Blog

Capoeira

Vendo Artigos de: Capoeira (categoria)

Lutador com projeto social é o Madureira, personagem de “Malhação”, da vida real

Lutador com projeto social é o Madureira, personagem de “Malhação”, da vida real

Quando tinha 15 anos, Marcos Pakito já estava com a enxada na mão batalhando por um futuro melhor. Capinava os terrenos da vizinhança no Sargento Roncalli, em Belford Roxo. Fazia o serviço rapidinho e corria para a sede da associação de moradores. Lá, o garoto ficava sentadinho assistindo ao Mestre Ninguém dar aulas de capoeira. Um dia, o professor o convidou para participar da aula e ele explicou que não tinha dinheiro. A resposta do capoeirista mudaria toda a sua vida:

— Ele disse que eu podia fazer porque ninguém pagava nada, não. Ali eu pensei que eu queria ter um projeto social também para retribuir — conta o agora Mestre Pakito, de 45 anos, depois de um carreira como lutador profissional de muay thai e finalmente conseguir abrir a sua escolinha gratuita de luta, no bairro Andrade de Araújo.

Da capoeira, ele passou para o muay thai, aos 18 anos, e foi nessa modalidade que fez a vida. Foi bicampeão Brasileiro, teve 15 lutas profissionais com apenas três derrotas e depois passou a dar aula. Primeiro, ficou empregado nas academias. Mas aquilo o incomodava. Ele queria dar aulas de graça para quem precisava. Conseguiu há três anos, quando criou o Escola de Campeões.

— Eu tinha que ajudar a minha mãe, e aí não podia me dedicar somente ao projeto social. As coisas foram melhorando, consegui parceiros e agora posso me dedicar a esses alunos — conta Pakito, que também dá aulas gratuitas no Faixa Preta de Jesus, de Nova Iguaçu, um dos maiores projetos sociais da Baixada: — Agora meus garotos estão continuando a minha caminhada.

Lutador com projeto social é o Madureira, personagem de "Malhação", da vida real Capoeira Portal Capoeira

A história do lutador de Belford Roxo poderia ter inspirado a criação de Madureira, o personagem de Henri Casteli, na atual temporada de “Malhação”, da TV Globo. Na novela, o ator interpreta a vida do rapaz que venceu na vida após aprender muay thai com um mestre e, para retribuir, resgata jovens de áreas carentes com o esporte.

— Fui criado na periferia de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, onde nasci e fui criado em volta de duas favelas. Já teve um momento em que policiais acharam que eu não morava lá. Falaram para mim: “Não era para você estar aqui. Não tem de se misturar”, tudo porque eu era louro de olho claro. Eu respondi que eles eram meus amigos da escola — conta Henri Casteli , que se mudou para Duque de Caxias no começo da carreira para a fazer os primeiros trabalhos como ator no Rio.

O Madureira da vida real conhece bem as dificuldades pelas quais passam os personagens adolescentes que chegam ao projeto social da “Malhação”. Pakito conta que tem orgulho quando vê um dos seus garotos mudando de vida através da luta.

—Eu seria o cara mais feliz do mundo se conseguisse colocar um aluno meu para lutar no Glory, o maior evento da modalidade. Mas eu não penso nisso. Se eu pegar uma criança dessa e ela virar um cidadão, já é a melhor coisa para mim — diz Pakito: — O que eu quero é recuperar a criança que vem da comunidade, do vício, de querer matar, roubar. Eu quero trabalhar a cabeça dela e mostrar que a vida não é isso. Tenho alunos assim, que agora são trabalhadores, estão no quartel. Essa é a ideia. É a melhor ideia do mundo para mim. Pensar que eu tirei do tráfico e hoje eles são pai de família respeitados.

Além de vencer na vida, os alunos da Escola de Campeões estão vencendo nos ringues. Walace Marcos, de 22 anos, o Mascote, já ganhou, entre outros, o Carioca, o Brasileiro e o Pan-Americano. Já Joyce Lima, também de 22, levou um estadual, uma Liga Carioca e uma série de campeonatos menores.

