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Capoeira e Educação Libertária para Formação de Sujeitos Autônomos

CAPOEIRA E EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA PARA FORMAÇÃO DE SUJEITOS AUTÔNOMOS
as práticas de ensino nas rodas de rua do RJ Omri Ferradura Breda Professor especializado em capoeira na Educação Infantil

 

Introdução

O ensino da Capoeira como ferramenta educacional foi amplamente difundido a partir da década de 1990, da creche à universidade em todo o território nacional. Entretanto, é associado a uma visão restrita que considera apenas os aspectos motores, musicais e artísticos da prática. O papel libertário histórico da Capoeira é geralmente negligenciado. O trabalho visa caracterizar a Capoeira como prática educativa transformadora no desenvolvimento da autonomia. São analisadas experiências educativas espontâneas em rodas de Capoeira desenvolvidas nas ruas. Os conceitos de autonomia, autoritarismo, liberdade e disciplina em nível político, social e individual são aqui enxergados em sentido amplo e relacionados diretamente com as teorias de educação libertária. Nesse sentido, tendo em vista a pluralidade de visões acerca do tema, recorri aos estudos de Michael Alexandrovich Bakunin, Alexander Sutherland Neill, Paulo Freire, Maurício Mogika e Silvio Gallo, entre outros. Concluo apresentando como a Capoeira se legitima em poderosa ferramenta pedagógica para uma educação democrática.

Se existe uma palavra que define o papel da Capoeira nas lutas sociais de que tomou parte, determinando seu papel como arma de resistência cultural, essa palavra é liberdade.

Por ser esse conceito tão temido e oprimido ao longo da História, o negro capoeirista1 sempre representou uma ameaça ao sistema político brasileiro, conhecido pela seletividade com que contempla as liberdades individuais e coletivas da elite social e das camadas populares.

A Capoeira, pela sua própria origem e ancestralidade, foi duramente perseguida, e seus praticantes foram dizimados pela ação do Estado. A partir da Era Vargas, contudo, a ideologia ufanista foi paulatinamente incorporando-a como símbolo da Pátria, “Esporte Nacional”. O turismo passou a consumi-la e a determinar uma nova estética, baseada em acrobacias impressionantes. A prática rebelde passou a ser aceita, mas somente de forma normatizada, regulamentada, institucionalizada. Formas sutis de arregimentação social se revelaram mais profícuas do que a mera repressão.

O objetivo de conceder legitimidade sob os auspícios do Estado era melhor para poder controlar, vigiar e, em última instância, suprimir o caráter transgressor da Capoeira. Não obstante, a capacidade de adaptação, de disfarce, de camaleonização da cultura negra permitiu a ela mudar em muitos aspectos, preservando sua essência, seu caráter libertário.

Neste trabalho serão analisadas as potenciais contribuições da Capoeira na área da Educação, especialmente no tocante ao desenvolvimento da autonomia, nos níveis individual e político, tendo em vista o ensino socialmente comprometido.

A relevância do tema é afirmada levando em conta a abrangência nacional da Capoeira, sua aplicabilidade e presença em todos os ambientes educacionais formais e não formais nos mais diversos níveis sociais e a efetividade dos resultados atingidos em inúmeras instituições educativas.

Os objetivos deste trabalho são: analisar as contribuições da Capoeira para a construção da autonomia; caracterizar a Capoeira como prática educativa libertária e refletir sobre a sabedoria ancestral da educação espontânea não institucionalizada das rodas de Capoeira realizadas na rua.

Metodologia

Os principais marcos teóricos utilizados na conceituação das relações entre liberdade e autonomia foram os estudos de Bakunin, Alexander Neill, Paulo Freire, Maurício Mogika e Silvio Gallo. Os autores pesquisados divergem em relação a várias questões. O objetivo neste trabalho não é analisar a obra deles, e sim dialogar com eles, relacionando seus estudos à potencial contribuição da cultura afro-brasileira à educação.

Foram analisados, in loco, aspectos relacionados à didática da Capoeira em rodas de rua, na condição de professor-pesquisador dessa arte desde 1991. As observações específicas quanto ao caráter politicamente transformador da Capoeira nas práticas institucionalizadas ou não estão baseadas nessa experiência pessoal.

