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Amazonas: Capoeirista vende “quase” tudo para competir no Brasileiro

Lucas (centro) vendeu eletroeletrônicos para viajar – foto: arquivo pessoal

Algumas pessoas cometem loucuras para ir a um show, comprar ‘aquela’ roupa ou realizar a viagem dos sonhos. No caso de Lucas Urquizes, 18, vender quase tudo o que tem foi a saída encontrada para representar o Amazonas no 16˚ Campeonato Brasileiro de Capoeira, de quinta-feira à sábado (5 a 7), em Belém (PA).

“Já vendi celular, notebook e emprestei dinheiro dos familiares. Até agora, arrecadei R$ 500 para as passagens (ida e volta), que custam R$ 1.600 por causa do feriado prolongado”, disse. Além dele, mais dez atletas de Manaus estão classificados para a competição, porém, esbarram na falta de recursos para garantir presença.

“Não vamos nem pela premiação, mas pela vontade de representar o Amazonas, que nunca ficou fora dessa competição”, disse o pentacampeão estadual.

Segundo o diretor-técnico da Federação Amazonense de Capoeira (FAC), mestre ‘Chaguinha’, 61, a pretensão era levar o grupo completo de capoeiristas. “A capoeira é um patrimônio cultural brasileiro e somos bicampeões (2008 e 2012). Já conseguimos passagem para mais longe. Não acredito que não iremos conseguir, pelo menos, duas para ir ao Estado vizinho”, lamentou.

Fonte: http://www.emtempo.com.br/

De Zumbis a Zumbi dos Palmares

ZUMBI dos Palmares

Neto de uma princesa do Congo, ele nasceu em 1655, no Quilombo dos Palmares. Aos 23 anos, tornou-se líder do povoado, que virou o grande foco de resistência dos negros á escravidão. Mas o mérito não foi apenas de Zumbi.

Palmares foi ajudado por um conflito que distraiu os portugueses.

A Invasão Holandesa em guerra com a Espanha, que era dona de Portugal, os holandeses começaram atacar o Brasil em 1630. Isso atrapalhou a repressão a Palmares e soltou milhares de escravos. Os holandeses não ficaram por aqui.

Mas aprenderam o bastante para se tornar uma potência colonial. Que chegaria ao que com Guilherme 3° em 1688, rei da Holanda invadiu a Inglaterra com seu exército. Assumiu o trono e partiu para cima da França, na chamada guerra dos Nove Anos. Não deu muito certo.Tanto que,em 1697, Guilherme 3° decidiu fazer
acordo de paz,cedendo aos franceses parte de uma ilha no Caribe.

Que ganharia o nome de Haiti ele logo se tornou campeão na produção de açúcar e também na escravidão. Mas, aconteceu la maior revolta de escravos da história do mundo. Os negros conquistaram independência e expulsaram os brancos do país. Isso fez com que Haiti desenvolvesse uma cultura quase 100% africana.

Cuja lenda mais célebre são os Zumbis os haitianos acreditam que os bruxos são capazes de ressuscitar os mortos e transformá-los em zumbis (“espíritos”) Daí o nome dado a Zumbi dos Palmares, que tinha fama de sobrenatural.

Os escravos só aceitaram que ele estava morto quando sua cabeça decapitada foi separada do corpo. Como os zumbis dos filmes.

 

Fonte: http://www.rabodearraia.com/capoeira/blog/  – Revista Super Interessante

A mão que afaga é a mesma que apedreja – Ascensão e decadência do trio elétrico

Fim do século XIX, a Bahia testemunha uma mudança de costumes na sua maior festa popular. Estou me referindo ao nascimento do carnaval e à morte do entrudo. Se o preconceito e a segregação social além da violência física eram as notas destoantes desta manifestação de origem portuguesa, o carnaval recebe este dote como herança e até intensifica o seu caráter hierarquizado concebendo, porém, novos paradigmas lúdicos, estéticos e capitalistas. No entrudo, negros “brincavam” ao lado de brancos, e estes podiam atingi-los com as famosas laranjinhas, farinhas, água fétida e toda a sorte de armas podres, enquanto aqueles só poderiam fazê-lo entre si. Já no carnaval do início do século XX, a “inconveniente” presença dos afrodescendentes e pobres foi alijada do nobre circuito do corso, (onde o préstito trazia a “nata” da sociedade baiana em suntuosos desfiles), e nem sequer imaginada nos seletivos bailes dos salões do Teatro São João, Teatro Politeama, Cruz Vermelha e Fantoches da Euterpe. Formaram-se (a exemplo de hoje) dois circuitos distintos no carnaval de Salvador.

