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O 13 de Maio e a Mulher Brasileira

“A mulher escrava, ao menos podia  odiar  os seus algozes; a mulher fidalga tinha  de amar os dela”.  Vitória Gama *
 
A  pessoa negra, durante a escravidão,  e a mulher da nobreza,   pode-se afirmar,    trilharam caminhos paralelos, próximos, por todo aquele período, avançando pela  vida da República. Apesar das suas agruras o negro foi dela  aliado, o único aliado. Sem do negro as crenças e a urdidura da  alcovitice, milhões de mulheres fidalgas não teriam conhecido um único instante de felicidade no amor, como alguns momentos prazerosos no dia a dia.
O 13 DE MAIO E AS LIÇÕES DO EXILIO.
 
A Lei Áurea já nos consumiu comemorações ruidosas, festas; escritos e considerações, por quase um século, atribuindo-lhe valores e utilidades que não teve. Que não tem.  Sua autoria “dada” à Princesa Isabel, teve o objetivo de  materializar  a gratidão da mulher ao negro: “ser a sua paga, única”. Feito o pagamento,  a mulher, induzida pelos mesmos “senhores”, vira as costas ao negro no seu abandono, dele.  A Lei Áurea, – no presente como no passado – uma ante-Lei. Em não criar punição de nenhuma espécie ou em não aventar com a indenização ao escravizado de quatro séculos, “se acaba com a escravidão, perpetua a figura do escravo”. Procede dizer, à Lei Áurea deve-se a continuidade de focos de trabalho escravo, em pleno Séc. XXI; e pior, sem punição alguma, sob o amparo da anterioridade. Ainda assim o negro, por longos anos o acolheu, o festejou. O ver a desimportância da Lei Áurea não se deve à “ingratidão do negro”: Não. Devemo-lo ao exílio! O exílio tem sido de grande importância para o negro brasileiro. 
 
-“A escassez de mulheres brancas gerou zonas de confraternização entre  vence-dores e vencidos, entre senhores e escravos”, constata o fidalgo Gilberto Freyre, quando no exílio em 1930, confraterniza-se com o negro, e começa a escrever Casa-Grande e Senzala, inaugurando a segunda fase dos estudos sociais do Brasil. Mas G. Freyre, no que pese todo o esforço, ver na História da Pátria, o conto de uma banda só – sem  o testemunho da mulher – “creio que não há publicado no Brasil um só diário escrito por mulher”, confidências  incompletas, trucadas ante o medo – comidas por cupins  nas madeiras dos confessionários; as completas de verdade foram enterradas com as mães pretas. E mais.
 
-“Desde os anos sessenta, as descrições fantasiosas do passado do Brasil eram refutadas por cientistas sociais como Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso, etc…. Em geral estes autores refutavam o significado do 13 de Maio…”  (Mario Giesti). Sabem onde se encontravam os dois? No exílio. Também no exílio Darcy Ribeiro esboçou o seu “O Povo Brasileiro”, de conteúdo épico e dissertação brilhante.  Prevendo futuro auspicioso sem apontar para a reparação dos erros do passado, como se fosse possível. Retrocederíamos, nesta linha a Nina Rodrigues. Médico e pesquisador dos mais brilhantes, sentia-se um “exilado”  dos prestígios. Nina fez o que lhe foi possível. Para fechar este tópico socorro-me do médico e historiador Luis Mir – (Guerra Civil Estado e Trauma):  A  história da escravidão, da abolição e da pós-libertação foi uma luta contínua pela  etnia dominante para evitar, em qualquer grau ou acordo, a reconciliação com as etnias  subjugadas”.
 
AÇÕES  DESENCONTRADAS PARA UM MESMO PROBLEMA
 
Nestas condições, 120 anos depois, em nada mudou a condição do negro, nem as relações sociais da mulher. A mulher, (no rigorismo da outra vítima),  é o que se pode chamar de vítima de si mesma; o negro, vítima da sociedade que ajudou a construir, como ninguém.  Sim, a mulher, é responsável pela criação e formação moral e social do homem de amanhã; também da futura  mulher – esta preparada para continuar a ser vítima; aquele  para continuar opressor. É bom lembrarmos de que o negro chegou ao Parlamento, o cerne do Poder, muito antes da mulher, ainda no Império. A mulher só o alcança na segunda metade do Séc. XX. A mulher não  “viu” o alcance  da universalidade do voto; o negro nunca pôde exercitá-lo. Com este rescaldo o Brasil não andou no construir da Nação. O Estado Republicano nunca teve vida superior a 20 anos, por não propiciar  uma única proposta com vistas a integração desta outra banda da nacionalidade, o negro.
 
