Blog

Mestre Jean Pangolin

Vendo Artigos etiquetados em: Mestre Jean Pangolin

EVENTOS FEMININOS EM CAPOEIRA: Concorda ou (SEM)corda?

EVENTOS FEMININOS EM CAPOEIRA: Concorda ou (SEM)corda?

Diversas são as situações que nos convocam a aprofundarmos na reflexão sobre a atuação de homens e mulheres no âmbito da capoeira, considerando toda a lógica patriarcal que, invariavelmente, sufoca a atuação social de todas as pessoas em seu fazer cotidiano, enquadrando todos os padrões pré-estabelecidos para os mais variados comportamentos. Desta forma, tentaremos discorrer sobre algumas situações que tem emergido da realização de eventos femininos em Capoeira.

Ao longo dos anos, mulheres vem sofrendo com o cerceamento ou a subvalorização de seu potencial, sejam eles, na prática cotidiana, quando dos espaços em que ela é privada de exercício de sua cidadania, ou no microcenário da capoeira, sendo seu fazer condicionado a uma concessão do homem ou como estratégia de marketing… como por exemplo quando ofertam tempo no evento somente para mulheres jogarem entre si; quando sempre convidam alunos mais novos para ministrarem aulas, tendo uma mulher mais antiga e capacitada no mesmo espaço; quando revistas de capoeira expõem um símbolo sexual nacional da época “vestida” de capoeira (Tiazinha); ou quando, antigamente, alguns homens faziam rodas só com mulheres para atrair o público masculino.

Como entender estas ações? o que as motiva? Nos casos apresentados acredito que ao fazê-lo, o homem, que historicamente estrutura as ações em capoeira, pode estar tentando produzir um espaço de mediação para que mulheres “tomem coragem” e vão se empoderando, ou seja, uma estratégia positiva para a equidade, mas também, possivelmente, por trás destas ações, pode haver um exercício de “poder ou olhar patriarcal” em que o mesmo diz o “como será feito!” porque a mulher sozinha não conseguiria, sem contar os diversos processos de expressão da objetificação da mulher, entendida como produto de marketing.

Bibinha e Gugu Quilombola, conquistam título do Red Bull Paranauê Capoeira 2

Bibinha e Gugu Quilombola, conquistam título do Red Bull Paranauê Capoeira

Analisando esta realidade, com o tempo percebemos que a mesma estratégia de “mediação” passa a produzir um efeito contrário ou difuso, ainda que a intenção não me pareça a mesma, pois se antes uma pequena parte do evento era destinada ao desfrute exclusivo de mulheres, agora os eventos passam a ser somente produzido pelas/para as mesmas… Neste sentido, são perceptíveis os efeitos de propagação destes encontros exclusivos, que nascem talvez, por uma demanda reprimida de lugares de protagonismo feminino na capoeira.

É problema? Eventos femininos são negativos? Não… Absolutamente!… Desde que sejam entendidos como processos de mediação para a construção da tão sonhada equidade entre homens e mulheres, ou seja, SE estes processos promoverem ou forem defensores de espaços de exclusão do homem, não servirão ao propósito de garantir a mulher a tão desejada condição de estar em rodas de capoeira em paridade social… Sempre entendi estes eventos como preparatórios para que mulheres e homens pudessem, por exemplo, compor uma charanga da regional ou uma bateria de angola, tocando com a firmeza e respeitabilidade que a cultura popular merece.

É preciso refletir sobre os (des)caminhos que, porventura, os eventos possam estar tomando, considerando “SE” estes eventos estão de fato construindo um caminho de conhecimento, que harmonize as relações e o trato com os homens em nossas rodas de capoeira…? Se não está a serviço da construção de lugares APENAS para trato com dores, rancores e mazelas do machismo estrutural que nos assola?… Fato concreto é que precisamos observar que é importante o trato destas questões femininas e sociais, sem no entanto, deixar de trazer o foco para o elemento comum que nos une, a capoeira!

A negação das reflexões acima poderá nos levar há um lugar perigoso, chamado de sexismo ou discriminação de gênero, que segundo sua definição é um juízo de valor pré-estabelecido ou discriminação baseada na condição de gênero ou sexo de uma pessoa, no qual mulheres são mais prejudicadas, portanto, mais do que a realização dos eventos em si, é preciso pensar a serviço “de quem e de que” o mesmo se estrutura?

Então? Uma sugestão… Que tal valorizar mais ainda a transição de eventos femininos de capoeira por EVENTOS DE CAPOEIRA COM PROTAGONISMO DO FEMININO? Assim, acredito ser possível redimensionar a estrutura social desigual para mulheres a partir do exemplo VIVO que brota das mãos de tantas Dandaras, Márcias, Nzingas, Paulas, Marias, Estelas da nossa arte…

 

Axé!

