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Contemplações

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Militância

Um debate político como o que acontece no Brasil neste momento, e não somente lá, se torna problemático quando cada campo oposto pensa em ter o domínio da verdade, enquanto o debate político – e as propostas expressadas nela – sempre trata de opiniões; de interpretações da realidade e perspectivas sobre como agir nessa realidade. Mas, quando as opiniões são vendidas como verdades, isso leva às posições absolutas e radicais, e suas consequências: aonde uma pessoa de 63 anos é apunhalada 12 vezes nas costas por uma pessoa de 35 anos, por causa de uma posição política que é diferente – como lamentavelmente aconteceu esta segunda-feira com o saudoso mestre Moa do Katendê. Pessoas da mesma cor, da mesma classe social, do mesmo bairro. Influenciada pelos discursos de ódio, sem levar em conta o absurdo que está fazendo, e a destruição e perda para a comunidade que foi feito com um só ato.

Quer dizer que tudo é relativo e por nada, porque ninguém está certo? Claro que não. São debates entre ideias; ideologias como o país tem que ser governado, como pessoas querem viver, o que é justo, o que é o bem, e o que não é. Mas ideias e ideologias são exatamente isto: opiniões. Opiniões que podem estar mais certos ou menos certos, de acordo com a realidade – da qual a constituição e as politicas implementadas anteriormente fazem parte – e os ‘fatos’.

Por isso a gente vê aquele bombardeamento continuo nas redes sociais e mídia – de um campo contra ou outro – com os ‘fatos’: para mostrar que a ideia deles é melhor que a dos outros. Porque, uma boa ideia ou ideologia é fundado nos fatos e realidade, ou dizemos, verdades concretas: a taxa de alfabetização, a porcentagem da pobreza, o salario mínimo de um trabalhador, o lucro de uma empresa, o numero de pessoas baleadas por ano, etc. Fatos que ainda podem ser manipuladas, como o Mark Twain nos ensinou[1], e como todos que trabalham com estatística, sabem: basta adaptar os parâmetros. Igualmente as leis podem ser mudadas; temos um parlamento para isto. Então, o que é verdade mesmo?

Vamos começar com a morte de um musico e mestre de capoeira. Aí, não há mais como escapar: é uma verdade para todos e todas, sem exclusão – não há quem não reconheça a morte aqui na terra. Então se uma verdade é verdade mesma, ela é para todos, sem exclusão. Uma verdade é então universal, e por ser universal, inclusiva. Então uma politica ‘de verdade’ só pode ser inclusiva.

 

Numa outra colunaeu já falei sobre o que é considerado ‘politico’ pelos vários pensadores políticos de hoje: é uma situação de desacordo, onde um elemento entra na situação estabelecida de onde sempre estava excluído, mesmo pertencendo à situação. (Como por exemplo podemos ver com pessoas ilegais, que estão num país, mais não ‘existem’ lá.) No momento que esse elemento aparece e exige ser incluído, ele mexe com a nossa percepção da realidade e – quando reconhecemos a sua verdade de exclusão – causa uma ruptura na situação, uma transformação – porque enquanto reconhecido, não podemos mais excluir. Uma verdade mostra sempre uma forma de exclusão existente, e exige de terminar isso.

 

Traduzida à sociedade Brasileira, vemos a exclusão dos LGBT; das mulheres como cidadãsiguais ao invés de objetos de desejo e mães de família; dos pobres e marginais; das descendentes de africanos e indígenas. Elementos da sociedade Brasileira que sempre foram excluídos e para que vários sujeitos políticos (indivíduos e movimentos) entraram numa luta de inclusão nas última(s) década(s). A reação reacionária que viemos hoje mostra que esse processo de inclusão não é automático, nem determinado; a gente pode simplesmente continuar negando esses elementos – podemos negar verdades. Por isto é um processo político – a gente tem a escolha. Seguindo Alain Badiou[2], há 3 maneiras de não-atuar e não dar consequência as verdades surgidas:

O primeiro chama-se simulacro– que é dar consequência numa verdade falsa. Uma verdade falsa parece uma verdade em todos os sentidos, mas em vez de promover a universalidade, ela organize uma mudança da situação baseada em particularidades; a promoção indefinitivamente de um conjunto específico – ‘os trabalhadores honestos’, ‘as verdadeiras Brasileiras’, ‘as famílias’ – sem dar meios ou voz para aqueles que vivem ao redor disso. É uma verdade exclusiva que, como nós vimos antes, é contraditória. E então uma verdade falsa, que só leva à guerra e ao massacre.

Segundo é a traição– a negação de uma verdade por causa de interesse próprio. Porque o aparecer – o evento – de um elemento excluído sempre causa uma crise na sociedade e na pessoa. Porque aqueles que reconhecem essa verdade têm que dar consequência à ela também – a verdade exige. O máxime para quem dá consequência a verdade é ‘Continuamos!’ (Como se escuta agora muito depois da morte de mestre Moa), mas a opinião sempre está conosco, sussurrando que a minha fidelidade à verdade pode estar errada, que talvez eu esteja fazendo um terror sobre mim mesmo, e que parece que estou causando a confusão que queria evitar, etc. Não é simplesmente uma renuncia de uma verdade (porque uma verdade não dá para ser renunciada), mas um convencimento de mim mesmo que não sou capaz de me tornar um militante, um sujeito diferente, de mudar. No fim então, é a traição de mim mesmo como sujeito político.

O último se chama odesastre– que é a crença que o poder de uma verdade é total e absoluto. Mas verdades só existem dentro do ambiente das opiniões – a gente se comunica, têm opiniões. Não há outra historia que a nossa, não há um mundo ‘verdadeiro’ a chegar. Nosso mundo é – e sempre será – feito do verdadeiro e do falso, do bem e do mal. O bem só é o bem enquanto ele não pretende mudar o mundo pelo bem (e assim arrancar o mal). Todo absolutismo de poder de uma verdade organiza um mal. Um mal que não só é destrutivo para a situação, mas também interrompe o processo da verdade em qual nome ele continua, porque não preserva a dualidade do sujeito. Por isto chamamos um desastre de verdade, causado pela crença no absolutismo de poder dela. Porque uma verdade não pode – nem consegue – mudar todos elementos duma situação; sempre há de ter elementos que restam inacessível por ela, e que reste a pertencer à opinião.

 

Essas três maneiras de agir ou não-agir numa verdade aparecida, Badiou chama o ‘mal’. Porque é a agencia do sujeito que é mal, não porque é induzido pela bíblia ou uma concepção abstrata do bem, mas simplesmente pelo ‘não agir’, ou agir numa concepção errada da realidade.

O que é o bem então? Se a gente pensa que a verdade é importante, que não queremos viver sem ela, que não queremos ser falsos, aí podemos colocar ‘uma verdade’ como tal. Não porque uma verdade é ‘o bem’, mas porque ela dá direção, como ‘o bem’. Uma verdade que é então inclusiva, universal. Reconhecer, seguir e estabelecer as consequências de uma tal verdade, sem cair numa das três formas do ‘mal’, podemos então chamar um agir ‘bom’. E isso é o trabalho de um militante.

Hoje em dia, a palavra ‘militante’ é rapidamente relacionada à violência, extremismo e até terrorismo. Também porque no Latino (de onde vem) quer dizer ‘servir como soldado’. Mas  como a luta não trata só de violência física, o militante também é aquele que ‘está lutando ativamente nas lutas ideológicas’[3]. Um militante é então aquele que luta pelos seus ideais, que são ideias políticos que concernem não só há ele ou ela. Militante luta para uma verdade que reconheceu e em que quer dar consequência – estabelecer uma nova situação. Não necessariamente com violência; Gandhi e King também são reconhecidos como militantes.

 

A capoeira foi usada como arma politica em vários instantes de historia, mas como também expliquei na mesma coluna, a capoeira é politica em si mesma também, e representa uma politica universal: porque na base não excluía ninguém, especialmente as pessoas nas margens de nossa sociedade. Então, um capoeirista só pode ser um militante dessa verdade, que é uma politica da universalidade, da inclusão, da igualdade. Toda outra posição de um dito capoeirista leva a seguir um simulacro, uma traição, ou um desastre – formas do mal.

