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Natal: Punido pelo preconceito

Conheça a história de um inocente que viveu mais de 2 anos atrás das grades

Ser negro, tatuado, pobre, sem estudo e ainda professor de capoeira. Valdécio de Oliveira Soares, 34 anos, acredita que foram essas características que o levaram a ficar preso por dois anos, três meses e 28 oito dias por um crime que não cometeu. Acusado de ter matado um amigo, Erivan de Paiva Justino, 34, em janeiro de 2010, ele foi inocentado em um júri realizado em 19 de julho deste ano por falta de provas. Solto desde então, ele lembra com tristeza dos momentos de desespero e sofrimento na cadeia, pagando por um crime que não cometera, sentindo saudades da família e de amigos. No entanto, ele também compartilha o gosto da liberdade de fazer coisas simples como tocar um berimbau ou mesmo comer pão com ovo quando bem entender.

Valdécio Soares foi detido em Bom Jesus, onde mora, em 29 de abril de 2010 durante a chamada “Operação Sentinela”, deflagrada pela Polícia Civil com objetivo de cumprir mandados de prisão contra pessoas acusadas de crimes diversos, principalmente homicídio. O professor de capoeira foi apontado como o principal suspeito na morte de Erivan Justino, que fora encontrado morto e com o corpo carbonizado às margens da BR 226, no município de Bom Jesus, em 26 de janeiro daquele mesmo ano. A vítima estava desaparecida desde o dia 4 daquele mês, depois de ter saído da casa de Valdécio.

Ele conta que no dia em que Erivan desaparecera, esse teria ido à sua casa para beber, juntamente com outro amigo, Elias. Enquanto bebiam, Erivan teria pedido para tirar a calça, por estar com calor e estar vestindo uma bermuda por baixo. “Eu disse que ele podia ficar à vontade. Ele tirou a calça e me pediu para guardar”. Por volta das 11h, Erivan disse para Valdécio que precisava sair para sacar um dinheiro da conta e chamou o professor de capoeira e o outro colega para irem junto. “Mas eu disse que não iria, que ele podia ir só”. Desde então, Valdécio não viu mais o amigo.

O advogado do capoeirista, Lázaro Amaro, explica que o delegado Frank Albuquerque, que à época conduziu as investigações, teria entendido que Erivan teria comprado droga ao seu cliente e não pagou, por isso foi executado. “A mãe da vítima revelou à Polícia que o filho era dependente químico de crack. Ela contou ainda que Erivan deixou uma calça na casa de Valdécio e, no mesmo dia, tentou sacar dinheiro da conta. Isso é o que tinha de concreto nas provas e que levou à presunção do crime. Associaram o fato do meu cliente ser negro, tatuado e capoeirista com a possibilidade de ser traficante, porque o delegado ouviu dizer que ele vendia drogas. Porém, não encontrou uma pessoa que confirmasse isso”.

 

Falta de provas

Preso por mais de dois anos e finalmente levado a júri popular, Valdécio Soares foi inocentado exatamente por falta de provas contra si. “Apresentaram uma testemunha, funcionário de uma farmácia na qual Valdécio fora tirar uma cópia da identidade a pedido da Polícia, acompanhado do amigo Elias. Essa pessoa disse que teria ouvido, na ocasião, meu cliente dizer para o amigo que tinha ido à lotérica comErivan para retirar o dinheiro. Porém, depois de se contradizer duas vezes, ele negou essa versão”, conta o advogado do capoeirista.

O defensor de Valdécio ressalta ainda que sequer existia a confirmação de que Erivan tinha sido assassinado. “O laudo do Itep (Instituto Técnico-Científico de Polícia) não conseguiu apontar a causa da morte. O corpo foi simplesmente encontrado carbonizado junto a uma plantação. Houve, inclusive, um boato que o fogo foi ateado por agricultores para preparar a terra. O que pode ter acontecido é que o rapaz teria consumido drogas, ficado desacordado e não escapou do incêndio”. Com a falta de provas, durante as alegações finais, a própria promotoria pediu pela absolvição do réu.

 

Indenização

Livre desde o julgamento, o mestre de capoeira ainda está avaliando a possibilidade de entrar com uma ação contra do Estado pedindo indenização pelo tempo que passara preso. “A gente tem que correr atrás do nosso direito. Não posso deixar isso de lado depois de tanta injustiça que sofri. Isso vai ficar de exemplo para muito outros que passam pela mesma coisa em nosso país”.

 

Momento da prisão

Valdécio lembra com bastante dor o momento de sua prisão. “Eu ainda estava dormindo, ao lado de minha namorada. Escutei um barulho fora da casa e me levantei para ver o que era. Quando abri a porta, um policial apontou uma arma para mim, perguntando se eu era Valdécio. Respondi que sim e ele disse que eu estava preso. Para mim, foi terrível o momento, pois fui colocado de joelho e algemado de frente ao espaço onde dava aula de capoeira, lugar que eu considero sagrado”. Depois de detido, ele passou por três unidades prisionais: primeiro no Centro de Detenção Provisória (CDP) de Macaíba, em seguida para o Centro de Triagem de Pirangi, depois o Presídio Estadual de Parnamirim e retornou para o CDP de Macaíba.

