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Nota de Falecimento: Mestre Negão

Domingo, dia 29 de agosto, partiu para outro plano o querido Mestre Marcio Alexandre Sebastião, mais conhecido como mestre Negão.

Foi um dos precursores da capoeira e Dança Afro em BH/MG.

Fica aqui nossa homenagem a este senhor que nos ensinou a ter garra, fé e alegria na vida, apesar dos obstáculos.

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Nota de Falecimento: Mestre Docinho

Transcrevo,  com tristeza, notícia da morte do amigo Mestre Docinho (Eudóxio Leunir Matos Santos Barbosa), um dos grandes baluartes da organização desportiva da Capoeira no Estado do Pará.
 
Foi professor de Capoeira durante alguns meses no Grupo Rei Zumbi de Capoeira, em  1989, no antigo DEFID, hoje DEAFI, aqui em Belém do Pará.
 
Faço minhas as palavras de despedida do meu amigo Mestre Ferro do Pé: 
 
“Bom dia Mestre Fernando,
É com tristeza (porém tenho multiplicar esta informação), que informo o falecimento de modo súbito, vítimado por ataque cardíaco, do Mestre Docinho no último domingo dia 29.03.2009, sendo que o sepultamento ocorreu no dia 30.03.2009 às 11:00h no cemitério parque das palmeiras em Marituba – Pa.
 
Momentanêamente o Berimbau se cala e o atabaque não ecoa o seu toque, mas, a alegria não pode morrer.   A vida segue seu curso apesar da dor e do lamento,  o toque de Iúna dará lugar a outros toques mais festivos e a irreverência as controvérsias e os saberes do Mestre Docinho embalararão conversas e contos, e a lembrança não morrerá jamais.
 
Axé e crescimento espiritual ao Mestre Docinho.”
 
Ferro do Pé.

Banda Terreiro de Capoeira lança CD instrumental de Capoeira

Uma fina e harmonica simbiose entre a musica instrumental e a ímpar sonoridade da capoeira, é assim que defino o trabalho de qualidade da Banda Terreiro de Capoeira.
 
Ouvi e gostei muito! Uma demosntração da potencialidade e da criatividade dos músicos-artistas-capoeiristas da escola de Mestre Cascavel.
 
Luciano Milani
A banda "Terreiro de Capoeira" nasceu da vivência musical dos seus integrantes na comunidade do Terreiro de Capoeira do Mestre Cascavel. A banda tem na sua formação base Cascavel, Guerreiro, Lince, Macaco, Flora e Kaká.
 
Mestre Cascavel é "filho" do mestre Sabu, pioneiro na prática e ensino da Capoeira em Goiás. Mestre Sabu – que vive em Goiânia – é "filho" do mestre Caiçara (falecido em 1987), mestre-capoeira responsável por uma das escolas tradicionais da capoeira da Bahia no século XX.
 
Banda Terreiro de Capoeira lança CD instrumental de CapoeiraO trabalho musical do grupo começou com oficinas e aulas de música (sem fins lucrativos, com ênfase nos instrumentos e ritmos da Capoeira) destinadas a crianças e adolescentes. 
Essas atividades incluíam conhecimentos sobre o plantio das espécies necessárias para a confecção dos instrumentos afro-brasileiros – tais como biribas (para os arcos dos berimbaus), cabaças (empregadas nos afôxés e berimbaus), junco (usado no caxixi), contas de lágrimas (para compor caxixis e chocalhos), bambus (para a fabricação de reco-recos e varetas para tocar os berimbaus), cocos (para a confecção das marácas).
 
Os componentes da banda se revezam na percussão: agogô, adjá, afôxé, pandeiro, ganzá, reco-reco – pesquisando e experimentando sons, ritmos e melodias. As músicas nascem da reunião de amigos que se divertem fazendo um som (que se pretende agradável aos ouvidos de quem curte sentir o tempo passar). A integração desses elementos com a força dos ritmos e melodias tem como resultado final a música … e fácil de ouvir.
 
A proposta do grupo é fazer música de qualidade com produção e distribuição independentes. Neste sentido, gostaríamos de contar com o apoio do Portal Capoeira, disponibilizando para download algumas faixas do cd Berimbau de Ouro em arquivos no formato MP3.
 
O CD "Berimbau de Ouro" contém 10 faixas inspiradas em ritmos e tendências afro-brasileiros e latino-americanos: "Sabu Meu Mestre" "Axé Capoeira" e "Suassuna" são composições do Cascavel; "Hora de Lutar" é uma parceria de Cascavel e José de Souza Melo, o “Ás de Ouro”, também “filho” do Mestre Sabu. "Caiçara" é uma composição do Mestre Cascavel sobre temas tradicionais da capoeira. "A morte do Capoeira" – melodia do folclore da capoeira recolhida no recôncavo baiano pela professora Emilia Biancardi Ferreira na década de 60 – já teve versões de sucesso gravadas pelo Mestre Suassuna e pelo Mestre Onias.
 
A "Iuna" e o "São Bento do Mestre Bimba" são “toques” tradicionais (padrões ritmo-melodicos, cada um deles associado a um tipo de jogo com características próprias).
O "São Bento do Mestre Bimba" é um toque criado pelo mestre Bimba especialmente para um tipo de jogo rápido e ofensivo – que se tornou também a principal característica do estilo de capoeira criado por esse mestre que dirigiu uma escola de capoeira que se tornou conhecida em todo o mundo.
A "Cavalaria" é um toque de “aviso”. No passado os cultos e as danças dos terreiros de candomblé eram proibidos e sofriam perseguições policiais rigorosas. Na Bahia, até a década de 30, os esquadrões de cavalaria eram a força policial encarregada da repressão às manifestações da cultura negra – e a capoeira oferecia a reação possível. Este toque – também chamado de
"Aviso" – entrou para a história da Capoeira com o nome de Cavalaria. O "Samba de Angola" é o ritmo que simboliza a descontração dos câmaras do Terreiro nas rodas de samba.
 
O Cd Berimbau de Ouro pode ser adquirido  (R$11+correios)
pelo e-mail: terreirodecapoeira@hotmail.com
 
Obrigado pela atenção!
Professor Guerreiro
 
Saudações!
 
Gostaríamos de contar com a sua ajuda divulgando o nosso CD de música instrumental – "Berimbau de Ouro" – inspirado nos toques e temas da Capoeira.