Mestre Moa do Katendê, em o pouco tempo que conheci, era um militante de uma ideia inclusiva e não-violenta – os testemunhos se acha em Salvador, em São Paulo, Recife, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, e pelo mundo fora do Brasil. Mas mestre Moa agora se foi, assassinado por uma verdade falsa, uma ideia exclusiva, um discurso de ódio. Agora cabe a nós, mostrar que somos capoeira mesmo, que não só levantamos pernas e batemos palma, mas que representamos uma verdade inclusiva, universal. E que lutamos pelas nossas ideias; que somos militantes. E aí declaro: eu sou capoeira. E tu?

 

 

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(A imagem é parte de um fresco de uma escultura de Paul Day, chamada “The Meeting Place”, et encontra-se no St. Pancras Station em Londres.)

[1]“Há três formas de mentira: mentiras, malditas mentiras, e estatísticas” – Twain, M. (1906) ‘Chapters from My Autobiography’, North American Review.

[2]O seguindo argumento é uma interpretação e curta abreviação minha do trabalho de filosofo francês Alain Badiou. Badiou, A. (1995) Ética: um ensaio sobre a consciência do Mal, Rio de Janeiro, Relume-Dumará.

[3]Dicionário Larousse. Badiou trata a ideia do militante mais profundamente no: Badiou, A. (2009) São Paulo: a fundação do universalismo. São Paulo, Boitempo.

Violência e Capoeira – Parte 3

Violência e Capoeira – Parte 3

A última coluna que escrevi (Parte 2) provocou algumas reações e debates sobre o tema violência e capoeira. Felizmente. Porque esta série de colunas chamada “Contemplações” é para refletir, reagir, e para fazer agir. No fim de uma conversa, resolvi então abrir este espaço para uma conhecida colega minha, sobre o tema da violência de gênero, especificamente a violência contra a mulher na capoeira. Porque como na capoeira não há ninguém que sabe de tudo, na vida também não tem. E Christine Nicole Zonzon – além de ser mulher na capoeira, que neste assunto faz uma diferença importante – vem desenvolvendo há anos pesquisas, no âmbito da Universidade UFBA, sobre o assunto. Como ela então tem mais experiência nesta área, e uma voz própria, a palavra agora é dela:

 

Violência na capoeira?

Seguindo com o tema da violência na capoeira, tratado nos dois últimos Posts por Filósofo, proponho refletir sobre o tema da violência de gênero, questão que começou a ser discutida em nossos grupos e encontros de capoeira no Brasil e algures. O debate sobre a violência contra a mulher poderá esclarecer alguns aspectos mais gerais da violência na capoeira, já que, como Filósofo justamente afirma, a violência está sempre relacionada ao contexto e ao objeto.

Pelo fato de a capoeira ser uma tradição sem regras explícitas e definitivas, identificar a violência pode ser um exercício difícil. No fim das contas, a própria malícia da capoeira borra as fronteiras entre o “faz de conta” e o real, a brincadeira e a agressão. Mas a violência pode ser percebida por quem sofre seus efeitos, como me disse certa vez uma capoeirista que teve o braço fraturado na roda: “Eu sei muito bem o que é capoeira e o que é violência”. Assim, mesmo ambivalente, a violência na/da capoeira, se torna problemática (e é, portanto, problematizada) quando deixa de ser naturalizada, passando então a ser questionada. Um pouco ao exemplo dos castigos corporais outrora infligidos às crianças na família e na escola…

Mas quais são as formas da violência contra a mulher na capoeira? Recentemente, circulou na Internet um vídeo que ilustra bem duas formas em que a violência se dirige à mulher na roda de capoeira: a violência física e a violência simbólica. A primeira, a violência física é visível em dois tempos: 1. o homem suspende a mulher em meio ao jogo e beija a sua bunda (violência física de caráter sexual)…ela revida; 2. Ele aplica uma chapa no peito da parceira rebelde (violência física propriamente dita). A violência simbólica, por sua vez, se expressa no fato de que a roda continua como se nada tivesse acontecido. A violência é invisível, naturalizada, pois todos aceitam implicitamente que a mulher, antes de ser parceira de jogo, é um objeto sexual para o homem. Isso não significa que os homens e mulheres presentes concordem ideologicamente com essa agressão, mas que não pensam a respeito, não percebem o ato como sendo violência. O conceito de violência simbólica criado por Pierre Bourdieu[1] significa que dentro de uma relação de dominação, o dominado aceita e normaliza a violência sofrida porque incorporou as regras do dominante.

As reações a esse vídeo compartilhado milhares de vez foram virais, e muitas (e muitos) identificaram a violência e a condenaram, afirmando que se tratava de um acontecimento lamentável, porém isolado e peculiar… Ora, as pesquisas empíricas no campo da capoeira mostram que não se trata de um caso excepcional. Além da experiência própria enquanto mulher e capoeirista, convivendo nesse campo desde 1989, duas pesquisas que desenvolvi nesses últimos anos[2] evidenciaram o caráter estrutural da violência de gênero no mundo da capoeira. Através de entrevistas, da análise de debates nas redes sociais, da organização de seminários e discussões sobre esse tema, criou-se um espaço seguro para que as mulheres capoeiristas relatem suas experiências. Também observamos durante meses as interações nas rodas e no cotidiano de grupos de capoeira e garimpamos uma bibliografia (nunca citada nos estudos sobre capoeira!) comportando uma dúzia de estudos sobre gênero e capoeira escritos por pesquisadoras/capoeiristas[3]. Descobrimos que a dinâmica da violência sexual, física e simbólica é corriqueira em diversos grupos e estilos de capoeira no Brasil e no exterior. Entre outras figuras da violência sexista relatadas, vale destacar que o jogo de capoeira inclui novas figuras quando a interação se dá com uma mulher. Inúmeras capoeiristas são carregadas no colo no final do jogo ou jogadas no colo de homens sentados na roda, são beijadas, ridicularizadas. Viu-se até um de “nossos grandes mestres” simular uma sodomização quando sua adversária abriu uma tesoura!

Outra expressão da violência simbólica sofrida pelas mulheres na capoeira é a sua exclusão dos lugares de poder/saber: poucas mestras, poucas mulheres comandando a roda e tocando o berimbau, treino diferenciado menos desafiador por considerar que as mulheres não têm força ou habilidade semelhante aos homens, homens se recusando a jogar com mulheres na roda, entre outras…Essas violências têm sido naturalizadas até um tempo muito recente, ou na verdade, até hoje em muitos coletivos de capoeira. São violências justificadas pelo argumento que as mulheres são mais frágeis, não se esforçam o suficiente, não desenvolveram ainda as competências etc… Mas são essas mesmas mulheres tidas por incompetentes que brilham na roda, na bateria, nas discussões nos eventos organizados por e para elas!

Violência e Capoeira - Parte 3 Capoeira Portal Capoeira 1

A violência de gênero, na capoeira, pode ser associada à herança dos tempos da malandragem, dos bambas, da rua, da marginalidade. Mundo dos homens por excelência em que valores testemunhando da masculinidade como a força e a valentia não só eram necessários para a sobrevivência como acabaram instituindo uma hierarquia, um ethos. Mas lembremos também que a capoeira moderna, como surge a partir das iniciativas de Mestres como Bimba e Pastinha, buscou romper com alguns aspectos dessa cultura marginalizada, para enfatizar a educação, a poesia, a beleza, a mística da capoeira. Lembremos também que mulheres estão praticando capoeira, cuidando da capoeira, trabalhando em prol da capoeira há pelo menos 40 anos!

É hora, é hora! De repensar a violência contra quem é menos homem: a mulher, o “viado”, o “gringo”, o fraquinho… Capoeira é luta pela liberdade!

[1] Segundo Bourdieu, a raiz da violência simbólica estaria presente nos habitus culturais, especialmente no reconhecimento tácito da autoridade exercida por certas pessoas e grupos de pessoas, isto é, no respeito que “naturalmente” vincula os dominados aos dominantes. Ver: BOURDIEU, P. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007 e A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2007

[2] A primeira, realizada no âmbito do Doutorado, foi publicada pela Edufba em 2017 sob o título Nas rodas da Capoeira e da Vida: Corpo, Experiência e Tradição. A segunda (Experiências e Representações de Mulheres Capoeiristas) realizada com equipe de pesquisadores da UFBA, está ainda em andamento. Incluiu notadamente a organização de um Seminário (julho de 2017) reunindo uma grande diversidade de mulheres capoeiristas em Salvador em torno da temática da Invisibilidade da mulher na Capoeira.

