estrada de ferro cortando a região portuária. Dessa união, inclusive, teria surgido o “espírito santista”.

Pedro Cunha – [email protected]

Fonte: http://www.novomilenio.inf.br

 

Enviado por:

Joel Pires Marques – [email protected]

Carlos Cavalheiro – [email protected]

Nota de Falecimento: Mestre Samuray

Amigos e camaradas da grande roda da vida…!

 

Tenho o consternado e doloroso dever e obrigação de comunicar o falecimento há cerca de poucas horas do nosso irmão de roda e de vida, MESTRE SAMURAY, de Fortaleza-CE.

Ao que soube ele foi vítima de uma dengue hemorrágica e também foi contaminado por lepstopirose, não tendo resistido e falecido nesta data na cidade de Fortaleza-CE.

 
 
A ele nosso mais profundo sentimento e nossa dolorosa perda de irmãos de tantos anos de convivência.
 

Que Deus lhe dê o melhor lugar, uma vez que sua vida e conduta sempre foi de uma ilibada seriedade e de profundo respeito por todas as pessoas e institituições.

Que a familia encontre o amparo em Deus, na amizade e carinho de todos os amigos e familiares.

 
 

Abraços eternos do amigo,

Reginaldo / Squisito

 
 
Brasilia – DF, 15MARÇO2008

Às vezes lhe chamam de negro, mas sempre lhe chamam de Mestre

No meio da roda o berimbau. Num lado do palco os mestres Sergipe e Zulu, de quem recebeu as primeiras lições na capoeira. No outro extremo, Jorge e Danilo, mestres que formou. Ao centro, Luiz Renato Vieira comemora o seu Jubileu de Pérola na Capoeira. Três gerações de capoeira se encontram num momento ímpar de solidariedade, regido pelo toque litúrgico do gunga. Os mestres Cláudio Danadinho, Skysito, Falcão, e Onça, Léo, Abdias e tantos outros estão lá estão lá para dar o abraço cordial. É festa no Anfiteatro 9 da Universidade de Brasília.

É não é para menos. Na presença de amigos, mestres, alunos, camaradas, Renato comemora os seus 30 anos de capoeira e recebe o título de Mestre Dignificador. A corda vermelha dá lugar à branca, a distinção máxima do grupo Beribazu, que ele ajudou a construir ao lado do Mestre Zulu, hoje dirigente do Centro Ideário Capoeira.

No intervalo da bela cerimônia, a delegação de Joinvile mostra o seu balé de capoeira, reproduzindo o “diálogo de corpos” ao qual se referiu Pastinha. Os artistas saem do chão como se fossem personagens das telas do Carybé ou da prosa de Dias Gomes: o incrível bailado da capoeira. Enquanto assiste a bela coreografia, Renato viaja no tempo e se lembra das primeiras lições, nas rodas de capoeira de Curitiba, comandadas por Mestre Sergipe. E das aulas do Zulu, na antiga academia Beribazu da Asa Norte, em de Brasíliaem Sobradinho, no campus da UnB.

O olhar se dirige a platéia e lá ele vê os inúmeros alunos e amigos com os quais convive há três décadas. O que, para Renato, é o único patrimônio que a capoeira lhe proporcionou. E ele comemora. “Quis muito que esse ciclo de trinta anos fosse marcado com um encontro com amigos. Desejei que a biografia, que o relato do que foi feito, jogado, escrito, cantado, aprendido ou ensinado, aparecesse apenas como elemento coadjuvante de uma história que nada seria sem as amizades que foram construídas.”, afirma o autor de “O jogo da capoeira” e de tantas outras teses que enriquecem a fértil produção acadêmica sobre capoeira.

E para quem aprendeu a dar rasteira no preconceito e na adversidade, a vida segue fluindo como no ritmo nostálgico de uma ladainha: às vezes lhe chamam de negro, mas sempre lhe chamam de mestre.


