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O Desenvolvimento Sensório-Motor na Primeira Infância – Piaget & Capoeira

O DESENVOLVIMENTO SENSÓRIO-MOTOR NA PRIMEIRA INFÂNCIA

Conhecendo as Teorias de Piaget para a Prática da Capoeira

Muito tem se discutido, em relação a melhor maneira de desenvolver a motricidade na criança. Encontramos na literatura uma série de artigos e publicações que sugerem abordagens diferentes e conteúdos específicos para se atingir o desenvolvimento motor e sensorial. Não se pode, segundo experiências no trabalho com crianças da educação infantil, se valer de um único método e assim de uma abordagem específica para atingir estes  desenvolvimentos nas crianças. Cabe sim, um conhecimento das situações que são propostas por cada uma delas e uma visão que amplie a área de atuação do professor e possibilite novas estratégias para se lidar com o problema da construção motora.

Sabemos que a rua ainda é uma preciosa escola na formação motora da criança.

Especialmente nas regiões interioranas (em se tratando de Brasil) onde o fluxo de automóveis e a violência ainda não são comuns como nas grandes metrópoles. A criança que na rua empinou uma pipa, rodou um peão, vivenciou tradições em brincadeiras, saltou, correu, escondeu-se, e pilotou o seu carrinho de corridas, certamente já possui um repertório motor mais diverso em relação à criança que se criou dentro de um apartamento e vivenciou mais a TV e o computador do que a rua e as suas magias e complexidade de jogos e brincadeiras que ela sugere naturalmente. Com isso, muitas vezes as crianças chegam às pré-escolas com uma deficiência enorme no seu repertório motor, cabendo ao educador que trabalha o físico, diagnosticar este fenômeno e trabalhar no sentido de minimizar este problema.

FREIRE (1996) destaca em relação ao desenvolvimento motor que a psicologia infantil e depois a psicomotricidade, dedicaram parte de seus trabalhos a descrição dos movimentos que as crianças realizam ao longo de seu desenvolvimento, muitas vezes, contudo, desconsiderando aspectos fundamentais desse desenvolvimento como o cultural e o social. Ou seja, as análises pautam-se muito por aquilo que se supõe existir internamente em cada individuo do que por aquilo que lhe falta e é exterior a ele. Resumindo, o que quero dizer é que não acredito na existência de padrões de movimentos, pois, para tanto, teríamos que acreditar também na padronização do mundo.

Constato isso sim, a manifestação de esquemas motores, isto é, de organizações de movimentos construídos pelo sujeitos, em cada situação, construções essas que dependem, tanto dos recursos biológicos e psicológicos de cada pessoa, quanto das condições do meio ambiente em que ela vive. E se não vivenciaram situações de corrida, rolamentos, construção dos próprios brinquedos e demais processos naturais do cotidiano das brincadeiras de rua, porque não trazer este universo para dentro das escolas de educação infantil e assim possibilitar a todos a ampliação do seu repertório motor e seus esquemas, como sugerido na crônica enviada a este portal anteriormente denominada “Do Giga Byte ao Pandeirinho” tratando da questão de isolamento tecnológico em contrapartida à educação através da prática da capoeira.

Portanto, ao descrever qualquer ação, qualquer movimento, não podemos deixar de considerar, que o ser humano é uma entidade que não se basta por si. Parte do que ele precisa para viver não esta nele, mas no mundo fora dele. Como afirma MANUEL SERGIO, citado por FREIRE (2003) o homem é um ser carente, pois lhe falta parte do que precisa para compor a vida. Nem se quer para o simples ato de respirar ele se basta, necessita para isto do oxigênio da atmosfera.
Boa parte das descrições do desenvolvimento infantil, referem-se aos atos de pegar, engatinhar, sugar, andar, correr, saltar, girar, rolar e assim por diante, movimentos que constatamos em quase todas as crianças. O que se espera é que as crianças possam, da melhor forma possível, apresentar em cada período de vida uma boa qualidade de movimentos, de acordo com certos modelos teóricos apresentados, ou seja, que aos três anos, por exemplo, corram ou andem com certa habilidade, que saltem de uma certa forma aos quatro anos, rolem de tal maneira aos cinco e assim por diante. É claro que é desejável que todos tenham habilidades bem desenvolvidas, mas o risco que se corre é o de se estreitar à visão para o problema, destacando o ato motor como alguma coisa que ocorre unilateralmente.