 

Entrevista Delegado Frank Albuquerque: “A Justiça fez a parte dela”

O delegado Frank Albuquerque chefiava a delegacia de Macaíba à época do crime e respondia pela cidade de Bom Jesus. Foi ele quem conduziu as investigações que levaram ao indiciamento de Valdécio Soares por homicídio. E explica como chegou à conclusão de que o capoeirista teria matado Erivan Justino, mas comenta apenas que a justiça fez a parte dela.

Ao final do processo, Valdécio Soares foi inocentado das acusações. A pergunta que fica é se havia no processo provas robustas que pudessem incriminar o mestre de capoeira. O que o fez indiciá-lo pelo crime?

Havia provas testemunhais e técnicas. Tudo foi feito dentro da legalidade. Tanto que o juiz mandou prendê-lo e a prisão se sustentou até o final do processo. O que foi feito se baseou no que a mãe da vítima nos revelou, ou seja, de que Erivan fora a casa de Valdécio e desapareceu em seguida. O rapaz era dependente químico, mas não havia nenhuma outra pessoa interessada na sua morte. A mãe do rapaz ouviu dizer que o acusado vendia drogas. Acreditamos que a vítima tenha ido comprar droga ao acusado e deixou a calça como garantia de pagamento. Como não pagou, acabou sendo assassinado.

Mas a suspeita de que ele vendia drogas não foi comprovada. Você não conseguiu achar uma testemunha que confirmasse que Valdécio Soares era traficante?

Sabemos que, em geral, um traficante é uma pessoa perigosa e intimidaa comunidade que está a seu redor. Quem vai aparecer para confirmar que alguém vende drogas, correndo o risco de ser morto? Só a família da vítima, que está interessada em justiça.

Você ainda acredita que Valdécio seja culpado pelo crime, mesmo após sua absolvição?

Se ele foi absolvido, não posso ir de encontro a uma decisão judicial. A Justiça fez a parte dela, assim como eu sei que a Polícia também fez a sua. 

Estado perverso e injusto

O presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos, Marcos Dionísio, declara que o caso de Valdécio Soares demonstra bem as consequências de se ter uma Polícia desestruturada. “Um caso assim mostra que quando o Estado é ausente, ele se torna perverso. A incapacidade das polícias brasileiras em dar conta das investigações de homicídios no pais de maneira satisfatória gera injustiças como essa”.

Marcos Dionísio acredita que foi o fato de Valdécio Soares ser pobre que o levou a ficar preso por tanto tempo injustamente. “Se dermos uma olhada para a população carcerária, veremos que a grande maioria é de gente assim. É praticamente inexistente a presença de ricos na cadeia, pois esses têm condições de ter uma assessoria jurídica eficaz que possa tirá-los da prisão. Já os desfavorecidos têm de contar com a defesa dada pelo Estado, muitas vezes ineficiente”.

 

Paulo de Sousa
jpaulosousa.rn@dabr.com.br

Porto Alegre: Professor de Capoeira vítima de racismo e agressão

Após suposta aposta entre amigos, homem é agredido no banheiro da estação do trensurb na Capital.
Antes da violência, agressor de 21 anos teria dito a amigo que atingiria um negro ou mendigo.

Antes de embarcar para o trabalho, o professor de capoeira Cleber Figueira Machado Pedroso, 24 anos, foi agredido com uma garrafa de vidro na cabeça no banheiro da Estação Mercado do Trensurb, na Capital. O caso aconteceu por volta das 19h desta sexta-feira, e o agressor, Daniel Faleiro La Roque, 21 anos, não conhecia a vítima. Conforme versão dada por ele à Brigada Militar e a um segurança, teria apostado com um amigo que acertaria uma garrafa no primeiro negro ou mendigo que visse.

Após cometer a agressão, Roque tentou embarcar no trem, mas foi detido por seguranças da Trensurb. Acudido por outros usuários do local, Pedroso recebeu os primeiros socorros na estação e foi levada ao Hospital de Pronto Socorro (HPS) Porto Alegre. Cerca de uma hora depois, ele foi liberado com pontos na cabeça e medicação.

— Acredito que foi racismo, porque tinha um monte de gente no banheiro e foi justamente em mim. Quando vi, tomei uma garrafada. Na hora já começou a sangrar e fiquei tonto.

Segundo um funcionário da Trensurb, que pediu para não ser identificado, foi usada uma garrafa de uísque que estava guardada em uma mochila. O professor foi atingido pelas costas, sem chance de defesa. Policiais do 9º Batalhão de Polícia Militar (BPM), que fica a poucos metros da estação, algemaram Roque e o levaram até a 2ª Delegacia da Polícia de Pronto Atendimento (DPPA). O sargento Silvio Luis Ferreira Gomes disse que, quando indagado sobre o motivo do crime, o agressor teria confirmado a versão dita anteriormente aos seguranças da Trensurb:

— Ele disse que fez uma aposta com um amigo de que acertaria o primeiro negro ou mendigo que aparecesse pela frente.

A delegada Liege Machado Pereira autuou Roque em flagrante por injúria qualificada (ofensa, com elemento de raça e lesão). Ela estipulou a fiança de R$ 2 mil, que não foi paga e, por isso, o agressor será levado ao Presídio Central de Porto Alegre. Em depoimento à delegada, Roque permaneceu em silêncio.