Fundação AlphaVille promove batizado de capoeira do grupo Renascer

Capoeira pode ser luta, dança, esporte, jogo, defesa pessoal, ginástica, folclore, arte, educação física, brincadeira, arte marcial, dentre outras definições. Berimbau, pandeiro, atabaque, reco-reco, agogô são os instrumentos usados para ritmar este bailado que era praticado, escondido, nas senzalas como uma brincadeira de Angola, e atualmente é uma manifestação da cultura brasileira, uma forma bonita e alegre de expressão física e intelectual. A capoeira é também fator de transformação social e isto será comprovado, amanhã, 24 de fevereiro, às 18h00, no Centro de Referência Sócio Ambiental e Cultural Cuiabano da Fundação AlphaVille, braço social da AlphaVille Urbanismo. 
     
Num clima de alegria a comunidade assistirá o primeiro batizado da turma de capoeira do bairro Renascer. O grupo foi formado no ano passado para atender uma das reivindicações da população da região, durante o Fórum de Desenvolvimento Local realizado pela Fundação AlphaVille. 
     
Miriam Sewo, agente de Desenvolvimento do Centro de Referência Sócio Ambiental e Cultural Cuiabano, disse que o grupo foi formado em novembro do ano passado e conta com 20 integrantes entre adultos, jovens e crianças. “A capoeira foi muito bem aceita por todos no bairro. Neste curto período de atuação, já percebemos mudanças positivas nas atitudes dos integrantes, mais comprometimento, respeito e integração”, ressalta. 
     
O batizado de capoeira é uma festa de integração do calouro, é sua estréia na roda de capoeira. Durante o batizado do grupo Renascer os alunos jogarão com o mestre de Mirassol do Oeste, Valmir Salustiano – Jacaré, e o professor José Sidney Gonçalves de Oliveira que irão “batizá-los”, com a faixa da primeira graduação.
     
      Toques & instrumentos 
     
O toque dos instrumentos comanda o ritmo e as características do jogo. Entretanto, nem todos os toques que dizem ser da capoeira são utilizados nas rodas com jogos específicos para eles. Os toques têm uma característica interessante. Muitos deles têm nomes de santos católicos, como é caso do São Bento Pequeno, São Bento Grande, Santa Maria e Ave Maria. 
     
O Berimbau, instrumento africano, é o principal utilizado na capoeira, dita o ritmo do jogo, é ele que comanda o toque a ser executado. O pandeiro é uma evolução do adufe, um instrumento de proveniência mourisca e de termo árabe, e chegou no Brasil através dos portugueses. O Atabaque, é instrumento oriental muito antigo entre os persas e árabes, já era usado na poética medieval e era um dos preferidos dos reis, que o utilizavam em festas, jograis e nos conjuntos musicais. 
      
O Reco-Reco é feito de gomo de bambu com sulcos transversais sobre o qual se passeia uma haste. Existe um outro Reco- Reco, industrializado, de metal, mas seu som não serve para a capoeira. O Agogô é instrumento musical de percussão de ferro, entrou no Brasil por via africana. É bastante utilizado nos folguedos populares, no samba e nas cerimônias religiosas. 
     
A música também é um importante ingrediente numa roda, estimula os jogadores, agita o público e transmite mensagens através de suas letras. A capoeira é a única luta do mundo que tem acompanhamento musical. Atualmente os capoeiristas estão cada vez mais criativos. Na disputa de um novo mercado, o das gravações de CDs, muitas músicas têm surgido com temas bastante variados.

MÚSICA

Na prática da capoeira, por ser esta regida pelo ritmo da sua orquestra de modo similar ao candomblé, adquirem papel primordial as características dos vários toque executados, bem como o acompanhamento do coro e compasso de palmas pelo conjunto de jogadores e dos assistentes.

Os mais lentos, calmos, são os preferidos pelos angoleiros, mais apegados às tradições africanas e aos aspectos lúdicos da capoeira, considerada principalmente como um jogo de habilidades, coreografia e técnica, enquanto os regionais são mais afeitos aos toques mais rápidos que acentuam a belicosidade inerente ao conceito de luta, objetivo final desta última modalidade.

Os principais toque no estilo ‘Regional’ são: Hino, Cavalaria, Santa Maria, São Bento Grande, São Bento Pequeno, Banguela, Idalina, Santa Maria, Amazonas, Banguelinha, Iuna.

É indispensável acentuar que cada mestre impõe aos toques o seu cunho pessoal, sem contudo descaracteriza-los, devido às influências da personalidade de cada qual, ao tom de voz e da afinação do instrumento-rei (o berimbau).

