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O LUGAR (IN)COMUM DA MULHER NA CAPOEIRA

O LUGAR (IN)COMUM DA MULHER NA CAPOEIRA

Há tempos, ou por toda a minha trajetória, tenho sido convidada para fazer falas em eventos. Já virei figura carimbada com rótulo de depoimentos que revelam a minha história de vida, e como, na condição feminina, consegui sobreviver a um processo formativo até a titulação de mestre de capoeira, na BAHIA. Sobre a natureza destes convites e o que está por trás deles, revelando o lugar (in)COMUM de tudo aquilo que uma mulher pode fazer na capoeira, que vamos tratar neste texto.

Peço, no entanto, que a força do feminino que habita em cada um de nós, da sedutora e intuitiva mãe Oxum, possa abençoar meus dedos a fazer uma escrita sensata, sensível e antenada com o mundo que acredito, um mundo de homens e mulheres vivendo juntos e em harmonia, demonstrando a sabedoria da equidade, do feminino e do masculino em ato e amor.

Então… quando penso nos convites que recebi e dei conta, revelam-se muitas dúvidas, outras tantas certezas que circundam o pensamento sobre a formação de mulheres em capoeira.

Nas dúvidas, acredito que perguntas como: Será que ela tem competências em capoeira? Como será que foi o percurso formativo desta mestra? Será que ela vive o mesmo universo que o meu? Será que de fato ela vive, com a mesma intensidade, as cobranças que são feitas aos homens diante dos elementos que fundamentam a capoeira? Será que não foi uma graduação de benevolência do seu mestre, que por vezes pode ser também seu esposo? Será que não “entrou pela janela”?

Nas certezas, seguem convicções como: Vou enxertar a programação com esta mestra para afastar o discurso de que sou machista e não dou vez a mulher!… Se ela for fraca, é mulher mesmo!… Vou pedir a ela pra contar sua trajetória de vida, pois, sabendo que mulheres são frágeis e incompetentes, ela preencherá o tempo destinado a esta concessão no evento “contando histórias” e o resto eu preencho com “capoeira de verdade”, protagonizado pelos companheiros que convidei! …

Entre dúvidas e certezas, sempre está a baixa expectativa do meu potencial enquanto capoeirista… Se há culpados? Com certeza! Mas prefiro crer que mais que encontrá-los/las posso anunciar saídas… Entre as dúvidas e certezas, que prefiro conceituar de certezas provisórias, mora a brecha da possibilidade de encontrar em mim mais do que uma contadora de história de vida.

Se ao invés das motivações descritas acima você me convidar para apresentar os saberes que me constituem enquanto mestra, poderá identificar a qualidade, ou não, de minha formação, cada passo que dei para conquistar este lugar de fala – o lugar de conhecedora da arte capoeira… Cada toque que fiz e refiz para alcançar o alto nível em meu tocar… Cada cantiga que entoei, de diferentes mestres antigos que escutei para dar vida ao meu canto… Cada aluno que toquei nas mãos para fazer nascer o brilho e encanto pela capoeira… Cada evento que produzi, para ver a capoeira se estabelecendo enquanto ferramenta de formação humana… Cada roda que experimentei pelo mundo afora, vivenciando a vida por dentro do jogo e o jogo por dentro da vida…

Em qualquer arte, ou campo do conhecimento, semelhante a capoeira, nós somos reconhecidos pelo que produzimos, por isso convido a todos/as a refletirem porque com relação a mulheres e capoeira seria diferente? Não precisamos de concessões, precisamos de um convite, precedido de investigação sobre nosso “fazer capoeira”, para que depois desta análise prévia, você se deixe encantar pelo que vamos apresentar aos seus alunos ou congressistas.

É claro que, neste caminho, encontrarás muitas mulheres que, tal como homens, se escondem em um discurso que nem sempre é acompanhado por uma prática que o sustente, uma berimbau que fale, uma cantiga que arrepie, nem um jogo bem jogado. Muitas vezes ao procurar sua palestrante ou oficineira, irás se deparar com mulheres que não experimentaram a capoeira com profundidade… que não sabem “nem pra onde vai, nem de onde vem” a capoeira… não conhecem seus antigos… suas manhas… nunca tocou, por exemplo, o toque de Iúna pra uma platéia de 100 pessoas, na charanga da regional, para dar vez ao jogo de formados com balões da cintura desprezada… ou não, nunca abriu uma roda de Capoeira Angola com uma ladainha bem entoada, contando a história de seus ancestrais… Isso é que separa o “jóio do trigo”, isso é o que queremos dizer quando falamos “não tem farinha no saco”, serve para mulheres e para homens…

Portanto capoeiras!… quando pensarem em uma mulher para compor o seu evento, pensem na capoeira que a preenche, pois assim estará assegurando a respeitabilidade por quem você convida, o berimbau bem tocado, a cantiga que arrepia e o jogo cadenciado, referenciado, agigantando a mulher na capoeira pela capoeira na mulher.

