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Fevereiro 2019

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A Pedagogia do Jogo na Capoeira

A Pedagogia do Jogo na Capoeira

Dentre as diversas potencialidades da capoeira no âmbito educativo, destacaremos algumas de suas possibilidades tomando como foco principal o jogo, evidenciando traços de interlocução com africanidades e a formação humano no espaço escolar.

Aprender fazendo

A capoeira nos ensina que todo aprendizado deve emergir de uma experiência vivenciada, ou seja, a perspectiva eurocêntrica do aprendizado por abstração intelectual, que nos foi apresentada na escola, não atende as necessidades funcionais da arte, pois não consegue dar conta das subjetividades pulsantes de se aprender a tocar tocando, cantar cantando, jogar jogando, e de todo o fluxo interativo de um aprendizado vivo e significativo.
Valorização do mais antigo

Socialmente fomos adestrados a encarar a pessoa mais velha como um fardo social, algo inútil, pois sua capacidade produtiva e de gerar renda estariam em franco declínio, ledo engano, pois a capoeira nos ensina que sem o mais antigo não existirá continuidade de construção do conhecimento, pois perderíamos o acesso a todo acumulo de experiências destes indivíduos. Desta forma, na roda, o mais experiente é sempre o mediador dos processos, cabendo a ele a responsabilidade da garantia da construção do novo, estando este adaptado as necessidade conjunturais de cada tempo, sem contudo, perder de vista a conexão ancestral com os fundamentos estruturantes da arte.

Perder e ganhar

Na capoeira aprendemos que o ganhador não será necessariamente aquele que anula o outro, pois o jogo nos ensina que a verdadeira vitória só surge pelo signo da dupla, ou seja, o vencedor sempre será aquele capaz de deixar o parceiro sem respostas para suas perguntas e ainda ansioso e capaz de continuar tentado responder, pois é preciso vencer em franco fluxo da dinâmica do jogo, ganhando não aquele que finaliza o outro, mas sim aquele que mantem o outro em atividade e com a crença de que poderá vencer.
Com certeza, para muitos, é difícil entender a explicação acima, pois fomos educados a pensar em uma única perspectiva de competição, aquela que para garantir a vitória precisa anular e/ou subjugar o oponente da peleja, pois esta é a lógica do sistema capitalista, privilegiando um em detrimento de todos os outros, matando a noção de comunidade e construção coletiva para o bem comum.

Respeito as diferenças

Vivemos em um mundo que tenta a todo o momento nos enquadrar, criando padrões que facilitem o controle e nos tornem presas fáceis do consumismo, e a escola não tem, historicamente, fugido a esta lógica, pois diversos são os elementos que homogeneízam os indivíduos e tentam anular as diferenças em seu cotidiano.
Na roda de capoeira ser diferente é condição primordial, pois só poderemos constituir uma boa dinâmica, na medida em que pessoas diferentes possam executar funções diferentes, alguns tocando, outros cantando e uma dupla jugando, ou seja, a diversidade é o catalizador de aprendizado pela complementariedade que o outro, diferente de mim, poderá aportar para resolução de problemas que auxiliarão a todos daquele contexto. Desta forma, a roda de capoeira funciona como uma metáfora da roda da vida, explicitando que os diferentes são complementares para o bom andamento da dinâmica social.

O corpo como registro do saber

O nosso corpo foi historicamente negligenciado como repositório de um saber ancestral, pois o mesmo sempre foi tido como uma espécie de simples suporte para sustentar o intelecto, ou seja, um corpo para suor e músculos, como sustentáculo de uma cabeça, única responsável para construção do conhecimento. Neste sentido, crescemos com a ideia equivocada de subutilização da corporeidade como estratégia de construção do saber, negligenciando as potencialidades do movimento na pedagogia para emancipação humana.

Em capoeira aprendemos que o corpo pensa e fala por seus movimentos, interpretando realidades, expressando sentimentos e trazendo encaminhamentos para os diversos conflitos de uma dada comunidade, pois este corpo passa a ser entendido como um repositório de experiências educativas, como uma espécie de biblioteca ambulante, ratificada pela difusão de conhecimento a partir da simples observação de um grande mestre jogando.
Diversos são os exemplos de interlocução do jogo da capoeira com os processos educativos formais, portanto, acima destacamos apenas alguns, contudo, estes só terão a eficácia desejada no chão da escola, na medida em que esta se transforme numa espécie de extensão da própria comunidade, contextualizado conteúdos e atuando de forma fluida e dinâmica em favor dos anseios de cada tempo histórico.

Sonhamos com a capoeirização da escola, pois estamos cansados da inoperância transformadora da escolarização da capoeira.

 

Mais sobre: Mestre Jean Pangolin

 

 

Póvoa do Varzim: Sinhá Mandou Chamar

Póvoa do Varzim: Sinhá Mandou Chamar

Escola de capoeira VIVÊNCIA, realizará nos dias 8/9/10 de Março de 2019 o 5° encontro feminino “Sinhá Mandou Chamar” na cidade da Póvoa de Varzim, Portugal.

“O evento não tem a presunção de criar um evento só para mulheres, como se elas precisassem deste tipo de movimento para ter espaço dentro da nossa arte, o intuito do evento é valorizar as mulheres que trabalham a capoeira de forma profissional dando a comunidade em geral esta visão de que as mulheres também são grandes profissionais da nossa arte, sejam elas instrutoras, professoras, contramestres ou mestres.”  Diz Vilma (Instrutora Sindel)

A edição deste ano conta com a presença de integrantes de varias escolas de Portugal e Espanha, tais como: Muzenza, Agbara, Aruê, Jogo de Negro, Ginga Camará, Reliquia do Espinho Remoso, Alto Astral, Nagô, Sul da Bahia, Iandê, Batuqueiros, Porto da Barra, Maculelê entre outros.