A IMPORTÂNCIA DO TRANSE CAPOEIRANO NO JOGO DE CAPOEIRA DA BAHIA

CONSIDERAÇÕES GERAIS

Há muitos anos, cerca de 40, venho comparando o comportamento dos capoeiristas durante o jogo de capoeira da Bahia e suas atividades habituais.
O convívio com os praticantes das artes marciais orientais, do espiritismo, do candomblé; o estudo do hipnotismo, do ioga, da parapsicologia, da fisiopatologia do sono, dos estados modificados de consciência e a prática da meditação nos permitiram analisar o comportamento e o potencial do ser humano em diversas estágios de consciência.
Os registros históricos, científicos e religiosos de condições de bilocação, teletransporte, telecinesia, materializações e desmaterializações, bem como os estudos de física subatômica, nos vem atraindo a atenção para o efeito dos sons e dos ritmos sonoros sobre os níveis e estados de consciência, bem como a correspondência entre os mesmos e as manifestações motora e comportamentais daqueles sob a sua influência.
É notória a influência da música sobre o estado de humor das pessoas, basta lembrar a tristeza do toque de silêncio, a ternura da Ave-Maria, a agitação do Olodum e dos trios elétricos, os movimentos suaves do balé no "Lago do Cisne".
É evidente que os movimentos induzido pelo "reagge" são diferentes daqueles do samba, da valsa, do cancã ou do foxblue. Sem falar da marcha forçada sob o rufar dos tambores; da tranqüilidade do silêncio; da irritação pelos ruídos; do pânico ao bramir dos elefantes, do rugir do tigre, do estrondo das trovoadas; da sensação de bem estar e conforto trazida pelo ruflar da brisa suave na folhas…
A cultura africana encontramos o uso de música, ritmo e cânticos como gerenciadores, coordenadores, estimuladores de atividades comunitárias como pesca, caça, plantio, etc.
O candomblé oferece-nos uma variedade de toques de atabaques, com diversos ritmos e andamentos, capazes de desencadearem manifestações motoras padronizadas sob categorias de orixás.
É conveniente estudar as associações de toques, ritmos e andamentos com os padrões de comportamentos dos orixás e personalidades dos "filhos de santo" para melhor entendermos a influência dos toques, ritmos e andamentos nos desenvolvimento do jogo de capoeira, consoante a variedade de temperamentos e personalidades dos capoeiristas.
O exame das fotografias de Pierre Fatumbi Verger, de cenas de candomblé colhidas na África, documenta a identidade daqueles movimentos durante o transe dos orixás, que manifestam a atividade gerada pelos toques e ritmos musicais do candomblé e destes da capoeira.
É conveniente lembrar a associação dos estados de humor com as expressões faciais e posturas do corpo para compreendermos melhor as repercussões das modificações de estado de consciência e as manifestações motoras conseqüentes.
Todos reconhecemos os ombros caídos do desânimo, o olhar de tristeza, a vivacidade dos movimentos de alegria, a expressão corporal do animal prestes a atacar, etc.
Quantos outros quadros poderíamos citar?
Portanto, se a música pode alterar o estado de ânimo e as suas manifestações motoras estáticas e dinâmicas, forçosamente teremos que concluir que o andamento, ritmo, palmas e cantos também modificam o comportamento dos capoeiristas durante o jogo.

INFLUÊNCIA DO ARQUÉTIPO COMPORTAMENTAL

Ante um mesmo toque, ritmo e andamento, os diversos arquétipos manifestam sua identidade de modo particular, especifico para cada entidade comportamental (com nuanças especiais, intrínsecas a cada ser e cada momento histórico) de modo que o comportamento é praticamente imprevisível a cada instante, porém com um fluxo natural, espontâneo, ingênito, inato… instintivo como dizia Bimba.
Assim é o próprio Bimba conhecia o fato e afirmava "é o jeitcho dêle", permitindo que cada um jogasse capoeira com suas características pessoais.
Fato muito notório em certos capoeiristas de movimentos muito lentos, porém dotados de grande mobilidade articular e elasticidade, como Prof. Hélio Ramos, "Cascavel," Eziquiel "Jiquié", "Caveirinha", entre tantos. Assim é que "Atenilo" (jocosamente conhecido como "Relâmpago") um dos mais antigos dos alunos do Mestre, jamais modificou seu estilo tardo, lerdo, ingênuo, de praticar a capoeira.
Entretanto, ainda hoje não consigo reconhecer ou identificar os vários arquétipos de capoeiristas, mas posso perceber de modo vago, as semelhanças que se repetem independentemente de mestres, momento histórico e localização geográfica.
Assim é que venho detectando similitude do que chamamos de "jogo" (estilo pessoal, jeito particular de jogar) em alunos de diferentes mestres e em regiões diferentes, i.e., encontrando "jogos" parecidos com alguns dos companheiros de meus tempos antigos em locais diversos, como em Natal/RN, Goiânia/GO, etc.
Fato mais surpreendente foi ver, recentemente, na Academia de Mestre João Pequeno de Pastinha, aparecer um rapaz, cujo nome e mestre não consegui identificar, cerca de 17 anos, negro, alto, longilíneo; pescoço fino, elástico e forte; com um jogo incrivelmente semelhante ao do meu Mestre (Bimba), a ponto de me sugerir a sua reincarnação.

TOQUES PACÍFICOS E TOQUES DE GUERRA

Os vários toques, ritmos, andamentos e cânticos de candomblé associam-se a modificações de estados de consciência (transe de orixás) específicos de cada arquétipo. Sendo o estado de transe provocado pela adequação, sinergia, sintonia, harmonia, da música com o arquétipo (sensibilidade do ente sob seu campo energético ou vibratório).
Assim é que uma pessoa, sujeita aos diversos tipos de vibrações orfeônicas em campo sonoro desta natureza, poderá permanecer indiferente a vários padrões orfeônicos ou exteriorizar sua sensibilidade por manifestações motoras ou psicológicas em algum momento ou padrão, com o qual seu arquétipo se harmonize.
Consoante o tipo sonoro, pacífico, belicoso, calmo, agitado, lento, vivo, moderado, rápido, a entidade em sinergia manifestará sua sintonia por movimentos calmos, majestosos, vivos, violentos, guerreiros, etc.
Dentre os toques calmos destaca-se o ijexá, pela paz, alegria, felicidade e requebro a que se associa, razão pela qual permite os movimentos do samba de roda, do afoxé, batuque e capoeira.
A importância atribuída pelo nosso Mestre ao toque era tal que o compelia a usar apenas a musica do berimbau (tocado pelo próprio), sem pandeiro, para que os aprendizes fixassem o ritmo-melodia em toda sua plenitude. A exclusão de todo e qualquer outro instrumento que não berimbau e pandeiro da orquestra também decorria desta premissa.
Freqüentemente, quando os alunos jogavam com muito açodamento e velocidade durante um toque de "banguela" o Mestre resmungava:

"Tô disperdiçandu minha banguela!
"Só merecem mesmu a cavalaria!"
E…
"virava" para o toque mais duro e bruto da "regional"…
impiedosamente mais adequado para os embrutecidos…
insensíveis e afobados.

