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Capoeira, o golpe da esportivização

No toque do berimbau, num gingado singular e na dança acrobática, nasce a capoeira – manifestação cultural afro-brasileira, criada pelos negros escravos como forma de luta contra a opressão. Luta essa que se travou no plano físico e cultural. A arte secular até hoje sofre preconceito de tudo quanto é lado: do campo religioso, por ter vindo do candomblé; de etnia, por ser de origem negra; e pela sua prática ter começado nas ruas, então, logo vista como marginalização.

Percebemos que a capoeira é muito mais forte do que uma simples atividade física. Para corroborar ainda mais tal afirmativa, este mês foi   realizado o IV Festival Internacional de Capoeiragem, no Forte da Capoeira, em nossa capital, quando a elite mundial da prática pôde vivenciar e trocar experiências por meio de diversas atividades.

A capoeira é um elemento definidor de identidade brasileira porque agrega em uma única arte itens fundamentais: a religião, os movimentos corporais, a música, a história. No entanto, apesar dos atributos, mestres, contramestres e praticantes têm, de forma árdua, lutado para evitar que o patrimônio imaterial da humanidade seja esportivizado.

Ora, como um mestre conhecedor de toda essência da capoeira pode ser obrigado a ter graduação para ministrar aulas? O mestre não aprova esse método da esportivização por que, em sua visão, tal processo limitará a prática corporal a um caráter competitivo, mecanicista, distanciando-se de suas origens e de seus objetivos culturais.

A capoeira tem-se incorporado ao ambiente escolar nas aulas de educação física e atividades extracurriculares, mas para que essa prática esteja presente nas aulas faz-se necessário que o professor compreenda a importância da prática para o corpo discente. E é por essa relevância que os mestres não podem ser excluídos da ministração das aulas pois, além de ensinarem a história dos negros no Brasil, se dedicarão nos gestos, ritmos e movimentos da arte, facilitando o aprendizado dos alunos e influenciando nos comportamentos afetivo, criativo e lúdico.

Forçar um mestre de capoeira condicionando que este só poderá ensinar após a obtenção de um diploma acadêmico é o mesmo que exterminar suas raízes. Uma manifestação nascida nas senzalas, por meio de escravos em busca de uma vida digna e justa, que fez e que faz parte da história do nosso país, está sendo analisada sob a ótica esportiva.

Nossos mestres de capoeira merecem respeito e atenção porque, mesmo com tantas dificuldades e incompreensões, eles ainda têm um belíssimo trabalho de inclusão social, por meio do qual retiram jovens da ociosidade, resgatando a autoestima e orientando-os para a vida em sociedade.

 

Luiz Carlos de Souza  é vereador (PRB) de Salvador e presidente da Frente Parlamentar em Defesa da Capoeira

* Luiz Carlos de Souza, natural de Pernambuco, nasceu no dia 20 de abril de 1972. Filho de Severino Carlos de Souza e Maria José de Souza, é o caçula de 12 filhos e conheceu de perto as dificuldades da vida no Nordeste onde, desde cedo, precisou trabalhar para ajudar no sustento da casa. Em outubro de 2012, foi eleito pelo Partido Republicano Brasileiro (PRB) para seu 1º mandato (2013-2016) com 13.505 votos, sendo o 7º vereador mais votado.

Fonte: http://www.correio24horas.com.br/

Buriti dos Montes: Profeesor de Capoeira realiza Palestra Sobre Drogas

O Professor de Capoeira Décio, realizou Neste último dia 07/11 uma palestra não só com os alunos da capoeira, como também alguns alunos das unidades de ensino do município, houve explicações sobre o uso indevido das drogas, suas conseqüências ao usar e seus efeitos com o uso excessivo de tais substancias. Assim mostrando para cada criança e adolescente os perigos dessa epidemia que tanto esta acabando com nossa juventude. “Esse trabalho foi simples mais muito gratificante, pois o conhecimento desde cedo sobre tal assunto é proveitoso para um futuro próximo, e nisso nossos jovens possam saber e jamais ingressar neste mundo sombrio.” Disse o professor.

