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Tradições, Rituais e Estilos

Mestre Oto Malta, com mais de 50 anos de capoeira, começou a treinar com Mestre Bimba na Rua das Laranjeiras, em 1958, com 14 anos de idade. Nenel, hoje Mestre Nenel, filho de Bimba, não era nascido e Nalvinha, a filha, tinha um ano de idade. “Carreguei-a ainda de fralda mijada”, relembra Oto. “Tenho o privilégio da amizade de alguns alunos do Mestre Bimba que se formaram pouco tempo depois de mim, dedicaram-se ao ensino da capoeira e hoje são os Mestres Acordeon, Itapoan, Camisa Roxa, Saci, Xaréu e Salário”, declara. Mestre Oto continuou treinando capoeira regularmente até os 25 anos quando as “atribuições da vida”- profissão, família, viagens – foram reduzindo o tempo disponível para os períodos de treino. Deu aulas de capoeira em academias de amigos e na década de 1970 na sua própria residência, em Barra Grande, na ilha de Itaparica. No final da década de 1980 foi para São Paulo de onde só retornou em 2004 quando fez contato com o Mestre Nenel, voltando a jogar capoeira na Fundação Mestre Bimba. Para ele “a capoeira em si já é muito abrangente (arte, luta, dança, filosofia, visão de mundo) e no caso da Regional (capoeira regional) não é possível sintetizar o que os ensinamentos do Mestre Bimba significaram para todos os seus alunos. Mestre Oto é graduado em Administração de Empresas e pós-graduado em Marketing com Mestrado em Gestão Empresarial. Atualmente ensina na Faculdade IBES – ISEC.

 

TRADIÇÕES, RITUAIS E ESTILOS.

 

Antes de tudo, é necessário estabelecer o ordenamento conceitual.

As polêmicas, divergências e contradições que sempre surgem quando se trata de analisar origens e evolução da capoeira poderiam ser evitadas, existindo definição objetiva do que é tradição, ritual e estilo.

 

TRADIÇÕES.

São maneiras de pensar e agir relacionadas com a essência da capoeira, suas razões de ser:

1º A SOCIALIZAÇÃO – os africanos trazidos pelos portugueses para o Brasil eram de várias etnias (bantos, sudaneses, mandingas, malés, etc), não falando a mesma língua, com costumes e religiões diferentes; sem direitos de cidadania e em terra estranha surgiu a tendência do relacionamento e convivência para fortalecimento do grupo heterogêneo em defesa dos interesses comuns.

Até hoje, os capoeiristas de diversas procedências tendem a criar “irmandades” nos seus relacionamentos de aprendizado.

2º A RESISTÊNCIA À DOMINAÇÃO – não se trata do confronto aberto, que seria suicídio, mas da não aceitação da condição de escravo. Sobreviver na situação de dificuldade estrema, pensar a longo prazo nas próximas gerações, miscigenação, sincretismo religioso, quilombos, capoeira.

Hoje o afro descendente está integrado à sociedade e fica o exemplo para todo cidadão, independente da cor da pele, para a não aceitação de qualquer tipo de dominação, seja social, econômica ou política.

3º O DIVERSIONISMO – mais fácil de entender em campo de batalha: o exército menor cria uma estratégia de fuga ou falso ataque em um local para atrair o exército maior adversário a uma emboscada. A capoeira com suas gingas e negaças está sempre tentando iludir o oponente para levá-lo à derrota.

OBSERVAÇÃO:

Todo o processo cultural – do qual a capoeira faz parte – é evolutivo.

Afirmar que as tradições não mudam não está inteiramente correto. As tradições não mudam em função do Mestre, da Escola ou Academia, de ser Regional ou Angola.

As tradições se mantêm na sua essência e evoluem em função do tempo, como a socialização entre os colegas de capoeira e a resistência à dominação que sempre vão existir. A capoeira defensiva, a comunicação e o relacionamento que antes ocorriam entre os escravos nos engenhos, evoluíram para os contra ataques dos tripulantes das embarcações e os trabalhadores dos cais dos portos e espalhou-se pela zona urbana com maior iniciativa de ataque.

A troca de idéias e experiências de forma secreta na senzala, passou a ser feita hoje em eventos, conferências, publicações literárias, via internet.

Mas a essência do companheirismo, da camaradagem, bem como o propósito de repelir qualquer tentativa de manipulação ou dominação continuam sem alteração.

 

RITUAIS.

O ritual consiste em uma série de atitudes e ações sucessivas e pré estabelecidas, criadas para orientar um evento, cerimônia ou “rito”.