Desenvolvimento

O trabalho interliga o campo da educação ao da política, da sociologia e do saber popular. Esse modelo se justifica pela impossibilidade de explicar os fenômenos ligados à Capoeira fora de uma visão sistêmica. Segundo Mogika (1999), “na pedagogia e na psicologia humanistas o ser humano é entendido como um organismo complexo, no qual são indissociáveis mente, corpo e sociedade, isto é, ele é um ser bio-psico-social” (p. 61). Esta também é uma das principais características da cosmovisão africana: encarar o homem como um ser integral, no qual mente-corpo-espírito-sociedade estão interligados. A Capoeira como prática educativa situa a África na vanguarda do pensamento humanista, muitos séculos à frente da filosofia compartimentalizada ocidental só recentemente voltada ao holismo.

Definindo a Capoeira

Tentar conceituar a Capoeira requer um exercício de imaginação, dada a pluralidade de perspectivas assumidas pelos diversos praticantes e estudiosos do tema.

É na própria diversidade, na capacidade de assumir perspectivas opostas sem que uma anule a outra, que reside a força da Capoeira. Arte marcial, esporte, dança, teatro, folclore, todas essas definições parciais já foram utilizadas na tentativa de conceituá-la. É necessário afirmar essas diferenças como facetas de um todo para compreendê-la como arte que pode e deve se adaptar às diversas contingências históricas e sociais. Mestre Pastinha2, poeticamente chamou-a de “mandinga de escravo em ânsia de liberdade”. Ao afirmarmos que a Capoeira é caracterizada por uma atitude de afirmação da liberdade desde a sua gênese (“mandinga de escravo em ânsia de liberdade”), acreditamos que solidificar conceitos seria restringir essa arte a uma doutrina estanque; “provocar o seu sepultamento, negar sua principal força seria a negação do princípio básico da liberdade” (GALLO, on line). Ou seja, podemos apresentar aspectos da Capoeira, não defini-la.

Aceitando essa premissa iremos, sem assumir reducionismos, priorizar para fins deste trabalho um corte epistemológico que afirme a Capoeira como arte educativa libertária e socialmente comprometida com a mudança.

Autonomia e educação para a liberdade

A prática libertária da Capoeira tem como objetivo favorecer o desenvolvimento da autodisciplina e da autonomia no educando. Não obstante, a vivência dessa filosofia na prática diária não ocorre sem conflitos. Sendo assim, antes de analisarmos as relações de ensino-aprendizagem na Capoeira é fundamental definir como iremos trabalhar os conceitos de autonomia, liberdade, licenciosidade, autoridade, autoritarismo e disciplina.

Liberdade e autonomia

Bakunin defendia a liberdade como:

o direito absoluto de todo homem ou mulher de só procurar na própria consciência e na própria razão as sanções para os seus atos, de determiná-los apenas por sua própria vontade e de (…) serem responsáveis primeiramente perante si mesmos, depois, perante a sociedade (p. 74). Para Mogika, o termo liberdade significa irrestrição; já a autonomia seria

a capacidade de definir suas próprias regras e limites, sem que estes precisem ser impostos por outro: significa que aquele agente é capaz de se autorregular. Logo, na palavra autonomia estão implícitos, simultaneamente, a liberdade relativa do agente (…) e a limitação derivada da relação com o mundo natural e social (MOGIKA , 1999, p. 59). Na roda de Capoeira o jogador não é proibido de fazer o que quer que seja, pois se trata de um jogo sem regras formais; porém a liberdade do indivíduo é contingenciada por acordos tácitos estabelecidos na relação com as liberdades dos demais. Exemplificando: um capoeirista não é proibido de, num acesso de raiva, gratuitamente arrancar os dentes de outro com um chute, mas se o fizer será punido pelo meio social. A decisão e a responsabilidade pelo autocontrole ficam a cargo do indivíduo. É nesse sentido que a prática da Capoeira vai auxiliar na formação da autonomia, posto que, segundo Freire (1996, p. 107), ela se constitui

“na experiência de várias, inúmeras decisões, que vão sendo tomadas” e que “uma pedagogia da autonomia tem de estar centrada em experiências estimuladoras da decisão e da responsabilidade, vale dizer, em experiências respeitosas da liberdade”. É no domínio da decisão, da avaliação, da liberdade, da ruptura, da opção, que se instaura a necessidade da ética e se impõe a responsabilidade (idem, ibidem). Liberdade individual e licenciosidade

Concordo com Neill (1980) nas suas premissas básicas: 1) A liberdade trata dos direitos da pessoa; e 2) a licenciosidade consiste em ultrapassar os direitos alheios.