Em toda a vida Republicana os esforços do Estado são para debitar a questão do negro nas necessidades sociais. Não há como extrair daquela a particularidade deixada pela escravidão. Enquanto ela não for totalmente sanada  a mulher brasileira continuará se esquivando a esmo, sozinha; o negro brasileiro lutando contando com suas crenças e suas artes, só, ou quase; as dores da Nação –  continuarão as mesmas – de entranhas:
“Como Deus foi servido que eu mandasse matar meu filho”, peça de defesa aos padres coadjutores, de um nobre, (dentre os pais da prostituição infantil), “traído” pela  manteúda e o filho mais moço, “lavagem de honra” levada a cabo pelo filho mais velho (1).
 “Senhores….. Meu filho! é mais, é meu filho”.  Tragédia no Lar, Castro Alves
 
A primeira mãe, matilha preta cobrindo a cabeça, obrigada a solidarizar-se com o marido, diante do corpo do filho “ingrato”.   A segunda,  escrava – “nem mais um passo cobardes!…. uma doida a gargalhar”, ao ter o filho arrancado dos braços para venda.   
      
“Ninguém luta só, ninguém dança só”  relembra o Ministro Gilberto Gil, apresentando na Europa a Capoeira – das manifestações mais vigorosas de resistência do negro brasileiro. – “Criada para o prazer e o combate”, ensina o Ministro.(2) Enquanto isto – Nas areias de Copacabana,  outrora  um alfinim, mulheres também outrora fidalgas rememoram, velam, choram seus filhos – “plantando um mar de rosas vermelhas…” 
“Uma bala perdida os achou…” – “estava na hora certa, no lugar errado”, justifica o mesmo sistema. Tanto faz, a Ministra Presidenta do STF, dá de ombros, solidária com os “senhores”  do Séc. XXI, no “direito e no dever de matar bandidos” pregamos, a Nação.
 
Extinta, ou esvaída a escravidão ficou a dívida: sim, porque a História não tem fim, é um processo. E esta dívida terá de ser paga. E esta paga será o menor dos preços e o menor dos custos. A mulher brasileira é o melhor e mais apropriado segmento para desfraldar a bandeira da Indenização do Negro Brasileiro.  Aquela mulher – que sem meios, com um aliado escravizado –  amargou as suas dores morais e de entranhas; (essa mulher) – hoje, com um aliado capaz de esboçar reações – não pode esconder-se, insular a si e ou aos seus,  ao invés de procurar uma solução pactuada.
Assim, o 13 de Maio toma o seu lugar na História:  Apenas um ato burocrático.
 
     
E, é isto aí  senhoras do Brasil; e, é isto ai meninas brasileiras, – à dança, à luta:
 
-“Capoeira é pra homem menino e mulher”.
* Da. Vitória Gama: mulher negra, garimpeira, Professora, rezadeira, cantadeira – da região do antigo Gentil D’Ouro, vale médio do São Francisco, na Bahia.
(1) Tristão de Alencar Araripe, “Pater-Famílias no Brasil dos tempos coloniais”
(2) Discurso  de Gil em  Genebra, Suíça, numa Roda – 19-08-2004         
                                         
                                      
André Pêssego –     
andrepessego@ibest.com.br

Entrevista e matéria especial com o autor de: A capoeira escrava e outras tradições rebeldes

A capoeira escrava e outras tradições rebeldes
Ao estudar a prática dos negros, historiador encontra aspectos desconhecidos das relações entre escravos, senhores e Estado

O historiador carioca Carlos Eugênio Líbano Soares não tem dúvidas: a capoeira nasceu na América, apesar de articulada por elementos comuns na cultura africana – entre eles a dança e a língua – e é uma resposta dos escravos a um novo ambiente urbano, que começou a ser formado no início do século 18. A tese está no livro “A capoeira escrava e outras tradições rebeldes no Rio de Janeiro (1808-1850)”, publicado pela Editora da Unicamp. Soares vasculhou arquivos em Portugal, Angola e no Brasil para fundamentar sua obra.

