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Novembro: Mês da Consciência Negra

Os textos abaixo focalizam as diferentes formas de discriminação e preconceito. Parte do material apresenta dados históricos, que explicam a origem das divergências entre povos e raças no Brasil e relatam o processo de escravidão, da colonização até a abolição. Focalizam, também, experiências educacionais sobre o tema e atividades desenvolvidas por professores em sala de aula.

As referencias apresentadas (links) foram consultadas no site: http://www.crmariocovas.sp.gov.br

Fica a sugestão de uma extensa pesquisa e reflexão sobre a verdadeira importância desta data e sua real aplicação dentro do contexto da capoeira e da cidadania.

Luciano Milanii

 

Convenção relativa à escravatura

Convenção sobre a escravatura assinada em Genebra, em 25 de setembro de 1926. Aberta à assinatura ou à aceitação na sede da Organização das Nações Unidas (Nova York), em 7 de dezembro de 1953, e a Convenção Suplementar sobre a Abolição da Escravatura, do Tráfico de Escravos e das Instituições e Práticas Análogas à Escravatura, adotada em Genebra, a 7 de setembro de 1956.

http://www.direitoshumanos.usp.br/counter/Onu/Emprego_protecao/texto/texto_2.html

O senado e a abolição da escravatura

Disponibiliza textos com informações sobre: adesão da Princesa Isabel à causa abolicionista; esforço político e assinatura da Lei Áurea.

http://www.senado.gov.br/comunica/historia/nonas.htm

Escravidão negra

Desde a origem da escravidão até a abolição, este site relata o trabalho, a cultura africana, a religiosidade, entre outros aspectos da vida desse povo.

http://consorcio.bn.br/escravos/introducao.html

África negra (colonização, escravidão e independência)

Conta a história do tráfico de escravos, da colonização e da luta pela abolição da escravatura. Tem também informações de países, líderes e movimentos africanos.

http://www.terra.com.br/voltaire/mundo/africa4.htm

Campanha abolicionista

Informações sobre os interesses e os fatos que resultaram na abolição dos escravos.

http://educaterra.terra.com.br/voltaire/brasil/2004/11/16/001.htm

Zumbi

Contém a biografia do líder negro Zumbi, a história dos primeiros quilombos, do tráfico negreiro e da abolição da escravatura.

http://www.zbi.vilabol.uol.com.br

Documentos da Organização Internacional do Trabalho – OIT

Página do site da Biblioteca Virtual de Direitos Humanos da USP, que apresenta documentos da Organização Internacional do Trabalho. Abordam assuntos como justiça, discriminação e trabalho.

http://www.direitoshumanos.usp.br/counter/Oit/OIT.html

Portal Palmares

A Fundação Cultural Palmares é uma entidade pública vinculada ao Ministério da Cultura, que busca a preservação da cultura afro-brasileira. No site há publicações, legislação, indicação para outros sites e informações de projetos.

http://www.palmares.gov.br

Religião e cultura negra

Texto sobre as religiões africanas inseridas na América. Esclarece superficialmente como se originaram, os dogmas, as doutrinas, as transformações e a diversidade de estilos existentes.

http://www.orixas.com.br/portal/index.php?option=com_content&task=view&id=5&Itemid=6

Racismo nas escolas

Apresenta exemplos de discriminação racial no cotidiano escolar e também as ações do Ministério da Educação para combatê-la.

http://www.fundaj.gov.br/tpd/147.html

Racismo made in Brazil

Artigo sobre a origem do preconceito racial no Brasil. Estabelece comparações com a cultura e a discriminação que ocorre em outros países.

http://ruibebiano.net/zonanon/actual/lcl021211.htm

Diversidade cultural e fracasso escolar

Texto que introduz uma reflexão sobre as diferenças culturais, a discriminação e o fracasso escolar.

http://www.mulheresnegras.org/azoilda.html

Educação e diversidade cultural: refletindo sobre as diferentes presenças na escola

Este artigo coloca em debate as diferenças encontradas na escola, já que é um espaço socio-cultural onde há culturas diversas.

http://www.mulheresnegras.org/nilma.html

O racismo na sociedade brasileira

Apresenta textos sobre discriminação racial e a forma de inserção do negro no mercado de trabalho e na sociedade como um todo.

http://www.geocities.com/CollegePark/Lab/9844/racismo.htm?200630

O Brasil Negro

Reportagem da revista Com Ciência, editada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, SBPC.

http://www.crmariocovas.sp.gov.br/grp_l.php?t=002

Por que os heróis nunca são negros?

Reportagem que discute a questão dos estereótipos.

http://novaescola.abril.com.br/ed/157_nov02/html/pluralidade.htm

Racismo esta luta é de todos

Entrevista da Revista Raça Brasil com o antropólogo Kabengele Munanga, que fala da discriminação das crianças negras nas escolas e convida a sociedade a rever seus valores para construir um país mais justo e mais rico.

http://www2.uol.com.br/simbolo/raca/1000/entrevista.htm

A mulher trabalhadora é o negro de saias

Neste artigo, Gilberto Dimenstein aborda a questão da discriminação por parte do mercado de trabalho brasileiro em relação às mulheres e aos negros.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/dimenstein/gilberto/gd300400.htm

Videoconferência

Videoconferência de encerramento do módulo II do “Programa SP: educando pela diferença para a igualdade”. Conta com a participação do professor Valter Silvério, da Universidade Federal de São Carlos. O programa é um curso de formação continuada que trabalha com conceitos de diversidade étnico-racial que busca sensibilizar e capacitar professores para a discussão da questão racial no currículo escolar, mostrando a história e a cultura africanas.

http://media.rededosaber.sp.gov.br//CENP/Streaming00000093.wmv

Alagoas: Capoeira e Desfile cívico-militar encerra programação comemorativa na terra de Zumbi

Dia da Consciência Negra terá ato cívico em União

Roda de capoeira, apresentações culturais, visitação ao Parque Memorial Quilombo dos Palmares, parada militar e desfile estudantil. Estas são algumas das atividades que acontecerão nesta sexta-feira, 20, em União dos Palmares, durante o Dia Nacional da Consciência Negra. Uma homenagem ao povo negro e, principalmente, ao herói Zumbi dos Palmares, que liderou a principal resistência à escravidão no Brasil.