Na Rua do Palácio (hoje Chile) acontecia bem comportado o desfile eurocêntrico dos citados clubes e na Baixa de Sapateiros a farra de entidades negras como Guerreiros d´África, Embaixada Africana, Pândegos d´África, evocando e reverenciando suas origens. Dentro deste contexto é que surge em 1950 um elemento que vem promover uma mudança radical na forma de se brincar o carnaval: o trio elétrico. Fruto da musicalidade baiana vindo através da genialidade inventiva da dupla Dodô e Osmar, ele é concebido no início da década de 50. Esta genial criação mais tarde viria a se tornar a marca registrada do carnaval de Salvador, e modificaria por completo e para sempre a estrutura da folia. Sem pedir licença, de forma irreverente e tendo um forte compromisso com a alegria, a dupla Dodô e Osmar à revelia de tudo e todos destrói o “status quo” vigente e decreta a democracia no carnaval através da participação coletiva simultânea onde negros e brancos, ricos e pobres tinham algo em comum: pulavam atrás do trio.

Como bem colocado pelos seus próprios criadores referindo-se à multidão que o acompanha, “pula gente bem, pula pau-de-arara, pula até criança, e velho babaquara” ou mais sinteticamente como Caetano “atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”. Este caráter libertário e unificador lhe confere a primazia de efetivamente ter uma atitude conseqüente contra o preconceito e a segregação social e racial no nosso carnaval ainda que não de forma intencional, pois, o único objetivo dos seus criadores era o entretenimento pessoal e a diversão da massa.

A preferência por essa nova forma de se brincar no outrora plural carnaval de Salvador veio se acentuando a partir da década de 50 atropelando tudo e todos que não se rendessem aos seus acordes contagiantes. Entidades carnavalescas como Escolas de Samba, Blocos de Índio, Afoxés, Cordões e Batucadas foram gradativamente se não extintas, quase desaparecidas. Sua atuação quase hegemônica, monopolizando a preferência e atenção popular e divulgando nacionalmente o carnaval de Salvador, veio em fins da década de 70 e início de 80, aprisioná-lo nas cordas dos blocos que já vislumbravam o seu poder como elemento facilitador de apropriação de capital. Estes, em seu favor, abdicaram no tradicional sopro e percussão, iniciando um processo no qual o trio passaria a ser uma propriedade particular, reconduzindo às ruas uma hierarquia social, econômica e racial perdida no tempo, contribuindo sobremaneira para a atual privatização desregrada do espaço público. O trio libertário, servo e promotor do prazer, passou a ser refém da sua própria alegria e reescreveu a história dividindo de novo os foliões que outrora ele juntou num caldeirão de euforia, em associados e pipocas, pobres e ricos, negros e brancos. Virou passarinho cantando na gaiola para quem poder pagar mais.

Dentro desta lógica capitalista, os antigos grilhões por ele arrebentados na década de 50 são, por seu intermédio, recolocados no povo. O trio ocupou o lugar de agente da discriminação, da segregação e do preconceito a serviço das elites econômicas e seus “podres poderes” legalmente constituídos. Perde o significado a assertiva de Moraes Moreira, quando este diz em uma das suas composições em comemoração aos 25 anos do trio, se referindo ao nosso carnaval “É o lugar do mundo inteiro que se brinca sem dinheiro, basta só existir e na vida passar um Trio Elétrico de Dodô e Osmar”. A cor da pele, a posição social, endereço nobre (ou pobre) voltaram a fazer diferença. A alegria do trio agora tem preço (caro) e nome: Eva, Cheiro de Amor, Camaleão… Ele que antes era do povo, para o povo e pelo povo, hoje é classificado como “de bloco” e “independente”. Independente… Porreta essa!!! É de fazer Dodô e Osmar se arrepiarem e revirarem no túmulo.

Início do século XXI, o “agente da alegria”, refém (sem direito a resgate) do poder econômico, massifica uma padronização estética que empobrece e privatiza a festa e sufoca, ou melhor, aniquila a criatividade popular. Esta padronização é responsável pelo que o Profº Joaquim Maurício Cedraz Nery chama de militarização do carnaval, que se caracteriza pela presença do uniforme (abadá), da quase uniformidade do ritmo (axé, pagode), das evoluções coreografadas no percurso, da posição na fila e revezamento do comando (mesmos “cantores” atuando em todos os “regimentos”, digo, blocos). Este novo modelo de carnaval tem no turismo seu mais recente e rentável filão econômico, um promissor caminho para a sua esclerose e autofagia.