Não foi a primeira incursão do pesquisador pelo tema. Em “A negregada instituição: os capoeiras na corte imperial, 1850-1890” (Editora Access), livro premiado pelo Arquivo Municipal do Rio de Janeiro e sua dissertação de mestrado defendida na Unicamp em 1993, Soares promove uma leitura inédita da capoeira, ancorada na literatura e numa vasta documentação política e policial. Machado de Assis, Aluísio de Azevedo, por exemplo, foram fontes de pesquisa. A obra de Plácido de Abreu, escritor português pouco conhecido na chamada época de ouro da literatura (final do século 19 e começo do 20), foi da mesma forma objeto de análise. Abreu foi capoeira, assim como muitos imigrantes de várias nacio-nalidades na época. Depois acabou denunciando-a como algo marginal e perigoso.

Em geral, lembra o pesquisador, a capoeira era estudada como tema antropológico. “Falava-se muita bobagem da mais importante manifestação de rua do século 19 no Brasil”, testemunha Soares, que privilegiou a abordagem historiográfica da capoeira ligada à escravidão, sua área de pesquisa na Unicamp. A inserção do tema numa perspectiva histórica fez surgir até uma linha de estudo que vem conquistando adeptos, além de revelar aspectos até então desconhecidos.

Um deles, abordado em “A negregada…”, revela as ligações políticas dos escravos com a elite, sobretudo após a Guerra do Paraguai, que foi um divisor de águas na segunda metade do século 19. Os capoeiras eram uma espécie de esteio eleitoral de um grupo do Partido Conservador, que acreditava na negociação política do fim da escravidão. Conhecido como Grupo do Visconde do Rio Branco, seus integrantes promoveram a Lei do Ventre Livre e, depois, a Lei Áurea. Nesse contexto de apoio eleitoral, os capoeiras atacavam os membros do Partido Liberal e do Partido Republicano, garantindo a vitória dos conservadores nas urnas. “Não era o capanguismo clássico do meio rural, havia uma troca de favores”, diz Soares, que manteve em “A capoeira escrava” a mesma linha investigativa e de rigor na pesquisa de seu primeiro livro. A seguir, trechos da entrevista concedida pelo historiador.

Jornal da Unicamp – O que levou o senhor a voltar à primeira metade do século 19, depois de abordar um período posterior em seu primeiro livro?
Carlos Soares – Há todo um debate envolvendo a origem da capoeira, de onde ela veio etc. Fala-se muita bobagem, muita asneira. Como a capoeira do século 19 passou por um período fortemente escravista, com uma população africana muito grande, meu objetivo era palmilhar essa coisa da origem. Mas sabendo que a origem não está no século 19, e sim no século 18. Está nos primórdios da sociedade urbana. A capoeira é um fenômeno urbano, que anuncia uma leitura de negros africanos e crioulos para o mundo urbano colonial.

P – O senhor poderia precisar quando a capoeira surgiu?
R – Você tem, a partir do início do século 18, a formação de uma sociedade urbana colonial pela primeira vez, em Minas e no Rio de Janeiro. A grande cidade do ciclo do ouro era o Rio de Janeiro, para onde convergiam todas as remessas de ouro que iam para a corte. A cidade cresceu muito, tanto que virou capital da colônia. Houve ali uma espécie de revolução urbana durante o século 18, que com certeza trouxe os africanos, já que até 1700 a população escrava no Rio era quase toda indígena.

P – O senhor cita, em seu livro, a união entre grupos diferentes de capoeiras. Como vê a chamada organização de rua dentro desse contexto?
R – De um lado você tinha africanos vindos de um ponto distante do continente e que não se conheciam originalmente. Eles estavam num ambiente novo, tenso, de concentração, porque a cidade colonial era pequena, mas concentrava uma população densa. Os africanos traziam bagagens culturais diferentes, mas alguns elementos eram mais ou menos articuláveis, a língua, por exemplo. Acredito que também a dança foi importante, já que os povos se articularam nesse sentido. A capoeira, então, era uma forma de união desses diversos grupos. Agora, é importante colocar que o termo capoeira foi dado pela ordem policial. Eles eram identificados assim. Isso cria um problema, já que de certa forma você tem uma identificação grupal que não parte do grupo, mas sim do seu rival.

P – E como eles chamavam a dança?
R – Os termos da documentação são o “jogo do capoeira”. Agora, da dança é o seguinte: todos esses povos trazem uma bagagem cultural com diversas danças e artes marciais. Eu estive em Angola pesquisando em 1995 e, no Museu Etnográfico de Luanda, pude perceber que essas danças, por mais diferentes, tinham um ponto comum. Possivelmente essas semelhanças fossem articuladas na América. Quer dizer: capoeira, na minha hipótese, nasceu na América. Ela não nasceu na África. Ela foi formada com elementos africanos e articulada de forma inédita no território escravista.