[3] Entre outros estudos publicados, recomendo “COMO SI FUERAN HOMBRES”:los arquetipos masculinos y la presencia femenina en los grupos de capoeira de Madrid de Menara Lube Guizardi, Revista de Antropología Experimental, nº 11, 2011. Texto 21: 299-315.e TEM MULHER NA RODA? PERSPECTIVAS FEMINISTAS SOBRE RELAÇÕES DE GÊNERO E FEMINILIDADE NA CAPOEIRA de Paula Natanny Rocha Bezerra (Fazendo Gênero 10, 2013)

Foto principal: Arte de Lara Robatto. Logo marca do coletivo feminista de capoeira angola.

Violência e Capoeira - Parte 3 Capoeira Portal Capoeira

Christine Nicole Zonzon é capoeirista e pesquisadora interessada mais particularmente nas temáticas do corpo e da cultura, com foco na capoeira. Atualmente realiza um pós-doutorado no Programa de Pós Graduação em CIências Sociais da Universidade Federal da Bahia, desenvolvendo um projeto sobre as experiências das mulheres capoeiristas.  É autora do livro Nas rodas da capoeira e da vida: Corpo, Experiência e Tradição (Edufba, 2017).

Violência e Capoeira – Parte 2

Na última coluna escrevi sobre violência e a capoeira, e como muitas vezes o discurso sobre a violência, está relacionado ao estilo de capoeira que alguém joga. Um discurso que inclui facetas ligados à historia da nossa arte.

Mas, podemos nos perguntar se tudo é tão simples assim: se a violência é uma coisa relacionada ao estilo, à interpretação do jogo, ou se existem outras dimensões a serem abordadas

Para compreendermos melhor do que estamos falando, quando falamos de violência e a capoeira, é preciso ver a origem e definição da palavra ‘violência’ em si mesma. E como ela é entendida nas várias outras áreas da nossa existência que também encontram (formas de) violência diária.

Então, o que é a violência, no fato?

Na verdade, não há mesmo uma definição ‘geral’, ou comum, de violência, como há por exemplo de amor, felicidade ou ódio. Claro, que há uma definição no dicionário[1], mas parece estar sempre relacionado ao contexto (sentido) e ao objecto (a direcção da violência). Talvez esses são dois aspectos ‘gerais’ aplicados em qualquer tipo de violência.

É o contexto que decide se um ato é violento ou não; porque o mesmo ato pode ser violento num contexto quando não é em outro – a mesma banda dada em um iniciante pode ser muito mais violenta do que em um capoeirista avançado, ou ter uma outra significação numa outra roda.

E a violência é sempre direcionada à algo; seja um objecto, outra pessoa, ou à si mesmo. Quando falamos sobre direcção, prendemos também em conta o efeito e a intenção do ato. Por exemplo, a definição da Organização Mundial de Saúde (WHO) mostra que a violência não é só o ato, mais inclui necessariamente o efeito, e a intenção:

o uso intencional da força física ou poder, ameaçados ou reais, contra si mesmo, contra outra pessoa ou contra um grupo ou comunidade, que resultem ou tenham grande probabilidade de resultar em ferimento, morte, dano psicológico, mal desenvolvimento ou privação.”[2]

Mas aí já não só falamos sobre atos físicos: falamos também sobre a violência psicológica, ou mental, que muitas pessoas sofrem toda dia e seus efeitos muitas vezes são mais profundos, mais danificadores e duram mais tempo. É uma das razões por exemplo porque a violência sexual é tão desastroso, ainda mais quando é feito contra crianças. E isto não é só limitado ao físico também não; ofensas, ameaças e manipulações também causam sequelas mentais (que depois podem causar outras sequelas físicas).

Não foi o Mahatma Gandhi, grande lutador pelo paz, que falou que toda tentativa de parar com as guerras no mundo será fútil enquanto a gente continuar usar a violência psicológica diária entre nós (as pequenas guerras)? Que todo movimento contra a violência física irá se enfraquecer enquanto a gente não resolver a raiz de todo mal – que é o ganância – e a pobreza, que para ele era a pior forma de violência?[3]

De certa maneira, isto também se relaciona com o que o filósofo e educador Americano John Dewey falou, que a violência é uma força que tomou um rumo errado, ou até uma força destrutiva e danificadora. “Energia se torna violência quando derrota ou frustra propósitos em vez de executar ou realizar isto. Quando a dinamite faz explodir humanos em vez de pedras, quando seu resultado é lixo em vez de produção, destruição em vez de construção, nós não chamamos isto energia ou poder, mas violência.”[4]

Precisamos abrir a nossa concepção do que é a violência, e como isto se relaciona à capoeira. Pior que o ato é o efeito da violência; o mal que faz. Isto pode ser a lesão física, claro, mas também a humilhação, o medo e – o que sempre acompanha o medo – o ódio.

E aí os discursos sobre a violência e estilos e interpretações da capoeira já ficam diferentes: porque o golpe ou a queda já não dói tanto do que a humilhação. Aí começamos a ver quem joga com o medo do parceiro, e quem o cria. E quem leva ate ódio. E começamos a entender as várias dimensões e intensidades da violência, que na verdade tem pouco a ver com um estilo de capoeira.

Essas reflexões também levam às consequências para o ensinamento da capoeira, para as crianças, e para os adultos. O que é aquele ‘tapa educadora’ ? Quando estamos treinando a resistência do aluno, e quando estamos criando medo? Deveríamos tocar -lhe para ensinar a esquivar mesmo? E qual será a intensidade da força usada?

Me lembro a historia que o saudoso mestre Leopoldina várias vezes falou: que quando ele começou a aprender a capoeira, o seu professor da época – Quinzinho – um dia deixou ele treinar com um capoeirista mais antigo no jardim, e quando este capoeirista bateu o novo Leopoldina uma vez, logo meteu um revólver na testa do cara para indicar de não lhe bater, para ele não desenvolver o medo.

Vamos ver o que isto significa para nós nos dias de hoje, na próxima.

Violência e Capoeira - Parte 2 Capoeira Portal Capoeira

 


 

[1] Dicionário do Aurélio: A. A qualidade do que é violento (ex. violência da guerra) e B. Acção o efeito de empregar força física ou intimidação moral contra; ato violento. C. Exercício injusto ou discricionário, gerado ilegal, de força ou de poder. D. Força súbita que se faz sentir com intensidade; fúria, veemência. E. Constrangimento físico ou moral exercido sobre alguém, para obrigá-lo a submeter se à vontade de outrem; coação. F. Cerceamento da justiça e do direito; coação, opressão, tirania

[2] Krug et al. (2002) World Report on Violence and Health, World Health Organisation, Geneva.

[3] Gandhi, M.K. (1942), Non-Violence in Peace and War, Vol. 1. Navajian Publishing House

[4] Dewey, J. (1980) ‚Force, Violence and Law’ and ‚Force and Coercion’, in: J. A. Boydston (ed.), John Dewey, The Middle Works, 1899-1924, Volume 10: 1916-1917. Carbondale, Southern Illinois University Press, pp. 211-15 e pp. 244-51. Tradução para Português é minha.

Contemplações: A Violência e a Capoeira 1ª Parte

Contemplações: A Violência e a Capoeira 1ª Parte

Vendo as rodas onde eu fui e vou, ouvindo os discursos de vários mestres, grupos e estilos que encontro, uma coisa me parece mais e mais clara: a relação entre violência e capoeira é bem ambígua.

Há golpes e quedas numa roda que são violentos, ao mesmo tempo que em outras rodas não são; há discursos que falam da não-violência, e lutam pela paz; existem tapas educados e comportamentos brutos. Se fala que um estilo de capoeira é mais violento que o outro; que hoje em dia a capoeira já não é mais tão violenta que já era (nos anos ‘80s e ‘90s), ou até mais violenta mas menos perigosa (o saudoso mestre João Pequeno), e que não deveria bater no aluno, porque aluno cresce (então pode bater no professor?).