— Mas o esporte não é só para quem quer lutar, seguir carreira. O muay thai é ótimo para a saúde e o condicionamento físico. Mantém eles ativo, tira das ruas, afasta das drogas — conta Pakito: — Para quem quer perder peso e não quiser fazer academia também é ótimo porque os músculos ficam ativos. E não só para os jovens, mas todas as idades podem ser beneficiadas. A pessoa sedentária que começa a treinar vai querendo fazer cada vez mais.

Fonte: https://extra.globo.com/noticias

Musicalidade: Capoeira de Outra Maneira

Musicalidade: Capoeira de Outra Maneira

O projeto Capoeira de Outra Maneira é nossa contribuição para a música de capoeira extrapolar o âmbito da roda… do jogo… do jogador. É mais um caminho para elevar a arte brasileira à enésima potência e fazê-la atingir outra dimensão, alcançar outros públicos. Este é um pocket show que visa à participação do público cantando as músicas e à exaltação da musicalidade da capoeira ao acrescentar outros instrumentos além dos tradicionais de uma roda.

Esse projeto deu origem ao CD Capoeira de Outra Maneira – vol. I, cujo lançamento alcançou recorde de público em um teatro de fácil acesso na cidade de São Paulo e repercussão em vários países. Durante a apresentação, cantaram-se músicas populares da capoeira com nova roupagem, mais harmônica, acompanhadas por violão, baixo, agogô, pandeiros e congas. No meio digital, esse projeto obteve milhares de visualizações nas plataformas de música digital:

 

Musicalidade: Capoeira de Outra Maneira Capoeira Portal Capoeira 1

 

SINOPSE

  • Gênero: Músicas de capoeira
  • Duração: 1h
  • Linguagem: Preserva o tom coloquial da arte e os termos comuns das rodas tradicionais de capoeira.
  • Figurinos: Roupas claras e/ou batas em tom informal e descontraído.
  • Coreografias: Em determinada música, ocorre um jogo de capoeira.
  • Música: Ao vivo, com arranjos únicos, mais modernos, criados exclusivamente.

    Voltado para qualquer tipo de público, de qualquer classe social e idade, este show é um musical que encerra reflexão e alegria. A terceira idade vai deliciar-se por ver/ouvir músicas em duas vozes; já a maturidade e a juventude vão conhecer e compreender o que significa o ritual da capoeira com transe, reflexão e motivação.

 

JUSTIFICATIVA

A capoeira constitui patrimônio de grande importância para a história brasileira, mas, em geral, curiosamente, tem maior reconhecimento do público internacional, porque o brasileiro tem contato principalmente com artes que se divulgam nos grandes meios de comunicação, mais imediatas e de fácil assimilação, e esses meios não exploram o potencial incrível que a arte-capoeira tem para oferecer.

A música em essência na capoeira possui um ritmo forte que provoca uma reação sensitivo-motora, o que para alguns pode até transformar-se em ferramenta de cura. É aí que vem um arrepio que percorre nosso corpo de ponta a ponta e sobrevém uma reflexão significativa. As palmas ajudam a fomentar essa energia.

Montar uma bateria de capoeira é importante não por ser bonito, contar com três berimbaus, dois pandeiros, um agogô e um reco-reco, mas sim porque a combinação desses instrumentos forma uma harmonia indescritível. Não há como falar de capoeira sem falar de música. E, para falar de música, nada melhor do que apresentar ao público as músicas de capoeira de forma mais melodiosa. A música faz-nos lembrar de uma pessoa querida, de um lugar, traz-nos recordações, etc. Este show promove exatamente isso.

A principal meta deste projeto é levar ao público todo o potencial e beleza da musicalidade de capoeira com toda a nossa brasilidade. Nosso desejo é que se valorize uma arte que é nossa, nativa deste país.