De acordo com a gerente de Educação Etnicorracial e de Gênero do Estado, Irani da Silva Neves, haverá um ato cívico que envolve parada militar e desfile estudantil que acontecerá na Avenida Monsenhor Clóvis, a partir das 15h, e irá contar com a participação de 200 alunos de escolas das redes municipal e estadual.

“A atividade é coordenada pela Secretaria de Estado da Educação e do Esporte, através da 7ª Coordenadoria de Ensino. Toda a infraestrutura necessária está sendo viabilizada pela educação estadual”, garante Irani Neves.

A gerente garante que, politicamente, a data de 20 de novembro é muito importante. “Este dia serve para que a sociedade possa parar e refletir sobre a causa etnicorracial. O movimento negro também faz a análise dos desafios que ainda precisam ser enfrentados para que se tenha uma sociedade mais justa e igualitária”, assegura.

Fundação Cultural Palmares lança Edital para apoio a projetos de promoção da cultura negra

Cerca de R$ 400 mil reais é o valor que a Fundação Cultural Palmares vai disponibilizar aos projetos vencedores que apresentarem como objetivo a promoção da lei nº 10.639/03 (que torna obrigatório o ensino sobre História e Cultura afro-brasileira), por meio de idéias criativas que tragam em seu conteúdo atividades culturais comemorativas ao dia 20 de novembro – Dia Nacional da Consciência Negra 2009.

As inscrições para participar já estão abertas e seguem até o dia 14 de setembro.

  • Confira aqui o edital (Versão em PDF)
  • Os candidatos devem apresentar projetos que desenvolvam atividades culturais com o tema “Renascimento Africano – FESMAN”, tendo como público alvo crianças e jovens em idade escolar, incluindo ainda, o conteúdo previsto na lei nº 10.639/03: a luta dos negros no Brasil; a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política, pertinentes à História do Brasil.

    O projeto deve prever ações durante todo o mês de novembro em pelo menos uma das seguintes expressões artísticas e sociais: teatro, dança, literatura, música, cinema, moda, design, artesanato, culinária, formação cultural, ou seminários com temas políticos e sociais voltadas à questão negra e afro-brasileira. As atividades devem trazer também, como inspiração, a Diáspora africana no Brasil e o III Festival Mundial de Artes Negras – o FESMAN.

    O tema “Renascimento Africano – FESMAN” pretende enfatizar a influência africana na sociedade brasileira, em especial, das nações vindas das ilhas do Golfo da Guiné, de Angola, Moçambique, Costa do Marfim, Costa da Malagueta, Serra Leoa; Gâmbia, Nigéria, Libéria, Congo, Bissau. Povos de tradição milenar que foram escravizados no Brasil, o que constituiu num dos principais eixos da formação cultural brasileira. O compromisso é o de concentrar esforços para promover a retomada da herança do negro na formação da sociedade brasileira.

    Já o Festival Mundial de Artes Negras – FESMAN – irá homenagear o Brasil em sua terceira edição. O evento irá abordar vários temas, como arquitetura, arte antiga, artesanato, arte contemporânea, cinema, dança, culturas urbanas, design, literatura, moda, música e teatro. Para mais informações, acesse o site do Festival: www.fesman2009.com/pt .

    Inscrição dos projetos

    As propostas serão divididas em duas categorias: Projeto individual – artistas que desenvolvam trabalhos voltados à cultura negra e afro-brasileira; e Projeto de Entidades privadas sem fins lucrativos – que tenham natureza cultural e sejam consolidadas na atuação com a cultura negra e afro-brasileira, com, no mínimo, três anos de existência.

    Seleção das propostas

    A seleção dos projetos irá compreender as seguintes fases: Habilitação dos projetos, de caráter seletivo e eliminatório; e Seleção dos projetos, de caráter seletivo, eliminatório e classificatório.

    Para isso, serão considerados os seguintes critérios de pontuação para todas as categorias:

    • Capacidade de execução do projeto (tempo de fundação/atividades desenvolvidas, reconhecimento social/currículo);
    • Impacto social da proposta (número de pessoas beneficiadas e características socioeconômicas da população envolvida);
    • Relevância Cultural (valor simbólico, histórico e cultural das ações e das manifestações culturais e artísticas envolvidas);
    • Contribuição do fortalecimento da diversidade cultural brasileira (envolvimento ou diálogo com as manifestações afro-brasileiras e com as expressões das culturas populares);
    • Aspectos de criatividade e inovação (originalidade das ações e busca de estabelecimento de novas práticas e relações no campo cultural);
    • Adequação dos objetivos à previsão orçamentária (amplitude, razoabilidade, exequibilidade e perspectiva de realização dos projetos).

    A Comissão Julgadora será composta por quatro representantes da Fundação Cultural Palmares e por um especialista da sociedade civil com reconhecida competência nas áreas da cultura negra e afro-brasileira.

    Cada projeto individual selecionado receberá o valor de R$ 20 mil, sendo assim distribuído: dois projetos para cada uma das regiões brasileiras (Norte, Nordeste, Centro-oeste, Sudeste e Sul), totalizando dezprojetos contemplados. Na categoria de entidades privadas sem fins lucrativos será selecionado um projeto de cada região, conferindo mais cinco vencedores, que receberão até R$ 40 mil por projeto.