Há mestres que dizem que capoeira é luta até a morte, e há outros que querem eliminar dela qualquer signo de violência. Há buscas de influências das outras artes marciais, e capoeiristas que querem se meter nas lutas de ringue. E há movimentos ‘pelo paz’, literalmente – como o ‘Ginga pela paz’ – e outros influenciados pelas teorias e práticas não violentas como a de Rosenberg.[1]

Capoeira é dito um jogo, e a gente diz que quando se torna briga, para de ser capoeira. Mas capoeira também é um arte marcial – talvez a arte marcial com a relação mais problemática à violência – então é luta também. E luta não tem violência não? Então, como é que é?

Contemplações: A Violência e a Capoeira - Capoeira Portal CapoeiraPara tentar entender, voltamos primeira para a história da nossa arte: A relação entre a capoeira e a violência na história sempre parece ser de ambiguidade. capoeira nasceu de uma situação violenta, que era a opressão e exploração do cativeiro. A gente conhece as histórias; capoeira é luta, ela precisava se adaptar ao contexto, até que no início de desenvolvimento dela, usava golpes simples mas violentos, como a cabeçada, o coice e a banda, fora das várias armas às vezes usadas também. Era uma coisa violenta mesma, que precisava ser, para sobreviver.

Isto não parou depois da abolição – a capoeira se encontrou sempre nos períodos e situações violentas: as maltas de Rio de Janeiro, as bandas no Recife, a guerra do Paraguai, a proibição da prática durante o Império, os valentões, e a própria marginalidade em que ela se desenvolveu e dentro ela sempre se movimentava, mesmo depois a divulgação dela fora das classes populares e a expansão pelo mundo.

Como um arte marcial, como luta pela liberdade, capoeira sempre teve uma ligação forte com a violência, será a violência do opressor, de estado ou da rua. E é por isso que os golpes dela primeiramente eram eficaz antes de ser bonito, e um capoeirista não era qualquer um: deveria poder lidar com a violência que ela(e)encontrava no percurso. Foi uma razão principal do porque o mestre Bimba decidiu desenvolver a luta regional Baiana; porque achava que a capoeira da sua época não podia mais enfrentar esta violência real, nem a competição das outras artes marciais estrangeiras que fizeram fama no Brasil na época.

Só que isto não é a história toda. Porque antes de fugir a senzala, de lutar com o opressor, o escravo também precisava viver e suportar a sua situação. Quer dizer que além de ser luta, a capoeira também é visto com uma forma de resistência cultural, uma expressão Afro-Brasileira que reforça a identidade e o espírito do Africano capturado, trazido para Brasil nas condições horríveis e destinado para fazer trabalhar forçado até o morte. Uma expressão cultural como a do candomblé e o samba. Expressões que ajudavam ele(a) a suportar essa condição e de não entregar a alma.

Uma resistência de alma, ou de espírito, não se faz com a violência; ela é uma resistência contra a violência física, muitas vezes por falta das outras medidas. É uma resistência do oprimido, do submetido. Então a estratégia deve ser diferente. É por isto que nesta interpretação – ou perspectiva – da capoeira, a violência é muitas vezes visto como algo alheia, algo de uma sociedade opressora que deveria se batalhar de outras formas. Algo que não deveria se copiar, para não incorporar o estado espiritual de opressor. Vem de lá a interpretação da capoeira como jogo, onde o lúdico virou um elemento muito mais importante. Porque a gargalhada desarma qualquer poder opressivo.

Os desenvolvimentos mais recentes de capoeira mostra uma flutuação entre essas duas interpretações: Quando a capoeira era mais violenta e marcial nos anos ’80 e ’90, nas últimas décadas vimos mais foco na perspectiva do jogo e o lúdico. Hoje em dia acho que podemos ver essas duas linhas de pensamento e interpretação nos vários estilos e tradições de capoeira. Sempre entrelaçadas; não há uma capoeira que é só lúdico, sem nenhum aspecto marcial, nem uma capoeira que é só de bater. Porque nos dois extremos costumamos dizer que ‘não é mais capoeira’.

Tudo bem. Mais então é isto? O estilo e a interpretação da capoeira determinam a relação com a violência dentro a capoeira? E um estilo é então quase nunca violento, e o outro quase sempre? Talvez é um pouco mais complicado que isto. Voltamos na próxima.

 


[1] Rosenberg, M.B. (2015) Non-Violent Communication: A language of life. Third Edition, Encinitas, PuddleDancer Press.

Contemplações: Capoeira e Política

Antes de começar, gostaria de falar diretamente à você, leitor (pelo menos, espero que tenha alguns). A vida de um colunista é meio isolada: a gente começa cada vez de novo com um papel em branco, e confìa nossas palavras ao mundo digital sem ver ou escutar a reação do público. Será que eles entenderam o que eu queria dizer? O que eles pensaram sobre isso? Será que eles lêem mesmo?

Então, aqui gostaria de dizer que como colunista, eu adoro ter reações, positivas ou críticas sobre os temas, das colunas. Isto pode ser feito no site mesmo, onde o Portal Capoeira tem a possibilidade de reagir, mas também em mensagem privada, por exemplo no capofilosofo[a]gmail. Eu acho que é importante ter feedback, para manter contato com o mundo em que a gente escreve.

Esses últimos dois meses eu estive (e ainda estou) viajando pelo Brasil, por razões óbvias: a capoeira. Ao lado de rever amigos, conhecer novos lugares, pessoas, escolas e estilos de capoeira, essa viagem também faz parte de uma pesquisa empírica que estou fazendo para o meu doutorado, que se trata de teoria política, educação e capoeira.

Viajando pelas cidades tenho encontrando várias pessoas, capoeirista ou não, envolvidas nos movimentos negros, feministas, anti-sexistas ou pela paz; estou vendo como estes assuntos também estão sendo tratados em vários grupos de capoeira. Porque, a capoeira é uma reflexão da sociedade onde ela está, pois não? Andando por um país onde a presidenta legítima, foi impedida de terminar seu mandato devido à um processo definido por muitas pessoas como um golpe de estado. Onde o presidente atual se encontra numa situação de impunidade, construída pelo próprio parlamento, apesar de várias denúncias. Num país, que se desdobra a corrupção, onde uma nova lei de trabalho é instalada, diminuindo ainda mais os direitos e condições dos trabalhadores; um país que é o berço da capoeira. Me lembrei de uma frase que ouvi em várias formas, e vários lugares: que “a capoeira não é – ou tem – política.”

 

Deixa-me primeiro esclarecer a última contestação: Eu acho bastante incoerente. Alguma coisa que podemos demonstrar facilmente com a história de capoeira: talvez a gente não consiga definir exatamente o que é a capoeira, mas a gente sabe qual foi a situação em que ela nasceu. Vários historiadores e antropólogos já pesquisaram e escreveram sobre a história da capoeira, e muitos livros e textos, acadêmicos ou não, já foram escritos tratando o assunto. Foi uma situação de cativeiro, de banzo, de opressão e de violência. Nada novo aqui.

É por isso que vários mestres falam que a capoeira nasceu de uma ânsia de liberdade; liberdade dessa opressão, da escravidão, e da violência. Nesse aspecto, é talvez contestável ver a capoeira em si como um movimento político, igual um partido político ou até um movimento popular como o abolicionista. Mas acho, que devemos ver a capoeira como uma manifestação política em si. E não só no Brasil. Agora, para poder abordar isto melhor, é necessário primeiro explicar o que eu entendo pela palavra ‘política’.

O uso popular da palavra política normalmente é entendido em um desses dois sentidos: o primeiro é o sistema governamental de um país, estado ou cidade, o segundo as interações entre pessoas e/ou institutos que são motivados por algum interesse material ou ideológico: o que é chamado, às vezes, também de jogo de poder.

Mas, se vemos o conceito de política que pensadores políticos de hoje como Jacques Rancière ou Alain Badiou dão à palavra política, fica difícil entender essas definições ainda como verdadeiramente política. Caso, a gente pense que a palavra ‘política’ deveria ser conectada com um conceito de verdade.

Um pequeno problema aqui, é a língua portuguesa: onde a palavra ‘política’ é tanto substantivo, adjetivo ou advérbio. Quando, por exemplo, no Inglês há ‘politics’ e ‘the political’, para indicar duas coisas diferentes. ‘Politics’, para o uso da palavra ‘política’, a qual eu considero o processo de governar um país, estado ou cidade; e as interações motivadas pelos interesses pessoais ou institucionais que acontecem em nosso dia-dia.