No exemplo citado, é clara a escolha que o indivíduo tem entre assumir um ou outro extremo; na prática da Capoeira, a capacidade de se disciplinar é o que garante ao jogador o gozo de sua própria liberdade.

Liberdade como valor político

A liberdade individual pregada pela Capoeira só se realiza em comunhão com a liberdade de todos, ou seja, esse conceito só pode ser vivido se estendido a todos. Bakunin (1980) entendia a liberdade de cada um como um valor que, longe de ser delimitado pela liberdade alheia, encontrava nela “sua confirmação e sua extensão ao infinito; a liberdade ilimitada de cada um pela liberdade de todos, a liberdade pela solidariedade, a liberdade na igualdade” (op. cit., p. 41). E ainda:

Não é verdadeiro que a liberdade de um homem seja limitada pela de todos os outros. Só sou livre quando minha personalidade, refletindo-se, como em inúmeros espelhos na consciência de outros homens livres (…), retorna-me reforçada pelo reconhecimento de todos. A liberdade de todos, longe de ser um limite da minha (…), é, ao contrário, sua confirmação, sua realização e sua extensão infinita (idem, p. 33). Portanto, nessa visão não há contradição entre a liberdade individual e conscientização política; pelo contrário, a primeira é condição complementar à segunda. Somente cidadãos autorregulados, autodisciplinados serão capazes de viver em “uma democracia participativa, em que cada pessoa participe ativamente dos destinos políticos de sua comunidade” (GALLO, on line).

Autoridade, autoritarismo e disciplina

A autoridade é uma qualidade que se demonstra pelo exemplo, pelo conhecimento e pelo respeito e empatia com o aluno. Ela não pode ser confundida com o autoritarismo, que se impõe na pressuposição de que o professor “sabe mais” (Capoeira, Biologia, Matemática) e deve ser “respeitado” por isso. Respeitado aqui significa ser ouvido sem contestação alguma por parte do aluno. A autoridade democrática, segundo Freire (1996), não necessita fazer discurso sobre si mesma, pois ela é uma realidade, assim como uma cadeira ou um sentimento.

Freire defendia que a autoridade do professor deve sempre ser acompanhada pela liberdade do aluno; somente dessa forma ela se legitima e oferece as condições para o surgimento da única disciplina que merece ser chamada como tal, a autodisciplina.

Resultado da harmonia ou do equilíbrio entre autoridade e liberdade, a disciplina implica necessariamente o respeito de uma pela outra. (…) O autoritarismo e a licenciosidade são rupturas desse equilíbrio (…), são formas indisciplinadas de comportamento. Assim como inexiste a disciplina no autoritarismo e na licenciosidade, desaparece em ambos, a rigor, autoridade ou liberdade (FREIRE, 1996, p. 89). A Capoeira de rua

A relação mestre-discípulo do período anterior era caracterizada pela liberdade dada ao aprendiz. A imensa maioria dos Capoeiras antigos passou por diversos tipos de ensinamento com diferentes mestres, sempre de forma não sistemática. Era no Mundo (e não na Academia) que se aprendiam os conhecimentos a serem aplicados no Mundo: a malícia, a malandragem, a violência, a arte. A Capoeira “acadêmica” sempre teve como contraparte as práticas livres de capoeiristas free-lancers, autônomos, desvinculados do sistema, que faziam da rua seu meio de expressão. Diferentemente de hoje, quando a maioria dos capoeiristas realiza rodas em seus próprios espaços, até a década de 1960 a norma eram as rodas de rua, feitas em praças públicas, feiras e festas populares. Essas manifestações espontâneas foram diminuindo de frequência nas décadas seguintes.

A Capoeira como capital cultural

Iremos analisar agora como as chamadas “rodas de rua” se caracterizam por espaços educacionais democráticos.

Tomemos como referência a chamada Roda Livre de Caxias, manifestação cultural realizada desde a década de 1970 no município de Duque de Caxias. Veremos como a trajetória da roda se confunde com a de seus fundadores. É a partir de seus exemplos concretos que demonstrarei o potencial transformador da Capoeira.

Rabelo (2005) narra o caminho traçado por esse grupo de jovens criados em áreas desfavoráveis da Baixada Fluminense, que souberam por meio da Capoeira transformar a adversidade em oportunidade.