    No total, a Fundação Cultural Palmares irá premiar 15 projetos que tratam da cultura afro-brasileira.

    Não exaurida a seleção por região e por categoria, os recursos remanescentes serão destinados aos projetos que tenham obtido maior pontuação, independente da região e categoria.

    A relação dos projetos inscritos será divulgada no site da Fundação.

    Dúvidas e informações devem ser enviadas, exclusivamente, para o e-mail: edital20denovembro2009@palmares.gov.br – ou, diretamente, pelo telefone: (61) 3424-0113.

    Veja os anexos para participar do edital:

    Capoeira Sul da Bahia – 4º Encontro Mundial de Capoeira

    De 27 de julho a 2 de agosto, Arraial D’Ajuda, em Porto Seguro, será sede do 4º Encontro Mundial de Capoeira, onde são esperados mais de mil capoeiristas de 18 diferentes países. O evento, que conta com oficinas, workshops, batizado, palestras, campeonatos e muitas rodas de capoeira, será realizado no Ginásio de Esportes e em outros pontos famosos da vila.

    Segundo o organizador do evento, mestre Railson da Associação de Capoeira Sul da Bahia, o encontro tem como objetivo valorizar e fortalecer o desenvolvimento de atividades culturais e tradicionais, além de conscientizar a sociedade sobre a importância da capoeira.

    Um dos destaques da programação é a palestra sobre a origem da capoeira, ministrada pelo historiador Frede Abreu, de Salvador, que abordará as raízes da capoeira, seus fundamentos, tradições e rituais.

    Mais informações no site da Associação de Capoeira Sul da Bahia http://www.capoeirasuldabahia.com.br/

    ; ou pelo telefone (0xx73) 3575-3194.

    Guerreando pra sorrir

    13 de maio, Abolição da Escravatura e Dia Nacional de Denúncia contra o Racismo

      “Guerreando pra sorrir”
     A lição do meu avô, que casou com minha avó e pariu a minha mãe

    Abolição, palavra carregada de sentidos, dores, afetos e interpretações as mais diversas. Palavra que incendiou corações e mentes no século XIX e estimulou discussões apaixonadas sobre a vida, a liberdade e o futuro da humanidade. Símbolo que titulou movimentos libertários e tornou-se o principal combustível para a entrada do Brasil no século XX. Conteúdo concreto que povoou os sonhos de milhões de brasileiros ao longo de quase 400 anos. Mas, apesar de tudo isso, há uma forte inquietação quanto ao seu significado nos dias de hoje.

    Vivemos momentos de perplexidade diante de tanta polêmica e reações indignadas por parte de setores da sociedade brasileira. Isso, por causa das políticas públicas, implementadas para a promoção da igualdade racial no Brasil, mais conhecidas como políticas de ações afirmativas. Por isso, vale perguntar: Para que conquistamos a Abolição? Que idéia ou sentido de liberdade gerada por este ato deve orientar nossas ações nos dias de hoje?

    O poeta José Carlos Capinam, ícone do movimento tropicalista nos anos 1960, nos dá uma pista. Com versos poéticos e precisos, no poema/canção Abolição, ele nos ensina: “Acabar com a tristeza, com a pobreza e o apartheid, não fazer da humanidade, a metade da metade, parte branca, parte negra”. Pois bem, é com esses versos na cabeça e um tanto de emoção, que gostaria de responder às indagações acima.

    Abolição para que a sociedade brasileira conquiste a cidadania plena, o desenvolvimento econômico e social, para que todos seus filhos, independente da cor da pele, de sua origem social ou opção religiosa possam ser tratados com dignidade e igualdade, conforme a Constituição. Mas também para que, em seu nome e em nome de milhões de brasileiros e brasileiras, que empunharam essa bandeira com coragem e distinção, impeçamos que a desigualdade, o racismo e a discriminação, gerados por séculos, naturalizem-se em nosso cotidiano, como parte do nosso jeito mestiço de ser.

    Abolição para sensibilizar e conscientizar os homens e mulheres que dirigem o país, em especial aqueles que nos representam na Justiça e no Parlamento, de que a promoção da igualdade racial não pode ser apenas o recheio mágico de discursos vazios sobre a beleza da mestiçagem, o encanto das mulatas etc. Ainda mais quando estudos e pesquisas apontam para a iniqüidade das relações raciais no Brasil, a exemplo do uso do critério da “boa aparência”, que leva à exclusão milhões de brasileiros e dificulta a eles o acesso a determinados nichos do mercado de trabalho, como a publicidade, a moda e a televisão.

    Abolição para impedir que o conservadorismo e o medo que latifundiários impingem ao campo, sempre que tratamos de regularização da terra, nos leve a ignorar a presença de milhões de remanescentes de quilombos, que, apesar de tanta dor e indiferença, continuam resistindo nos rincões do país, com a viva esperança de que a abolição os alcance de fato e assim possam ter acesso àquilo que lhes pertencem por justiça e direito.

    Abolição para superarmos a abissal diferença entre a qualidade do ensino público e privado e a exclusão de um enorme contingente de jovens brasileiros do ensino superior. Afinal, o Brasil contemporâneo, aberto, criativo e plural não pode entregar à própria sorte parte da juventude brasileira a grupos de extermínio e a narcotraficantes. Reconhecer esse direito e possibilitar a reparação histórica por meio da ampliação do acesso desses jovens às universidades públicas é mais que um dever, é um compromisso com o futuro do país.

    Portanto, a celebração desses 121 anos da abolição da escravatura no Brasil, só tem sentido se, de um lado, debelarmos a hipocrisia que grassa na sociedade quanto à questão racial (todos consideram que existe racismo no Brasil, mas ninguém se intitula enquanto agente de tal crime), e, de outro, dermos conteúdo real às aspirações de mais da metade da população brasileira. Ou seja, é preciso instaurar a abolição definitiva da discriminação, que ainda persiste no Brasil, por meio de ações concretas que levem à promoção da igualdade racial e social. E nada melhor que o poeta Capinam para nos inspirar: “Abolir essa careta, que esconde a Natureza e que me faz ser teu irmão. Abolindo a velha intriga e guerreando pra sorrir”.

