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A Capoeira em Debate?

“O Capoeira, sempre de bom coração
Louva em oração, aquilo que tem amor.
Sempre louva a liberdade, a luta contra a escravidão
Mas o que é não ter correntes numa vida sem paixão”

Desde que aqui chegou o primeiro navio negreiro, houve resistências por parte dos negros trazidos da África. Desde o primeiro o dia, o primeiro momento o negro africano lutou pra se libertar. Luta cruenta e cruel, sem armas na sua defesa, perseguido como animal, só lhes restava a reação fisica, corporal. Usar suas mãos e pernas, cabeças, troncos e membros como arma na sua luta diária pela sobrevivência e na busca pela liberdade.

Assim surgiu a Capoeira. Os negros foram levados para quase todas as partes do mundo e em nenhum lugar surgiu tal arte marcial. Foi aqui onde ela nasceu e só aqui que ela adquiriu este conteúdo libertário e progressista. A história da luta pela liberdade do negro. Pelo fim da escravidão e pelo fim da opressão em todo o periodo colonial e depois até o surgimento da República, sua consolidação, passando pelo Estado Novo, é a história da Capoeira. Sua participação em vários episódios das lutas que ocorreram em nosso país tiveram destaques. Claro que na sua grande maioria foram tratadas pelos historiadores oficiais ou não, sempre de forma marginal e subliminar.

Mas estava lá ela, na guerra do Paraguai, na revolta da vacina, no surgimento da Guarda Negra. Nas revoltas do Maranhão, Pará, Pernambuco e Bahia. Nas maltas e nas resistências nas ruas do Rio de Janeiro, seja como capital federal ou seja como grande centro cultural e histórico do nosso país.

Foi criminalizada com o nascimento da República, incompreendida foi marginalizada. Entendida foi tratada com preconceito. Foi chamada de ginástica brasileira e cantada em versos e prosas. 

Presença marcante na literatura progressista checou a ser tratada como mero foclore por alguns “iluminados”. Mas a Capoeira permanece sendo um instrumento de luta que transformada em esporte tem um imenso potencial incluidor. Como cultura é parte indissoluvel do estudo e da busca do conhecimento da nossa identidade. Como elemento de composição da nação brasileira reclama seu lugar por merecimento.

Hoje busca, através de seus lideres hoje, bem mais maduros e consciente, ter o respaldo de uma lei, cujo projeto trâmita no Congresso Nacional em sua fase final.

E o que trata este PL que é motivo de polêmica e resistência de alguns? O Projeto de Lei 33/09 trata justamente de garantir em lei o direito, já apontado, corretamente no Estatuto da Igualdade Racial, sancionado pelo então Presidente Luis Inacio Lula da Silva.

O direito a que me refiro é de qualquer brasileiro poder praticar com plena liberdade a Capoeira seja ela como esporte, cultura, apresentação artistica ou uma mera vadiação. O Estado deve garantir o direito a quem quiser se profissionalizar com sua prática. Aquele que assim o quiser deverá ter este direito garantido por lei. Ainda o PL em trâmitação busca garantir o financiamento de forma democrática e regular das atividades sociais que a Capoeira e só ela, se permite fazer.

A Capoeira é um poderoso instrumento de inclusão social. Seu carater multifacetário permite que ela estimule, oriente e eduque a formação de cidadãos e cidadãs.

Incluir a Capoeira nas escolas como parte do curriculo escolar só será possível em sua plenitude quando tivermos profissionais preparados e capacitados em condições de dar aulas. É isso que prega o PL, é isso que permite o projeto.

Assim sendo cabe a Comunidade se organizar e lutar para que tal objetivo seja alcançado. Cabe a Comunidade dos Capoeiras assumir seu papel de protagonista do processo e depurar-se dos que infelizmente não acreditam no futuro.

A coexistência pacifica e harmoniosa que hoje impera entre as varias correntes que atuam na Capoeira no Brasil é a base que nos permite sonhar e ter convicção num futuro em que a exemplo do que ocorre em vários outros países do mundo, possamos ver em cada escola do nosso país, nossos filhos e netos descobrindo e aprendendo a nossa história. Entendendo e sabendo que vivemos momentos terrivéis e que a nossa luta é contra a opressão sobre nossa história, nosso passado e para que no nosso futuro, nunca mais, ninguém seja cativo de ninguém. Que ninguém seja prejudicado ou descriminado por ser diferente. Que a cor da pele não seja referência de carater e nem de indole!

