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TV Globo: “Esquenta!” tem Capoeira

‘A gente vai gingar!’, promete Regina sobre Esquenta com roda de capoeira

Deborah Secco e Paula Fernandes também participam da festa

O ‘Esquenta!’, do dia 22, trouxe ao palco o universo da capoeira. “Hoje, a gente vai gingar! Se você sabe dar uma meia lua de costas, um rabo de arraia, uma chapa de chão, está ótimo. Se você não sabe, vai aprender!”, convoca Regina Casé, antes de revelar a presença dos mais de 300 capoeiristas, de diferentes nacionalidades, que vieram especialmente para a plateia.

Beth Carvalho chega para abrilhantar ainda mais a roda de samba do programa. A atriz Deborah Secco e os cantores Paula Fernandes, Rodriguinho e MC Marcelly também participam da grande festa deste domingo. No quadro ‘Calourão’, crianças que adoram pesquisar sobre dinossauros imitam alguns animais jurássicos.

Pegando carona na decoração do programa, repleto de pinturas rupestres e figurinos inspirados nos primórdios da humanidade, a apresentadora anuncia mais um assunto do dia: o mundo das cavernas. A arqueóloga e fundadora do Museu do Homem Americano, Niede Guidon, comenta a importância das pinturas dos nossos ancestrais e descreve como é feita a leitura das imagens que revelam os hábitos da época.

http://tvg.globo.com

Roda de capoeira toma conta do Esquenta! (Foto: Globo/João Januário)

Baiano radicado no Rio, Mestre Camisa levou a capoeira a mais de 60 países

O peregrino capoeirista foi para o campo e fundou ‘quilombo moderno’

RIO – “Não tem erro. É só dirigir até Itaboraí e pegar a estrada para Cachoeiras de Macacu. Me liga quando estiver chegando que eu espero vocês na segunda queijaria”, diz o Mestre Camisa, pelo telefone, informando as coordenadas do sítio onde ele mora e organiza encontros nacionais e internacionais e aulas de capoeira. O sotaque é a mistura equilibrada de um baiano radicado no Rio que, há 16 anos, foi morar no interior do estado. Encontramos o capoeirista na RJ-116 e seguimos sua picape numa estradinha de barro espremida entre uma encosta e um charco. Logo depois de um enorme pé de açaí, fica a entrada do sítio, um lugar idílico, onde pavões, araras, gansos e papagaios ficam soltos o tempo todo. Voam embora, mas voltam. Há uma capelinha de São Jorge no pé de um pequeno morro e, espalhados num imenso gramado, amplos quiosques construídos para o treino da arte que, como define Camisa, “engravidou na África e nasceu no Brasil”.

 

 

— Este lugar é um quilombo moderno, de resistência contra o estresse da cidade grande — explica José Tadeu Carneiro Cardoso, de 58 anos, que batizou o local de Centro Educacional Mestre Bimba, em homenagem ao criador da chamada capoeira regional e seu mentor na adolescência em Salvador. — Luto para preservar a memória dele. A capoeira é patrimônio imaterial do Brasil. A melhor forma de manter sua história é cuidar do legado dos mestres.

Camisa deixa seu pequeno paraíso e vem ao Rio pelo menos duas vezes por semana, para acompanhar aulas e participar de reuniões. Está sempre confabulando algo. No momento, organiza o recém-criado Instituto Mestre Camisa e trabalha na produção do festival que, em agosto, vai comemorar os 25 anos da Associação Brasileira de Apoio e Desenvolvimento da Arte-Capoeira (Abadá-Capoeira), criada por ele. Mais de cinco mil “seguidores” estarão na Fundição Progresso, na Lapa, para três dias de shows e atividades envolvendo as artes da capoeira (dança, luta, música, artesanato etc).

