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Capoeira Mulheres – Entrevista: Virgínia Passos

Até onde podemos chegar?
Iê vamos simbora…


Virgínia Passos – Instrutora de capoeira e professora de Educação Física

 

Virgínia PassosVirgínia Passos
Virgínia Passos – Clique nas imagens para ampliar…

 

1) Como conheceu a capoeira e porque decidiu treinar?

Vi a capoeira pela primeira vez ainda criança na academia de Artes Marciais do Lutador campinense Ivan Gomes, que se localizava bem próximo da minha casa. Naquela época a capoeira era bastante marginalizada e esse 1º contato foi mínimo, na verdade eu não sabia do que se tratava, mas sentia que um dia iria praticar. Posteriormente, já adolescente conheci a capoeira nas ruas e voltei a sentir a energia positiva que a capoeira tem. A decisão de treinar aquela arte que me fascinava foi instantânea, o que não foi de imediato foi encontrar aonde treinar. Passei anos até encontrar um local onde poderia me matricular para conhecer melhor e aprender a capoeira.

2) Qual é sua relação com a capoeira?

No último mês de agosto fez 11 anos que tive a oportunidade de iniciar-me na capoeira. Desde lá eu vivo dentro dela. Eu respiro capoeira. Como diria o Mestre Pastinha: "Eu Como…", ou ainda, vivo nessa "Maldade", na sabedoria do Mestre Bimba.

Em dezembro de 1997 eu fiz um projeto para a Prefeitura do Município da minha cidade, Campina Grande, para colocar nossa arte como componente curricular, esse projeto era para beneficiar o meu antigo professor de capoeira. A proposta era para ele, mas o projeto era meu. A proposta foi aprovada desde que eu atuasse como monitora, pois eu era a proponente. Comecei então a trabalhar com capoeira. Atuava como auxiliar nas aulas do meu antigo professor e o resultado desta conquista foi que aprendi a dar aulas. Procurei me capacitar ao máximo, daí que senti a necessidade de um curso acadêmico, por isso optei pelo curso de Educação Física, minha Tese de Conclusão foi uma pesquisa sobre a história do Mestre Bimba. Por todos esses anos realizei e participei de alguns eventos: Batizados, Seminários, Festivais e Exibições, e assim, fiz muitos amigos, a cada evento, mais amigos. O que eu gosto mesmo é de aprender, de treinar, de sentar no chão e escutar. Não tenho pressa. Sei que vou devotar minha vida inteira à capoeira. Também não me preocupo com graduações, o capoeira vale pelo que ele é, e não, pelo que carrega na cintura. Além dos amigos a capoeira me dá oportunidade de conhecer outros lugares, outras cidades e costumes, permitindo assim, que eu seja capaz de aproveitar todos os bons momentos que a vida tem a me oferecer. Respeito toda diversidade que vejo, e todos os mestres, grupos, ideologias… Procuro entender cada filosofia, mas tenho a minha própria. Já levei muitas rasteiras, na roda e da vida. Sempre tem alguém tentando me derrubar, imobilizar ou até mesmo me afastar da capoeira. Mas como se canta em domínio público:

"Na vida se caí,
se leva rasteira,
quem nunca caiu,
não é capoeira…"

Levanto, dou à Volta ao Mundo e, nos Pés do Berimbau peço proteção a São Bento e volto para o jogo… A vida imita a capoeira e a capoeira imita a vida!!!
Graduei-me no antigo grupo no que fiz parte, onde passei 08 anos. Em 2002 conheci o Mestre Jelon, que também fazia parte do mesmo grupo e, meus valores melhoraram bastante. Foi sob a supervisão dele que realizei os quatro últimos Batizados. Quando o Mestrão resolveu fundar nossa própria identidade, eu não pensei duas vezes, "Meu Grupo é Meu Mestre…". Desliguei-me do antigo grupo sem nenhuma mágoa e tenho muito orgulho em dizer que já fui de lá.

3) Qual a atividade que você desenvolve com a capoeira?