Não bastasse a discriminação sofrida pela sua cor e classe social por parte da sociedade, esses jovens, por se recusarem a assumir os valores militarizados vigentes na época, eram também marginalizados no próprio meio da Capoeira institucionalizada. Buscaram, então, como alternativa, levar a Capoeira para a rua e dela fizeram a sua escola.

Mestre Cinésio Peçanha “Cobra Mansa”4 (radicado em Washington-DC, EUA), Mestre Rogério Peixoto (radicado em Kassel, Alemanha), e Mestre Jurandir Nascimento (radicado em Seattle – EUA), por meio da Capoeira, saíram da Baixada Fluminense para se tornarem “embaixadores culturais” brasileiros. Seus passaportes estão carimbados pelas dezenas de países por onde passam anualmente ministrando cursos de nossa cultura: Inglaterra, França, Alemanha e Finlândia. Para compreendermos como a Capoeira possibilitou uma educação autônoma para esses mestres, precisamos analisar as condições em que se deu a sua “formação escolar” na roda de rua. Tomaremos como exemplo a prática de seu atual guardião, Mestre (ou “Zelador”) Russo5.

A jornada de um intelectual orgânico brasileiro

Russo afirma em seus discursos públicos: “Só tive oportunidade de estudar até a admissão ao ginásio, os cinco primeiros anos; o resto foi a Capoeira que me fez “correr atrás”. Aprendi a oratória na prática de artista de rua, contando piada para manter o publico entretido ente um salto e outro por dentro de argolas incrustadas com facas”.

Russo é um orador popular; como percebido em seu discurso, a oratória pública foi exercitada inicialmente com o humor. Posteriormente, Russo refinou sua arte utilizando a própria Capoeira para suas reflexões filosóficas.

Durante a execução da roda, não raro interrompe seu andamento e mantém o povo que passa por lá atento às suas observações sobre variados temas. Por exemplo, partindo da discriminação sofrida no meio da Capoeira, Russo utiliza a indução, indo do particular para o genérico, para falar sobre a discriminação em geral, tocando publicamente em temas tabus, como preconceito de classe, cor, gênero, religião.

Após provocar a reflexão no público não capoeirista, Russo faz o caminho inverso: parte do geral para o particular, narrando como a sociedade de controle6 atua de tal forma que o Capoeira passa a reproduzi-la no seu campo individual, sem mesmo perceber a contradição entre a sua prática autoritária e a premissa básica da Capoeira, que é a liberdade.

Sem ter ouvido falar de Focault, Freire ou Gramsci, ele justifica a necessidade de falar em praça pública com o argumento de que “a palavra também é poder”; portanto, o povo pode e deve se utilizar dela. Sua erudição já lhe rendeu um livro publicado (RABELO, 2005) e diversos estudos acadêmicos sobre sua prática.

Howell (2004), a seu respeito, escreveu: “Russo é um “intelectual orgânico” respeitado pela coletividade. Apesar de pobre, já foi à Europa e aos EUA como convidado de honra. Sua formação foi puramente cultural e é um exemplo do potencial sucesso da educação cultural preconizada por Paulo Freire” (p. 21). A prática espontânea da Capoeiragem em espaços públicos e orientada para o povo auxilia na formação de uma consciência crítica em relação à cidadania e no desenvolvimento da autonomia. Mestre Russo é a prova viva disso.

Outro exemplo é a chamada Conexão Carioca de Rodas de Rua, liderada por diversos mestres de Capoeira desde o ano 2010. Esse movimento inclui, em um ambiente de não violência e de respeito mútuo, praticantes de diversas linhas de Capoeira, num processo educativo a que chamo “didática libertária das rodas de rua”.

A didática libertária da roda de rua

A maior parte das rodas de Capoeira leva o nome de quem as comanda, isto é: “Roda do Mestre Fulano ou Mestre Beltrano”. Isso não se dá nas rodas de rua. Em geral, elas se colocam com nomes dos logradouros que ocupam, muitas vezes escolhidos por serem locais representativos da cultura negra: Caxias, Arco do Telles, Cais do Valongo etc.