Isso é o que prega e o que pensa os organizadores do 3° Congresso Nacional Unitário de Capoeira!

Axé!!

* Presidente Associação Brasil Angola (AABA); Diretor do Centro Cultural Africano (CCA); Coordenador do Congresso Nacional de Capoeira (CNC)

 

Fonte: http://www.vermelho.org.br/

Lobisomem: Capoeira e Cordel

Histórias populares, no mundo inteiro, são sempre maniqueístas, variações de lutas entre um bem e um mal, moralidades rígidas por um lado mas suficientemente elásticas por outro para incluir mau-caratismos e espertezas várias quando se trata de um “fraco” vencer um “forte”.

E aí vem o Brasil, a capoeira e a literatura de cordel, e o bem e o mal começam a negociar.

No cordel de apresentação de seu personagem, Lobisomem, o capoerista e cordelista Victor Alvim Itahim Garcia, do grupo Abadá Capoeira, diz a respeito de si mesmo: ninguém lá é perfeito. Ele lê este verso e começa a jogar sua capoeira dançada, uma negociação entre investidas e defesas. Mais (ou menos) do que uma luta, uma longa conversa de pernas e pés com seu oponente-parceiro.

Dele também, os versos de abertura do cordel Zumbi & Bimba:

É claro que não podemos
Nunca generalizar
A minha intenção não é
De querer polemizar
Pois todos têm liberdade
Pra sua versão contar

Ou, no cordel em que ele homenageia Mestre Camisa, fundador do grupo:

Como todo ser humano
Muitos defeitos tem
Como ninguém é perfeito
Ele erra muito também
Mas a sua intenção
É sempre fazer o bem

É uma distância grande em relação a, por exemplo, os contos de fada originados na Europa, onde um desfile de fracos-bons e fortes-ruins têm, depois de várias crueldades de parte a parte, seu destino modificado graças à intervenção sobrenatural. Ou aos contos hollywoodianos contemporâneos, que seguem o mesmo molde.

Lobisomem: Victor Alvim Itahim Garcia, do grupo Abadá Capoeira

Relatos populares têm finalidades precisas. São ensinamentos de sobrevivência e resistência para situações limites e, dentro dessa estratégia, são também instrumentos de integração universalistas. Neles, personagens locais se ligam a arquétipos universais e o indivíduo, eivado de estereótipos psicológicos e sociais – heróis, cenários específicos como encruzilhadas ou estradas, e um tempo colocado em um passado distante ou, no caso hollywoodiano um futuro igualmente distante – se transforma em um ator que exerce sua subjetividade como em um teatro. O problema é que tal linguagem anuncia a crítica e ao mesmo tempo a cancela. Ao se tornar uma encenação que se repete, mesmo se variando detalhes do rito, o relato mostrará uma crítica não mais sobre o poder que oprime o grupo social naquele momento, mas a partir de um poder, o do mito.

O que o sotaque brasileiro traz de interessante é que, ao tornar falível o bem e palatável o mal, não abre espaço para o conceito de que haja algo perfeito de antemão, algo que nós, humanos, devemos nos esforçar para alcançar e uma vez lá, não mais modificar. Sem perfeição à mão, entra obrigatoriamente a negociação.

Viva nóis.

 
Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras

Fonte: Aguarrás – http://aguarras.com.br/

Capoeira que tem sangue na veia…

Ninguém está livre de precisar de uma transfusão de sangue. Ninguém está livre de sofrer um acidente, de passar por uma cirurgia ou por um procedimento médico em que a transfusão seja absolutamente indispensável.
Como não existe sangue sintético produzido em laboratórios, quem precisa de transfusão tem de contar com a boa vontade de doadores, uma vez que nada substitui o sangue verdadeiro retirado das veias de outro ser humano.
Todos sabemos que é importante doar sangue. Mas, quando chega a nossa vez, sempre encontramos uma desculpa – Hoje está frio ou não estou disposto; nesses últimos dias tenho trabalhado muito e ando cansado; será que esse sangue não me vai fazer falta… – e vamos adiando a doação que poderia salvar a vida de uma pessoa.
Sempre é bom frisar que o sangue doado não faz a menor falta para o doador. Conseqüentemente, nada justifica que as pessoas deixem de doá-lo. O processo é simples, rápido e seguro.
 
