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GRÃO-MESTRE – “SER OU NÃO SER”

GRÃO-MESTRE – “SER OU NÃO SER”

Camisa Roxa, segundo me falaram, ao ser indagado num evento realizado em Siribinha – BA sobre o título de Grão-Mestre que recebera havia pouco tempo, respondeu: “existem tantos mestres de capoeira hoje em dia, que parece com a areia de um oceano! Eu sou apenas um grão desta areia”.

Muito interessante e sábia a resposta!

Conhecendo mestre Camisa Roxa, como o conheci, pois na década de 70 tive o prazer do primeiro contato com ele, quando precisou da ajuda para montar um show do seu grupo folclórico “Olodumaré”, aqui em Brasília, show do qual também participei e que depois fomos nos apresentar em Belo Horizonte. Entretanto, quando o grupo foi para o exterior, apesar do convite do Camisa, eu amarelei, fiquei no Brasil.

Interessante registrar um episódio que aconteceu, no momento em que fui recebê-lo na antiga rodoviária de Brasília, junto com mestre Adilson, quando numa daquelas coincidências ímpares, vem na nossa direção caminhando, o grande mestre Bimba, que também tive a oportunidade de ser apresentando pelo próprio Camisa, que em tempo, de maneira nervosa me disse: “não diga ao mestre qual o motivo da minha vinda aqui em Brasília”.

Naquele momento eu ainda não sabia das intenções do Camisa, uma vez que tinha acabado de conhecê-lo!

A preocupação do Camisa Roxa era a de que o mestre Bimba soubesse que ele estava montando um espetáculo de capoeira, perto do show que ele iria dar! Diga-se de passagem, que esse “perto” correspondia a 200 km de distância, que é a distância de Brasília à Goiânia, onde seria o seu show!

O que eu pude observar desse comportamento do Camisa Roxa, claro, foi o grande respeito e consideração que tinha para com o mestre Bimba!

Tenho certeza que se pudéssemos criar uma atmosfera desse encontro que já se passou o que hoje é impossível, uma vez que os dois estão no andar de cima, com toda certeza mestre Camisa Roxa, teria me pedido: “não fale nada ao mestre Bimba do título de Grão-Mestre que recebi”, pois como poderia ele explicar que seu título era superior ao do Mestre Bimba!

Por esta razão, achei interessante a resposta do mestre Camisa Roxa a respeito do grão de areia, que na verdade é um daqueles “bom rolê” do capoeira, visto que, no universo da capoeira, esse título ainda nem existe.  Portanto, a resposta em forma de brincadeira, faz sentido, tem sabedoria!

O fato de existirem muitos mestres de capoeira hoje em dia, não acho que deva ser um motivo de incomodo, como alguns mestres assim enxergam.   Isso porque, assim como existem “artistas” e artistas, “médicos” e médicos, “mestres” e mestres, assim como também existem “cachorros vira-lata” e cachorros vira-lata, quero dizer que em todos esses exemplos, sempre se sobressaem os que são “especiais”!

Mestre é um título de ofício, de trabalho, de um pescador que se destaca dentre todos na sua comunidade e é consagrado por todos! E assim acontece com todos: pintor, músico, capoeira, etc. É preciso que haja uma força maior a fim de que defina quem deva ter essa consagração dentro da comunidade que atua!

Grão-Mestre, para mim, é um título místico, dado principalmente pela maçonaria, entidade que existe há muito na nossa sociedade e que de forma secreta e fechada, tem uma normatização própria que confere esse título a alguém dos seus membros.

Recentemente um discípulo meu, que também é mestre, mestre Skysito,afirmou que o que está acontecendo na capoeira: é porque ela não tem dono!

Respondi ao “gafanhoto”, que era isso que eu achava interessante na capoeira, ela não precisa de dono, nós que vivenciamos dentro da sua energia, percebemos de maneira empírica, quando ela determina, adequa as normas, mesmo de maneira implícita, mas que sentimos que tem força de fato!

Percebo que não é preciso ser doutor na capoeira para entender isso, a grande maioria sabe diferenciar muito bem, por terem um olhar crítico natural, a capacidade de identificar o que é certo e desconfiar do que é errado!

Trago essa discussão à tona antes que algum aventureiro embarque neste navio, quando ainda há tempo de não cair nesta cilada.

Também chamo a atenção essa inversão de valores que está começando a aparecer no nosso meio! Quem está graduando o Grão-Mestre, são os próprios alunos daquele mestre e isso é no mínimo estranho, pois nesse momento, essa consagração é reconhecida somente por aqueles que estão envolvidos diretamente com o seu mestre, o universo da capoeira, não participa deste evento!