Mudam em função dos criadores e praticantes que podem ser o Mestre, o grupo que coordena uma escola, os discípulos mais antigos, os seguidores de um estilo, etc.

Entende-se como ritual o “batizado” a “formatura” a “troca de cordão”, a “chamada” de Angola, o jogo de formados com toque de Iúna da Regional.

 

ESTILOS.

Regional, Angola, Abadá são estilos.

Cada capoeirista também pode desenvolver um estilo próprio. A maneira de gingar, a forma de mover os braços, a altura da cintura, o ângulo do tronco com a cintura, tudo faz parte de uma maneira individual, um estilo próprio de jogar capoeira.

OBSERVAÇÃO:

A “sequência” da Regional não é ritual nem estilo, trata-se de uma metodologia, uma sistemática de ensino desenvolvida por Mestre Bimba.

 

* Elaborado por: Mestre Oto

Besouro – Fly Away Beetle

Besouro mangangá, ou se preferirem Besouro Preto, Besouro Cordão de Ouro, está mais uma vez sob as “luzes da ribalta”. Depois de fantástico documentário de amigo e colaborador Pedro Abib: “Memórias do Recôncavo: Besouro e Outros Capoeiras”, depois do exelente longa-metragem do diretor João Daniel Tikhomiroff Besouro : Nasce um herói”, nosso exaltado “herói”, Manoel Henrique (1897-1924), está novamente na grande tela, desta vez em um novo documentário produzido pela Bluedot Productions, rodado nas ruas de Salvador – Bahia.

Desejamos a toda a equipe de Besouro – Fly Away Beetle, muito sucesso e felicidade e que seja mais uma grande valia para a nossa capoeira.

Luciano Milani

Besouro – Fly Away Beetle

Pode um ritual nascido da escravidão tornou um movimento moderno?

Capoeira, dança composta de combate, ritual estilizado e segue a música sacra do berimbau. Nascida na escravidão e renasce nas ruas modernas do Brasil, o produto Capoeira do desejo incessante de liberdade. Com fotografia deslumbrante este documentário de longa metragem de BlueDot capta a beleza da dança, como Capoeira e ao mesmo tempo a explorar a história, mito e simbolismo atrás de seus movimentos graciosos.

Através de entrevistas, exposições e seguimos a vida de três renomados Mestres de Capoeira de Salvador, Brasil, casa de grande parte da história controversa da arte. Nós vemos como o seu trabalho, juntamente com a dos seus colegas e alunos estão trazendo esperança para as suas comunidades, ea libertação eo respeito a uma geração sem direitos. A fim de melhor compreender o estado actual da Capoeira O filme traça-lo de volta às suas raízes Africano.

Ao fazê-lo, encontramos os Africanos deuses do candomblé (religião indígena animista do Brasil), o cristianismo, bem como a escravidão a partir da qual surgiu a Capoeira. Ouvimos histórias místicas do Besouro lendário (o capoeirista que vôo), bem como as contas do homem histórico por trás dos contos. Encontramos um jovem estudante que ela navega os perigos do seu bairro, transformando a arte da Capoeira.

Em caso de necessidade um é atirado para a luta. No âmbito da luta alguns aprendem a dançar.

(Tradução google)

Fonte: Blog Rabo de Arraia – http://www.rabodearraia.com/capoeira/blog/

 

Can a ritual born out of slavery become a modern day movement?

Capoeira, comprised of stylized dance and ritual combat takes its cue from the sacred music of the berimbau. Born from slavery and reborn on the modern streets of Brazil, Capoeira proceeds from the timeless urge for freedom. With stunning cinematography this feature length documentary film from BlueDot captures the ballet-like beauty of Capoeira while also exploring the history, myth and symbolism behind its graceful moves.

Through interviews, and exhibitions we follow the life of three renowned Capoeira Mestres from Salvador, Brazil; home to much of the art’s contentious history. We see how their work, together with that of their colleagues and students are bringing hope to their communities, and liberation and respect to a disenfranchised generation.

In order to better understand the present state of Capoeira the film traces it back to its African roots. In so doing, we encounter the African gods of Candomble (the indigenous animistic religion of Brazil), Christianity as well as the slavery from which Capoeira has emerged. We hear mythic stories of the legendary Besouro, (the flying capoeirista); as well as accounts of the historical man behind the tales. We meet a young student as she navigates the dangers of her neighborhood by turning to the art of Capoeira

Out of necessity one is thrown into the fight. Within the fight some learn to dance.