    Zulu Araújo
    Presidente da Fundação Cultural Palmares

    Esportivização de Práticas Corporais

    Hoje ainda vivemos numa sociedade capitalista onde a população é dividida em classes sociais. Elas lutam por seus interesses buscando seus objetivos

    O objetivo da classe trabalhadora, das camadas populares, tem origens históricas e uma conotação pela sobrevivência, ou seja, pelo direito ao emprego, ao salário, alimentação, habitação, saúde, educação, etc. São objetivos de condições  básicas  de   vida.

    A classe proprietária tem como objetivo o de acumular riqueza, ampliar a margem de lucro, o patrimônio e de garantir sua posição privilegiada através do domínio do poder, estabelecida por uma ideologia dominante conquistada pela exploração. Não abre mão de seus interesses e nem pretende transformar a sociedade para uma mais justa onde todos tenham um tratamento digno de vida.

     

     

    O domínio da classe proprietária é estabelecido por sua ideologia que nada mais é uma forma de alienação social que tem uma razão de pensar impondo seus interesses, seus valores, sua ética e sua moral a todos os indivíduos, desrespeitando as diversas culturas, os percursos históricos de cada etnia e suas posições sociais que se encontram. Nas escolas, nas universidades e toda a mídia faz a transmissão desta ideologia onde todos passam a assimilar esta consciência dominante e, o pior, a reproduzi-la.

     

     

    Hoje, a razão estabelecida por esta ideologia dominante é apenas de ter lucro, de ampliar o lucro, que está à cima das questões básicas de sobrevivência onde todos, independentes de classe social, se comportam numa ótica individual soterrando o coletivo, o espírito comunitário, o próprio equilíbrio da natureza.

     

     

    Desta forma, tudo que possa render lucro é absorvido neste sistema se transformando em mercadoria, em negócio, mesmo que tenha que se distanciar dos objetivos históricos, sociais e culturais que a gerou. Não escapa nada até mesmo o nosso corpo, nossa alma e nossas raízes.

     

     

    O esporte que encontramos hoje tem uma conotação muito forte com o lucro, com o rendimento, para se sustentar na lei do comércio. Sua sustentabilidade esta diretamente relacionada com a amplitude do seu consumo.

     

     

    Este processo que se encontra o esporte vem de uma concepção de uma prática corporal ocidental, traduzindo uma expressão de máxima produtividade mecânica do corpo incitada pela mente que está separada deste corpo, atendendo as regras de rendimento.

     

     

    A partir desta ótica, as práticas corporais de outras culturas quando surge na sociedade tende a adecuar-se as regras de rendimento para sobreviverem no comércio das modalidades corporais, ou seja, a esportivização.

     

     

    A esportivização de práticas corporais de outras culturas molda seus movimentos dando um caráter competitivo, mecanicista, distanciando-se de suas origens e de seus objetivos sócio-culturais.

     

     

    É claro que tem outras maneiras de se fazer o esporte como por exemplo o esporte participativo, o educacional, tão bem colocado pelo professor Manoel José Gomes Tubino, em seu livro – Dimensões Sociais do Esporte; mas o que predomina na sociedade é o esporte de rendimento mesmo fora de seu contexto. Mesmo assim não se pode transformar qualquer prática corporal seja qual for o esporte desejado, pois se corre o risco de despoja-las de seus significados culturais.

     

     

    O movimento do corpo nada mais é uma expressão com gestos, com ritmos, de sentimentos, de adornos e cores que significam a cultura e visão de mundo de cada povo construído ao longo do percurso histórico de cada um. Com muita certeza as práticas corporais da cultura ocidental são bem diferentes da cultura oriental, da africana, da indígena, etc. Todas elas têm sua importância pois traduzem visões de mundo diferentes com seus saberes e que estão presentes na composição da sociedade. Devem ser respeitadas porque formam a identidade de cada nação.

     

     

    Um grande exemplo é a capoeira que já faz parte do currículo do curso de Educação Física. Mas quais capoeiras estão transmitindo nas Universidades ? A capoeira de Federação que almeja as Olimpíadas ? Ou a capoeira de academias que já mesclaram com outros fundamentos de artes marciais ? Ou a capoeira com a sua linguagem de resistência histórica que faz parte de uma totalidade cultural africana ?

     

     

    Segundo Muniz Sodré “… a capoeira define-se como um jogo. Este termo não designa aqui simples distração, mas um conjunto ritualístico de procedimentos, voltados tanto para o combate contra um adversário como para a expressão do júbilo corporal, dentro do quadro histórico e mítico da etnia dita negro-brasileira, cujos valores são também ditos de tradição. Para o homem de tradição, ser não significa simplesmente viver, mas pertencer a uma totalidade, que é o grupo. Cada ser singular perfaz o seu processo de individualização em função dessa pluralidade instituída (o grupo), onde se assentam as bases de sustentação da vida psíquica individual”.

     

     

    A capoeira faz parte de uma cultura africana onde o mundo visível (aiye) está entrelaçado com o mundo invisível (Orum) e que tramitam os ancestrais, as forças da natureza representadas pelos Orixás, compondo assim uma visão de mundo diferenciado que faz parte do sistema universal, no qual seu saber é muito transmitido pela  corporalidade.