E sabemos que não é exatamente assim que devemos agir dentro da construção das habilidades desenvolvidas nas crianças. Nós professores somos responsáveis por propor, interagir e abrir espaço para auxiliar a criança neste processo e fazer com que isto se torne uma “via de mão dupla” com erros e acertos com perguntas e respostas.

Se não resta dúvidas de que devemos respeitar o estágio em que a criança se encontra em relação ao seu desenvolvimento global, somos responsáveis por identificar estas etapas e assim estabelecer a pedagogia correta no ensino corporal da capoeira aos nossos alunos. Muitos educadores, baseiam-se nas teorias de Piaget para que se crie base na elaboração dos planejamentos de  suas aulas dentro da educação das crianças.

PIAGET (1982) em seus estudos sobre crianças, descobriu que elas não raciocinam como os adultos. Esta descoberta o levou a recomendar aos adultos que adotassem uma abordagem educacional diferente ao lidar com crianças. Ele modificou a teoria pedagógica tradicional que, até então, afirmava que a mente de uma criança é vazia, esperando ser preenchida por conhecimento. Na visão de Piaget, as crianças são as próprias construtoras ativas do conhecimento, constantemente criando e testando suas teorias sobre o mundo. Ele forneceu uma percepção sobre as crianças que serve como base de muitas linhas educacionais atuais.

De fato, suas contribuições para as áreas da Psicologia e Pedagogia são imensuráveis. A essência do trabalho de Piaget ensina que ao observarmos cuidadosamente a maneira com que o conhecimento se desenvolve nas crianças, podemos entender melhor a natureza do conhecimento humano. Suas pesquisas sobre a psicologia do desenvolvimento e a epistemologia genética tinham o objetivo de entender como o conhecimento evolui.

Piaget formulou em 1923 sua teoria de que o conhecimento evolui progressivamente por meio de estruturas de raciocínio que substituem umas às outras através de estágios. Isto significa que a lógica e formas de pensar de uma criança são completamente diferentes da lógica dos adultos. Em muitos casos, acaba-se por desprezar esta crescente do conhecimento infantil e ao invés de buscar a solução racional de um problema que poderá surgir durante as aulas, apenas repreende-se violentamente esta criança sem respeitar a sua individualidade e a sua capacidade de transformação cognitiva. Vimos por muitos anos isto acontecer dentro do ambiente de ensino da capoeira e das mais diversas modalidades, muitas vezes por arrogância outras por simples falta de conhecimento no assunto. É de grande importância a nós, educadores físicos, conhecermos sobre os estudos de Piaget e assimilarmos a sua teoria que divide em fases, o desenvolvimento das crianças. Fases estas que são:
Fase 1: Sensório-motor

No estágio sensório-motor, que dura do nascimento ao 18º mês de vida, a criança busca adquirir controle motor e aprender sobre os objetos físicos que a rodeiam. Esse estágio se chama sensório-motor, pois o bebê adquire o conhecimento por meio de suas próprias ações que são controladas por informações sensoriais imediatas.

Fase 2: Pré-operatório

No estágio pré-operatório, que dura do 18º mês aos 8 anos de vida, a criança busca adquirir a habilidade verbal. Nesse estágio, ela já consegue nomear objetos e raciocinar intuitivamente, mas ainda não consegue coordenar operações fundamentais.

Fase 3: Operatório concreto

No estágio operatório concreto, que dura dos 8 aos 12 anos de vida, a criança começa a lidar com conceitos abstratos como os números e relacionamentos. Esse estágio é caracterizado por uma lógica interna consistente e pela habilidade de solucionar problemas concretos.

Fase 4: Operatório formal

No estágio operatório formal – desenvolvido entre os 12 e 15 anos de idade – a criança começa a raciocinar lógica e sistematicamente. Esse estágio é definido pela habilidade de engajar-se no raciocínio abstrato. As deduções lógicas podem ser feitas sem o apoio de objetos concretos. No estágio das operações formais, desenvolvido a partir dos 12 anos de idade, a criança inicia sua transição para o modo adulto de pensar, sendo capaz de pensar sobre idéias abstratas. Segundo nossas experiências com aulas dentro da educação física infantil, algumas crianças demonstram, com maior rapidez o processo gradativo de evolução de seus conhecimentos. Na maioria dos casos são hiper ativos e necessitam de uma maior atenção por parte do professor e em outras vezes demonstram atitudes comportamentais diferenciadas. Ou são muito calmos e preferem isolar-se ou são de fato muito agitados e inquietos.
No geral, o comportamento das crianças, segue a teoria estabelecida em 1923 por PIAGET e evoluem de maneira lógica e igualitária. Os seus conhecimentos vão se tornando cada vez mais complexos e o educador contribuirá, através de estímulos, com este desenvolvimento. Seja ele motor, afetivo, sensorial ou psicológico. Neste sentido a capoeira se torna uma bela ferramenta para o desenvolvimento das mais diversas habilidades, cabendo ao educador sempre se situar dentro da fase que determinada criança vive naquele determinado momento.
Texto: Professor Beija-Flor (Ricardo Costa)  