Vai ser uma celebração da própria vida de Camisa. Ele tinha 16 anos quando veio parar no Rio ao final de uma turnê que costurou o país com apresentações de capoeira e música baiana. Antes de criar seu próprio método de ensino e filosofia, o nordestino integrou o Grupo Senzala durante anos. O primeiro aluno foi um gaúcho que tinha visto o show do “Furacões da Bahia”. Na época, Camisa ainda morava num quartinho da academia em Laranjeiras onde dava aulas. Hoje, ele bate no peito ao dizer que ensinou capoeira a milhares de pessoas no mundo.

O capoeirista já esteve em mais de 60 países para ministrar palestras e cursos. Este ano, foi inaugurado o Complexo Residencial Mestre Camisa, conjunto habitacional na cidade de Romilly-sur-Seine, na França. Por causa do seu trabalho de pesquisa e divulgação da cultura brasileira, recebeu até título de doutor honoris causa da Universidade Federal de Uberlândia. Além disso, a Abadá-Capoeira está envolvida em mais de 150 projetos sociais. São cerca de 15 mil pessoas beneficiadas com aulas gratuitas. Há ainda campanhas sociais, com nomes como “Capoeirista sangue bom”, de doação de sangue para o Hemorio, e “Meu berimbau pede paz”, contra a violência. Mestre Camisa virou uma espécie de diplomata da cultura nacional.

— Pessoas de vários países aprendem a jogar e querem saber como surgiu nossa arte. A história da capoeira é mais importante que o jogo. O que é mais bonito que o homem lutar pela liberdade? — argumenta Camisa, referindo-se ao nascimento da luta, criada por escravos para se defender dos feitores dos engenhos. — Como eu só falo português nas aulas, os gringos aprendem até o idioma. Não tem tradução para palavras como ginga e manha.

Sob a perspectiva da divulgação da capoeira, o sociólogo e professor Muniz Sodré atribui ao baiano lutador a sucessão do Mestre Bimba, de quem também foi pupilo.

— Camisa tem uma cabeça universitária sem nunca ter passado por faculdade. Sabe misturar a prática do jogo com o sentido de preservar a cultura. Além disso, é um “poliartista”, que luta, canta, compõe e toca bem o berimbau — elogia Sodré. — A capoeira faz mais pela cultura brasileira no exterior do que adidos culturais em embaixadas.

Em suas viagens, sempre como convidado para eventos, Camisa viveu de tudo. Terremotos no Japão a bombardeios em Israel. Durante um voo doméstico em Angola, ficou sabendo que o aeroporto da cidade de Benguela, para onde estava indo, havia sido atacado (o país africano estava em guerra civil). Hoje, a frequência das viagens diminuiu bastante. O mestre prefere ficar perto da mulher e dos três filhos, com idades de 33, 23 e 13 anos, todos de casamentos diferentes.

— Eles moram no Rio, mas passam o fim de semana comigo. Chega de viajar tanto. Sem gastar um centavo do meu bolso, percorri o mundo. Agora, deixo as pessoas virem ao meu quilombo respirar ar puro.

O retorno ao campo

A ida de Camisa para o interior foi a volta ao campo do menino de Jacobina, no extremo norte da Chapada Diamantina. Ele passou a infância “brincando de capoeira na rua”. O irmão mais velho, Camisa Roxa, foi quem mostrou que o assunto era coisa séria. Depois da morte do pai, quando o garoto tinha 9 anos, a família foi toda morar em Salvador. Camisa se formou com Mestre Bimba e, aos 16, partiu na turnê nacional organizada pelo irmão. O Rio era a última parada. Eles se apresentaram em locais como o Canecão e o Teatro Opinião e, ao final, parte da trupe partiu num navio rumo à Europa. O adolescente ficou para trás.

— Chorei quando vi o navio zarpar, no cais do porto. Mas rasguei ali mesmo a passagem de volta para Salvador. Cheguei a dormir na rodoviária, fingindo que estava esperando ônibus. Mas consegui me fixar.