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Jesus, Vigotisky, Capoeira e Cidadania

Ø      Jesus pregou a cidadania como Lei Divina
o        Somos todos irmãos
Ø      Vigotisky concebeu a cidadania como decorrência lógica da vida em sociedade e cooperação inter-pares
o        A vida em sociedade ou grupo baseia-se na cooperação entre seus membros ou pares1
o        Nenhum homem se constrói HOMEM sem a cooperação de OUTRO HOMEM2
Ø      A capoeira materializa a cidadania pela indispensabilidade de respeito e confiança mútua entre os seus praticantes
o        A Capoeira parece um embate de corpos, mas é um encontro de corações em clima de harmonia, felicidade e amor3

 

A Capoeira é uma escola de Cidadania

 

Mais do que uma luta, a capoeira é hoje também dança, música, história e cidadania. É uma arte desportiva genuinamente brasileira que, de dia para dia, cativa cada vez mais jovens por todo o mundo, passando uma mensagem de vida, parceria e integração, na luta do dia-a-dia.

O Ministro da Cultura do Brasil, Gilberto Gil, em seu discurso de agosto de 2004 na ONU, em Genebra afirmou:

” … Atualmente, a capoeira já é praticada em mais de 150 países. Nas Américas, no Japão, na China, em Israel, na Coréia, na Austrália, na África e em praticamente toda a Europa. A capoeira disseminou-se pelo mundo com entusiasmo. Mesmo sem falar português, um chinês, um árabe, um judeu ou um americano podem repetir o compasso da mesma música, a arte do mesmo passo e a ginga do mesmo toque.”

A luta está sempre presente, até pelas suas origens – desenvolvida pelos escravos do Brasil como forma de resistir aos opressores, praticada em segredo e recorrendo à “ginga”, movimento que lembra a dança e à música, para assim “enganar” os patrões (Escravistas / Senhores de Engenho / Grandes Fazendeiros, etc…).
“Respeito, malícia, disputa, brincadeira” são elementos presentes durante o jogo onde as canções são marcadas ao ritmo do berimbau, instrumento “rei” da capoeira, sob um ritmo contagiante e profundo.

Quem entra na roda para jogar, entende que o respeito e a cidadania, inerentes do “JOGO”, são fundamentais dentro do universo da capoeiragem, pois a capoeira deve ser praticada dentro de um preceito básico, determinado por 3 PILARES FUNDAMENTAIS:

RITMO, RITUAL e RESPEITO

TRÊS “ERRES” FUNDAMENTAIS

“Capoeira é uma palavra estranha…
que se escreve com um “rê” suave…
e se pratica com três “erres”…
o primeiro é o RITMO… o segundo o RITUAL..
o terceiro é o RESPEITO…
sem os quais não se joga capoeira!”


1 Peer em inglês – 2 Vigotisky – 3 AADF

Ilê de Bamba realiza batizado de capoeira e ritual de cordas neste domingo

O Centro Cultural Ilê de Bamba se prepara para um ‘batizado’ de capoeira entre os seus alunos. O ritual, que também inclui a ‘passagem de corda’, acontece anualmente entre os membros da entidade. No domingo, dia 13 de dezembro, mais de 40 alunos farão parte do evento. O 1º Festival de Capoeira – Batizado e Troca de Corda terá início às 13 horas e será aberto à comunidade.

Desde que o grupo existe, anualmente é realizado um ‘batizado’, ou ‘passagem de corda’ entre os integrantes do Ilê de Bamba. Na capoeira, esse ritual representa que o aluno ‘progrediu’, como passar de ano na escola, por exemplo.

“Eu acho que a corda não é o que faz o capoeirista, mas ela é um símbolo de que a gente evoluiu”, explica o capoeirista Ruly Lino Laurentino (foto), que pratica capoeira há quase dois anos.

A capoeira, assim como algumas artes marciais, possui o ritual da passagem de corda como uma ‘aprovação’ para seus alunos. Segundo o professor de capoeira do grupo Ilê de Bamba, Marcelo Aparecido de Barros, há um número oficial de cordas na capoeira, que muda de acordo com a capacidade do aluno.

“Nós não seguimos o modelo da federação. Preferi acrescentar um número maior de cordas, para dar mais tempo ao aluno”.

Conforme o tempo de aprendizagem, ou a melhora no desempenho do capoeirista, a corda, que é amarrada ao uniforme usado na luta, é trocada por uma corda de outra cor. Assim como existe o judoca “faixa preta”, na capoeira há a corda que representa a maior posição, que no caso, é a branca.