O CAMPO ENERGÉTICO
DA ORQUESTRA, CANTO, PALMAS E JOGO

O capoeirista, como todos os demais participantes duma roda de capoeira, está encerrado num campo energético, com o qual interage e portanto sujeito a todos os seus fatores em atividade
Reflete, portanto, não só seu estado pessoal, porém aquele do complexo energético da roda, sofrendo a influência de todo o conjunto.
Toda a excitação ambiental envolve os jogadores e transtorna a condução do espetáculo, o qual poderá evoluir para um circo romano em toda sua barbárie.
Razão pela qual, a assistência do jogo da capoeira, antigamente, nas festas de largo, assistia silenciosa e respeitadora, como numa cerimonia religiosa, o desenrolar do jogo de capoeira, procurando guardar os detalhes de cada um dos lances à procura da descoberta do mais habilidoso, elegante, malicioso, inteligente, destro dentre os participantes.
O silêncio e a paz ambiental propiciam a melhor percepção da mensagem orfeônica, o desenvolvimento do transe capoeirano e portanto, o desenrolar do jogo.
As palmas, introduzidas pelo Mestre Bimba para enfatizar a participação da assistência e esquentar o ritmo, alcançam atualmente intensidade tal, que não mais permitem ouvir o toque do berimbau e muitas vezes, sequer os cânticos, desnaturando a capoeira no seu ponto mais nobre, a musicalidade, fonte do transe, ponto capital do jogo.
O atabaque, formalmente condenado pelo Mestre Bimba, durante todo o tempo em que acompanhei a sua rota, foi introduzido pelo Mestre Pastinha e ulteriormente usado pelos grupos folclóricos, a partir de Camisa Roxa, Acordeom, Itapoan, etc. para enfatizar a "africanidade" original. Tocado por quem de direito, suave e discretamente, como pelas orquestras de Mestre Pastinha e seus descendentes; conhecedores dos arcanos, fundamentos, segredos musicais africanos, marca o andamento e acompanha o toque do berimbau, instrumento-rei da capoeira, ao qual deve acompanhar e jamais suplantar, obscurecer.
Em mão desabilitadas, como ocorre na rodas da chamada regional atual, torna-se arauto de ritmo guerreiro e acarretam um transe violento, que vem matando, ferindo, lesando impiedosamente os seus praticantes, desde que provoca um transe agressivo, belicosos, guerreiro, desenfreado e deve portanto ser proscrito em nome da legitimidade da capoeira e da segurança dos seus praticantes.
O agogô e o , são excelentes marcadores de compasso, indispensáveis nas orquestras de candomblé, embora não aceitos pelo Bimba, talvez por terem sido introduzidos por Pastinha, enriquecem as charangas dos seguidores do estilo de Mestre Pastinha e ajudam (e muito!) a manter a constância do andamento do toque.
O reco-reco, também introduzido pelo Mestre Pastinha, nos parece inócuo, sem maior expressão musical, dispensável, salvo para manter a tradição do estilo.
Aviola, hoje em desuso, de ausência lamentada pelo Mestre Pastinha em seus manuscritos, também encontrada no samba de roda, nos indica a origem comum da capoeira e do samba, como indicamos em nossos escritos sobre a família musical áfrico-brasileira.
Opandeiro, com redução dos guizos com recomendado pelo Mestre Bimba, marca o compasso e mantém a constância do andamento quando em mãos habilitadas. É comum no entanto que os mais afoitos (ou despreparados?) acelerem o ritmo ou se afastem do toque do berimbau, desde que não havendo treinamento adequado (ensaio) como fazem os descendentes de Mestre Pastinha ou responsável pela direção da orquestra ou charanga (fiscal no dizer de Mestre Pastinha) é comum alguém se apropriar indevidamente do manuseio deste instrumento.
Mestre Bimba dizia que "O pandeiro é o atabaque do capoeirista".
Oberimbau é o instrumento-rei da capoeira, vez que somente o seu aparecimento na rodas de capoeira (antigamente citadas apenas como " capoeira" pelo próprio Mestre Pastinha, algumas vezes referidas como "capoeira de Fulano de Tal") é que marca o surgimento da capoeira como a reconhecemos atualmente, a capoeira da Bahia, seja o estilo "angola" seja o "regional".
Torna-se portanto, indispensável ao bom desenvolvimento do jogo que seu toque predomine no ambiente, mantendo a uniformidade do ritmo e o entrosamento entre os parceiros duma "volta" ou "jogo", sem o qual fatalmente existirão os desencontros e a violência.

TEXTOS CORRELATOS

ESTADO DE CONSCIÊNCIA MODIFICADO (TRANSE CAPOEIRANO)

 Sob a influência do campo energético desenvolvido pelo ritmo-melodia ijexá e pelo ritual da capoeira, o seu praticante alcança um estado modificado de consciência em que o SER se comporta como parte integrante do conjunto harmonioso em se encontra inserido naquele momento.
 O capoeirista deixando de perceber a si mesmo como individualidade consciente, fusionando-se ao ambiente em que se desenvolve o jogo de capoeira. Passando a agir como parte integrante do quadro ambiental em desenvolvimento. Procedendo como se conhecesse ou apercebesse simultaneamente passado, presente e futuro (tudo que ocorreu, ocorre e ocorrerá a seguir) e se ajustando natural, insensível e instantaneamente ao processo atual.
Decanio Filho, A. A. – in Fundamentos da capoeira (texto publicado em Capoeira da Bahia Online para download). 

BERIMBAU – A LIGAÇÏ ENTRE O MANIFESTO E O INVISÍVEL

O capoeirista para jogar capoeira não precisa de conhecer a história e a técnica da capoeira, por que o ritmo/melodia põe o ouvinte diretamente em sintonia com a "capoeira" abstrata, que abrange a fonte etérea dos movimentos, os paradigmas de jogos, os arquétipos de capoeiristas e talvez com a própria "tradição". Por este motivo, poderemos aprender por ver, ouvir e dançar… como "Totônio de Maré" o fez no cais do porto de Salvador/BA.
"Itapoan" perguntou a "Maré" como aprendera capoeira e este respondeu:

"Vendo os outros jogarem. Gostei, entrei na roda e joguei!"

Conforme assisti em gravação VHS do acervo do Mestre Itapoan, em casa do mesmo.
E "Vovô Capoeira" fez o mesmo, aos 84 anos de idade, na roda de Mestre Canelão em Natal/RN.
Assim é que, aos poucos a conjugação da música com os movimentos relaxados vai orientando o capoeirista no caminho do transe que o conduzirá diretamente à fonte da capoeira, na face invisível da realidade, que não depende dos sentidos corpóreos.

COMPORTAMENTO HUMANO, VIBRAÇÃO SONORA E RITMO.

Em Ioga percebemos a importância dos mantras…
os gregos antigos atribuíram ao Logos o poder de organizar o Caos…
no Gênesis aprendemos a força do Verbo capaz de criar o Universo e a Vida…
… na África Antiga não foi diferente!