P – Como as nações étnicas se relacionavam com a capoeira?
R – Eles criaram uma coisa nova em cima de elementos já tradicionais. Foram muitos os elementos. A capoeira nunca foi uma prática de um grupo ou nação determinada. Ela sempre foi um pólo de união de diversos grupos. É um espaço mais ou menos aberto. Você tem os grupos com diversas origens: os benguelas, os cabindas. Isso aponta que ela era um ponto de união de grupos diferenciados, e não uma coisa étnica, determinada. Ela foi transformada pelas interações africanas.

P – Muitos estudiosos relacionavam a capoeira aos meios de resistência dos escravos no mundo rural. Como se originou essa teoria?
R – No início do século 20, sobretudo na Semana de Arte Moderna, quando há uma tentativa de se resgatar a história do negro, não mais como inferior e perigoso, mas como pertencente à nacionalidade, nasce também o estereótipo da resistência. Isso era novo para a época. E nesse mito da resistência, o principal era o quilombo, numa visão até idílica. Tornou-se até mais idílica depois. Estudiosos estavam naquela época presos ao modelo da escravidão rural – que durou mais tempo e que, por isso, seria o modelo principal –, a escravidão agrária, da senzala, onde estava a maioria quando houve a Abolição.

P – E a escravidão urbana?
R – Estava um pouco esquecida. Aí colocaram a capoeira dentro desse modelo da escravidão rural, que plasmou mesmo a memória da Abolição, com a fazenda, a senzala, o cafezal e tudo o mais. Então se criou uma versão da história da capoeira no século 20 ligada ao quilombo, à história da resistência. Fora isso, o movimento negro pegou esses elementos também e os trabalhou meio que embolados. Durante muitos anos foi passada essa coisa de que a capoeira era não sei o quê do quilombo, que era uma espécie de panacéia para todos os elementos da cultura negra. As fontes de época, tanto na primeira como na segunda metade, são muito claras: a capoeira é urbana. Aliás, cheguei nela através da escravidão urbana. Quando comecei a pesquisar, antes mesmo de entrar no mestrado, meu objetivo era mostrar a escravidão urbana. Em geral, a nossa academia está muito presa a esse modelo do quilombo, da questão rural. E há poucos trabalhos sobre escravidão urbana.

P – Nesse contexto, a capoeira passa também a ser um elemento de resistência?
R – A capoeira é uma resposta de escravos urbanos a um novo ambiente. O quilombo é importante, mas não se misturava muito. Havia uma visão idílica de que o capoeira queria fugir para o quilombo, distante, nas montanhas. E ali que se criava um reino isolado. Os escravos do quilombo têm contato com os escravos da senzala; então, não é uma coisa isolada. Muito menos a fuga é uma coisa da liberdade, abstrata. O capoeira não é um escravo que vai fugir. Ele vive dentro do ambiente urbano e tem ganhos dentro desse ambiente. Existem casos, lógico, ligados à fuga, mas em geral isso é raro, porque, invariavelmente, é uma forma de luta adaptada a esse meio urbano.

P – Como os capoeiras transitavam nesse meio urbano?
R – A cidade colonial era repleta de becos, de vielas, de ruas estreitas, uma cidade congestionada. Uma cidade de pequenas fachadas e grandes quintais, com toda uma ordenação labiríntica. A capoeira é uma forma de luta adaptada a esse ambiente. O objetivo não é destruir o inimigo, mas sim possibilitar que ele fuja daquela cena em que foi agredido. É uma forma de defesa.


P – De certa forma, eles se prevaleciam da topografia da cidade?

R – Esse mundo urbano era um mundo violento. Sendo assim, era preciso dominar uma forma de luta para se manter nele. O escravo não era só atacado por policiais brancos, mas sim por outros escravos também. Para usufruir as regalias da cidade, ele precisava de uma forma de defesa. Quando um senhor colocava um escravo na rua – como artesão ou até para buscar água –, esse africano tinha que ser safo, tinha que se livrar, ser esperto, se não ele era roubado facilmente. E aí o senhor perdia mercadoria. O próprio senhor estimulava o escravo a se defender. A capoeira não era uma coisa contra o senhoriato. Era uma forma até de maximizar os lucros, já que o capoeira era um escravo que se defendia.