Décadas se passaram até Camisa decidir que o campo é seu lugar. O intuito da mudança foi levar o trabalho social ao interior. No sítio, ele dá aulas a crianças e forma professores. Também promove encontros com centenas de pessoas, que além de treinar capoeira, fazem trilhas e cavalgadas. Tudo faz parte do conceito da capoeira ecológica. O mestre promove rodas no meio do mato e planta árvore para fazer berimbau. Criou até um “berimbau vivo”, amarrando a corda no tronco de uma árvore.

— O Camisa sempre descobre o caminho para fazer. No festival, em agosto, ele quer lançar o título de “notório fazer” — diz Perfeito Fortuna, presidente da Fundição Progresso e amigo do mestre desde que ele se apresentou no Circo Voador, em 1982, quando a lona estreou no Arpoador. — Não existe a expressão notório saber? Às vezes, quem sabe fazer não faz. Mas quem faz sempre sabe. E o Camisa faz.

Fonte: http://oglobo.globo.com

Mestre cego inspira jovens na capoeira

Às vezes, um problema que parece intransponível é, na verdade, só um obstáculo que, quando se percebe, já passou. João Carlos, conhecido como mestre João Kanoa, é um mestre de capoeira do Rio de Janeiro que ficou cego aos 32 anos. “Nos primeiros seis meses ficava pensando “como vai ser minha vida agora”. Mas meus alunos me incentivaram a dar aula assim. A principio eu mesmo achei que era loucura, depois eu vi que dava pra fazer.”

João não sabe muito bem como faz essa proeza. “Como um cara cego dá aula de capoeira? Assim, uma explicação bem correta nem eu tenho. Eu sei que eu chego lá e dou aula”. Mas sabe muito bem de onde vem sua inspiração: “As crianças passam a energia deles para mim.”

E assim mestre Kanoa segue dando suas aulas e passando sua sabedoria a seus alunos. “Não existe um problema que ele não possa superar.”

Conheça mais essa história no Documento Yahoo!

 

  • http://br.noticias.yahoo.com/video/documento-yahoo-mestre-cego-inspira-120208011.html

A capoeira e os apelidos

Tenho acompanhado há a alguns meses algumas discussões sobre o uso de apelidos na capoeira. Acho a discussão válida, mas há alguns pontos que gostaria de comentar:

 

1) apelidos não são obrigatoriedade. Não é todo mundo que tem – o que para mim, indica que a coisa não é tão universal assim.

2) eu acredito no apelido que surge espontaneamente, decorrendo de uma situação específica. O que me incomoda é o apelido forçado. No dia do batizado, chega o mestre e diz “agora você é o Blablabla”. Aí falta contexto mesmo – é a imposição que vai de encontro à liberdade pregada pela capoeira. O apelido é Blablabla “porquê o meu mestre falou que é” é uma baita escrotice, se me perguntarem…

3) a questão do que é que denigre – não é todo apelido que rebaixa, independente da raça. Creio que todo capoeirista conhece casos de apelidos “bacanas” e “ruins”, aplicados a negros, amarelos e brancos.

Nem todo apelido é Macaco, Gambá, Minhoca, Magrelo, Cheiroso ou Urubu. Tem Velocidade, tem Coração, tem nomes de bairros, cidades natais, etc. E ainda assim, nem todo Macaco é negro, nem todo Gambá é mal-cheiroso. A variação de motivações é tão grande quanto, ou maior que a variação de nomes…

O bullying preocupa sim, especialmente nos apelidos que surgem naturalmente do grupo (e não do mestre): será que o Tripa Seca está mesmo feliz com o apelido dado pelos colegas de treino ? Isso precisa ser avaliado com cuidado pelo responsável, mas não necessariamente inibido – afinal de contas, vivemos em grupo, e o grupo age sobre nós assim como nós sobre ele.