 

Fonte: www.zerohora.com.br – leticia.costa@zerohora.com.br

Oferendas e cânticos marcam celebração ao dia de Iemanjá

Grupos se reúnem na Praia de Pajuçara para homenagear a rainha das águas

As batidas dos tambores marcaram o ritmo. Os colares em cores vibrantes adornaram as vestimentas. Os cânticos foram acompanhados com uma leve dança. Em cortejo, as cestas levaram flores bem decoradas, comidas e lembranças. Foram as oferendas a Iemanjá, a rainha das águas, homenageada todo oito de dezembro. Crianças e adolescentes também foram às areias da praia da Pajuçara para reverenciar a mãe de todos os orixás e pedir o fim do preconceito contra as religiões de matriz africana.

Os grupos de candomblé e umbanda, vindos de várias partes de Alagoas, festejaram o orixá dos Egbá na Pajuçara, em Maceió, durante todo o dia. A celebração, que pretendia chamar atenção para o preconceito histórico contra as manifestações afro-brasileiras, aconteceu também para agradecer por tudo o que foi alcançado em 2010.

Mãe Fátima de Oiá saiu de São Miguel dos Campos com seu grupo para homenagear aquela que ela considera ‘a mãe maior de todas as nações’. “Hoje o dia é de festa, felicidade e união de todos os candomblés e nações. Isso representa o renascimento da mãe mais caridosa e dedicada” – contou a mãe de santo, que mantém 38 filhos de santo dançando em seu grupo.

Há 15 anos como mãe de santo, Mãe Fátima explica que as oferendas preparadas para o orixá são levadas para alto mar, onde são, segundo a crença, conduzidas pelas águas até a Terra de Orucaia, conhecida como Terra de Iemanjá. “É um lugar feliz e radiante. A terra dos encantos”, diz ela.

 

Rodas de capoeira

Fazendo parte dos festejos, grupos de percussão e rodas de capoeira animaram o ambiente. “A capoeira tem ligação com o movimento afro-brasileiro, por esse motivo, fomos convidados e aqui estamos para fazer parte da comemoração”, diz o presidente do grupo Muzenza, Marcelo Cardoso, conhecido como Mestre Girafa.

Na praça Multieventos, a roda de capoeira chamava a atenção dos transeuntes, que paravam para apreciar o gingado. Grupos de percussão, de maracatu e orquestras de tambores estendem a programação até o final do dia.

 

Candomblé: tradição passada de geração a geração

Ela tem apenas sete anos de vida, mas já sabe entoar os cânticos que homenageiam Iemanjá, a rainha das águas. No dia em que as religiões de matriz africana reverenciam a mãe de todos os orixás, neste 8 de dezembro, seguidores do candomblé e da umbanda levam os filhos para também participa da festa de louvor.

A pequena Ieda Vitória da Silva, de 7 anos, canta, dança e segue os passos da mãe. Ela praticamente nasceu num terreiro de candomblé e, nos dias em que já movimentação é grande para levar à Iemanjá as oferendas que significam uma espécie de agradecimento por tudo o que ela teria feito pelos seus seguidores.

“Desde quando a Vitória era bebezinha que eu a levo para todas as atividades festivas da nossa religião. Ela sabe todas as músicas e os passos que marcam o ritmo das batidas dos nossos hinos”, disse a mãe Catiana da Conceição.

“Viemos de Rio Largo para prestar as nossas homenagens à mãe das águas”, lembrou a menina, que faz parte do Grupo Santuário de Iemanjá.

 

Tarde ainda com muitas oferendas

E a Pajuçara continua tomada por grupos de candomblé e umbanda. Todos cantam e dançam em dezenas de rodas formadas nas areias da praia. No meio do círculo, as oferendas que serão lançadas no mar: perfumes de alfazema, sabonetes, talcos, flores, champanhe, espelhos, bonecas e adereços.

Além do ritual religioso, a festa de Iemanjá também reúne outras expressões da cultura afro, a exemplo de sambas de roda, grupos de capoeira e blocos afros.

 

A lenda*

Com a lenda conta que Iemanjá, filha de Olokum, casou-se com Olofin-Odudua, em Ifé, na Nigéria, e teve dez filhos, todos orixás. Depois de amamentá-los, ela teria ficado com os seios enormes, o que lhe causara vergonha. Cansada de viver em Ifé, Iemanjá fugiu e, chegando a Abeokutá, casou-se novamente, dessa vez, com Okerê. Mas, Iemanjá impôs uma condição para o casamento: que o marido jamais a ridicularizasse por conta dos seios volumosos. Entretanto, numa briga, Okerê teria ofendido Iemanjá, que, furiosa, fugiu novamente, encontrando num presente do pai o caminho para as águas. Ela nunca mais teria voltado para a terra e se tornou, assim, a rainha do mar. Nas datas em que é homenageada, em 02 de fevereiro e 08 de dezembro (Imaculada Conceição, para o Catolicisco), seus filhos fazem oferendas para acalmá-la e agradá-la.

* Com informações do portal da Capoeira – www.portalcapoeira.com

 

Pajuçara vira palco de articulação pela cultura afro-brasileira

E, com o objetivo d pedir o fim do preconceito contra as religiões afro-brasileiras, reuniram-se, durante toda a tarde desta quarta-feira (08), vários grupos culturais na praia da Pajuçara. Cada um, mostrando as suas ações que são desenvolvidas no dia-a-dia, apresentou-se nas areias da orla marítima de Maceió e pediu o fim do preconceito.

“Estamos aqui num em prol da liberdade de crença e em favor do sincretismo religioso. A intolerância religiosa tem que ser combatida em todos os templos e lugares. O mais importante é que tenhamos fé, independentemente da religião a ser seguida”, defendeu Sirlene Gomes, coordenadora do Cepa Quilombo, grupo temático de discussão contra o preconceito.

