Capítulo 7 – Veneno da Madrugada
17 Abr 2015

Capítulo 7 – Veneno da Madrugada

  CAPOEIRISTAS PULP FICTION TROPICAL   Nestor Capoeira capítulo 7   Finalzinho do capítlo 6/Intermezzo Uma pena; era uma coroa gostosona e,

17 Abr 2015

 

CAPOEIRISTAS

PULP FICTION TROPICAL

 

Nestor Capoeira

capítulo 7

 

Finalzinho do capítlo 6/Intermezzo

Uma pena; era uma coroa gostosona e, apesar de não sacar porra nenhuma, era inteligente nos papos.

Fim do cap. 6

 

capítulo 7

 

VENENO-DA-MADRUGADA

 

FUTEBOL DE AREIA

Veneno conheceu os dois filhos do ilustre senador, Carlinhos Piu-Piu e Delano Bule, na primeira vez que veio a Copacabana com sua mãe, cozinheira num apê perto da rua Inhanga. Isto foi por volta de 1958, e Veneno tinha uns 12 de idade.

Nos fins de semana, o patrão e a patroa viajavam com a família pra Friburgo, e Veneno vinha de Japeri passar os feriados com a mãe.

Veneno era um menino negro, morava num longíncquo subúrbio, completamente desenturmado; era impossível imaginar que, dez anos depois – aos 20 e poucos de idade -, ele já seria uma lenda urbana entre os jovens da movimentada Zona Sul carioca.

Foi o futebol de praia que inicialmente abriu as portas de Copacabana para Veneno.

No começo, acostumado a jogar em campo de terra batida, em terreno baldio, estranhou a areia; a bola não rolava, era difícil dar um drible, correr na areia macia era desgastante. Mas assim que pegou a manha, rapidamente se tornou um destaque das peladas infanto-juvenis.

Começou a disputar o Campeonato de Praia Junior; jogava no Lá Vai Bola; e logo – tinha apenas 12 anos, mas era um garoto alto e taludo – já disputava vaga no time dos adultos.

Dois anos depois, no subúrbio, Veneno já era “o rei do comércio de amendoin e bala puxa-puxa” da linha de trem Central-Japeri.

Paralelamente, num outro universo de fins-de-semana, começava a se destacar como uma das promessas do futebol de praia semiprofissional da rica Zona Sul.

Num fim de tarde de sábado, após um jogo na praia de Ipanema na altura da Praça General Osório, Veneno começou a fazer nome: arreganhou o Ricardão, capitão do Lá Vai Bola, primo do Carlinhos Piu-piu e do Bule, e respeitado como playboy porradeiro em toda Copacabana, Leme, e até mesmo Ipanema – box na academia Santana, jiujitsu com os Gracies, capoeira de Sinhô.

 

LEILA DINIZ

Ipanema, nos 1960s, é lembrada e cultuada por ser o lar da Bossa Nova – Tom Jobim, João Gilberto, Vinicius de Moraes, Nara Leão -; do Cinema Novo – Rogerio Esganzela, Glauber Rocha -; pela sua carismática musa, a luminosa atriz Leila Diniz de Todas as mulheres do mundo, do Domingos de Oliveira; por sua praia; e principalmente por seus bares e butequins frequentados por diferentes gerações de artistas talentosos e iluminados boêmios – o Jangadeiros, o Veloso, o Zepelin.

Mas quem, na juventude, viveu aquela Ipanema; certamente vai se lembrar de outras mumunhas.

Na década de 1960, a zona sul carioca – aliás, a zona norte tambem – era dividida em gangues de adolescentes da classe média e alta. Em Ipanema, entre outras, tínhamos a turma da (rua) Barão da Torre; em Copacabana, a da Miguel Lemos e a da Praça do Lido; logo ao lado, a turma do Leme; e por aí afora.

A rapaziada, especialmente nas noturnas de sexta e sábado, ficava pelas esquinas trocando ideia, bebendo cerveja em pé na porta do botequim; alguns tomavam bolinha – anfetaminas tipo Pervertim -; outros já subiam o morro e compravam uma mutuca de maconha que vinha embrulhada em papel de jornal – a cocaína ainda era pouco conhecida.

Dali, do papo na esquina, os mais cascudos saiam para roubar carro e fazer pega de madrugada nas ruas desertas. Mas a maioria ia curtir alguma festinha; se a festa era em terra inimiga, era certo que a porrada ia comer. O arsenal da rapaziada incluia canivete de mola, soco inglês, e chicote de fio de aço; mas os mais famosos primavam pela porrada mano-a-mano com algum cara de destaque da turma inimiga.

Surgiram nomes como Rodolfo Hermany, um desportista que mais tarde foi campeão sul-americano de judô; Rickson Gracie, talvez  o maior lutador de jiujitsu brasileiro de todos os tempos.