The political’, que aqui traduzo como ‘o político’ por falta de outras palavras, não tem nada a ver com essa definição. ‘O político’, seguindo autores como Rancière1 e Badiou2, é aquele que de repente aparece numa situação como algo que sempre pertencia numa situação, mas nunca era incluído em termos de consideração, porque não era contado como tal, era excluído. Como por exemplo, as pessoas refugiadas que ficam ilegais num país, não são incluídas na contagem de cidadãos deste país. Mas como eles pertençam a essa situação (eles estão lá), no momento em que eles aparecem, o aparecimento deles exige que eles sejam incluídos, e isso força a situação: dividindo a situação existente entre as partes que incluem esse ‘novo’ elemento, e aqueles que não o incluem. Assim, mudando a situação.

Nessa perspectiva, o político é algo que sempre discorda com a situação existente, porque foi excluído disto, não foi contado, mesmo pertencendo a ela. No momento que esse elemento surge e exige ser incluído, ele mexe com a nossa percepção da situação e da realidade, e a transforma. Porque se faz necessário o espaço de inclusão daquele elemento na nossa percepção. A partir desse conceito de “político”, vemos uma diferenciação com o que chamamos de política.

 

A capoeira tem bastante intimidade com a política: seja com as políticas internas dos grupos ou entre grupos, seja com os seus procedimentos e relacionamentos no campo governamental: as políticas municipais, estaduais, nacionais e até internacionais, como por exemplo o reconhecimento pela ONU como patrimônio cultural imaterial da humanidade, ou as tentativas de regulamentação da capoeira pela lei em vários países. Nesse aspecto, a capoeira não é política (e na minha opinião nem deveria ser), mas interage com, e às vezes está sujeita à, ela.

No segundo conceito, “o político”, a capoeira é um “político” sim, ou pelo menos oferece espaço para ele aparecer: como manifestação popular e cultural, ela sempre deu palco e representou o marginalizado, o excluído, aquele/a que não foi contado, mas pertencia à sociedade. Hoje em dia ela ainda tem essa função como plataforma, como um lugar onde “o político”, o oprimido, pode se manifestar.

Eu acho, que é por esta razão, que hoje em dia existe uma simbiose entre movimentos como o movimento negro, feminista, ou da paz, e a capoeira. Porque ela, a capoeira, sempre foi e será uma manifestação do “político”, que no momento foco nesses movimentos.

Mas se ela é uma plataforma para “o político”, talvez seja a hora de a gente começar a pensar como se posicionar diante ela. Porque “o político” pode aparecer, mas para poder mudar algo, ele precisa de um sujeito: aquela/e que dá continuação naquilo que apareceu e que foi visto.

 


1 Ler por exemplo Rancière, J. (2010) Dissensus: On Politics and Aesthetics, transl. S. Corcoran, London, Continuum.

2 Ler por exemplo Badiou, A. (2005) Metapolitics, transl. J. Barker, London, Verso.

Regras e Tradições

Regras e Tradição

Capoeira é beleza, capoeira é tradição…capoeira tem fundamento, capoeira é vibração” A tradição é um conceito importante no mundo e discurso da capoeira; a gente fala por exemplo da tradição que tem que ser mantida e respeitada, a tradição das vertentes da capoeira Angola ou Regional, ou os rituais dentro da tradição.

Assim, a tradição é explicada como algo que tem que ser seguido, não só porque sempre foi assim, mas porque dá uma certa estrutura, que no fim – contrariamente – nos dá uma certa liberdade: de controle, de disciplina e de autoconhecimento por exemplo. E que deixa o jogo acontecer, como falei no último texto.

Então enquanto a gente se movimenta ‘dentro da tradição’, está tudo bem: dentro da tradição existe uma certa liberdade, mas porque a gente precisa da tradição, e porque seguir os deveres nela? Porque não podemos logo partir para a liberdade?

Na verdade, na filosofia e na psicologia existe a consciência de que uma liberdade absoluta não existe, e se existe, de fato não é a liberdade. A liberdade existe sempre ao lado de algo que a limita.[1] Sabem na psicologia que uma liberdade sem limites, por exemplo a liberdade de poder escolher tudo que se quer, leva a uma ansiedade. A criança que é criada sem nenhuma regra, depois tem muitas problemas de auto-controle, e de construir uma vida própria. A pedagogia consiste em ajudar a criança em crescer e se desenvolver, e isto é feito com a aprendizado de negociar com os limites.

 

Limites portanto, são deveres. E a tradição também tem seus deveres. Fiz um teste. Tenta fazer um ‘pesquisa de palavra’ num grande documento de músicas de capoeira, e conta quantas vezes a palavra ‘tradição’ e ‘regra’ aparecem: ‘tradição’ encontrei várias, ‘regra’ somente uma: “..Mas se ficar inventando regras vou chamar o meu advogado..”

A regra não parece fazer parte do discurso lírico da capoeira, e mesmo assim tem várias regras na capoeira, regras escritas e não-escritas. Muitas delas justificadas para ajudar a ‘manter a tradição’. Então como é que é isso?

Vários (as) mestres (as) que entrevistei, costumaram explicar a regra como algo imposto, que diz o que tu podes e não podes fazer. Enquanto à tradição é algo voluntária, onde você faz porque você quer; porque dá prazer e uma sensação de criar uma certa liberdade. Tudo bem, mas deveres são deveres, não é? Você pode ou não pode. E há varias regras que estão lá para respeitar a tradição, pelo menos segundo eles que defendem-lhes. Qual a diferença então?

De fato, a tradição está dentro de um sistema maior, que determina a cosmovisão do mundo. Enquanto a regra é norma, a tradição tem ‘regra’ também, mas a função dela na tradição é diferente; suporte a perspectiva da vida. Enquanto a regra como norma é para deixar funcionar um determinado sistema.

 

Quando a gente entra numa casa que não é a nossa, precisamos respeitar as regras da casa, igual como nas escolas de capoeira. Porque a gente sabe que quando nós não fazemos, isto cria confusão e é um sinal de desrespeito. A regra é então da casa, mas respeitar essas regras da casa, não é uma regra em si: é uma tradição, que cria uma sociedade mais agradável, onde todos tem o seu espaço. O que ajuda o nosso bem estar. Uma outra analogia será um explicação dado a mim uma vez assim: a tradição é ter berimbau na roda de capoeira, uma regra é ter 3.

 

Regras são introduzidas, inventadas às vezes, por uma escola ou vertente de capoeira, mas isto não automaticamente quer dizer que fazem parte da tradição da capoeira. Voltando para o exemplo do berimbau, a regra de ter três berimbaus na roda respeita e segue a tradição de ter berimbau na roda. O numero de três não fazia parte desta tradição, vendo que há vários exemplos de grupos e escolas de capoeira onde usava mais ou menos berimbaus, dependendo das possibilidades, necessidades e preferências. E todos sabem que mestre Bimba só usava um.

Mas quem sabe, talvez um dia 3 berimbaus será tradição. Porque como as regras são postas ou inventadas seguindo as necessidades e preferências de quem lhes faz, também a tradição não é algo fixa pela eternidade. Uma tradição também se evolui.

 

O filósofo Escocês MacIntyre nós explica que a tradição na verdade é um argumento estendido pelo tempo em que algumas concordâncias são definidas e redefinidas, pelos debates externos e internos.[2] Voltamos para o exemplo do berimbau, teve um época, no início do surgimento da capoeira, onde não havia berimbau quando a capoeira era jogada. Há vários documentos históricos para testemunhar esse fato. Mas, como várias outras manifestações da cultura afro-brasileira – como o batuque e o samba de roda – a execução é feita em roda, com música e dança, consistindo de diferentes instrumentos e canto. Ter musica na roda é então uma tradição até mais antiga, podemos dizer. Mas também podemos ver que o debate não termina nunca, vendo agora também o acrescentamento de surdo e triangulo (e antigamente o violão) nas rodas de capoeira.

Segundo MacIntyre, tratando-se de tradições rivais, o relativismo não seria uma perspectiva de assimilação ou diálogo entre estas tradições rivais.[3] Ou seja, pode-se acabar em rupturas absolutas, onde nenhum debate entre as duas tradições ou vertentes acontece mais. Podemos ver isto como um risco real entre as vertentes de capoeira Angola e regional ocorrido nós últimos 15-20 anos , que hoje em dia parece estar diminuído.