     

     

    A corporalidade faz parte da comunicação oral pois abrange varias formas de transmitir o saber. Marco Aurélio Luz descreve que : “dessas formas de comunicação, destaca-se a dramatização, que se compõe de diversos outros sistemas simbólicos que se combinam entre si, tais como  um sistema gestual que se exprime nas invocações, nas danças, cumprimentos, etc., num sistema musical polirítmico, composto também nos cânticos, KORIN, e dos poemas de louvação, ORIKI, dos sistemas de cores, do vestuário, das jóias e emblemas, das esculturas, etc., etc”.

     

     

    A capoeira está concebida dentro desta cultura afro-brasileira. Sua construção vem destas raízes que estão presentes na alma do povo brasileiro. É preciso preservar a cultura popular porque ela traduz a vida, formada com o povo e com ele aprender seu sentido temporal, ajustado às várias etapas históricas do nosso caminhar.

     

     

    Adulterar práticas corporais, com suas culturas, adequando por  forças externas, estranhas às suas origens e alheias às condições históricas que ajustam permanentemente sua expressão, significa soterrar nossas raízes.

     

     

    Cláudio Accurso nos alerta para o risco destas adulterações: “É simplesmente, o de perda da identidade nacional, caminho inevitável à subordinação e ao desaparecimento da personalidade de um povo. Adulterar uma cultura com tudo que tem de tradição e forma de ser de uma coletividade significa nada mais nada menos que arrancar-lhe a memória. Quem perde a memória perde a capacidade de julgar conveniências; perde, portanto, a faculdade de estabelecer propostas que consultem seus interesses. Perder a memória é aceitar tutelas e suas conseqüências”.

     

     

    Assim entendemos que existem várias práticas corporais e que deve ser respeitadas suas origens e seus significados. Não admitimos uma cultura dominante e que todas devam estar sob sua tutela, atendendo um sistema que visa apenas o lucro e convive com a exclusão social.

     

     

    Referência Bibliográfica

    • Accurso, Anselmo da Silva. Capoeira: Um Instrumento de Educação Popular. Edição
      Independente. Porto Alegre, 1995.
    • Coletivo de Autores. Metodologia do Ensino de Educação Física. Cortez. São Paulo, 1992
    • Brandão, Carlos Rodrigues. O que é Educação. Brasiliense. São Paulo 1985.
    • Freire, Paulo. Educação e Mudança. Paz e terra. São Paulo, 1988.
    • Luz, Marco Aurélio. Agadá – Dinâmica da Civilização Africano-brasileira. SECNEB- Universidade Federal da Bahia. Salvador, 1995.
    • Rego, Waldeloir. Capoeira Angola – Trabalho Sócio-etnográfico. Itapuã. Salvador, 1985.
    • Santin, Silvino. Educação Física – Outros Caminhos. Ed. Da Escola Superior e Espiritualidade Franciscana . Porto Alegre,1990 .
    • Santin, Silvino. Da Alegria do Lúdico a Opressão do Rendimento. EST – Edições. Porto Alegre, 2001.
    • Sodré, Muniz. Mestre Bimba – Corpo de Mandinga. Manati. Rio de Janeiro 2002.
    • Sodré, Muniz. Capoeira e Identidade (Texto). Esporte com Identidade Cultural – Publicações INDESP. Brasília, 1996.

     

     

    Anselmo da silva Accurso, professor de Educação Física, pós-graduado em Educação Popular.

    Professor da disciplina de Capoeira da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS- RS,

    Professor de Capoeira da Secretária Municipal de Esporte e Lazer – SME – POA/RS.

    Professor da Associação Cultural de Capoeira Angola Rabo de Arraia – ACCARA.

    Dourados realiza Conferência de Promoção da Igualdade Racial

    As discussões sobre preconceito racial e ações de combate a discriminação e de garantia dos direitos humanos, serão alguns dos assuntos da “II Conferência Política de Promoção da Igualdade Racial”. Depois de se reunir com entidades e representantes dos movimentos, negro e indígena, a Secretaria Municipal de Assistência Social definiu que o tema central este ano será “Avanços, Desafios e perspectivas da Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial”.

    O evento acontece entre os dias 27e 28 de março, a abertura será no Teatro Municipal a partir das 19h com diversas apresentações culturais. De acordo com o diretor do departamento de Direitos Humanos, Anísio dos Santos, a conferência será o ponto de partida para os principais trabalhos deste primeiro semestre da administração municipal. Ele falou também que o evento marca uma nova fase na retomada das discussões sobre o racismo racial e toda a forma de discriminação e violência com determinados grupos da sociedade.

    Para Anísio, o fato da Prefeitura de Dourados ter criado um departamento de Direitos Humanos demonstra a preocupação com esta questão que precisa ser debatida e defendida por todos. Após a abertura, no dia 28 os trabalhos continuam na Escola Municipal Lóide Bonfim, no Jardim Água Boa.

    No período da manhã serão organizadas mesas redondas e a tarde serão realizados trabalhos divididos em grupos. Segundo a secretária municipal de Assistência Social, Itaciana Santiago, a expectativa é construir um processo participativo e eleger 25 delegados para participar da Conferência Estadual. Serão 12 representantes da administração municipal, 12 da sociedade civil organizada e 1 do Poder Legislativo.

    Itaciana destacou que a conferência é um importante canal de diálogo entre o poder público e a sociedade civil, sendo um espaço possível de reflexão e avaliação das Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Segundo ela, a participação da sociedade é fundamental, principalmente dos seguimentos organizados em prol da superação do racismo e dos preconceitos tais como: Movimento Hip Hop, capoeira, comunidades quilombolas, indígenas, religiões de matrizes africanas, Movimento de Mulheres, estudantes e instituições de ensino.

    Quem tiver interesse em participar do evento, basta entrar em contato com o departamento de Direitos Humanos da Secretaria Municipal de Assistência Social. O telefone de contato é o 3411- 7746. A partir desta conferência serão definidas prioridades de ações voltadas para estes segmentos.