 

Por: Mestra Brisa e Mestre Jean Pangolin

A Capoeira da Sociedade Liquida

A Capoeira da Sociedade Liquida

Para Zygmunt Bauman, a sociedade atual, pela volatilidade das “coisas”, perdeu parte de suas referencias/costumes, dando lugar a um “mar” de angústias e incertezas. Desta forma, foi possível perceber o surgimento de uma nova perspectiva para a vida em comunidade, centrada no individualismo exagerado e movida pelo consumismo, a partir da ressignificação do capitalismo global, tornado tudo “liquido”.

A tal “liquidez” se expressa para caracterizar um dado formato para as atuais relações sociais, negando a “solidez” de outrora e assumindo, pela multiplicidade de possibilidades, o “lugar nenhum”, ou seja, queremos ser “tudo”, mas não nos percebemos no exercício da vida cotidiana sendo o “nada” que tanto relutamos em perceber.

Em capoeira, invariavelmente, assumimos uma “liquidez” perigosa e travestida de respeito a autonomia decisória, pois, a todo o tempo temos dificuldades com aquilo que é fluido, volátil, desregulado e flexível. Neste sentido, percebemos que quando assumimos uma relação estável, de ordem profissional, amorosa ou de outra natureza, fica a sensação de que estamos perdendo as novidades que o mundo nos oferece, e ai se instaura a crise, pois já não sabemos lidar com escolhas, considerando que nos acostumamos com a ilusão de ter “tudo” sem viver absolutamente “nada” aprofundadamente, ou seja, se tenho uma dificuldade com meu mestre, ao invés de resolver enfrentando a situação dialogicamente, eu simplesmente troco de instituição ou crio um novo grupo, mesmo mantendo as “velhas” estruturas que geraram o conflito.

Quando Zygmunt Bauman afirma que “Vivemos em tempos líquidos. Nada foi feito para durar”, ele nos ajuda a refletir sobre a grande “dança das cadeiras” das pessoas nos grupos de capoeira e seus respectivos mestres, pois, atualmente a exceção virou regra geral, considerando que é difícil conhecer uma pessoa em capoeira que, ao invés de se perceber como “cliente” de uma instituição de capoeira, se veja como sendo a expressão viva do próprio grupo e/ou seu mestre. Assim, é fácil perceber como os conflitos sociais atuais influenciam a dinâmica da arte capoeira, pois somos incapazes de manter a mesma identidade por muito tempo, atestando uma “cultura do minuto” que fragiliza as relações humanos. Cadê a ancestralidade afrodescendente?

As relações agora se organizam em rede, negando a lógica da comunidade. Assim, os relacionamentos se transformam em conexões, podendo ser feitas, desfeitas e refeitas, com as pessoas se conectando e desconectando conforme a vontade de cada impulso, fazendo com que tenhamos dificuldade de manter laços a longo prazo, consequentemente, matando expressões populares que pressupõem tempo de convivo por sua condição iniciática.

É importante que fique evidenciado neste texto o objetivo de convocarmos a comunidade de capoeira para uma reflexão, sem qualquer apologia a repressão e sistemas de controle que inviabilizam a autonomia critica decisória de cada pessoa, pois os extremos são perigosos e inoportunos para uma sociedade mais democrática, portanto, o que desejo é que, a partir de uma autocrítica, possamos nos perceber sendo cooptados por uma lógica perversa e excludente, que, paulatinamente, vem asfixiando as possibilidades da cosmovisão latente que habita em nós, esmagando a nossa africanidade capoeirana.

 

Vamos nos conectar pela rede social “UBUNTU”? Quantos “LIKES” eu mereço por isso?

Axé.:

Mestre Jean Pangolin

Capoeira Fake: A diferença entre o “real” e o exposto nas redes sociais

Capoeira Fake: A diferença entre o “real” e o exposto nas redes sociais

O título “capoeira fake” faz uma alusão ao uso das redes sociais como mecanismo de legitimação pessoal e/ou de ideias, sem a devida sustentação em fatos concretos da realidade, criando uma ilusão e falseando a realidade em função de algum objetivo.

As ditas “fake news” são informações mentirosas publicadas em redes sociais como se fossem informações reais. Desta forma, esse tipo de texto, em sua maior parte, é feito e divulgado com o objetivo de legitimar um ponto de vista ou prejudicar uma pessoa ou grupo.

Em capoeira, o uso das redes sociais, funciona como uma faca de dois gumes, pois potencializa informações importantes e com grande alcance, mas também tem servido ao propósito difamatório, de pessoas e instituições, bem como a auto-promoção de anônimos/as que não produzem absolutamente NADA para a capoeira.

Atualmente eventos esvaziados ficam cheios pela simples manipulação do ângulo da imagem, fotografias antigas são “clonadas” com imagens recentes, vídeos são editados em função de “vender” uma ideia, dentre outras, e se não bastasse isso, ainda temos uma “cena” favorável, pois uma grande parcela da comunidade de capoeira carece do senso crítico necessário para separar o “joio do trigo”.