 

Fonte: http://180graus.com

Nota de Falecimento: Mestre Decanio

TRÊS “ERRES” FUNDAMENTAIS

Capoeira é uma palavra estranha…
que se escreve com um “rê” suave…
e se pratica com três “erres”…
o primeiro é o RITMO… o segundo o RITUAL..
o terceiro é o RESPEITO…
sem os quais não se joga capoeira!

 

Em homenagem ao amigo, parceiro e principal inspirador do meu trabalho…

 

Portal Capoeira, seus colaboradores, parceiros e amigos prestam esta singela homenagem a este discípulo de mestre Bimba, a este grande cidadão da Bahia e do Mundo e um dos principais mentores deste Projeto.

Mais do que um aluno do grande mestre, Decanio, foi sem duvida um dos companheiros mais chegados de Manuel dos Reis Machado… 

Foi médico, amigo, conselheiro, filho, irmão e um dos principais responsáveis pela criação e documentação da “Luta Regional Baiana”.

Uma importante dica é a visita obrigatória ao site CAPOEIRA DA BAHIA, organizado pelo saudoso mestreDecanio

Mestre Decanio, a quem considero um grande amigo, um exemplo… e acima de tudo o Pai do Portal Capoeira!!!

 

Leia todos os artigos relacionados:

Uma homenagem ao Mestre.

Luciano Milani

 

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Visite o site de Mestre Decanio e conheça um dos mais importantes meios de difusão de cultura e cidadania


Capoeira da Bahia Uma Escola de Cidadania

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Transe Capoeirano
Violência

 

O ano de 2011 foi um ano difícil para a capoeira com a morte de mestres importantes como o mestre Artur Emídio em Maio de 2011  e de Mestre João Pequeno em Dezembro do mesmo ano. Com eles perdemos as memórias e as vivências de um passado glorioso e rico da capoeira que ainda está por resgatar.

Para além do aspecto da memória da capoeira atravês da história oral transmitidas pelos antigos mestres, devemos ter em conta a dignidade de pessoas que dedicaram uma vida por esta arte afro-brasileira, por sua preservação e continuidade, tal com foram ensinados por seus mestres. Mestre Decânio estava, na atualidade, para a capoeira Regional de Bimba tal como estava Mestre João Pequeno para a capoeira Angola criada por Mestre Pastinha. Foram eles guardiões de um legado valioso que marca a contemporaneidade da capoeira.

Atlas Geográfico da Capoeira

Atlas Geográfico da Capoeira
 
Neste artigo apresentamos uma proposta alternativa de um Atlas para a Capoeira, cuja ênfase é a localização Geográfica de seus praticantes.
 
Miltinho Astronauta
Jornal do Capoeira  / Junho-05

 

 
Há bom tempo estamos batendo na mesma tecla: é impossível fazer qualquer planejamento sem Diagnóstico. Isto vale para a sociedade como um todo, vale também para a Capoeira. Tal preceito faz parte da Teoria Geral de Administração.
Com a Capoeira não é diferente. Na há como estabelecer uma política adequada em prol de nossa arte se antes não se fizer um levantamento detalhado de a quantas anda a Capoeira. Levantamento que pode – e deve – ser feito Cidade por Cidade, Estado por Estado, no Brasil como um todo, e por que não dizer País por País.
            Gastam-se rios de dinheiros em questionáveis programas de inclusão social (sic), mas sem realmente saber quem está sendo incluído no final das (gordas) contas. E o pior de tudo, por conta desta tal "inclusão", as vezes está se criando jovens castros de luta por reais direitos de igualdade e de fraternidade. Estão criando, a bem da verdade, jovens "socialmente comportados", para que estes não venham a bater de frente com o próprio Governo.
            Os mega-grupos, às vezes, por conhecerem o "caminho da pedras", acabam sendo apadrinhado por mega-projetos, com mega-mensalões, faz-se alguns projetos-vitrine, e o jovem marginalizado continua seguindo sem Educação, sem perspectiva de Trabalho digno, sem Saúde e sem uma Casa para morar.
 
            Resumindo: Diagnóstico na Capoeira!