Pois é leitores, o paraibano Augusto dos Anjos (chamado o poeta do mau gosto) está coberto de razão quando diz: “O beijo, amigo, é a véspera do escarro, a mão que afaga é a mesma que apedreja”. Está aí o trio elétrico que não lhe deixa mentir… Já se disse que o mundo dá voltas, que a história se repete, é cíclica etc., e nós estamos vivos para testemunhar mais uma vez o povo ser usurpado de mais um patrimônio cultural em favor da elite. Pobre folião de Salvador. Pobre carnaval da Bahia!

* O professor Acúrsio Esteves pertence ao quadro da Secretaria Municipal de Educação, Cultura, Esporte e Lazer de Salvador – SECULT, e também leciona na Universidade Católica do Salvador

Mande também o seu texto, foto, áudio ou vídeo sobre o Carnaval da Bahia. Pode ser para expressar sua paixão pela festa, mostrar histórias de outros anos ou indicar problemas da folia. Participe!

Acesse: http://www.atarde.com.br/carnaval/foliaoreporter/index.jsf

Os nossos verdadeiros Heróis

A capoeira, como se sabe, está presente em mais de 150 países no mundo todo. É motivo de grande orgulho para todos nós, brasileiros, vermos a nossa cultura, a nossa língua e a nossa história, serem motivo de respeito e admiração por parte de todos aqueles que de alguma forma, conhecem e reconhecem essa nossa nobre arte pelos quatro cantos do planeta, onde quer que ela se encontre.

Mas a capoeira é motivo de orgulho, sobretudo, para todo o povo oprimido do Brasil: os negros escravos e seus descendentes, os analfabetos, os pobres e miseráveis, os espoliados, os sem-terra, sem-teto, sem-educação, os índios, os trabalhadores, enfim, todos aqueles que ajudaram a escrever a história do nosso país, mas que sempre foram vítimas de preconceitos e discriminações, que sempre foram explorados, marginalizados, violentados, perseguidos e humilhados, separados da dignidade humana por esse abismo social que divide a injusta e excludente sociedade brasileira.

O que antes era vista como coisa de vagabundos, de vadios e marginais, hoje é reconhecida como Patrimônio da Cultura Brasileira, título que a capoeira recebeu recentemente do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). E mais do que isso, está presente como tema de numa enorme quantidade de teses e dissertações nas universidades do Brasil e do mundo, em livros, filmes, discos, revistas, obras de arte, enfim como uma importante referência para todas as áreas do conhecimento humano.

Mas o mundo deve esse legado a quem ?

Justamente aos marginalizados desse país: os negros, quase negros ou quase brancos, os pobres marginalizados, analfabetos, os perseguidos pela polícia, arruaceiros, desordeiros, valentões e artistas da fome. Foram eles que lutaram bravamente para que essa cultura fosse preservada, para que a capoeira resistisse a uma violenta perseguição por parte dos poderes constituídos, sendo até considerada como crime pelo Código Penal Brasileiro durante quase quatro décadas. Foram esses sujeitos despossuídos que garantiram que a capoeira chegasse até os nossos dias, e alcançasse o respeito e a dignidade em todo o mundo. Devemos isso a eles !!!

Por isso, o povo simples e marginalizado do Brasil, deve estufar o peito e sentir orgulho de saber que a capoeira – hoje um dos maiores símbolos da cultura brasileira no mundo – é a sua herança, é o seu passado, é a sua tradição e a sua dignidade. É a cara e o rosto dos nossos heróis, que infelizmente, ainda não estão nos nossos livros de História, que não são lembrados nas escolas, que ainda não são louvados e reconhecidos pela memória nacional. Mas cabe a nós, sujeitos envolvidos de alguma forma com a prática e a divulgação da capoeira pelo mundo, lutarmos para que essa memória e para que esses sujeitos sociais sejam valorizados  nesse país que precisa aprender a respeitar a sua própria história, sobretudo a história do nosso povo simples e marginalizado. São eles os nossos verdadeiros heróis !!!

 

Pedro Abib (Pedrão de João Pequeno) é professor da Universidade Federal da Bahia, músico e capoeirista, formado pelo mestre João Pequeno de Pastinha. Publicou os livros “Capoeira Angola, Cultura Popular e o Jogo dos Saberes na Roda”(2005) e “Mestres e Capoeiras Famosos da Bahia”(2009). Realizou os documentários “O Velho Capoeirista” (1999) e “Memórias do Recôncavo: Besouro e outros Capoeiras” (2008).