Póvoa do Varzim: Sinhá Mandou Chamar Capoeira Mulheres Eventos - Agenda Portal Capoeira

Todas as aulas são ministradas por mulheres mas aberta a toda gente.

O evento é de organização da Instrutora Sindel (Vilma) da ECV – Póvoa de Varzim.

MUITO ALÉM DE… ESPORTE !

MUITO ALÉM DE… ESPORTE !

 

“Era a arma utilizada
pelos negros desnutridos…
contra branco forte, armado,
o Negro é bem sucedido”!
(trecho de ladainha / anos 70)

 

Por mais estranho que pareça, a Capoeira é vista por quase todos como Folclore — e não esporte ! — mesmo que de forma inconsciente, intuitiva. Artes Marciais antigas como Judô, KungFu, Karatê, carregam uma essência, uma mística do Passado dentro de si. Nossa Capoeira a tem de sobra, as raízes africanas continuam presentes e sua Música e canto grupal acentuam isso. Futebol tem 2 séculos, corrida e natação vêm de gregos e romanos, são milenares, mas sem carisma. Felizmente a Capoeira encerrou sua fase de “conquista de territórios”, abrindo Grupos de qualquer maneira em muitos lugares ou com professores medianos. Chega de amadorismos, a Dança-Luta está no Mundo inteiro e não pode se dar ao luxo de ser mal-vista ou desdenhada como “coisa menor”, “de quem não tem o que fazer”… nos disse um prefeito evangélico em 1989, em nosso município, quando lhe pedi ajuda.

 

Esportes têm regras — muitas delas — e a Capoeira também, por parte de Federações… segundo meu irmão, falando para um jornal de Belém em 1987, “as regras da Capoeira acabam quando começa o jogo”. A frase é “maldosa”, embora naqueles tempos até fizesse sentido ! “Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”! Hoje professores e mestres dela precisam estar atentos, não há mais leigos a assistir suas apresentações, todo mundo agora conhece os rudimentos da luta. Eventos e shows exigem os melhores, aluno iniciante é só para completar a Roda, o círculo. Canto e toques devem estar “nos trinques”, o berimbau é o elemento soberano, nada de “estapear” o pandeiro ou “socar” o atabaque, para que seja ouvido na lua.

 

Há na platéia pessoas com noções de canto e música, observando o andamento do show e as falhas, quando houver. Quem canta, mantenha sempre o ar nos pulmões para a voz não sair ríspida, seca, desagradável. Palmas firmes, “respostas” vivas, a fim de que o mestre não tenha que passar pelo vexame de intimar… “abre a boca, gente”! Tudo isso é Passado, Capoeira agora tem que ser excelente, é o que o público espera dela !

 

Nessa busca pela modernidade como ficam os símbolos ? Dormem “em berço esplêndido”, criados a 30 ou 50 anos atrás por professores, “treinéis” e mestres “paus para toda obra”, que tinham que fazer TUDO no Grupo, desde pintar as paredes do local de treinos até… criar e DESENHAR o símbolo. Daí termos ainda hoje verdadeiros “garranchos” como símbolos. É hora de mudar, capoeiristas jogam, desenhistas desenham ! Quem quizer algo mais exclusivo faça uma foto posada do movimento e leve-a a um bom desenhista. Programas de computador já “transformam” foto em desenho… quer fazer isso você mesmo ?! O caminho mais simples é XEROCAR sua foto, ampliada. Se conseguir papel carbono tanto melhor, seu desenho sairá completo na página por baixo da risca, a ampliação original. Marque na xerox somente as partes escuras, vá circundando essas partes negras. Use fita DUREX para manter bem unidas as 2 folhas, a de baixo em branco. Terminou ?! Aí está em tamanho grande o novo desenho do Grupo, a partir da tal foto… você tem apenas traços, “riscos”, se quizer sombra e cores terá que acrescentá-las. Fiz um “esboço” a partir de foto colorida de um cantor, poeta e cordelista mineiro, “Zé Ribeiro”, que “baixei” do Facebook. Para inverter “vire o carbono” ao contrário ou use os recursos do próprio PAINT, program do WINDOWS.

 

A “quadriculação” da foto original é o caminho mais curto… aumenta-se os quadradinhos no papel de reprodução da imagem.

 

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De minha parte, insisto: é preciso “quebrar a estética” do símbolo redondo, que soa antigo, pouco criativo. Mesmo que seja mantido, é possível modernizá-lo, embora hajas resistências. Em junho/1988 fizemos meu irmão e eu um concurso aberto entre os “capoeiras” de Belém para eleger o símbolo do nosso Centro Cultural – CCCP. Além de nós, só 2 desenhos externos, entre êles o vencedor, mal desenhado mas com o mapa do Pará (e colorido !). Usando as vantagens da xerox em colagens criativas a partir de fotos de Rodas e movimentos — com os rostos de Pastinha ou de Bimba — fizemos 13 desenhos, muito mal votados, por sinal. (Cada pessoa presente podia escolher 3 desenhos e venceria a obra com mais pontos.) Recusaram quase todos os meus 10 desenhos, dos 3 de meu irmão o REDONDO teve mais votos e um “bairrismo” tolo falou mais alto, premiando a bandeira do Estado sobre o mapa, com 2 “capoeiras” em cima. É a Vida !

 

“NATO” AZEVEDO (em 25/jan. 2019)