Em geral, a didática libertária da roda de rua tem como características principais a liberdade de ação igualitária; a descentralização da autoridade; a participação popular; e o internacionalismo, assim:

A liberdade de ação igualitária é a possibilidade de qualquer capoeirista, independentemente de seu grupo de Capoeira, idade, nacionalidade, tempo de serviço, status, posto dentro da Capoeira (mestre, professor, aluno) ou habilidade, se expressar musical, artística ou fisicamente sem receio de ser coagido ou reprimido por conta de sua condição. Na prática da roda isso se expressa no chamado “jogo de compra”, em que o capoeirista adentra a roda no momento em que julga apropriado, sem necessidade de pedir permissão a quem quer que seja. Na maioria das rodas esse procedimento resulta em desordem ou é desencorajado por conta da vaidade dos jogadores mais graduados, que insistem em se exibir um sem-número de vezes, nas rodas de rua não raro um jogo pode levar até vinte minutos sem interrupção. Minha teoria é de que a liberdade oferecida tende a gerar a autodisciplina. A descentralização da autoridade – Apesar da presença constante de diversos mestres na roda, estes não interferem constantemente em seu andamento, tampouco regulam a entrada ou o tempo de jogo dos participantes com a mesma rigidez autoritária que muitas vezes praticam em suas escolas. O controle é feito de forma tácita pela própria coletividade dos capoeiristas. Tende a imperar na rua o respeito pelo outro e, quando há excesso individual por parte de algum dos presentes, os demais zelam pelo bom andamento da roda, dialogando com este ou inibindo-o fisicamente. Acredito que essa falta intencional de uma autoridade central cria um clima de responsabilização coletiva pelo bem comum. “Neste sistema já não há propriamente poder. O poder baseia-se na coletividade, e torna-se a expressão sincera da liberdade de cada um, a realização fiel e séria da vontade de todos” (BAKUNIN, s/d, p. 60). A participação popular – Segundo Mestre Russo, um dos principais objetivos da roda de rua de Caxias é “devolver ao povo o que ao povo pertence: a sua própria cultura”. Ao contrário das rodas organizadas por grupos de Capoeira na rua, nas quais a participação popular costuma se restringir à condição de espectador, as rodas abertas caracterizam-se por serem de rua, ou seja, abertas ao povo, que ali atua de forma ativa. É comum a participação de mendigos, crianças de rua, esfarrapados e loucos lado a lado com capoeiristas profissionais. A liberdade é tão prezada que até mesmo “entidades espirituais” jogam7. O internacionalismo – Caracteriza-se pela afirmação da aceitação da alteridade e, consequentemente, pela negação a qualquer forma de discriminação na roda. A inimaginável cena de finlandeses, ingleses, americanos ou japoneses visitando a Baixada Fluminense é comum todos os domingos, na Praça do Pacificador, em Caxias, ou nas diversas rodas espalhadas pelas ruas do Rio. Esses estrangeiros são aceitos e participam de forma igualitária dentro de uma cultura notadamente brasileira. A Capoeira, sob essa ótica, de certa forma deixa de ser um “bem”, uma “posse” brasileira, e passa a ser uma cultura “brasileiro-universal”, pois essas pessoas são parte integrante do meio. É interessante perceber que, no imaginário popular, desde a fundação do Estado Novo a Capoeira tem sido representada como símbolo da Pátria, mas, paradoxalmente, atualmente tem botado em xeque a noção de identidade nacional, quando se une o enaltecido passado africano ao presente internacionalismo.

Segundo Gallo, a noção de identidade nacional foi concomitante à criação do Estado-nação:

a constituição dos Estados-nações europeus foi um empreendimento político ligado à ascensão e consolidação do capitalismo, sendo, portanto, expressão de um processo de dominação e exploração”; portanto, “é inconcebível que a construção de uma sociedade libertária possa se restringir a uma ou a algumas dessas unidades geopolíticas às quais chamamos países (on line). Ainda a esse respeito, no ideal de Bakunin (1980), seria necessário reduzir

o assim chamado princípio da nacionalidade, princípio ambíguo, cheio de hipocrisias e de armadilhas, princípio de Estado histórico, ambicioso, ao princípio muito maior, muito simples e único legítimo, da liberdade: cada um (…) tem o direito de ser ele próprio, e ninguém tem o direito de impor-lhe seus costumes, sua vestimenta, sua língua, suas opiniões e suas lei; cada um deve ser absolutamente livre em si.< Todas estas ideias estreitas, ridículas, criminosas, de grandeza, de ambição e de glória nacional são boas apenas (…) para enganar os povos e amotiná-los uns contra os outros, para melhor submetê-los (idem, ibidem, p. 57-58). A liberdade e a prosperidade das nações deveria levar à superação das diferenças regionais, “à comunicação entre todos os países, à abolição das fronteiras, dos passaportes e das alfândegas” (idem, ibidem, p. 91).