A pessoa em cheque pelo apelido pode ter sofrimento sim, mas também pode usar disso para sair mais forte – é uma questão de maturidade (e por isso o olho do responsável é tão importante). Chamar um menino gordinho, de 12 anos, de “Baleia Encalhada” é uma coisa se ele sabe lidar com isso, e outra coisa muito diferente, se ele não sabe. A palavra-chave para mim, nesse caso, é “atenção”.

Ser mestre não é só ensinar a se posicionar na roda, mas também a se posicionar no mundo. Ele deve intervir quando perceber ser necessário, ou quando os envolvidos solicitarem. E principalmente, ele deve ter autocrítica – para não se tornar ele mesmo o causador do sofrimento.

Resumindo, não acho que a questão de ser contra os apelidos é “muito barulho por nada”, como muita gente grita por aí. Mas também não é o absurdo que tem sido pintado.

 

Tem muitos casos no mundo, e cada um deles é um.

 

Axé,

Teimosia (feliz com o apelido)

 

Fonte: http://campodemandinga.blogspot.com

A capoeira é o que a boca come, o olho vê, a mão pega, o pé pisa, o coração sente.

Onde estão as capoeiristas da história?

Quem já teve curiosidade, interesse, ou mesmo sentiu necessidade de conhecer mais sobre a história das mulheres na capoeira, sabe o que é frustração.

Com um pouco de persistência se encontram nomes como Rosa Palmeirão, Maria Doze Homens, Nega Didi, Calça Rala e Maria Pára o Bonde, mas as informações não vão muito além.

Mesmo sobre o pouco que encontramos há muitas dúvidas, pois não se sabe situar com precisão a linha que divide o que é história real e o que é lenda.

Até mesmo sobre Dandara, grande guerreira do Quilombo de Palmares e esposa de Zumbi, atualmente não há mais do que duas linhas na Wikipédia, tão conceituada enciclopédia online.

Mas a falta de informação não é de espantar quando lembramos da discriminação sofrida pelo negro e sua cultura, e do preconceito sofrido pelas mulheres. Na soma, a mulher capoeirista recebeu discriminação em dobro, e sua importância para a história não foi reconhecida.

Trata-se de um erro que não deve ser relevado. A capoeirista de ontem ainda pode e deve ser tema de muita pesquisa. As histórias devem ser contadas e as informações precisam ser reunidas, documentadas e disponibilizadas a quem tem interesse de conhecer e passar a diante.

E a capoeirista que batalha hoje deve ser valorizada e ter seus trabalhos e conquistas reconhecidos, pra que seu nome e seus feitos constem na história de amanhã.

Fonte: capoeiradevenus.blogspot.com

O Mestre de Capoeira

Há dous mil anos te mandei meu grito
Que embalde desde então corre o infinito…
Onde estás, Senhor Deus ? …
(vozes da África, Castro Alves)


Na vida das Américas o Mestre de Capoeira –  negro ou não negro, mas imbuído dessa negritude própria da Capoeira – tem assumido o mister, diria ímpar de ajudar conduzi-lo, ao negro, a passar pelas dores das tantas feridas; aplacar às tantas  carências; vislumbrar um horizonte, não se sabe a que distância, mas capaz de não lhe deixar extinguir os vestígios de honradez e bondade; a capacidade de amar, tolerar e lutar. Dentre estas faculdades está a de cantar.
 
            O que é cultura? – Cultura, para Mestre Benício, "é a luta do homem para preservar o Mundo; e a tolerância do Mundo para conservar o homem". E explicava mais o diabo do sabido "africano":  "a primeira e mais permanente das manifestações culturais, é comer" e reafirmava redundante – "comer, comer de comida". E aduzia, olhar distante – "a segunda é cantar"; completava a sua lista, com a crença. "A crença é mais importante que a comida, – explicava – o homem tem na crença o último ato antes da morte: todos morrem agarrados na crença." Atravessando, João Pequeno clareava – "a crença! e não a fé. A fé é um aleijão! Fé é o único substantivo que não forma verbo" –  provava o "agnóstico".
 
