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Abril 2020

Vendo Artigos de: Abril , 2020

Ginga…

Ginga…

A palavra “ginga” possui uma origem desconhecida, contudo especula-se uma possível vinculação com o nome pelo qual ficou conhecida D. Ana de Sousa, rainha histórica dos reinos angolanos de Ndongo e Matamba. Neste sentido, mesmo não encontrando uma relação direta com a ancestralidade africana, acreditamos que possivelmente exista algum tipo de vinculação, considerando que o vocábulo em Portugal assume outra conotação diversa.

No Candomblé os termos “jika” ou “gicá” são associados a movimentos circulares executados com os ombros, em uma dança sensual, sinuosa e com muito molejo, perspectiva que nos aproxima de parte do sentido atribuído a palavra “ginga” no Brasil, em referencia a capacidade de mobilidade de um individuo, seu “meneio”, sua habilidade em desvensilhar-se de situações difíceis com a corporeidade.

Para alem da associação à mobilidade, a palavra “ginga” também assume a conotação de saber “se virar” em situações imprevistas, ou seja, a capacidade de contornar problemas no cotidiano. Assim, em capoeira, o sentido da ginga incorpora esta ambigüidade metafórica, ratificando que o referido movimento transita entre a capacidade de mobilidade corporal no jogo, mas também assume a subjetividade nos comportamentos para a superação dos conflitos em sociedade.

Tecnicamente, a biomecânica da ginga em capoeira possui uma função fluida, que mescla simultaneamente a capacidade de defesa, ataque e dissimulação de intenções, portanto, como em grande parte da cultura afro descendente, fica impossível definir um sentido único e monolítico a mobilidade no contexto cultural, pois, ao contrario da sociedade ocidental, em africanidades não separamos os diferentes momentos sociais, sendo freqüente a possibilidade de um mesmo “movimento” expressar aspectos religiosos, lúdicos, festivos e laborais, sem contudo, perder de vista o profundo respeito ritualístico a cada um destes aspectos da vida em sociedade.

E aí, vamos gingar mais?

 

Por: Mestre Jean Pangolin

Mestre Cobra Mansa: O outro lado da moeda…

O outro lado da moeda

Mestre Cobra Mansa, emitiu um comunicado oficial sobre a “denúncia de Dandara Baldez”. Após diversas conversas, aceitou nosso convite para o diálogo.

O Portal Capoeira, como um dos mais relevantes e democrático meio de comunicação especializado, pública em primeira mão o comunicado oficial, com o objetivo de entender a situação através dos olhos e dos sentimentos de “Cobrinha Mansa”.

Acreditamos que toda história deve ser contada e ouvida…

COMUNICADO OFICIAL MESTRE COBRA MANSA

Peço apenas que me ouçam (antes de me julgar)

Eu reconheço a luta das mulheres, pois tenho a convicção e conhecimento de que lutam por uma causa legítima, no sentido de impedir que atuem como coadjuvantes quando, em verdade, deveriam também ser protagonistas.

Isso não quer dizer que consegui me livrar totalmente dessa cultura machista na qual fui educado desde pequeno.


Gente, em relação ao assunto que diz respeito à Dandara, tudo não passou de um grande mal entendido. Foi um erro de julgamento meu, e só. O erro de julgamento veio do contexto no qual nos encontrávamos, que eu não quero tornar público para não expor mais pessoas e causar a estas pessoas o mesmo dano pelo qual venho sofrendo diante das conclusões e indagações completamente equivocadas.

Mestre Cobra Mansa

Nunca pensei que passaria por um “julgamento social” sem sequer ser ouvido; será que hoje sou eu quem precise lutar para comprovar minha idoneidade, que sou uma pessoa íntegra?! Pois bem, o contexto no qual se deu o mal entendido pode explicar a situação pela qual me julgam sem saber, mas admito, nunca adotei, nem insisti, em qualquer postura inapropriada que viesse a ferir a honra da Dandara.

É fato que nós homens precisamos escutar nossas irmãs e companheiras, e tento escutar. Como é que nós mudamos?  Como é que podemos juntos mudar essa cultura de masculinidade falsa? 

Eu não sei as respostas certas, mas eu sei que é o trabalho de todos nós, e como mestres e mestras, temos mais responsabilidades, inclusive para não disseminarmos a cultura do ódio e do banimento social sem que antes seja dada a oportunidade do diálogo, e não do monólogo.