Ao defender a igualdade entre capoeiristas brasileiros e estrangeiros, a Capoeira supera o nacionalismo e se afirma como elo entre os povos. As rodas de rua são um encontro ecumênico, pluriétnico e multicultural. A didática da rua é a didática da Capoeira libertária, e em sua vivência a democracia se afirma.

Conclusão

As práticas da Capoeira ilustram o modo como se poderia aplicar o conhecimento popular na Educação, em uma concepção libertária e democrática. Porém, para que a autonomia individual se realize em ato político democrático, é necessário que o indivíduo se imbua de responsabilidade social, o que, entre outras coisas, num país como o Brasil significa fazer da ação pedagógica um instrumento de transformação social.

A ação política na Capoeira se caracteriza pela luta social em prol de uma sociedade justa que recuse a discriminação e as desigualdades sociais. Cada sujeito tem responsabilidade pela conscientização dos demais. Por isso é fundamental encarar a formação do sujeito autônomo como condição para a mudança.

Segundo Bakunin (s/d, p. 31), “a liberdade dos indivíduos não é absolutamente um fato individual (…). Nenhum homem pode ser livre fora e sem o concurso de toda a sociedade humana”.

O educador cultural deve estar sempre a favor da mudança, se quiser se fazer merecedor de seu papel. A mudança estimula seu aluno homem-mulher-criança a não se resignar diante dos inúmeros mecanismos de controle da liberdade que nos impedem de viver nossa condição humana em plenitude.

 

Bibliografia

ABREU, Frede. O barracão de Mestre Waldemar. Salvador: Zarabatana, 2003.

ÄLLIEZ, Eric (org.). Gilles Deleuze: uma vida filosófica. São Paulo: Ed. 34, 2000.

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BAKUNIN, Michael Alexandrovich. Textos anarquistas. Porto Alegre: L&PM, 1980.

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BÉZIERS, Marie-Madeleine. O bebê e a coordenação motora. Rio de Janeiro: Summus, 1992.

BREDA, Omri. A Capoeira como prática educativa transformadora. Anais do I Seminário de Educação e População Negra. Niterói: PENESB/UFF, 2005.

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FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir – história da violência nas prisões. Petrópolis: Vozes, 1987.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. São Paulo: Cortez, 1992.

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GALLO, Sílvio. Anarquismo e Filosofia da Educação. Disponível no site suigeneris.pro.br. Acesso em 02 out. 2005.

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HOWELL, George. Playing in the street: resistance, violence and identity in the suburbs of Rio de Janeiro. Anthropology dissertation. London: Goldsmith’s College, 2004.

MOGIKA, Maurício. Autonomia e formação humana em situações pedagógicas: um difícil percurso. São Paulo: Educação e Pesquisa, 1999.

NEILL, Alexander Sutherland. Summerhill – Liberdade sem medo. São Paulo: Ibrasa, 1980.

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SODRÉ, Muniz. Mestre Bimba, corpo de mandinga. Rio de Janeiro: Manati, 2002.

SOLER, Reinaldo. Jogos cooperativos para a educação infantil. Rio de Janeiro: Sprint, 2003.

São Paulo: Mestre Russo de Caxias – Oficina & Novo CD

Mais uma vez em São Paulo, Mestre Russo de Caxias realizará uma jornada de atividades no 16 de Abril, sábado, das 9:00 às 21:00h. Oficina, mesa redonda, bate papo com os Mestres e roda de confraternização, com destaque para o lançamento do seu novo CD: Tempero da Massa – Musicalidade da Roda Livre de Capoeira de Duque de Caxias. O Evento acontecerá na Universidade de São Paulo (Centro de Páticas Esportivas – CEPEUSP), sob a coordenação do Mestre Gladson e do Professor Vinicius e tem apoio do CEPEUSP, da Projete Liberdade Capoeira e da Bassula Originals. Maiores informações sobre isncrições podem ser consultadas no site www.projeteliberdadecapoeira.com.br
A idéia é reunir amigos numa grande confraternização. Compartilhar conhecimentos, trocar experiências e prestigiar o lançamento do CD do Mestre Russo, que esteve em São Paulo no ano passado, durante a XII Clínica de Capoeira do CEPEUSP, onde ministrou palestras e oficinas, apresentou o seu DVD e foi bastante elogiado pelos presentes.
Jonas Rabelo, o Mestre Russo é o Zelador da Roda de Duque de Caxias – RJ, uma as mais tradicionais rodas de Capoeira de Rua do Brasil e do mundo. Um importante “celeiro” de Bambas, por onde já passaram grandes Mestres da atualidade. A Roda se caracteriza pelo respeita às tradições e Capoeira de muita qualidade. Mestre Russo é um dos grandes responsáveis pela manutenção e preservação da Roda de Caxias, que continua dando frutos, com excelentes capoeira da nova geração.
Após o evento de São Paulo, Mestre Russo parte para a Europa para uma turnê em diversos países onde também mostrará o seu novo CD.