visite: http://bfcapoeira.vilabol.com.br

Crônica: “DO GIGA BYTE AO PANDEIRINHO”

A dura missão de levar a rua para dentro da escola.
 
Alguns dias atrás o Pedro Henrique, aluno do infantil, me explicou o que era um "giga byte". O quanto àquela unidade numérica suportava de informação e como era complexa a sua função no mundo dos chips.
Tudo em ordem, se não fosse o fato do Pedro estar com 05 ou 06 anos de idade. Ele brinca muito! Brinca quase quatro horas por dia. Brinca de entrar na internet, brinca de desmontar placas de computador e depois as monta. Brinca com o seu mundo office, world wide web e de mega bytes! 
 
Observei muito o Pedro nas últimas aulas de capoeira e percebi a sua dificuldade em realizar movimentos motores de caráter grosso, que no geral são mais simples que os de características fina, que ele já deveria estar executando. Os pais dele, após assistirem uma apresentação na unidade de educação infantil, o matricularam na capoeira com a intenção de diversificar a maneira de brincar do pequeno Pedro. Ele ainda corre com pouca coordenação, salta com grande deficiência, quase não pula e rolar ainda é um mundo desconhecido para o Pedro assim como os “giga bytes” são para mim. O testei, colocando uma série de figuras, personagens e objetos ao seu reconhecimento. Cerca de 20 imagens dentre elas a foto de Edson Arantes, o Pelé; Zumbi dos Palmares e de instrumentos musicais como o berimbau e o agogô. Ele reconheceu somente o Chaves, do seriado infantil, os Rebeldes fruto da cultura de massa musical e o ícone tecnológico do internet explorer. Eu não poderia esperar mais! Estou propondo á ele novas brincadeiras e jogos adaptados para a capoeira e tenho realizado uma leitura de seu comportamento motor e afetivo.
 
Em relação à valência física de coordenação motora, observamos a capacidade de dissociação da criança no primeiro momento, para planejar o seu desenvolvimento. Esta valência está na prática de associar movimentos de membros inferiores, juntamente com movimentos de membros superiores e do tronco. As crianças apresentam muitas diferenças neste aspecto, contudo o nosso Pedrinho mal conseguia erguer um braço e a perna do mesmo lado simultaneamente. Casos assim são rotineiros dentro da educação corporal de crianças em primeira infância que contempla dos 02 aos 06 anos de idade. Não sendo a idade a única balizadora deste período. Uma criança de 05 anos nunca será igual à outra em vários aspectos só porque possuem a mesma idade. Contudo, não é raro encontramos casos similares ou ainda mais complicados como do Pedro. 
 
A maioria das crianças nos grandes centros urbanos vive em seus apartamentos, comendo fast food e jogando play station. Nunca rodaram um pião, jamais empinaram uma raia, nem sabem o que é uma fubeca ou até mesmo não avistaram a sua frente um pé de frutas para subirem em seu tronco. Nós educadores temos a dura missão de trazer a rua para dentro da escola. Nuca será a mesma coisa. São ambientes bem distintos. Mas diante da difícil situação em que se encontram nossos pequenos, o brincar de pique esconde dentro da escola, se tornou mais presente do que as tabuadas e a gramática  dos nossos pequenos prisioneiros. E isto talvez seja um ponto positivo referente à pedagogia na educação infantil da atualidade. 
 
