Waldeloir Rego e o seu “Capoeira Angola”
02 Jul 2015

Waldeloir Rego e o seu “Capoeira Angola”

O livro Capoeira Angola, da autoria de Waldeloir Rego, e publicado na Bahia em 1968, é geralmente reconhecido como um livro fundamental para

02 Jul 2015

O livro Capoeira Angola, da autoria de Waldeloir Rego, e publicado na Bahia em 1968, é geralmente reconhecido como um livro fundamental para o estudo da capoeira.

 

Waldeloir Rego, reconhecido estudioso da cultura afro-baiana, nasceu no dia 25 de agosto de 1930, na cidade de Salvador, e faleceu na mesma cidade no dia 21 de novembro de 2001.

O seu Capoeira Angola, de 1968, é geralmente reconhecido como um livro fundamental para o estudo da capoeira. Infelizmente, não é fácil encontra-lo. Esgotada a esperança de ver Capoeira Angola — ensaio sócio-etnográfico reeditado pelo autor ou mesmo reimpresso, não podendo entregar cópia digital à comunidade devido à continuação dos direitos autorais, só podemos incentivar a procura em bibliotecas públicas colocando aqui um índice detalhado do livro e a conclusão (capítulo XVII. Mudanças Sócio-Etnográficas na Capoeira), esta na sua integra.

 

Mudanças Sócio-Etnográficas na Capoeira

Primitivamente a capoeira era o folguedo que os negros inventaram, para os instantes de folga e divertirem a si e aos demais nas festas de largo, sem contudo deixar de utilizá-la como luta, no momento preciso para sua defesa. As festas populares eram algo de máximo na existência do capoeira, era o instante que tinha para relaxar o trabalho forçado, as torturas e esquecer a sua condição de escravo, daí farejarem os dias de festas com uma volúpia inconcebida, pouco se lhes importando se a festa era religiosa, profana ou profano-religiosa. As procissões com bandas de música eram o chamariz para os capoeiras e, se tinham um pretexto para arruaças, faziam-no sem a menor preocupação de estarem perturbando um ato religioso. A propósito desses momentos, lembra Gilberto Freyre que:– “As vezes havia negro navalhado; moleque com os intestinos de fora que uma rede branca vinha buscar (as redes vermelhas eram para os feridos; as brancas para os mortos). Porque as procissões com banda de música tornaram-se o ponto de encontro dos capoeiras, curioso tipo de negro ou mulato de cidade, correspondendo ao dos capangas e cabras dos engenhos”. Vivia assim o capoeira em seu status social sem nenhuma simbiose com outro, capaz de modificar a sua estrutura.

[p. 360]

Com o passar dos tempos e cada vez mais crescente a sua fama de lutador e de implantar grandes desordens em fração de segundos, sem possibilidade de ser molestado, conseqüentemente ficando oculto, para quem estava a serviço, o capoeira passou a ser a cobiça de políticos. Serviria de instrumento de luta ora para a nobreza, que dava os seus últimos suspiros, ora para os republicanos, que lutavam encarniçadamente para obterem a vitória sobre o trono, daí os graves acontecimentos que abalaram o país, nos fins do século passado, já anteriormente estudados neste ensaio e registrados por Gilberto Freyre, ao fazer a história da decadència do patriarcado rural e o desenvolvimento do urbano. Com isso, a capoeira, um folguedo por propósito, começa a sofrer mudanças de caráter etnográfico, em sua estrutura — a luta que era um acontecimento passou a ser um propósito. Por outro lado, isso acontecia justamente num período em que a sociedade brasileira chegava ao auge nas suas transformações de base por que vinha passando e “com essa transformação verificada nos meios finos ou superiores, deu-se a degradação das artes e hábitos mestiços que já se haviam tornado artes e hábitos da raça, da classe e da região aristocrática, em artes e hábitos de classes, raças e regiões consideradas inferiores ou plebéias. Foram várias essas degradações; e algumas rápidas”. Como se vê, a capoeira, por uma determinação sociológica, não poderia estar imune a essas transformações.