Luiz Renato Vieira

Mestre Luiz Renato é Sociólogo, Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, Mestre em Sociologia e Doutor em Sociologia da Cultura pela Universidade de Brasília/Universidade de Paris I – Sorbonne. Um dos pioneiros nos estudos acadêmicos sobre a capoeira, defendeu tese, em 1989, intitulada: “Da Vadiação à Capoeira Regional: uma interpretação da modernização cultural no Brasi”l, em que aborda as relações entre a capoeira e o Estado na Era Vargas. Como professor universitário de sociologia e ciência política, atuou em diversas instituições. Foi docente do Curso de Especialização em Capoeira na Escola da Faculdade de Educação Física da UnB. Ministra aulas de capoeira desde 1981. Ensinou a luta brasileira na França e em outros países da Europa, em aulas regulares e workshops. É Consultor Legislativo do Senado Federal, admitido por concurso público, na área de assistência social e minorias. Autor do livro: “O Jogo da Capoeira: corpo e cultura popular no Brasil”, (Ed. Sprint, Rio de Janeiro, 1996), possui diversos trabalhos sobre capoeira publicados em livros, revistas científicas nas áreas de ciências humanas e educação física e também em periódicos voltados para o público praticante da luta. Mestre Luiz Renato é autor de cantigas de capoeira gravadas em diversos discos de vinil e CD’s. Desde 1990, atua no Centro de Capoeira, um projeto comunitário da UnB dedicado ao ensino prático e à pesquisa da arte-luta brasileira. Desse Centro, formaram-se outros núcleos atualmente instalados em Brasília, em outras localidades do nosso país e no exterior. Além das aulas que ministra regularmente no Centro de Capoeira, Luiz Renato dedica-se, atualmente, ao estudo das políticas públicas relacionadas à capoeira e é membro do Conselho de Mestres do projeto Capoeira Viva, criado pelo Ministério da Cultura.

(*) o autor é aluno de Luiz Renato Vieira no Centro de Capoeira da UnB.

RJ: Mestre Pernambuco acometido por um aneurisma cerebral

Mestre Pernambuco, acometido por um aneurisma cerebral, está internado no Hospital Geral de Bonsucesso, quarto 414, leito 01, no Rio de Janeiro/RJ, Brasil. Tel.:(21)95430830.
Avisados pelo mestre Mintirinha, telefonamos, (21)95430830, urgentemente para o mestre Pernambuco e, graças a Deus, ele mesmo atendeu o telefonema.
 
Aparentemente bem, Marco Antônio Domingues Galvão, mestre Pernambuco, do Grupo de Capoeira Bonfim, Rio de Janeiro, de seu leito 01, do quarto 414 do Hospital Geral de Bonsucesso, no Rio de Janeiro/RJ, Brasil, atendeu ao telefone celular e respondeu-nos com simpatia que, não fosse a prescrição médica de não deixá-lo levantar-se, a não ser dentro do quarto para satisfazer as necessidades fisiológicas, estaria nas suas atividades normais laborais e comezinhas, pois é como se sente, bem.
 
Mestre Pernambuco é marceneiro de profissão.
 
Disse-lhe o médico que seu estado é de risco, isto é, grave, e por isso deve continuar internado até as respostas futuras dos exames realizados e dos outros exames a realizar.
 
Mestre Pernambuco sente-se lisonjeado pelo carinho da nação capoeira que lhe procura ao celular (núm. (21) 95430830) e envia uma mensagem de agradecimento e um abraço a todos por entenderem o que ele está passando neste momento de internação hospitalar.
 
Diz ser feliz sendo capoeira e que em momentos assim é que percebe claramente do que a capoeira é capaz quando todos se juntam por um. Deus esteja com vocês, disse o mestre.
 

Repetimos o telefone do mestre Pernambuco: (21)95430830

 

 
Fonte: Professor Joel Pires – http://www.capoeirajogoatletico.com/blog/

Crônica: “Iê” (*) – VIVA MEU MESTRE!

A Capoeira passa, nos últimos 20 anos, por uma expansão significativa: no Brasil cresceu, verticalizou  ao chegar na Universidade; no mundo, começa a horizontalizar.
 