Vamos esperar meus camaradas, que como um capoeira de coração e atitude, sejamos algum “Capoeira Especial”!

Brasília, DF, 1 de janeiro de 2014

HÉLIO TABOSA DE MORAES- Mestre Tabosa

Fonte: http://mestretabosa.blogspot.com.br/

Capoeira em Tempos de Pandemia

Capoeira em Tempos de Pandemia

O ano de 2020 foi desafiador, uma Pandemia mundial fez com que aprendessemos a valorizar o olho no olho. A arte e a cultura foram essenciais para nossa saúde mental e a Capoeira se reinventou e ajudou muita gente a passar melhor por essa tempestade que assolou o mundo.

Durante o período de isolamento social Capoeiristas do mundo inteiro produziram vídeo aulas, tutoriais, eventos, bate papos, lives no YouTube, Instagram e Facebook. Aprenderam a utilizar programa de estreaming e edição para que a Capoeira sobrevivesse mesmo sem sua principal motivação de ser que é a reunião da comunidade de Capoeiristas. Por aqui não foi diferente eu produzi mais de 50 vídeos com aulas divertidas e com uma linguagem toda adaptada para que as crianças não deixassem de continuar gingando dentro de suas casas, foi um trabalho difícil, desafiador mas que permitiu que as pessoas continuassem se conectando a Capoeira e a comunidade de Capoeiristas.

Capoeira em Tempos de Pandemia Capoeira Portal Capoeira

É isso o que acredito ser Capoeira, a capacidade de se reinventar e descobrir novas formas de conectar as pessoas em volta do Berimbau. Você pode assitir a todo material produzido no meu canal do YouTube (Lucas Buda Capoeira) youtube.com/lucascdcr venha fazer parte dessa roda virtual com a gente.

Por: Lucas Buda

Fonte: https://capoeirainfantil.org/

Entre a Capoeira Referenciada e a Copiada

Entre a Capoeira Referenciada e a Copiada

O dias atuais tem nos convocado a pensarmos de forma mais ampliada, considerando o rompimento com alguns modelos e dogmas sociais, sendo a capoeira palco também desta demanda. Assim, tentarei tratar um pouco sobre o desafio de se romper o molde de protótipo de “super capoeira” da atualidade.

A economia de mercado tem “coisificado” pessoas, transformando-as em engrenagens de um famigerado negócio em favor do lucro a qualquer preço, e em capoeira temos isso expresso, dentre as muitas maneiras, na forma que nos movimentamos no jogo.

Geralmente o modelo de “sucesso” econômico em capoeira é aquele mais adequado ao que o “mercado” quer ver, e isso esta tão impregnado nos praticantes, que a maioria nem se percebe fazendo movimentos e expressões completamente desconectados da dinâmica cultural da arte, e/ou alheio ao que se pede no ritual daquele momento.

Certa feita perguntei a um destes “super capoeira” do momento, por que ele durante o jogo fazia uma parada de mãos, arqueando a coluna e olhando para o chão? …Ele respondeu que fazia isso porque era um movimento difícil e esteticamente bonito….Eu, por curiosidade, perguntei…E se o cara que tá jogando com você te der uma cabeçada?….Ele respondeu….”Aí ele está sendo desleal, pois é o momento do floreio …..Agradeci o diálogo e fui embora….No outro dia, após a oficina deste rapaz, estavam todos tentando fazer o mesmo movimento….E aí, o que dizer?

Entendi que imitar evita pensar muito, pois basta copiar, contudo, a capoeira nem sempre segue o ordenamento bonitinho….rsrsrs…..Na primeira festa de largo destes capoeiras cópias, eles entenderam que “calça de homem não cabe em menino”….E o pior é que muitos não entenderam até hoje o que aconteceu…

Qualquer movimento é benvindo em capoeira, desde que o “texto/jogo” respeite o “contexto/ritual”, pois fora disso, irá facilitar muito a vida de quem joga com essas figuras, pois viu um copiador, já viu todos.

Nossa reivindicação é em favor de termos uma capoeira com referência, em que a forma de jogo, lembra alguém que me inspira, e não o que temos visto hoje, uma total perda de identidade.

O esporte capoeira me preocupa, pois a depender do formato, poderá enquadrar, rotular e pasteurizar a dinâmica de jogo, e se assim for, a capoeira vai “chorar” e se esvair do corpo de quem a prática.

O mistério da capoeira é o “velho no novo”/ancestralidade, e o espírito “novo no velho”, com capacidade adaptativa temporal para continuar contribuindo com a arte , reinventando-se sempre que necessário.

