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Belo Horizonte: II Encontro Feminino de Capoeira

Evento aconteceu em dois pontos da capital mineira

Neste fim de semana, Belo Horizonte recebeu o II Encontro Feminino de Capoeira. O evento é foi realizado em dois pontos da capital mineira e oferece programação voltada para a prática do esporte, mas com treinamentos, palestras e apresentações de capoeira durante todo o dia.

As atividades de sábado aconteceram no Point Barreiro e no domingo na Praça do Papa, onde aconteceu um aulão de capoeira com o tema “Não Jogue Lixo na Praça, Jogue Capoeira”.

Durante o período de aprendizado, capoeiristas de todas as idades, divididos em equipes, foram identificadas pelas cores da reciclagem e farão arrastão de limpeza na praça. Cada equipe tem seu lixo pesado e as informações são lançadas em um relatório com o objetivo de identificar os tipos de materiais de lixo mais encontrados e sugerir locais apropriados para sua destinação.

 

Programação

Sábado – Point Barreiro

09h às 12h30 –  Abertura: Papoeira – Dinâmicas e palestras;
12h30 às 14h – Horário de almoço;
14h às 17h – Treino de Capoeira com Professoras convidadas: Juma e Trilho;
19h – Noite “Capoeira Meninas de Minas”

Domingo – Praça do Papa

9h – Aulão na Praça do Papa

Crônica: “Iê” (*) – VIVA MEU MESTRE!

A Capoeira passa, nos últimos 20 anos, por uma expansão significativa: no Brasil cresceu, verticalizou  ao chegar na Universidade; no mundo, começa a horizontalizar.
 
A expansão  que resumimos, e mesmo por conta do crescimento vegetativo vem dar  margem à graduação de um maior número de Mestres. Neste avanço também   desponta o interesse e o envolvimento  comercial, aliás para expandir precisa criar um mercado. E como está o Mestre? A figura do Mestre? – vamos dizer assim do “Mestre dos novos tempos?” – aí é que nos interessa: A relação do  “capoeira” com o Mestre, e vice-versa.
O elemento motor da Capoeira,  é o Mestre. “O Mestre é uma marca de elevação, de supremacia, de predomínio, que nenhum outro ser humano consegue”, analisa  Mestre Benício.  E, é verdade: toda  relação de obediência   pressupõe uma troca que  traga um ganho, ou afaste um medo. Mesmo nas relações com Deus está escancarada a troca de qualquer favor ou fervor – pela salvação da alma; nas enfermidades – pela  cura, etc.; para com o feiticeiro – aquela mistura meio-deus/homem/diabo, dono de forças, situadas entre o divino e o temporal; entre o ético,  e o safado – a obediência   estava na base das  trocas de mesmo calibre: da  boa colheita, um bom emprego;  até à volta da mulher amada –  traidora,  corneadora  há  tanto tempo, mas gostosa.  Nas relações de Estado, não existe opção; nas relações de emprego, idem. Entre “os capoeiras” e o Mestre, não pressupõe troca alguma. Por que? –  Antes, porém: em que se apóia o Mestre de Capoeira para ser guardião de obediência, inclusive de quem não conhece?
 
-Na FAMA, se apóia na fama. Acho a explicação mais plausível. Se não, vejamos.
 
-“A superioridade cria inimigos”, este o mais geral princípio da guerra.
As relações entre o Mestre de Capoeira e os seus, é o ato mais voluntário dentre todas as relações humanas, (fora das relações estritamente familiares).  O capoeira orgulha-se em  reconhecer, delegar superioridade a “seu”  Mestre. Cada um  orgulha-se da fama do “meu” Mestre. Cada um  satisfaz-se, obediente, diante de um número qualquer de outros Mestres: Sem que haja o pedido da salvação da alma, o medo do inferno; ter de volta a namorada que outro tomou. Não há pedido, nem a expectativa de troca alguma.
 
-Dos Mestres, num encontro com tantos, não se espere mais que alguns minutos  do
saudar,  as alfinetadas, mútuas:  delicadas, sutis, maliciosas. Para que? – para atingir a FAMA do outro. Pela exibição intelectual. Nunca por superioridade, no sentido clássico. Sempre foi assim, mesmo antes das cordas e cordões, (que são novatos).
 