P – Como se estabeleciam as relações entre polícia e senhores?
R – Os senhores reclamavam das prisões porque, bem ou mal, os escravos geravam lucros. Havia fuga é lógico, mas dentro da cidade. Ele sabia que se chegasse na casa senhorial sem o pagamento, seria castigado. Ele fugia então para conseguir o dinheiro. Fugia também por causa de mulher, festa etc. Os escravos tinham muitas relações fora da escravidão. Eles tinham a figura do padrinho, em geral outro homem branco, que empenhava a palavra para o senhor em caso de fuga, intermediando a volta do escravo, conseguindo a garantia de que não seria castigado. Eles se relacionavam com libertos, com escravos, com ciganos, com todo o mundo.

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Carta do Mestre Squisito, apresentada na Camera Federal, sobre capoeira

Senhor Presidente,
Senhores Deputados,
Senhoras Deputadas,
 
Senhores e Senhoras presentes,
Amigos capoeiristas e Mestres de Capoeira aqui presentes,
Meu bom dia a todos!
 
Muitas vezes a paixão dos não capoeiristas pela Arte se traduz numa relação platônica,  às  vezes  atônita  e  insegura  de  ser  manifestada,  pois  essa  arte  é misteriosa, fugidia, escorregadia aos contatos indesejados, que rejeita manuseios e usurpações…
 
Na Capoeira dizemos que ela é a água de beber que jorra nas correntezas das  fontes da vida e cai como uma cachoeira: nela podemos matar nossa sede, podemos nos banhar, mas não podemos retê-la, pois ela irá escorrer por entre nossos  dedos  quando  tentamos  pegá-la  em  nossas  mãos  num  gesto  de  tentar possuí-la…!
 
No caso de Manoel, porém, há uma diferença fundamental: ao se apaixonar pela capoeira ele se tornou um ativista, um perseguidor dos conhecimentos por trás da Arte, da magia por trás da fala que entoa e encobre os seus segredos centenários.
 
Com  isso  ele  arranca  aplausos  do  mais  cético,  do  mais  frio,  do  mais incrédulo de nós, de quem nunca ousou investir nesse terreno abstrato de nosso dicionário, transformando-se assim num pioneiro de inequívoco valor.
 
Mas, acreditem, felizmente esta obra de Manoel  não é um caso isolado dentro da capoeira. Ela tem sido cultuada e cultivada, por dezenas e centenas de obstinados  solitários  que  se  atiram  nos  seus   meneios  e  buscam  lhe  dar  a sustentação documental que esteja a seu alcance!
 
Pensadores e estudiosos,  estudantes, pesquisadores, professores, mestres  e capoeiristas  em  geral, tem   se   desdobrado  e   produzido muito  trabalho e documentos, teses e monografias, discos,  filmes, textos, vídeos, peças, shows e músicas,  jornais  e  reportagens,  num  sem  numero  de  outros  artefatos  que  a materializam no terreno intelectual, acadêmico, literário, educacional, desportivo, cultural e artístico, entre outras tantas possibilidades que nossa arte abriga e com isso temos hoje milhares de registros o mundo abstrato e metafísico da capoeira, como é o caso de Manoel…
 
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Carta do Mestre Squisito, apresentada na Camera Federal, sobre capoeira

Senhor Presidente,
Senhores Deputados,
Senhoras Deputadas,
 
Senhores e Senhoras presentes,
Amigos capoeiristas e Mestres de Capoeira aqui presentes,
Meu bom dia a todos!
 
Muitas vezes a paixão dos não capoeiristas pela Arte se traduz numa relação platônica,  às  vezes  atônita  e  insegura  de  ser  manifestada,  pois  essa  arte  é misteriosa, fugidia, escorregadia aos contatos indesejados, que rejeita manuseios e usurpações…
 
Na Capoeira dizemos que ela é a água de beber que jorra nas correntezas das  fontes da vida e cai como uma cachoeira: nela podemos matar nossa sede, podemos nos banhar, mas não podemos retê-la, pois ela irá escorrer por entre nossos  dedos  quando  tentamos  pegá-la  em  nossas  mãos  num  gesto  de  tentar possuí-la…!
 
No caso de Manoel, porém, há uma diferença fundamental: ao se apaixonar pela capoeira ele se tornou um ativista, um perseguidor dos conhecimentos por trás da Arte, da magia por trás da fala que entoa e encobre os seus segredos centenários.
 