Nosso saudoso Jean Piaget, no seu inesquecível O Nascimento da Inteligência na Criança de 1978, acreditava que nossa gestação no útero materno é muito curta, apenas nove meses. Comparados aos outros animais, nascemos muito grandes a antes do tempo. Os bebezinhos recém-nascidos, ainda apresentam feições de feto, como se a formação biológica devesse ainda algum desenvolvimento a eles. João Batista Freire, no seu livro Educação como Prática Corporal de 2003, afirma que esta continuidade no processo de “gestação” se dá no “útero cultural”. Ou seja, nesta segunda gestação, aprendemos o que não foi aprendido na barriga da mãe. Ela acontece através da cultura e pelo resto da vida, especialmente durante a juventude. Somos, portanto, animais com extremo talento para aprender. Considerando que o meio em que vivemos não é natural, mas cultural, e que a cultura humana se altera a cada instante, precisamos, para dar conta de viver nele, aprender permanentemente. 
 
Crianças no Projeto Beija-FlorA nossa missão então, é fazer com que o nosso querido Pedro Henrique, seja visto como uma criança e nada mais. Um ser que não se apresenta, fragmentado ou fatiado em dados momentos; como um ser psicológico, um ser motor, um ser intelectual e um ser moral. Mas sim um ser único que deverá ser educado de corpo inteiro (FREIRE; SCAGLIA, 2003). Oferecer a ele uma “outra gestação” ampla culturalmente e bem diversificada socialmente. Uma criança que não deveria ficar quatro horas em frente á uma tela de computador e nem mesmo quatro horas gingando e dando piruetas. Alguém que não suporta ficar durante horas sentado em uma sala de aula, em frente á um quadro negro e enfileirado como um soldado do exército. A visão que se tem é que não há respeito pela imobilidade e inquietação da criança em razão de nossa imposição por padrões estabelecidos. Querer que uma criança fique quieta, sem se mexer e sem levantar durante um período de aula é anular o que ela tem de mais belo, que é a sua capacidade criativa e de improvisação em jogos, brinquedos e brincadeiras. Nós adultos, temos características de imobilidade perante aos pequenos e achamos que eles devem seguir o nosso raciocínio. 
 
Neste ponto, as atividades corporais, de cultura, de expressão e o lazer entram com uma grande importância dentro dos primeiros anos de aprendizado. Invertem a situação estática antes mencionada. As danças, lutas e também a capoeira está a cada dia mais presente dentro das atividades oferecidas pelas escolas de educação infantil. Em geral, se bem planejadas pelo educador, são bem aceitas por pais e alunos. Só devemos entender que este seja talvez o principal período de construção de conhecimento para estas crianças. Todo repertório motor está sendo constituído nesta fase, bem como o processo de maturação biológica e concepções afetivas.
 
Então, a responsabilidade de quem trabalha com crianças é grande e não depende apenas de boa vontade, mas também de conhecimento no assunto e amor. Há algum tempo a informação é de fácil acesso aos educadores, só esperamos que haja busca neste sentido. Senão, nós capoeiristas em particular, não poderemos dizer a que viemos e porque fazemos de uma arte tão bela uma poderosa ferramenta pedagógica. 
{jgquote}Talvez os “giga bytes” um dia o ajudem, mas agora só queremos que ele viva como um garoto. Um garoto de cinco anos de idade que hoje viu o mundo com as pernas para o alto.{/jgquote} 
E voltando ao pequeno Pedro Henrique, nesta manhã ele conseguiu fazer uma bananeira. A mãe dele me disse que ontem ele usou pouco o computador e construiu um pandeirinho com sucata que encontrou em casa. Talvez os “giga bytes” um dia o ajudem, mas agora só queremos que ele viva como um garoto. Um garoto de cinco anos de idade que hoje viu o mundo com as pernas para o alto. 
 
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Crianças no Projeto Beija-Flor diante da roda de capoeira:
atenção em razão da beleza cultural e não pela imposição
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Psicomotricidade – Área de recreação e esportiva

Psicomotricidade – Área de recreação e esportiva

Recebido por e-mail de WGS07@aol.com

em qui 29/09/2005 08:16

Acessado em 11/10/2005 10:55

Redação/Editoração/Formatação modificadas por AADF

 

O Conceito Psicomotricidade

O conceito de psicomotricidade é recente e inicialmente debruçou-se apenas sobre o desenvolvimento motor da criança (De Meur e Staes, 1989).

Ø      Segundo Núñes e Vidal (1994) a psicomotricidade é a técnica ou conjunto de técnicas que tendem a interferir no ato intencional significativo, para o estimular ou modificar, usando como mediadores a atividade corporal e sua expressão simbólica, com o objetivo, de aumentar a capacidade de interação do sujeito com o ambiente.