Essas palavras do médico Drauzio Varela ilustram o trabalho de incentivo que a Associação Cultural e Educacional de Capoeira Filhos da Princesa do Sul vai começar a realizar a partir deste sábado em Cachoeiro de Itapemirim.
Uma parceria com o hemocentro do Hospital Evangélico vai possibilitar aos praticantes e simpatizantes dessa arte brasileira a por a mão na consciência e doar sangue. Esão de parabéns os mestres Paulinho, Airton e Volmir, junto com seus professores, instrutores e alunos, por essa iniciativa. E a FOLHA não poderia ficar de fora dessa, mesmo tendo apenas o papel de divulgação.
 
As pessoas que necessitam de transfusão podem contar somente com a solidariedade de pessoas. Através de um ato de amor ao próximo, que só tem quem tem sangue nas veias.
 
Em muitos casos, a transfusão é a única esperança de vida.
 
A doação é um procedimento totalmente seguro. O volume coletado é de aproximadamente 450 ml (padrão internacional), o que representa menos de 13% do total de sangue do corpo de um adulto.
 
O doador não estará se expondo a nenhum risco de contaminação
Ao contrário do que se acredita, a doação de sangue não engorda nem emagrece, não afina nem engrossa o sangue, além de não exigir mais doações.
Doar sangue é um ato humanitário que enobrece e traz uma satisfação interior muito grande. Afinal, através desse ato, sabemos quem tem sangue nas veias.
 
Folha do Espírito Santo – http://www.folhaes.com.br

A Capoeira e as Crianças: Renovação e Alegria

Hoje se comemora o dia da criança. Precisamos de data certa para comemorar quase tudo. Além de toda a festa e animação proporcionada pelo período, vem à mente daqueles que um dia também já foram crianças uma série de lembranças e saudades que somente quem as viveu sabe dá o devido valor.
 
Momentos únicos que não voltam mais. Amigos, lugares, estradas, objetos, situações que ficam guardadas em algum lugar confortável das nossas memórias.
 
Tempos bons àqueles onde não sentíamos o peso do mundo. As responsabilidades e desafios que o tempo joga nos braços de todos…
 
Fase em que tudo se torna superlativo, enorme… Onde o sentimento de proteção era evidente… Daqueles amigos de infância que hoje só guardamos aquela última imagem durante uma brincadeira… Onde estará aquela tranqüilidade, que surgia no fim de cada noite, sem ter nenhum “abacaxi” para se resolver no outro dia…?
 
                                     Ah… que saudade da infância!
 
Onde o sentimento de proteção era evidente… Daquela paixão de infância… Saudade de ser criança onde se faziam amizades de forma rápida e duradoura sem usar de critérios preconceituosos ou absurdos que os adultos possuem…
 
Tempos em que a maior preocupação era encontrar outro motivo para brincar ainda mais… Saudades de brincar no quintal do melhor amigo o dia inteiro e repetir tudo no outro dia… de subir em árvores mesmo com a bronca dos pais…
 
Mas nem todas as crianças usufruem dessas realidades de brincadeira e alegria.
Fome, abandono, abusos… formam o dia a dia de muitas crianças em todo o planeta.
Ao som de um berimbau, crianças que um dia estiveram nessa situação de estar às margens da sociedade, aos poucos estão recuperando o sentido de ser criança novamente.
 
A inclusão social, o bom andar acadêmico e o respeito com os pais são os reflexos mais visíveis.
 
A Capoeira integra. Faz com que a criança aumente significativamente seus laços sociais e perceptivos e toma consciência do fator coletivo do qual ela faz parte.
 
Muitos são os projetos por todo o planeta que usa a Capoeira como ferramenta para a inserção das crianças no meio social. Pais e responsáveis por essas mesmas crianças estão em crescente confirmação de que a ginga é uma via saudável de bem-estar e de aumento do ciclo de amizades.
 
Algo que é cristalino como a água: o fator de renovação da Capoeira por intermédio dessa meninada. O objetivo de sempre é buscar a consonância com a realidade, os caminhos por onde a Capoeira irremediavelmente terá que percorrer. A evolução que está sendo discutida, mais de forma parcial e com interesses em anexo, não contribui em nada para o real crescimento sustentável da nossa arte-brasileira.
 
O brincar de uma criança é a manifestação pura da nossa arte-ginga!
 
Movimentos, embalos e canções que nos leva a um passado nem tão distante de leveza e sentimentos naturais embasados num pensamento de criança.
 
                         Ah, que saudade da infância!
 