Na internet “covardes” ficam valentes, preguiçosos/as se transformam em grandes trabalhadores/as da arte capoeira e falsas ideias são difundidas como a “descoberta da roda”….Muito triste, mas essa realidade faseada tem sido a camuflagem de um exército de pessoas de má fé, manipulando a “consciência ingênua” das pessoas menos favorecidas…..Acordaaaaa capoeira!!!!

O problema esta nas redes sociais? Não, pois estas são apenas o veículo, considerando que o real problema é a índole e intenção daquelas pessoas que produzem a informação.

Como atenuar esse problema? Duvidando de tudo que acessamos e nos colocando como investigadores incansáveis da “verdade”…..Veja como pode ser simples….Imaginem uma situação fictícia…..Xícara sem alça desafiou Mestre “x” pelo Whatsapp, mas quando encontrou o referido Mestre em uma roda, colocou o “rabinho entre as pernas”….rsrsrsrsrs…..Valentão fake….
Xícara sem alça disse que a capoeira é africana, mas quando você foi estudar, percebeu que isso não é possível…Aí você, inteligente, faz a conexão entre o dito sobre a capoeira africana e as intenções escusas para ampliar o “negocio” de Xícara….rsrsrs

O mais importante desta nossa reflexão é que possamos entender que o mundo da capoeira não é uma ilha, portanto estará sempre susceptível as mazelas comuns da natureza humana, sendo importante sempre perceber o “contexto de cada texto”.

O crivo que tenho utilizado é sempre a própria capoeira, ou seja, o referido Xícara sem alça canta? Toca? Joga? Tem trabalho com discípulos? Conhece o fundamento? Tem serviços prestados à capoeira? Porque, para mim, fora disso será sempre uma pessoa “capoeira fake”….Como se diz aqui na minha terra ….”Bunda de caruru”….rsrsrsrs.

Meu povo…! Vamos tentar nos transformar, sendo a mudança que sonhamos para o mundo, pois o “bonde” da história tá passando e nos julgando….

Eu já ponguei no tal bonde, e você????

Axé.

Entre a Capoeira Referenciada e a Copiada

Entre a Capoeira Referenciada e a Copiada

O dias atuais tem nos convocado a pensarmos de forma mais ampliada, considerando o rompimento com alguns modelos e dogmas sociais, sendo a capoeira palco também desta demanda. Assim, tentarei tratar um pouco sobre o desafio de se romper o molde de protótipo de “super capoeira” da atualidade.

A economia de mercado tem “coisificado” pessoas, transformando-as em engrenagens de um famigerado negócio em favor do lucro a qualquer preço, e em capoeira temos isso expresso, dentre as muitas maneiras, na forma que nos movimentamos no jogo.

Geralmente o modelo de “sucesso” econômico em capoeira é aquele mais adequado ao que o “mercado” quer ver, e isso esta tão impregnado nos praticantes, que a maioria nem se percebe fazendo movimentos e expressões completamente desconectados da dinâmica cultural da arte, e/ou alheio ao que se pede no ritual daquele momento.

Certa feita perguntei a um destes “super capoeira” do momento, por que ele durante o jogo fazia uma parada de mãos, arqueando a coluna e olhando para o chão? …Ele respondeu que fazia isso porque era um movimento difícil e esteticamente bonito….Eu, por curiosidade, perguntei…E se o cara que tá jogando com você te der uma cabeçada?….Ele respondeu….”Aí ele está sendo desleal, pois é o momento do floreio …..Agradeci o diálogo e fui embora….No outro dia, após a oficina deste rapaz, estavam todos tentando fazer o mesmo movimento….E aí, o que dizer?

Entendi que imitar evita pensar muito, pois basta copiar, contudo, a capoeira nem sempre segue o ordenamento bonitinho….rsrsrs…..Na primeira festa de largo destes capoeiras cópias, eles entenderam que “calça de homem não cabe em menino”….E o pior é que muitos não entenderam até hoje o que aconteceu…

Qualquer movimento é benvindo em capoeira, desde que o “texto/jogo” respeite o “contexto/ritual”, pois fora disso, irá facilitar muito a vida de quem joga com essas figuras, pois viu um copiador, já viu todos.

Nossa reivindicação é em favor de termos uma capoeira com referência, em que a forma de jogo, lembra alguém que me inspira, e não o que temos visto hoje, uma total perda de identidade.

O esporte capoeira me preocupa, pois a depender do formato, poderá enquadrar, rotular e pasteurizar a dinâmica de jogo, e se assim for, a capoeira vai “chorar” e se esvair do corpo de quem a prática.

O mistério da capoeira é o “velho no novo”/ancestralidade, e o espírito “novo no velho”, com capacidade adaptativa temporal para continuar contribuindo com a arte , reinventando-se sempre que necessário.

Vem comigo, pois sozinho não consigo…Vamos na “forma” sem forma, no jogo que deixa fluir o inusitado e faz brotar a capoeira de “dentro pra fora”.

Axé.