“A capoeira não é como o karatê, que você aprende os movimentos e troca de faixa. O ritual de trocar a corda é uma prova de que você adquiriu ali uma experiência de vida”, afirma o aluno Gilmar Henrique Rodrigues, que pratica capoeira há 10 anos, e trocará de corda este ano.

Este ano, cerca de 40 alunos participam do ritual do batizado. “Primeiro o aluno é batizado, o ritual da troca de cordas vem depois. Apenas os mestres têm direito de batizar os novatos”, diz Marcelo.

O evento será realizado no dia 13 de dezembro, no teatro PAX, a partir das 13 horas. Toda a comunidade está convidada a assistir.

Fonte: http://www.portalcomunitario.jor.br

Por: Camila Stuelp, Hortênsia Franco e Lígia Tesser

Portugal: Capoeira ganha novo espaço em Mogadouro

Depois de mais de 7 meses lecionando a "céu aberto", na Praça da Fonte Nova em Mogadouro, o Grupo de Capoeira que tem o mesmo nome da Vila, ganha um novo espaço para continuar desenvolvendo o seu trabalho, com melhores condições, nas instalações da Escola Primária de Mogadouro- EB1.
 
Sempre na busca de uma dinâmica e de uma participação efetiva da comunidade nas atividades desportivas e culturais, o Dr. Jacinto Galvão, Presidente da Comissão Executiva Instaladora do Agrupamento de Escolas de Mogadouro, foi o grande responsável por esta grande conquista e mais valia para o alunos da Capoeira Mogadouro.
As aulas são gratuitas e abertas a toda a comunidade e acontecem todas as Terças e Quintas nas Instalações da Escola Primária EB1, dás 19:30 hs às 21:00 hs (Inverno) / 20:00 hs às 21:30 hs (Verão)
Mais do que uma luta, a capoeira é hoje também dança, música, história e cidadania. É uma arte desportiva genuinamente brasileira que, de dia para dia, cativa cada vez mais jovens por todo o mundo, passando uma mensagem de vida, parceria e integração, na luta do dia-a-dia.
 
O Ministro da Cultura, Gilberto Gil, em seu discurso de agosto de 2004 na ONU, em Genebra afirmou:
" … Atualmente, a capoeira já é praticada em mais de 150 países. Nas Américas, no Japão, na China, em Israel, na Coréia, na Austrália, na África e em praticamente toda a Europa. A capoeira disseminou-se pelo mundo com entusiasmo. Mesmo sem falar português, um chinês, um árabe, um judeu ou um americano podem repetir o compasso da mesma música, a arte do mesmo passo e a ginga do mesmo toque."
 
Aproximadamente há quatro anos e meio, residindo em Mogadouro, Luciano Milani, natural de São Paulo, Brasil, e conhecido nas rodas capoeiristicas como “Milani”, decidiu implantar em Portugal, mais precisamente em Mogadouro a arte da capoeira, trazendo consigo toda uma cultura brasileira e a cerca de dois anos e meio, fundou o Grupo de Capoeira Mogadouro, por onde já passaram mais de 60 alunos, hoje o grupo conta com cerca de 18 integrantes.
 
A luta está sempre presente, até pelas suas origens – desenvolvida pelos escravos do Brasil como forma de resistir aos opressores, praticada em segredo e recorrendo à “ginga”, movimento que lembra a dança e à música, para assim “enganar” os patrões (Escravistas / Senhores de Engenho / Grandes Fazendeiros, etc…).
“Respeito, malícia, disputa, brincadeira” são elementos presentes durante o jogo onde as canções são marcadas ao ritmo do berimbau, instrumento "rei" da capoeira, sob um ritmo contagiante e profundo.
 
Quem entra na roda para jogar, entende que o respeito e a cidadania, inerentes do "JOGO", são fundamentais dentro do universo da capoeiragem, pois a capoeira deve ser praticada dentro de um preceito básico, determinado por 3 PILARES FUNDAMENTAIS:
RITMO, RITUAL e RESPEITO
TRÊS "ERRES" FUNDAMENTAIS
 
"Capoeira é uma palavra estranha…
que se escreve com um "rê" suave…
e se pratica com três "erres"…
o primeiro é o RITMO… o segundo o RITUAL..
o terceiro é o RESPEITO…
sem os quais não se joga capoeira!"
 
Mestre Decanio, Presidente de Honra do Grupo Capoeira Mogadouro.
 