Além dele, estiveram presentes o Quintal Cultural (grupo de educação, cultura e formação), Coletivo Afro Caetés (maracatu), Centro Espírita Santa Bárbara (Umbanda), Corte de Airá (maracatu) e o Núcleo Cultural da Zona Sul (capoeira e bumba-meu-boi).

O encontro foi denominado de ‘articulação pela cultura popular e afro-alagoana’ e seus organizadores prometem novas ações ao longo do próximo ano. Por enquanto, eles conseguiram abrigo provisório na Secretaria de Estado da Cultura.

 

Conscientização com crianças

O Centro Espírita Santa Bárbara, cuja sede fica no Conjunto Village Campestre, trabalha o tema da umbanda com crianças com idades entre 4 e 8 anos. Os integrantes da entidade alegam que, para poder desmistificar as religiões de matriz africana, a educação religiosa precisa ser ministrada desde os primeiros anos de vida.

E, para as homenagens à Iemanjá na praia, o Centro levou crianças e adolescentes para que eles pudessem entender e presenciar as reverências à rainha das águas.

 

Fonte: http://gazetaweb.globo.com

Gazetaweb – Janaina Ribeiro, Roberta Batista e Daniel Dabasi

A dança da zebra

As semelhanças são impressionantes. Será que foi do  “n’golo” jogo de combate angolano, que nasceu a nossa capoeira?

A origem da capoeira sempre foi controvertida. Mestre Pastinha (1889-1981), um dos mais famosos capoeiristas da Bahia, durante muito tempo pensou que a ginga que aprendera desde criança provinha de uma mistura do batuque angolano e do candomblé dos jejes, africanos da Costa da Mina, com a dança dos caboclos da Bahia. Mas, por falta de mais conhecimentos, não podia ir muito além dessa afirmação.

Isso até a década de 1960. Foi quando uma revelação mudou completamente suas idéias sobre as origens da capoeira. À frente de sua academia, situada no Pelourinho, em Salvador, Pastinha recebeu a visita de um pintor vindo de Angola. Chamava-se Albano Neves e Sousa e afirmava que tinha visto na África uma dança semelhante ao tipo de capoeira que o mestre baiano ensinava. Só que lá chamava-se n’golo.

Até então, ninguém por aqui tinha ouvido falar de nada semelhante. A memória oral não registrava nenhuma prática ancestral específica. Muitos afirmavam, e continuam afirmando, que a capoeira teria sido inventada pelos escravos nas senzalas. Outros, que teria sido criada pelos quilombolas em sertões distantes. Estudiosos têm ressaltado o caráter urbano da capoeira, pois as fontes do século XIX só  documentam sua prática por escravos africanos e crioulos (negros nascidos no Brasil) em cidades portuárias, como Rio de Janeiro e Salvador. Naquela época, era uma “brincadeira” proibida, e a grande maioria dos africanos presos por “jogar” capoeira no Rio de Janeiro era originária da África centro-ocidental, das “nações” Congo, Angola e Benguela. Em Salvador, a capoeira também era identificada como uma “brincadeira dos negros angola”. Por essa razão, faz realmente sentido buscar as raízes da capoeira na região dos atuais Congo e Angola.

O n’golo, explicou Neves e Sousa ao velho capoeirista, é dançado por rapazes nos territórios do sul de Angola, durante o ritual da puberdade das meninas. Chamado de mufico, efico ou efundula, esse ritual marca a passagem da moça para a condição de mulher, apta a namorar, casar e ter filhos. É uma grande festa em que se consome muito macau, bebida feita de um cereal chamado massambala. O objetivo do n’golo é vencer o adversário atingindo seu rosto com o pé. A dança é marcada pelas palmas, e, como na roda de capoeira, não se pode pisar fora de uma área demarcada. N’golo significa “zebra” e, de fato, alguns movimentos, em particular o golpe dado pelo pé, de costas e com as duas mãos no chão, parecem mesmo com o coice de uma zebra.

Os registros e a argumentação de Albano eram bastante convincentes. Se os africanos escravizados nas Américas lograram, apesar de condições terrivelmente adversas, adaptar suas religiões e seus rituais, assim como suas festas e danças de umbigadas, não seria lógico que também trouxessem para cá seus jogos de combate e suas artes marciais? Sabe-se que os exércitos congolês e angolano eram formados por guerreiros exímios na luta corporal. Vários cronistas destacaram a habilidade com que eles evitavam golpes, jogando o corpo para o lado de maneira imprevisível e confundindo o adversário.

Ainda que muitos dos africanos escravizados conhecessem as artes da guerra, a maioria se dedicava à agricultura ou à pecuária antes de ser aprisionada e embarcada à força para as Américas. Os povos pastores de Angola, em particular, por causa da necessidade de proteger o gado que tangiam contra eventuais gatunos,  desenvolveram técnicas de combate individuais, sabendo manejar paus e outras armas contundentes contra os inimigos.

Os cronistas coloniais não forneceram descrições pormenorizadas das técnicas nem dos rituais desses antigos jogos de combate, o que torna impossível qualquer tentativa de aproximá-los da capoeira como hoje a conhecemos. Os significados culturais desses rituais também mudaram ao longo dos séculos, acompanhando a intensa transformação socioeconômica  e cultural por que passou a África a partir do século XVII. Até as fronteiras étnicas foram redesenhadas antes que se chegasse à configuração atual. Assim, todas as manifestações que porventura existem hoje em Angola são expressões contemporâneas, e só  têm relações tênues com os jogos de combate do tempo do tráfico negreiro.