Responsabilidades formativas em capoeira: O “freio de arrumação” na “casa de mãe joana”

Responsabilidades formativas em capoeira: O “freio de arrumação” na “casa de mãe joana”

Os ditos populares do subtítulo fazem referência a organização abrupta (freio de arrumação) de algo desorganizado (casa de mãe Joana). Neste sentido, seguiremos fazendo uma reflexão sobre as responsabilidades dos envolvidos no processo formativo em capoeira.

O Mestre será sempre o principal responsável pela formação de seus discípulos, mesmo que devamos considerar a coparticipação de outros agentes nesse processo, incluindo o próprio discípulo.

Quando um Mestre atribui uma titulação a alguém em capoeira, ele empresta “valor” a um dado processo formativo, que invariavelmente influência a comunidade para além dos limites da instituição que os envolvidos diretamente fazem parte, ou seja, graduar/reconhecer alguém em capoeira é como o cometa, ele passará, mas sempre deixa um rastro com seu “rabo”.

Esse papo de autonomia na formação é extremamente perigoso, pois cria a falsa ideia de que ações individuais não podem ser também parametrizadas pelo coletivo, como se uma pessoa pudesse sair atirando livremente nas ruas por conta do respeito à sua autonomia decisória.

As motivações para se graduar alguém em capoeira são as mais variadas possíveis….o Mestre precisa de grana….o Mestre quer demonstrar poder….o Mestre quer expandir seu “negócio”….o Mestre quer fazer uma “moral” com quem gradua….sei lá.. São tantas aberrações que chega a ser constrangedor descrever aqui. Desta forma, muitas vezes, a intenção primeira do processo formativo, desenvolver a capoeira, fica ofuscada pelos delírios de um Mestre “confuso”.

Qual a justificativa para se graduar alguém afastado da capoeira? Como é possível alguém chegar a mestria sem ter serviços prestados à capoeira? É legítima uma titulação “na tora”, apenas pela vontade de quem gradua?

Uma analogia interessante é quando imaginamos um tocador de piano clássico que não sabe afinar o próprio instrumento….”estranho”, mas na capoeira é possível ver alguém chegar a mestria sem saber nem armar um berimbau, pois para esse indivíduo, afina-lo seria uma espécie de “luxo pedagogico”…Onde vamos parar nessa “casa de mãe Joana”?

E se não bastasse o equívoco de agentes diretos envolvidos neste absurdo, ainda temos uma comunidade que tolera, aplaude de frente, e fofoca pelas costas destes Mestre atrapalhados, sendo o mais grave de tudo isso, que todos sabem, pelos códigos simbólicos culturais, quem tem “nome” e quem tem “apelido”.

Em alusão ao “mito da caverna” de Platão, penso que é preciso fazermos um pacto pela capoeira, sendo justos conosco e com o coletivo, convocando as pessoas que se enquadram nessa absoluta obscuridade, a sair da zona de conforto e buscar a “luz” fora da “caverna”/Mestre/grupo.

Se liga, pois quem é de grupo não cai em “grupo”.

Axé!

Capoeira: A leitura do “todo” pela análise da “parte”

Capoeira: A leitura do “todo” pela análise da “parte”

O século XXI nos imprime uma serie de releituras sobre alguns papeis sociais, dentre estes, destacamos a figura do facilitador em capoeira, considerando que este constantemente está sendo resinificado pelas demandas da conjuntura atual.

A mestria, em tese, deveria ser um ato sublime, pois pressupõe a possibilidade de difusão do conhecimento e consequente continuidade de uma arte ancestral, contudo, nem sempre tem sido assim, pois a figura do mediador em capoeira parece corroída pelas contradições da exploração do homem pelo homem. Assim, temos visto em muitos lugares uma relativa confusão sobre as reais implicações formativas de um processo de ensino aprendizagem capitaneado por alguém que não se coloca a serviço dos interesses da capoeira e sua comunidade.

Hoje, são frequentes as reuniões de pessoas que buscam, mediante objetivos comuns, a criação de espaços de poder que funcionam como uma espécie de “escudo das incompetências”, ou seja, são encontros sectáristas de um dado segmento do segmentos, que excluem a possibilidade de diálogo com a diversidade que compõe a comunidade, em favor do argumento de empoderamento dos membros reunidos e afins. Neste sentido, se este processo fosse apenas uma estratégia de fluxo provisório, mesmo estando em desencontro com a lógica inclusiva da capoeira, seria menos mal, mas o que estamos observando é uma avalanche de eventos propondo discussões fragmentadas, que enfraquecem a força coletiva de uma comunidade que clama por dias melhores.

Na formação em capoeira cabe ao mestre a responsabilidade de guiar os mais novos no processo educativo, mas muitas vezes, estes preferem ficar à margem dos espaços decisórios, ampliando o espaço para os “grupinhos”, que habilmente sabem usar o discurso para criar uma falsa ideia de que estão ali para defender os interesses do coletivo, contudo, sabemos que na realidade só estão preocupados com seu próprio “umbigo”.

Obviamente todos os temas emergentes na sociedade podem e devem ser abordados como estratégia formativa, mas daí a submeter a comunidade a dita “polêmica do minuto” apenas como forma de aparecer, denota um procedimento egoísta e pouco producente para a arte.

