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MinC quer TVs como forma de distribuir produção regional

O Secretário da Identidade e da Diversidade Cultural do Ministério da Cultura (SID/MinC), Américo Córdula, manifesta desconforto com a concentração de controle midiático por poucos grupos. Segundo ele, a mídia no País está na mão de “cinco famílias” que não colaboram na divulgação da cultura local.

No 1° Encontro Internacional da Diversidade Cultural em Salvador, ele manifestou preocupação com a política de concessões das TVs, dizendo que é um “problema para o qual o governo ainda não encontrou caminhos”. Apesar de ser a favor das cotas de exibição de filmes nacionais, afirma que o Ministério da Cultura, quando tentou adotar políticas semelhantes, encontrou pelo caminho a força dos lobbys dos grupos midiáticos.

Confira a entrevista de Córdula ao Terra:

“A principal reivindicação dos movimentos pela diversidade cultural é uma ruptura com a ideia de mercantilização da cultura, inclusive com a defesa da exibição de produções nacionais com cotas de telas. Como o senhor vê isso?
A questão das cotas de tela é importante para regulação. Se deixamos em aberto, ninguém se preocupa em mostrar a nossa produção. A cota é uma forma de regulação, de mostrar nossa produção. Quando a França começou esta discussão nos anos 1970 era justamente para evitar o que existe hoje, 95% das salas de cinema exibem a indústria norte-americana.

Isso não segue a lógica de mercado, a procura do público não seria esta?
Se você não tiver espaço para exibir a cultura nacional você vai consumir o que as “majors” (grandes corporações) querem para o mundo. O desastre é que esta produção não traz apenas entretenimento, mas também a cultura, a roupa, o relógio, os bens de consumo, e você acaba perdendo a identidade local. O que nós temos que fazer é equilibrar isso, por isso as cotas. Elas passam a ser importantes porque o mercado não tem o menor interesse ou preocupação em veicular o conteúdo nacional. A grande discussão é esta, quando vamos regular o conteúdo, a regionalização da produção, a questão das rádios e TVs comunitárias, as concessões do uso da TV, que é outro problema que o governo federal ainda não conseguiu apontar caminhos.

Qual seriam estes caminhos, na sua opinião?
Não adianta fazer um esforço na produção da cultura se o principal meio de divulgação da cultura são os meios de comunicação. Temos que trabalhar junto, estamos trabalhando na proteção das diversidades culturais mas a gente não tem o canal de divulgação da cultura. Não se trata de reserva, mas de abrir espaços para poder distribuir nossos conteúdos.

As pessoas querem consumir mais cultura brasileira, querem ver filmes nacionais, por exemplo?
Querem consumir, claro. Se você der espaço e mostrar e formar, as pessoas vão. Mas se não tem possibilidade de acesso. Por exemplo, temos dentro do Minc uma política para games brasileiros, porque você vê hoje todo jovem com seu joguinho, mas não tem jogos nacionais, então estamos fomentando. Não tem a escala que deveria ter, mas a partir do momento em que trouxermos os temas da cultura brasileira para os games, como a capoeira, que são tão excitantes quanto os blockbusters dos jogos…

E agora uma grande produção nacional sobre capoeira.
Exato, estamos lançando o Besouro, com a mesma tecnologia de Matrix e quetais. Quer dizer, temos condição de fazer, não precisamos consumir só de fora. Estamos de igual para igual. Com a democratização dos recursos podemos produzir em qualquer lugar do mundo. A Índia está aí de prova. Por que eles podem ter uma Bollywood e nós não?

Não é uma contradição o Brasil estabelecer cotas para games e produções enquanto luta por abertura para vender os seus produtos em outros mercados?
Não propomos ainda cotas, não há nenhuma ação. Estamos discutindo a democratização de conteúdos. Tentamos fazer isso no começo da gestão do Gilberto Gil, mas as cinco famílias que controlam a mídia conseguiram derrubar isso com seus lobbys. Não existe nada relacionado a cotas ainda. Eu acho importante para regulação, mas não há ainda nenhuma política de cotas em relação ao audiovisual.

O senhor falou que as concessões precisam ser revistas, mas como?
Precisamos dos meios de comunicação para chegar ao público e chegar ao público. Seria importante ter uma política de estímulo à produção local. Se você mora no Rio ou em São Paulo não vê uma produção do Amapá, do Pará. A gente precisa, de fato, saber em que medida podemos explorar isso. A discussão é esta, de que TV queremos ver. Dar a oportunidade de ver que estamos fazendo bons produtos que podem ser assimilados. Precisamos criar repertório, acabamos vendo mais do mesmo. Temos que ter esta preocupação. Ter uma indústria de animação. Temos muito filmes sem salas para que eles passem. Temos que criar uma forma de nos livrar de uns poucos grupos que controlam a produção e distribuição de cultura.

