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Ludicidade, Pedagogia, Cidadania & Capoeira

SEE leva discussão étnico-racial a jovens de favela
 
Utilizar o lúdico como proposta pedagógica, a fim de levantar a auto-estima, promover a cidadania e o intercâmbio entre crianças e professores da Favela Sururu de Capote. É com este objetivo que a Secretaria Executiva de Educação, através do Núcleo Temático Identidade Negra na Escola, em parceria com a Editora Paulinas, realiza nesta terça-feira, das 9h às 11h e das 14h às 16h; e na sexta-feira, das 9h às 11h, uma série de oficinas temáticas na sede da Editora Paulinas, localizada no Centro de Maceió.
 
A iniciativa faz parte do Projeto Vim para que Todos Tenham Vida, por meio da oficina temática “Outubro é Mês de Xirê”. Xirê, na língua iorubá, quer dizer festa, brincadeira e propõe, por meio da brincadeira entre professores e alunos, transmitir os valores da tradição e cultura negras.
 
No mês em que se comemora o dia das crianças e o dia do professor, nada mais propício do que promover o intercâmbio entre a comunidade acerca dos valores da diversidade, com a utilização da capoeira e jogos no aprendizado e respeito às diferenças.
 
“A proposta de realizar essa experiência brincante de aula passeio é uma estratégia pedagógica dinâmica e divertida de envolver crianças no aprendizado e respeito do outro e das diferenças étnico-raciais, contribuindo para a promoção dos valores sociais, étnicos e culturais”, explica Arísia Barros, coordenadora do Núcleo Temático.
 
Oficinas – A primeira oficina temática “Jogando o Jogo da Capoeira” será voltada para 40 crianças entre sete e 11 anos da favela Sururu de Capote, das 9h às 11h e será coordenada pelo mestre em Capoeira e presidente do Centro de Capoeira Quilombo dos Palmares e professor de educação física da rede, Cláudio Figueiredo.
 
À tarde, a partir das 14h, acontece a segunda oficina, “Dançando a Dança Afro”, ministrada por Nane Moreno, coordenadora do Grupo de Dança Afro Oju Omin Omorewá. Será trabalhada com os 40 alunos, também entre sete e 11 anos, a dança africana, uma das tradições mais antigas das sociedades africanas.
 
Na sexta-feira, a partir das 9h, será realizada a oficina “Omowalê” – a filha que volta para casa. A palestrante Ana Márcia Ferreira de Farias, pedagoga, coordenadora do Projeto Laboratório Pedagógico da SEE e mestranda em Educação, fará uma reflexão sobre educação e diversidade étnico-racial para 80 professores da rede estadual de ensino.
 
“A oficina de encerramento fornecerá um elemento de manutenção da identidade étnica de meninos e meninas negras, através da Lei 10.639/03 e da temática afro-brasileira”, comenta Arísia. O encerramento das atividades está previsto para as 11h. Todo o transporte e alimentação dos participantes estão sendo providenciados pela SEE e pela Editora Paulinas.
 
(Agência Alagoas)  
 
 
Fonte: WWW.GAZETAWEB.COM  – Maceió, AL, Brasil

Aconteceu: Porto Alegre/RS – Curso Aberto com Mestrando Tucano Preto

A todos amigos da capoeira !
 
Queremos informar,que durante uma semana na cidade de Porto Alegre/RS, foi realizado mais um encontro de capoeira aberto a toda comunidade capoeiristica da região sul, onde se fez presente o ministrante Ricardo Oliveira, ‘TUCANO PRETO’/SP, capoeirista renomado e responsavel por inumeros trabalhos voltados ao desenvolvimento da capoeira no Brasil e no exterior, sendo assim dos dias 12 ao 18 de agosto os que se fizeram presentes puderam contar com todo o profissionalismo desta equipe que entre aulas, palestras, rodas e outras saciaram a sua sede de busca ao conhecimento pela capoeira, historia e  atualiazação de movimentações que muito correspondem aos valores desta arte ancestral e futura.
 
Informamos ainda que a presença e o contato com inumeros capoeiristas de Porto Alegre/RS, somente somaram aos nossos conhecimentos e busca. Ainda assim informamos que toda a organização para a realização deste encontro se deu através do Professor Gororoba e todos seus alunos que mas uma vez deram conta do recado.
 