           No meu lugar, região de criadouro de gado, as manifestações de África se juntaram às de mouros e cristãos; ciganos – de europeus em fim. A Capoeira ali deu lugar aos diversos tipos de samba, os chulou até o baião. Os vestígios de Capoeira eram "coisas" de meninos se exercitarem, sem nenhum conhecimento de importância; afora isto só histórias  – Histórias, curiosidades e desejos… Por que da zebra? …"a zebra é o animal tipo cavalo ou jumento que nunca  se amansa," assim ia até a "capoeira". A Capoeira não tem fim!…
 
            Mestre Benício se punha a falar dos  Mestres de Capoeira. Para tudo na África tinha seu mestre. O Mestre se confunde com a própria África e sua História. Hoje, o Mestre e o futuro do negro se confundem.. Citou muitos nomes, desde as lembranças de África:
 
–          "Analfabetos ou pouco-letrados, assumem o domínio do povo, de dentro e de fora da Roda. Os da Roda amam-lhes como a seus pais, os de fora passam a compreender-lhes; – se repetir a visita – passa a amá-los, quase sempre. Antes não dependiam das cidades, pós libertação são necessariamente urbanos-periféricos. Quase todos vivem num ambiente limitado; numa visão missionária, há os que imprimem viagem mundo afora. Conforto restrito, quase de pobreza material absoluta; de tão absoluta  suprem-na, no seu imaginário, com um encanto intelectual não se sabe de que origem; mas encanta, cativa, prende o interlocutor qualquer que seja. Aduziu mais algumas considerações a este perfil  e contou-nos da simbiose homem-arte-crença. – "Adquirem eles todo o orgulho do seu estado, da sua condição. Sabe, ou recebe dos seguidores, ser uma marca de superioridade do seu meio; uma marca de elevação, de supremacia, de predomínio, que nem um outro ser humano  consegue", e prosseguiu, impassível, não diria sádico, mas sem um gesto de dó – " na sua grande maioria, como que errantes, e os são, esguios pelos exercícios estafantes e o mau passadio; paupérrimos, ostentam, num diapasão de consciente prestígio, os valores da inteligência voraz, iletrada e bravia – senhora de si – apoiados na reverência dominadora, de um lado; de outro na crença que só é possível em quem julgar ser responsável por uma banda do Mundo". Depois de tecer explicações do caminho percorrido, ou a percorrer, cala-se um pouco e depois – "No passado muitos eram sapateiros, estivadores e tantos ferreiros, com forjas ordinárias no quintal acanhado da casa rota; alguns alfaiates – Mestres de Capoeira são vaidosos, gostavam de ostentar as mãos finas; hoje tantos são pedreiros, serventes, pequenos comerciantes, carpinteiros, tantos meros biscateiros. Os que têm (tinham) meios de vida, afora a Capoeira, a tudo abandonam, se um projeto lhe surge – viagens noutras paragens, no estrangeiro, nos navios, para "levar a tradição". Ao que,  depois de longo silêncio, João Pequeno, garimpeiro não negro, deu uma pitada: "Homens que não podem resistir à magia poderosa do canto, da luta, da exibição física e intelectual; para uns, eles (Mestres) vivem para encantar o público;  para eles mesmos – "quase uns visionários, …  não há alguém que mais acredite na sua atividade…", – pedindo desculpas devolve a palavra ao Mestre Benício, que vai falando, agora dos seus receios – "Das recompensas materiais, pouco se sabe, o que se vê é que são muito inferiores às alegrias que proporcionam; de visível é que tudo fazem pela fama, pelos comentários, os elogios, pela admiração do povo, de cada e após cada luta, cada apresentação continuam como antes, eu nunca quis saber  como chegam em casa, de mãos vazias, a cada dia; lhes contam  de seu – sempre queridos, cercados; trilhando soberbo e doce; na morada, afora grande acervo de áudio e vídeo – nada tem que passe de um mocambo, muitos vivem assim – "Eu gosto é de elogio e não de crítica" – diz cada um, com sinceridade absoluta.
 