     

    Portal MS – O Guia Online de Campo Grande e MS – http://www.portalms.com.br

    Barack Obama e o Brasil

    Para além de todo proselitismo que cercou a eleição do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, constata-se, de fato, um enorme avanço na percepção da sociedade americana em relação ao combate ao racismo. Para um país que até recentemente praticava a discriminação racial de forma legal, eleger Barack Obama Presidente da República constituiu-se numa significativa revolução política e social.

    Mas é preciso olhar esse fato histórico de maneira um pouco mais acurada. Por um lado, o forte simbolismo que representa essa eleição. Maior potência do mundo, os Estados Unidos, além da força militar e econômica, são também influente no campo das idéias. Por isso, essa eleição representa recolocar na agenda política internacional, não apenas o sonho da igualdade racial, mas também o sonho e a esperança a serviço de um mundo multilateral, em que a autonomia e as diferenças entre os povos sejam respeitadas, onde o diálogo e o convencimento sejam as principais ferramentas de negociação entre as nações e não os mísseis, as invasões, as torturas e as guerras. Um mundo em que a Convenção da Proteção da Diversidade e das Expressões Culturais, aprovada pela Unesco, seja um instrumento real do reconhecimento das múltiplas formas de manifestações culturais, de tradições e de saberes dos povos, sem que tenham obrigatoriamente transformar-se em produtos ou mercadorias, como advogou os representantes norte-americanos quando da sua aprovação.

    Por outro lado, faz-se necessário destacar que este fato histórico representa o apogeu de uma luta que se iniciou há muito. País com tradição racial segregacionista recheada de intolerâncias e tragédias, os Estados Unidos foram palco de inúmeras lutas e experiências que influenciaram boa parte do mundo no trato da questão racial. Desde a coragem de Rosa Parks, aquela costureira negra, que, no dia 1º de dezembro de 1955, se recusou a ceder o seu lugar no ônibus a um branco, até a eleição de Barack Obama presidente, muita água rolou por baixo desta ponte. Ora de maneira trágica com os linchamentos, assassinatos e agressões perpetradas pela Ku Klux Kan e seus seguidores, ora com a reação de líderes como Martin Luther King e Malcom X e organizações como os Panteras Negras que mobilizaram milhões de pessoas nos Estados Unidos e no mundo contra esta iniqüidade que é o racismo. No meio de todos esses episódios tivemos casos hilariantes, como a decisão da Suprema Corte norte-americana que julgou pela inconstitucionalidade, de uma lei aprovada pelo Congresso Nacional norte-americano que considerava livres os escravos que fossem desbravar o oeste daquele país, alegando que o Congresso não tinha poderes para banir a escravidão, mesmo em território federal, e que os negros não poderiam ser considerados cidadãos, pois não faziam parte do povo americano.

    Esse breve apanhado histórico serve para balizar a discussão decorrente da eleição do primeiro presidente negro da maior potência do mundo e suas conseqüências mais diretas para o Brasil. Serve também para entendermos melhor e cobrarmos mais ainda da elite brasileira, as razões pelas quais a enorme euforia demonstrada com a eleição de Obama, não se manifesta minimamente no apoio à luta dos afro-brasileiros por um tratamento igualitário em nossa sociedade.

    O Brasil precisa saber que a eleição de Barack Obama não foi fruto de nenhum milagre, nem muito menos da decisão dos homens de bem que comandam os Estados Unidos, mas sim de um poderoso movimento que ao longo de cinqüenta anos conseguiu sustentar a implementação de ações afirmativas que viabilizaram o acesso de milhões de afro-americanos ao ensino superior, assim como a ocupação de vários postos importantes de direção daquele país, tanto no setor público como no setor privado, a exemplo de Jesse Jackson, Colin Power, Condolezza Rice e tantos outros, independente de suas posições político-ideológicas.

    Infelizmente a superação plena das desigualdades raciais no Brasil, país líder da América Latina, ainda é um sonho a ser conquistado e uma das razões do adiamento deste sonho é a resistência recalcitrante de parte da nossa elite econômica, política e intelectual sobre a necessidade do Brasil adotar medidas efetivas de promoção da igualdade no campo racial. Mesmo com metade da população sendo afro-descendente, eleger um presidente negro no Brasil parece um sonho ainda muito distante. Pesquisa recente do jornal Folha de S. Paulo revela isso. Embora apenas 3% dos entrevistados tenham declarado abertamente seu preconceito, para 91%, os brancos têm preconceito de cor em relação ao negro. Apenas por esse dado constata-se o quanto de trabalho temos pela frente para vencer o racismo inercial existente no Brasil. Nem mesmo Deus sendo brasileiro, como muitos afirmam, conseguimos apagar as conseqüências dos 400 anos de escravidão que vivemos. Por isto mesmo, investir nas políticas de ações afirmativas para a promoção da igualdade em nosso país, não é uma opção, é uma obrigação. Mais ainda, não pode resumir-se exclusivamente em cotas para negros na universidade, embora a educação seja um fator fundamental para alterarmos nossa realidade excludente. E, para quem, ainda insiste em considerar privilégio essas ações, vale citar aqui a declaração lapidar do ministro do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa de que as ações afirmativas é “favorável àqueles que historicamente foram marginalizados, de sorte a colocá-los em um nível de competição similar ao daqueles que historicamente se beneficiaram da sua exclusão”. Simples, como água.

    Esperamos, pois, que a eleição de Barack Obama possa massagear os pontos sensíveis da sociedade brasileira e nos ajudar a revelar um outro Brasil. Um Brasil ungido pelo sentimento de fraternidade e igualdade a fim de produzir uma outra página na nossa história, com liberdade e democracia, e apagar de vez essa estrutura excludente e discriminatória com base na cor da pele, como querem alguns. Quem sabe assim, em breve, produziremos o nosso Obama?