A expansão  que resumimos, e mesmo por conta do crescimento vegetativo vem dar  margem à graduação de um maior número de Mestres. Neste avanço também   desponta o interesse e o envolvimento  comercial, aliás para expandir precisa criar um mercado. E como está o Mestre? A figura do Mestre? – vamos dizer assim do “Mestre dos novos tempos?” – aí é que nos interessa: A relação do  “capoeira” com o Mestre, e vice-versa.
O elemento motor da Capoeira,  é o Mestre. “O Mestre é uma marca de elevação, de supremacia, de predomínio, que nenhum outro ser humano consegue”, analisa  Mestre Benício.  E, é verdade: toda  relação de obediência   pressupõe uma troca que  traga um ganho, ou afaste um medo. Mesmo nas relações com Deus está escancarada a troca de qualquer favor ou fervor – pela salvação da alma; nas enfermidades – pela  cura, etc.; para com o feiticeiro – aquela mistura meio-deus/homem/diabo, dono de forças, situadas entre o divino e o temporal; entre o ético,  e o safado – a obediência   estava na base das  trocas de mesmo calibre: da  boa colheita, um bom emprego;  até à volta da mulher amada –  traidora,  corneadora  há  tanto tempo, mas gostosa.  Nas relações de Estado, não existe opção; nas relações de emprego, idem. Entre “os capoeiras” e o Mestre, não pressupõe troca alguma. Por que? –  Antes, porém: em que se apóia o Mestre de Capoeira para ser guardião de obediência, inclusive de quem não conhece?
 
-Na FAMA, se apóia na fama. Acho a explicação mais plausível. Se não, vejamos.
 
-“A superioridade cria inimigos”, este o mais geral princípio da guerra.
As relações entre o Mestre de Capoeira e os seus, é o ato mais voluntário dentre todas as relações humanas, (fora das relações estritamente familiares).  O capoeira orgulha-se em  reconhecer, delegar superioridade a “seu”  Mestre. Cada um  orgulha-se da fama do “meu” Mestre. Cada um  satisfaz-se, obediente, diante de um número qualquer de outros Mestres: Sem que haja o pedido da salvação da alma, o medo do inferno; ter de volta a namorada que outro tomou. Não há pedido, nem a expectativa de troca alguma.
 
-Dos Mestres, num encontro com tantos, não se espere mais que alguns minutos  do
saudar,  as alfinetadas, mútuas:  delicadas, sutis, maliciosas. Para que? – para atingir a FAMA do outro. Pela exibição intelectual. Nunca por superioridade, no sentido clássico. Sempre foi assim, mesmo antes das cordas e cordões, (que são novatos).
 
-Observa-se uma certa preocupação, por  “Mestres dos novos tempos” e até por
outros mais veteranos “em ser igual”, em “se mostrar igual” aos da Roda. Não! Não é. Nem pode  ser. Vejamos este exemplo, distante, mas serve como referência: Quando milhões de católicos conferem ao PAPA o seu grau de elevação, o fazem livremente. O Papa deixa de ser igual a outro padre, a outro bispo, etc. Dentre aqueles fiéis, quando alguém deixa de ser católico,  não lhe é imposta pena nem uma. Também o Papa não deixa de ser o Papa.
 
-Todo Mestre de Capoeira transita com a desenvoltura de qualquer um, em qualquer
lugar,. Mas não é igual:  ele recebeu a delegação, a autoridade,  “para não  ser igual”. Quando alguém resolver “sair”, romper o pacto,  o faz…. Mas, o Mestre continuará . E o pronome  “meu” é apenas um referencial: O Mestre é o Mestre, conquistou o título e recebeu a delegação para exerce-lo, se assim se pode dizer. Cada “capoeira” guarda o orgulho da superioridade do seu Mestre. Só assim continuará a Capoeira – encanto da alma.
 
-Por que choras Manavane? – Estou velho não posso cantar. – Tu gostas de cantar?
Perguntei-lhe num esforço, sem saber como agrada-lo. Imaginei-o cansado. O observava desde cedo. Eram cerca de 200 pares de dançarinos e numero incerto de guerreiros. Todo par ao entrar na dança passava diante do velho: afastavam-se dos corpos e lhe abriam os braços. O velho às vezes fazia um gesto, na maioria dos casos nem os olhava.  Os guerreiros cruzavam os braços e paravam por um instante na sua frente, às vezes em fila, às vezes individualmente… Ele me olha, pareceu-me tomado de cuidados comigo, e respondeu-me:   –  “Quando o preto canta, Chicuembo repousa… (Deus descansa).
 