E tambem aqueles com um pé na boêmia e na marginalidade como Cirandinha. E, mais tarde, já em 1970 no período da ditadura militar 1964-1984, Mariel Mariscott, um policial civil com pinta de galã italaiano, chefe dos Homens de Ouro – um esquadrão da morte (o que, hoje, chamamos “milícia”) que dominava as noites, as drogas, e a prostituição de Copacabana, e era informalmente ligado à Escuderie LeCoq formada por policiais e afins barra-pesados que homenageavam o lendário e recentemente falecido detetive LeCoq.

Era no fim daquelas lutas mano-a-mano memoráveis que a violência se alastrava pela plateia composta, em sua maioria, pelos jovens das gangues antagônicas. O barulho só terminava com a chegada da radio-patrulha chamada pelo telefone por algum respeitável morador escandalisado – “Meu Deus! Isto é uma total falta de respeito! A decadência dos valores morais e familiares! Onde isto tudo vai parar?”.

Os jornais, o rádio, e a incipiente televisão – que tinha estreado alguns anos antes, na década de 1950 -, faziam eco; ressoavam em harmonia alarmista apontando os perigos da Juventude Transviada, algo que já tinha até rendido um filme de Holywood com ninguem menos que Marlon Brando no papel principal de um motoqueiro rebel without a cause.

Muitos dos jogadores de futebol de areia pertenciam a uma dessas turmas. Aliás, não era raro a porrada rolar, até mesmo, nos jogos oficiais do campeonato.

 

UMA INSTITUIÇÃO DE GENTIS-HOMENS

Outra instituição curiosa da Ipanema e Copacabana dos 1960s eram as bichas velhas.

Homens cultos, educados, ricos, fluentes em várias línguas, verdadeiros cavalheiros, filhos solteirões de famílias tradicionais que transitavam nesta Faixa de Gaza entre o submundo do crime, o futebol de areia, o novo cinema e a nova música, os caretésimos e elegantes e bregas clubes exclusivos e excludentes – Country Club, Hípica, Caiçaras -, os chás com as velhas tias rococós nas tardes de quinta-feira.

Alguns eram ligados ao teatro ou à opera ou ao ballet; outros eram antiquários, especialistas nas artes plásticas; e por aí afora.

Era uma instituição – as bichas velhas – perseguida pela mentalidade machista, estigmatizada pelos preconceitos vitorianos, maldita pelos padres católicos apesar de vários serem pedófilos. Seus “afiliados” e membros muitas vezes apareciam nos jornais como vítimas de tragédias e eventos sangrentos, macabros, e hediondos.

E qual o terrível crime destes senhores?

Nenhum, exceto o de serem total e loucamente apaixonados pela pele bronzeada e pela carne dura daqueles bad boys de araque da tal Juventude Transviada.

Muitos daqueles delicados e alienados gentlemen acabaram bancando garotões da classe média baixa; enfiando-os quase à força na PUC, a caríssima universidade católica da classe média alta e da burguesia; casando o “sobrinho” com alguma dondoquinha deslumbrada e arranjando-lhe um emprego com o sogro reticente:

– O Cesário Alexandrijo me falou muito bem do namorado da Cristiana.

– Eu não te falei, Alfredo Romualdo? Você ve maldade em tudo. O rapaz é trabalhador, sério, bem-educado e, o mais importante, esta completamente apaixonado pela nossa filha.

– É… pode ser. Mas eu acho o Cesário Alexandrijo meio esquisito.

– Como assim?

– Meio estranho. Essa mania do ballet clássico, das noites de estreia no Teatro Municipal… não sei não.

– Não sabe, não? Claro que voce não sabe, Alfredo Romualdo. Voce não sabe de nada. É um grosso, um retrógado, só sabe ganhar dinheiro; não tem a mínima sensibilidade para as artes, para a cultura, para as coisas refinadas da vida. Aí fica inventando estas histórias, como se o Cesário Alexandrijo fosse um pervertido, um – Deus que me perdoe! – um homosexual.

– Eu não disse isto, meu amor…

– Não disse, é verdade; mas insinuou, que é muito pior. Voce sabe onde o Cesário Alexandrijo vai celebrar o aniversário de 46 anos? Na casa da Estelita Estella!

– ?

– Tá vendo! Voce não sabe nem quem é a Estelita Estella! É a mulher do Doutor Rivelino Roberto de Souza Transcepto! É, ele mesmo! Aquele que voce vive bajulando mas não arranja nada. Aposto que se o Cesário Alexandrijo murmurar uma palavrinha a teu favor, a música vai ser outra.

– Voce acha? De verdade?