     

    Zulu Araújo
    Presidente da Fundação Cultural Palmares / Ministério da Cultura

    Velho Mestre de Capoeira é barrado pela Imigração Norte Americana

    Ele nasceu em 1945 e foi batizado Norival Moreira de Oliveira, mas o vasto mundo da capoeiragem o conhece pelo nome do batismo na arte afro-brasileira, nascida nos canaviais do recôncavo baiano: Mestre Nô. É esta sua profissão, mestre de capoeira. Desde menino na periferia de Salvador, levou a capoeira a sério, ainda em tempos moldados pela forte memória cruel da escravidão: “por favor não maltrate este nego / este nego foi quem me ensinou / este nego da calça rasgada / camisa furada é o meu professor”. Mas, a capoeira começa a vencer uma das lutas pela arfirmação de uma cultura que construiu as estruturas da sociedade brasileira.

    Recentemente a capoeira foi tombada como patrimônio imaterial, do país do carnaval, do futebol, do café, do cacau, da cana-de-açúcar, da soja, do biocombustível. Do país que também exporta aviões para o mundo. Só para citar um exemplo da contemporaneidade. Mas, a capoeiora é, com certeza nosso mais singular produto de exportação.

    Levada pelos velhos mestres desde a decada de 1970, hoje a luta-arte afrobrasileira é praticada em todos os continentes. È um potente veículo de expansão de nossa língua, nossa forma de viver, que está na moda porque contem tudo que o mundo moderno necessita: alegria, solidariedade e respeito aos mais velhos; disciplina sem autoritarismo. É o lado positivo da nossa sociedade, com desigualdades sociais e realidades que ao contrário da capoeira, não são exemplos.

    Mestre Nô é pioneiro em tudo; em 1990 foi um dos convidados, – juntamente com Mestre João Grande, Lua de Bobó e Cobrinha – pelo hoje professor da Templo University da Philadelfia, para se apresentar no festival de arte negra em Atlanta, nos Estados Unidos. Nunca mais deixou de estar presente naquele país e, ao longo de quase três décadas, foi convidado a formar grupos em Seattle, Orega, Portlan, Iwoa, Boston, New York, Lineapolis, Itaca e Omaha.

    Seu pionesirismo para o mundo exigente da capoeira, com normas sofisticadas de hieraquia, foi ter formado em mestre de capoeira, o primeiro aluno estrangeiro a receber este título: Michael Z. Goldeinsten, na capoeira mestre Ombrinho, que é norte-americano, mas só recebeu o diploma depois de vir morar no Brasil por alguns anos, em várias fases; e depois de vinte e quatro anos dedicados a capoeira. Ombrinho teve que entrar na mata tropical e saber colher uma beriba; fazer caxixi, tocar pandeiro de couro de cobra, como antigamente. Com a capoeira aprendeu nosso idioma, que fala com desenvoltura.

    No mundo, Mestre Nô tem alunos na França, Inglaterra, Itália, Austrália e Israel. Visita todos os grupos uma vez por ano, para fiscalizar o desenvolvimento dos discíplos. Mas, seu reduto é na Boca do Rio. Bairro de pesacdor quando mestre Nô lá chegou e construiu sua academia que recebe alunos de todo o Brasil e do mundo. Muitos se hospedando em seu espaço, porque fazem questão de conviver com o cotidiano do mestre.

    Depois de ter em seus passaportes mais de cinquenta carimbos de entrada e saída em território norte americano, este ano em junho, no aeroporto de Newark na Grande Nova York, em New Jersey, mestre Nô, embora tratado com educação e respeito, não pôde encontrar seus alunos que o aguardavam, para ser homenageado em eventos organizados por eles.

    O mestre que ajudou a educar centenas de jovens americanos, teve seu visto cancelado e foi obrigado a voltar. Além dos danos morais, o velho mestre que em suas andanças não percebeu o glaucoma que sofria, teve o prejuízo das despesas da viagem, pois os dois telefonemas a que teve direito, enquanto estava no aeroporto, não solucionaram sua entrada. Michael Goldeinsten, mestre Ombrinho que o esperava, estava sem um aparelho celular, não pôde portanto providenciar um advogado.

    No documentário de minha autoria, Mandinga em Manhattan, – sobre a internacionalização da capoeira, gravado em 2005 e patrocinado pelo Ministério da Cultura, Fundação Padre Anchieta e IRDEB, já temos mestres da Bahia apelando para o Itamaraty; para que as autoridades do Ministério das Relações Internacionais e Fundação Palmares, tomem providências no sentido de identificar estes mestres, encontrar formas diplomáticas, para que eles possam levar nossa cultura, respeitando o desejo destes grupos, que o aguarda com alegria e reverência.

    Mestre Nô é vice-presidente da Associação Brasileira de Capoeira Angola, com sede na Rua Gregório de Mattos no coração do Pelourinho, que defende e preserva os preceitos da capoeira tradicional. A ABCA, pede a todas as instituições e organizações dos direitos civis, apoio ao seu diretor jurídico, o advogado e ex-defensor público geral do Estado da Bahia, Genaldo Lemos Couto, que está redigindo cartas ao Itamaraty e Ministério da Cultura, no sentido de que os mestres de capoeira, de todos os seguimentos, que comprovem a existência de grupos iniciados por eles, onde desenvolvem um trabalho com a capoeira, ou tenham convite de para ir ao exterior participar de eventos e como sempre acontece, ser homenagado, recebam um passaporte de convidado e tenham suas entradas nestes países facilitadas e respeitadas.

    Lucia Correia Lima *

    Diretora de Projetos e Comunicação da Associação Brasileira de Capoeira Angola.

    Elaborando o livro “Mandinga em Manhattan”, que pretende corrigir as falhas do documentário. Um projeto do edital Capoeira Viva, Ministério da Cultura e Fundação Gregório de Mattos.

    Pesquisa: Mulheres podem praticar lutas?