Coluna: “Crônicas da Capoeiragem” por Pedro Abib

Mais um envolvente texto da Coluna Crônicas da Capoeiragem, sob a tutela do nosso grande camarada e parceiro, Pedro Abib, enfocando histórias, casos, experiências, opiniões, críticas, enfim, um texto de uma lauda sobre o universo da capoeiragem.

Crônica: O MESTRE DE CAPOEIRA

"…a cobra não tem braços,
  não tem pernas, 
  não tem mãos e não tem pés,
  e como ela sobe e não subimos nós…." 1.     
Aquela era uma noite de festas  um tanto profano, um tanto religioso: a antepenúltima noite  das esmolas do Divino. Os presentes em tudo variado: das distâncias;  das idades; dos cabedais. Mestre Benicio buscava  conversas entremeadas de filosofia e misticismo  – para agradar, atrair e alegrar a  todos. Pediram-no para falar da última viagem, da Capoeira  em Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro – dos feitos dos Mestres.
 
– “O Mestre de Capoeira antes não dependia das cidades, pós-libertação é necessariamente urbano-periférico. Analfabetos ou pouco letrados, assumem o domínio do povo – dos “capoeira” aos presentes, passando pelos da circunvizinhança. Quase todos vivem num ambiente limitado: numa visão missionária; há os que imprimem viagem mundo afora. Conforto restrito, quase de pobreza material absoluta; de tão absoluta a compensa no seu imaginário pela fama, também absoluta – adquirida num encanto intelectual não se sabe de que origem; mas encanta, cativa, prende os praticantes, como os presentes quaisquer que sejam”.
 
– “A Capoeira não tem fim,  não teve começo. Já mestre – é  a primeira distinção conferida a uma pessoa em reconhecimento
pelo  fazer, ensinar e disciplinar – do plantio  ao cultivo; da caça à pesca; da dança às crenças”. Mestre Benício, professor, cantador e “contador”, negro de família forra, alforriada pelos Castro Alves”, como gostava de dizer. Dizia para enfatizar os valores de ser livre, conversava em zigue-zague, assim atraia a atenção de todos, e a todos satisfazia.
 
Ainda noitinha, frio de maio cortando, vento soprando leve mas constante, fogueira já com labaredas altas ajudando o clarão da lua. O anfitrião despacha mais uma rodada de licores em doses e espécies variadas – jenipapo, caju, mangaba, até de “pau-ferro” – “iche Maria!”.
 
Aduziu mais algumas considerações a este perfil  e contou-nos da simbiose homem-arte-crença. – "Adquire  ele todo o orgulho do seu estado, da sua condição. Recebe  dos seguidores, dos freqüentadores,   uma marca de superioridade do seu meio; uma marca de elevação, de supremacia, de predomínio, que nem um outro ser humano  consegue.
 
Mestre Benício a nada definia a tudo comparava. Como todo bom “capoeira”, quer trazer todos para o centro da conversa, precisa provocar uma discussão, dá margem à participação, dar a si a vaidade da contenda:
 
– “Toda relação de obediência pressupõe uma troca que traga um ganho ou afaste um medo”. Muitos dos presentes aproveitaram para cada um dar uma pitada. Platéia variada, uns lidos e corridos, outros nem tanto, conversa solta…
 
– “Mesmo a nossa obediência para com Deus requer  troca. Troca pela vida eterna; a volta da saúde  meio abalada…” Chamando
mais para o centro da Roda, provocando bem ao feitio de quem melhor conhece a alma humana – “para com  o  f e i t i c e i r o”, falou pausado – “dono de forças situadas entre o divino e o temporal; entre o ético e o safado –  a obediência está na base de trocas de mesmo calibre  – à volta da mulher traidora, safada, porém gostosona;  o namoro com o filho do vizinho; a traição com o primo, paixão de meninice, com quem não se casou impedida pelos pais.” Certa inquietação. Agora sim, chegou a hora! –  “Quem mais recorre ao feiticeiro é a mulher, quem mais faz promessas a todos os santos – é a mulher, quem antes enjoa do cônjuge é a mulher…” – provocou, para completar – “O Mestre de Capoeira encerra em si  o nível de obediência mais sadio, a mais voluntária das  obediências entre pessoas, fora das relações estritamente familiares. Entre ele e os seus não há um apelo, uma oferta, uma promessa. Na maioria das vezes ele, o Mestre, é o mais pobre do seu meio”.
 