ATLAS DA CAPOEIRA
 
            O Atlas do Esporte no Brasil (mil páginas!) foi lançado em Novembro de 2004, no SESC do Rio. A partir de então passou a ser lançado também nas principais capitais do Brasil. Tal obra é mais um resultado do heróico Mestre-Dr. Lamartine Pereira da Costa. Tal estudo conta com duas entradas sobre a Capoeira. A própria série "Capoeira em São Luiz do Maranhão", de autoria do Prof. Leopoldo Vaz (UEMA) e que tem sido republicada no Jornal do Capoeira, faz parte do Atlas acima mencionado.
            Aí vem a questão: por que os Governos, especialmente o Federal e os Estaduais, não aproveitam a experiência para por para marchar o Atlas da Capoeiragem no Brasil? Cada Estado faria sua parte, a exemplo do trabalho já em andamento no Maranhão, e dos também iniciado na Paraíba (Bené!), Rio Grande do Sul (Tairone Gigante!), Rio de Janeiro (André Lacé, Paulão do Rio & Bogado!) e em São Paulo (Carlos Cavalheiro, Raphael Moreno e outros que estão se achegando).
            É claro, do Atlas dos Esportes ao Atlas da Capoeira há necessidade de fazerem-se algumas "adaptações". Mas nada que uma boa equipe de Base, bem distribuída pelos estados, bem gerenciada do ponto de vista estratégico, e com apoio explícito dos diversos Ministérios afim – Cultura, Educação, Esporte, Relações Exteriores e Igualdades Raciais – o trabalho sairá de qualidade.

 
CAPOEIRA & ATLAS GEOGRÁFICO
 
            Enquanto o Atlas da Capoeira no Brasil não sai do sonho, de Portugal, mais precisamente da costa oeste, cidade de Mogadouro, o Prof. Luciano Milani, um "expert" em informática, em parceria com a Equipe Capoeirista.com.br (Fernandes Wellington & Cia), está fazendo sua parte.
            No mês de maio de 2005, o Capoeirista.com.br – o Orkut da Capoeira! – disponibilizou mais um conjunto funções adicionais para permitir que cada usuário (o cadastro é gratuito), a opção de incluir a coordenada geográfica.
            A partir de então, o ponto adicionado aparece em um mapa mundi planificado, indicando a localização (e outras informações) do Capoeira-usuário.
            O Serviço já está dando resultado, mas o sucesso pleno do Atlas Geográfico da Capoeira depende também de nossa parte.
           
            Então, cadastremo-nos! Eu já faço parte do Atlas Geográfico da Capoeira, e na posição da cidade de São José dos Campos aparece pelo menos um representante.
 
Web site: www.capoeirista.com.br/content/view/55/63/
Autor: Milton Cezar Ribeiro
 

Em busca da Ludicidade Perdida

 Após o pesadelo transatlântica, os que sobreviveram aos porões fétidos da civilização européia, no sentido literal, seguiram-se gritos solitários que se ouviu nas senzalas e nos terreiros banhados com o sangue inocente dos mártires, inconformados com uma vida pior que a dos animais…

Essa pode ter sido a gênese cruel. Mas a ressurreição de toda a humanidade acontecia, junto com os sinais da iluminação dos tempos: eclodiram revoluções no mundo dito civilizado, em nome da liberdade, da igualdade e da fraternidade…

Que era essa liberdade? Haveria lugar para essa metáfora burguesa em busca do seu lugar ao sol, enquanto uma raça inteira jazia sob os ferros da escravidão?

Que igualdade? Onde caberia esse discurso, se a massa dos excluídos se avolumava junto com as comunidades negras soterradas pela substituição da máquina-homem pela máquina-vapor?

Que fraternidade? Se as uniões que se forjaram se destinou, como na Guerra do Paraguay, a interromper um crescimento infiel de uma ex-colônia, numa covardia que usava o julgo capitalista inglês, por um lado e, por outro, milícias de capoeiras negros condenados com a promessa de um prêmio que nunca foi pago, ao lado de um mérito nunca resgatado na História?