[p. 361]

Esse estado de coisas veio se arrastando e se desenvolvendo até 1929, com o advento de Mestre Bimba, que tira a capoeira dos terreiros e a põe em recinto fechado, com nome e caráter de academia, onde os ensinamentos passaram a ter um cunho didático e as exibições possibilitaram a presença de outras camadas sociais superiores. Desse modo os quadros da capoeira passaram por modificações profundas. A classe média e a burguesia para lá acorreram, a princípio para assistirem às exibições e depois para aprenderem e se exibirem a título de prática de educação física, daí a 9 de julho de 1937 o governo oficializar a capoeira, dando a Mestre Bimba um registro para sua academia. Um status social superior ao dos capoeiras invade as academias e os afugenta. Os que resistem, por minoria, se esforçam para se enquadrarem no modo de vida do invasor, porém sendo tragados por ele, começando assim a sua alienação e decadência como capoeira. Forçando uma compostura de rapaz-família, exibem-se somente em recintos fechados, salões burgueses, palácios governamentais e jamais onde primitivamente se exibiam, como por exemplo nas festas de largo. Como já tive oportunidade de salientar, em virtude de nenhuma academia querer exibir-se nas festas populares, o órgão oficial de turismo municipal da Bahia convidou várias academias para comparecerem às referidas festas pagando-lhes as exigências. Então houve um cafuso, mestre de uma academia, que, ao saber da finalidade do convite, declinou, alegando ser sua academia freqüentada por uma casta já referida, não podendo misturar-se com o povo de festa de largo.

[p. 362]

Mas o agente negativo no processo de decadência da capoeira, sociológica e etnograficamente falando, foi o órgão municipal de turismo. Detentor de ajuda financeira, material e promocional, corrompeu o mais que pôde. Embora o referido órgão tenha por norma a preservação de nossas tradições, os titulares que por ele têm passado, por absoluta ignorância e incompetência, fazem justamente o contrário, direta ou indiretamente. Lembro-me bem de presenciar um deles interferir na indumentária das academias e os seus responsáveis acatarem pacatamente; e infeliz do que não procedesse assim — estaria banido da vida pública para sempre. Houve época em que as academias eram fantasiadas como verdadeiros cordões carnavalescos, cada qual disputando cores mais berrantes e variadas em suas camisas e calças. Já falei também de um mestre de capoeira que foi consultar um dos diretores de turismo da possibilidade de colocar número nas costas de seus discípulos, como se fossem jogadores de futebol, mas que em boa hora o bom-senso baixara na cabeça do referido diretor, proibindo terminantemente. O fato é que, quanto mais palhaçada faz a academia essa é a preferida do órgão público. No momento em que escrevo este ensaio existe uma academia com amparo financeiro, material, promocional e ainda com direito a se exibir no próprio Orgão, até muito tempo com exclusividade, em detrimento de outras, porém hoje apenas a coisa é mascarada com a presença de uma outra, quando em realidade o órgão não deveria promover exibições dessa espécie, em seu próprio e sim escoar os turistas para as diversas academias. Pois bem, essa academia, que por sinal possui um grande mestre e excelentes discípulos, está totalmente prostituida. Com a preocupação de não perder o ponto, em detrimento de outra, a dita faz misérias, em matéria de descaracterização. A certa altura da exibição, o mestre perde a sua compostura de mestre, diz piadas, conta anedotas, faz sapateado com requebros e apresenta alguém para fazer um ligeiro histórico da capoeira, onde as maiores aberrações são ditas. Depois faz um samba de roda ao som dos instrumentos musicais da capoeira, vindo para a roda sambar, cabrochas agarradas de última hora, passista de escola de samba ou profissional amigo do mestre, que por acaso aparece no local. De certa feita, perguntei-lhe o porquê daquilo, ao que me respondeu que era pra não ficá monoto (ele queria dizer monotono) e o turista ir-se embora. A grande lástima é que essas coisas continuam a ter a cobertura oficial.

Lamentavelmente, o quadro atual das academias de capoeira é esse, variando apenas a intensidade das mudanças sociológicas, etnográficas e o grau de decadência. Nos bairros bem afastados, longe das tentações ventiladas e também talvez porque jamais tenham acesso a elas, existem capoeiristas que praticam o jogo apenas por divertimento, no maior estado de pureza e conservação possíveis e enquadrados no seu status social.

 

Waldeloir Rego
Capoeira Angola – ensaio sócio-etnográfico

 

Rego, Waldeloir, Capoeira Angola – ensaio sócio-etnográfico,
Editora Itapoan, Salvador, 1968 – Obra publicada com a colaboração da Secretaria de Educação e Cultura do Governo do Estado da Bahia. In-8.vo de 400 páginas. Ilustrações de Hector Júlio Paride Bernabó (Carybé).

 

Fonte: http://www.capoeira-palmares.fr/

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