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Homem de Gelo no Botafogo, Jefferson vira Gato Negro na capoeira

Goleiro mostra desenvoltura no esporte e diz que é preciso ter muito jogo de cintura para passar por determinadas situações do futebol

Agilidade, flexibilidade, concentração e disposição. Tudo isso contribui para o sucesso de um bom goleiro. Mas essas características também podem influenciar no bom desempenho em outro esporte: a capoeira. O show visual proporcionado pelo jogo pode ser comparado, inclusive, às defesas de um profissional do futebol. Que o diga Jefferson, camisa 1 do Botafogo.

Nascido na Bahia, onde a capoeira tem raízes fortes, ele pratica o esporte desde os sete anos. O goleiro conta que dividia o tempo entre as peladas com os amigos e as rodas ainda em São Vicente, em São Paulo. Porém, teve que deixar o hobby de lado, pois, desde os 15 anos, vive do futebol. Mas voltou a sentir o gostinho da capoeira na manhã desta quinta-feira, no Aterro do Flamengo, um dia após a vitória por 4 a 1 sobre o Madureira, no Engenhão, pela terceira rodada da Taça Guanabara.

Conhecido como Homem de Gelo, tamanha sua frieza durante os jogos e treinos em General Severiano e no Engenhão, Jefferson deixou para trás o semblante fechado, o olhar fixo e o estilo de poucas palavras para relembrar a infância. Vestiu o novo uniforme, colocou a corda e foi mostrar seu gingado. Tudo banhado a muitos sorrisos e brincadeiras com os 20 jogadores do grupo Abadá-Capoeira, que tem sede no Humaitá, Zona Sul do Rio de Janeiro.

– No futebol, os treinos e os jogos exigem mais um pouco de concentração e seriedade. Não pode levar tudo na brincadeira. Mas, ao sair do futebol, somos outros, precisamos de algo como a capoeira para distrair. É isso que faço. Nas horas de lazer procuro me distrair um pouco – disse o goleiro, que chegou acompanhado de sua esposa Michele e a filha Nicole, de dois anos.

Nem mesmo o 1,90m atrapalhou o goleiro. Acostumado a voar debaixo das balizas, Jefferson fez estripulias no Aterro do Flamengo. Depois de sua exibição, ganhou o apelido do grupo: Gato Negro. O giro no ar também foi batizado: o pulo do gato. Cansado após sua participação, ele disse se sentir mais preparado para os treinos físicos e saiu satisfeito de voltar a praticar capoeira.

– Cansa, exige muito, mas é legal. Faz parte. Só é preciso ter cuidado, porque ajuda, mas pode causar lesões – disse o goleiro, que garantiu que o técnico Joel Santana sabia do jogo de capoeira.

A ginga que mostrou na roda de capoeira é a mesma que o ajuda a sair de situações complicadas no dia a dia do futebol. Jogo de cintura não falta ao goleiro, que é um dos líderes da equipe alvinegra e ídolo da torcida.

– Tem que ter ginga em todos os sentidos para administrar algumas coisas que acontecem no futebol.

É preciso também ter jogo de cintura com as brincadeiras dos integrantes do Abadá-Capoeira. Havia apenas um botafoguense entre os 20 jogadores que se encontravam na roda. Logo de cara, o goleiro avisou que só jogaria com o alvinegro. Depois de ouvir algumas provocações do flamenguista Anderson Silva, o professor Parafuso, o camisa 1 foi defendido por Leonardo Lenine, o Barata.

– Eles estão é preocupados, se sentindo ameaçados.

 

Sonho com a volta para Seleção

 

O sucesso com a camisa do Botafogo em 2010 fez com que Jefferson fosse convocado por Mano Menezes para a Seleção Brasileira. Porém, ficou fora da última lista, já que o treinador optou por não convocar atletas que atuam no Brasil. Mas um nome chamou a atenção. O goleiro Julio César, do Inter de Milão, que defendeu a amarelinha nos últimos anos e participou da Copa do Mundo na África do Sul, voltou a ser chamado.

– Desde que fui convocado, sabia que o Julio César ia voltar. Mas também penso em voltar à Seleção e vou continuar trabalhando no Botafogo para ter novas oportunidades.

 

Fonte: http://globoesporte.globo.com

O Surpreendente João Pequeno

O mestre João Pequeno de Pastinha é mesmo uma figura fantástica, é um desses representantes da nossa cultura popular que merece ser imortalizado na galeria dos grandes personagens do povo brasileiro.

Faz história na capoeira, pois do alto de seus 91 anos de idade, ainda comanda as rodas em sua academia lá no Forte Santo Antonio (atualmente denominado “Forte da Capoeira”, mas eu prefiro o nome antigo), em Salvador. Quem não conhece João pode até duvidar, mas esse ancião quase centenário ainda joga sua capoeira angola, com toda astúcia que Deus lhe deu e a mandinga que Pastinha lhe ensinou. E ai de quem descuidar !!! A cabeçada certeira de João continua fazendo vítimas até mesmo entre os mais hábeis angoleiros !