Vem comigo, pois sozinho não consigo…Vamos na “forma” sem forma, no jogo que deixa fluir o inusitado e faz brotar a capoeira de “dentro pra fora”.

Axé.

Responsabilidades formativas em capoeira: O “freio de arrumação” na “casa de mãe joana”

Responsabilidades formativas em capoeira: O “freio de arrumação” na “casa de mãe joana”

Os ditos populares do subtítulo fazem referência a organização abrupta (freio de arrumação) de algo desorganizado (casa de mãe Joana). Neste sentido, seguiremos fazendo uma reflexão sobre as responsabilidades dos envolvidos no processo formativo em capoeira.

O Mestre será sempre o principal responsável pela formação de seus discípulos, mesmo que devamos considerar a coparticipação de outros agentes nesse processo, incluindo o próprio discípulo.

Quando um Mestre atribui uma titulação a alguém em capoeira, ele empresta “valor” a um dado processo formativo, que invariavelmente influência a comunidade para além dos limites da instituição que os envolvidos diretamente fazem parte, ou seja, graduar/reconhecer alguém em capoeira é como o cometa, ele passará, mas sempre deixa um rastro com seu “rabo”.

Esse papo de autonomia na formação é extremamente perigoso, pois cria a falsa ideia de que ações individuais não podem ser também parametrizadas pelo coletivo, como se uma pessoa pudesse sair atirando livremente nas ruas por conta do respeito à sua autonomia decisória.

As motivações para se graduar alguém em capoeira são as mais variadas possíveis….o Mestre precisa de grana….o Mestre quer demonstrar poder….o Mestre quer expandir seu “negócio”….o Mestre quer fazer uma “moral” com quem gradua….sei lá.. São tantas aberrações que chega a ser constrangedor descrever aqui. Desta forma, muitas vezes, a intenção primeira do processo formativo, desenvolver a capoeira, fica ofuscada pelos delírios de um Mestre “confuso”.

Qual a justificativa para se graduar alguém afastado da capoeira? Como é possível alguém chegar a mestria sem ter serviços prestados à capoeira? É legítima uma titulação “na tora”, apenas pela vontade de quem gradua?

Uma analogia interessante é quando imaginamos um tocador de piano clássico que não sabe afinar o próprio instrumento….”estranho”, mas na capoeira é possível ver alguém chegar a mestria sem saber nem armar um berimbau, pois para esse indivíduo, afina-lo seria uma espécie de “luxo pedagogico”…Onde vamos parar nessa “casa de mãe Joana”?

E se não bastasse o equívoco de agentes diretos envolvidos neste absurdo, ainda temos uma comunidade que tolera, aplaude de frente, e fofoca pelas costas destes Mestre atrapalhados, sendo o mais grave de tudo isso, que todos sabem, pelos códigos simbólicos culturais, quem tem “nome” e quem tem “apelido”.

Em alusão ao “mito da caverna” de Platão, penso que é preciso fazermos um pacto pela capoeira, sendo justos conosco e com o coletivo, convocando as pessoas que se enquadram nessa absoluta obscuridade, a sair da zona de conforto e buscar a “luz” fora da “caverna”/Mestre/grupo.

Se liga, pois quem é de grupo não cai em “grupo”.

Axé!

Capoeira: A leitura do “todo” pela análise da “parte”

Capoeira: A leitura do “todo” pela análise da “parte”

O século XXI nos imprime uma serie de releituras sobre alguns papeis sociais, dentre estes, destacamos a figura do facilitador em capoeira, considerando que este constantemente está sendo resinificado pelas demandas da conjuntura atual.

A mestria, em tese, deveria ser um ato sublime, pois pressupõe a possibilidade de difusão do conhecimento e consequente continuidade de uma arte ancestral, contudo, nem sempre tem sido assim, pois a figura do mediador em capoeira parece corroída pelas contradições da exploração do homem pelo homem. Assim, temos visto em muitos lugares uma relativa confusão sobre as reais implicações formativas de um processo de ensino aprendizagem capitaneado por alguém que não se coloca a serviço dos interesses da capoeira e sua comunidade.

Hoje, são frequentes as reuniões de pessoas que buscam, mediante objetivos comuns, a criação de espaços de poder que funcionam como uma espécie de “escudo das incompetências”, ou seja, são encontros sectáristas de um dado segmento do segmentos, que excluem a possibilidade de diálogo com a diversidade que compõe a comunidade, em favor do argumento de empoderamento dos membros reunidos e afins. Neste sentido, se este processo fosse apenas uma estratégia de fluxo provisório, mesmo estando em desencontro com a lógica inclusiva da capoeira, seria menos mal, mas o que estamos observando é uma avalanche de eventos propondo discussões fragmentadas, que enfraquecem a força coletiva de uma comunidade que clama por dias melhores.