Então, se somados todos os processos históricos das revoluções da era moderna, para os negros o resultado era sempre zero, o que fazer? Por onde assegurar que seriam preservadas as esferas de realização reprodutiva de sua cultura, de seus valores, de sua fé, de sua felicidade, enfim?

Era preciso uma revolução estratégica… Onde obter armas para fazer frente a tal caos? Tanques de guerra? Fuzis? Mosquetões? Talvez a conquista de uma legislação protetora, como a que existe hoje em dia para preservação dos animais?

Nada disso!

A Revolução teria que ser feita numa esfera inacessível aos não iniciados!

Ela teria que ser escrita no idioma oral das raízes afros.

Teria que poder ser praticada de forma velada e ao mesmo tempo por todos. Como isso seria possível?!

 

A REVOLUÇÃO SILENCIOSA(?) DO CORPO

 

Era isso. Os códigos teriam que ser passados através do único veículo de que dispunham os negros: o seu corpo! É lógico, o corpo possui todos os instrumentos necessários aos processos de informação cultural e revolucionária…

Mas, se fosse colocado em confronto em campo aberto, poderia o corpo ter alguma chance de resistir às pressões alienantes do dominador? Não. Era necessário que o processo deveria contar com um aliado estratégico, o elemento dissimulador… Onde buscá-lo?

Não era necessário, pois ele fazia parte do acervo natural da cultura afro, era encontrado em grande quantidade nos movimentos básicos do seu dia-a-dia; podia também ser localizado nas esferas simbólicas discretas de seus valores, produzidos a partir de uma consciência estética livre e na profundidade criativa da mãe-África, inscrita como o mais antigo legado da humanidade. Sim, era possível.

Era possível superar a dor do ferros cravados na carne mulata; possível também romper com o cerco legitimado dos senhores-donos-de-escravos, imperialistas ou republicanos, que empurrava para os porões dos valores, a cultura, a arte, a religião e a imaginação afro, a submissão aparente ao julgo dos valores ocidentais era parte da estratégia.

Ela era galgada na ironia, na aparente aceitação da realidade imutável dos fatos, e na manifesta demonstração da inocência primeva de quem não teria mesmo porque se sentir ou reagir de forma diferente: a manha, a sanha, os rituais religiosos – estes não liberados senão mediante um sincretismo negociado com a ordem dos valores vigentes, as heranças guardadas da Dança da Zebra; a Cujuinha, dança guerreira; a Uianga, dança dos caçadores; a Cuissamba, dança de julgamento e castigo; e outras bases culturais, como a dança do Batuque, os ritmos corporais dos rituais umbandísticos.

Aí estavam as fontes, as quais, misturadas aos recursos férteis da imaginação criativa e a frágil percepção da resistência por parte do dominador – subestimar o adversário representa cinqüenta por cento de derrota, segundo o critério da tradição oriental – juntando tudo isso na alquimia daquele momento em que o tédio branco era tão carente de dinâmica, estava pronto o contexto da gênese transcendental do elemento de resistência, composto da imaginação loquaz e renitente, da festa, do folguedo a qualquer tempo e da capacidade de surpreender os desavisados e os espíritos desarmados dos dominadores, pois de muito gorda a porca já não anda, de muito usada a faca já não corta!.

Construídos os fundamentos da resistência, era importante praticá-los, explorá-los, aperfeiçoá-los, expandi-los!

A jornada da resistência era longa e não adiantava a pressa…

A pressa era dos dominadores, através de conclusões precipitadas dos movimentos, dos jogos e dos folguedos…

A melhor forma era a ironia, aperfeiçoada em insolência, indiferença à força bruta, uma brincadeira desautorizada na frente do opressor.

 

BOM HUMOR: A REVOLUÇÃO DA FELICIDADE

 

Essa a História-síntese da arma maior da revolução negra: a capacidade de superar o horror e a tragédia a partir da manutenção de um estado de resistência lúdica, que transformava cada momento de lazer no resgate do direito à felicidade, com o corpo-arma escrever os sinais da superação da opressão e avançar na História, preservando, junto com a força cultural e do espírito guerreiro, a capacidade entusiástica do estado de espírito festivo, construtivo, combativo e fiel à luta pela alegria e pela dignidade a um só tempo, como se isso fosse parte de um todo indivisível!