Desenvolvo com a capoeira uma atividade educacional com crianças e adolescentes em situação de risco social. O universo infantil e infanto-juvenil é demasiadamente complexo, por isso para um apoio real ao desenvolvimento psicomotor, cognitivo e afetivo dos mesmos é preciso ‘saber entrar’ neste universo. Boas vivências nessa fase podem ser a diferença entre o sucesso e o fracasso de um indivíduo na idade adulta. A capoeira, devido a sua ludicidade e toda sua gama de movimentos e musicalidade torna-se uma ferramenta eficaz na busca deste desenvolvimento. Eu acredito que a capoeira bem ministrada é uma atividade ímpar na formação de cidadãos, e esse é o meu maior desafio. Atualmente atuo com um projeto sócio-educacional na cidade de Aroeiras no interior da Paraíba, que fica a 56 km de Campina Grande, a cidade onde resido. Atendo as pessoas ligadas a Rede Municipal do Ensino Local e os assistidos pelo PETI (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil), os resultados eu encontro a cada dia, com o desenvolvimento e a capacidade que eles apresentam e, principalmente, nos relatos dos pais, coordenadores e da sociedade local que é gratificante, quanto à melhora no comportamento dos alunos que hoje fazem capoeira.

4) Como sua família lida com uma mulher capoeirista em casa?

Moro com meus filhos e eles são meus melhores amigos. Neles encontro apoio e conforto ao meu estilo de vida, e esse modo de ver deles, é o que me interessa. A opinião dos demais familiares em relação à capoeira é indiferente a minha forma de viver e pensar, é uma opinião oscilante, sem nenhuma base e justificativa. Capoeira é o que eu sou, portanto é meu cotidiano. Ser mãe e trabalhadora faz parte do dia-dia. Capoeira além de ser minha profissão, é também onde eu me realizo como ser humano.

5) Como você vê a importância da mulher na capoeira?

A importância da mulher na capoeira vai muito além de ‘beleza’ que proporcionamos e muitos só conseguem enxergar isso. A mulher conquistou todos os espaços na sociedade moderna e com a capoeira não podia ser diferente. Existem duas formas de atuarmos na capoeira. A primeira é a Mulher Capoeira, aquelas que dedicam sua vida à arte e vivem em harmonia com ela. São mulheres guerreiras e capazes, que provam à sociedade machista que de ‘sexo frágil’ não temos nada. Agimos nas rodas de capoeira e nas ‘Rodas das Idéias’ de igual para igual. Ministramos aulas, cursos, palestras, e, coordenamos trabalhos e grupos. A segunda atuação é nas administrações de grupos, associações e trabalhos onde afirmo que mais da metade da coordenação dos trabalhos com capoeira existentes pelo mundo está sob a administração de uma mulher, que algumas vezes é apenas a namorada, companheira, aluna, mãe ou esposa do ‘líder’ do grupo e ele é quem aparece como coordenador e leva todo o prestígio. Essas mulheres atuam por amor e de corpo e alma á capoeira, e muitas vezes, o amor pelo companheiro estende-se a arte. Deixo aqui os meus sinceros Parabéns a toda Mulher Capoeira, seja esta atuante direta ou uma ‘forte coadjuvante’.

6) Para você o que é ser Mestre de Capoeira, como é sua relação com o mestre e o que ele representa:

Eu tenho minhas concepções sobre ‘mestre’. No meu conceito mestre é aquele que ensina que Dar Lições; é também quem tem um trabalho reconhecido perante a sociedade e o meio capoeirístico e; finalmente, é um título, título de reconhecimento que se adquire com muito trabalho, e dedicação à capoeira acima de tudo. O capoeira que possui um destes itens é ou será um grande Mestre de Capoeira.

7) Quais são seus planos para o futuro?

Tenho como projetos futuros conquistar e conhecer novos espaços e lugares com a capoeira, realizando e participando de eventos. Tenho um projeto para um Campeonato Interno que pretendo realizar no primeiro semestre deste ano. Ampliar e melhorar cada vez mais o meu trabalho no meu Estado é um plano paro o futuro, estendendo-o a outras cidades, sob a orientação do meu Mestre e, por fim, a publicação da minha monografia como um pequeno livreto seria a concretização daquele trabalho.