 

Um debate entre tradições é então muito mais profundo e com conseqüências maiores, de que um debate entre regras; muitas vezes o debate sobre regras é baseado somente em uma tradição.

 

As regras ‘universais’ da capoeira – que incluem tanto o uso de uniforme e/ou abada, graduações e títulos, etc. – foram introduzidas na tentativa de oficializar a capoeira numa época (1920), aonde a tendência era desenvolver o aspecto esportiva da capoeira, indo por lado de dô e a pratica no ringue.

Essa tendência aparece dentro um contexto, aonde a capoeira se depara com uma concorrência forte com as lutas Japoneses, o boxe e o savate na época, como o historiador Matthias Assunção nos conta.[4] Uma das conseqüências foi a luta regional Baiana, que mestre Bimba então criou; mas paralelo ao trabalho de mestre Bimba já existia várias outras tentativas de esportizar a capoeira. Com o apelo do governo nacionalista, houve uma tendência em reduzir a capoeira aos seus movimentos ofensivos e defensivos, eliminando aspectos ritualísticos e simbólicos (que é algo cultuado dentro a tradição), a sua musicalidade original e a prática e aprendizagem baseados na tradição oral. Gerando sistematizações, baseadas em regras e princípios oriundos de uma prática didática esportiva.

A gente conhece as críticas – justificadas ou não -, que depois surgiram contra a ‘militarização’ ou a ‘esportização’ da capoeira; regras que foram vistas como não características da capoeira, especialmente no âmbito da competição. Hoje podemos ver um desenvolvimento parecido no ‘empreendedorismo’ dentro a capoeira. Mas a idéia de ter regras na capoeira não foi atacada em si mesmo. Enquanto elas mantiverem a tradição, parece estar tudo bem.

 

Hoje em dia – talvez com o resultado das pesquisas e a realização de que ‘a união faz a força’ – haja uma maior realização de que no fundo a capoeira está inserida numa tradição cultural própria, que é baseada na tradição afro-brasileira. Uma tradição que as varias vertentes de capoeira partilham. Uma arte em que os praticantes segue uma tradição que – entre outras – cria um relacionamento com pessoas de uma outra forma que na sociedade diária; e assim dá mais liberdade aos praticantes de se movimentarem dentro desta sociedade. Uma tradição que tem deveres que são seguidos pela própria vontade e prazer, porque sentimos que nos faz bem. Cada casa tem regras que devem ser respeitados, segundo as tradições de nossa sociedade. Mas isto não quer dizer que estas regras definam a tradição da capoeira.

regul[1]


[1] Pode se explicar um pouco como a idéia que não existe o bem sem existir o mal, agora, depois há varias maneiras de ver o que é o ‘mal’; certo é que é um conceito moral, mas pode ser de uma falta de ação ou de negação, até uma ação grave, como matar ou manipular alguém.

[2] MacIntyre, A. (1988) Whose Justice? Which Rationality? Notre Dame, University of Notre Dame Press. P. 12

[3] Idem.

[4] Assunção, M. (2012) Ringue ou Academia? A emergência dos estilos modernosda capoeira e seu contexto global. No: História, Ciências, Saúde – Manguinhos. Rio de Janeiro. http://www.scielo.br/hcsm

Bora jogar?

Vem jogar mais eu, vem brincar mais eu…

Jogar, brincadeira de Angola, até vadiar:

Nos cantos de capoeira há poucas referencias à luta ou à competição, mesmo que a gente saiba que “também é luta”. Agora, no discurso da capoeira, luta muitas vezes é mais usado no sentido metafórico: a luta contra o opressor, contra o mal, a resistência. E quantas vezes já explicamos para o leigo, o iniciante ou até o camarada de roda: “Sim, capoeira tem dança, tem luta, tem acrobacia, música, e tudo mais. Mas é jogo.”

Mas porque um jogo? Porque a gente gosta de brincar? Porque o nosso professor fala isso? Ou porque a gente lê isso em muitos livros escritos sobre ela?

Para entender porque a capoeira é um jogo, precisamos entender o que é um jogo. O que é um jogo, se a capoeira então é um?

Sim, a gente sabe o que é um jogo em termos de experiência. Também sentimos quando o jogo acabou, e se torna algo mais sério. Será então que o jogo não é serio? Que é um passatempo mesmo?

A palavra jogo é originária do latim: iocus, ou ludus, que significa brinquedo, folguedo, divertimento, passatempo; mas sujeito à regras.

Nas línguas germânicas, como também no anglo-saxão, spel, spiel ou play, vem do plegan, que quer dizer ‘exercitar-se, mover rapidamente’, e associado disto é ‘dançar’. E no anglo-saxão quer dizer ‘um jogo, desporto’, que vem do latino plaga ‘um golpe’. Existe mesmo a idéia de um ‘luta ritualizada ou dançada’ que faz parte de conotação de palavra de ‘jogo’.

Vemos o Webster Dicionário, jogo é: 1. Ação, moção ou atividade, especialmente livre, rápido ou leve. Leve contra o ‘peso’ do trabalho, livre contra o caráter necessário ou obrigatório de trabalho, rápido contra o estilo cuidadoso, refletido de rotina de trabalho. 2. Liberdade ou possibilidades de movimento ou ação. 3. Atividade feito para divertimento ou recreação – de novo, atividades não conectado com necessidade ou obrigação. 4 diversão, brincar – focar no caráter lúdico.[1]

Como vemos, a etimologia da palavra ‘jogo’, dá uma descrição da capoeira! Então, o jogo não é somente uma categoria, a onde a capoeira cabe, mas parece que a relação entre o jogo e a capoeira vai muito além; vendo a etimologia eles parecem até sinônimos!

 

Vendo o lado funcional da palavra jogo na sociedade, podemos entrar no campo sociólogo e educativo. A obra mais referencial em termos de jogo é Homo Ludens, de Huizinga[2]. Huizinga descreve a importância do jogo e da brincadeira como elementos necessários na produção da cultura e para a sociedade. Ele definiu o jogo como algo que: É livre, de fato é liberdade; Não faz parte da vida ‘ordinária’; É distinto da vida ordinária em termos de espaço e tempo; Cria ordem, é ordem, e demanda um ordem absoluta e suprema; Não é conectado com interesse material, não pode dar lucro ou vantagem.[3]

Quer dizer, que o jogo pede certas condições, um ordem, que pode ser traduzida como ‘regras’, mas que muitos mestres gostam de traduzir em ‘tradição’. Nas minhas entrevistas as diferenças entre ‘regra’ e ‘tradição’ são muitas vezes explicadas como a regra sendo algo imposto, até inventado, que diz o que tu podes e não podes fazer. Enquanto a tradição é alguma coisa voluntária, onde você entra porque você quer, que cria uma estrutura. Vendo a explicação da palavra ‘jogo’, podemos então entender melhor o porque se submeter a tradição: porque dá jogo!

 

Depois de Huizinga, várias obras foram escritas sobre o jogo e o aspecto lúdico, que se tornou então algo sério. E na educação e pedagogia já se sabe há muito tempo que a melhor aprendizagem acontece no jogo. Muitos gênios, criadores na sua área, na maioria do tempo ficaram brincando com a sua matéria, e assim descobrem novas maneiras, combinações e etc.

O importante do jogo é que ele proporciona uma aprendizagem significativa. Ele coloca o conteúdo aprendido num contexto a onde ele faz sentido. E assim funciona como uma ferramenta para aumentar o processo de auto-aprendizagem. Aprendemos e absorvemos melhor os conteúdos quando sentimos prazer em aprender.
Agora, há mais um outro ponto importante histórico e social porque a capoeira é um jogo: muitas vezes costumamos contrapor o jogo contra a luta: “Capoeira não é luta, é jogo.” A diferença principal entre os dois parece ser o aspecto lúdico; de fazer brincando. A luta não tem nada de lúdico não.

Num certo sentido, o lúdico nos faz rir das situações sociais, sem necessariamente nos dar um alternativa de comportamento. Ele não diz o que fazer, só nos mostra o ridículo. E isso é muito importante, para dar espaço para uma critica social.