Diante do sorriso geral, um cuxixo e outro,   prosseguiu impassível, não diria sádico, mas sem um  gesto de dó:
 
– "Na sua grande maioria, como que errantes, e os são; esguios pelos exercícios estafantes e o mau passadio;  nutrem-se como agentes da consciência do prestígio; dos  valores da inteligência voraz, iletrada  – a construir  uma FAMA  que o alimenta – apoiados na reverência dominadora, de um lado; de outro na crença que só é possível em quem julga ser responsável por uma banda do Mundo". Depois de tecer explicações do caminho percorrido, completa – "No passado muitos eram sapateiros, estivadores e tantos ferreiros, com forjas ordinárias no quintal acanhado da casa rota; alguns alfaiates – Mestres de Capoeira são vaidosos, gostavam de ostentar “as mãos finas”;  hoje,  tantos são pedreiros, serventes, pequenos comerciantes, carpinteiros; tantos meros biscateiros. Os que têm (tinham) meios de vida, afora a Capoeira, a tudo abandonam, se um projeto lhe surge – viagens noutras paragens, no estrangeiro, nos navios, para "levar a tradição".
 
Depois   de longo silêncio, João Pequeno, garimpeiro não negro, deu uma pitada: "Homens contaminados pela magia poderosa da música; pela perspectiva a que a luta vencida nos conduz; pela vaidade da exibição física; pela nobreza com que nos afaga o poder intelectual.”. Pedindo desculpas devolve a palavra ao Mestre Benício, que vai falando, agora dos seus receios –”.
 
– “De quanto ganha, pouco se sabe. O que se vê – é  ser muito inferior ao valor do  trabalho efetivo  realizado. Sempre pronto a acudir em  cada biboca. De concreto é que tudo faz pela arte, os elogios, pela admiração do povo; após cada luta,  cada apresentação continua como antes. Eu nunca quis saber  como chega em casa, de mãos vazias, a cada dia. Como patrimônio ou consolo – sempre querido, cercado; trilhando soberbo e doce. Na morada, afora grande acervo de áudio,  vídeo e escritos variados – nada tem que passe de um mocambo. Muitos viveram assim; muitos vivem ainda assim”.
 
– Dona Vitória Gama, mulher negra, professora, garimpeira, cantadeira e rezadeira, sempre pronta a ajudar a Mestre Benício com as datas e os nomes dos autores de cada feito, mantinha-se calada e sentada. Em nada coubera uma data, um nome, conversa genérica. Temperou a guela e interveio:
 
– “A superioridade cria inimigos, este é o mais geral princípio da guerra”. Consentida a intervenção, com gentilezas e mesuras pelo Mestre e  interesse pelos presentes, vai explicando o que conhece bem, estudos variados – Guerra e Revolução.
 
– “Não pensem que as relações na Capoeira são mornas. Não. São estremecidas. Não raro ao extremo. Nos encontros entre
 
Mestres, os mimos não duram mais que poucos minutos e  já surgem as alfinetadas –  tão maliciosas, sutis, para atingir a fama do outro; quanto cuidadosas, para zelar da pessoa.  A fama é o objeto da contenda. Esta é das diferenças entre guerra e Revolução: a renúncia à  superioridade faz a Revolução; a luta pela superioridade, causa a guerra”. (2)
 
– “Embora toda cultura seja conservadora, sendo a capoeira extremamente conservadora, pelo seu caráter igualitário  eu diria ser a Capoeira a única ação revolucionária no Brasil. A que avança, embora lentamente, como soe ser”. E finalizou –  “ao “capoeira” para com seu Mestre – nada lhe é mais de ofício que  engrandecer-lhe;  que ouvir de outros referências elogiosas”. E alfinetando, para manter a tradição –  “Eu gosto é de elogios e não de crítica, por isto procuro fazer bem feito, proclama cada Mestre”, finalizou.
 
Foguetes no alto do Morro Azul, (absurdo) o mais vermelho dos lajedos –  estão chegando, as esmolas, a bandeira, o Divino…
 
O velho Mestre vai arrematando da última viagem – “felizmente vi, soube e até conversei, com alguns Mestres doutores, de anel no dedo e tudo,  e olhe que todos novos, 30 a 40 e poucos anos.  Não me lembra de ninguém já nos 50 anos. Tem tantos já escrevendo livro, quem diria?”. E tacou nas notícias que o empolgavam – “Mestre dando aula na Inglaterra – ensinando mesmo, especializações diversas, nas Universidades, para formar doutores também”. E completa – “soube também de muitos “capoeiras”, entrando nas universidades;  como vi, eu próprio, muitos das universidades entrando na Capoeira…", parou, voz impostada. Notava-se um fio de esperança naquele negro “de família forra”, como dizia –  “Meu Deus, cinco séculos de escravidão e descaso!!!
 
