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Consciência Negra e Capoeira uma prática constante

Nesta crônica estão apresentadas algumas considerações sobre o “Dia da Consciência Negra”, chamando-se a atenção para a presença da Mulher – negra ou não – na luta pelas igualdades. Mestra Dandara (Por que não?) recebe justa homenagem!

O dia da Consciência Negra passou. Mais uma data no calendário oficial, que nos sugere um dia especial no meio de semanas e dias de puro trabalho e pouca reflexão. Apesar de cada vez mais termos meios de acessar as informações, o que se pode fazer com elas é ainda muito pouco, uma vez que os esforços e espaços para debates e trocas são limitados.

Eleito o dia 20 de novembro para representar toda nossa História Negra, por ser o dia da morte do líder Zumbi da república quilombola dos Palmares, fundada em 1597 onde hoje é o Estado de Alagoas e Pernambuco, no período auge de nossa vida colonial, essa data tem muito a representar. Gostaríamos de falar brevemente sobre o que essa representação pode oferecer ao debate da Capoeira como uma manifestação dessa parte da nossa História e que só agora, passados séculos de debates não-oficiais, está entrando nos mecanismos de divulgação da História Oficial.

Se uma data como essa permite pensarmos a vida de uma grande liderança como foi Zumbi, gerando a idealização de sua figura como a de um herói que deve ser colocado entre os heróis de nossa pátria-mãe tão pouco gentil com seu povo oprimido, também deveria permitir a conscientização do papel dos que estiveram atuando ao lado dessa figura, especialmente as mulheres, às quais fazemos questão de destacar aqui nesse texto e em outros que temos assinado sobre a presença feminina nos contextos de que participamos.

Lembremos um pouco de Dandara, a qual se sabe tão pouco sobre sua vida, mas que consta como grande guerreira e estrategista dentro de Palmares. Tida como esposa de Zumbi, decide pela própria morte ao invés de entregar-se novamente ao sistema escravista quando da tomada da Serra da Barriga pelo governo monarquista no ano de 1694.

Não vamos aludir aos diversos eventos que correm ao longo da história dessa emblemática figura porque os elementos que levantamos aqui nos fazem pensar bastante sobre pontos importantes dentro da temática aqui proposta: praticar o exercício da conscientização de nosso passado escravista com tanta disciplina quanto a prática da Capoeira.

E nesse sentido estamos cada vez mais dispostas a exigir o espaço necessário para a conscientização do papel da mulher no curso de nossa História. Porque é fundamental reconhecer que tanto nos momentos das eclosões dos acontecimentos como nos do cotidiano diário o nosso papel foi e é o de garantir que o esperado se realize e se concretize de modo que a seqüência da vida e da melhoria daqueles que são parte do nosso círculo social aconteça.

Nós acreditamos que estar ao lado não é um papel medíocre, nem simples, nem subalterno, como querem as correntes feministas dispostas a continuar na segregação proposta pelos mesmos modelos a que se contrapõem. Estar ao lado é suportar (portar junto), é fazer crescer, é procriar. Aqui vale lembrar que tanto a linha reta como a roda são formas de organização que exigem o “lado a lado” pra se concretizarem, e ainda assim expressam maneiras diferentes e opostas de existir no mundo.

Um dia como esse 20 de novembro deve servir para que as mulheres se coloquem diante da condição Matriarcal e Feminina que faz da sensibilidade nossa maior herança. E com isso podemos construir certamente um mundo de homens e mulheres capazes de se voltarem conscientemente e com compaixão para os que sofrem, para os que não são reconhecidos pelo fato de estarem simplesmente vivos ou para aqueles que conhecem apenas a autoridade como forma de agir e de ser no mundo, enfim para todas as formas de vida que hoje em dia estão abaladas com a falta de direcionamento e distanciamento com o sagrado a que estamos submetidos.

Para que a Capoeira também entre nesse processo de valorização e reconhecimento da cultura negra é necessária a presença e atuação feminina e que essa faça seu papel de reconhecer dentro da História dessa luta os elementos que foram destacados, mas também os que foram omitidos nesse processo e contribuir, com força e união, para que as partes diferentes se associem, sem compromisso com mecanismos discriminatórios, especialmente os que nos conduzem a caminhos já sabidos de ruptura.

Não precisamos mais de uma consciência humana que rompa com o humano. Estamos carentes de mecanismos de construção integrativa, esse é o mecanismo da Natureza, deveria ser nosso referencial para tentarmos ter de volta nossa casa-comum, o Planeta Terra, e salvar nossa espécie Sapiens da nossa própria eliminação.

Precisamos sim é exercitar as capacidades físicas e emocionais que a Capoeira permite desenvolver a ponto de treiná-las para as transformações que o mundo está nos permitindo e nos obrigando a realizar. De outra maneira não estaremos fazendo jus aos ensinamentos deixados pelos Mestres que tiveram em suas companheiras a força para o trabalho que desenvolveram.

Casal de Edan .século XIX. Sudoeste da Nigéria. Coleção particular, Bruxelas: A superposição de homens e mulheres simboliza a união dos ancestrais, fundadores da linhagem. Esta associação é necessária para a manutenção do bem-estar de uma sociedade-civilizada, por quem os membros da sociedade secreta Ogboni são responsáveisO intelecto e o sensível estão sendo clamados para uma nova visão da vida, pois a luta a que a humanidade está sendo levada a travar exigirá muito de todos nós. E se nos habituarmos a rever os padrões morais e institucionais a que fomos expostos em toda História, teremos muito a nos beneficiar com o exemplo de mulheres que estiverem em constante combate em busca do respeito e da integração social.