Na formação em capoeira cabe ao mestre a responsabilidade de guiar os mais novos no processo educativo, mas muitas vezes, estes preferem ficar à margem dos espaços decisórios, ampliando o espaço para os “grupinhos”, que habilmente sabem usar o discurso para criar uma falsa ideia de que estão ali para defender os interesses do coletivo, contudo, sabemos que na realidade só estão preocupados com seu próprio “umbigo”.

Obviamente todos os temas emergentes na sociedade podem e devem ser abordados como estratégia formativa, mas daí a submeter a comunidade a dita “polêmica do minuto” apenas como forma de aparecer, denota um procedimento egoísta e pouco producente para a arte.

Os eventos, aglutinações, grupos, dentre outros, deveriam sempre estar focados nos interesses da comunidade e sua melhoria, mas as disputas de poder ofuscam o bom senso e levam pessoas esclarecidas ao equívoco de confundir a leitura da “parte” como resposta para os desafios do “todo”.

Vamos refletir sobre o que desejamos e como agimos para atingir os objetivos, pois muitas vezes falamos uma coisa e executamos ações contrarias a intenção daquilo que expressamos.

 

Por: Mestre Jean pangolin

O Corpo da Capoeira

O Corpo da Capoeira Extrapola o físico, vai além do entendimento do que é palpável… Adapta se e se reinventa… Transforma e regenera… O Corpo da Capoeira personifica a Liberdade de expressão, evolução e a busca do auto conhecimento… Ele é imaterial, imensurável, divino… uma profunda e vasta relação emocional… É memória é sentimento… É o cantar de uma mãe ao filho.

 

Nosso amigo Thiago Ferreira (Capoeira de Besouro)  traz uma importante reflexão: O corpo da capoeira

O corpo da capoeira e a Capacidade de buscar novas formas (se deformar) em cada individuo, de achar em cada um, a virtude de se adaptar, de compensar o que não e dominado a serviço de se expressar . Um ato de Liberdade. Uma forma única de evoluir internamente. Um processo de alto conhecimento.

O corpo da Capoeira não é a pratica, também não é palpável… “O corpo da Capoeira” é subtil, imaterial, intrínseco, plural e metafisico… ele consegue mover o corpo físico, e ligar ao plano espiritual, no seu mais profundo sentido…. aflora sentimentos, gera reflexões, nos faz sentir que somos parte de algo muito maior.

Uma nova noção de todo corpo, uma conexão alem do entendimento comum, como “o cantar de uma Mãe ao filho”. Como um Rabo de lagartixa, ele pode se compensar, se regenerar e  buscar novas virtudes, sempre a serviço de uma liberdade única e exclusiva de cada um.

Não é uma coisa só de educação e fundamentos. Não é só uma ideia de formação. Pensar que este corpo se limita a isso é subjuga-lo, é menosprezar a força e o tamanho deste poder…. uma compensação advinda da adversidade.

Então qual e o corpo da capoeira que eu quero ter? Qual e o tamanho do corpo da minha capoeira?

Como capoeira, eu percebi que o tamanho da minha capoeira, tem que ser, nem que seja com muita forca, o tamanho da minha sensibilidade. O corpo da minha capoeira não pode ser só, o tamanho do meu corpo físico. Também não só da minha motivação, nem tão pouco só alguma forma de credulidade espiritual… mas sim, o tamanho daquilo por que, por quem, e como EU ME EMOCIONO E ME RELACIONO. É todo um corpo social, e nesse corpo social, é que a capoeira exerce uma de suas maiores virtudes: “A agregação”.

Estar juntos… No que familiariza, e no que difere, nos relacionarmos, nos construir, confiar, ser e estar…

  • (ver texto abaixo do querido Mestre Decanio)

 

Ø Jesus pregou a cidadania como Lei Divina
# Somos todos irmãos

Ø Vigotisky concebeu a cidadania como decorrência lógica da vida em sociedade e cooperação inter-pares
# A vida em sociedade ou grupo baseia-se na cooperação entre seus membros ou pares
# Nenhum homem se constrói HOMEM sem a cooperação de OUTRO HOMEM

Ø A capoeira materializa a cidadania pela indispensabilidade de respeito e confiança mútua entre os seus praticantes
# A Capoeira parece um embate de corpos, mas é um encontro de corações em clima de harmonia, felicidade e amor

Jesus, Vigotisky, Capoeira e Cidadania

 

Uma constante luta contra toda essa segregação, a cada dia mais vigente,  infelizmente acontece em nossa capoeira. Grupos são exaltados e tratados como verdadeiros impérios. Mestres ou melhor pseudos mestres se comportam como imperadores. Então através desse processo se permite todo uma agressividade física verbal e social… Seja na capoeira ou em qualquer outro aspecto cultural.