Nesses quinze anos de convivência com João Pequeno, tenho aprendido as lições mais profundas de humanidade. Esse homem de poucas palavras, mas de muita inspiração, está sempre a nos ensinar, de várias formas, jeitos e maneiras, até mesmo quando está calado. Quem tem luz própria não precisa dizer mesmo muita coisa. Aí vai uma dica pra muitos mestres da atualidade que falam, falam, falam….

Numa certa feita, estávamos acompanhando João numa gravação de uma matéria para a televisão em Salvador, em que o objetivo era mostrar o processo de retirada da biriba (madeira própria para a construção do berimbau) na mata. Nos deslocamos junto com a equipe de filmagem até Mata de São João, no Recôncavo Baiano, local onde João Pequeno passou boa parte de sua juventude. Ele conhecia tudo por lá e foi nos guiando pelos caminhos abertos na mata virgem, até encontrarmos a biriba. A equipe da televisão gravou todo o processo de corte da madeira, entrevistou João, fez belas imagens e se despediu de nós para voltar a Salvador.

Estávamos nos preparando para voltar também, pois fomos num carro separado da equipe da TV, quando João nos perguntou: “Pra onde é que vocês vão ???”.  “Ora mestre, pra Salvador, vamos voltar, a gravação já terminou !!!”, respondi eu, já abrindo a porta do carro para que ele entrasse. Ele então, com toda naturalidade disse: “Não, não…nós num viemo aqui pra apanhá biriba ??? Então vamo apanhá !!!”, e foi se embrenhando novamente no mato, decidido. Não nos restou outra alternativa, senão acompanhá-lo.

Era um fim de tarde, acompanhamos João mata adentro. Começava a escurecer. Já estávamos nos preocupando quando ele nos disse: “Vamos dormir por aqui hoje e pegar as biribas amanhã, logo cedo…eu lembro de uma casa de farinha abandonada que tem aí pra dentro – apontando para o meio do mato cerrado – a gente pousa lá e amanhã vai pegar mais biriba”, disse sem se deter na caminhada.

Andamos um bom tempo pelo meio da mata fechada, abrindo caminho no facão, já com pouca luz e bastante apreensivos com a possibilidade de João não encontrar a tal casa de farinha. Já estávamos duvidando que um homem de oitenta e poucos anos, que não voltava para esse local há pelo menos uma década, pudesse encontrar essa tal casa no meio da mata atlântica. Mas para o nosso alívio, com apenas a luminosidade da lua, João encontrou o local ! Dormimos no chão da casa de farinha, nessa noite enluarada ouvindo histórias desse homem fantástico e surpreendente. No dia seguinte, logo cedo, estávamos no mato a apanhar biriba. Afinal, não foi pra isso que fomos pra lá ???

Pedro Abib (Pedrão de João Pequeno) é professor da Universidade Federal da Bahia, músico e capoeirista, formado pelo mestre João Pequeno de Pastinha. Publicou os livros “Capoeira Angola, Cultura Popular e o Jogo dos Saberes na Roda”(2005) e “Mestres e Capoeiras Famosos da Bahia”(2009). Realizou os documentários “O Velho Capoeirista” (1999) e “Memórias do Recôncavo: Besouro e outros Capoeiras” (2008).


Coluna: “Crônicas da Capoeiragem” por Pedro Abib

Mais um envolvente texto da Coluna Crônicas da Capoeiragem, sob a tutela do nosso grande camarada e parceiro, Pedro Abib, enfocando histórias, casos, experiências, opiniões, críticas, enfim, um texto de uma lauda sobre o universo da capoeiragem.

SE

Traduzido por Ângelo Augusto Decânio Filho

Se és capaz
De manter a calma quando todos já a perderam e te culpam
Crer em ti mesmo quando todos estão duvidando
E mesmo assim os desculpar!
Se és capaz
De esperar sem desesperar
Ser enganado e não mentir ao mentiroso
Odiado, não se envolver no ódio
Não parecer bom demais, nem pretensioso!
Se és capaz
De pensar sem se escravizar aos pensamentos
Sonhar sem permanecer no sonho
Enfrentar a derrota e o triunfo com a mesma serenidade!
Se és capaz
De sofrer a dor de ver transformada em mentira
A verdade que propagar
A razão de sua vida estraçalhada pelos cães
E mesmo assim
Levantar e recomeçar com o que te resta!
Se és capaz
De arriscar numa única parada tudo que ganhastes na vida
Perder e sem lamentar voltar ao ponto de partida
Recomeçar com o pouco que te resta!
Se és capaz
De forçar coração e espírito a buscar o que neles ainda existe
Obrigando-os a continuar
Porque tua Vontade diz
Persiste!
Se és capaz
De conviver com a plebe sem se vulgarizar
Freqüentar palácios sem perder a naturalidade
Dos amigos, bons ou maus, não depender
Pronto a todos servir com prazer!
Se és capaz
De dar ao tempo
Segundo por segundo
Todo brilho e valor que merece!
TUA ÉS A TERRA COM TUDO QUE EXISTE NESTE MUNDO
E
MUITO MAIS DO QUE TUDO ISTO

ÉS UM HOMEM!