 
Agradecimentos especiais a toda a equipe de docentes e funcionários do Agrupamento de Escolas de Mogadouro, a toda a Comissão Executiva e ao Professor Manuel Paulo Borges, Diretor responsável pela Escola Primária EB1 de Mogadouro.
 
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TRÊS “ERRES” FUNDAMENTAIS

Capoeira é uma palavra estranha…
que se escreve com um "rê" suave…
e se pratica com três "erres"…
o primeiro é o RITMO… o segundo o RITUAL..
o terceiro é o RESPEITO
sem os quais não se joga capoeira!

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CAPOEIRA ANGOLA: Uma discussão sobre turismo e preservação de recursos naturais

CAPOEIRA ANGOLA: UMA DISCUSSÃO SOBRE TURISMO E PRESERVAÇÃO DE RECURSOS NATURAIS A PARTIR DE TRADIÇÕES CULTURAIS


Rosa Maria Araújo Simões
Professora do Departamento de Artes e Representação Gráfica – FAAC – Unesp/Bauru
Doutoranda em Ciências Sociais – UFSCar
Membro do LEL-UNESP/Rio Claro
Orientadora: Profa. PhD. Marina Denise Cardoso
Av. Eng. Luís Edmundo Carrijo Coub, s/n – Bauru/SP – CEP 17033-360
(DARG/FAAC/UNESP)
[email protected]

Introdução

A roda de capoeira angola é um processo ritual 1 do qual se apreende um sistema de valores que aponta para uma cosmovisão sobre a relação homem-ambiente (capoeirista-roda).
A partir dos objetos utilizados (instrumentos musicais), da música produzida, dos movimentos corporais e do próprio significado da roda (que representa ‘O mundo velho de Deus’), o presente trabalho objetiva ilustrar, por um lado, a lógica subjacente a tal manifestação a partir de discursos de seus guardiães (mestres de capoeira angola da cidade de Salvador – BA) e apontar diferentes significações e/ ou re-significações ao considerar, por outro lado, os discursos de turistas em Salvador que, quando questionados sobre o que é a capoeira afirmam: ‘capoeira é um folclore da Bahia’, ‘é uma luta baiana’, ‘uma dança africana’, ou ainda, quando abordados no Mercado Modelo e questionados sobre o porque de seu interesse pelo berimbau, respondem que é para dar de presente como lembrança da Bahia, ou, para enfeitar a parede de sua sala etc. Assim, no que diz respeito à produção de instrumentos musicais, por exemplo, podemos citar a técnica de extração da biriba, madeira utilizada para a confecção de um ‘bom berimbau’. A percepção estética de grandes mestres de capoeira, não só relacionada a uma audição aguçada para a afinação do instrumento, mas também para a plasticidade do mesmo, os permitem salientar a diferença existente entre o berimbau para turista, vendido, sobretudo, no Mercado Modelo e utilizado como objeto de decoração e/ou lembrança da Bahia e o berimbau utilizado na roda (objeto ritual).

Para ler este artigo em sua íntegra clique aqui: 

CAPOEIRA ANGOLA: Uma discussão sobre turismo e preservação de recursos naturais

CAPOEIRA ANGOLA: UMA DISCUSSÃO SOBRE TURISMO E PRESERVAÇÃO  DE RECURSOS NATURAIS A PARTIR DE TRADIÇÕES CULTURAIS


Rosa Maria Araújo Simões
Professora do Departamento de Artes e Representação Gráfica – FAAC – Unesp/Bauru
Doutoranda em Ciências Sociais – UFSCar
Membro do LEL-UNESP/Rio Claro
Orientadora: Profa. PhD. Marina Denise Cardoso
Av. Eng. Luís Edmundo Carrijo Coub, s/n – Bauru/SP – CEP 17033-360
(DARG/FAAC/UNESP)
[email protected]

 