          Agradecemos a todos voces capoeiristas,por esta realização,deixando assim fluir livremente o  respeito pela capoeira em nossas vidas .
          Grande abraço a todos
 
 
Mestre.Tucano Preto /SP
Centro Integrado de Capoeira
telefone 55 11 – 84854981

Em busca da Ludicidade Perdida

 Após o pesadelo transatlântica, os que sobreviveram aos porões fétidos da civilização européia, no sentido literal, seguiram-se gritos solitários que se ouviu nas senzalas e nos terreiros banhados com o sangue inocente dos mártires, inconformados com uma vida pior que a dos animais…

Essa pode ter sido a gênese cruel. Mas a ressurreição de toda a humanidade acontecia, junto com os sinais da iluminação dos tempos: eclodiram revoluções no mundo dito civilizado, em nome da liberdade, da igualdade e da fraternidade…

Que era essa liberdade? Haveria lugar para essa metáfora burguesa em busca do seu lugar ao sol, enquanto uma raça inteira jazia sob os ferros da escravidão?

Que igualdade? Onde caberia esse discurso, se a massa dos excluídos se avolumava junto com as comunidades negras soterradas pela substituição da máquina-homem pela máquina-vapor?

Que fraternidade? Se as uniões que se forjaram se destinou, como na Guerra do Paraguay, a interromper um crescimento infiel de uma ex-colônia, numa covardia que usava o julgo capitalista inglês, por um lado e, por outro, milícias de capoeiras negros condenados com a promessa de um prêmio que nunca foi pago, ao lado de um mérito nunca resgatado na História?

Então, se somados todos os processos históricos das revoluções da era moderna, para os negros o resultado era sempre zero, o que fazer? Por onde assegurar que seriam preservadas as esferas de realização reprodutiva de sua cultura, de seus valores, de sua fé, de sua felicidade, enfim?

Era preciso uma revolução estratégica… Onde obter armas para fazer frente a tal caos? Tanques de guerra? Fuzis? Mosquetões? Talvez a conquista de uma legislação protetora, como a que existe hoje em dia para preservação dos animais?

Nada disso!

A Revolução teria que ser feita numa esfera inacessível aos não iniciados!

Ela teria que ser escrita no idioma oral das raízes afros.

Teria que poder ser praticada de forma velada e ao mesmo tempo por todos. Como isso seria possível?!

 

A REVOLUÇÃO SILENCIOSA(?) DO CORPO

 

Era isso. Os códigos teriam que ser passados através do único veículo de que dispunham os negros: o seu corpo! É lógico, o corpo possui todos os instrumentos necessários aos processos de informação cultural e revolucionária…

Mas, se fosse colocado em confronto em campo aberto, poderia o corpo ter alguma chance de resistir às pressões alienantes do dominador? Não. Era necessário que o processo deveria contar com um aliado estratégico, o elemento dissimulador… Onde buscá-lo?

Não era necessário, pois ele fazia parte do acervo natural da cultura afro, era encontrado em grande quantidade nos movimentos básicos do seu dia-a-dia; podia também ser localizado nas esferas simbólicas discretas de seus valores, produzidos a partir de uma consciência estética livre e na profundidade criativa da mãe-África, inscrita como o mais antigo legado da humanidade. Sim, era possível.

Era possível superar a dor do ferros cravados na carne mulata; possível também romper com o cerco legitimado dos senhores-donos-de-escravos, imperialistas ou republicanos, que empurrava para os porões dos valores, a cultura, a arte, a religião e a imaginação afro, a submissão aparente ao julgo dos valores ocidentais era parte da estratégia.

Ela era galgada na ironia, na aparente aceitação da realidade imutável dos fatos, e na manifesta demonstração da inocência primeva de quem não teria mesmo porque se sentir ou reagir de forma diferente: a manha, a sanha, os rituais religiosos – estes não liberados senão mediante um sincretismo negociado com a ordem dos valores vigentes, as heranças guardadas da Dança da Zebra; a Cujuinha, dança guerreira; a Uianga, dança dos caçadores; a Cuissamba, dança de julgamento e castigo; e outras bases culturais, como a dança do Batuque, os ritmos corporais dos rituais umbandísticos.