É la no embrião da capoeira, na sua formação como um corpo social, que não separa grupos, por imposições genéticas, como famílias, que não divide por classes e não reconhece raças, não separa por etnia, pigmentação ou por qualquer razão vazia como orientação sexual, é ai que este corpo toma forma… cresce… prolifera… nasce e morre… em cada aú, em cada ginga, cada canção… e no toque do berimbau… no olhar e no aperto de mão… é ai que vive O CORPO DA CAPOEIRA.

O corpo social da capoeira, é o tamanho do que eu quero para o meu corpo como capoeirista. Que tem a adversidade como principal elemento para a formação de comunidades, organizando uma necessidade de cantar mos juntos uma mística maior. O cantar de uma Mãe ao filho.

 

Texto: Thiago Ferreira Eletrodo (Capoeira de Besouro)

 

 

AQUILO QUE DEFINE UM BOM CAPOEIRA…

Muitos de nós já nos confrontamos com esta questão… Às vezes devemos parar e refletir sobre tudo aquilo que estamos fazendo… Fazer uma auto análise é fundamental para percebemos se estamos nos construindo, nos formando homens ou mulheres que em sua caminhada terão a responsabilidade, de transmitir a nossa arte de maneira digna…

Então, como é que podemos avançar nesta direção se nosso discurso não se aproxima dos nossos atos…???

“A NOSSA INCOERÊNCIA É A PRINCIPAL VILÃ, SOMOS NOSSOS PRÓPRIOS ALGOZES

Uma das primeiras demandas nesta árdua jornada é se manter fiel… Ético… Íntegro e lutar contra a tudo aquilo que não se encaixa nesta pintura!

Não é preciso muito, basta apenas bom senso e educação para se perceber toda esta temática.

Estamos vivendo momentos muito difíceis na nossa capoeiragem… Nossa comunidade tem sofrido diversas rupturas e crises…

Nossos problemas vão desde a “simples vaidade” até à imperdoável PEDOFILIA…

São tantos… Dos mais simples aos mais complexos…

Mas hoje eu venho falar sobre o “Saber chegar e o Saber estar…”

Dois saberes básicos que definem toda uma trajetória…

Então vamos refletir sobre ética e respeito… Fazer uma introspecção sobre aquilo que te move e motiva… Sobre como podemos estar juntos, trabalhando em prol daquilo que inegavelmente todos nós amamos…

Vamos começar por pequenas coisas… Pequenos passos… Como por exemplo: Gratidão.
Você consegue entender este sentimento…?

Avançamos então para o respeito… Uma das mais importantes referências sobre o carácter humano pode ser revelado apenas pelo respeito…

Comecei o texto falando sobre aquilo que define um bom capoeira… Porém na verdade sempre pretendi que esta reflexão fosse sobre o ser humano… Pois antes de sermos capoeiristas somos humanos, cheios de contradições, erros, acertos e uma inundação de outros sentimentos…

Para sermos bons capoeiristas temos antes de tudo de sermos melhores seres humanos…

RESPEITO, ÉTICA E COERÊNCIA…

 

  • SAIBA CHEGAR.
  • SAIBA ESTAR.
  • RESPEITE O OUTRO ASSIM COMO GOSTARIA DE SER RESPEITADO.
  • RESPEITE O TRABALHO DOS OUTROS.
  • SEJA GRATO SEMPRE QUE ALGUÉM O AJUDAR.

NENHUM HOMEM SE FAZ HOMEM SEM A COOPERAÇÃO DE OUTRO HOMEM *

* Vigotisky

Fica este desabafo e esta reflexão para nossa comunidade…

Então, vamos procurar sermos melhores capoeiristas?!?

Luciano Milani

 

REPERCUSSÕES:

 

 

Publicado a 03/09/2019

CAPOEIRAS: Plantando Abacaxi para colher banana

CAPOEIRAS: Plantando Abacaxi para colher banana

É preciso diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, até que num dado momento, a tua fala seja a tua prática. Paulo Freire A reflexão vale para todas as pessoas que desejam, no âmbito da capoeira, reconhecimento público de sua comunidade, pois o século XXI tem nos apresentado a armadilha do(a) capoeira “fake”, ou seja, aquilo que só parece ser, mas de fato não é absolutamente nada.