Axé!

 

* THE (UN)COMMON PLACE OF WOMEN IN CAPOEIRA *

By: Mestra Brisa

For some time, or throughout my career, I have been invited to speak at events. I have already become a figure stamped with testimonials label that reveals my life story, and how, as a female, I managed to survive a formative process until the title of capoeira master, in BAHIA. About the nature of these invitations and what is behind them, revealing the (in) COMMON place of everything that a woman can do in capoeira, which we will deal with within this text.

I ask, however, that the strength of the feminine that lives in each one of us, of the seductive and intuitive mother Oxum, can bless my fingers to do sensible, sensitive and attuned writing with the world I believe in, a world of men and women living together and in harmony, demonstrating the wisdom of equity, feminine and masculine in act and love.

So … when I think about the invitations I received and realized, there are many doubts, many other certainties that surround the thinking about the formation of women in capoeira.

When in doubt, I believe that questions such as: Does she have skills in capoeira? How was the training course for this teacher? Does she live the same universe as mine? Does it really live, with the same intensity, the demands made on men in the face of the elements that underpin capoeira? Was it not a degree of benevolence from your master, who can sometimes also be your husband? Did it not “come in through the window”?

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Certainly, they follow convictions such as I will engraft the programming with this master to rule out the discourse that I am a sexist and I don’t give the woman a chance! … If she is weak, she is a woman! … I will ask her to tell her life trajectory, because, knowing that women are fragile and incompetent, she will fill the time destined for this concession in the event “telling stories” and the rest I fill with “capoeira de truth”, led by the companions I invited! …

Among doubts and certainties, there is always a low expectation of my potential as a capoeirista … If there are culprits? For sure! But I prefer to believe that more than finding them, I can announce ways out … Among the doubts and certainties, which I prefer to conceptualize as provisional certainties, there is a gap in the possibility of finding in me more than a life storyteller.

If instead of the motivations described above, you invite me to present the knowledge that constitutes me as a teacher, you will be able to identify the quality, or not, of my training, every step I took to conquer this place of speech – the place of knowledge of capoeira art … Each touch that I made and remade to reach the highest level in my playing … Each song that I sang, from different ancient masters that I heard to give life to my singing … Each student that I touched my hands to make the brilliance and charm for capoeira … Each event I produced, to see capoeira establishing itself as a tool of human formation … Each roda that I experienced around the world, experiencing life inside the game and the game inside life. ..

In any art, or field of knowledge, similar to capoeira, we are recognized for what we produce, so I invite everyone to reflect on why it would be different from women and capoeira? We do not need concessions, we need an invitation, preceded by an investigation of our “making capoeira” so that after this previous analysis, you will be enchanted by what we are going to present to your students or congressmen.

Of course, on this path, you will find many women who, like men, hide in a speech that is not always accompanied by a practice that sustains them, a berimbau that speaks, a song that chills, or a game well played. Often when looking for your speaker or workshop, you will come across women who have not experienced capoeira in-depth … who do not know “neither where to go, nor where” capoeira comes from … they do not know their old ones … your morning … never touched, for example, Iúna’s touch for an audience of 100 people, in the charanga of the regional, to give time to the game of graduates with balloons from the despised waist … or not, never opened a circle of Capoeira Angola with a well-intoned ladainha, telling the story of its ancestors … This is what separates the “jewel from the wheat”, this is what we mean when we say “there is no flour in the bag”, it is for women and for men …

So capoeiras! … when you think of a woman to compose your event, think of the capoeira that fills it, as this will ensure respectability for those you invite, the berimbau well played, the song that chills and the cadenced game, referenced, looming the woman in capoeira by the capoeira in the woman.

Axe!

Coletivo Capoeiragem Bahia

Coletivo Capoeiragem – Bahia

“Era eu era meu mano… Era meu mano era eu

O importante é estar juntos… Mesmo que distantes…

Coletivo Capoeiragem, unindo ideias e ideais…

 

 

Mestre Jean Pangolin, Mestra Brisa e Milani juntos em um um bate papo informal e descontraído sobre capoeiragem… Não percam!

 

Coletivo Capoeiragem BA Capoeira Portal Capoeira

 

 

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