Os africanos ao divinizarem os seus ancestrais e cultua-los com ritmos e toques diferentes vinculados ou representativos de seus comportamentos, descobriram categorias fundamentais subjacentes ao nível de consciência, independentes de culturas e religiões, os arquétipos humanos, que denominaram de orixás.
O "SER" exposto às vibrações sonoras ritmadas oriundas dos atabaques entra em harmonia com as mesmas e passa a manifestar em movimentos rituais a sua consonância.
Tudo se passa como se o conteúdo musical dos toques de candomblé fosse aprofundando o nível vibracional do sistema nervoso central, especialmente do cérebro (tido como sede da consciência) e alcançando os níveis correspondentes ao arquétipo individual. Chegando a toldar a consciência e levando a um estado transicional em que o "SER" passa a manifestar, em movimentos rituais involuntários, atributos do arquétipo, através circuitos de reverberação medulo-espinhais como que gravados geneticamente na estrutura do seu sistema nervoso central.
Não é indispensável o conhecimento da doutrina e ritual do candomblé, bem como de componente genético africano para a sintonia com o ritmo do orixá correspondente, vez que já assistimos à chamada "incorporação" de entidades africanas em europeus em primeiro contacto com "exibição" de música de candomblé, portanto, fora do contexto religioso. Durante o tempo em que funcionei como "apresentador" do "show folclórico" de Mestre Bimba observei que alguns assistentes entravam em consonância ou harmonia com um determinado toque, não se deixando influenciar por outros, o que atribuí à correspondência orgânica ao arquétipo daquela pessoa, ao modo de categoria de comportamento em nível subconsciente.
Na capoeira, o ritmo ijexá, especialmente tocado pelo berimbau, conduz o ser humano a um nível vibratório, dos sistemas neuro-endócrino e motor, capaz de manifestar, de modo espontâneo e natural, padrões de comportamento representativos da personalidade de cada Ser em toda sua plenitude neuro-psico-cultural, integrando componentes genéticos, anatômicos, fisiológicos, culturais e experiências vivenciadas anteriormente, quiçá inclusive no momento.
Todos os capoeiristas conhecem o transe capoeirano, embora nem todos disto se apercebam, um estado de extrema euforia, e de integração ou acoplamento a outra ou outras personalidades participantes do mesmo evento, conduzindo a execução de atos acima da capacidade considerada como ‘normal".
Trata-se dum estado transitório, em que não há perda total de consciência, porém existe uma liberação de movimentos reflexos, exaltação do potencial e ampliação do campo de influência vital de cada "SER".
É interessante registrar que em outros membros da "família cultural da capoeira" (samba de roda, maculelê, afoxé, frevo, entre outros) encontramos estados transicionais assemelhados, em que os personagens ultrapassam suas limitações "normais". De outro modo não assistiríamos a idosos desfilando em "escola de samba" ou saracoteando em frevo…
Assim cada capoeirista desenvolve um estilo pessoal, representativo do seu "EU", manifestado de maneira imprevisível a cada jogo e a cada instante de cada jogo.
Consoante o arquétipo de cada praticante ou mestre, o momento histórico vivenciado, o contexto em que está se desenvolvendo, a capoeira pode assumir aspectos multifários, lúdicos, coreográficos, esportivos, competitivos, belicosos, educativos, corretivos, terapêuticos, etc.
Do mesmo modo e pelos mesmos motivos, cada tocador de berimbau manifesta a sua personalidade na afinação do instrumento, ritmo, andamento musical, impostação vocal e conteúdo do cântico.
Razões semelhantes criam a identidade de cada roda, a multiplicidade de estilos e impõe a alegria e a liberdade de criação como fundamentos da capoeira.
Por ser a própria Liberdade e a Felicidade de cada "SER" a capoeira não cabe, não pode ser enclausurada, em regulamentos e conceitos estanques, nem prisioneira de interesses mesquinhos, comerciais ou de outra natureza.
A capoeira oferece um gama infinito de representações motoras , comportamentais e musicais; de aplicações terapêuticas, pedagógicas, marciais e esportivas; além do aperfeiçoamento físico, mental e comportamental de cada praticante.
Cada um de nós cria uma capoeira pessoal, transitória e mutável, evolutiva, processual, como todos os valores humanos e poderá ser imitada, jamais reproduzida em clones, como produto industrial de fôrma, idêntico em todos detalhes.
É interessante o estudo do simbolismo dos constituintes da personalidade humana na arte iorubana que indica no mínimo a noção de níveis de consciência, pois entre os povos iorubanos a consciência (personalidade exterior) é representada pela coroa (ile ori), enquanto a personalidade íntima (ori inu) correspondente ao (subconsciente+inconsciente) é simbolizado pelo ibori, uma pequenasaliência no ponto mais alto da coroa.
Angelo A. Decanio Filhoo – Falando em capoeira, Coleção S. Salomão, CEPAC, Salvador/BA, pg: 51

QUE É BARRAVENTO?

Em atenção ao e-mail de Claudio A. Sampaio Filho (sampaio@intercientifica.com.br)

Caro Mestre Decânio,
Obrigado pela orientação, já entrei em contato com o Mestre Itapoan.
Estava eu conversando com meu Mestre sobre a satisfação de ter me comunicado com V.Sas, via E-mail, quando ele me pediu para perguntar a V.Sas, uma dúvida que ele não conseguiu esclarecer até hoje com nenhum outro mestre.
Qual é o Toque de Barra-vento e em qual tipo de Jogo deve ser tocado ???
Mestre Pastinha se referiu a esse tipo de toque algumas vezes, nas músicas que cantava. Obrigado desde já, e se caso necessitar de algo aqui de São José dos Campos não deixe de me comunicar.
Sei que o Mestre Esdras é um dos membros do CEPAC, meu Mestre, Teófilo dos Santos, esta sempre em contato com ele.
Cláudio.

Se persistirem as dúvidas
Continue perguntando
Meditando sobre as respostas que for obtendo
Até que um dia
O Deus que habita o coração de cada um de nós
Subitamente lhe mostre
o caminho, a verdade e a luz que nos guia!