Neste sentido, propomos um diálogo sobre este tema nestas breves palavras. A capoeira, por ser uma arte iniciática, prima pelo conhecimento adquirido da experiência vivida, ou seja, o saber emerge de uma labuta cotidiana com o “fazer”, e deste “fazer”, criamos as condições para brotar, via reflexão, um dado conhecimento sobre aspectos da natureza humana, correlatos metaforicamente com as demandas sociais de cada tempo histórico.

O reconhecimento público na capoeira vem do transito de seus adeptos no toque dos instrumentos, no canto, no jogo, no trabalho pedagógico com a arte, no conhecimento filosófico da ritualística, dentre outros, portanto, não é possível avançar na arte sem a garantia destes aprendizados basilares. Atualmente, com relativa frequência, temos sido bombardeados por uma série de discussões de interesse social vinculadas a capoeira, e isso é muito interessante, contudo, o discurso engajado por si só não é suficiente para garantia de reconhecimento público dos(as) capoeiras, ou seja, não se deve confundir os conhecimentos específicos da capoeira com o exercício crítico da cidadania. Se você defende uma prática religiosa qualquer, isso é válido e oportuno para a capoeira, mas apenas esta defesa, alijada dos conhecimentos basilares da arte e do “fazer” cotidiano, não são suficientes para sua projeção e consequente reconhecimento no mundo da capoeira.

Se você defende a difusão do conhecimento pela escrita, isso é valido e oportuno para a capoeira, mas apenas esta defesa, alijada dos conhecimentos basilares da arte e do “fazer” cotidiano, não são suficientes para sua projeção e consequente reconhecimento no mundo da capoeira. Se você defende o conhecimento intelectual, isso é válido e oportuno para a capoeira, mas apenas esta defesa, alijada dos conhecimentos basilares da arte e do “fazer” cotidiano, não são suficientes para sua projeção e consequente reconhecimento no mundo da capoeira.

Se você defende o empoderamento feminino, isso é válido e oportuno para a capoeira, pois vivemos em uma sociedade desigual e a discussão de gênero carece de aprofundamento, mas apenas esta defesa, alijada dos conhecimentos basilares da arte e do “fazer” cotidiano, não são suficientes para sua projeção e consequente reconhecimento no mundo da capoeira. Se você defende um projeto político ideológico, isso é válido e oportuno para a capoeira, pois a politização de nossa comunidade é um importante exercício de cidadania, mas apenas esta defesa, alijada dos conhecimentos basilares da arte e do “fazer” cotidiano, não são suficientes para sua projeção e consequente reconhecimento no mundo da capoeira.

Se você defende o acesso à educação formal e possui títulos acadêmicos, isso é válido e oportuno para a capoeira, pois nos possibilita “abrir” novas portas e um diálogo com outros espaços sociais, mas apenas esta defesa, alijada dos conhecimentos basilares da arte e do “fazer” cotidiano, não são suficientes para sua projeção e consequente reconhecimento no mundo da capoeira.

Em suma, não plante abacaxi e espere colher banana, pois o reconhecimento da capoeira só chegará para aqueles que realmente possuem “serviços prestados a arte”, no toque dos instrumentos, no canto, no jogo, no trabalho pedagógico com novos aprendizes, no conhecimento filosófico da ritualística, dentre outros.

Desta forma, salvo melhor juízo, a maneira mais qualificada para exercício da cidadania a partir da capoeira, é entrelaçando as “bandeiras de lutas sociais” e o ativismo social a um berimbau bem tocado, a uma cantiga bem cantada, a um jogo cadenciado e referenciado nos antigos, a um conhecimento da ritualística, e acima de tudo, ao exercício constante do “fazer pedagógico” com seus discípulos em seu espaço de capoeira. Dedico esta reflexão em homenagem e gratidão ao Mestre Ferreira, meu amigo, meu mestre e minha inspiração.

 

Por: Mestre Jean Pangolin

A Pedagogia do Jogo na Capoeira

A Pedagogia do Jogo na Capoeira

Dentre as diversas potencialidades da capoeira no âmbito educativo, destacaremos algumas de suas possibilidades tomando como foco principal o jogo, evidenciando traços de interlocução com africanidades e a formação humano no espaço escolar.