Poderíamos nos alongar indefinidamente nas possibilidades desse insight, através do qual pretendemos remontar uma visão Histórica da construção da ludicidade dentro da revolução negra afro-brasileira, ao tempo que inscrita tal sanha nos signos gestuais e nos símbolos revolucionários das reconstruções de identidade étnica transportadas pela miscigenação cultural brasileira, hoje praticamente controlada pelos donos do mercado, o qual vende a alegria em cenas sensuais extraídas das páginas mal contadas da memória corporal dos africanos, legados sem restrição ao acervo dos ritmos e ritos afro-brasileiros.

Os efeitos dessa terapia vai muito além dos limites sensoriais, hoje encenadas nas citadas explorações erotizantes, perdido o elo revolucionário de sua gênese, subutilizado o seu potencial no maciço mercado sensual e abandonada a sua aplicação no talvez mais importante terreno fértil de sua potencialidade: a libertação das angústias, dos medos, dos traumas, dos centros somáticos de resistência corporal (vide Freire, R. in), além da ruptura com os processos competitivos, dissimilados em jogos simbólicos e solidários. A Arma é o Corpo

Portanto, é necessário resgatá-lo, tal espírito, tão forte sua importância no jogo da capoeira. Tão grande sua influência nos resultados de cada etapa do aprendizado, em cada possibilidade de superação das barreiras competitivas. Tornar o jogo um instrumento de subversão do resultado e da competição, tudo isso é parte da ludicidade, hoje banida das práticas, pois quem ensina parece não conhecer a ausência da regra que a torna possível. Nossas regras parecem ser, ao contrário, avanços na direção oposta da liberação que a liberdade permite.

A alquimia da música e do ritmo, por outro lado, parece ter se perdido, após uma atualização modernizante de uma melodia de alto impacto, que inviabiliza um resultado harmônico corporal, mesmo no solo, quanto menos, num diálogo entre dois corpos equipados com o arquivo-arma traduzido para o nosso idioma remixado da cultura latino-americana/afro-brasileira.

O desafio maior da capoeira na escola é desvendar esse mistério e recuperar o lúdico nos escombros soterrados de nossa Étno-História não contada, após o que, talvez possa reescrever a felicidade e a solidariedade, como uma revolução urbana de paz e de consciência crítica e libertária!
 

http://bahia.port5.com/terreiro/

Site Capoeira da Bahia

É com muita alegria e satisfação que venho publicar esta notícia:

 
O site, Capoeira da Bahia, do querido Mestre Decanio, um dos mais completos e informativos sites sobre capoeira,  já se encontra totalmente migrado para o nosso espaço…
 

…enriquecendo ainda mais o conteúdo, a credibilidade e firmando uma parceria em prol da capoeira…

 
 
Visite: www.capoeiradabahia.lmilani.com

 

 

Esta parceria é o resultado de uma nova amizade que espero poder corresponder e eterniza-la…


Todo o conteúdo deste espaço será dedicado a capoeira como um bem comum, pertencente ao patrimonio da humanidade  e como tal a ser divulgado livremente, sem fronteiras geográficas, políticas, ideológicas ou comerciais.
 

A memoria dos grandes Mestres, dos grandes sábios, dos grandes Homens e Mulheres, enfim a memória dos grandes cidadãos…


 

 

Desejando muito Axé, Saúde e Felicidade

 

Decanio e
Luciano


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Capoeiragem: O Nosso Jogo!