Mestre Russo de Caxias: O Zelador

Jonas Rabelo, conhecido na capoeiragem como Mestre Russo de Caxias, iniciou-se na Capoeira em 1968. Através de amigos começou a assistir as apresentações de suas respectivas escolas de capoeiragem em eventos festivos, nos quais passou a freqüentar ativamente como jogador convidado.

Em 1972 foi apresentado ao Mestre Barbosa, com quem treinou até 1975.

No dia 3 de junho de 1973, dia do Santo Antonio, um grupo de amigos capoeiristas organizou uma roda em uma festa na comunidade da Igreja Católica Santo Antonio.

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Alemanha: 5º Aniversário do Cazuá

A Família Cazuá estava em festa…

O Grupo Irmãos Guerreiros, mais uma vez junto com o centro cultural CAZUÁ, convida  todos  para  a comemoração do 5º aniversário,  em Bremen – Alemanha, no dia 15 ao dia 18 de Outubro de 2009

Este  ano teremos oficina de Tambor de Criola, Dança Afro e muito Samba de Roda.

Momento especial será o lancamento oficial do novo cd dos parceiros “Pernas” (Mestre Pernalonga e Cm Perna), intitulado:  No que o tempo se destina, já esta a venda  em SP e Bremen no CAZUÁ

Covidamos a a todos para perticiparem deste sensacional evento .

 

Este ano teremos a precença de vários mestres e profissionais da capoeira:

  • Mestre Murah Soares – Dança Afro Berlim
  • Mestre Russo de Caxias
  • Mestre Pernalonga (Nova Geracão de Angola / SP)
  • C.mestre Perna Irmãos Guerreiros (Irmãos Guerreiros / São Paulo / Bremen)
  • C.mestre Forro (Grupo Marrom Capoeira Alunos Rio)
  • Prof. Malvadeza . (Irmãos Guerreiros / São Paulo / Bremen)
  • Prof. kenneth (Irmãos Guerreiros / Vienna)

 

Um evento importante cujo destaque é a presença de Mestre Russo de Caxias e a qualidade de capoeira praticada e ensinada pela família Irmãos Guerreiros.

Maiores  informações:

www.capoeira-angola-bremen.de

Mestre Russo & O ZELADOR

No próximo dia 25 de setembro(quinta feira) as 19 horas será exibido no TEATRO RAUL CORTEZ (Praça do Pacificador-Centro de Duque de Caxias-RJ) o longa metragem O ZELADOR. Este documentário conta um pouco da trajetória de mestre Russo como uma das figuras mais importantes da tradicional roda de capoeira que já acontece desde 1973 no centro de Caxias.

Mestre Russo: "a valorização atual da capoeira está ligada ao fato de ela estar fazendo sucesso no exterior. “É como aconteceu com o samba, que ganhou força ao ir para fora. O reconhecimento lá fora faz o reconhecimento aqui dentro”, diz. Ele próprio foi destaque no jornal inglês The Times no último dia 5 de julho, por causa do filme O Zelador, produzido por ingleses, sobre ele e sua tradicional roda de rua em Duque de Caxias, RJ. “Lá fora ninguém me pede documento”, garante o mestre, que viaja no mínimo duas vezes por ano para o exterior, “fazendo turnezinhas”.

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Pequeno depoimento sobre a capoeira como Patrimonio Imaterial

 

O ZELADOR ( Para ver o trailer do Filme, clique aqui )

O Zelador was filmed in an extremely under-privileged suburb of Rio de Janeiro (Baixada Fluminense). In 1971-1976 the United Nations made a study of trouble spots worldwide …their conclusion was that Belford Roxo in Baixada Fluminense was the most violent place on earth. Even today the homicide investigation rate is only 1.3%. Mestre Russo grew up in this environment. He is a 50 year-old Carioca (man from Rio) who has led a capoeira existence for close to 40 years. At the age of 11, fatherless and from a family of 9 brothers he gave himself to capoeira.