Então não omito que houve um grande mal entendido com a Dandara, de modo que este mal entendido foi rapidamente corrigido, tanto assim que tivemos uma reunião com ela e três outras pessoas em 2017, na qual demos o assunto por encerrado, mas neste momento – quase 03 anos depois -, começou essa campanha contra mim, por razões que não me parecem idôneas. Estão me transformando num assediador sistemático. Até pessoas que não me conhecem estão me julgando e me massacrando.

Se coloquem no lugar do outro, usem a empatia; vocês gostariam desse tipo de julgamento sem ao menos serem ouvidas, sem que os fatos fossem apurados? Claro que não!

A pergunta que eu gostaria de colocar para quem me conhece: De todos os eventos que eu participei ao longo de muitos anos, de todos os mestres e mestras que organizaram esse eventos… tem alguma mestra ou mestre que pode reclamar do meu comportamento com suas alunas?

Peço que se manifestem para que as pessoas que estão me julgando possam ouvir outras vozes. Eu tenho plena consciência do que realmente aconteceu, e do que são acusações falsas.

Agradeço sua atenção e a possibilidade de falar a minha versão dos eventos.

Mestre cobra mansa

O CAPOEIRA NA “RODA DA VIDA” – Pensando em Esperanças

O CAPOEIRA NA “RODA DA VIDA” – Pensando em Esperanças

Os dilemas constantes da pós modernidade, considerando a grande inconstância da realidade, tornam cada vez mais difícil discernir/escolher entre a busca pelas “coisas da vida” e o cuidado com a “vida das coisas”, pois em um fração de segundos somos capazes de acusar, julgar, condenar e até executar a pena de uma pessoa que consideramos de conduta inapropriada, segundo nossa crenças e valores.

Vivemos em permanente estado de alerta, sempre ávidos a nos escudar pela denuncia do que esta no outro, pois é muito doloroso voltar o olha para nossas próprias imperfeições. Agredimos, gritamos, difamamos e odiamos pessoas, apenas por defenderem idéias diferentes, confundindo a crença alheia com a própria personalidade de quem a professa. Onde isso vai parar?

Não somos capazes de exercitar a tão falada alteridade, pois, em fluxo continuo temos nos tornado aquilo que mais criticamos, muitas vezes utilizando as mesmas armas do excludente de outrora, para excluir outros que nos desagradam. Neste sentido, como bem dito por Paulo Freire, repetimos o comportamento do “oprimido gestando o opressor”. Reivindicamos respeito ao direito de um dado coletivo, invariavelmente, atropelando o exercício deliberativo de outros. Exigimos a possibilidade de “falar”, mas silenciamos quem pensa diferente. Reclamamos da opressão, mas na primeira oportunidade que temos, oprimimos cruelmente e ainda argumentamos que foi merecido, pois os fins justificam os meios.

As relações se tornam frágeis e volúveis, mediadas por uma linha fininha que separa o bom senso e o rancor desmedido, considerando sempre alguma disputa de poder provisória, envolvendo algo que não se sustentará no tempo. Desta forma, na maioria das vezes, os embates não são verdadeiramente sobre e/ou em favor da capoeira, mas sim, entre pessoas, como descreve Foucault, em sua obra “Microfisica do Poder”.

As pessoas envolvidas na “cena social” da capoeira, muitas vezes desconsideram a “roda da vida”, não sendo capazes de aplicar os ensinamentos da arte no exercício cotidiano de lida com sua comunidade, esquecendo de jogar “com” e não “contra” o outro, negando que é no fluxo dialógico que validamos a substituição do “argumento da força” pela “força do argumento”. Por que é tão difícil ser capoeira na vida?

Queremos colher o que não plantamos e fugimos da colheita daquilo que já foi plantado por nós mesmos, pois não aceitamos “errar”, confundindo esse “erro” com algo negativo, e não como possibilidade de emancipação pelo aprendizado de quem tentou “acertar”, ratificando a crise pós moderna do mundo em que “somos livres e podemos TUDO”, mesmo que isso não exista na totalidade material da vida, pois a liberdade sempre pressupõe responsabilidade com as conseqüências do que fazemos.

Eu guardei minha “pedra”, e você, vai continuar jogando as suas, ou me ajudará a juntar todas que jogam em nós,  para JUNTOS, construirmos nosso “castelo”?

Com esperança em dias melhores, AXÉ.:

 

Por: Mestre Jean Pangolin