-Crônica de um dos raros sábios portugueses que foi à África em data incerta, (talvez
fins do Séc. VI) narrando como   aquele povo obedecia à figura do Mestre. Aquele velho era um Mestre, o mais velho. Enquanto, por cansaço, ou por vontade, não ofertasse a outro Mestre, o lugar,  todos lhe rendiam reverências. E ele lembra que a figura do Mestre era igual em todos os lugares. Na Europa também o havia sido, dos ofícios às culturas.
 
(*) O “IE” entre aspas, indica que foi dito pelo Mestre, privativa do Mestre.
 
 
André Pêssego
Berimbau Brasil – SP/SP Grupo de Mestre João Coquinho.

PROMOÇÃO ESPECIAL – CAPOEIRA EM PORTUGAL: Revista de Capoeira, lançada em Portugal

PROMOÇÃO ESPECIAL – CAPOEIRA EM PORTUGAL
 
Temos 3 Revistas para premiar os visitantes do Portal Capoeira.
 
Para participar desta Promoção Especial, basta nos enviar uma matéria com sobre a Capoeira em Portugal (as matérias devem ter carater jornalistíco e devem vir acompanhadas de imagens. É fundamental os créditos da matéria e das imagens.)
 
As primeiras 3 matérias publicadas no Portal Capoeira serão premiadas com a Revista editada pelo Mestre Chapão.

 
Mestre Chapão, a quem tive a honra de conhecer no Lançamento do Filme: Mestre Bimba a Capoeira Iluminada em Portugal, mais precisamente no Porto acaba de lançar a PRIMEIRA REVISTA DE CAPOEIRA DE PORTUGAL.
Em sua iniciativa, Mestre Chapão do CAPOEIRARTE, visa uma maior integração e dinamizaçaão do processo de divulgação da nossa "arte".
 
Nosso muito obrigado e os votos de sucesso a perseverança e a garra de Mestre Chapão nesta tarefa.
 
Luciano Milani – Portal Capoeira
Salve meus caramadas,
 
Venho por este meio apresentar-lhe um projecto que a muito tempo estava querendo realizar e é com muita satisfação e prazer que lhe ofereço a primeira revista de capoeira em Portugal.
 
É evidente que todos nós capoeiristas sabemos das dificuldades que temos para divulgar a nossa arte encantadora, mesmo assim a Associação Capoeirarte tem consciência de que todos os grupos têm feito a sua parte neste processo de divulgação e é por esse motivo que viemos através desta revista dar o nosso contributo e convidar você a fazer parte dela.
 
A revista tem como título “ Capoeirarte “ por vários motivos, entre todos eles o principal é a nossa filosofia, ou seja, o trabalho em grupo independente do grupo. Para quem conhece nosso trabalho sabe bem que todos os capoeiristas são bem vindos em nossas rodas, treinos, eventos e por que não agora em nossa revista!?
 
Estamos enviando a 1ª edição para que você possa dar a sua opinião, ideia e até mesmo fazer sua crítica, (de preferência construtiva).
 
A revista tem como intuito divulgar eventos realizados em Portugal e em outros países europeus interessados nesse trabalho. Podemos fazer um calendário, falar de projectos que venham trazer enriquecimento para a capoeira, tirar algumas pessoas do anonimato e por fim, levar ao conhecimento de todos o que a capoeira tem de melhor.
 
Na próxima edição temos a intenção de divulgar a história de todos aqueles que fazem ou já fizeram um trabalho de capoeira em Portugal, para isso precisamos da sua colaboração. Contamos com você!
 
Sem mais assunto no momento fico por aqui esperando que você tenha gostado da nossa ideia.
 
Se tiver interesse em trabalhar connosco neste projecto, entre em contacto o mais rápido possível por que nos próximos dias já estaremos com a 2ª edição da revista em mãos e queremos divulgar suas ideias.
 
 
A todos vocês desde já o meu muito obrigado!
 
 
Mestre Chapão
Tel. 93 954 26 36
[email protected]