Ø      Berruezo (1995, citado por Pantiga, 2002) propõe que psicomotricidade é um foco da intervenção educacional ou terapia cujo objetivo é o desenvolvimento da capacidade motora, expressiva e criativa a partir do corpo, o que o leva a centrar a sua atividade e a interessar-se pelo movimento e o ato, que é derivado de disfunções, patologias, excitação (estímulos), aprendizagem, etc.

Ø      Para Muniáin (1997, citado por Pantiga, 2002) psicomotricidade é uma disciplina educativa/reeducativa/terapêuti ca. Concebeu como diálogo que considera o ser humano como uma unidade psicossomática e que atua sobre a sua totalidade por meio do corpo e do movimento no ambiente, por meio de métodos ativos de mediação principalmente corporal, com o propósito de contribuir para o seu desenvolvimento integrante.

Ø      De Lièvre e Staes (1989, citados por Núñes e Vidal, 1994) definem psicomotricidade como a posição global do sujeito. Pode ser entendida como a função do ser humano que sintetiza psiquismo e motricidade com o propósito de permitir ao indivíduo adaptar-se de maneira flexível e harmoniosa ao meio que o cerca. Pode ser entendida como um olhar globalizado que percebe a relação entre a motricidade e o psiquismo como entre o indivíduo global e o mundo externo. Pode ser entendida como uma técnica cuja organização de atividades possibilite à pessoa conhecer de uma maneira concreta o seu ser e o seu ambiente de imediato para atuar de uma maneira adaptada.

 

A psicomotricidade destaca a relação existente entre a motricidade, a mente e a afetividade e procura facilitar a abordagem global da criança por meio de uma técnica.

Nesse sentido, De Meur e Staes (1989) referem que a psicomotricidade foi evoluindo. Começou por estudar o desenvolvimento motor, depois a relação entre o atraso no desenvolvimento motor e o atraso intelectual da criança, mais tarde o desenvolvimento da habilidade manual e aptidões em função da idade, para atualmente, estudar também as ligações com a lateralidade, com a estruturação espacial e a orientação temporal e as relações das dificuldades de aprendizagem escolares de crianças de inteligência normal. Os autores alertam também para a tomada de consciência das relações existentes entre o gesto e a afetividade, como por exemplo, o fato de uma criança segura de si caminhar de forma muito diferente de uma criança tímida.

 

Verifica-se, portanto, que existe um amplo espaço ou área de intervenção da psicomotricidade,o que permite afirmar que esta pode exercer uma importante influência na evolução pessoal e acadêmica dos indivíduos.1

 

A Influência do Desenvolvimento Motor na Aprendizagem

Existem teorias que salientam de tal modo à importância do movimento para a criança que admitem que as dificuldades de aprendizagem são o resultado de um desajustamento com o espaço que as envolve (Neto e col., 1989, citados por Silva e Marques, 2001).

Segundo os mesmos autores, o movimento é um meio de ensino-aprendizagem particularmente relevante em crianças com dificuldades de aprendizagem. Com base nas múltiplas relações da motricidade com a inteligência, realçam que a atividade lúdico-motora facilita a aquisição das noções simbólicas fundamentais para as aprendizagens escolares, destacando que o movimento promove a espontaneidade, a imaginação e o pensamento criativo, constituindo-se numa experiência multi-sensorial de aprendizagem.

Para Matos (1991, citada por Silva e Marques, 2001) a dimensão cognitiva, na qual as aprendizagens escolares apostam fortemente, não é só um acidente ou um "dom", mas também é resultante da atividade motora exploratória, criativa e social que então satisfaz por um lado as necessidades de maturação orgânica e por outro permite a regulação das funções psicofisiológicas, traduzidas na prática pelo desenvolvimento e pelo crescimento.

Assim, a atividade motora parece associada às representações mentais, ou seja, regula o aparecimento e o desenvolvimento dos processos cognitivos (Piaget, 1977; Wallon, 1970; Fonseca, 1984, 1994, citados por Silva e Marques, 2001).

Alguns autores (Cuenca e Rodao, 1994) referem que atualmente não há dúvidas de que um bom desenvolvimento psicomotor durante a infância é a base de uma aprendizagem adequada e que o grau de desenvolvimento psicomotor nos primeiros anos de vida vai continuar, em grande parte, durante toda a sua vida.