Gostaria de deixar uma pequena mensagem aos capoeiras. A capoeira tem muitas verdades, e temos que aprender a respeitar as diferença. Além da responsabilidade que carregamos, todos nós temos um papel fundamental na construção da nossa arte e temos a nossa importância. Todo trabalho com a capoeira deve ser respeitável e respeitado. A qualificação também deve ser primordial para quem quer seguir esse caminho, o conhecimento é necessário. Deve ser adquirido através do saber popular dos capoeiras mais experientes, seja com um contato oral, prático ou escrito, paralelo ao conhecimento acadêmico. Essas iniciativas são fundamentais para a qualidade de qualquer trabalho.

Contato: virginiapassos@yahoo.com.br

Crônica: Quem é você que vem de lá?

Dizem que cheguei aqui em condições precárias, e sem saber quem eu era. Que passei dias de fome, sede e frio. Não sei se é verdade, mas a verdade que tenho dentro de mim é que sou fruto do encontro de três raças.

Sou mandinga, malícia e jogo, porque sei ganhar e perder.
Sou homo, porque não tenho sexo definido, ou seja, sou homem, menino e mulher.
Sou inodoro, porque não tenho cheiro.

Dizem que tenho minhas origens na pele preta, mas acredito que sou incolor, pois não tenho cor e sou de todos.

Sou fera, porque deixo o meu rastro por onde passo.
Sou fruto daqui desta terra.
Sou sua, e você é meu.

Sou vida porque vivo dentro de você, então você sou eu.
Sou pagã, derradeira e escudeira.
Sou a exclusão de uma sociedade e sou aceita pela mesma.
Sou uma escória. Por que me rotularam assim? Não importa,
sou a história deste povo.

Dizem que me libertaram em 1930, mas acho que sempre fui livre, sou dona de mim, por isso sou assim, ágil, lenta, rasteira, malandra, adulta e infantil, eu sou brasileira.

Sou cúmplice daqueles que me querem.
Tenho a minha própria sina, pois sou gentil e amorosa.
Sou cortês, acho que tenho que ser sempre assim, afinal a "cortesia é contagiosa".
Sou irreverente e equilibrada.
Assim sou eu, altamente minuciosa.

Transpassei o transcurso do meu tempo e acredito que viverei eternamente porque sou passada de boca em boca, de geração à geração.

Assumo que tive meus dias de repressão, mas me fiz vitoriosa, tenho meus fundamentos baseados na minha própria tradição, fiz a minha própria lei.

Sou luta, pois estive na guerra. Guerreei junto com o meu povo.
Sou arte porque sou bela e talvez a mais bela de todas elas.
Sou dança porque me mecho mediante a música e me solto no compasso da minha ginga.
Sou cultura, sou a estrutura de um povo.

Peço a você que me identifique,
Você me dirá como quer me pintar.
Com licença, permita que me apresente.
Meu nome é capoeira.
Sim, sou eu, sou eu camará.

Agora lembre-se sempre que sou daqui desta terra.
Estive na colheita do café, cortei cana nos canaviais.
Estive amordaçada nas senzalas e violada por maus feitores, mas rodei minha baiana e dei a volta por cima.
Me tornei a coqueluche daqueles que diziam ser meus senhores.

Sou eu, sou eu camará.
Eu sou capoeira.

Sou o brilho e o ofuscar das nuvens escuras que sobrevoavam sobre mim naqueles tempos, tempos de tristeza, maldade e desasossêgo. Como? Remordimento? Nunca!

Fui acorrentada, e por mim muitos foram sacrificados.
Reconheço o esforço de todos.
Mas o que passou, passou e esse tempo já é passado.

Hoje sou plena e agradecida, mas para chegar a esse ponto tive que viver na noite, na esbórnia, na boemia e na malandragem. Nesse tempo todo mundo já me conhecia e nele eu dei cabeçadas e rasteiras.

Vaguei pelos becos, tive minha morada no gueto, me transformei em cineasta, hoje deleito de uma vida vasta.

Sou eu, sou eu camará.
Sou eu capoeira.
Sim, sou agradecida e rebelde, pois estive um período à merce da delinquência.

Mas, me informei, me graduei e no meu diploma queriam que contasse que fui vadia por ter me refugiado na alegria das ruas. Sim, é verdade! Queriam também que contasse o perfil de uma das profissões mais antigas do mundo.

Lembre-se, vivi nas ruas, rodei dentro de grandes círculos e centros, dei a volta ao mundo, mas não sou vagabunda.