Nota:
Alguns mestres estão tendendo a esquecer o passado mais remoto da Capoeira.
O que interessa, segundo esses, é o presente e o futuro, quando muito recuam apenas algumas décadas. 
Felizmente a maioria dos mestres e pesquisadores, inclusive estrangeiros, está pensando, cada vez mais, no sentido oposto. Ou seja, o Brasil tem a obrigação de passar para o resto do mundo, toda a história da Capoeira, e não apenas uma parte. Pois, se assim não fizer, os outros farão.
Assim considerando, começamos neste número a publicar o que o Mundo da Capoeira considera como literatura clássica da Capoeiragem.  Por falta de espaço, obviamente, não transcreveremos os livros que já estão sendo  consagrados como básicos para o bom entendimento da Capoeiragem. Vamos nos limitar a transcrever velhos artigos, crônicas e reportagens.  Boa parte do que for transcrito, certamente, já será do conhecimento de muitos, mas, mesmo assim, acreditamos que é hora também de reler toda esta magnífica literatura capoeirística.
Vamos começar com a extraordinária crônica NOSSO JOGO, de Coelho Netto, publicada em 1922, no livro BAZAR.  Antes, porém, umas palavras sobre o autor:
 Henrique Maximiano COELHO NETTO – Escritor brasileiro, nasceu em Caxias, Maranhão no dia 20 de fevereiro de 1864 faleceu no Rio de Janeiro no dia 28 de novembro de 1934. Foi para o Rio de Janeiro com dois anos de idade; estudou Medicina e Direito mas não concluiu nenhum dos cursos. Em 1885 relacionou-se com José do Patrocínio, que o introduziu na relação da Gazeta da Tarde; nesse jornal deu início à sua Lista Abolicionista e Republicana. Em 1891, foi publicada sua primeira obra "Rapsódias", um livro de contos. Dedicou-se a literatura com entusiasmo, publicando obras atrás de obras. Escreveu algumas peças teatrais, mais de cem livros e cerca de 650 contos. Foi também um orador de grandes recursos; em 1909 foi catedrático da mesma matéria. Foi deputado na Legislatura da 1909 a 1911; esteve em Buenos Aires como Ministro Plenipotenciário, em Missão Especial. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. Em 1928, foi consagrado como "Príncipe dos Prosadores Brasileiros". De sua extensa obra literária, destacam-se: "A Capital Federal", "Fruto Proibido", "O Rei Fantasma", "Contos Pátrios", "O Paraíso", "Mano", "As Estações", "Sertão", "Mistério do Natal", "Fogo Fátuo" e "A Cidade Maravilhosa". Também poeta, escreveu um soneto que se tornaria famoso: "Ser Mãe"; Coelho Neto é o exemplo de fidelidade e dedicação às letras.

Capoeiragem: O Nosso Jogo!

Coelho Netto,  O BAZAR " 1922
 
"Transcrevendo-o do Correio do Povo, de Porto Alegre, publicou O Paiz em seu número de 22 do corrente, um artigo com o título: "Cultivemos o jogo de capoeira e tenhamos asco pelo do Box", firmado pelo correspondente do jornal gaúcho nesta cidade, Dr. Gomes Carmo.
 
Concordamos in limini com o que diz o articulista, valho-me da oportunidade que me abre tal escrito para tornar a um assunto sobre o qual já me manifestei e que também já teve por ele a pena diamantina de Luiz Murat.
 
A capoeiragem devia ser ensinada em todos os colégios, quartéis e navios, não só porque é excelente ginástica, na qual se desenvolve, harmoniosamente, todo o corpo e ainda se apuram os sentidos, como também porque constitui um meio de defesa pessoal superior a todos quantos são preconizados pelo estrangeiro e que nós, por tal motivo apenas, não nos envergonhamos de praticar. (negrito do Editor)
 
Todos os povos orgulham-se dos seus esportes nacionais, procurando, cada qual dar primazia ao que cultiva. O francês tem a savate, tem o inglês o boxe; o português desafia valentes com o sarilho do varapau; o espanhol maneja com orgulho a navalha catalã, também usada pelo "fadista" português; o japonês julga-se invencível com o seu jiu-jitsu e não falo de outros esportes clássicos em que se treinam, indistintamente, todos os povos, como a luta, o pugilato a mão livre, a funda e os jogos d`armas.
 
Nós, que possuímos os segredos de um dos exercícios mais ágeis e elegantes, vexamo-nos de o exibir e, o que mais é, deixamo-nos esmurraçar em ringues por machacazes balordos que,  com uma quebra de corpo e um passe baixo, de um "ciscador" dos nossos, iriam mais longe das cordas do que foi Dempsey  à repulsa do punho de Firpo.
 