A motricidade, segundo os mesmos autores, influi de forma notável no psiquismo do indivíduo, ao ponto do processo intelectual depender da maturidade do sistema nervoso. Isto significa que existe uma estreita influência entre o físico-fisiológico e o intelectual. As referidas teorias estão presentes no processo ensino-aprendizagem, como por exemplo, no da leitura, onde a desorientação espácio-temporal pode levar a criança a confundir grafias semelhantes (p/q, b/d …), conduzindo-a dificuldades da leitura e escrita e consequentemente a dificuldades de aprendizagem. A lateralidade, a coordenação visomotora, discriminação figura-de-fundo e a mobilidade manual são outros exemplos, entre vários, de áreas que devem ser trabalhadas, pois poderão contribuir para ultrapassar as dificuldades de aprendizagem ou para a sua prevenção.

Deste modo, a influência do desenvolvimento motor na aprendizagem é de tal forma importante que uma intervenção através da psicomotricidade poderá contribuir para eliminar ou pelo menos diminuir as dificuldades de aprendizagem de crianças e jovens que apresentam tal problemática.

 

A Educação Física e suas implicações no Desenvolvimento da Psicomotricidade

O discurso e prática da Educação Física sob a influência da Psicomotricidade coloca a necessidade do professor de Educação Física sentir-se um professor com responsabilidades escolares, e portanto, pedagógicas. Busca desatrelar sua atuação escolar dos cânones da instituição desportiva, valorizando o processo de aprendizagem e não mais a execução de um gesto técnico isolado.

Talvez nós sejamos um tipo de professor que em grau maior do que aqueles de outras matérias costuma valer-se de conceitos de sua própria área em tom pejorativo, denegrindo o que deveria ser de seu domínio. Fazemos tábula rasa2 do que foi produzido ao longo de quase 200 anos. Não conseguimos acompanhar o movimento do pensamento e perceber como o conhecimento se amplia, se refaz pelos avanços da técnica, da ciência e pela inserção de diferentes práticas em diferentes culturas. Os clichês influenciam mais do que as inúmeras e inúmeras obras sobre Ginástica, sobre Jogo, Dança, e, sobretudo Esportes. É agradável constatar que os anos 90 trouxeram um olhar mais abrangente aos estudos e pesquisas sobre a Educação Física Escolar. Os reducionismos de natureza biológica, psicológica e social parecem não ter mais lugar no debate da área.
Hoje já é possível, no âmbito da Educação Física, pensar a ciência fora dos limites do positivismo e perceber que para tratar das atividades físicas em suas determinações culturais específicas, o conhecimento do homem implica em saber que a sua subjetividade e razão cognoscitiva se instalam em seu corpo e as linguagens corporais constituem-se em respostas a esta compreensão.
Sem esquecer a provisoriedade do conhecimento, afirmo aqui esta retomada da Educação Física como o lugar de aprender Ginástica, Jogos, Jogos Esportivos, Dança,Lutas,Capoeira.
Talvez as pesquisas sobre ensino hoje já possam romper com a visão tecnicista e mergulhar no conteúdo de cada área. Talvez hoje, estejamos necessitando estudar Ginástica, Jogos, Dança, Esportes e de posse destas fantásticas atividades codificadas pelo homem em sua história valer-se, criativamente, de metodologias que encerrem valores mais solidários, que apontem para uma saudável relação entre indivíduo e sociedade e vice-versa. O Ensino da Ginástica ou de qualquer Jogo Esportivo, por exemplo, sempre encerrará em seu interior uma dimensão técnica. Mas uma dimensão técnica não significa nem tecnicismo nem "performance". O lugar da "performance" não é na escola. O caráter lúdico pode prevalecer sempre numa aula de Educação Física, desde que ela seja realmente uma aula, ou seja, "um espaço intencionalmente organizado para possibilitar a direção da apreensão, pelo aluno, do conhecimento específico da Educação Física e dos diversos aspectos das suas práticas na realidade social".

Segundo Snyders: "não considere seus alunos tolos", eles não gostam de coisas fáceis, óbvias. Como observa Betti em sua pesquisa sobre a percepção do aluno em aulas de Educação Física, "os alunos realmente não desejam que todas as coisas sejam fáceis. O desafio de algo difícil, mas realizável é almejado por eles. Afirmam que querem aprender melhor, que quanto mais aprenderem, melhor a aula se tornará…".

Nesse sentido, a educação psicomotora visa a intervenção no processo de evolução psicomotora do indivíduo, não somente como recurso pedagógico, mas também como recurso que integra toda ação educativa.