-Observa-se uma certa preocupação, por  “Mestres dos novos tempos” e até por
outros mais veteranos “em ser igual”, em “se mostrar igual” aos da Roda. Não! Não é. Nem pode  ser. Vejamos este exemplo, distante, mas serve como referência: Quando milhões de católicos conferem ao PAPA o seu grau de elevação, o fazem livremente. O Papa deixa de ser igual a outro padre, a outro bispo, etc. Dentre aqueles fiéis, quando alguém deixa de ser católico,  não lhe é imposta pena nem uma. Também o Papa não deixa de ser o Papa.
 
-Todo Mestre de Capoeira transita com a desenvoltura de qualquer um, em qualquer
lugar,. Mas não é igual:  ele recebeu a delegação, a autoridade,  “para não  ser igual”. Quando alguém resolver “sair”, romper o pacto,  o faz…. Mas, o Mestre continuará . E o pronome  “meu” é apenas um referencial: O Mestre é o Mestre, conquistou o título e recebeu a delegação para exerce-lo, se assim se pode dizer. Cada “capoeira” guarda o orgulho da superioridade do seu Mestre. Só assim continuará a Capoeira – encanto da alma.
 
-Por que choras Manavane? – Estou velho não posso cantar. – Tu gostas de cantar?
Perguntei-lhe num esforço, sem saber como agrada-lo. Imaginei-o cansado. O observava desde cedo. Eram cerca de 200 pares de dançarinos e numero incerto de guerreiros. Todo par ao entrar na dança passava diante do velho: afastavam-se dos corpos e lhe abriam os braços. O velho às vezes fazia um gesto, na maioria dos casos nem os olhava.  Os guerreiros cruzavam os braços e paravam por um instante na sua frente, às vezes em fila, às vezes individualmente… Ele me olha, pareceu-me tomado de cuidados comigo, e respondeu-me:   –  “Quando o preto canta, Chicuembo repousa… (Deus descansa).
 
-Crônica de um dos raros sábios portugueses que foi à África em data incerta, (talvez
fins do Séc. VI) narrando como   aquele povo obedecia à figura do Mestre. Aquele velho era um Mestre, o mais velho. Enquanto, por cansaço, ou por vontade, não ofertasse a outro Mestre, o lugar,  todos lhe rendiam reverências. E ele lembra que a figura do Mestre era igual em todos os lugares. Na Europa também o havia sido, dos ofícios às culturas.
 
(*) O “IE” entre aspas, indica que foi dito pelo Mestre, privativa do Mestre.
 
 
André Pêssego
Berimbau Brasil – SP/SP Grupo de Mestre João Coquinho.

São Bento na Capoeira

 
Crônica fazendo uma analogia entre "São Bento" e a Capoeira
 
 
Papa Bento XVI e
 
SÃO BENTO dA CAPOEIRA

"Canarinho da Alemanha, quem matou meu curió?"
 
"O segredo da Lua quem sabe é o clarão do "Só"
 
 
Na volta que o mundo deu, na volta que o mundo dá, eis que temos um novo papa, o Senhor Cardeal Joseph Ratzinger, alemão de nascimento.
 
De uma associação de idéia banal, relacionando um canto tradicional da capoeira ("Canarinho da Alemanha") com a nacionalidade do novo Papa, surgiu uma associação bem mais profunda. Afinal, os capoeiras não poderão deixar passar sem registro esta feliz escolha de nome – Papa Bento XVI – que, quase que naturalmente nos transporta para o velho São Bento da Capoeira.
 
Até porque, outra curiosa coincidência, o tema Capoeira & Religiosidade está na ordem do dia.
 
De pronto, com exceção do católico praticante, os praticantes das demais religiões, especialmente das religiões de origem africana, perguntarão:
 
– Mas por que São Bento?
 
Quando o velho e saudoso Mestre Caiçara cunhou a frase "roupa de homem não dá em menino", talvez não tivesse percebido a sua grandeza total, já que a frase serve também para o mundo religioso. Os ritos afro-brasileiros, por exemplo, praticamente nasceram juntos com a Capoeira Brasileira. Merecem, merecerão sempre, respeito, admiração e prioridade quando o assunto for Capoeira e Religião.
 
Estamos atentos a esta "obrigação", vários artigos virão a respeito, inclusive, sempre que possível, estaremos lembrando a importância de todo e qualquer evento capoeirístico nacional e internacional, realizado no Brasil, incluir uma visita a um Ilê, a uma Roça ou a um Terreiro. Já escrevemos sobre isto, sugerindo que os eventos internacionais que estão sendo programados para Salvador, Bahia, no fim do ano, não só trabalhassem em conjunto, como incluíssem na programação (se possível única) uma visita a um candomblé. Sendo o mais cotado, adiantamos no artigo de então, e adiantamos agora, ainda de acordo com a frase de Mestre Caiçara, será, certamente, o internacionalmente conhecido Ilê Axé Opô Afonjá, da ialorixá Mãe Stella de Oxossi (Maria Stella de Azevedo Santos). Ainda em Salvador, Bahia, longe de esgotar uma longa lista, nós lembraríamos a Mansão do Caminho, que segue uma outra linha religiosa, fazendo um trabalho comunitário absolutamente extraordinário.
 