Aí estavam as fontes, as quais, misturadas aos recursos férteis da imaginação criativa e a frágil percepção da resistência por parte do dominador – subestimar o adversário representa cinqüenta por cento de derrota, segundo o critério da tradição oriental – juntando tudo isso na alquimia daquele momento em que o tédio branco era tão carente de dinâmica, estava pronto o contexto da gênese transcendental do elemento de resistência, composto da imaginação loquaz e renitente, da festa, do folguedo a qualquer tempo e da capacidade de surpreender os desavisados e os espíritos desarmados dos dominadores, pois de muito gorda a porca já não anda, de muito usada a faca já não corta!.

Construídos os fundamentos da resistência, era importante praticá-los, explorá-los, aperfeiçoá-los, expandi-los!

A jornada da resistência era longa e não adiantava a pressa…

A pressa era dos dominadores, através de conclusões precipitadas dos movimentos, dos jogos e dos folguedos…

A melhor forma era a ironia, aperfeiçoada em insolência, indiferença à força bruta, uma brincadeira desautorizada na frente do opressor.

 

BOM HUMOR: A REVOLUÇÃO DA FELICIDADE

 

Essa a História-síntese da arma maior da revolução negra: a capacidade de superar o horror e a tragédia a partir da manutenção de um estado de resistência lúdica, que transformava cada momento de lazer no resgate do direito à felicidade, com o corpo-arma escrever os sinais da superação da opressão e avançar na História, preservando, junto com a força cultural e do espírito guerreiro, a capacidade entusiástica do estado de espírito festivo, construtivo, combativo e fiel à luta pela alegria e pela dignidade a um só tempo, como se isso fosse parte de um todo indivisível!

Poderíamos nos alongar indefinidamente nas possibilidades desse insight, através do qual pretendemos remontar uma visão Histórica da construção da ludicidade dentro da revolução negra afro-brasileira, ao tempo que inscrita tal sanha nos signos gestuais e nos símbolos revolucionários das reconstruções de identidade étnica transportadas pela miscigenação cultural brasileira, hoje praticamente controlada pelos donos do mercado, o qual vende a alegria em cenas sensuais extraídas das páginas mal contadas da memória corporal dos africanos, legados sem restrição ao acervo dos ritmos e ritos afro-brasileiros.

Os efeitos dessa terapia vai muito além dos limites sensoriais, hoje encenadas nas citadas explorações erotizantes, perdido o elo revolucionário de sua gênese, subutilizado o seu potencial no maciço mercado sensual e abandonada a sua aplicação no talvez mais importante terreno fértil de sua potencialidade: a libertação das angústias, dos medos, dos traumas, dos centros somáticos de resistência corporal (vide Freire, R. in), além da ruptura com os processos competitivos, dissimilados em jogos simbólicos e solidários. A Arma é o Corpo

Portanto, é necessário resgatá-lo, tal espírito, tão forte sua importância no jogo da capoeira. Tão grande sua influência nos resultados de cada etapa do aprendizado, em cada possibilidade de superação das barreiras competitivas. Tornar o jogo um instrumento de subversão do resultado e da competição, tudo isso é parte da ludicidade, hoje banida das práticas, pois quem ensina parece não conhecer a ausência da regra que a torna possível. Nossas regras parecem ser, ao contrário, avanços na direção oposta da liberação que a liberdade permite.

A alquimia da música e do ritmo, por outro lado, parece ter se perdido, após uma atualização modernizante de uma melodia de alto impacto, que inviabiliza um resultado harmônico corporal, mesmo no solo, quanto menos, num diálogo entre dois corpos equipados com o arquivo-arma traduzido para o nosso idioma remixado da cultura latino-americana/afro-brasileira.

O desafio maior da capoeira na escola é desvendar esse mistério e recuperar o lúdico nos escombros soterrados de nossa Étno-História não contada, após o que, talvez possa reescrever a felicidade e a solidariedade, como uma revolução urbana de paz e de consciência crítica e libertária!
 

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