Infelizmente, Mestre Pastinha, por ocasião da visita de Albano Neves e Sousa, já estava com a vista comprometida por uma catarata – aliás, nunca operada por falta de recursos. Isso limitava muito qualquer plano seu de divulgar a recente descoberta. Chegou a contar a história que ouviu para seus alunos mais próximos, mas não deixou nenhum registro escrito sobre o n’golo. Nem seu livro Capoeira Angola, publicado pela primeira vez em 1964, nem seus diversos manuscritos, por serem anteriores ao encontro com o pintor luso-angolano, mencionam a “dança da zebra”. Mas Albano Neves e Sousa conseguiu convencer outros brasileiros de sua teoria, entre eles o então presidente da Sociedade Brasileira de Folclore, Luís da Câmara Cascudo (1898-1986).

De volta a Angola, Neve e Souza organizou, em 1966, a exposição “…Da minha África e do Brasil que eu vi…”, com o material de suas viagens aos países de língua portuguesa dos dois lados do Atlântico, apontando semelhanças entre expressões culturais africanas e dos negros brasileiros. No prefácio do catálogo da exposição, Câmara Cascudo mencionava que o pintor “viu a ginástica do n’golo, batizada em ‘capoeira’”. O renomado folclorista seria o primeiro a divulgar no Brasil a teoria do n’golo como luta ancestral da capoeira. Ele conhecera Albano Neves e Sousa durante uma viagem a Angola em 1963, e daí nasceu uma amizade cultivada por correspondência durante muitos anos.

Depois de sua viagem ao Brasil e de seu encontro com a capoeira, o pintor explicou a Cascudo, numa longa carta, suas idéias sobre as origens dessa arte. O folclorista potiguar encampou a teoria, tanto que citou longos trechos da carta do pintor no seu livro Folclore do Brasil (1967) e incorporou a explicação no seu Dicionário de Folclore (1972, 3ª ed.). Baseado nas informações fornecidas pelo amigo, Cascudo deu mais detalhes sobre a dança da zebra e sua trajetória até se transformar em capoeira. Explicou que o n’golo seria típico entre os povos pastores do sul de Angola. O ritual era precedido por uma luta de mãos abertas, a liveta. O jovem que ganhasse no n’golo teria o direito de escolher sua noiva entre as meninas recém-iniciadas, sem ter de pagar dote. Cascudo sugeriu que o n’golo teria chegado ao Brasil através do porto de Benguela.

Aqui, essa tradição tribal se transformara em instrumento de defesa e ataque de bandidos. Na edição, ele incluiu três desenhos do n’golo, feitos por um artista de Natal com base na obra de Neves e Sousa. Os esforços conjuntos do pintor, do folclorista e do velho capoeirista para resgatar o vínculo ancestral ligando a capoeira a Angola acabaram dando resultado.

Os desenhos originais de Neves e Sousa só foram publicados em 1972, num livro com o mesmo título da exposição de 1966. A epígrafe é significativa: “Digam o que disserem… Se Portugal foi o Pai do Brasil, Angola foi a Mãe Preta que o trouxe ao colo!” Reúne elaborados a partir dos esboços e aquarelas feitos no campo durante vinte anos, acompanhados de pequenos textos explicativos.

Algumas imagens evidenciam semelhanças surpreendentes entre a capoeira e o n’golo, como o uso de golpes com os pés enquanto as mãos se apóiam no chão (chamado na capoeira de “meia lua de compasso” ou “de rabo-de-arraia”), muito raro em outras artes marciais. Recentemente, surgiram mais evidências desse parentesco. A viúva de Albano revelou esboços e aquarelas inéditos, que ilustram estas páginas. Eles mostram detalhes adicionais do n’golo: o apoio nos braços com uma perna dobrada e a outra esticada para dar um golpe, por exemplo, é idêntico à movimentação na capoeira. E a postura de defesa, com um joelho dobrado e outro esticado, é muito parecida com a “negativa” dos nossos capoeiristas. Como esses movimentos parecem existir somente em jogos de combate da diáspora dos povos bantos, permanece relevante o vínculo ancestral entre o n’golo e a capoeira brasileira.

O livro de 1972 foi publicado numa pequena edição caseira e circulou pouco na época. Mas as imagens do n’golo – muitas vezes circulando via fotocópia de fotocópia – ficaram famosas entre os capoeiristas. O estilo de capoeira angola, que chegou a ser considerado em extinção na década de 1970, experimentou um extraordinário crescimento depois da morte de Mestre Pastinha. Uma nova geração de capoeiristas “angoleiros”, liderados por Mestre Moraes e o Grupo de Capoeira Angola Pelourinho – GCAP, revigorou o estilo a partir de 1982. Alunos mais antigos de Pastinha, como os mestres João Pequeno e João Grande, lembravam ocasionalmente a história do n’golo, mas não de maneira categórica, como seria feito por Moraes e seu grupo. O GCAP escolheu a dança da zebra como símbolo do estilo, porque representava bem a ancestralidade angolana da sua arte e também ia ao encontro das afirmações do movimento negro sobre a importância da cultura africana na formação do Brasil.