Um dia para refletir a consciência negra no Brasil é um dia para refletir toda a nossa consciência histórica: a consciência que presenciou tantas mortes injustas, que guardou em suas raízes a eliminação do povo original da terra, que se ressente de uma classe dominadora que rejeita a fonte de sua própria riqueza; uma consciência que não acode aos que necessitam e defende os que se aproveitam indevidamente do que é de todos. Enfim, refletir sobre nossa consciência comum que tem muito a rever, rejeitar, redimir e refazer nos sentidos mais profundos de respeito que o ato de retorno pode ter em todos nós.

Stella Mendes (Manchinha), São Paulo, Novembro de 2005

Colaboração : Moleza

Grupo de Capoeira Angola Irmãos Guerreiros (Mestres Marrom & Baixinho)

* Imagens retiradas in: Mostra do redescobrimento: arte afro-brasileira. São Paulo: Associação Brasil 500 Anos Artes Visuais, 2000.

(1) Portadora de cálice. República Democrática do Congo (Musée Royal de l”Afrique Centrale, Tervuren, Bélgica): Guardiã da autoridade sagrada, a mulher que segura a cabaça de adivinhação entre suas mãoes, é o receptáculo dos espíritos e gênios vidye.

(2) Casal de Edan .século XIX. Sudoeste da Nigéria. (Coleção particular, Bruxelas): A superposição de homens e mulheres simboliza a união dos ancestrais, fundadores da linhagem. Esta associação é necessária para a manutenção do bem-estar de uma sociedade-civilizada, por quem os membros da sociedade secreta Ogboni são responsáveis

 

Fonte: Jornal do Capoeira –  www.capoeira.jex.com.br

ACANNE: Na volta que o mundo deu, na volta que o mundo dá…

ACANNE: Associação de Capoeira Angola Navio Negreiro, Apresenta para 2008 o Ciclo de debates, vivências e exibição de vídeos, com intuito de refletir sobre Capoeira Angola, Identidade e Globalização.

"NA VOLTA QUE O MUNDO DEU, NA VOLTA QUE O MUNDO DÁ!"
Ciclo de debates, vivências e exibição de vídeos, com intuito de refletir sobre
Capoeira Angola, Identidade e Globalização.

Apresentação:

Na certeza de que só manterão suas identidades na globalizacao aqueles e aquelas que estiverem em constante permanência com a sua cultura, a ACANNE trabalhará este ano com a idéia de aprofundar conhecimentos sobre o papel da Capoeira Angola, enquanto prática de liberdade contemporânea e guardiã de valores identitários.

Apartir de Março, sempre na última Sexta Feira de cada mês, além da nossa tradicional roda semanal de Capoeira Angola, haverá uma atividade especial que fará parte da programação do projeto: "NA VOLTA QUE O MUNDO DEU, NA VOLTA QUE O MUNDO DÁ"

Local:

ACANNE – Associação de Capoeira Angola Navio Negreiro
Rua do Sodré, 48 – bairro: Dois de Julho – Salvador – Bahia
Fones: (71) 3321-7496 / 3321-1488 / 9148-5999
Maiores informações: mestrerene@yahoo.com
ou visitando nossos sites: www.acanne.com e www.acanne.org

Espero você em nosso Quilombo!!

Um abraço,

Mestre Renê Bittencourt

Angoleiras & Negritude

Jornal do Capoeira – Edição 43: 15 a 21 de Agosto de 2005
EDIÇÃO ESPECIAL- CAPOEIRA & NEGRITUDE
 
O Jornal do Capoeira sob a batuta do camarada Miltinho Astronauta, preparou esta semana uma edição especial! Protagonizando a Capoeira e a Negritude.
Confiram está matéria, dedicada especialmente as mulheres…
Luciano Milani 

Os princípios femininos, a resistência negra e a mulher angoleira
 
"O bom capoeirista nunca se exalta procura sempre estar calmo para poder refletir"
Mestre Pastinha
 
Vamos partir dessa grande colocação de Mestre Pastinha para abordar o tema a que nos colocamos dispostas a refletir aqui.
 
É sabido que dentro da História da humanidade já passamos por diversas revoluções (Agrícola, Industrial, do Conhecimento e da Informação) e que a maioria delas ficaram registradas como resultado de ações de homens, no sentido patriarcal do termo.
 
Desde a II Grande Guerra, entretanto, a mulher ocidental começou a retomar em muitos lugares o papel de gestão da vida social, papel esse próximo ao que a mulher representava no princípio do agrupamento humano, onde, para a preservação do grupo, a união em torno da matriarca era o ponto central na preservação da espécie.
 
 Passados 60 anos do final do Conflito Mundial o retrato que temos hoje em dia da mulher, numa realidade como a do Brasil, é muito diverso. Primeiro porque somos uma sociedade estratificada em camadas de acesso ao consumo, marcada essencialmente por um fator que condiciona a situação social atual: os mais de 300 anos de escravidão negra que contam boa parte de nossa História.
 
Dentro dessa diversidade de condições (sociais, econômicas, psicológicas) o que nos interessa nesse espaço é pensar sobre a contribuição da mulher, especialmente a mulher negra, nas formas de resistência à imposição do patriarcalismo, do preconceito e discriminação e das lutas a que estivemos dispostas a travar em prol de uma educação mais digna e zelosa dos princípios que conduzem a natureza feminina: subjetividade, ternura, cuidado, acolhida, nutrição, conservação, cooperação, sensibilidade, intuição, experiência do caráter sagrado e mistérios da vida e do mundo.