Meu nome é capoeira
Sou eu, sou eu camará.
Sou a digestão de "tudo o que a boca come".
Sou aquilo que você quiser.

Mas lembre-se, que eu bato com a mão, a cabeça e o pé.

Sou anjo e criatura, porque fui a própria desordem, e hoje eu sou camará, a ordem e progresso do meu povo.

Para concluir deixe-me resumir toda uma vida de persistência e experiência.

"Desde a noite que me envolve, negra como um poço escuro de polo a polo, agradeço aos deuses, quaisquer que sejam, por minha alma indomável. Nas garras dos ferozes das circunstâncias, não me entreguei, nem gritei com voz alta, de baixo dos açoites injustos. Tenho a cabeça ensanguentada, não inclinada. Para mim não importa que a porta seja estreita ou que eu tenha um pergaminho carregado de condenas. Eu sou a dona da minha sorte, eu sou a capitã do barco em que navega o meu espírito". Eu sou capoeira.

 

Texto de:
Wellington de O. Siqueira.
Mestrando CINZENTO.
Tel: 600072978
cinzentocapoeira@hotmail.com
www.aluacapoeira.com

Molinha, a Historia é feita por pessoas comuns!!!

Nossa mais nova colaboradora, Simona Mariotto, aluna do Grande Mestre Jelon, acaba de nos brindar com uma entrevistas muito bacana com a Capoeirista Molinha, a primeira mulher não brasileira a ensinar Capoeira na Itália.

Molinha conheceu a capoeira quando ainda não existia (havia) essa moda dos dias de hoje que parece ter contagiado todos os povos da terra!!

Aluna do Mestre Baixinho (um dos responsáveis por ter levado a capoeira até a Itália) formou-se em 1997 no Brasil, na “Associação de Capoeira Filhos de São Bento Grande”, tornando-se a primeira mulher não brasileira a ensinar Capoeira na Itália.


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A Historia é feita por pessoas comuns!!!

Entrevista: Molinha

1) Como conheceu a capoeira e por que decidiu treinar?

Conheci Mestre Luiz Martins De Oliveira – Mestre Baixinho– através de amigos em 1988, na cidade de Milão (Itália). Na ocasião, convidou-me pra uma aula experimental na academia onde trabalhava com a capoeira. Eu fui sem nada saber dessa arte, e mesmo assim gostei muito, pois senti que nela havia muita energia. Fiz minha inscrição e nunca mais parei!
Resolvi continuar por causa de duas razões: a primeira, é que era muito divertido e despertava minha curiosidade (no começo Mestre Baixinho não sabia falar italiano; portanto não era nada fácil entendê-lo enquanto dava aula!!); além disso, na Itália ninguém sabia o que era a capoeira e para mim essa arte era tão bonita que tinha de ser conhecida e apreciada justamente lá, ,no Pais dos artistas!!!

Assim tomei minha decisão: faria o possível para ajudar meu Mestre na divulgação da capoeira. E assim foi!
Inicialmente, não me dei conta do enorme fardo que iria carregar, mas agora posso afirmar ter cumprido meu compromisso (minha missão), apesar das dificuldades.
Em 1991 Mestre Baixinho, juntamente com Molinha e outros alunos italianos, fundou a “Associazione Italiana di Capoeira Filhos di São Bento Grande”, na cidade de Milão.

2) Qual sua relação com a capoeira?

É muito profunda e tem influenciado todas as minhas escolhas de vida, durante meus 20 anos. As aulas que eu ministro são de segunda a sábado (no domingo descanso,ou realizo apresentações com meus alunos).

Durante os anos encontrei um equilíbrio entre a capoeira e os outros aspectos de minha vida, meu cotidiano… é só uma questão de organização.
Em primeiro lugar, decidi não viver só de capoeira porque é um caminho muito difícil e não quero correr o risco de ficar presa somente ao retorno econômico.
Para mim, o mais importante é a “autenticidade” dessa arte, por isso as pessoas que a praticam precisam entender os outros aspectos culturais, tais como a música, os fundamentos, as tradições, os rituais…

3) Que atividade você desenvolve com a capoeira?