Tempos onde queríamos ser adultos e hoje queremos voltar a ser crianças. Paradoxo que ninguém explica. Talvez por vivermos neste “mundo cão”, resta-nos, às vezes, mergulhar em todo aquele mar de ótimas lembranças que jamais sairão da mente… Cheiros, visões, sensações, lugares que fazem parte de um passado, mas que parecem intactos no nosso presente…
 
Mas tudo ocorre em seu tempo…. Todas as fases da vida nos ensinam algo que irá repercutir em todos os campos da existência de cada um… Isso acontece comigo, com você, meu camarada! Ninguém foge desta regra natural! O tempo é o senhor de tudo e de todos! Não há vitória se tentar lutar contra ele… Porém, uma aliança de boa convivência é possível e necessária.
 
É sempre bom lembrar de coisas boas! E vamos lembrar que as crianças de hoje, serão os futuros detentores do conhecimento da Capoeira de um amanhã cheio de expectativas. Elas serão as mensageiras de uma esperança restaurada, de uma Capoeira livre de parcialidades ou cânceres de alguns interesses pessoais. Uma Capoeira consciente e renovada a cada geração! Sempre preservando a memória daqueles que fizeram da Capoeira uma arte reconhecida e lutando todos os dias contra a visão marginal que a luta cultural carregava e que ainda hoje tenta se livrar de algumas manchas que alguns trataram de depositar em nossa expressão de cultura…
 
Vamos utilizar a simplicidade das crianças e sustentar de forma ampla e definitiva os preceitos e objetivos do sempre crescer da nossa arte Capoeira!
 
Fiquemos com as crianças e não com as infantilidades na arte de lidar com as responsabilidades!
 
O desejo é único: Felicidades e pensamentos que formem opiniões para as nossas crianças! E que a Capoeira seja sempre o parque temático desse universo que sucessivamente ganha novas cores no olhar de cada criança ao pé do berimbau.
 
Abraços fraternos, camaradas!
 
Shion

O Mestre de Capoeira

Há dous mil anos te mandei meu grito
Que embalde desde então corre o infinito…
Onde estás, Senhor Deus ? …
(vozes da África, Castro Alves)


Na vida das Américas o Mestre de Capoeira –  negro ou não negro, mas imbuído dessa negritude própria da Capoeira – tem assumido o mister, diria ímpar de ajudar conduzi-lo, ao negro, a passar pelas dores das tantas feridas; aplacar às tantas  carências; vislumbrar um horizonte, não se sabe a que distância, mas capaz de não lhe deixar extinguir os vestígios de honradez e bondade; a capacidade de amar, tolerar e lutar. Dentre estas faculdades está a de cantar.
 
            O que é cultura? – Cultura, para Mestre Benício, "é a luta do homem para preservar o Mundo; e a tolerância do Mundo para conservar o homem". E explicava mais o diabo do sabido "africano":  "a primeira e mais permanente das manifestações culturais, é comer" e reafirmava redundante – "comer, comer de comida". E aduzia, olhar distante – "a segunda é cantar"; completava a sua lista, com a crença. "A crença é mais importante que a comida, – explicava – o homem tem na crença o último ato antes da morte: todos morrem agarrados na crença." Atravessando, João Pequeno clareava – "a crença! e não a fé. A fé é um aleijão! Fé é o único substantivo que não forma verbo" –  provava o "agnóstico".
 
           No meu lugar, região de criadouro de gado, as manifestações de África se juntaram às de mouros e cristãos; ciganos – de europeus em fim. A Capoeira ali deu lugar aos diversos tipos de samba, os chulou até o baião. Os vestígios de Capoeira eram "coisas" de meninos se exercitarem, sem nenhum conhecimento de importância; afora isto só histórias  – Histórias, curiosidades e desejos… Por que da zebra? …"a zebra é o animal tipo cavalo ou jumento que nunca  se amansa," assim ia até a "capoeira". A Capoeira não tem fim!…
 
            Mestre Benício se punha a falar dos  Mestres de Capoeira. Para tudo na África tinha seu mestre. O Mestre se confunde com a própria África e sua História. Hoje, o Mestre e o futuro do negro se confundem.. Citou muitos nomes, desde as lembranças de África:
 