Se for o governo controlando, tudo bem?
Não, acho que se você colocar a mídia na mão de cinco, tá errado também. Você deixa de fora uma produção enorme. Mas também não podemos ficar à mercê dos grupos porque isso não funciona. Você está colocando produtos que trazem sempre um retorno financeiro para estes grupos e deixa de fora conteúdos.

Como fica a lógica de mercado?
A diversidade hoje é a palavra de ordem do momento. O refrigerante mais vendido do mundo ganha milhões se vendendo como a bebida da diversidade cultural. Ele se apropria de um conceito. Não é isso, diversidade cultural é consumir suas bebidas locais.

(O repórter viajou a convite da produção do 1° Encontro Internacional da Diversidade Cultural).

 

Fonte: http://diversao.terra.com.br/

Capoeira X CREF/CONFEF : Um jogo perigoso fora da roda

Neste artigo, o professor Acúrsio Esteves, autor do livro A "Capoeira" da Indústria do Entretenimento, faz uma análise crítica da questão Cref/Confef versus Capoeira.
 
Jornal do Capoeira –
www.capoeira.jex.com.br
Edição AUGUSTO MÁRIO FERREIRA – Mestre GUGA (n.49)
de 13 a 19 de Novembro  de 2005


 
Profº Acúrsio Esteves *
Salvador, BA
 
Uma situação preocupante parte das ações do sistema CREF/CONFEF. Este está exigindo que mestres e professores de capoeira, que já há algum tempo ministram aulas de capoeira em suas academias ou outras instituições, sejam seus afiliados, para que tenham direito a continuar seus trabalhos. Tal procela gerou um impasse, pois os profissionais da capoeira fundamentados na tradição, não querem aceitar este domínio alienígena sobre a sua arte. Pessoalmente, concordando com os capoeiras, acho que a ela deva continuar seu caminho independente de controle ou registro externo. Seria, em minha opinião, o mesmo que os Conselhos de Medicina exigir que as parteiras, para continuarem a exercer suas atividades, tivessem que se filiar a estas entidades.
 
Submetê-la a controle externo, principalmente dentro do contexto que se propõe é esvaziá-la do seu significado simbólico/cultural, é equipará-la a qualquer atividade meramente física como corrida, musculação, ginástica, é roubar-lhe a pujança e a representatividade que possuem os saberes populares. É transformá-la em mero movimento corporal com intenções de condicionamento físico.
Como professor de Educação Física, reconheço a importância de um órgão para regulamentar a profissão, porém, entendo que esta posição tomada pelo CREF/CONFEF é uma ação corporativa perpetrada contra a capoeira e representa espúrias pretensões comerciais de reserva de mercado. Paralelamente, reflete e tenta repetir a dominação secular das classes dominantes sobre o povo, se apropriando dos seus saberes construídos coletivamente expressos sob forma de cultura popular, folclore, religião, gastronomia ou de qualquer outra natureza interferindo nelas forma ostensiva, negativa, deflagrando o início do seu processo de enfraquecimento,  quiçá aniquilamento.
 
De forma subjacente, esta atitude corporativa contempla uma ação que de forma indevida expõe todos os profissionais de Educação Física às duras críticas dos setores acadêmicos e culturais comprometidos com as raízes da cultura popular. A pretensão de se criar uma reserva de mercado se apropriando de uma clientela formada com muito trabalho, perseverança e sacrifício por outras categorias de trabalhadores é antiética, imoral e configura uma apropriação indébita sob o beneplácito da lei.     
Quanto aos profissionais da capoeira, afirmo que a categoria deve estar permanentemente mobilizada para garantir a sua autonomia antes que ela se transforme em um simples apêndice da Educação Física. A sua principal frente de luta deverá ser a de preservar não só a autonomia dos profissionais que tem atuado historicamente, como principalmente, os que agora estão iniciando e os que virão. Entendemos que esta atitude pretendida pelos "senhores do movimento" pretende criar privilégios para uma determinada categoria profissional sobre um patrimônio cultural que pertence ao povo.
 
Esta autonomia foi conseguida após muito sacrifício durante séculos por parte de mestre, alunos, simpatizantes e intelectuais que travaram árduas batalhas para fugir às perseguições policiais, políticas e preconceituosas por parte de setores conservadores da sociedade. Estes mesmos setores agora querem de novo dominá-la através de dispositivos legais, por intermédio de parlamentares que representam a elite e o grande capital. Entendemos que a cultura e o trabalhador devam ser protegidos pelo estado e não por ele perseguidos e controlados, aliás, é o que determina a lei.
 
 

* O professor e pesquisador Acúrsio Esteves, é formado em Educação Física pela UCSal, com mestrado em Gestão de Organizações UNIBAHIA/UNEB e é professor da Secretaria Municipal de Educação de Salvador. Leciona também nas Faculdades Jorge Amado e Fundação Visconde de Cairu, respectivamente nos cursos de Educação Física e Turismo, sendo também autor dos livros Pedagogia do Brincar e A "Capoeira" da Indústria do Entretenimento, de onde foi retirado este fragmento de capítulo.
 
**  Ilustração: www.correiodabahia.com.br
 
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