E por isso a capoeira não se pode transformar em luta: a luta, destrói o jogo, (e então o lúdico) e com isso tira a possibilidade da critica social que a capoeira tem.. Quando vira luta, o que resta é a verdade única forçado pelo mais forte. E como o escravo já sabia, isto é o domínio do senhor, do opressor. Que não dá para encarar. Mas com malicia, mostrando humor e elegância, se pode enganar e assim derrotar o adversário. A verdade única tem o perigo de ficar tirânica: ela tem que ser balanceada com humor, com a gargalhada.

 

[1] Webster Dictionary, (1934)

[2] Huizinga, Johan (1938) Homo Ludens, Haarlem, Tjeenk Willink & Zoon N.V.

[3] Idem, p. 13

Juntos Aprendemos

Juntos aprendemos

 

Sou aluno que aprende, sou mestre que dá lição..”; quem não conhece essa frase? E quem não ouviu que na capoeira, nunca se para de aprender, seja mestre ou não? Mas falar é fácil; na prática se nota como é difícil ser – e permanecer – aluno.

Eu falo aqui de ser aluno em termos de atitude, de posição. “Ser aluno” implica para mim de ter uma vontade – uma curiosidade -, de aprender e de conhecer. De ter uma cabeça aberta para receber novas informações e mais importante ainda – aceitar outras informações e visões que colocam suas próprias perspectivas em questão.

Para conseguir isso, precisamos deixar por um momento nossa certeza sobre a nossa própria razão. Largar a idéia que a nossa perspectiva é a certa; em breve, precisamos praticar a humildade.

Na filosofia antiga, a humildade é vista como uma virtude; uma disposição adquirida de fazer o bem, segundo Aristóteles. Algo que se aperfeiçoa com o hábito. Como virtude, a humildade é uma qualidade moral que consiste em conhecer as suas próprias limitações e fraquezas e agir de acordo com essa consciência. De não tentar se projetar sobre as outras pessoas, nem mostrar ser superior a elas.[1]

 

Praticar humildade com alguém que tu admiras ou quem respeitas, é compreensível. Mas como é que fazemos com alguém que não admiramos, não respeitamos e talvez até detestamos? São nestes momentos em que eu realizo que – mesmo pensando em tentar praticar a humildade – realmente ainda não entendi muito bem o que é.

As vezes eu me dou mal com alguém também. Normal, pensava eu. Se queremos ser nós mesmos, é difícil se dar bem com todos e todas. Há gente que segue outros princípios e valores, com quem não podemos concordar sem trair os nossos princípios. Mas aí acho que alguém me ensinou algo importante.

Claro, que aconteceu na capoeira; é onde eu passo muito tempo, e também um lugar aonde a humildade e a vanglória e o orgulho se encontram em várias situações. Porque o capoeirista também não é aquele guerreiro, ou ao menos não deveria ser covarde? Não é na capoeira onde a gente valoriza também a ousadia e o orgulho de ser a nossa própria pessoa? E isto não implica então um pouco de orgulho em si mesmo, e criticar um pouco as outras pessoas? Porque sem me comparar com outros, como vou saber se aquilo que estou fazendo é certo? Acho que entre o respeito para si e para o outro, entre a valorização de si e a humildade com o outro, tem um linha fina para se pisar.

 

Por sorte minha, aquela pessoa não parava de me puxar; de me mostrar que eu nem sempre tenho razão, mesmo quando a oposição é tão clara. E depois um outro pequeno confronto, me falou: “nós aprendemos juntos, um do outro”.

Fora da grandeza do gesto, me incentivou também de pensar sobre a implicação daquilo. E pensei que além de uma posição ética em relação ao outro, a humildade implica em uma posição prática: dar espaço ao outro/a de te falar, mostrar, ensinar algo. Porque juntos a gente realmente aprende coisas diferentes, de que quando aprendemos sozinhos.

Isto a capoeira nos também mostra: há coisas que podemos treinar sozinhos – movimentos, técnicas, músicas – mas há outras que só podemos fazer e aprender com outros, no grupo. A cultura oral, a base da tradição de capoeira, também é baseado no grupo, na dependência do outro com quem a história é partilhada.

 

A medida em que conseguimos praticar a humildade, não só com quem respeitamos mas especialmente com quem nunca iremos concordar, determina o tamanho de nossa aprendizagem. Porque, é aquela pessoa, que vira o nosso mundo de cabeça para baixo, que representa algo que sempre excluímos da nossa percepção. E no momento que conseguimos escutar-lhe e realmente ver o que ela representa para nós, ela nos obriga a mudar nossa sensibilidade, e a nossa percepção. Ela nos mostra uma outra realidade; e assim muda a nossa.[2]

 

Claro que isto pode ser um processo doloroso; não passamos tanto tempo e energia excluindo-o? Então para mim, praticar uma verdadeira humildade não é nada fácil…mas na próxima vez, não esqueço de agradecer ao meu “inimigo”, sendo em ou fora de mim.

 

Continuamos aprendendo juntos.

 

Carybé pe do berimbay

 

[1] Isto não é a mesma coisa que a modéstia, que é o sentimento de velar-se quanto as qualidades intelectuais e morais (oposto de vaidade), a moderação em aparência ou ação, não desejando atrair atenção imprópria para si. Tampouco a humildade é a falsa modéstia: que é vangloriar-se auto-humilhando-se falsamente.

 

[2] É um argumento que é elaborado pelo filosofo francês Jacques Rancière, por exemplo no livro Disagreement: Politics and Philosophy, University of Minnesota Press, Minnesota, 1999.

Contemplações: De dar um exemplo…

Vamos dar um exemplo?” Mas qual tipo de exemplo seria então?

Costumamos dizer que alguém tem que “dar um bom exemplo”, especialmente um professor. E sempre quando isto é falado, parece que todos estão entendendo o mesmo. Mas será? Será que um bom exemplo é sempre um bom exemplo, ou existe um bom exemplo de um mal exemplo também? E vice versa? E o que o exemplo tem a ver com a capoeira e o papel do professor?

Aprendizagem e desenvolvimento sem exemplos é difícil; para explicar algo precisamos um modelo, para aprender precisamos algo que serve como representação, e até há aquela inspiração de se desenvolver numa certa direção, de uma certa maneira.

Muitos vezes quando falamos do exemplo, isto é acompanhada com uma qualificação do valor . “Dar um bom exemplo” parece aqui ter uma significação dupla: ser uma boa explicação, ou representação, de algo que você quer que o outro entende – seja um movimento, idéia ou experiência. Mas também é algo alem disto: uma inspiração para algo que ainda não existe, mas que buscamos ser. Mais do que um alvo para aprender, o segundo se trata dum ideal para incorporar.

Assim também a avaliação do exemplo é diferente. No primeiro sentido da palavra isto é feito pelas critérios técnicos – um modelo mais ou menos verdadeiro com o original, uma explicação que ajuda mais ou menos para entender. No segundo sentido estamos a avaliar pelos critérios diferentes: falamos do bem e do mal em si. Um ideal que vale a pena ou não. Aí, o julgamento não é mais técnico, mas moral.

Porque moral? Podemos explicar isto através a etimologia duma palavra muitas vezes confundido com o moral, a ética. Ética vem da palavra Grego ethos, que significa ‘caráter’, ‘costume’ ou ‘modo do ser’.[1] Ethos indica então um tipo de comportamento propriamente humano que não é natural; o homem não nasce com ele, mas aquilo é “adquirido ou conquistado com habito.”[2]

Neste sentido, uma ética leva para um ideal: algo que ainda não foi realizada, mas que vale ser. Em contrasto, distingo aqui a moralidade como representante dos costumes e pensamentos do grupo dominante da sociedade; o que é visto como ‘moral comum’ – o que “pode e não pode.”

Então um exemplo é também avaliado na medida que o avaliador pensa que vai ajudar nós levar para aquele ideal ou não.

 

Qual será o ideal fica para cada um a decidir. Por isto não existe um professor que não é criticado. E como um chefe de cozinha não pode agradar todos clientes, há professores que não combinam com certos alunos, e vice versa.

Mas não é um vale tudo, tem um dinâmica da maioria aqui: quanto maior o número das pessoas que acham que alguém represente um bom exemplo, podemos supor que esta pessoa represente um ideal que muitos partilham. Se este ideal combina com o moral dominante, é outra questão.

 

Mas o que tudo isto tem a ver com o ensinamento, e a capoeira?