–          "Analfabetos ou pouco-letrados, assumem o domínio do povo, de dentro e de fora da Roda. Os da Roda amam-lhes como a seus pais, os de fora passam a compreender-lhes; – se repetir a visita – passa a amá-los, quase sempre. Antes não dependiam das cidades, pós libertação são necessariamente urbanos-periféricos. Quase todos vivem num ambiente limitado; numa visão missionária, há os que imprimem viagem mundo afora. Conforto restrito, quase de pobreza material absoluta; de tão absoluta  suprem-na, no seu imaginário, com um encanto intelectual não se sabe de que origem; mas encanta, cativa, prende o interlocutor qualquer que seja. Aduziu mais algumas considerações a este perfil  e contou-nos da simbiose homem-arte-crença. – "Adquirem eles todo o orgulho do seu estado, da sua condição. Sabe, ou recebe dos seguidores, ser uma marca de superioridade do seu meio; uma marca de elevação, de supremacia, de predomínio, que nem um outro ser humano  consegue", e prosseguiu, impassível, não diria sádico, mas sem um gesto de dó – " na sua grande maioria, como que errantes, e os são, esguios pelos exercícios estafantes e o mau passadio; paupérrimos, ostentam, num diapasão de consciente prestígio, os valores da inteligência voraz, iletrada e bravia – senhora de si – apoiados na reverência dominadora, de um lado; de outro na crença que só é possível em quem julgar ser responsável por uma banda do Mundo". Depois de tecer explicações do caminho percorrido, ou a percorrer, cala-se um pouco e depois – "No passado muitos eram sapateiros, estivadores e tantos ferreiros, com forjas ordinárias no quintal acanhado da casa rota; alguns alfaiates – Mestres de Capoeira são vaidosos, gostavam de ostentar as mãos finas; hoje tantos são pedreiros, serventes, pequenos comerciantes, carpinteiros, tantos meros biscateiros. Os que têm (tinham) meios de vida, afora a Capoeira, a tudo abandonam, se um projeto lhe surge – viagens noutras paragens, no estrangeiro, nos navios, para "levar a tradição". Ao que,  depois de longo silêncio, João Pequeno, garimpeiro não negro, deu uma pitada: "Homens que não podem resistir à magia poderosa do canto, da luta, da exibição física e intelectual; para uns, eles (Mestres) vivem para encantar o público;  para eles mesmos – "quase uns visionários, …  não há alguém que mais acredite na sua atividade…", – pedindo desculpas devolve a palavra ao Mestre Benício, que vai falando, agora dos seus receios – "Das recompensas materiais, pouco se sabe, o que se vê é que são muito inferiores às alegrias que proporcionam; de visível é que tudo fazem pela fama, pelos comentários, os elogios, pela admiração do povo, de cada e após cada luta, cada apresentação continuam como antes, eu nunca quis saber  como chegam em casa, de mãos vazias, a cada dia; lhes contam  de seu – sempre queridos, cercados; trilhando soberbo e doce; na morada, afora grande acervo de áudio e vídeo – nada tem que passe de um mocambo, muitos vivem assim – "Eu gosto é de elogio e não de crítica" – diz cada um, com sinceridade absoluta.
 
            O medo – naquele ano Mestre Benício tinha viajado, foi queimar os minguados de alguns diamantes faiscados. Naquele lustro a bossa nova atingia o seu ciclo de vida, havia um burburim de sons e rítimos; a juventude a tudo contestava e os adultos – a nada davam importância, que não fosse estrangeiro. Dos transeuntes, corpos e roupas espalhafatosas – praça qualquer, de uma cidade qualquer. Para  a Roda, de rua: pessoas simples e seus instrumentos arcaicos em quantidade regular, prontos para a Roda, na espera dos Mestres, na rua é número incerto.  Ofertado, como a um ritual,  o momento de abertura ao Mestre mais velho, – solene e singelo – IÊ!…
 