Não fosse fugir demais ao tema deste artigo, daríamos exemplos em vários outros estados e até mesmo por toda América Latina, do Uruguai a Cuba, no Caribe.
 
Mas voltemos ao nosso Senhor São Bento.
 
Em 1999, em uma de nossas visitas à academia de Mestre Jequié, discípulo do angoleiro Paulo dos Anjos, em Ubatuba, São Paulo, dele recebemos uma preciosa fita K-7 de presente. Uma espécie de mini-documentário, elaborado por mestre Damionor Ribeiro Mendonça (à esquerda, na foto com Mestre Artur Emídio). Parte do documentário tratava exatamente do tema "Capoeira & São Bento".
 
Damionor Mendonça foi um dos responsáveis pelo processo de institucionalização da Capoeira, mais especificamente para que a Capoeira fosse reconhecida como arte marcial e como esporte. Artur Emídio foi quem preparou Mestre Mendonça, como preparou também – e muito bem! – os mestres Paulo Gomes, Celso da Rainha e tantos outros.
 
Mendonça produziu, e continua produzindo, diversos documentos, sob a forma de textos e gravações em K7, sobre temas correlatos à nossa Capoeiragem. Vamos a alguns deles:
 
Livro "A ética na Capoeira"
Jornal "O Berro"
"Cantos de Roda" (Livreto e fita K7)
Histórias da Capoeira (conjunto de crônicas)
São Bento na Capoeira (fita K7).
Na fita K7 sobre "São Bento na Capoeira" Mestre Mendonça faz uma análise sobre a importância – e possível relação – de São Bento com a Capoeira e com os Capoeiristas. Segundo Mendonça argumentos que permitam tal análise é o que não faltam, pois vão desde cantos (chulas, ladainhas, corridos e louvação), toques de berimbau e estilos de jogo (São Bento Grande, São Bento Pequeno, São Bento Amarrado, São Bento Repicado, São Bento de Angola), até mesmo a associação do capoeira com a cobra. Lembrando que São Bento nos protege da picada de cobra, sendo que, na Capoeira, a cobre pode, simbolicamente, ser assemelhada a nosso camarada não tão bem intencionado.
 
Curiosamente, mas não por coincidência, ao ouvirmos o CD de Capoeira Angola do saudoso Mestre Gerson Quadrado "Encanto Banto num Recanto da Ilha", de entrada o mestre pergunta quase repreendendo:
 
 
"Vocês conhecem São Bento?
 
Vocês não conhecem São Bento?
 
Ôche! É capoeira e não conhece São Bento?.."
 
 
Conversando com Mestre Jaime de Mar Grande, um dos grandes responsáveis pela reintegração de Mestre Gerson Quadrado a Capoeira, ele nos confidenciou que Gerson Quadrado era devoto de São Bento, sendo que São Bento é o protetor do Capoeira.
 
Havendo ou não relação entre São Bento e Capoeira, o que podemos dizer é que, ao se achegar ao pé do berimbau, nunca deixamos de fazer nossa prece para que o santo não deixe de proteger.
 
 
"Valha me Deus Sinhô São Bento
Vou jogar meu barravento
 
Valha me Deus Sinhô São Bento
 
Buraco veio tem cobra dentro"
 
 
Voltemos ao início para finalizar. Aproveitando que nossa nova Santidade o Papa assumiu o codinome de Bento XVI, vamos pedir para que ele nos dê sua proteção, para que a Capoeira do Brasil alcance, finalmente, um lugar ao Sol. E que consigamos ver desvendados, mesmo que tardiamente, os mistérios que envolvem os programas de capoeiras patrocinados pelo Governo Federal, muito especialmente este intrigante e ambicioso Programa Nacional e Mundial de Capoeira!
 
Sendo o Senhor Ministro da Cultura, Administrador Gilberto Gil, um filho de Xangô, o Orixá da Justiça, há chance deste milagre acontecer.
 
Valha-nos Deus, Senhor São Bento!
 
 
Miltinho Astronauta
 
 
Jornal do Capoeira
Piracicaba, Maio/05