 

Como vemos, havia uma grande diferença entre o Rio de Janeiro – com sua praia, seus intelectuais, músicos e artistas -; e Belo Horizonte – com sua Família, Tradição e Propriedade (onde Toninho Ventania estava vivendo, naquele momento). Mas, num ponto, a suingante metrópole a beira-mar coincidia com a canhestra e interiorana capital das finadas minas de ouro: o preconceito e a perseguição às bichas.

Preconceito que se estendia aos crioulos, aos paraíbas, etc etc etc. Embora, é  verdade, o preconceito era menor no Rio devido a influência da mentalidade e dos valores de uma boêmia ilustrada e luminosa que durou, infelizmente, somente até aproximadamente 1980/85.

Já em 1990, vemos, se hoje olharmos retrospectivamente, o aparecimento de uma outra gira no Rio – e tambem no Brasil, e em muitas parte do mundo. Um outro lance cuja face mais óbvia e visível e o computador, a Internet, e os telefones celulares.

E assim caminha a humanidade.

 

BOSSA NOVA NA AREIA

Naquele sábado memorável em 1960, apesar do futebol de areia ser oficialmente “amador”, havia um generoso prêmio em dinheiro para ser distribuido entre a equipe vencedora – cortesia de Cesário Alexandrijo, um elegante senhor de cabelos grisalhos e olhos azuis, filho de uma tradicional família carioca.

 

Cesário Alexandrijo, apesar do calor, assistia ao jogo vestido calças de flanela inglesa branca, blazer azul-marinho com botões dourados, um chiquérrimo foulard de seda francês enrolado no pescoço, sapatos de amarrar de camurça cor de gelo feitos sob medida em Milão, e um fino Pateck-Phillip de ouro com correia de legítima pele de crocodilo no pulso – esse negócio de ecologia, de espécies ameçadas, e buraco de ozônio ainda era algo distante, lá longe além do horizonte.

O mordomo havia trazido cadeiras de praia de vime e um enorme guarda-sol. Numa mesinha de armar via-se um enorme balde de prata cheio de gelo para resfriar os martinis que Cesário Alexandrijo degustava intercalados com canapés de salmão defumado, caviar, e patê foi-grass.

Veneno, com 14 anos, era o caçula do time de futebol de areia, o resto da rapaziada tinha entre 18 e 30 de idade.

Apesar de não ser canhoto, jogava de ponta-esquerda; Piu-piu era o talentoso centro-avante; Delano Bule e Ricardão – capitão da equipe – jogavam no meio-da-campo.

Curiosamente – embora isto não tenha nada a ver com nossa estória – Tom Jobim, que tinha sido aluno de capoeira de Sinhozinho em Ipanema, atuava de beque recuado, e no segundo tempo atacou de goleiro; e Vinicius de Moraes bebia seu uísque escocês – o “cachorro engarrafado” – sentado à sombra do para-sol de Cesário Alexandrijo – Vinicius foi adido cultural em Paris na época em que o pai de Cesário era embaixador.

Naquele dia, Carlinhos Piu-piu estava em tarde de sábado inspirada, balançou a rede quatro vezes; o Lá Vai Bola ganhou de goleada.

No final da pelada, Piu-piu foi carregado em triunfo até o calçadão; ao chegar lá abraçou Veneno – que tinha lhe servido três gols de bandeja – e urrava: “Esse é um verdadeiro veneno! Um verdadeiro veneno!”.

Um conhecido olheiro do  Fluminense se aproximou da dupla e trocou uma ideia.

 

 

MANDUCA DA PRAIA

 

O extraordinário e, muitas vezes, cinematográfico perfil de alguns capoeiristas – “não havia índios, só caciques” – não é uma característica recente. Aparentemente sempre foi assim.

Vejam só o caso do Manduca da Praia, um capoeira que tocou o terror no Rio de Janeiro por volta de 1860; cem anos antes do jogo de futebol de areia que estávamos relatando.

No meu Rio de Janeiro,

se a minha memória não falha,

o maior capoeira foi Manduca da Praia.

Mandingueiro!

      – côro: era Manduca da Praia!

O corte da navalha!

      – côro: era Manduca da Praia!

O golpe que não falha!

      – côro: era Manduca da Praia!

Mandingueiro!

      – côro: era Manduca da Praia!

 

Por volta de 1860, as maltas já se agrupavam em dois grandes grupos, os Guaiamús e os Nagoas.

Mas, além dos “pequenos grupos que passam a ser encarados como aglomerados criminogênicos”; e além das “maltas associadas aos políticos e homens de poder”; existia também “o negro individualisado”.  Dentre todos, o que ficou mais famoso foi Manduca da Praia, imortalizado em várias canções de capoeira.

Alexandre Mello Moraes Filho (1844-1919) viveu há cerca de cem anos no Rio de Janeiro e conheceu pessoalmente o terribilíssimo Manduca da Praia. 