 

A capoeira como atividade promotora do Desenvolvimento Psicomotor

A Capoeira pode proporcionar aos seus participantes inúmeras situações de aprendizagem, constituindo-se como uma prática educativa. O trabalho coletivo e lúdico que envolve o aprendizado da capoeira garante mais qualidade de vida para aqueles que a praticam. Seus benefícios são enormes, tais como: desenvolvimento das qualidades físicas (resistência, flexibilidade, agilidade, coordenação, ritmo, etc.), autoconfiança e socialização.

Na Capoeira, a aprendizagem tem um reflexo claro na realidade do aluno, ela proporciona uma série de benefícios que influenciam a própria maneira de o aluno estar no mundo (“ser-no-mundo”). Quando o indivíduo entra numa roda de capoeira, se insere num ambiente de encontro e contato direto com outra pessoa, que é seu companheiro (com quem irá jogar), e um contato e encontro indireto com outras pessoas, que são os outros integrantes da roda. O ato de entrar na roda pela primeira vez representa o início do processo de aprendizagem mais significativo da Capoeira, é o começo dum processo de enfretamento e transposição de barreiras e medos ( p.ex. do risco de contusões) que o capoeirista irá realizar em seu rico aprendizado. Dentro da roda, são suscitados os mais variados tipos de sentimento, emoções e reações, que são peculiares deste genuíno encontro que acontece na roda, encontro esse que é imprevisível e espontâneo, ditado pelo momento, podendo ser amistoso ou não.

“…é o canto, a ladainha que evoca o clima e dá o tom do jogo e expressa, resume o que vai rolar, pelo menos naquele instante. Isto porque o que está acontecendo neste momento, aqui e agora, pode ser completamente modificado à medida que se vai jogando, é o encontro que vai dizer o que ‘vai rolar’. É a resposta imediata do parceiro que vai provocar o tipo de jogo, aberto ou fechado, ou que eu seja mais afoito ou retrancado” (Amorim in: Freire, 1991:152).

As experiências vividas na roda de Capoeira vão ter várias conseqüências para a vida do indivíduo, na medida em que, na capoeira, a pessoa vivencia momentos de integração e contato significativos, realiza atividades de nível motor, além de poder expressar sentimentos e emoções que, na realidade, muitas vezes é impedido (como, por exemplo, a expressão da agressividade), enfim, está lidando com aspectos motores, emocionais, psicológicos e sociais que podem refletir diretamente na vida do sujeito.

 

O capoeirista Corisco do Recife, citado por Amorim (in: Freire,1991:152), expressa muito bem essa situação, quando diz que:

“A capoeira ultrapassa esses limites que tentamos impor a ela. Ela é um estilo de vida, um modo de ser, conviver, enfrentar o mundo. É mais que uma filosofia, é a própria vida do capoeirista. Na capoeira a gente pode expressar a dor, a alegria, a sensualidade, o ataque, a defesa, a saudade, o encontro”.

 

Na Capoeira aprende-se a enfrentar e superar muitas dificuldades e situações, o praticante está sempre descobrindo como se colocar nas mais inusitadas e inesperadas circunstâncias, aprende como escapar aos mais variados obstáculos e barreiras, esta sempre trabalhando sua expressão corporal, sua agilidade, sua destreza, sua flexibilidade, criatividade e espontaneidade. Cada aspecto ou característica pessoal trabalhada terá um reflexo na vida do indivíduo, que passa a encarar o mundo e a vida, suas dificuldades e obstáculos, de uma nova forma, com uma postura bem diferente.

A luta é o elemento básico para o enfrentamento dos mecanismos de poder que tentam impedir a auto-regulação, a liberdade de ser e fazer o que se quer. A disposição de luta numa roda de capoeira está relacionada às nossas atitudes de luta na vida. A roda é um treino e um diagnóstico de como estamos lutando. Nosso esquema corporal é um reflexo direto de nossa vida emocional” (Freire & Da Mata, 1993: 38).

O aluno envolve-se integralmente, é o sujeito de suas ações e movimentos. Insere-se completamente. Esta condição lhe é imposta até em termos de sua segurança. Numa roda de Capoeira, o indivíduo trabalha a expressão de sentimentos, de emoções, ativa a cognição, trabalha a espontaneidade, a criatividade, a integração social.  Além de tudo, está se apropriando da história e da cultura do povo brasileiro.