     

    Marco Antônio de Carvalho Ferretti, Bacharel em Esporte e Mestrando em Educação Física pela USP, na sua graduação desenvolveu a seguinte pesquisa: Mulheres podem praticar lutas? Um estudo sobre as representações sociais de lutadoras universitárias.

    Sob a supervisão do Prof. e Dr. Jorge Dorfman Knijnik, Marco Antônio, ex-lutador de muay thai e boxe, em 2006 realizou esse trabalho com boxeadoras, caratecas e capoeiristas.
    Numa tarde fria, véspera de um feriado prolongado, me encontrei com ele na USP, logo depois que nosso papo começou, fomos alcançados pelo som de um berimbau: por uma coincidência inesperada, estava começando uma aula de capoeira do outro lado da enorme quadra do Clube.

     

    De onde surgiu a idéia de desenvolver essa pesquisa?

    Eu estava em casa assistindo a uma luta de boxe feminino, quando minha namorada me perguntou o que eu assistia.
    Ao ouvir minha resposta ela me questionou pelo fato que o boxe não é um esporte propriamente feminino.
    Realmente foi constatado que tem um certo preconceito da sociedade em geral em relação as mulheres lutadoras, pois a luta, não faz parte do universo feminino mas parece mais afasta-las da própria maneira convencional de ser mulher.

    Ainda hoje as lutas são relacionadas mais ao universo masculino que ao universo feminino, por quê?

    Existe o conceito de GÊNERO “[…] que seria a construção cultural permanente daquilo que é considerado de homem ou de mulher.”; ou seja, o gênero são os “papéis” destinados pela sociedade para homens e mulheres (masculino / feminino); o conceito BIOLÓGICO: homem / mulher e o conceito de SEXUALIDADE: heterossexual / homossexual / bissexual… porém muitos vêem a construção de gênero como natural, já vem assim da natureza; misturando o biológico com o gênero, como também fazem ligação do gênero com a sexualidade, como se fosse a regra o(a) homossexual representar o gênero oposto do seu biológico, o que não ocorre dessa maneira.
    Na nossa sociedade as lutas pertencem ao universo masculino, enquanto outras modalidades entram no universo feminino (vôlei, danças etc.). Pode-se até cair no erro de confundir o gênero com a sexualidade e assim criar o preconceito que as mulheres lutadoras com algumas características masculinas sejam homossexuais e devido a sociedade ser homófoba isso implica em rejeição contra as praticantes de luta.

     

     

    Pesquisa: Mulheres podem praticar lutas?Pesquisa: Mulheres podem praticar lutas?
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    Qual é a atuação da mulher moderna dentro das lutas? Quanta atenção é dada pela mídia?
     

    A maioria das mulheres se aproxima a uma modalidade de luta atraída pelo bem estar que esta lhe proporciona, ou seja, o esporte está relacionado á saúde.
    A atenção da mídia é nula ou mínima, as lutadoras sempre têm mais dificuldades em achar patrocinadores, o valor dos prêmios nas competições femininas são sempre menores que nas competições masculinas. E ainda existe o problema do apelo erótico da mulher no esporte e nas lutas, onde o enfoque pode ser a beleza da atleta ou a roupa justamente pensada pra chamar a atenção do publico heterossexual (ex. luta livre pornô).

    Quais são as maiores dificuldades que as mulheres encontram em praticar lutas?

     

    Dentro da própria família, uma primeira barreira pode ser a educação recebida desde criança, geralmente os meninos estão mais estimulados à competitividade do que as meninas.
    Na puberdade as meninas procuram entrar em “grupos” que tenham padrões de comportamento e de estética feminina.
    Quando elas ingressarem no mundo do trabalho pode diminuir o interesse pelo esporte e o tempo pra dedicar aos treinos.
    No casamento: a mulher ainda é a maior responsável pelo cuidado da casa e dos filhos “[…] tudo o que afasta a mulher do mundo da casa é algo que merece uma batalha, pois as configurações de gênero ainda colocam como prioridade para a mulher os cuidados com a família e a casa”.
    Foi notado que as mulheres atletas em qualquer esporte conseguem dedicar-se á carreira quando podem contar com família e maridos compreensivos, elas estão dispostas a assumir novos papéis na sociedade, porém sua função socialmente imposta de cuidar dos filhos e da casa dificulta dela explorar outros ambientes que não seja o privado.

    A mulher atual parece ainda ter uma certa dificuldade a se considerar uma “lutadora profissional”, por quê?

    Existe uma motivação histórico-social:
    “[…] Em nosso país, entretanto, se algumas competições para as mulheres eram realizadas, como os Jogos de Primavera, poderosas ideologias eram mobilizadas para cercear ou mesmo impedir as mulheres de praticarem esportes. A área medica no Brasil ao final doas anos 1970, ainda estava presa a conceitos que negavam com veemência a participação feminina nos esportes. O famoso fisiologista Mário de Carvalho Pini (1978) alegava que a mulher poderia até participar dos esportes, mas não deveria faze-lo em diversas modalidades (como rúgbi, futebol, lutas entre outras), porque os treinamentos ocasionariam um grande desgaste físico, além das conseqüências traumáticas e/ou estéticas dos contatos violentos proporcionados por diversas destas modalidades.”
    A luta pode ainda ser considerada como um esporte agressivo, que não combina
    com a feminilidade da mulher: “ […] outros modos que as atletas possuem para que a sua atividade seja aceita por elas mesmas e pelos outros, sem questionamentos quanto a sua feminilidade, é a contrariedade e mesmo a negação da luta enquanto atividade profissional para a mulher. …..são mais mulheres que treinam lutas, treinadoras, como se denominaram, a própria capoeira, como uma luta mais dançada, entra no rol das atividades que não são tão masculinas, e assim liberadas para as mulheres”.