 
Nota do autor: Validando as últimas afirmações de Mestre Benício, neste semestre, julho/agosto, o meu Mestre João Coquinho, Mestre do Grupo Berimbau Brasil, 42 anos de idade,  e quase isto de Capoeira; de muita luta e igual quantum de dificuldades, botará anel no dedo, bacharelando-se em Ciências Contábeis, aqui em São. Em data ainda não acertada.
 
 1 Canção de domínio público, africana;
 2 “Os Jacobinos Negros”,  CLR James.

Dança do Quilombo dos Palmares

Esta é a mais antiga canção conhecida no Brasil. Data de fins do século XVII (décadas de 1680, 1690) e é atribuída a membros do Quilombo dos Palmares. A letra foi extraída de um antigo disco 78 rpm da violeira nordestina Stefana de Macedo, gravado em Outubro de 1929.
Quilombos eram locais onde os escravos africanos refugiavam-se. Eram espécie de vilas formadas de escravos fugidos, aos quais mais tarde somaram-se vários tipos de personagens marginalizados pela sociedade da época. Várias cidades no Brasil são originárias de quilombos formados no período colonial e imperial.
Palmares é uma região localizada no interior do estado de Alagoas. O quilombo aqui mencionado foi arrasado pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, em 1696. Mais tarde, surgiu a vila, depois atual cidade de Palmares no mesmo local.
 
Dança do Quilombo dos Palmares
 
Refrão:
 
Folga nego, branco não vem cá
Se vié, pau há de levá
 
I
Sinhô já tá drumindo
Nego qué é batucá
Nego tá se divertindo
De minhã vai trabaiá (2x)
 
II
Nego geme todo dia,
Nego panha de sangrá
Dando quase seis da noite
Panha nego a batucá (2x)
 
III
As corrente tão batendo,
As brieta chocaiando
Sangue vivo tá corando,
E nego tá batucando (2x)
 
IV
Nego rachou o pé,
De tanto sapatiá
Tão cantando, tão gemendo,
Nego qué é batucá (2x)
 
V
Quando rompe a madrugada
Geme tudo nos açoite
Nego pega nas enxada
E o batuque é só de noite (2x)
 
http://cifrantiga2.blogspot.com/2006/11/dana-do-quilombo-dos-palmares.html

O Mestre de Capoeira

Há dous mil anos te mandei meu grito
Que embalde desde então corre o infinito…
Onde estás, Senhor Deus ? …
(vozes da África, Castro Alves)


Na vida das Américas o Mestre de Capoeira –  negro ou não negro, mas imbuído dessa negritude própria da Capoeira – tem assumido o mister, diria ímpar de ajudar conduzi-lo, ao negro, a passar pelas dores das tantas feridas; aplacar às tantas  carências; vislumbrar um horizonte, não se sabe a que distância, mas capaz de não lhe deixar extinguir os vestígios de honradez e bondade; a capacidade de amar, tolerar e lutar. Dentre estas faculdades está a de cantar.
 
            O que é cultura? – Cultura, para Mestre Benício, "é a luta do homem para preservar o Mundo; e a tolerância do Mundo para conservar o homem". E explicava mais o diabo do sabido "africano":  "a primeira e mais permanente das manifestações culturais, é comer" e reafirmava redundante – "comer, comer de comida". E aduzia, olhar distante – "a segunda é cantar"; completava a sua lista, com a crença. "A crença é mais importante que a comida, – explicava – o homem tem na crença o último ato antes da morte: todos morrem agarrados na crença." Atravessando, João Pequeno clareava – "a crença! e não a fé. A fé é um aleijão! Fé é o único substantivo que não forma verbo" –  provava o "agnóstico".
 