A partir da década de 1990, o n’golo e as listras da zebra têm figurado nos logotipos e nos websites de muitos grupos de capoeiristas, assim como nas camisas e nos brindes distribuídos em seus eventos. Os detalhes fornecidos por Cascudo e os desenhos de Neves e Sousa, repetidos e reproduzidos inúmeras vezes,viraram referência obrigatória no meio. O n’golo acabou por transformar-se num mito de origem, numa “tradição ancestral”.

No entanto, trata-se de um mito no mínimo questionável. Para começar, não foi transmitido pelos mestres africanos aos seus alunos brasileiros via tradição oral. Aceitar literalmente o mito implica, além disso, um tremendo anacronismo, ou seja: como pode uma manifestação documentada apenas no século XX ser “a origem” de uma capoeira que existe pelo menos desde o início do século XIX? Pensar que o n’golo teria sobrevivido inalterado  desde a época do tráfico negreiro é ignorar as profundas mudanças pelas quais passaram as sociedades do território angolano nesse período.

Surpreende que hoje, em Angola, o n’golo seja completamente desconhecido, assim como seu papel como mito fundador da capoeira. Devido à longa guerra civil que vitimou o país e todas as transformações das últimas décadas, ninguém mais dança, por exemplo, o n’golo de tchincuane (tanga de couro), como foi retratado por Neves e Sousa meio século atrás. Talvez o mais correto seja imaginar o n’golo e as outras lutas e jogos de combate ainda existentes na Angola contemporânea como primos mais ou menos distantes da capoeira brasileira. Findo o tráfico negreiro, as técnicas de combate corporal que existiam dos dois lados do Atlântico teriam evoluído em direções diversas, o que explicaria não só suas semelhanças, mas também suas tremendas diferenças.

MATTHIAS RÖHRIG ASSUNÇÃO é professor de História na Universidade de Essex, Inglaterra, bolsista da CAPES em 2007 e autor de Capoeira. The history of an Afro-Brazilian martial art (Routledge, 2005).

COBRA MANSA (CINÉSIO FELICIANO PEÇANHA) é mestre de capoeira angola e criador da Fundação Internacional de Capoeira Angola (Fica).

 

Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional – http://www.revistadehistoria.com.br/

A Revista de História da Biblioteca Nacional e o seu site são publicações da Sociedade de Amigos da Biblioteca Nacional (Sabin), com apoio do Ministério da Cultura e patrocínio da Petrobras e outras grandes empresas, sob o amparo da Lei Rouanet.

O 13 Que a História não contou

Treze de maio de 1888 passou para a história do Brasil como o dia em que teria se acabado a escravidão em terras tupiniquins. Depois que a pena da princesa anunciou por decreto que não mais haveria jugo, a população negra a partir de então seria livre, não teria mais senhorio e poderia viver com dignidade e igualdade.
 
Assim a escola me ensinou, assim eu aprendi e assim acreditei durante longos anos da minha vida. É certo que nunca entendi bem porque a Princesa Isabel, “A Redentora”, decidira tomar tal atitude contrariando os interesses dos que detinham o poder e entrando em sintonia com os anseios da subjugada população negra, de alguns poetas, intelectuais e políticos sonhadores que se diziam abolicionistas. Pensava: foi uma verdadeira revolução sem sangue feita por uma mulher de coragem.
O que a escola nunca me ensinou foi que à época, os negócios do açúcar brasileiro, que era a  principal fonte de riqueza nacional e onde estava alocada aproximadamente 90% da mão-de-obra escrava, iam de mal a pior. O açúcar da América Central era mais barato, mais próximo dos grandes mercados e de melhor qualidade que o nosso. Não dava para competir. Infelizmente só aprendi a  “História da Conveniência”, e Geografia Física onde os aspectos políticos e econômicos “não eram” de nosso interesse.
 
O imenso contingente de escravos tornara-se então um fardo para os senhores de engenho. Como sustentar esta ”horda” de homens, mulheres e crianças, mesmo sob miseráveis condições, diante de tal crise econômica? Era a pergunta que não se calava e que teve apenas uma resposta: Demissão em massa. Sim amigos e amigas, a demissão em massa foi a solução encontrada para os trabalhadores e trabalhadoras forçados que edificaram e sustentavam  a economia nacional. E foi a maior, mais cruel de todos os tempos e quiçá de todas as partes do mundo.
 
Foi uma demissão sem direitos trabalhistas, quando milhões de trabalhadores saíram do único abrigo que conheceram por toda a vida apenas com seus míseros pertences e a roupa do corpo. E não tinham direito a ficar se quisessem. Só os mais aptos ao trabalho ou os que possuíssem alguma especialização foram mantidos como empregados, apenas pelo interesse do seu senhorio capitalista. Esta demissão teve um nome bonito: Lei Áurea.
 
Antes dela, porém, vieram outras da mesma forma convenientes aos interesses da classe dominante. Vejamos: A primeira foi a Lei Eusébio de Queirós, em 1850, que proibia o tráfico. Como a Inglaterra na prática já havia decidido interceptar e apreender os navios negreiros, libertando os escravizados, então, foi uma lei inócua.
 
A segunda, a Lei do Ventre Livre, 1871, serviu apenas para diminuir a pressão social dos abolicionistas. Ela não tinha aplicação prática, pois, como a criança pode ser livre com pais escravos? Será que ela, a criança, teria escola,  moradia digna e cidadania enquanto seus pais estavam nas senzalas? Ela, que ainda seria tutelada até a idade de 21 anos pelos senhores de seus pais, teria vida de cidadã ou de escrava?
 