Com  isso  ele  arranca  aplausos  do  mais  cético,  do  mais  frio,  do  mais incrédulo de nós, de quem nunca ousou investir nesse terreno abstrato de nosso dicionário, transformando-se assim num pioneiro de inequívoco valor.
 
Mas, acreditem, felizmente esta obra de Manoel  não é um caso isolado dentro da capoeira. Ela tem sido cultuada e cultivada, por dezenas e centenas de obstinados  solitários  que  se  atiram  nos  seus   meneios  e  buscam  lhe  dar  a sustentação documental que esteja a seu alcance!
 
Pensadores e estudiosos,  estudantes, pesquisadores, professores, mestres  e capoeiristas  em  geral, tem   se   desdobrado  e   produzido muito  trabalho e documentos, teses e monografias, discos,  filmes, textos, vídeos, peças, shows e músicas,  jornais  e  reportagens,  num  sem  numero  de  outros  artefatos  que  a materializam no terreno intelectual, acadêmico, literário, educacional, desportivo, cultural e artístico, entre outras tantas possibilidades que nossa arte abriga e com isso temos hoje milhares de registros o mundo abstrato e metafísico da capoeira, como é o caso de Manoel…
 
No entanto, essa  produção é sempre  independente, autodidata, solitária e sofrida,  complicada  e  desafiante,  pois  é  quase  sempre  o  produto  de  esforços
 
isolados e obstinados, quase contrariando as expectativas sempre pessimistas e negativas,  que  entendem  a  capoeira  como  uma  construção  desprovida  de elementos formais de sua ciência, sua História e sua linguagem e sua produção…
 
Para  se  ter  uma  idéia  dessa  produção,  em  1993,  o  MEC  apoiou  o lançamento de um trabalho sobre a Bibliografia da capoeira, onde já se registrava mais de 3.000 mil títulos publicados a seu respeito…!
 
Hoje esse número deve estar na casa de mais de 20 mil títulos publicados, haja vista a explosão em que se tornou a capoeira espalhada por literalmente todos os cantos deste país e  por centenas de países mundo afora…
 
Manoel empenha toda a sua competência e coragem no seu trabalho original e se alinha com esses guerreiros emergidos do povo brasileiro que se tornam os que   documentam   e   fazem   respeitar   mais   um   pouco   a   nossa   arte   nesse monopolizado mundo da produção intelectual em nosso país.
 
E isso é importante em particular porque temos certeza de que a capoeira é mais que um folguedo, é uma arte complexa e densa, que abriga muitas dimensões e pode oferecer muito mais do que uma prática lúdica simplesmente, desportiva ou cultural, artística ou filosófica, marcial ou plástica. Ao contrário, é tudo isso!
 
Essa produção toda não tira em nada o mérito de Manoel que com sua competência está focando num ponto absolutamente inédito dessa Arte, que é  a sua  dicionarização,  iniciando  assim  a  sistematização  e  a  classificação  de  sua terminologia e isso nos faz refletir sobre o que falta, então, acontecer na capoeira.
 
Senhores e Senhoras.
 
O que falta à capoeira, é o mesmo que nos falta enquanto povo brasileiro:
 
– nós saímos da condição de banidos pelo direito oficial deste país, até termos o direito de estar do lado de dentro oficial das coisas!
 
– nós temos o direito de estar aqui,  nesta casa, discutindo nosso  futuro e nosso espaço de existência, e temos que agradecer por esta oportunidade e respeito manifestado aqui e agora;
 
– nós temos a gloriosa e  histórica  resistência contra a alienação dessa malfada globalização, onde o  que se pretende é na verdade nos alijar de nossa própria identidade para nos tornar robôs compradores de subprodutos da indústria da cultura americana…!
 
– nós temos uma História secular de dignidade e de luta contra todas as formas de opressão, que não pode ser negada nem  mesmo quando contada pelo opressor…!
 