            "Ninguém interrompe. Não há insulto, censura, pilhéria, desatenção. Há silêncio, silêncio não, as mãos batem palmas, obedecendo aos ditames do Mestre. Todos como se mamulengos fossem – atados nas mãos, nos olhares, nos gestos do Mestre. Ninguém na assistência  entende das canções quinhentistas, curtas, breves – só a música, a melodia imobilizando a todos. O primitivo berimbau imobilizando tantos jovens afeitos à instrumentação eletrônica. Vozes desencontradas, outras afônicas, mesmo porque raros são os Mestres que têm boa voz; dentre os da Roda poucos, ou ninguém conhece teoria de canto, ao contrário da assistência. Das vozes, desacordadas, de agradável sonoridade só o berimbau, o som de uma corda, encantado anulando o descompassar das vozes, coro piorado pelo participar dos visitantes." E prossegue o Mestre Benício falando do seu medo – "aquela juventude bem trajada uns, espalhafatosos tantos; homens e mulheres de roupas finas – um bando de incapazes se queixando da "ditadura" – pareceu-me estarem ali para vaiar, avacalhar, um frio na espinha… Que nada, enganei-me – todos ali, fazendo coro e batendo palmas… alguns até entraram na Roda só para cumprimentar o Mestre, de perto, abraçar, afagar, fotografarem-se. ALIVIO!, como se eu tivesse  algo a haver com aquilo." E arremata da última viagem – "felizmente vi, soube e até conversei, com alguns Mestres doutores, de anel no dedo, e olhe que todos novos, não me lembro de ninguém com mais de 50 anos, soube também de muitos nas universidades, como vi, eu próprio, muitos das universidades entrando na Capoeira…"
 
            Fogos na serra, ao longe, denunciava a chegada dos repentistas, Mestre Benício se apressa: – "Vocês já viram um vulcão? Mas sabem o que é, não sabem?!. "O vulcão não é o morrão, não é o buraco no centro dele, não é a lavareda de fogo que sai, não. O vulcão é tudo junto. É um dos equilíbrios da natureza. O vulcão não  se importa com quem está em baixo ou em cima, cumpre o seu papel. Sem ele pipocava fogo a qualquer hora, em qualquer lugar – no nosso quintal, na nossa casa…" e completou – "Assim é o Mestre de Capoeira é um dos elementos de equilíbrio das sociedades do Mundo. O negro é parte da sociedade, assim como a África é a parte mais importante do Mundo. Sem o negro e sem a África, viver-se-á assim, o fogo explodindo em todo lugar, a toda hora, ferindo, matando a qualquer um…. Até que o Mestre possa cumprir o seu papel" Assim falou Mestre Benício.
           
Andre Pessego, Berimbau Brasil, SP/SP

Projetozumbi@uol.com.br

 

Berimbau Brasil, SP/SP

Mestre João Coquinho

Luciano Santos Bispo – Mola

Luciano Santos Bispo, residente em S. Francisco do Conde, discípulo de Mestre Zé Dário, é um capoeirista muito especial. Vítima de Paralisia Infantil aos 7 meses de idade, guardou como seqüela paraplegia flácida dos membros inferiores. Aos 9 anos de idade, ainda sem andar em virtude da paralisia dos membros inferiores, entrou para a capoeira sob orientação do Mestre Zé Dário, em Sto. Amaro da Purificação /BA e aprendeu a jogar capoeira e a andar !

Em 09/12/2001 fomos conduzidos ao evento, cujo convite divulgamos adiante, pelo Mestre Zezo estranhamos o drapejar da calça dum rapaz durante um jogo de capoeira, apesar da movimentação aparentemente normal do atleta. Maior surpresa foi observar que, ao sair da roda, o rapaz auxiliava a perna direita com a mão, para aumentar a passada, denunciando assim uma deficiência motora.

Autorizados pelo Mestre Zé Dário, abordamos o "Mola" que nos revelou os detalhes da sua historia pessoal e nos deixou profundamente impressionados pela grandeza e importância do verdadeiro milagre que constatáramos: a criação, pela prática da capoeira sob orientação dum verdadeiro mestre, de circuitos nervosos vicariantes capazes de substituir as conexões nervosas medulares destruídas pela Paralisia Infantil.
 

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Menino, quem foi teu mestre?

Ouvi falar de Ângelo Augusto Decanio Filho pela primeira vez em 1997, ao assistir o documentário "Pastinha – Uma vida pela capoeira". Lá estava ele, sentado defronte ao computador e falando sobre como os dois capoeiristas se tornam um durante o jogo – o Transe Capoeirano.

Conheci o trabalho de Ângelo Augusto Decanio Filho no início de 2003, remando na internet atrás de boas fontes de informação sobre capoeira.

Clica daqui, clica dali, e esbarrei com o site "Capoeira da Bahia".
Fiquei ao mesmo tempo exultante e intrigado com a qualidade e a quantidade de material como tinha coisa boa de ler, e como diabos uma só pessoa poderia ter feito tudo aquilo ?
Seria ele um "polvo humano" com 8 braços para digitar ?

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O GAROTO DE JULIANE

A mensagem de Juliane é linda!