           No meu lugar, região de criadouro de gado, as manifestações de África se juntaram às de mouros e cristãos; ciganos – de europeus em fim. A Capoeira ali deu lugar aos diversos tipos de samba, os chulou até o baião. Os vestígios de Capoeira eram "coisas" de meninos se exercitarem, sem nenhum conhecimento de importância; afora isto só histórias  – Histórias, curiosidades e desejos… Por que da zebra? …"a zebra é o animal tipo cavalo ou jumento que nunca  se amansa," assim ia até a "capoeira". A Capoeira não tem fim!…
 
            Mestre Benício se punha a falar dos  Mestres de Capoeira. Para tudo na África tinha seu mestre. O Mestre se confunde com a própria África e sua História. Hoje, o Mestre e o futuro do negro se confundem.. Citou muitos nomes, desde as lembranças de África:
 
–          "Analfabetos ou pouco-letrados, assumem o domínio do povo, de dentro e de fora da Roda. Os da Roda amam-lhes como a seus pais, os de fora passam a compreender-lhes; – se repetir a visita – passa a amá-los, quase sempre. Antes não dependiam das cidades, pós libertação são necessariamente urbanos-periféricos. Quase todos vivem num ambiente limitado; numa visão missionária, há os que imprimem viagem mundo afora. Conforto restrito, quase de pobreza material absoluta; de tão absoluta  suprem-na, no seu imaginário, com um encanto intelectual não se sabe de que origem; mas encanta, cativa, prende o interlocutor qualquer que seja. Aduziu mais algumas considerações a este perfil  e contou-nos da simbiose homem-arte-crença. – "Adquirem eles todo o orgulho do seu estado, da sua condição. Sabe, ou recebe dos seguidores, ser uma marca de superioridade do seu meio; uma marca de elevação, de supremacia, de predomínio, que nem um outro ser humano  consegue", e prosseguiu, impassível, não diria sádico, mas sem um gesto de dó – " na sua grande maioria, como que errantes, e os são, esguios pelos exercícios estafantes e o mau passadio; paupérrimos, ostentam, num diapasão de consciente prestígio, os valores da inteligência voraz, iletrada e bravia – senhora de si – apoiados na reverência dominadora, de um lado; de outro na crença que só é possível em quem julgar ser responsável por uma banda do Mundo". Depois de tecer explicações do caminho percorrido, ou a percorrer, cala-se um pouco e depois – "No passado muitos eram sapateiros, estivadores e tantos ferreiros, com forjas ordinárias no quintal acanhado da casa rota; alguns alfaiates – Mestres de Capoeira são vaidosos, gostavam de ostentar as mãos finas; hoje tantos são pedreiros, serventes, pequenos comerciantes, carpinteiros, tantos meros biscateiros. Os que têm (tinham) meios de vida, afora a Capoeira, a tudo abandonam, se um projeto lhe surge – viagens noutras paragens, no estrangeiro, nos navios, para "levar a tradição". Ao que,  depois de longo silêncio, João Pequeno, garimpeiro não negro, deu uma pitada: "Homens que não podem resistir à magia poderosa do canto, da luta, da exibição física e intelectual; para uns, eles (Mestres) vivem para encantar o público;  para eles mesmos – "quase uns visionários, …  não há alguém que mais acredite na sua atividade…", – pedindo desculpas devolve a palavra ao Mestre Benício, que vai falando, agora dos seus receios – "Das recompensas materiais, pouco se sabe, o que se vê é que são muito inferiores às alegrias que proporcionam; de visível é que tudo fazem pela fama, pelos comentários, os elogios, pela admiração do povo, de cada e após cada luta, cada apresentação continuam como antes, eu nunca quis saber  como chegam em casa, de mãos vazias, a cada dia; lhes contam  de seu – sempre queridos, cercados; trilhando soberbo e doce; na morada, afora grande acervo de áudio e vídeo – nada tem que passe de um mocambo, muitos vivem assim – "Eu gosto é de elogio e não de crítica" – diz cada um, com sinceridade absoluta.
 
            O medo – naquele ano Mestre Benício tinha viajado, foi queimar os minguados de alguns diamantes faiscados. Naquele lustro a bossa nova atingia o seu ciclo de vida, havia um burburim de sons e rítimos; a juventude a tudo contestava e os adultos – a nada davam importância, que não fosse estrangeiro. Dos transeuntes, corpos e roupas espalhafatosas – praça qualquer, de uma cidade qualquer. Para  a Roda, de rua: pessoas simples e seus instrumentos arcaicos em quantidade regular, prontos para a Roda, na espera dos Mestres, na rua é número incerto.  Ofertado, como a um ritual,  o momento de abertura ao Mestre mais velho, – solene e singelo – IÊ!…
 