A terceira, a Lei dos Sexagenários, 1885, foi a mais perversa de todas, pois a expectativa de vida do cidadão livre à época era de 60/ 65 anos e a do escravo 32/40 anos. Eram raros os que chegavam à idade contemplada pela lei. Era muito difícil ter o controle da idade exata do escravo. Ainda hoje não são poucas as pessoas que não possuem registro de nascimento. Então, se o negro estivesse apto ao trabalho, forte, com boa saúde, era fácil dizer que ele ainda não tivesse alcançado a idade prevista pela lei. Porém se ele estivesse doente ou imprestável para o trabalho, nada mais cômodo que conferir-lhe os 60 anos e mandá-lo embora.
 
Após a “libertação”, o imenso contingente “livre”, dentre os quais estavam os  fracos, doentes, velhos, crianças e outros “excedentes”, foi enxotado de uma hora para outra para o olho da rua. Não havia uma política agrária nem instrução pública e gratuita para os libertos, como defendia Joaquim Nabuco. Você já parou para refletir sobre as futuras condições de vida dos(as) que foram “libertados”? 
 
  • Onde iriam morar?
  • Como iriam sobreviver?
  • Iriam ser respeitados de uma hora para outra como cidadãos e cidadãs?
  • Que tipo de oportunidades a “sociedade” que eles construíram ofereceria para que esta gente construísse sua vida?
     
  
Não é preciso ser especialista em sociologia para responder a estas indagações. Mas onde foi parar esta gente escorraçada das ruas das cidades por “vadiagem”? Que não tinha trabalho para sustentar a si nem a sua eventual família, nem moradia digna? Foi parar na periferia das cidades, morando em casas(?) miseráveis, sem esgoto, luz, água tratada, lazer, trabalho, educação, saúde, dignidade… Onde permanece, em sua grande maioria, até os dias atuais. Alguma semelhança com a Rocinha, Alagados, Pela Porco, Buraco Quente, Vigário Geral, Jardim Felicidade, Vila Zumbi, não é mera coincidência.
 
Morros, favelas, invasões, palafitas; ícones da desigualdade social convivendo lado a lado com o progresso, o conforto, a saúde, o lazer, a educação, o trabalho, a vida digna. Morros, favelas, invasões, palafitas; locus do subemprego, da miséria, da violência, da informalidade, da contravenção, da exclusão, da fome, da morte em vida, da vida que finda a mingua, da injustiça social… Vergonha nacional.  Nova versão do antigo jugo escravocrata, quilombos urbanos do século XXI.
 
 
* Acúrsio Esteves é professor da Secretaria Municipal de Educação e Cultura, Faculdades Jorge Amado e FACDELTA, em Salvador, Bahia. É também autor do livro A “Capoeira” da Indústria do Entretenimento e de Pedagogia do Brincar em parceria com a professora Disalda Leite.
 
Contactos: (71) 9946-4743  /  (71) 3233-9255   –  
acursio1@gmail.com

Em busca da Ludicidade Perdida

 Após o pesadelo transatlântica, os que sobreviveram aos porões fétidos da civilização européia, no sentido literal, seguiram-se gritos solitários que se ouviu nas senzalas e nos terreiros banhados com o sangue inocente dos mártires, inconformados com uma vida pior que a dos animais…

Essa pode ter sido a gênese cruel. Mas a ressurreição de toda a humanidade acontecia, junto com os sinais da iluminação dos tempos: eclodiram revoluções no mundo dito civilizado, em nome da liberdade, da igualdade e da fraternidade…

Que era essa liberdade? Haveria lugar para essa metáfora burguesa em busca do seu lugar ao sol, enquanto uma raça inteira jazia sob os ferros da escravidão?

Que igualdade? Onde caberia esse discurso, se a massa dos excluídos se avolumava junto com as comunidades negras soterradas pela substituição da máquina-homem pela máquina-vapor?

Que fraternidade? Se as uniões que se forjaram se destinou, como na Guerra do Paraguay, a interromper um crescimento infiel de uma ex-colônia, numa covardia que usava o julgo capitalista inglês, por um lado e, por outro, milícias de capoeiras negros condenados com a promessa de um prêmio que nunca foi pago, ao lado de um mérito nunca resgatado na História?

Então, se somados todos os processos históricos das revoluções da era moderna, para os negros o resultado era sempre zero, o que fazer? Por onde assegurar que seriam preservadas as esferas de realização reprodutiva de sua cultura, de seus valores, de sua fé, de sua felicidade, enfim?

Era preciso uma revolução estratégica… Onde obter armas para fazer frente a tal caos? Tanques de guerra? Fuzis? Mosquetões? Talvez a conquista de uma legislação protetora, como a que existe hoje em dia para preservação dos animais?

Nada disso!

A Revolução teria que ser feita numa esfera inacessível aos não iniciados!

Ela teria que ser escrita no idioma oral das raízes afros.

Teria que poder ser praticada de forma velada e ao mesmo tempo por todos. Como isso seria possível?!

 

A REVOLUÇÃO SILENCIOSA(?) DO CORPO

 

Era isso. Os códigos teriam que ser passados através do único veículo de que dispunham os negros: o seu corpo! É lógico, o corpo possui todos os instrumentos necessários aos processos de informação cultural e revolucionária…

Mas, se fosse colocado em confronto em campo aberto, poderia o corpo ter alguma chance de resistir às pressões alienantes do dominador? Não. Era necessário que o processo deveria contar com um aliado estratégico, o elemento dissimulador… Onde buscá-lo?