O que matou a capoeiragem entre nós foi…a navalha. Essa arma, entretanto, sutil e covarde, raramente aparecia na mão de um chefe de malta, de um verdadeiro capoeira, que se teria por desonrado se, para derrotar um adversário, se houvesse de servir do ferro.
 
Os grandes condutores de malta " guaymús e nagôs, orgulhavam-se dos seus golpes rápidos e decisivos e eram eles, na gíria do tempo: a cocada, que desmandibulava o camarada ou, quando atirada ao estomago, o deixava em síncope, estabelecido no meio da rua, de boca aberta e olhos em alvo; o grampeamento, lanço de mão aos olhos, com o indicador e o anular em forquilha, que fazia o mano ver estrelas; o cotovelo em ariete ao peito ou ao flanco; a joelhada; o rabo de raia,  risco com que Cyriaco derrotou em dois tempos, deixando-o sem sentidos, ao famoso campeão japonês de jiu-jitsu; e eram as rasteiras, desde a de arranque, ou tesoura, até a baixa, ou bahiana; as caneladas, e os pontapés em que alguns eram tão ágeis que chegavam com o bico quadrado das botinas ao queixo do antagonista; e, ainda, as bolachas, desde o tapa-olho, que fulminava, até a de beiço arriba, que esborcinava a boca ao puaia.  E os ademanes de engano, os refugos de corpo, as negaças, os saltos de banda, à maneira felina, toda uma ginástica em que o atleta parecia elástico, fugindo ao contrário como a evitá-lo para, a súbitas, cair-lhe em cima, desarmando-o fazendo-o mergulhar num "banho de fumaça".
 
Era tal a valentia desses homens que, se fechava o tempo, como então se dizia, e no tumulto alguém bradava um nome conhecido como:Boca-queimada, Manduca da Praia, Trinca-espinha ou Trindade, a debandada começava por parte da polícia e viam-se urbanos e permanentes valendo-se das pernas para não entregarem o chanfalho e os queixos aos famanazes que andavam com eles sempre de candeias às avessas.
 
"Dessa geração celebérrima fizeram parte vultos eminentes na política, no professorado, no exército, na marinha como " Duque Estrada Teixeira, cabeça cutuba tanto na tribuna da oposição como no mastigante de algum paróla que se atrevesse a enfrentá-lo à beira da urna: capitão Ataliba Nogueira; os tenentes Lapa e Leite Ribeiro, dois barras; Antonico Sampaio, então aspirante da marinha e por que não citar também Juca Paranhos, que engrandeceu o título de Rio Branco na grande obra patriótica realizada no Itamaraty, que, na mocidade, foi bonzão e disso se orgulhava nas palestras íntimas em que era tão pitoresco.
 
A tais heróis sucederam outros: Augusto Mello, o cabeça de ferro; Zé Caetano, Braga Doutor, Caixeirinho, Ali Babá e, sobre todos o mais valente, Plácido de Abreu, poeta comediógrafo e jornalista, amigo de Lopes Trovão, companheiro de Pardal Mallet e Bilac no O COMBATE, que morreu, com heroicidade de amouco, fuzilado no túnel de Copacabana, e só não dispersou a treda escolta, apesar de enfraquecido, como se achava , com os longos tratos na prisão, porque recebeu a descarga pelas costas quando caminhava na treva, fiado na palavra de um oficial de nome romano.
 
Caindo de encontro às arestas da parede áspera ainda soergue-se, rilhando os dentes, para despedir-se com uma vilta dos que o haviam covardemente atraiçoado. Eram assim os capoeiras de então.
 
Como os leões são sempre acompanhados de chacais, nas maltas de tais valentes imiscuíam-se assassinos cujo prazer sanguinário consistia em experimentar sardinhas em barrigas do próximo, deventrando-as.
 
O capoeira digno não usava navalha: timbrava em mostrar as mãos limpas quando saia de um turumbamba.
 
Generoso, se trambolhava o adversário, esperava que ele se levantasse para continuar a luta porque: "Não batia em homem deitado"; outros diziam com mais desprezo: "em defunto".
 