O escritor Moraes Filho faz parte do grupo, denominado por Líbano Soares, de “cronistas e pioneiros”, e “sua obra tem o tom da contemporaneidade mesclado com a ideia de ‘luta nacional’, que vai dar o ritmo da produção literária (sobre capoeira) nos 40 anos seguintes”.

 

A LUTA NACIONAL

A  ‘luta nacional’  é a ideia da capoeira como “capoeira-luta-esporte”, castrada de suas origens culturais negras e marginais:

– Fez a cabeça de muitos intelectuais e jovens militares cariocas no começo dos 1900; a maioria dos cronistas da época vão primar em “resgatar” a capoeira de seu passado, de “maltas e navalhas”, de “negros e mulatos”, transformando-a na “Luta Nacional”;

– A ideia da Luta Nacional  teve sequência durante 1930-1950 com Getúlio Vargas  e sua retórica do corpo, que privilegiava a Educação Física.

Na décda de 1940, através um decreto de Vargas, a capoeira saiu da marginalidade e pode ser ensinada “em recinto fechado, e com alvará de polícia”, inaugurando a atual era das academias. Getúlio imaginava que a capoeira poderia ser transformada numa “ferramenta pedagógica popular de apoio” ao trabalho da Educação Física; corpos jovens, disciplinados e saudáveis, para alimentar um Estado moderno como uma máquina.

– A concepão de capoeira como a Luta Nacional reviveu, mais uma vez, durante a ditadura militar de 1964-1984, com a aprovação de ilustres figuras como o pof. Inezil Pena Marinho que, ainda sob as diretrizes gerais da “retórica do corpo” de Vargas, publica em 1945 o seu Subsídios para o estudo da metodologia e treinamento da capoeiragem (RJ, Imprensa Nacional).

– Chegou até nossos dias – a ideia da Luta Nacional – defendida por vários mestres, ilustres professores como o prof. Oscaranha da Educação Físca da UFRJ, e tambem pela CBC (Confederação Brasileira de Capoeira, um orgão oficial do governo que pretende “orientar e divulgar a capoeira”).

– Esta concepção de “como a capoeira deve ser praticada e ensinada” – uma Luta Nacional com campeonatos, juízes, cronometragem dos rounds, etc. – sempre esteve em oposição à ideia de uma “capoeira-arte”, e/ou à “capoeira-cultura”, defendidas por outras facções de mestres.

 

OS CRONISTAS E O CAVALEIRO DAS TREVAS

Mas nem todos cronistas do Brasil Império estavam total e completamente motivados pela criação de uma capoeira-luta brasileira. Por exemplo, Luis Edmundo (1878-1961), no Rio de Janeiro do tempo dos Vice Reis:

O capoeira, sem ter do negro a compleição atlética, ou sequer a fisionomia rígida e sadia do fidalgo potuguês, é no entanto um ser que toda gente teme e a própria justiça, por cautela, respeita.  Encarna o espírito da aventura, da malandragem, da fraude; é sereno e arrojado… 

Toda sua força reside nesta destreza elástica que assombra e adiante da qual o tardo europeu vacila e atônito o africano se transtroca.

As descrições barrocas, góticas, dark, notívagas, de Luis Edmundo, são dignas dos modernos roteiros de filmes comerciais épicos, e de ação, do tipo “Batman, o cavaleiro das trevas”. 

 

(O capoeira) encarna o espírito da aventura, da malandragem e da fraude; é sereno e arrojado, e na hora da refrega ou da contenda, antes de pensar na choupa ou na navalha, sempre ao manto cozida, vale-se de sua esplêndida destreza, com ela confundindo e vencendo os mais armados e fortes contendores.

… neste manejo inopinado e célere a criatura é um ser que não se toca, ou não se pega, um fluido, o imponderável.  Pensamento. Relâmpago.  Surge e desaparece…

É cavalheiresco para com as mulheres.  Defende os fracos… 

Por vezes, quando a sombra da madrugada ainda é um grande capuz sobre a cidade, está ele de joelhos compassivo e piedoso, batendo no peito, beijando humildemente o chão em prece, diante de um nicho iluminado qualquer.  Esta rezando pela alma do que sumiu do mundo, do que (ele, o capoeira) matou.

 

Todas estas, um tanto alucinadas, “viagens” – Luta Nacional, “Cavaleiro  das trevas”, etc. -, que já rolavam na imaginação dos malucos-beleza dos 1800s, não nasceram exclusivamente das fantasias e da imagiação de seus autores. Certamente tambem foram fortemente influenciadas por inesquecíveis e impressionantes personagens que realmente existiram e flanaram pelas ruas do Rio nos 1800s e início dos 1900s.

Entre estes, certamente se destacou o Manduca da Praia.

 

 

Fim do capítulo 7

Leave a comment
Mais Artigos
comentários
Comentário

eleven − 8 =