Os eventos, aglutinações, grupos, dentre outros, deveriam sempre estar focados nos interesses da comunidade e sua melhoria, mas as disputas de poder ofuscam o bom senso e levam pessoas esclarecidas ao equívoco de confundir a leitura da “parte” como resposta para os desafios do “todo”.

Vamos refletir sobre o que desejamos e como agimos para atingir os objetivos, pois muitas vezes falamos uma coisa e executamos ações contrarias a intenção daquilo que expressamos.

 

Por: Mestre Jean pangolin

CAPOEIRAS: Plantando Abacaxi para colher banana

CAPOEIRAS: Plantando Abacaxi para colher banana

É preciso diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, até que num dado momento, a tua fala seja a tua prática. Paulo Freire A reflexão vale para todas as pessoas que desejam, no âmbito da capoeira, reconhecimento público de sua comunidade, pois o século XXI tem nos apresentado a armadilha do(a) capoeira “fake”, ou seja, aquilo que só parece ser, mas de fato não é absolutamente nada.

Neste sentido, propomos um diálogo sobre este tema nestas breves palavras. A capoeira, por ser uma arte iniciática, prima pelo conhecimento adquirido da experiência vivida, ou seja, o saber emerge de uma labuta cotidiana com o “fazer”, e deste “fazer”, criamos as condições para brotar, via reflexão, um dado conhecimento sobre aspectos da natureza humana, correlatos metaforicamente com as demandas sociais de cada tempo histórico.

O reconhecimento público na capoeira vem do transito de seus adeptos no toque dos instrumentos, no canto, no jogo, no trabalho pedagógico com a arte, no conhecimento filosófico da ritualística, dentre outros, portanto, não é possível avançar na arte sem a garantia destes aprendizados basilares. Atualmente, com relativa frequência, temos sido bombardeados por uma série de discussões de interesse social vinculadas a capoeira, e isso é muito interessante, contudo, o discurso engajado por si só não é suficiente para garantia de reconhecimento público dos(as) capoeiras, ou seja, não se deve confundir os conhecimentos específicos da capoeira com o exercício crítico da cidadania. Se você defende uma prática religiosa qualquer, isso é válido e oportuno para a capoeira, mas apenas esta defesa, alijada dos conhecimentos basilares da arte e do “fazer” cotidiano, não são suficientes para sua projeção e consequente reconhecimento no mundo da capoeira.

Se você defende a difusão do conhecimento pela escrita, isso é valido e oportuno para a capoeira, mas apenas esta defesa, alijada dos conhecimentos basilares da arte e do “fazer” cotidiano, não são suficientes para sua projeção e consequente reconhecimento no mundo da capoeira. Se você defende o conhecimento intelectual, isso é válido e oportuno para a capoeira, mas apenas esta defesa, alijada dos conhecimentos basilares da arte e do “fazer” cotidiano, não são suficientes para sua projeção e consequente reconhecimento no mundo da capoeira.

Se você defende o empoderamento feminino, isso é válido e oportuno para a capoeira, pois vivemos em uma sociedade desigual e a discussão de gênero carece de aprofundamento, mas apenas esta defesa, alijada dos conhecimentos basilares da arte e do “fazer” cotidiano, não são suficientes para sua projeção e consequente reconhecimento no mundo da capoeira. Se você defende um projeto político ideológico, isso é válido e oportuno para a capoeira, pois a politização de nossa comunidade é um importante exercício de cidadania, mas apenas esta defesa, alijada dos conhecimentos basilares da arte e do “fazer” cotidiano, não são suficientes para sua projeção e consequente reconhecimento no mundo da capoeira.

Se você defende o acesso à educação formal e possui títulos acadêmicos, isso é válido e oportuno para a capoeira, pois nos possibilita “abrir” novas portas e um diálogo com outros espaços sociais, mas apenas esta defesa, alijada dos conhecimentos basilares da arte e do “fazer” cotidiano, não são suficientes para sua projeção e consequente reconhecimento no mundo da capoeira.

Em suma, não plante abacaxi e espere colher banana, pois o reconhecimento da capoeira só chegará para aqueles que realmente possuem “serviços prestados a arte”, no toque dos instrumentos, no canto, no jogo, no trabalho pedagógico com novos aprendizes, no conhecimento filosófico da ritualística, dentre outros.

Desta forma, salvo melhor juízo, a maneira mais qualificada para exercício da cidadania a partir da capoeira, é entrelaçando as “bandeiras de lutas sociais” e o ativismo social a um berimbau bem tocado, a uma cantiga bem cantada, a um jogo cadenciado e referenciado nos antigos, a um conhecimento da ritualística, e acima de tudo, ao exercício constante do “fazer pedagógico” com seus discípulos em seu espaço de capoeira. Dedico esta reflexão em homenagem e gratidão ao Mestre Ferreira, meu amigo, meu mestre e minha inspiração.