– nós temos hoje o segundo maior numero de praticantes e seguidores de práticas desportivas neste país, só perdendo para o futebol;
 
– nós já estamos em  milhares de instituições de ensino de todos os níveis deste país e do exterior;
 
– nós somos uma das mais importantes forças de inserção social de todos os tempos e trabalhamos com pessoas de todas as idades em praticamente todos os lugares desta Nação;
 
– nós temos consciência de um sem-número de jovens e adultos que temos tirado das ruas, em situação de risco social,
 
– temos canalizado energias de jovens de todas as faixas sociais, induzindo- os a se concentrarem numa atividade que os oferece espaço  para exercitarem e conquistarem a sua vitalidade, a sua felicidade e a sua auto-estima;
 
– nós ocupamos os espaços que nos oferecem nos teatros, nas praças, nos shoppings,  nos  salões,  nas  festas  de  largo  e  de  rua,  nos  trios  elétricos,  nos momentos  solenes  de  celebrações  de  toda  natureza  deste  país  e  também  no exterior;
 
–  nos  comícios,  nos  festejos,  nas  igrejas,  nas  comunidades  de  todas  as matizes políticas, religiosas ou espirituais, estamos também;
 
–  temos  estimulado  e  subsidiado  estudos  de  Sociologia,  Antropologia, História, Música, Educação Física, Pedagogia, Medicina, Arte, etc., do  mundo inteiro…
 
– enfim, vou me contentar em parar aqui para não cansá-los…!
 
O  que  quero  aproveitar  neste  momento  é  para  trazer  aos  Senhores  e Senhoras  uma  mensagem  bem  simples  sobre  o  que  nos  falta.  O  que  falta  à Capoeira…
 
E acreditem, é bem simples mesmo: falta uma iniciativa legislativa oficial e definitiva que produza, aprove, publique e faça cumprir uma lei que transforme a capoeira em parte oficial da educação brasileira!
 
Nós queremos respeito pela nossa necessidade intelectual e espiritual!
 
Queremos ter acesso à produção dos que estudam a capoeira em todos os seus  viéis,  pois  somos  corpo  e mente  que  tem  sede  de  existir harmonicamente e sabemos que os livros são o alimento da alma;
 
A indústria cultural prefere publicar o lixo da subcultura globalizada a dar  algum  tipo  de  atenção  a  nossa  própria  produção  intelectual  da capoeira e isso tem que ser revisto e modificado;
 
Nós estamos nas instituições de ensino deste País inteiro, mas temos que sair dos pátios e das portas das escolas e ir pra dentro das salas de aula, pois a reflexão e a dimensão intelectual tem que se privilegiada e isso não pode ser feito nas condições de prática informal;
 
Queremos e podemos ser parte oficial do currículo  de  nossas escolas, inerente  ao  instrumental  dos  professores  para  falar  de  Brasil  e  de brasilidade, de História e da atualidade, de sociedade e de exclusão social na prática…
 
Podemos sim nos tornar uma disciplina sucessora atualizada e moderna da  deposta  educação  moral  e  cívica,  pois  temos  o  que  falar  sobre cidadania  e  sobre  civismo,  já  que  ensinamos  isso  todos  os  dias  a centenas  de  milhares  de  pessoas,  só  que  numa    prática  informal  e improvisada;
 
Sabemos  que  a  capoeira  pode  ser  o  grande  instrumento  capaz  de demonstrar tanto a desigualdade (como foi e como é…) como também a igualdade, como ela deve ser…
 
Queremos estar inseridos dentro da discussão oficial da educação no Brasil, temos experiências concretas  e efetivas, em número e grau de quantidade e qualidade dessa educação  integral de  fato que a capoeira tem  exercido  para  uma  grande  parcela  da  população  brasileira  e  de muitos estrangeiros…!
 
Temos incentivado muito mais do que movimento das pernas e dos braços na capoeira, pois a produção de projetos de eventos, a produção de textos e músicas, a expressão corporal, o teatro, o convívio pacífico e harmonioso entre pessoas de todas as camadas sociais, a produção de roupas e uniformes, a construção de instrumentos, a música e o exercício musical, o discurso e a auto-estima, tudo isso é produto direto da prática da capoeira;
 
Senhores Deputados, Senhoras Deputadas, vocês tem o instrumento que precisamos  para  atingir  a  nossa                                                                    cidadania  plena:  a  delegação  da sociedade para formularem leis que beneficiem os nossos cidadãos e essa é uma questão de Estado, é uma questão crucial:
 
Digam  por  escrito  através  de  leis  que  a capoeira  é  um  assunto educacional e que pertence à prioridade do ensino para todos os níveis de ensino deste País em nosso País;
 
Oficializem  o  que  já  ocorre  em  centenas  de  espaços  extra-oficiais, extracurriculares, informais em escolas de inúmeras cidades de nosso Brasil, que doravante a Capoeira é  matéria oficial do ensino de nosso povo!
 