Introdução 

A roda de capoeira angola é um processo ritual1 do qual se apreende um sistema de valores que aponta para uma cosmovisão sobre a relação homem-ambiente (capoeirista-roda).
A partir dos objetos utilizados (instrumentos musicais), da música produzida, dos movimentos corporais e do próprio significado da roda (que representa ‘O mundo velho de Deus’), o presente trabalho objetiva ilustrar, por um lado, a lógica subjacente a tal manifestação a partir de discursos de seus guardiães (mestres de capoeira angola da cidade de Salvador – BA) e apontar diferentes significações e/ ou re-significações ao considerar, por outro lado, os discursos de turistas em Salvador que, quando questionados sobre o que é a capoeira afirmam: ‘capoeira é um folclore da Bahia’, ‘é uma luta baiana’, ‘uma dança africana’, ou ainda, quando abordados no Mercado Modelo e questionados sobre o porque de seu interesse pelo berimbau, respondem que é para dar de presente como lembrança da Bahia, ou, para enfeitar a parede de sua sala etc. Assim, no que diz respeito à produção de instrumentos musicais, por exemplo, podemos citar a técnica de extração da biriba, madeira utilizada para a confecção de um ‘bom berimbau’. A percepção estética de grandes mestres de capoeira, não só relacionada a uma audição aguçada para a afinação do instrumento, mas também para a plasticidade do mesmo, os permitem salientar a diferença existente entre o berimbau para turista, vendido, sobretudo, no Mercado Modelo e utilizado como objeto de decoração e/ou lembrança da Bahia e o berimbau utilizado na roda (objeto ritual).
 

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A RESPEITO DO AXÉ

Para discorrer a respeito da natureza e destino humanos é interessante iniciar esclarecendo o significado de axé, nome dado pelos iorubás à força vital.
Segundo Maupoil (citado por E. dos Santos, 1986) axé é a força invisível, a força mágico-sagrada de toda divindade, de todo ser animado, de toda coisa.
Não aparece espontaneamente, precisa ser transmitida.
Qualquer chance de realização na existência depende do axé que, enquanto força, obedece a algumas leis:

  1. é absorvível, desgastável, elaborável e acumulável;
  2. é transmissível através de certos elementos materiais, de certas substâncias;
  3. uma vez transferido por essas substâncias a seres e objetos, neles mantém e renova o poder de realização;
  4. pode ser aplicado a diversas finalidades;
  5. sua qualidade varia segundo a combinação de elementos que o constituem e que são, por sua vez, portadores de uma determinada carga, de uma particular energia e de um particular poder de realização. O axé dos orixás, por exemplo, é realimentado através de oferendas e de ação ritual, transmitido por intermédio da iniciação e ativado pela conduta individual e ritual;
  6. pode diminuir ou aumentar.

O axé encontra-se numa grande variedade de elementos do reino animal, vegetal e mineral.
Encontra-se em elementos da água, doce e salgada e da terra.
Acha-se contido nas substâncias essenciais de seres, animados ou não.

Elbein dos Santos (1986) apresenta uma classificação do axé em categorias: sangue vermelho, sangue branco e sangue preto.
O sangue vermelho, no reino animal compreende o sangue propriamente dito, animal e humano, aí incluído o fluxo menstrual;
no reino vegetal, inclui o epo, azeite de dendê, o osun, pó vermelho extraído de pterocarpus erinacesses e o mel, sangue das flores.
O sangue branco, inclue: noreino animal, o hálito, o plasma, o sêmen, a saliva, o suor e outras secreções; no reino vegetal, a seiva, o sumo, o álcool e as bebidas brancas extraídas de palmeiras e de alguns vegetais, o ori, manteiga vegetal e oiyerosun, pó esbranquiçado extraído do irosun; no reino mineral, os sais, o giz, a prata, o chumbo, etc.
O sangue preto compreende, no reino animal, as cinzas de animais; no vegetal, o sumo escuro de certas plantas, o ilu, índigo extraído de diferentes tipos de árvores, pó azul escuro chamado waji; no reino mineral, o carvão, ferro, etc.

Para poder atuar, o axé deve ser transmitido através de uma combinação particular que contém representações materiais e simbólicas do branco, do vermelho e do preto, do aiye e do orun, competindo ao oráculo a definição da composição necessária do axé a ser implantado ou restituído.

O sangue – animal, vegetal ou mineral – é substância indispensável para a restauração da força.

Todo ritual, seja uma oferenda, um processo iniciático ou uma consagração, realiza implante da força ou revitalização.

O que vive,
 para poder realizar-se ou realizar,
precisa de axé e,
não sendo a fonte inesgotável,
a reposição se faz necessária
e é obtida através da prática ritual
 que reatualiza a força do tempo primordial,
o tempo da criação!

A importância da regularidade dos ritos reside no fato de que a presença das entidades sobrenaturais é favorecida pela atividade ritual, ocasião privilegiada da transferência e redistribuição do axé. Este, oriundo das mãos e do hálito dos mais antigos, na relação interpessoal, é recebido através do corpo e atinge níveis profundos, incluídos os da personalidade, através do sangue mineral, vegetal e animal das oferendas.

 

Ronilda Iyakemi Ribeiro