Quando a gente fala que um professor tem que dar um bom exemplo, ela/e é julgado pelo ética que segue, e pela maneira como faz. Claro que primeiramente, ele/a tem que dominar aquilo, explicar bem, usar modelos e metáforas úteis e compreensíveis, e corrigir o aluno se for necessário. A parte técnica. Mas se fica só por aí, o sentido do ‘bom’ parece cumprida pela metade. Aí surge o segundo sentido do exemplo: um bom professor também é aquele/a que dá direção, segue um ética, leva a um certo ideal.

Meu mestre sempre nós dizia que um mal professor é aquele que ensina o que não faz na roda. Depois muito tempo percebi que aquilo mostra exatamente a importância dos dois sentidos do exemplo: você pode até dar a melhor explicação técnica que seja, mas se não utiliza o movimento para si mesmo, aquilo não faz parte de um ‘bom exemplo completo’. Primeiramente porque não existe a experiência do movimento, o que é diferente do que a realização técnica. Mas também porque não leva a um modo de ser que ela/e segue para si mesmo. Aí, quer dizer que não é verdadeiro.

 

“Faça o que eu digo, não faça o que eu faço” é então a maior mentira pedagógica. É contrario à experiência: em termos de comportamento, a gente aprende o que vimos muito mais do que ouvimos. E quando alguém fala uma coisa, mas faz outra, chamamos isto hipocrisia. Que no moral dominante é julgado não tão bem.

 

A honestidade é muito valorizado na educação, e também no ensinamento da capoeira. Mesmo que a capoeira seja traiçoeira em si. Se não, como podemos confiar e acreditar em nosso mestre? Quer dizer que um professor tem que ser transparente, tem que ser ‘si mesmo’. Não é lá que um bom exemplo começa; ser verdadeiro? Mas o que acontece quando ser fiável a si mesmo não combina com o moral da sociedade? E como isto reflete na pedagogia? Será que o professor mostra ‘como deveria fazer’, ou ‘de como fazer e viver consigo mesmo’? Vamos pelo moral, ou pela ética?

Assim, o professor sempre fica na corda bamba, onde tem uma lição importante para aprender: Porque quem se envolve com ideais, tem que saber lidar-se com o desencanto.


[1] Os Romanos depois traduziram o ethos grego para o latim mos (mores no plural), que quer dizer “costume”, de onde vem a palavra moral. Disse então respeito a uma realidade humana que é construída histórica e socialmente a partir das relações coletivas dos seres humanos nas sociedades onde nascem e vivem.

[2] Vázquez, A.S. (1987) Ética. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira.

Contemplações: A primeira vez…

A primeira vez

 

Para tudo há uma primeira vez”, quantos vezes eu já não ouvi esta frase? E quantas “primeiras vezes” já não passavam em nossas vidas, muitas vezes sem ser mesmo notado? E quantas a gente nunca mais esqueçam: A primeira viagem sem pais, a primeira namorada, o primeiro beijo, a primeira vez que viu a capoeira…

Este aí, é a minha primeira vez, quer dizer; a minha primeira coluna para o Portal Capoeira. E como todas primeiras vezes, há uma mistura de expectação, incerteza, vontade, tensão, animação e esperança: será que vai dar certo mesmo?

Para começar, gostaria de esclarecer algumas coisas: eu não sou Mestre de Capoeira, e então não tenho aquela autoridade que vem de combinação de conhecimento, experiência e o tempo. Minha proposta então é de falar sobre temas, conceitos e tópicos que surgem na minha experiência da capoeira e das minhas pesquisas sobre ela, e outras áreas em que trabalho. Meu alvo não é falar ‘como é que é’, tampouco de só informar, mas de dar incentivo para refletir, para pensar. Isto quer dizer que gostaria também ter feedback de vocês leitores; coisas que vocês dis/concordam, e temas sobre quais vocês querem ouvir mais.

Fora da capoeira, minha “áreas de especialização” são a filosofia, as ciências políticas e sociais e a educação. No momento estou fazendo um doutorado em filosofia, teoria política e educação, onde eu implico a capoeira também; deste trabalho surgem varias temas que vão ser refletido aqui na coluna.

Mas para não ficar só numa introdução, queria continuar na tema que já introduzi; a primeira vez. Na capoeira, depois o primeiro encontro, uma das mais importantes primeiras vezes é talvez a(s) primeira(s) aula(s) e o primeiro professor de capoeira. Já ouvi um mestre falar que “a verdadeira base do jogo e a técnica de um capoeirista é feito no primeiro 2-3 anos. Depois é quase impossível, o pelo menos muito difícil, de mudar o jogo e estilo de um(a) aluno/a.”

Então me perguntei: será que esta declaração tem alguma reflexão na ciência? Para isto olhei para a área de psicologia do desenvolvimento; como o nosso cérebro e a capacidade de aprender se desenvolve no ser humano. Na verdade, nosso cérebro consiste de vários partes, e uma destes é a memória. E o que a gente está treinando na aula de capoeira, é uma memória corporal; aprender e aperfeiçoar um movimento, até ele sai (quase) sem pensar como fazer-lhe, intuitivamente. Este tipo de memória chama se memória processual; o lugar dos nossos rotinas e automatismos. Habilidades que a gente aprendeu num certo momento, e muitas vezes com um monte de prática, muitas repetições.[1]

Mas não toda repetição tem o mesmo valor: as primeiras tem muito mais impacto do que os seguidas. Porque como a gente sabe, mudar de habito é uma coisa difícil; e na capoeira isto é devido ao memória processual. Então quando estamos na aula de capoeira, estamos a aprender (ou ensinar) de criar um habito, que são (o conjunto de) movimentos de capoeira. E esses movimentos a gente aprende com olhar e imitar, e com explicação e correção pelo um professor. E por isto a primeira vez, o primeiro professor, é tão importante: é lá onde os fundamentos do habito, da rotina, são feitos. Uma casa sem fundamento boa, cai. Um capoeirista com habito ‘ruim’, dificilmente se desenvolve até um nível mais alto de jogo.

Com crianças, há ainda uns fatores a mais para cuidar. Porque o nosso cérebro se desenvolve até uns 25 de idade; quer dizer que até lá, todos estímulos das pessoas, do ambiente e da experiência própria, tem uma influência maior no desenvolvimento do cérebro, e nas capacidades que desenvolvemos durante o resto da vida. Dentro isto, o mais importante são os primeiros 6 anos da vida, onde o cérebro desenvolve o ‘hardware’ dele, que determina as possibilidades de ‘softwares’ que pode desenvolver depois.

Isto quer dizer, que ensinar crianças é quase uma responsabilidade maior do que ensinar adultos: não só pelo lado pedagógica, mas então mais ainda da perspectiva do desenvolvimento do cérebro e as habilidades que surgem dele.

Aí, na capoeira tem alguma coisa particular: porque eu, como a maioridade dos professores de capoeira, aprenderam a dar aula com crianças. As primeiras aulas que a gente normalmente podem gerar sozinho, são aulas (ou oficinas) de crianças (ou iniciantes). Há vários razões para isto: crianças pequenas fazem de ti um bom professor – se sabes gerar um grupo de 30 crianças entre 5-8 anos de idade, com certeza sabe gerar um grupo de adultos. Também, um professor iniciante, as vezes ainda não tem suficiente experiência e ferramentas para desafiar um grupo de adultos mais experientes na capoeira. Tem que começar a ensinar a base. Etc.

Mas se olhamos pelo lado de aprendizagem, de desenvolvimento do corpo e mente, e a ligação com as nossas habilidades e capacidade, isto parece um pouco estranho: no lugar e no período mais delicada de aprendizagem, botamos muitas vezes os professores de capoeira menos experientes, iniciantes.[2] Mesmo quando sabemos que um tratamento errado duma criança, pode causar problemas para ele/a para o resto da vida. Então porque deixamos tanto ao sorte?

Falando disto, há uma outra coisa importante ligado nisto, que vou tratar na próxima, que é ‘o exemplo’.

 

[1] Aqui estou falando de treino corporal, porque com o treino de música, que também faz parte da capoeira, alguns outros aspectos de nosso cérebro são usadas também.

[2] A mesma coisa acontece na sistema educacional formal, onde para ser professor de primaria, precisa ter menos formação do que para um professor de secundaria, ou até universitária.