RESPOSTA… ?… !…

Inicialmente devo fazer alguns reparos à pergunta "Qual é o Toque de Barra-vento"… Qual é o toque só pode ser respondido com o berimbau… pelo que me limitarei a responder o que é o toque…
A seguir peço permissão para discutir um pouco a expressão " em qual tipo de Jogodeve ser tocado ???".
A música provoca u’a modificação do estado d’alma dos ouvintes, basta ouvir o toque de silêncio do corneteiro nas caladas da noite… a "Ave Maria" no obscurecer do crepúsculo… o ruflar dos tambores nu’a marcha forçada… o adarrum num terreiro de candomblé… a doçura dum ijexá durante o desfile de afoxé… o saracotear dum frevo… o balanço dum reggae.. o suave violão do Doryval Caimmi cantando a doçura do morrer no mar…. a negritude da Lagoa do Abaeté… ou o grito plangente da negra do acarajé marcando as "dez horas da noite"!
Assim podemos entender que o atabaque conduza o ser humano ao transe do orixá, que nada mais é que um estado modificado de consciência em que se manifesta a dinâmica do nosso corpo quando liberado dos padrões superficiais de comportamento impostos pela cultura em que crescemos e vivemos.
De modo similar o toque de berimbau conduz o praticante ao transe da capoeira, estado modificado de consciência em que o particante, livre os padrões de comportamento sociais, manifesta lvremente a sua resposta ao ritmo-melodia diretamente ligado ao íntimo de sua estrutura biológica, isto é, os fundamentos anatômicos e funcionais dos sistema nervoso e endócrino.
Não é o "tipo que jogo" que exige o toque, e sim, o "toque" através o ritmo, a melodia e o andamento, associados ao movimentos rituais e ao código de parceria, que induz o jogador de capoeira a um determinado comportamento motor. Por exemplo o "jogo de dentro", sob os toques de Banguelinha, Banguela e/ou São Bento Pequeno, é usado para a simulação duma com arma branca (faca, facão, punhal, navalha…), dentro das regras do jogo (ritual) dado brandura e lentidão do toque, o qual gera movimentos controlados e permite esquivas seguras, garantindo-se assim a integridade física dos parceiros.
Enquanto o toque de "Cavalaria", rápido e quente, acarreta um jogo rápido e mais violento.
Posto o que, podemos considerar o conceito e a definição de "barravento".

No "Dicionário Aurélio", encontramos:
Verbete: barravento S. m. 1. Bras. Toque predileto de Xangô, nos candomblés bantos. 2. Bras., BA. Ansiedade que domina a filha-de-santo antes da chegada do orixá.
Verbete: barlavento S. m. Mar. 1. Direção de onde sopra o vento. 2. Bordo da embarcação voltado para a direção de onde o vento sopra. [Antôn.: sotavento.]
Os pescadores do recôncavo baiano usam barravento como sinônimo de barlavento.
No candomblé, além destes significados, existe um toque denominado de "barravento", mais rápido e mais quente que o ijexá.

O samba do recôncavo baiano, manifestação coreográfica também fundamentada no ijexácomo a capoeira, encontramos duas variedades, diferenciadas pelo ritual e andamento dos toques:

  • em Santo Amaro da Purificação, santamarense (também conhecido por "samba de barravento" ou de "chula", mais lento, de ritual mais exigente, cada participante, deve cantar um chula, antes de começar a sambar e só dança sob acompanhamento exclusivo da orquestra, sem canto nem coro;
  • em Cachoeira de São Felix, o cachoeirano, ou "de corrido", de ritmo mais quente, cujo ritual permite a dança sob coro (corrido).

Dada a origem comum destas manifestações culturais, Mestre Pastinha usava esta denominação para caracterizar um ritmo mais rápido, cuja pauta não posso reproduzir, especialmente porque cada mestre impõe a sua personalidade aos seus toques, surgindo deste modo a infinita riqueza musical da capoeira.
A meu ver, o "barravento" em si não é um toque e sim um "andamento" do ijexá, nada impedindo, entretanto, que algum autor crie um toque e o batize de "Barravento"…
Acredito firmemente que o importante é escolher um toque tranquilo, suave, lento, que que desenvolva um jogo amistoso, prazeroso, respeitoso, em que cada um possa manifestar seu potencial atual sem risco de lesar ou ser lesado, capaz de selar uma amizade indissolúvel pelo Tempo e pela Morte, como a que ainda me une a Cisnando, Ruy Gouveia, Tiburcinho, Mané Rozendo, Compadre Luizinho, Compadre Brasilino,Caiçara, Ezequiel… e sobretudo aos Mestres Bimba e Pastinha!

A capoeira é um dialogo alegre
Sob o ritmo ijexá
De corpos fundidos num só NÓS
Pela magia do toque de berimbau
A teoria é mero jogo de palavras para a ginástica mental
O que importa é o jogo, a alegria
Os prêmios são a Felicidade e o Crescimento Interior!

AS AFIRMAÇÕES CONTRADITÓRIAS DOS ALUNOS DE BIMBA

Todos estão certos!
Todos estão errados!

As palavras de Bimba devem sempre serem analisadas dentro do contexto, com seus componentes temporal (do momento), social (as pessoas envolvidas) e pessoais de Bimba (humor, antipatia, dissimulação, engodo, etc.).

Os conceitos, definições e nomenclatura usados pelo Mestre variaram muito no tempo e no espaço.

Para entender Bimba é indispensável a convivência com os acontecimentos, se possível, além de estudar e situar o fato no ambiente do momento em que ocorreu, raciocinar e então concluir…

Quando mal humorado, por antipatia ao interlocutor, por pressa ou ou simplesmente desatenção, o Mestre truncava ou trocava a resposta, além de que muitas vezes respondia propositadamente de modo incorreto, para não revelar o que não queria, ou não devia, a quem não merecia ou não convinha.

Só assim podemos entender a informação de que o toque de Santa Maria fosse o hino da capoeira, como se acaso houvesse algum…. ou a negação do uso da Cavalaria como toque de jogo duro e restrição do seu emprego a um toque de alerta…

As listas de golpes e as regras de prática afixadas nas paredes da "academia" também mudavam muito…

Profundamente interessado na origem da capoeira, como todos iniciantes da sua prática, sempre ouvi de Bimba que esta era uma luta guerreira africana, especificamente dos escravos provenientes de Angola, dada a tradição de valentia dos mesmos.

Desde meus primeiros tempos na roda de Bimba comecei a pesquisar a relação entre o candomblé e outros fenômenos culturais africanos, porquanto aquele me parecia a origem dos demais.