Em 1997 comecei a dar aula para poucos alunos. Em 2000, fundei meu grupo chamado “Capoeira Sou Eu”, que ainda considero um grupo jovem; mas tenho o desejo que cresça, não só em numero de participantes, mas também em qualidade e nível de capoeira.
Desde que comecei a dar aula, sempre mantive contato com meu Mestre ou com seu Mestre (Mestre Brasília). Isso ajudou-me a ter uma direção de trabalho bem definida. Em 2007 recebi minha corda de Monitora.
Nosso grupo organiza varias iniciativas: rodas e apresentações. No ano passado organizamos uma palestra denominada “poesia in una lotta” (poesia numa luta). Tratava-se de uma apresentação cultural sobre a história da capoeira e sobre sua atual presença nas varias formas de arte e comunicação moderna (livros, pinturas, internet, propaganda…).
Aqui na Itália, com meus alunos, participamos de cursos, rodas e batizados.
Toda vez que nos é possível viajamos ao Brasil e, juntos, visitamos academias, participando de cursos e palestras.

4) Quais são os momentos marcantes que você lembra na sua trajetória?

Alguns encontros que eu tive.
Por minha sorte, pude conhecer grandes pessoas que me transmitiram muitos ensinamentos através de sua generosidade e simplicidade.
Primeiramente, o contato que sempre mantive com Mestre Brasília ajudou-me muito: devo a ele muitos conselhos que às vezes, naquele determinado momento eu nem entendia, mas que com o passar dos anos tornaram-se muito úteis.
Em 1991, durante uma viagem ao Brasil, visitei a academia de Mestre Canjiquinha. Lembro-me bem de sua alegria e também da bela rasteira que deu num aluno durante um jogo!!

Em Milão tive a oportunidade de conhecer Mestre Leopoldina, que foi até em minha casa, durante uma temporada na Itália. Quando o vi na roda, o que mais me chamou atenção foi a elegância de seus movimentos e a grande esperteza no jogo.
Enfim, em todos esses anos foram muitos os momentos marcantes e de emoção, mas talvez o mais importante foi minha decisão de continuar a treinar e de me formar na capoeira, apesar de conhecer muito bem as dificuldades que iria enfrentar por ser mulher e por não ser brasileira.

Mais informações: http://www.capoeirasoueu.it

Simona Mariotto – mariotto_simona@hotmail.com

Entrevista Mestre Jelon

Jelon Vieira nasceu em Santo Amaro da Purificação, Bahia, em 1953. Aos 10 anos de idade começou a treinar Capoeira Angola, com o mestre Emérito e posteriormente com mestre Bobô.

Em 1969 conheceu mestre Ezequiel com quem aprendeu Capoeira Regional ,tendo a honra de treinar na academia do mestre Bimba.

Em 1972 ingressou no “Viva Bahia”, dirigido pela Professora Emilia Biancadi de Ferreira, ocasião em que também aprendeu as danças Folclóricas da Bahia.

Em 1974, durante uma tournée de três meses do “Viva Brasil“, viajou para a Europa com mestre João Grande, mas resolveu deixar a companhia, fixando-se em Paris , e, em seguida, se mudou para Londres, com o objetivo de desenvolver um trabalho com a capoeira.

Em 1975 foi convidado para realizar um show nos Estados Unidos, e resolveu ficar em Nova Iorque. Seus primeiros trabalhos foram nas escolas públicas do Bronx aonde, pela primeira vez, conheceu o Break Dance . Em 1982 ingressou na “New York University” com o objetivo de aprimorar seu inglês.

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Carta do Mestre Moraes ao mundo capoeirístico

DO MESTRE MORAES

AO MUNDO CAPOEIRÍSTICO
 

No dia 27 de abril de 2005 aconteceu a primeira Assembléia Geral Extraordinária da Associação Brasileira de Preservação da Capoeira – Forte da Capoeira, apesar dessa associação, conforme seus estatutos, ter sido fundada em 05 de agosto de 2002. Está aí a prova de que nada que tenha acontecido, de bom ou de ruim, nestes quase 03 (três) anos de existência da entidade supra citada, teve a participação dos capoeiristas.

Nesta primeira Assembléia, dita como o objetivo de reforma do Estatuto – na realidade foi redigido um novo estatuto – privilegiou-se a participação, na diretoria, de pessoas que nada tem a ver com a capoeira. As minhas preocupações  com relação a mais esta forma de ocupação do nosso espaço, foram minimizadas com a explicação de que entre os capoeiristas não existe ninguém capaz de gerenciar a capoeira, afirmação que teve a anuência de uns poucos capoeiristas que  se faziam presentes.
 