Nos terríveis recontros de guaiamus e nagôs, se os chefes decidiam que uma questão fosse resolvida em combate singular, enquanto os dois representantes da cores vermelha e branca se batiam as duas maltas conservam-se à distância e, fosse qual fosse o resultado do duelo, de ambos os lados rompiam aclamações ao triunfador.
 
Dado, porém, que, em tais momentos, estrilassem apitos e surgissem policiais, as duas maltas confraternizavam solidárias na defesa da classe e era uma vez a Força Pública, que deixava em campo, além do prestigio, bonés em banda e chanfalhos à ufa.
 
O capoeira que se prezava tinha oficio ou emprego, vestia com apuro e. se defendia uma causa, como aconteceu com do abolicionismo, não o fazia como mercenário.
 
O capanga, em geral, era um perrengue, nem carrapeta, ao menos , porque os carrapetas, que formavam a linha avançada, com função de escoteiros, eram rapazolas de coragem e destreza provadas e sempre da confiança dos chefes.
 
Nos morros do Vintém e do Néco reuniam-se, às vezes, conselhos nos quais eram severamente julgados crimes e culpas imputados a algum dos das farandulas.  Ladrões confessos eram logo excluídos e assassinos que não justificassem com a legitima defesa o crime de que fossem denunciados eram expulsos e às vezes, até, entregues a policias pelos seus próprios chefes.
 
Havia disciplina em tais pandilhas.
 
Quanto às provas de superioridade da capoeiragem sobre os demais esportes de agilidade e força são tantas que seria prolixa a enumeração.
 
Além dos feitos dos contemporâneos de Boca queimada e Manduca da Praia, heróis do período áureo do nosso desestimado esporte, citarei, entre outros, a derrota de famosos jogador de pau, guapo rapagão minhoto, que Augusto Mello duas vezes atirou de catrambias no pomar da sua chacarinha em Vila Isabel onde, depois da luta e dos abraços de cordialidade, foi servida vasta feijoada. Outro: a tunda infligida um grupo de marinheiros franceses de uma corveta Pallas, por Zé Caetano e dois cabras destorcidos. A maruja não esteve com muita delonga e, vendo que a coisa não lhe cheirava bem em terra, atirou-se ao mar salvando-se, a nado, da agilidade dos três turunas, que a não deixavam tomar pé.
 
A última demonstração da superioridade da capoeiragem sobre um dos mais celebrados jogos de destreza deu-nos o negro Cyriaco no antigo Pavilhão Paschoal Segreto fazendo afocinhar, com toda a sua ciência, o jactancioso japonês, campeão do jiu-jitsu.
 
Em 1910, Germano Haslocjer, Luiz Murat e quem escreve estas linhas pensaram em mandar um projeto a Mesa da Câmara dos Deputados tornando obrigatório o ensino da capoeiragem nos institutos oficias e nos quartéis. Desistiram, porém, da idéia porque houve quem a achasse ridícula, simplesmente, por tal jogo era…brasileiro.
 
Viesse-nos ele com rótulo estrangeiro e tê-lo-íamos aqui, impando importância em todos os clubes esportivos, ensinado por mestres de fama mundial que, talvez, não valessem um dos nossos pés rapados de outrora que, em dois tempos, mandariam um Firpo ou um Dempsey ver vovó, com alguns dentes a menos algumas bossas de mais.
 
Enfim…Vamos aprender a dar murros " é esporte elegante, porque a gente o pratica de luvas, rende dólares e chama-se Box, nome inglês. Capoeira é coisa de galinha, que o digam os que dele saem com galos empoleirados no alto da sinagoga.
 
É pena que não haja um brasileiro patriota que leva a capoeiragem a Paris, batisando-a, com outro nome, nas águas do Sena, como fez o Duque com o Maxixe.
 
Estou certo de que, se o nosso patriotismo lograsse tal vitória até as senhoras haviam de querer fazer letras, E que linda seriam as escritas!  Mas, se tal acontecesse, sei lá !  muitas cabeçadas dariam os homens ao verem o jogo gracioso das mulheres".