A grandiosidade da Natureza, a extrema dependência do Homem dos seus recursos e de suas mutações, levam ao culto dos fenômenos naturais e dos integrantes das paisagens, animais, vegetais e seres inanimados, aos quais a humanidade empresta poderes, inteligência e vontade à sua semelhança.

É notória a associação da religião com todas as atividades humanas nas sociedades primitivas, sobretudo com a música, o ritmo e a dança, manifestações primárias da Personalidade.

Entre os africanos, a unidade social repousa sobre ritmo e melodia.
A percussão e o canto unem os indivíduos e criam a unidade do grupo, coordenando os trabalhos comunitários, as festas e o culto dos Senhores Invisíveis, aos quais a Humanidade atribui o comando dos fenômenos naturais.

Assim o Homem reflete na Natureza os mesmos sentimentos e poderes que esta lhe impõe pela grandiosidade de suas forças.
Nos sistemas culturais africanos, talvez os mais antigos do atual ciclo vital, o candomblé é o fulcro em torno do qual giram as demais atividades humanas, religiosas, produtivas e sentimentais (festivas ou funerárias), não cabendo exceção à capoeira.

Bimba acreditava e propagava, com o apoio de Sisnando, a origem guerreira da capoeira, reflexo da belicosidade de ambos, porém estranhamente não conhecia terminologia africana específica da capoeira.
Durante todos os anos em que gozei da intimidade familiar e acadêmica do Mestre não observei aproximação da prática da capoeira com os rituais religiosos, sendo a mesma uma atividade profana mais associada às libações alcoólicas que aos cultos religiosos, como o candomblé.

Até à festa da casa de Camilo, em novembro de 1946, não houve exibição conjunta de candomblé, samba e capoeira; porém o lucro propiciada pela demonstração para os neurologistas e psiquiatras em congresso "encheu os olhos"(e os bolsos…) do Mestre, que adotou prazerosamente a nova fonte de renda.
Esta é a origem da associação desenvolvida posteriormente pelo Mestre no Sul da capoeira com os costumes de terreiro de candomblé… para atrair os turistas…

Como o Mestre pretendia usar o candomblé como fonte de renda adicional começou a introduzir a prática de seus rituais em associação com a capoeira, como o ato de incensar do ambiente antes de jogar capoeira. Provavelmente procurando trazer os assistentes para a consulta de Ifá, a adivinhatória pelos búzios…

O Salve introduzido por Mestre Senna como saudação foi adotado, apesar do Mestre me haver sugerido os termos "Xuba" ou "Axé" de origem africanas quando da ocasião dos estudos para o ante-projeto de regulamentação esportiva da capoeira.
A propósito, Itapoan informa que o "salve" foi sugerido por André Lacé

Os exemplos são muitos e se repetem através o decorrer das gerações que se sucederam e das múltiplas oportunidades de convívio.
Jesus Assuero me informou que Bimba lhe dissera que seu pai (do Mestre) era quem dava "sartu " na boca de caixote de sabão, enquanto a mim fora dito pelo próprio, em ocasião anterior, que esta habilidade pertencera ao Mestre Bentinho!
Ezequiel afirma que Bimba intitulo o toque de "Sta.Maria" como o "hino" da regional e que "cavalaria" não se prestava para o jogo … usava-se apenas como aviso…

Os exemplos e citações seriam infinitos e enfadonhos… resta apenas apreciar e selecionar cuidadosamente os que nos parecerem consentâneos e coerentes com a lógica, a história, a tradição e se enquadram no contexto atual, abandonando as questiúnculas e discussões estéreis.

Iúna

Este toque foi criado por Mestre Bimba e comanda um jogo a ser executado exclusivamente por alunos formados e mestres.
Era costume, na academia de Mestre Bimba, que os alunos aplaudissem um companheiro, depois que este realizasse um jogo de iúna. O jogo é acrobático e técnico e os capoeiristas devem explorar a beleza dos golpes e movimentos, integrando-se e respeitando-se dentro da roda. Não há canto, nem palmas durante a execução deste toque.

* Dizem os antigos que neste toque ressoa o canto da ave Inhuma (ou Anhuma) e conta a lenda que ela é portadora de uma força mágica. Encantada, dos seus pios de desprende a magia dos deuses…

O que é a Capoeira?

O que é a Capoeira?