            O medo – naquele ano Mestre Benício tinha viajado, foi queimar os minguados de alguns diamantes faiscados. Naquele lustro a bossa nova atingia o seu ciclo de vida, havia um burburim de sons e rítimos; a juventude a tudo contestava e os adultos – a nada davam importância, que não fosse estrangeiro. Dos transeuntes, corpos e roupas espalhafatosas – praça qualquer, de uma cidade qualquer. Para  a Roda, de rua: pessoas simples e seus instrumentos arcaicos em quantidade regular, prontos para a Roda, na espera dos Mestres, na rua é número incerto.  Ofertado, como a um ritual,  o momento de abertura ao Mestre mais velho, – solene e singelo – IÊ!…
 
            "Ninguém interrompe. Não há insulto, censura, pilhéria, desatenção. Há silêncio, silêncio não, as mãos batem palmas, obedecendo aos ditames do Mestre. Todos como se mamulengos fossem – atados nas mãos, nos olhares, nos gestos do Mestre. Ninguém na assistência  entende das canções quinhentistas, curtas, breves – só a música, a melodia imobilizando a todos. O primitivo berimbau imobilizando tantos jovens afeitos à instrumentação eletrônica. Vozes desencontradas, outras afônicas, mesmo porque raros são os Mestres que têm boa voz; dentre os da Roda poucos, ou ninguém conhece teoria de canto, ao contrário da assistência. Das vozes, desacordadas, de agradável sonoridade só o berimbau, o som de uma corda, encantado anulando o descompassar das vozes, coro piorado pelo participar dos visitantes." E prossegue o Mestre Benício falando do seu medo – "aquela juventude bem trajada uns, espalhafatosos tantos; homens e mulheres de roupas finas – um bando de incapazes se queixando da "ditadura" – pareceu-me estarem ali para vaiar, avacalhar, um frio na espinha… Que nada, enganei-me – todos ali, fazendo coro e batendo palmas… alguns até entraram na Roda só para cumprimentar o Mestre, de perto, abraçar, afagar, fotografarem-se. ALIVIO!, como se eu tivesse  algo a haver com aquilo." E arremata da última viagem – "felizmente vi, soube e até conversei, com alguns Mestres doutores, de anel no dedo, e olhe que todos novos, não me lembro de ninguém com mais de 50 anos, soube também de muitos nas universidades, como vi, eu próprio, muitos das universidades entrando na Capoeira…"
 
            Fogos na serra, ao longe, denunciava a chegada dos repentistas, Mestre Benício se apressa: – "Vocês já viram um vulcão? Mas sabem o que é, não sabem?!. "O vulcão não é o morrão, não é o buraco no centro dele, não é a lavareda de fogo que sai, não. O vulcão é tudo junto. É um dos equilíbrios da natureza. O vulcão não  se importa com quem está em baixo ou em cima, cumpre o seu papel. Sem ele pipocava fogo a qualquer hora, em qualquer lugar – no nosso quintal, na nossa casa…" e completou – "Assim é o Mestre de Capoeira é um dos elementos de equilíbrio das sociedades do Mundo. O negro é parte da sociedade, assim como a África é a parte mais importante do Mundo. Sem o negro e sem a África, viver-se-á assim, o fogo explodindo em todo lugar, a toda hora, ferindo, matando a qualquer um…. Até que o Mestre possa cumprir o seu papel" Assim falou Mestre Benício.
           
Andre Pessego, Berimbau Brasil, SP/SP

Projetozumbi@uol.com.br

 

Berimbau Brasil, SP/SP

Mestre João Coquinho