BATUQUE: “Pai João, capoeira e navalhista”
08 Dez 2014

BATUQUE: “Pai João, capoeira e navalhista”

Mais uma passagem da capoeiragem pela amazônia se deu nos versos do poeta Bruno de Menezes, nascido em 1893 no bairro do

08 Dez 2014

Mais uma passagem da capoeiragem pela amazônia se deu nos versos do poeta Bruno de Menezes, nascido em 1893 no bairro do Jurunas, em Belém do Pará, deixou um importante legado a cultura amazônida em seus versos e prosas, falecendo em 1963 na cidade de Manaus. Em seu livro Batuque publicado pela primeira vez em 1931, o poeta conta a história de Pai João, capoeira e navalhista que cisma no tempo de ontém, que de tanta desordem e furdunço, foi recrutado para Guerra do Paraguai lutar. Segue abaixo o texto…

 

Pai João

Pai João sonolento bambo na pachorra da idade

Cisma tempo de ontém.

De olhos vendo o passado recorda o veterano

A vida brasileira que ele viu e gozou e viveu!

Mãe Maria contou que o pai dele era escravo…

Moleque sagica e teso, destro e afoito num rolo,

Pai João teve fama de capoeira e navalhista.

– Eita!… era o pé comendo,

quando a banda marcial saía à rua,

com tanto soldado de calça encarnada.

E rabo-de-arraia, cabeçada na polícia,

xadrez, desordens, furdunço no cortiço

e o ronco e o retumbo do zonzo som molengo do carimbó.

“Juvená

Juvená!

Arrebate

esta faca

Juvená!

Arrebate

esta faca

Juvená!”

De amores… uma anágua de renda engomada,

um cabeção pulando nos bicos duns peitos,

umas sandálias brancas bem na pontinha dum pé.

E o rebolo bolinante dos quartos roliços da Chica Cheirosa…

E a guerra do Paraguai! Recrutamento!

Gurjão! Osório! Duque de Caxias!

Itororó! Tuiutí! Laguna!

E não sabia nem o que era monarquia!

… Agora, sonolento o bambo,

tendo em capuchos a trufa,

Pai João ao recordar a vida braisleira,

que ele viu e gostou e viveu,

diz do Brasil de ontém:

AH! MEU TEMPO!…

 

80 anos de ‘Batuque’, do poeta Bruno de Menezes

Foi em junho de 1931 que saiu a primeira edição do livro de poemas“Batuque”, do poeta e folclorista paraense Bruno de Menezes, um registro da presença do negro na cultura brasileira. De lá pra cá já saíram sete edições, o que para Maria de Belém, filha do escritor, é uma grande conquista.
A segunda edição contou com ilustrações de Garibaldi, já a quinta foi uma tiragem especial em comemoração aos 350 anos de Belém. As ilustrações desta edição estão no piso do palanque da Praça Bruno de Menezes, no bairro de Canudos. O escritor publicou um total de 13 obras, sendo as primeiras tiradas pela Tipografia Guará, na Cidade Velha.
 
Criado no festivo bairro do Jurunas, conhecido por suas tradições populares, Bruno de Menezes, ou Bento de Menezes, como foi batizado, só fez o curso primário, o que não o impediu de imprimir em seus livros todas as manifestações de sua vivência. Foi o ofício de encadernador que o levou a apaixonar-se pelo mundo dos livros.
 
Obra reflete a musicalidade negra
 
Maria de Belém tem em “Mãe Preta” e “Pai João” alguns de seus poemas preferidos do livro “Batuque”. Funcionária aposentada da Justiça do Trabalho, a filha de Bruno de Menezes esbanja lucidez do alto de seus 84 anos de vida, e não deixa de citar, com orgulho, seus irmãos e os atributos de seu pai. “Meu pai era um homem cordial, alegre e presente, sempre nos incentivava muito na leitura e nos estudos”, relembra.
Com ilustrações de Raimundo Vianna, “Batuque” já foi adaptado para espetáculos e homenageado diversas vezes, como nas peças “Bento Bruno”, de Carlos Correia Santos, apresentada no ano passado pelos alunos da Fundação Curro Velho, no Teatro Waldemar Henrique, e “Batuque”, apresentado pela Cia. de Dança Clara Pinto no Theatro da Paz.
(…)
“A musicalidade dos poemas dele mostram o negro cantando a noite para disfarçar a dor de seu sentimento na senzala”, diz Maria de Belém.
João Bosco Castro chegou a musicar “O Cheiro da Mulata” e a “Escola dos Sapos”. “Numa excursão à França, brincava-se que o cheiro da mulata se comparava ao cheiro dos perfumes franceses”, divertem-se as filhas de Bruno.

 

“‘Batuque’ não fica só nas estantes de livros; é uma obra que tem um destaque popular e desceu para a alma do povo. São 80 anos de alma viva. Não é uma comemoração saudosa, é participativa”, emociona-se Maria de Belém.

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