Aprender fazendo

A capoeira nos ensina que todo aprendizado deve emergir de uma experiência vivenciada, ou seja, a perspectiva eurocêntrica do aprendizado por abstração intelectual, que nos foi apresentada na escola, não atende as necessidades funcionais da arte, pois não consegue dar conta das subjetividades pulsantes de se aprender a tocar tocando, cantar cantando, jogar jogando, e de todo o fluxo interativo de um aprendizado vivo e significativo.
Valorização do mais antigo

Socialmente fomos adestrados a encarar a pessoa mais velha como um fardo social, algo inútil, pois sua capacidade produtiva e de gerar renda estariam em franco declínio, ledo engano, pois a capoeira nos ensina que sem o mais antigo não existirá continuidade de construção do conhecimento, pois perderíamos o acesso a todo acumulo de experiências destes indivíduos. Desta forma, na roda, o mais experiente é sempre o mediador dos processos, cabendo a ele a responsabilidade da garantia da construção do novo, estando este adaptado as necessidade conjunturais de cada tempo, sem contudo, perder de vista a conexão ancestral com os fundamentos estruturantes da arte.

Perder e ganhar

Na capoeira aprendemos que o ganhador não será necessariamente aquele que anula o outro, pois o jogo nos ensina que a verdadeira vitória só surge pelo signo da dupla, ou seja, o vencedor sempre será aquele capaz de deixar o parceiro sem respostas para suas perguntas e ainda ansioso e capaz de continuar tentado responder, pois é preciso vencer em franco fluxo da dinâmica do jogo, ganhando não aquele que finaliza o outro, mas sim aquele que mantem o outro em atividade e com a crença de que poderá vencer.
Com certeza, para muitos, é difícil entender a explicação acima, pois fomos educados a pensar em uma única perspectiva de competição, aquela que para garantir a vitória precisa anular e/ou subjugar o oponente da peleja, pois esta é a lógica do sistema capitalista, privilegiando um em detrimento de todos os outros, matando a noção de comunidade e construção coletiva para o bem comum.

Respeito as diferenças

Vivemos em um mundo que tenta a todo o momento nos enquadrar, criando padrões que facilitem o controle e nos tornem presas fáceis do consumismo, e a escola não tem, historicamente, fugido a esta lógica, pois diversos são os elementos que homogeneízam os indivíduos e tentam anular as diferenças em seu cotidiano.
Na roda de capoeira ser diferente é condição primordial, pois só poderemos constituir uma boa dinâmica, na medida em que pessoas diferentes possam executar funções diferentes, alguns tocando, outros cantando e uma dupla jugando, ou seja, a diversidade é o catalizador de aprendizado pela complementariedade que o outro, diferente de mim, poderá aportar para resolução de problemas que auxiliarão a todos daquele contexto. Desta forma, a roda de capoeira funciona como uma metáfora da roda da vida, explicitando que os diferentes são complementares para o bom andamento da dinâmica social.

O corpo como registro do saber

O nosso corpo foi historicamente negligenciado como repositório de um saber ancestral, pois o mesmo sempre foi tido como uma espécie de simples suporte para sustentar o intelecto, ou seja, um corpo para suor e músculos, como sustentáculo de uma cabeça, única responsável para construção do conhecimento. Neste sentido, crescemos com a ideia equivocada de subutilização da corporeidade como estratégia de construção do saber, negligenciando as potencialidades do movimento na pedagogia para emancipação humana.

Em capoeira aprendemos que o corpo pensa e fala por seus movimentos, interpretando realidades, expressando sentimentos e trazendo encaminhamentos para os diversos conflitos de uma dada comunidade, pois este corpo passa a ser entendido como um repositório de experiências educativas, como uma espécie de biblioteca ambulante, ratificada pela difusão de conhecimento a partir da simples observação de um grande mestre jogando.
Diversos são os exemplos de interlocução do jogo da capoeira com os processos educativos formais, portanto, acima destacamos apenas alguns, contudo, estes só terão a eficácia desejada no chão da escola, na medida em que esta se transforme numa espécie de extensão da própria comunidade, contextualizado conteúdos e atuando de forma fluida e dinâmica em favor dos anseios de cada tempo histórico.

Sonhamos com a capoeirização da escola, pois estamos cansados da inoperância transformadora da escolarização da capoeira.

 

Mais sobre: Mestre Jean Pangolin

 

 

MUITO ALÉM DE… ESPORTE !

MUITO ALÉM DE… ESPORTE !