"Olá ! gostei muito da sua página, e gostaria de parabenizá-lo.
Gostaria também que você dissesse que em Juiz de Fora (MG) o grupo de capoeira Oficina da Capoeiragem está fazendo um ótimo trabalho com a capoeira, com direção do mestre Ray e do professor Kamuanga.
Gostaria também de dizer e mandar uma idéia para todos os outros capoeiristas:

" Ontem, dia 26/02/00, eu presenciei um exemplo de força de vontade para todos, principalmente os capoeiristas. Um garoto de cadeiras de rodas, com problemas mentais, entrando e jogando em um batizado.
Não levantava, não chutava, não dava au nem mortal, mas se protegia com a mão no rosto e quase não mexia os pés …
Bem, ele fez muita gente chorar quando disse:

"na capoeira ninguém pode ter preconceito
naquela roda não havia ninguém igual a ele,
mas também não tinha ninguém diferente."

E depois disso tudo que vi e vivi, mais vontade me deu de jogar e de um dia jogar uma "iuna" (roda para graduados). Sei que falta muito para mim, pois tenho 14 anos e estou na corda branca, mas um dia, eu sei, tenho fé em DEUS e em BIMBA, que irei conseguir.
Por favor fale ao menos do garoto, pois isso é verdade e uma lição de vida.

Juliane S. Machado ( da família de Bimba)
Juiz de Fora/ Minas Gerais
Oficina da Capoeira
juebinho@powerline.com.br

Obrigada !!!!!"

demonstra nitidamente a euforia, o estado de felicidade plena que a prática da capoeira provoca em todos nós; a mudança do nível de consciência, o estado modificado de consciência que o ritmo-melodia ijexá provoca e que pode e deve ser usado como terapia.

Menina Juliana,
Deus lhe conserve
O dom de amar ao próximo
A humildade de ver em tudo o dedo do Senhor!
Você já nasceu capoeirista pela lei de Deus!
Um dia será formada pela lei dos Homens
Jogará sua "Iuna" na Roda da Vida
Com o aprumo da Mestra que mora em Você!

Axé Babá!

Luciano Santos Bispo – Mola

Luciano Santos Bispo, residente em S. Francisco do Conde, discípulo de Mestre Zé Dário, é um capoeirista muito especial. Vítima de Paralisia Infantil aos 7 meses de idade, guardou como seqüela paraplegia flácida dos membros inferiores. Aos 9 anos de idade, ainda sem andar em virtude da paralisia dos membros inferiores, entrou para a capoeira sob orientação do Mestre Zé Dário, em Sto. Amaro da Purificação /BA e aprendeu a jogar capoeira e a andar !

Em 09/12/2001 fomos conduzidos ao evento, cujo convite divulgamos adiante, pelo Mestre Zezo estranhamos o drapejar da calça dum rapaz durante um jogo de capoeira, apesar da movimentação aparentemente normal do atleta. Maior surpresa foi observar que, ao sair da roda, o rapaz auxiliava a perna direita com a mão, para aumentar a passada, denunciando assim uma deficiência motora.

Autorizados pelo Mestre Zé Dário, abordamos o "Mola" que nos revelou os detalhes da sua historia pessoal e nos deixou profundamente impressionados pela grandeza e importância do verdadeiro milagre que constatáramos: a criação, pela prática da capoeira sob orientação dum verdadeiro mestre, de circuitos nervosos vicariantes capazes de substituir as conexões nervosas medulares destruídas pela Paralisia Infantil.

As fotografias seguintes mostram a gravidade da atrofia dos membros inferiores e da pelve decorrentes das lesões medulares provocadas pela paralisia infantil.

Foto – 1

Foto – 2

Nesta segunda foto podemos evidenciar a desproporção entre o tórax e o conjunto de bacia e membros inferiores, sendo notáveis as dimensões das mãos em relação aos pés. O amor do Mestre Dário pela capoeira e a dedicação à formação moral dos seus alunos evidencia-se no convite para o evento em pauta que reproduzimos a seguir.

Destacamos mensagem de cidadania veiculada no convite acima, demonstrando que o amor do verdadeiro Mestre pelo Filho-Aluno é o fundamento da Roda de Capoeira e da Sociedade.

Do relato acima concluímos que a Capoeira da Bahia é um instrumento precioso na formação do cidadão e apresenta uma gama extensa de aplicações médicas, psicológicas, pedagógicas e sobretudo, pela modificação da conduta ante estressores (Agentes nocivos, noxas, capazes de conduzir ao estresse ou reações de alarme), auxilia a reduzir o perigo deste "assassino silencioso", capaz de matar ou aleijar a longo prazo sob rótulos diversos (infarto do miocárdio, hipertensão arterial, quadros mentais depressivos, cansaço, exaustão, entre outros).