É dança? É jogo? É luta? É tudo isso ao mesmo tempo? Parece que sim, e é isso que a torna tão complexa, tão rica, tão surpreendente. É luta, "das mais violentas e traiçoeiras", dissimulada, disfarçada em "brinquedo", jogo de habilidade física, astúcia, beleza… e muita malícia!
         A Capoeira é uma manifestação da cultura popular brasileira que reúne características muito peculiares:
          1. É um misto de luta–jogo–dança;
          2. O ritmo e as características do jogo são regidos pelo toque do berimbau, instrumento preponderante na orquestra de capoeira (que inclui também o pandeiro, o atabaque, além do agogô, o reco-reco, o adufe etc.)
          3. Os cânticos (às vezes acompanhados de palmas) também têm função importante na determinação do tipo de jogo.
          4. É um excepcional sistema de auto-defesa e treinamento físico, destacando-se entre as modalidades desportivas por ser a única originariamente brasileira e fundamentada em nossas tradições culturais.
          O espaço em que se pratica a capoeira é a roda, um círculo em torno do qual se sentam (ou apenas se agacham) os praticantes. Junto à entrada da roda ficam os instrumentos, com o(s) berimbau(s) ao centro, comandando a roda. Todos os participantes devem saber tocar os instrumentos, de modo que possam revezar-se na função, permitindo assim que todos tenham sua vez de jogar. As palmas são responsabilidade daqueles que estão sentados assistindo, esperando sua vez de jogar, acompanhando sempre o ritmo ditado pelo berimbau. Todos devem responder em coro aos versos cantados. Uma boa roda de capoeira acontece quando todos os envolvidos, ainda que poucos, estiverem participando com vontade, dando corpo ao acompanhamento musical e aumentando assim a motivação daqueles que jogam.
         A Capoeira é um complexo cultural riquíssimo; quando nós, brasileiros, tivermos realmente deixado de ser os “suicidas culturais” que por vezes ainda somos, e tivermos então aprendido a dar o devido valor às mais genuínas criações de nossa própria cultura, certamente a capoeira será considerada como um diamante dos mais cotados entre os produtos culturais do povo brasileiro.
          Segundo Francisco Pereira da Silva, estudioso sério de nosso folclore, "nenhum fato relacionado com a cultura popular brasileira terá suscitado tanto e tão prolongado debate quanto a Capoeira. Sua procedência, a origem do nome, as implicações na ordem social, determinaram discussões que até tempos recentes incitaram os espíritos. Etimologistas, antropólogos, folcloristas, historiadores, têm participado na pugna literária com os seus pareceres, testemunhos ou palpites. Enquanto isso, ia a polícia ‘contribuindo’ com o argumento velho do chanfalho e pata de cavalaria…"
         A Capoeira já foi motivo de grande controvérsia entre os estudiosos de sua história, sobretudo no que se refere ao período compreendido entre o seu surgimento – supostamente no século XVII, quando ocorreram os primeiros movimentos escravos de fuga e rebeldia – e o século XIX, quando aparecem os primeiros registros confiáveis, com descrições detalhadas sobre sua prática.
  A primeira grande questão que se colocava aos estudiosos era: a Capoeira surgiu na África ou no Brasil?
           Atualmente, considera-se esta questão como já resolvida. Tem-se hoje a convicção de que a capoeira é, de fato, uma manifestação cultural genuinamente brasileira. Tudo leva a crer que ela seja uma invenção dos africanos no Brasil, desenvolvida por seus descendentes afro-brasileiros.
           É brasileira, mas de raiz cultural africana.
           Tem ela uma história acidentada, pontilhada de episódios vexatórios e truculentos. Perseguida desde o começo, no caldeirão que misturou as várias etnias que formam o nosso povo, ganhou fama de má prática, coisa de malandros, larápios, “vadios”. A perseguição durou até a década de 1930, quando, graças principalmente ao trabalho de Mestre Bimba – “o Lutero da Capoeira” – e seus discípulos, inaugurou-se a fase de efetiva sistematização do ensino da capoeira e de seu reconhecimento social, assim como o de todas as outras manifestações culturais de matriz africana. O nome de Mestre Pastinha também se destacou nesta fase, permanecendo ambos – Mestre Bimba e Mestre Pastinha – como os dois maiores heróis lendários da capoeira.
          Dizem, hoje, os mestres mais sábios que é o equilíbrio entre as duas melhores características de um e outro – a explosão do puro guerreiro, por um lado, e a poesia do movimento, por outro – aquilo que todo capoeirista deveria procurar atingir, sempre!
AS ORIGENS
           O dr. Ângelo Augusto Decânio Filho (Mestre Decânio), o mais idoso "Filho de Bimba" ainda vivo, decano da Capoeira Regional, médico e filósofo, pesquisador da capoeira, contribuiu recentemente com interessantes observações sobre a questão da origem da capoeira. Estudando os ritmos do candomblé, percebeu que o ritmo básico de Logunedê ("…no disco de Luiz da Muriçoca…") corresponde às batidas do pandeiro na capoeira; trocando informações com o pesquisador Pierre Verger (Fatumbi Verger), ouviu deste: "uma tarde… ouvindo mestre Waldemar ao berimbau… enquanto o auto-falante da praça irradiava um toque Ijexá… percebi nitidamente a identidade dos ritmos."
          Podemos concluir, com eles, que…
 "…o candomblé é a fonte mística…
                                 …donde brota a magia da capoeira!"
           Observaram ainda similitudes entre os movimentos da capoeira e os movimentos das danças rituais do candomblé, e outras semelhanças: no candomblé, o ritmo dos atabaques é o nexo entre "os Orixás e o Vodunce", assim como na capoeira, o estilo do jogo acompanha a musicalidade do toque.
…é a musicalidade do toque
que impõe o tom do jogo…
           Prosseguindo em suas investigações, constataram a presença do berimbau no antigo Congo Belga (atualmente o Zaire), território dos bantos. Este fenômeno – a união de um ritmo Ijexá a um instrumento musical banto –, ponderaram eles, só pode ter sido gerado em presença amistosa dos elementos primários, o que não foi possível na África, considerando o distanciamento geográfico e cultural das duas nações;
           "… na Bahia houve o encontro dos dois povos… uma aproximação mais íntima, pacífica, ao calor dum inimigo comum e duma escravidão compartilhada!"
           Assim, conclui mestre Decânio, "…o Recôncavo Salvadorenho foi o cadinho onde se fundiu a ‘liturgia musical’ que há de unir os homens na alegria da capoeira."
           “A capoeira é o processo complexo constituído pela fusão ou caldeamento de fatores de várias origens: 1. dos africanos herdamos os movimentos rituais fundamentais do candomblé: dos iorubás recebemos o ritmo ijexá e a rima tonal a cada três estrofes, enquanto os bantos nos ofereceram o berimbau, o instrumento fundamental; 2. os portugueses nos doaram, através da dança popular da chula, o uso do improviso (chula), do pandeiro e da viola; 3. os brasileiros forneceram a nomenclatura dos movimentos, os temas dos cantos (fundo cultural literofilosófico popular), o ritual, os métodos de ensino, as modificações fonéticas dos termos usados nos cantos.
           "No Brasil, a fusão de elementos africanos aos fatores locais (portugueses e indígenas) originou, a partir do ritmo ijexá, uma família de manifestações culturais, cuja raiz comum lhes empresta uma similitude rítmica e coreográfica (…)"
           Parece-nos evidente que a capoeira reúne todos estes componentes originais, o que lhe outorga uma excepcional riqueza artística, melódica e dinâmica; um enorme potencial evolutivo e, finalmente, uma gama intensa de aplicações esportivas, coreográficas, terapêuticas, pedagógicas, etc., que abrange desde o simples jogo às franjas das artes marciais e da defesa pessoal.”
           Contudo, apesar da fonte mística do candomblé, é absolutamente leiga a arte da capoeira, jogo de destreza corporal destinado a treinar física e mentalmente os escravos para os embates da sua luta de libertação.
           A Capoeira nasceu e cresceu aqui, sob as condições da escravidão. Atesta-o o princípio que funda a luta, o da dissimulação, que faz evitar o confronto direto e a torna muito mais perigosa, muito mais traiçoeira.
 
 
 
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