A arrogância neoangoleira e a tradição autista
21 Mar 2018

A arrogância neoangoleira e a tradição autista

A arrogância neoangoleira e a tradição autista por: Paulo Mutaokê Magalhães  Essa semana fiquei abismado com um comentário que li na internet. Um

21 Mar 2018

A arrogância neoangoleira e a tradição autista

por: Paulo Mutaokê Magalhães 

Essa semana fiquei abismado com um comentário que li na internet. Um velho mestre de capoeira angola, conhecido pela fluidez com que encara a relação entre a capoeira e outras manifestações culturais populares e pelo especial apreço ao espaço da rua, comemorou seu aniversário com uma grande roda. Após publicar trechos do jogo de compra, um jovem capoeirista o questiona, afirmando que na capoeira angola não existiria compra e que o adeus adeus seria uma música do samba de roda. Além da evidente falta de conhecimento desse capoeirista, o que salta aos olhos é o desplante de se dirigir a um mestre de capoeira com idade de ser seu pai (ou talvez seu avô), acusando-o de corromper fundamentos por dinheiro. Trata-se na verdade de uma inversão dos fundamentos, uma vez que uma característica básica que perpassa toda a cultura de matriz africana é o respeito aos mais velhos. De acordo com esta tendência, que infelizmente vem crescendo nos dias de hoje, alguns detalhes formais da prática da cultura seriam mais importantes que a relação viva que se estabelece entre mestre e discípulo, entre os mais novos e os mais velhos de uma forma geral.

Ora, sabemos que de forma diferente da capoeira regional do Mestre Bimba, a capoeira angola tem uma grande diversidade de linhagens, heranças, famílias. E muito do seu formato é relativamente recente. Grande parte das músicas “tradicionais” da capoeira vêm do candomblé, são sambas de caboco, que se confundem com o samba de roda porque nunca houve essa fronteira rígida. O jogo de compra não vem nem da capoeira angola de academia nem da capoeira regional, uma vez que na academia do Mestre Bimba as duplas saíam do pé do berimbau para jogar. A compra vem da rua, das festas de largo, do samba, desse caldeirão cultural onde os mais velhos aprenderam e preservaram esta cultura para que chegasse até nós. O fato de ser proibido em algumas academias talvez diga mais sobre elas do que sobre a herança da capoeira angola em geral. As heranças são muitas, e cada um busca preservar o que aprendeu.

Este caso me lembrou algo que aconteceu comigo no ano passado. Ao vadiar em uma roda coordenada por um jovem contramestre, alguns anos mais velho que eu, fui repreendido pelo mesmo ao aplicar uma tesoura. Visivelmente nervoso, bradou que tesoura não era de capoeira angola, era coisa de dez anos pra cá, pois não via tesouras acontecendo em determinada roda que ele frequentara. Também neste dia fiquei surpreso pelo absurdo da situação, pois na linhagem de capoeira angola a que ele se filiara, a aplicação de tesouras era algo comum. Para não polemizar em casa alheia, lembrei do Mestre Canjiquinha: “o calado é vencedor para quem juízo tem”. Algumas pessoas costumam ser rígidas com o que aprenderam ao ensinar para seus alunos, é natural. Agora, querer colocar os ensinamentos de uma academia como se fosse a grande verdade da capoeira angola é no mínimo desrespeito aos mais velhos. Pus-me a pensar nos mestres Moraes, Paulo dos Anjos, Nô e tantos outros. Será que todos estariam errados, e esse camarado, que nasceu quando estes antigos mestres já praticavam capoeira, sabe mais do que eles? Aprendi que jogo de compra, tesoura, martelo, gancho, tudo isso faz parte da capoeira angola, são ensinamentos que vieram de velhos mestres do passado. Como uma pessoa jovem pode questionar algum desses elementos, por não ter visto em sua formação, se antes dela nascer os velhos mestres já praticavam?

Pensei também nos manuscritos do Mestre Pastinha, um verdadeiro tesouro para nos aprofundarmos no pensamento desse mestre. Ao criar sua escola, ele estabelece uma série de regras, cria cargos a que nenhum dos seus discípulos deu continuidade (fiscal, juiz, mestre de bateria, etc.) e proibiu uma série de golpes. Se proibiu, será que existiam ou não? Será que as outras academias foram obrigadas deixar de usar os mesmos movimentos ou seguiram dando continuidade ao que aprenderam com seus mestres? Segue um trecho:

“É proibido no jogo e prinsiparmente em baixo, fonsional golpes, ou truque, não por a mão, é fau. Os golpes que não pode ser fonsionado em demonstração; golpes de pescoço, dedo nos olhos, cabeçada solta, cabeçada presa, meia lua baixa, Balão a coitado, rabo de arraia, Tesoura fechada, chibata de clacanhar, chibata de peito de pé, meia lua virada, duas meia lua num lugar só, pulo mortal, virada no corpo com presa de calcanhar, presa de cintura, balão na boca da calça, golpes de joelho e nem truques”.

 

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Falta mais humildade para aceitar as diferenças e continuar aprendendo com os mais velhos. Trata-se de uma tradição autista, que não dialoga com as que estão ao seu lado, encerrada em sua verdade única e absoluta que impõe em seu pequeno espaço de poder. As diferenças fazem a riqueza da capoeira angola, e preservar essa diversidade é zelar pelos seus fundamentos. Tempo é rei e nos ensinará mais. Iê dá volta ao mundo!

Imagens: Manuscritos do Mestre Pastinha; Mestre Sapo (aluno dos mestres Pelé da Bomba e Canjiquinha) e seu aluno Mestre Patinho treinando em uma praia do Maranhão. No berimbau, Mestre Tião Carvalho.

 

por: Paulo Mutaokê Magalhães 

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