Russo used this capoeira culture as an instrument for education and survival. He met his wife Eliane and has 2 sons.

“…capoeira…it is his mission in life…” remarked his 11 year-old son.

Mestre Russo not only uses the capoeira culture as a didactic for himself, but has integrated this powerful culture into his family totally. Russo is a ‘zelador’ (caretaker) of culture.

The manifestation of this cultural devotion can be seen in a place called Caxias, where every Sunday for 33 years Mestre Russo has met with other capoeiristas to play, sing dance and fight in the street.

Mestre Russo has defended the integrity of this roda many times, enduring many forms of discrimination and has even been stabbed. The significance of the traditional Roda de Caxias is that it was juxtaposed directly against the political turmoil of the 70s and 80s in Brazil. The street capoeira environment was a form of cultural expression that was eyed with great suspicion by the right wing military hard liners who ran the country with a rod of steel. The Roda de Caxias survived this repression and is now one of, if not, THE most traditional street rodas in Brazil today.

Mestre Russo is an organic academic and poet. He strives to share his knowledge and love equally with his family and a group of young men from his region, who, like him, endure tremendous hardships and danger. These young men form the core of his group, or his extended family as he calls it. This part of his work started in 1996 and has given hope and joy to all associated with it.

This film O ZELADOR is a record of his life. How, as a youth, he discovered the value of his ancestral culture and recognized its power. He and his students continue with the development of capoeira and provide a link to a culture that has existed for many years within this impoverished region of Rio de Janeiro. The film is a social document of one man and his family living with the unique culture of Afro-Brazilian capoiera and charts its significance within the political and cultural history of Brazil. It is the story of a man who has gained the love and respect from students and contemporaries alike, who all owe so much to this remarkable person, teacher, father and a true master.

Genre Documentary

Running time Approx 84 minutes

Format DV Cam / Super 8

Language Brazilian Portuguese (English Subtitles)

Production Company Bantam Films

O Zelador is an independently funded production

Mestre Cobra Mansa fala sobre o Livro do Mestre Russo:

“O Mestre Russo  merece meu tempo e dedicação porque ele faz parte da minha historia de capoeira.
O livro do mestre Russo e uma prova de que academicismo não e necessário para se escrever um bom livro sobre capoeira . Com uma forma direta e objetiva, mestre Russo relata a trajetória da sua vida com a  capoeira  e falando sobre importante aspectos políticos e sociais que  influenciaram na capoeira da sua época e traçando paralelos importante nunca antes discutidos por estudiosos.
É um livro que vale a pena ser lido não somente por capoeiristas e admiradores mais também pelos acadêmicos e estudiosos.”
 
M. Cobra Mansa, direto da Suécia, em final de novembro de 05
 
 
Para adquirir o livro do mestre Russo por CORREIO, é só efetuar o depósito no BRADESCO e nos mandar seu endereço completo.
Detalhes em:
 
http://f-a-c-a.vilabol.uol.com.br/livrorusso.html

Evento: Mestre Russo Em Sampa E Memória UM

3 a 6 de novembro / 2005

PROGRAMAÇÃO:

quinta – 3 de nov. / 2005

20h Mesa Redonda e Lançamento do Livro

Espaço Cultural TENDAL da Lapa

r. constança 72, Lapa

sexta – 4 de nov. / 2005

20h Roda de Capoeira

Espaço Cultural TENDAL da Lapa

r. constança 72, Lapa

sábado – 5 de nov. / 2005

11h-12h30 OFICINA com Contramestre Nino Faísca

13h-14h30 OFICINA com Mestre Bacalhau

15h-16h30 OFICINA com Mestre Russo

17h-18h30 RODA

PELEZÃO Clube da Cidade Alto da Lapa – r. belmonte 957, Alto da Lapa

domingo – 6 de nov. / 2005

(9h-13h interno reunião da 9ª FACA)

13h-14h30 OFICINA com Mestre Bígo

15h-16h30 RODA no Pelezão

PELEZÃO Clube da Cidade Alto da Lapa – r. belmonte 957, Alto da Lapa

17h30-19h RODA no Parque Água Branca

Parque Água Branca – ZO

TAXA:

70 reais = receba o livro, certificado de participação e faça as 4 oficinas

60 reais pagamento ANTECIPADO (11) 9459-4912 com Rui T.

50 reais para quem é do grupo IÊ, ou aluno dos mestres participantes