Dois dias após a Assembléia, eu ainda acreditava na possibilidade do diálogo mas deparei-me com absurdos gritantes: os meus questionamentos não constavam na Ata da Assembléia; soube que alguns capoeiristas foram impedidos de participar da Assembléia   creio que para evitar apoio aos meus questionamentos — além de eu não ter tido acesso ao livro de Atas.

Diante do exposto, e por ter consciência de que não faço parte do grupo dos capoeiristas vistos como “incapazes” solicitei, formalmente, o meu desligamento em caráter irrevogável mas prometendo continuar a minha luta contra qualquer comportamento, com a capoeira, que deixe a conotação de intervenção ou cooptação. Os tempos mudaram mas alguns desconhecem.

 

 Mestre Moraes

A BUSCA

Na força e na garra, descubro minha força interior.
Busco a paz, a luz, a glória, a auto-estima a valorização da CAPOEIRA.
Não quero a perfeição, pois a luta é constante! É diária…
 
Busco a paz, a camaradagem, não a competição.
Na roda da vida, não é difícil perceber que nos atropeços da vida, sempre um novo dia renasce para que os passos dados na escada da vida sejam sempre renovados, recomeçados, continuados…
 
Diante de tantos enganos e desenganos, não quero me esconder atrás dos erros dos meus camaradas, não pretendo ser mais um covarde, diante do meu próprio mundo, em que muitas vezes, prevalecem aqueles que são bons de porrada. Não é isso que busco! Busco a paz, o entendimento, a união e principalmente a sua amizade, camarada!
 
Quero poder compartilhar com todos a magia iluminada da capoeira. Não a perfeição, muito menos a competição, pois a sabedoria desta arte vai mais além do que simples mesquinharias. Luto sim, contra o egoísmo de muitos que só se vangloriam e esquecem que precisamos nos unir em prol daquilo que acreditamos.
 
A capoeira não precisa de elogios, precisa sim, de pessoas determinadas que sonhe, trabalhe, caminhe, defenda-a e acima de tudo que acredite em seu potencial/objetivo. Luto por tudo que acredito e a capoeira é o elo da minha razão com a satisfação de fazer parte dela.
 
Meus camaradas, desejo a todos a paz no coração e que só com a união e o diálogo é que evoluiremos.

Mestre Gilvan

 

Entrevista com Mestre Bigodinho

Mestre Condena Política na Capoeira
 
Entrevista com Mestre Bigodinho, Angoleiro da Bahia, no Dia da Independência da Bahia (2 Julho de 2004)
 
Benedito dos Santos (Bené)
João Pessoa-PB
Fev – 2005
 
Falar em cultura popular da Bahia é falar da própria Bahia. Em recente viagem realizada a Salvador, até como intuito de elaborar material para o curso de especialização em jornalismo cultural, pude observar vários aspectos de se ver a cultura popular baiana.
 
A entrevista se deu na Capital da Capoeira Angola, no dia 2 de julho de 2004, dia da Independência da Bahia.
 
Há cultura popular produzida para turista, onde estão presentes os traços da indústria cultural; já para o povo baiano, o que vale é a alegria, e nesse contexto as roupagens se misturam. 
 
Cultura popular mesmo, aquela feita pelas mãos sedentas de seus cultuadores, a autentica, é deixada de lado. Porquê?. Acredito que prevalece a teoria do ultrapassado, e do "sem valor cultural". No contexto geral da entrevista feita com Reinaldo Santana, internacionalmente conhecido como Mestre Bigodinho, pudemos observar que esta nossa visão reflete-se nas palavras do mestre.
 
Partindo da inferência da Industria Cultural, perguntei ao mestre a importância  da capoeira no desfile do dia da independência da Bahia. [….] Depois de alguns segundos pensativo,  o mestre, com seu saber popular, comenta:
 
"o dia dois de julho é mais velho que a capoeira, a capoeira nunca acompanhou o dia da independência. Acontece que agora é  lazer, um esporte, um samba. A capoeira agora é tudo. Por isso,  ela foi incorporada ao dois de julho, porque antes não tinha não!. Agora, particularmente, a capoeira não é mais capoeira. A capoeira está mais que capoeira. É política!.É política!." – frisou o mestre  Bigodinho. Continuando seu pensamento, o mestre diz mais. "porque você vê,  se tiver um capoeira e não tiver um político no meio não é capoeira!".
 