            "Ninguém interrompe. Não há insulto, censura, pilhéria, desatenção. Há silêncio, silêncio não, as mãos batem palmas, obedecendo aos ditames do Mestre. Todos como se mamulengos fossem – atados nas mãos, nos olhares, nos gestos do Mestre. Ninguém na assistência  entende das canções quinhentistas, curtas, breves – só a música, a melodia imobilizando a todos. O primitivo berimbau imobilizando tantos jovens afeitos à instrumentação eletrônica. Vozes desencontradas, outras afônicas, mesmo porque raros são os Mestres que têm boa voz; dentre os da Roda poucos, ou ninguém conhece teoria de canto, ao contrário da assistência. Das vozes, desacordadas, de agradável sonoridade só o berimbau, o som de uma corda, encantado anulando o descompassar das vozes, coro piorado pelo participar dos visitantes." E prossegue o Mestre Benício falando do seu medo – "aquela juventude bem trajada uns, espalhafatosos tantos; homens e mulheres de roupas finas – um bando de incapazes se queixando da "ditadura" – pareceu-me estarem ali para vaiar, avacalhar, um frio na espinha… Que nada, enganei-me – todos ali, fazendo coro e batendo palmas… alguns até entraram na Roda só para cumprimentar o Mestre, de perto, abraçar, afagar, fotografarem-se. ALIVIO!, como se eu tivesse  algo a haver com aquilo." E arremata da última viagem – "felizmente vi, soube e até conversei, com alguns Mestres doutores, de anel no dedo, e olhe que todos novos, não me lembro de ninguém com mais de 50 anos, soube também de muitos nas universidades, como vi, eu próprio, muitos das universidades entrando na Capoeira…"
 
            Fogos na serra, ao longe, denunciava a chegada dos repentistas, Mestre Benício se apressa: – "Vocês já viram um vulcão? Mas sabem o que é, não sabem?!. "O vulcão não é o morrão, não é o buraco no centro dele, não é a lavareda de fogo que sai, não. O vulcão é tudo junto. É um dos equilíbrios da natureza. O vulcão não  se importa com quem está em baixo ou em cima, cumpre o seu papel. Sem ele pipocava fogo a qualquer hora, em qualquer lugar – no nosso quintal, na nossa casa…" e completou – "Assim é o Mestre de Capoeira é um dos elementos de equilíbrio das sociedades do Mundo. O negro é parte da sociedade, assim como a África é a parte mais importante do Mundo. Sem o negro e sem a África, viver-se-á assim, o fogo explodindo em todo lugar, a toda hora, ferindo, matando a qualquer um…. Até que o Mestre possa cumprir o seu papel" Assim falou Mestre Benício.
           
Andre Pessego, Berimbau Brasil, SP/SP

Projetozumbi@uol.com.br

 

Berimbau Brasil, SP/SP

Mestre João Coquinho

As Maltas da Capoeira

No século XIX existiam as Maltas de Capoeira, famosas no Rio de Janeiro, que se espalhavam por diversos bairros e freguesias da cidade, cada malta comandava uma região e não admitia a invasão de seu território. Os integrantes das maltas possuíam um modo característico de vestirem-se: trajavam roupas brancas, calça pantalona com boca de sino, camisa ou terno de linho com sapato de bico fino, no pescoço quase sempre usavam um lenço de seda que funcionava como proteção de navalhadas, na cabeça um chapéu e nas mãos, uma faca, navalha ou bengala para qualquer imprevisto. Esses capoeiristas costumavam viver na boemia junto com as prostitutas, vagabundos, aristocratas, imigrantes e intelectuais. Gostavam de festas, comícios e lugares com aglomerado de pessoas para poder saquear, roubar ou arrumar confusão com as maltas rivais. Quase sempre, quando a polícia chegava, conseguiam escapar, mas às vezes não tinha jeito e travavam combates deixando os policias estirados no chão.

As maltas de capoeira eram algo que atormentava a população carioca, principalmente as autoridades que queriam de qualquer maneira exterminá-las. Haviam várias maltas no Rio de Janeiro e cada uma comandava uma região, mas dentre todas, tiveram duas que mais se destacaram: os Guaiamuns e Nagoas.

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JOÃO PEQUENO

Algumas fotos de João Pequeno, enquanto aguardamos a biografia que etá sendo redigida pelo Vitor de João Pequeno

João Pereira dos Santos – Mestre João Pequeno
 

Aluno do Mestre Pastinha e um dos mais velhos e importantes mestres da Capoeira Angola em atividade. Pela academia do Mestre João Pequeno, no Centro Histórico de Salvador, passaram alguns dos principais mestres da nova geração angoleira. É possível vê-lo quase todas as noites jogando e ensinando a tradicional arte da Capoeira.


 

Academia de Capoeira Angola de Mestre João Pequeno Centro de Cultura Popular Forte de Santo Antônio
Santo Antônio além do Carmo Salvador – Bahia