 

Por: Mestre Jean Pangolin

A Pedagogia do Jogo na Capoeira

A Pedagogia do Jogo na Capoeira

Dentre as diversas potencialidades da capoeira no âmbito educativo, destacaremos algumas de suas possibilidades tomando como foco principal o jogo, evidenciando traços de interlocução com africanidades e a formação humano no espaço escolar.

Aprender fazendo

A capoeira nos ensina que todo aprendizado deve emergir de uma experiência vivenciada, ou seja, a perspectiva eurocêntrica do aprendizado por abstração intelectual, que nos foi apresentada na escola, não atende as necessidades funcionais da arte, pois não consegue dar conta das subjetividades pulsantes de se aprender a tocar tocando, cantar cantando, jogar jogando, e de todo o fluxo interativo de um aprendizado vivo e significativo.
Valorização do mais antigo

Socialmente fomos adestrados a encarar a pessoa mais velha como um fardo social, algo inútil, pois sua capacidade produtiva e de gerar renda estariam em franco declínio, ledo engano, pois a capoeira nos ensina que sem o mais antigo não existirá continuidade de construção do conhecimento, pois perderíamos o acesso a todo acumulo de experiências destes indivíduos. Desta forma, na roda, o mais experiente é sempre o mediador dos processos, cabendo a ele a responsabilidade da garantia da construção do novo, estando este adaptado as necessidade conjunturais de cada tempo, sem contudo, perder de vista a conexão ancestral com os fundamentos estruturantes da arte.

Perder e ganhar

Na capoeira aprendemos que o ganhador não será necessariamente aquele que anula o outro, pois o jogo nos ensina que a verdadeira vitória só surge pelo signo da dupla, ou seja, o vencedor sempre será aquele capaz de deixar o parceiro sem respostas para suas perguntas e ainda ansioso e capaz de continuar tentado responder, pois é preciso vencer em franco fluxo da dinâmica do jogo, ganhando não aquele que finaliza o outro, mas sim aquele que mantem o outro em atividade e com a crença de que poderá vencer.
Com certeza, para muitos, é difícil entender a explicação acima, pois fomos educados a pensar em uma única perspectiva de competição, aquela que para garantir a vitória precisa anular e/ou subjugar o oponente da peleja, pois esta é a lógica do sistema capitalista, privilegiando um em detrimento de todos os outros, matando a noção de comunidade e construção coletiva para o bem comum.

Respeito as diferenças

Vivemos em um mundo que tenta a todo o momento nos enquadrar, criando padrões que facilitem o controle e nos tornem presas fáceis do consumismo, e a escola não tem, historicamente, fugido a esta lógica, pois diversos são os elementos que homogeneízam os indivíduos e tentam anular as diferenças em seu cotidiano.
Na roda de capoeira ser diferente é condição primordial, pois só poderemos constituir uma boa dinâmica, na medida em que pessoas diferentes possam executar funções diferentes, alguns tocando, outros cantando e uma dupla jugando, ou seja, a diversidade é o catalizador de aprendizado pela complementariedade que o outro, diferente de mim, poderá aportar para resolução de problemas que auxiliarão a todos daquele contexto. Desta forma, a roda de capoeira funciona como uma metáfora da roda da vida, explicitando que os diferentes são complementares para o bom andamento da dinâmica social.

O corpo como registro do saber

O nosso corpo foi historicamente negligenciado como repositório de um saber ancestral, pois o mesmo sempre foi tido como uma espécie de simples suporte para sustentar o intelecto, ou seja, um corpo para suor e músculos, como sustentáculo de uma cabeça, única responsável para construção do conhecimento. Neste sentido, crescemos com a ideia equivocada de subutilização da corporeidade como estratégia de construção do saber, negligenciando as potencialidades do movimento na pedagogia para emancipação humana.

Em capoeira aprendemos que o corpo pensa e fala por seus movimentos, interpretando realidades, expressando sentimentos e trazendo encaminhamentos para os diversos conflitos de uma dada comunidade, pois este corpo passa a ser entendido como um repositório de experiências educativas, como uma espécie de biblioteca ambulante, ratificada pela difusão de conhecimento a partir da simples observação de um grande mestre jogando.
Diversos são os exemplos de interlocução do jogo da capoeira com os processos educativos formais, portanto, acima destacamos apenas alguns, contudo, estes só terão a eficácia desejada no chão da escola, na medida em que esta se transforme numa espécie de extensão da própria comunidade, contextualizado conteúdos e atuando de forma fluida e dinâmica em favor dos anseios de cada tempo histórico.

Sonhamos com a capoeirização da escola, pois estamos cansados da inoperância transformadora da escolarização da capoeira.

 

Mais sobre: Mestre Jean Pangolin

 

 

A EVOLUÇAO DA CAPOEIRA NO MUNDO

A EVOLUÇAO DA CAPOEIRA NO MUNDO

Caminhos de “esterilização” da arte para “fertilização” do negocio.