Na visão do mestre Bigodinho, praticante que passou por várias gerações de mestres, existe poucas esperanças de uma capoeira voltada para a sua realidade, isto visto pelo próprio Estado da Bahia, berço da historia da Capoeira.
 
"Eu não estou dizendo que a capoeira é só política, o que eu estou dizendo é o que estou vendo dentro. No meu tempo não tinha "política", nem no tempo dos meus mestres… digo meus mestres, porque meus mestres são Mestres Waldemar,  Traíra e Zacarias… esse pessoal mais antigo. E hoje em dia, a capoeira é uma beleza! (…) naquele tempo a capoeira que eu via na rua (…) naquele tempo de 1960 em diante, só via mestre Waldemar, depois foi crescendo, eu também.  Fui chegando, os mestres morreram e  ficou pra gente, agora  cada qual que jogue como sabe, como puder, porque a capoeira é uma traição, a pessoa que sabe jogar capoeira, nunca tira os olhos de cima do adversário, e a pessoa que brinca capoeira hoje em dia, tem que saber entrar e sair.."
JCap – Mestre, "essa abertura" pela sociedade, ela é real e tem um aproveitamento pela juventude?
 
M. Bigodinho – A capoeira hoje em dia não pode se afirmar. Sabe por quê? Porque tem lobo engolindo lobo, e nunca engole o lobo certo. Agora, no meu tempo, a capoeira não prestava, no meu tempo não. No meu tempo, no tempo do meu mestre, não jogava homem, com menino e nem mulher. Hoje em dia mulher joga, menino joga. Joga quem puder, salve-se quem puder, agora tudo é bom… E por que os mestres de capoeira de hoje em dia não se unem para fazer assim? Pelo menos, né, dizer assim: "olha mestre, o senhor vai dar ali  uma aula aos meus meninos"… Uma aula de que? De canto! Aula de que? De  pandeiro! Aula de que?! De cantoria! Tudo bem, você pode ir, chega lá (…) o que meu mestre fazia comigo eu não posso fazer com os alunos deles, por que eles (os alunos) querem me bater, então, eu não vou designar funções não. Eu digo a você, a capoeira tá crescendo, más tá se desvalorizando, porque não tem uma pessoa que conheça e tome a frente prá dizer é isso e é isso! e vai até o fim. Porque naquele tempo, quando se falava na palavra "Mestre" os alunos respeitavam, brincavam, tudo legal, tudo mais…
 
Continuando seu raciocínio, o mestre Bigodinho relata. "Hoje em dia tem mestre, contra-mestre, trenel, ave  Maria!…que eu nunca tinha visto isto. Instrutor,  professor. E interessante! Vem perguntar a mim, que não sei de nada?", interroga o mestre!
 
JCap – Mestre Bigodinho, qual a capoeira ideal nos dias de hoje na sua concepção?
 
M. Bigodinho – "A capoeira de hoje em dia, não é como a capoeira de antigamente, porque no meu tempo, enquanto mais dos meus mestres, a capoeira era jogada, hoje em dia, a capoeira é pulada, dou uma pernada pra cima, escalou uma perna, já é capoeira e no meu tempo, seu mestre (…) hoje eles nem sabem o que é uma chamada", sentencia o mestre. Continuando seu pensamento arremata: – "tinha que vir fechado, se viesse aberto apanhava, porque hoje em dia, quando você faz uma chamada, o cara dá um pulo, dá dois pulos, três pulos, outro pulo, depois vêm, tá errado " a chamada na capoeira é pra descanso, lhe chamou, você tem que atender, não é fazer mais do que está se fazendo", – finalizou o mestre Bigodinho.
 
Na foto. Mestre Dinelson, Mestre Bigodinho & Bené
 
Bené é pesquisador de Cultura Popular da Paraíba, e integrante do Grupo Zumbi de Cultura Popular
 
Autor: Benedito dos Santos (Bené)