 

Apesar de existirem movimentos básicos na Capoeira, cada pessoa desenvolve seu estilo próprio de jogar, cada um tem seu jeito de expressar-se nos movimentos. Isso decorre do fato da capoeira ser um lugar privilegiado para produção da criatividade, do cultivo da originalidade e espontaneidade de cada um. É um lugar privilegiado para expressividade, espaço de desenvolvimento pessoal, onde o praticante experiência um processo contínuo de “dar-se-conta-de-si”, um processo de conscientização de atos e movimentos. O praticante de Capoeira é uma pessoa que está aprendendo a lidar com as nuanças do improviso, está em contínuo contato com o seu “aqui e agora”, com sua realidade atual (no sentido de “atos momentâneos”), está em contato criativo e dinâmico com o meio.

 

No processo de participação grupal, que é a Capoeira, o aluno está constantemente desenvolvendo liberdade e responsabilidade de movimentos e ações, um verdadeiro processo socializado de crescimento pessoal.

É por meio de atos que se adquire aprendizagem mais significativa[…] A aprendizagem é facilitada quando o aluno participa responsavelmente do seu processo. A aprendizagem significativa aumenta ao máximo, quando o aluno escolhe suas próprias direções[..] decide quanto ao curso de ação a seguir, vive as conseqüências de cada uma dessas escolhas[…]a aprendizagem participada é muito mais eficaz que a aprendizagem passiva.”

Rogers (1978:163).

 

A vivência da capoeira é uma experiência ímpar. Proporciona ao aluno uma ativação, ampliação e complexificação da percepção. Uma verdadeira abertura progressiva à experiência. Na medida em que o indivíduo constrói uma vivacidade e auto-estima cada vez maiores.3

 

Além disso, a pessoa, principalmente o brasileiro, ao praticar Capoeira, tem a oportunidade de vivenciar o contato com sua própria cultura, na medida em que passa a apropriar-se da história desta arte-dança-luta-jogo de raiz africana, mas de origem brasileira.

 

A Capoeira foi inspirada em danças e rituais dos negros africanos, os quais foram trazidos como escravos para os engenhos de açúcar, no Período Colonial brasileiro. Originou-se e desenvolveu-se aqui, todavia, como uma forma encontrada pelos negros escravos, de lutar contra e resistir às injustiças da escravidão, pela sobrevivência física e cultural de seu povo. A Capoeira apresenta-se, principalmente, como uma forma que o Negro encontrou para buscar sua liberdade. Após a abolição da escravatura, ela logo se tornou uma poderosa e genuína forma de resistência dos mais variados grupos ou classes oprimidas.

 

Atualmente, apesar de a Capoeira ter se disseminado por vários países do mundo, o que facilmente notamos, ainda, é o fato de ela ser mais aceita entre as classes mais pobres, e de sofrer uma certa discriminação social frente a outras práticas esportivas e culturais4 Tal fato talvez se deva ao seu próprio processo histórico de exclusão.

 

Na Capoeira, o aluno encontra um lugar de desenvolvimento, um lugar onde pode desenvolver seus potenciais de criatividade, expressão corporal, originalidade e espontaneidade, verbalização e expressão de sentimentos, flexibilização do corpo, integração social, apropriação cultural. Lugar de afirmação de si, de percepção e encontro genuíno com o outro, de desenvolvimento de uma postura de enfrentamento da realidade, de uma forma flexível e dinâmica de estar no mundo.

Nesse sentido, a oficina de Capoeira tem como objetivo divulgar esta arte secular trazida pela cultura negra, e, além de ensinar as tradições de uma dança brasileira, exercita a psicomotricidade e o controle emocional seguido de senso de companheirismo e fraternidade.

Além disso, a utilização da música na roda de capoeira é importante como processo de fixação e aprendizagem de conhecimentos gerais e culturais, de psicomotricidade e de auto-estima.

A prática e a teoria artística e estética devem estar conectadas a uma concepção de arte, assim como a uma consistente proposta pedagógica que aproxima os estudantes do legado cultural da humanidade, oferecendo bases que proporcione a experimentação e o sentir, para que a partir deste movimento sejam desenvolvidos sua autenticidade e seu bom gosto artístico.


Bibliografia

Ø      Cuenca, F. e Rodao, F. (1994). Como desenvolver a psicomotricidade na criança. Porto: Porto Editora.

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1 Grifo AADF

2 Grifo AADF

3 Grifo AADF

4 Idem