O reconhecimento da capoeira na atualidade se depara com seu mais difícil paradigma, pois a mesma precisa conviver com um processo de transformação que, na maioria das vezes, só justifica-se por parâmetros que negligenciam princípios de ancestralidade, oralidade, aprender fazendo, dentre outros, que são encarados por seus praticantes como ultrapassados e/ou utilizados unicamente nos discursos eloqüentes dos “tiranos comandantes” disfarçados de mestres. Neste sentido, nos propomos a refletir sobre algumas questões que tentarão nos aproximar de alternativas para dialogarmos com a tão famigerada “evolução” da capoeira, apelidada em nosso tempo equivocadamente de Capoeira Contemporânea.

Inicialmente quero tratar especificamente da terminologia, que já de inicio apresenta-se erroneamente, pois faz referencia, considerando a grande maioria de capoeiras de senso comum, a um estilo que se distanciaria da Angola e da Regional, propondo uma mescla dos dois estilos anteriores, mesmo convivendo no mesmo período histórico, ou seja, representando uma pretensa evolução técnica e etc. Assim, se desta forma for encarada, seu nome correto talvez devesse ser Capoeira Futuro, Avançada, Espacial….. Sei la…. E não Contemporânea, pois isso representa algo que convive em mesmo período.

Outro ponto contraditório apresenta-se quando definimos esta nova capoeira “moderna” como algo inusitado, futurístico, pois sua própria origem esteve sempre atrelada no discurso de que a mesma foi forjada a luz da Angola e da Regional baiana e sendo assim, o correto seria dizer que a mesma simplesmente tentou juntar o que vivia separado, fato que representaria uma grande incoerência, pois sabemos que quando investigamos a capoeiragem mais detalhadamente e criticamente, percebemos que o trabalho capitaneado por Bimba e por Pastinha possuíam muito mais semelhanças do que diferenças, pois os mesmos foram fruto da historia de um determinado local em um tempo especifico.

Sobre a técnica desta capoeira evoluída, o que temos visto são conseqüências desastrosas, considerando o grande numero de lesões, a violência com pouca belicosidade e ainda as atrocidades com relação à biomecânica dos movimentos, pois estes alem de não respeitarem os limites articulares e fisiológicos, ainda propõem uma pratica completamente distanciada da estética ancestral da capoeira, visto que os capoeiras deste estilo “evoluído” mais se aproximam de ginastas ou acrobatas de circo com pretensões de luta, transformando o jogo em um espetáculo grotesco, pois não conseguem fazer bem nem a ginástica nem tão pouco a luta.

A musicalidade na capoeira tem papel fundamental, pois dela se desencadeia boa parte do processo “ritualístico”, ou seja, é a partir da musicalidade que os movimentos são executados, os instrumentos são tocados e as cantigas entoadas, contudo atualmente nos grupos intitulados de Capoeira Contemporânea, observamos uma linearidade melódica que não contempla as variantes ancestrais africanas, com letras ceifadas de seu conteúdo para reflexão, que já não cumprem tão bem o papel da oralidade e sua documentação da historia humana por contos e cantigas. Assim temos percebido que os instrumentos e as cantigas pouco a pouco tem perdido sua função ritual na roda, pois os praticantes alem de não valorizarem e desenvolverem esta parte do aprendizado, não conseguem decodificar a influencia da musicalidade na pratica, negligenciando o papel fundamental desta no desenvolvimento da roda.

A ladainha não arrepia mais, o cantador não se emociona, as cantigas não tratam do universo simbólico da capoeiragem e ainda a forma de cantar tem sido “plastificada” e embalada para vender, criando um exercito de cantadores “copias de alguém famoso”, e se não bastasse isso, as pessoas ainda não conseguem perceber que o mesmo acontece por toda parte no modo de produção capitalista, pois todos querem parecer com os modelos vendidos pela mídia, idiotizados pela propaganda e aumentando o lucro dos “grupos produto”, como um grande Big Mac vendido na esquina de qualquer grande centro.

Em relação aos aspectos filosóficos, temos nosso maior abismo, basta observar os bonecos de vídeo game que representam os capoeiras, sempre musculosos, com movimentos robóticos, com uma negritude estereotipada, e ainda com golpes previsíveis e não característicos, negando os fundamentos difundidos pelos antigos mestres da Bahia.

Soma-se também a este conflito simbólico uma serie de situações organizacionais nos grupos de capoeira, aproximando-os administrativamente de empresas e distanciando cada vez mais das praticas humanas e necessidades da capoeiragem em sua trajetória, pois os mestres se transformaram em patrões, as rodas em shows, o conhecimento em produto de venda, as pessoas em números de matricula e sua filosofia em trabalhos acadêmicos de pessoas que nunca sujaram as mãos fazendo Au…..

Lamentável, mas esta tem sido a realidade que tenho encontrado em muitas partes do mundo em nossas viagens com a capoeira, e para piorar, se não bastasse tudo isso, tenho percebido, com o passar dos anos, que os poucos cabelos que ainda me restam estão ficando brancos e que a grande parte dos capoeiras acreditam que nossa arte esta em seu curso natural, como se alguma força alienígena controlasse estas mudanças, não sendo necessário refletir sobre as mesmas e só segui-las.