Digam que isso abrange todos os níveis de ensino, da pré-escola até o ensino superior de nossa Nação, sejam quais forem os  meios que isso requeira para ser efetivado, pois sabemos que antes de qualquer coisa é preciso ser dito e escrito que isso é uma vontade política de quem faz as leis e elege as prioridades deste País…!
 
Digam agora que o Ministério da Educação tem que viabilizar os meios para que a capoeira se torne essa disciplina, pois é ele que define o que será produzido para alimentar os currículos das nossas escolas;
 
Não, senhoras e senhoras, não precisa ser amanhã, isso pode demorar o tempo que for, desde que seja perseguido e que abra o debate sobre como isso deve acontecer, em cada nível, em cada região, em cada tipo de instituição, para cada público alvo e de acordo com as disponibilidades e interesses de tantas abordagens da alma holística da capoeira;
 
Assegurem-se  de  que  todas  as  matizes  e  variantes  que  compõem  a capoeira   na       sua   interculturalidade   e   interdisciplinaridade   serão respeitadas;
 
Digam que a nenhuma autoridade por mais importante e reconhecida que seja  será  outorgada  a  condição  de  dona  dos  desígnios  da  capoeira enquanto disciplina, pois se isso  acontecer vai  mutilar a sua alma e transformá-la  em  um  monte  de  regras  frias  e  dispensáveis,  pois  o principal interesse é a reflexão que a escola abriga e a diversidade como regra, como principio;
 
Acreditem, se houver uma tentativa  que  seja de amordaçar a capoeira, ela se ocultará de novo dos olhos oficiais, pois não será jamais sufocada por políticas ou atitudes tacanhas, limitantes, opressivas e arbitrárias, pois a sua essência é a de ensinar e pregar a liberdade humana;
 
Digam, enfim, que a capoeira  é plural, como nosso povo, como nossa cultura nacional, como o é nossa riqueza regional brasileira, tendo o direito de se manifestar em todas as extensões que assim queiram os seus seguidores;
 
Senhores  e  Senhoras,  isso  é  o  que  esperamos  que  possa  realmente acontecer…!
Confiamos em Vossas Senhorias.
Obrigado.
Brasília – DF, 22JUNHO2005
Reginaldo da Silveira Costa
Mestre Squisito
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A Origem do nome CAPOEIRA

O nome Capoeira de Angola surgiu quando os senhores flagravam os negros jogando e perguntavam: “O que estão fazendo?”. Os negros estão brincando de Angola — respondiam…
Origina-se  dos capoeiros  –  Lugares com pouco mato onde os negros fugidos enfrentavam seus perseguidores.

Os Escravos ao fugirem para as matas, tinham no seus encalços esses famigerados Capitães do Mato, enviados pelos senhores; os escravos em fuga reagiam e os atacavam, nas clareiras de mato ralo, cujo nome é capoeira, com pés, mãos e cabeças, dando-lhes surras ou até mesmo matando-os. Porém os que sobreviviam voltavam para os seus patrões indignados. Estes perguntavam: “Cadê os negros?” e a resposta era: “Eles nos pegaram na capoeira”. Referindo-se ao local onde foram vencidos.

José de Alencar, escritor, em 1865, na sua primeira edição de Iracema, propôs para o vocábulo capoeira, o tupi – caa-apuam-era (ilha de mato já cortado).

Além disso, capoeira significava cesto de varas, onde se guardavam aves, capões, galinhas, etc. conta-se que os escravos, ao levarem capoeiras de aves para vender, enquanto esperavam o mercado abrir, divertiam-se jogando capoeira.

Outro argumento para o vocábulo é a existência no Brasil, de uma ave chamada capoeira que se encontra por vários estados brasileiros, também pode ser encontrada no Paraguai, é também conhecida com o nome de Erú, anda pelo chão e agrupam-se em bandos.

 

* A Capoeira no meio das matas era praticada como luta mortal. Já nas fazendas, era praticada como brinquedo inofensivo, pois ela estava sendo feita sob os olhares dos Senhores de Engenho. Naquele momento se transformou em dança. Para disfarçarem a luta utilizavam a ginga, a base de qualquer “capoeirista”; e é dela que saem todos os golpes. Esse disfarce foi fundamental para a sobrevivência dos escravos, pois a Capoeira é, principalmente, na sua origem, uma luta de resistência.