A compreensão do mecanismo pelo qual a capoeira aumenta a autoestima, acalma, educa as reações aos estímulos ambientais, aumenta as conexões e circuitos neuronais, enriquecendo o "Ser" com recursos capazes de torná-lo mais feliz e autoconfiante, certamente permitirá que os especialistas detectem novas aplicações para os conceitos acima expostos.

O conteúdo emocional do tema e sua repercussão na construção da personalidade do praticante torna-se evidente numa mensagem que recebemos da garota Juliane:

"Olá! gostei muito da sua página, e gostaria de parabenizá-lo.
Gostaria também que você dissesse que em Juiz de Fora (MG) o grupo de capoeira "Oficina da Capoeira" está fazendo um ótimo trabalho com a capoeira, com direção do mestre Ray e do professor Kamuanga.
Gostaria também de dizer e mandar uma idéia para todos os outros capoeiristas:
Ontem, dia 26/02/00, eu presenciei um exemplo de força de vontade para todos, principalmente os capoeiristas. Um garoto de cadeiras de rodas, com problemas mentais, entrando e jogando em um batizado. Não levantava, não chutava, não dava aú nem mortal, mas se protegia com a mão no rosto e quase não mexia os pés…
Bem, ele fez muita gente chorar quando disse: "Na capoeira ninguém pode ter preconceito!"
Naquela roda não havia ninguém igual a ele, mas também não tinha ninguém diferente! E depois disso tudo que vi e vivi, mais vontade me deu de jogar e de um dia jogar uma "iuna" (roda para graduados).
Sei que falta muito para mim, pois tenho 14 anos e estou na corda branca, mas um dia, eu sei, tenho fé em DEUS e em BIMBA, que irei conseguir.
Por favor fale ao menos do garoto, pois isso é verdade e uma lição de vida.

Juliane S. Machado (da família de Bimba)
Juiz de Fora / Minas Gerais
Oficina da Capoeira"

Frases e Citações

Frases e Citações da Capoeiragem

 

“Mandinga de escravo em ânsia de liberdade, seu princípio não tem método e seu método é inconcebível ao mais sábio dos mestres.”

Mestre Pastinha


 

“A Capoeira, tem origens e raizes africanas…seu ventre, sua mãe… é conhecida como cultura negra… seu pai a liberdade… mas nasceu e foi criada no Brasil, algures no reconcavo Baiano… cercada de malandragem e brasilidade… quando jovem foi rebelde, mal vista, perseguida… na adolecência se desenvolveu, cresceu… ganhou o mundo e respeito… tirou o seu passaporte…
Hoje, mais madura esta presente em todos os lugares… nos quatro cantos do mundo e tem o orgulho de dizer SOU BRASILEIRA.”
Salve a Capoeira…

Luciano Milani


 

“Capoeira é luta de bailarinos. É dança de gladiadores. É duelo de camaradas. É jogo, é bailado, é disputa – simbiose perfeita de força e ritmo, poesia e agilidade. Única em que os movimentos são comandados pela música e pelo canto. A submissão da força ao ritmo. Da violência à melodia. A sublimação dos antagonismos.
Na Capoeira, os contendores não são adversários, são ‘camaradas’. Não lutam, fingem lutar. Procuram – genialmente – dar a visão artística de um combate. Acima do espírito de competição, há neles um sentido de beleza. O capoeira é um artista e um atleta, um jogador e um poeta.”

Dias Gomes


 

” A capoeira não tem credo, não tem cor, não tem bandeira, ela é do povo, vai correr o mundo”.

Mestre Canjiquinha


 

“A Capoeira é um organismo vivo, ela evolui de acordo com as suas necessidades”…

Mestre Camisa


 

“Ninguém pode mostrar tudo
o que tem as entregas e revelações.
Têm que ser feito aos poucos. Isso serve
na capoeira, na família e na vida. Há momentos
em que não podem ser divididos com ninguém e
nestes momentos existem segredos que não
podem ser contados as todas as pessoas”. – 10/10/1980

Mestre Pastinha


 

“Capoeira é arte, sabedoria, conhecimento e cultura de um povo oprimido que encanta tanto os pobres quantos os ricos”. 15/06/05.

Marcelo Lampanche