Não era necessário, pois ele fazia parte do acervo natural da cultura afro, era encontrado em grande quantidade nos movimentos básicos do seu dia-a-dia; podia também ser localizado nas esferas simbólicas discretas de seus valores, produzidos a partir de uma consciência estética livre e na profundidade criativa da mãe-África, inscrita como o mais antigo legado da humanidade. Sim, era possível.

Era possível superar a dor do ferros cravados na carne mulata; possível também romper com o cerco legitimado dos senhores-donos-de-escravos, imperialistas ou republicanos, que empurrava para os porões dos valores, a cultura, a arte, a religião e a imaginação afro, a submissão aparente ao julgo dos valores ocidentais era parte da estratégia.

Ela era galgada na ironia, na aparente aceitação da realidade imutável dos fatos, e na manifesta demonstração da inocência primeva de quem não teria mesmo porque se sentir ou reagir de forma diferente: a manha, a sanha, os rituais religiosos – estes não liberados senão mediante um sincretismo negociado com a ordem dos valores vigentes, as heranças guardadas da Dança da Zebra; a Cujuinha, dança guerreira; a Uianga, dança dos caçadores; a Cuissamba, dança de julgamento e castigo; e outras bases culturais, como a dança do Batuque, os ritmos corporais dos rituais umbandísticos.

Aí estavam as fontes, as quais, misturadas aos recursos férteis da imaginação criativa e a frágil percepção da resistência por parte do dominador – subestimar o adversário representa cinqüenta por cento de derrota, segundo o critério da tradição oriental – juntando tudo isso na alquimia daquele momento em que o tédio branco era tão carente de dinâmica, estava pronto o contexto da gênese transcendental do elemento de resistência, composto da imaginação loquaz e renitente, da festa, do folguedo a qualquer tempo e da capacidade de surpreender os desavisados e os espíritos desarmados dos dominadores, pois de muito gorda a porca já não anda, de muito usada a faca já não corta!.

Construídos os fundamentos da resistência, era importante praticá-los, explorá-los, aperfeiçoá-los, expandi-los!

A jornada da resistência era longa e não adiantava a pressa…

A pressa era dos dominadores, através de conclusões precipitadas dos movimentos, dos jogos e dos folguedos…

A melhor forma era a ironia, aperfeiçoada em insolência, indiferença à força bruta, uma brincadeira desautorizada na frente do opressor.

 

BOM HUMOR: A REVOLUÇÃO DA FELICIDADE

 

Essa a História-síntese da arma maior da revolução negra: a capacidade de superar o horror e a tragédia a partir da manutenção de um estado de resistência lúdica, que transformava cada momento de lazer no resgate do direito à felicidade, com o corpo-arma escrever os sinais da superação da opressão e avançar na História, preservando, junto com a força cultural e do espírito guerreiro, a capacidade entusiástica do estado de espírito festivo, construtivo, combativo e fiel à luta pela alegria e pela dignidade a um só tempo, como se isso fosse parte de um todo indivisível!

Poderíamos nos alongar indefinidamente nas possibilidades desse insight, através do qual pretendemos remontar uma visão Histórica da construção da ludicidade dentro da revolução negra afro-brasileira, ao tempo que inscrita tal sanha nos signos gestuais e nos símbolos revolucionários das reconstruções de identidade étnica transportadas pela miscigenação cultural brasileira, hoje praticamente controlada pelos donos do mercado, o qual vende a alegria em cenas sensuais extraídas das páginas mal contadas da memória corporal dos africanos, legados sem restrição ao acervo dos ritmos e ritos afro-brasileiros.

Os efeitos dessa terapia vai muito além dos limites sensoriais, hoje encenadas nas citadas explorações erotizantes, perdido o elo revolucionário de sua gênese, subutilizado o seu potencial no maciço mercado sensual e abandonada a sua aplicação no talvez mais importante terreno fértil de sua potencialidade: a libertação das angústias, dos medos, dos traumas, dos centros somáticos de resistência corporal (vide Freire, R. in), além da ruptura com os processos competitivos, dissimilados em jogos simbólicos e solidários. A Arma é o Corpo

Portanto, é necessário resgatá-lo, tal espírito, tão forte sua importância no jogo da capoeira. Tão grande sua influência nos resultados de cada etapa do aprendizado, em cada possibilidade de superação das barreiras competitivas. Tornar o jogo um instrumento de subversão do resultado e da competição, tudo isso é parte da ludicidade, hoje banida das práticas, pois quem ensina parece não conhecer a ausência da regra que a torna possível. Nossas regras parecem ser, ao contrário, avanços na direção oposta da liberação que a liberdade permite.

A alquimia da música e do ritmo, por outro lado, parece ter se perdido, após uma atualização modernizante de uma melodia de alto impacto, que inviabiliza um resultado harmônico corporal, mesmo no solo, quanto menos, num diálogo entre dois corpos equipados com o arquivo-arma traduzido para o nosso idioma remixado da cultura latino-americana/afro-brasileira.

O desafio maior da capoeira na escola é desvendar esse mistério e recuperar o lúdico nos escombros soterrados de nossa Étno-História não contada, após o que, talvez possa reescrever a felicidade e a solidariedade, como uma revolução urbana de paz e de consciência crítica e libertária!
 

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