“APARTHEID” VELADO
03 Mai 2006

“APARTHEID” VELADO

Sabemos que o dia 20 de novembro é oficialmente o “Dia nacional da consciência negra”, porém, a proximidade do 13 de maio

03 Mai 2006
Sabemos que o dia 20 de novembro é oficialmente o “Dia nacional da consciência negra”, porém, a proximidade do 13 de maio é uma boa oportunidade para discutirmos a questão do preconceito e da discriminação contra os negros e suas heranças culturais, dentre as quais a capoeira sem sombra de dúvidas é uma das suas mais fieis representantes. Já sabemos da perseguição que sofreram os capoeiristas que eram tratados pela sociedade brasileira como marginais, muito embora as elites sempre recorressem aos seus serviços como seguranças particulares e outros menos confessáveis, portanto nesta publicação iremos tratar de outros temas onde o negro também foi discriminado no Brasil como o futebol, TV e cinema.
“APARTHEID” VELADO

Vergonhosamente, vivemos no Brasil uma discriminação racial disfarçada. Uma farsa chamada de igualdade racial, que camufla um “apartheid” verde e amarelo cruel. Uma discriminação que passa despercebida ou convenientemente ignorada por grande parte da nossa sociedade. Um preconceito que sempre ganha reforço através da mídia, seja no campo da música, cinema, novelas, literatura ou na cruel realidade da violência policial.
O Doutor em Comunicação Joel Zito de Araújo, em seu livro A Negação do Brasil, lembra aos que concordam que o Brasil é um país sem discriminação nem preconceito racial que a nossa televisão, notadamente a Rede Globo (tinha que ser ela), adotava a política “blackface” em suas novelas. Este fenômeno surgiu nos primórdios do cinema americano, quando atores brancos se maquiavam de preto para viverem personagens negros.

No Brasil, o exemplo mais notório deste fenômeno ocorreu no ano de 1969 quando o ator Sérgio Cardoso, já falecido, maquiado de negro e usando rolhas de cortiça no nariz para avolumá-lo, interpretava o papel principal na novela A Cabana do Pai Tomáz. Esse fato na época gerou protestos em São Paulo, segundo afirma Zito.


Também a atriz “Sônia Braga ganhou um bronzeado especial para fazer Gabriela, porque, segundo os diretores da novela, não havia atriz negra com o perfil da personagem”. (ÉPOCA, 8/3/2004)
Essa atitude da Rede Globo, implicitamente, lembrava, todo dia, à comunidade negra que o padrão de comportamento ideal e possível para ela ser aceita na sociedade brasileira era ser o “preto de alma branca”, serviçal, fiel e submisso.
Fenômenos como esses nos remetem a uma reflexão sobre oportunidades diferenciadas de acesso à educação, à cultura, às chances de ocupar melhores posições no trabalho. Pois se na televisão, as portas só se abriam para os brancos, é porque eles detinham o poder, boa posição social e formação acadêmica. 

Só recentemente tivemos a primeira protagonista negra na história das novelas globais. Trata-se da atriz Taís Araújo que interpretou o papel de Preta na novela Da Cor do Pecado  exibida pela rede Globo no ano de 2004. Não obstante, houve protesto publicado no site Mundo Negro, que se dedica a discutir as problemáticas do negro na sociedade. Segue trecho da nota/denúncia publicada no endereço eletrônico

www.mundonegro.com.br, acessado em 13/11/2005 enviada à época pelo Fórum Permanente de Mulheres Negras Cristãs do Rio de Janeiro à Rede Globo:

Sob o pretexto de estar trazendo uma atriz negra para protagonizar o novo folhetim, na verdade, o que vemos ganhando forma em nossa frente é um enredo que mistura ingredientes racistas e sexistas, que fantasiados de elogio (beleza, sensualidade, malemolência), reforçam conceitos naturalistas responsáveis por estereótipos que têm vinculado, no imaginário brasileiro, a mulher negra à sexualidade desenfreada, ao erotismo vulgar, à fragilidade de valores morais e esvaziando de maneira cruel o papel e a importância da mulher negra no processo de construção deste país e que nós sabemos (e eles também) que vão muito além dos seios fartos das mães-pretas e dos quitutes das “Anastácias”.


FutebolJá no futebol o fenômeno se deu de forma inversa. O time do Fluminense do Rio de Janeiro, na época considerado da alta sociedade, bem como vários outros clubes, mantinha uma política discriminatória que impedia que negros jogassem nos seus quadros. Ante a inegável qualidade técnica de seu futebol, e a necessidade de melhorar tecnicamente os elencos, a solução encontrada por seus diretores, membros da elite carioca, foi a de maquiar os jogadores negros de branco. (whiteface?) Assim, o time teria uma “boa apresentação” nos gramados, diminuindo o constrangimento de abrigar negros nos seus quadros. Por isso, ganhou e detém, até hoje, a alcunha de “pó de arroz”, que era o produto usado para tal finalidade. Este apelido é a marca indelével deste período de vergonha para o nosso futebol, colocado de forma sarcástica e bem apropriada pelas torcidas dos times adversários. Os cabelos também tinham que ter uma adaptação especial. Eles deveriam ser “alisados” a ferro quente ou então o negro usava uma touca ou similar para escondê-lo.

Aliás, esta lembrança da maquiagem nos remete à famosa “boa aparência” estampada em anúncios de emprego nos classificados dos jornais; hoje felizmente já é crime previsto em lei exigi-la. Porém, a história do racismo no futebol brasileiro está longe de se restringir aos diretores dos clubes de futebol. No campeonato Sul-Americano de 1921, na Argentina, o presidente Epitácio Pessoa (1919–1922) recomendou à C.B.D.- Confederação Brasileira de Desportos, que não incluísse negros na delegação que representaria o Brasil na competição, pois os argentinos poderiam chamá-los de “macaquitos”, fato até hoje presente em gramados portenhos. Infelizmente!
O futebol, no início do século XX, era praticado pela elite brasileira em clubes sociais, onde a grande massa não tinha acesso. Apesar disso, algumas décadas depois, já era possível observar a ascensão técnica dos negros na prática desse esporte, muito embora não tivessem local adequado para praticá-lo. Assim sendo, contentavam-se em fazê-lo em terrenos baldios e logradouros públicos de onde eram escorraçados e presos pela polícia e ainda discriminados pela sociedade, que os tratava como vagabundos.


Eles treinavam compulsivamente, pois tinham todo o tempo livre, uma vez que eram subempregados ou desempregados. O tempo disponível aliado à habilidade inata resultaram nos Leônidas da Silva, Garrinchas e Pelés, além do penta campeonato mundial de futebol. Isso sem citar os Ademir da Guia, Russo, Zanata, Biro-Biro e tantos outros “sararás”, “galegos” ou “saruabas”, cujas mães provavelmente tinham a chamada “barriga limpa”. Olééé!


Acursio Esteves

O professor e pesquisador Acúrsio Esteves, é formado em Educação Física pela UCSal, com mestrado em Gestão de Organizações UNEB/UNIBAHIA e é professor da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Salvador. Leciona também nas Faculdades Jorge Amado e Fundação Visconde de Cairu, respectivamente nos cursos de Educação Física e Turismo, sendo também autor dos livros Pedagogia do Brincar e A “Capoeira” da Indústria do Entretenimento.


Contactos: (71) 3233-9255 / 9946-4743

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