Quero propor com estas palavras, que não são verdades absolutas e sim um desabafo ingênuo de um capoeira da Bahia, que existem sim alternativas e estas estão ao alcance de todos aqueles que investigarem a matriz ancestral da capoeira e seus representantes mais antigos, observando a forma como jogam, sua fala, como lidam com os instrumentos, seus códigos filosóficos e acima de tudo como vivem, mesmo não fazendo parte do espetáculo futurístico da Capoeira Contemporânea.

Sugiro uma busca na década de trinta e seus princípios metodológicos para trato com a Educação Física, pois la encontraremos as bases desta dita capoeira evoluída, comprovando que a mesma não possui nada de moderno e sim uma adaptação mal feita para na atualidade atender as demandas do capital, considerando a dicotomia corpo/mente e o processo de adestramento pelas seqüências de ensino idiotizantes, atrofiando o senso critico e favorecendo o negocio dos mega grupos e seus mestrões.

Mestre Jean Pangolin Portal CapoeiraDespeço-me pedindo força ao Grande Arquiteto do Universo e perdão pela possibilidade de minhas palavras ofenderem camaradas ainda não despertos para as armadilhas desta capoeira mercadorizada, espetacularizada e muito distante das necessidades de aprendizado para evolução da humanidade.

Capoeira e seus Cantadores

CAPOEIRA E SEUS CANTADORES

A musicalidade traz em si um elemento fundamental para o desenvolvimento da capoeira, pois ela será responsável pelo encadeamento ritualístico, pela oralidade na construção do conhecimento, pelo “balanço” do jogo e pela construção simbólica da “atmosfera” da “vadiação”.

A musicalidade nunca será uma simples conseqüência fisiológica da articulação bem sucedida entre cordas vocais, músculos da face e diafragma, pois em capoeira a complementaridade entre os diferentes, articulados em propósito comum para o coletivo, supera qualquer perspectiva ou habilidade individual, transformando o bom cantador naquele que mais motiva o coletivo a cantar junto, muitas vezes ofuscando a própria voz de quem puxa o canto, ou seja, cantador de “verdade” na capoeira não é o que mais aparece, mas o que projeta o conjunto da roda em ritual.

O bom cantador nem sempre é aquele com a voz mais bonita e empostada, nem sempre é o que tem a melhor pronuncia e português correto, nem sempre é o que grita mais alto…..O bom cantador é o que cantando encanta, aquele que consegue captar a magia do momento do jogo, fazendo com que sua cantiga seja o “catalisador” de uma química que eleva os capoeiras a um “transe” coletivo, que de tão especial nos faz sonhar acordado.

Não existe bom jogo sem boa musicalidade, pois a organicidade da roda é um complexo sistema multifacetado, lembrando o corpo humano, em que cada órgão cumpre uma função distinta a favor do funcionamento de todo o sistema para que a vida aconteça. Assim, tão importante quanto o “movimento”, aquilo que o impulsiona, harmoniza e qualifica, também deve ser considerado e exercitado, a cantiga.

È impressionante como Mestre Boca Rica, cantando quase sussurrando, com um único berimbau, se espalhou pelo planeta como um vírus positivo da boa capoeiragem……Impressionante como décadas mais tarde, as gravações de Bimba, Pastinha, Waldemar, Canjiquinha, Camafeu de Oxossi e outros, ainda encantam, mesmo sem todos os recursos tecnológicos atuais.

O maior desafio de um grande cantador em capoeira será sempre conseguir captar o “cheiro do dendê“ em uma roda, sendo simples, singelo e traduzindo na poesia de seu canto os mistérios da arte capoeira. Neste sentido, se você deseja qualificar seu canto, te recomendo que antes de cantar tente ouvir mais, e não ouça qualquer coisa, ouça os sons mais elementares produzidos pela mãe natureza, o ronco do mar, a suavidade das ondas, o fluir da cachoeira, o vento nas arvores, trovões e ate mesmo o pingo da chuva caindo no chão, percebendo que cada som deste esta articulado a um contexto especifico e complexo, sendo seu maior sentido a conexão com o todo.

Por fim, aprenda que a cantiga é também uma forma de doação à arte capoeira, portanto, ser um bom cantador será, acima de tudo, a capacidade de brindar os outros com aquilo que temos de melhor, pois o lamento da ladainha emociona e arrepia o outro, também na medida em que o cantador já chorou e se arrepiou antes, incorporando o sentimento expresso em seu cantar. Desta forma, entenda que viver o momento é mais importante do que o resultado final, portanto, não fique preocupado com o impacto de sua voz na roda, mas tente viver junto com seus pares magia do contexto no milésimo de segundo em que sua cantiga toca a fibra mais tênue do coração de quem te escuta, transformando o momento em único e especial para todos.

Vamos cantar mais com a alma!!!!!!!

Mestre Jean Pangolin Portal Capoeira