 

“Era a arma utilizada
pelos negros desnutridos…
contra branco forte, armado,
o Negro é bem sucedido”!
(trecho de ladainha / anos 70)

 

Por mais estranho que pareça, a Capoeira é vista por quase todos como Folclore — e não esporte ! — mesmo que de forma inconsciente, intuitiva. Artes Marciais antigas como Judô, KungFu, Karatê, carregam uma essência, uma mística do Passado dentro de si. Nossa Capoeira a tem de sobra, as raízes africanas continuam presentes e sua Música e canto grupal acentuam isso. Futebol tem 2 séculos, corrida e natação vêm de gregos e romanos, são milenares, mas sem carisma. Felizmente a Capoeira encerrou sua fase de “conquista de territórios”, abrindo Grupos de qualquer maneira em muitos lugares ou com professores medianos. Chega de amadorismos, a Dança-Luta está no Mundo inteiro e não pode se dar ao luxo de ser mal-vista ou desdenhada como “coisa menor”, “de quem não tem o que fazer”… nos disse um prefeito evangélico em 1989, em nosso município, quando lhe pedi ajuda.

 

Esportes têm regras — muitas delas — e a Capoeira também, por parte de Federações… segundo meu irmão, falando para um jornal de Belém em 1987, “as regras da Capoeira acabam quando começa o jogo”. A frase é “maldosa”, embora naqueles tempos até fizesse sentido ! “Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”! Hoje professores e mestres dela precisam estar atentos, não há mais leigos a assistir suas apresentações, todo mundo agora conhece os rudimentos da luta. Eventos e shows exigem os melhores, aluno iniciante é só para completar a Roda, o círculo. Canto e toques devem estar “nos trinques”, o berimbau é o elemento soberano, nada de “estapear” o pandeiro ou “socar” o atabaque, para que seja ouvido na lua.

 

Há na platéia pessoas com noções de canto e música, observando o andamento do show e as falhas, quando houver. Quem canta, mantenha sempre o ar nos pulmões para a voz não sair ríspida, seca, desagradável. Palmas firmes, “respostas” vivas, a fim de que o mestre não tenha que passar pelo vexame de intimar… “abre a boca, gente”! Tudo isso é Passado, Capoeira agora tem que ser excelente, é o que o público espera dela !

 

Nessa busca pela modernidade como ficam os símbolos ? Dormem “em berço esplêndido”, criados a 30 ou 50 anos atrás por professores, “treinéis” e mestres “paus para toda obra”, que tinham que fazer TUDO no Grupo, desde pintar as paredes do local de treinos até… criar e DESENHAR o símbolo. Daí termos ainda hoje verdadeiros “garranchos” como símbolos. É hora de mudar, capoeiristas jogam, desenhistas desenham ! Quem quizer algo mais exclusivo faça uma foto posada do movimento e leve-a a um bom desenhista. Programas de computador já “transformam” foto em desenho… quer fazer isso você mesmo ?! O caminho mais simples é XEROCAR sua foto, ampliada. Se conseguir papel carbono tanto melhor, seu desenho sairá completo na página por baixo da risca, a ampliação original. Marque na xerox somente as partes escuras, vá circundando essas partes negras. Use fita DUREX para manter bem unidas as 2 folhas, a de baixo em branco. Terminou ?! Aí está em tamanho grande o novo desenho do Grupo, a partir da tal foto… você tem apenas traços, “riscos”, se quizer sombra e cores terá que acrescentá-las. Fiz um “esboço” a partir de foto colorida de um cantor, poeta e cordelista mineiro, “Zé Ribeiro”, que “baixei” do Facebook. Para inverter “vire o carbono” ao contrário ou use os recursos do próprio PAINT, program do WINDOWS.

 

A “quadriculação” da foto original é o caminho mais curto… aumenta-se os quadradinhos no papel de reprodução da imagem.

 

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De minha parte, insisto: é preciso “quebrar a estética” do símbolo redondo, que soa antigo, pouco criativo. Mesmo que seja mantido, é possível modernizá-lo, embora hajas resistências. Em junho/1988 fizemos meu irmão e eu um concurso aberto entre os “capoeiras” de Belém para eleger o símbolo do nosso Centro Cultural – CCCP. Além de nós, só 2 desenhos externos, entre êles o vencedor, mal desenhado mas com o mapa do Pará (e colorido !). Usando as vantagens da xerox em colagens criativas a partir de fotos de Rodas e movimentos — com os rostos de Pastinha ou de Bimba — fizemos 13 desenhos, muito mal votados, por sinal. (Cada pessoa presente podia escolher 3 desenhos e venceria a obra com mais pontos.) Recusaram quase todos os meus 10 desenhos, dos 3 de meu irmão o REDONDO teve mais votos e um “bairrismo” tolo falou mais alto, premiando a bandeira do Estado sobre o mapa, com 2 “capoeiras” em cima. É a Vida !

 

“NATO” AZEVEDO (em 25/jan. 2019)