OBJETIVOS


– Colaborar com a preservação da memória musical da arte brasileira (capoeira);
– Divulgar e valorizar músicas de domínio público cantadas em rodas de capoeira;
– Levar ao conhecimento do público a arte capoeira com música ao vivo,ritual, jogo e
caracterização;
– Estimular alunos do Ensino Fundamental, Médio e Superior, professores, pesquisadores, músicos, artistas e historiadores a desenvolver estudos sobre assuntos da História do Brasil, como a escravidão, a música brasileira e, mais especificamente, a capoeira;
– Divulgar a música de capoeira com outra roupagem ao público que ainda não teve contato com essa arte e oferecer opção de entretenimento aos adultos e à terceira idade.

 

MÚSICAS EXECUTADAS

FaixaAutorTempo
1Na AreiaDomínio Público4:36
2Luanda Ê PandeiroDomínio Público2:57
3Chama Eu, AngolaDomínio Público5:06
4Bom VaqueiroDomínio Público3:29
5Segura o Tombo da CanoaDomínio Público4:02
6Preto Velho   Mestre Barrão3:45
7Canarinho da Alemanha que Matou meu CurióDomínio Público4:22
8Capoeira Praça da República   Mestre Maurão5:46
9Sai, Sai, CatarinaDomínio Público4:18


Musicalidade: Capoeira de Outra Maneira Capoeira Portal Capoeira 2

FICHA TÉCNICA

  • Produção e Direção: Danilo Andrade
  • Vocal: Danilo Andrade e Felix Quilombola
  • Conga: Carlos Quilombola
  • Pandeiro: Carlos Quilombola/Danilo Andrade
  • Berimbau: Danilo Andrade
  • Agogô: Carlos Quilombola/Felix Quilombola
  • Violão: Felix Quilombola e Cláudio Gingadinha
  • Baixo: Lucas Silva (Ursão Bonfim)
  • Design Gráfico: Felipe Andrade
  • Fotografia: Fernando Alexandrino
  • Apoio: Grupo Quilombolas de Luz Capoeira

Agradecimento Especial: Ao nosso grande Mestre Paulão

Para saber mais sobre o projeto: www.capoeiradeoutramaneira.com.br

Bahia: CD reúne cantigas históricas da capoeira baiana

Bahia: CD reúne cantigas históricas da capoeira baiana

A gravação do projeto aconteceu no Largo Pedro Arcanjo, no domingo (21)

A capoeira construiu sua história na Bahia e no Brasil através dos ritmos e vozes de diversas figuras marcantes. Algumas canções passaram de geração em geração mesmo sem saber quem é o real autor daquela letra. Outras ficaram marcadas pela sua musicalidade e ritmo, como a Capoeira Regional, que foi criada e disseminada pelo Mestre Bimba (1899-1974) na década de 1920.

Agora, mais do que nunca, essas canções podem ser ouvidas, entendidas e ecoadas. O Largo Pedro Arcanjo, no Centro Histórico, foi palco neste domingo (21) da gravação do primeiro CD com cantigas de capoeira da Bahia. Idealizado pelos mestres Dainho Xequerê e Tonho Matéria, responsável pela Associação Cultural de Capoeira Mangangá, a gravação do álbum, intitulado ‘Quando o Assunto é Capoeira’, reuniu 14 mestres e mestras para eternizarem as músicas.

“Esse é um momento único para capoeira da Bahia. Estamos reafirmando a importância das cantigas e valorizando os mestres. Isso faz com que as novas gerações tenham acesso à real letra, de um modo muito fácil”, afirmou Xequerê.

Entre as vozes que marcam o CD estão os mestres Boca Rica, um dos mais antigos que compõe o grupo, Pelé da Bomba, Bozó Preto, Já Morreu, Buguelo, Gajé, Malícia, Boca (do Maré), Dandara, Nani de João Pequeno e Brisa.

Conversa
Antes da gravação no palco, o evento promoveu uma roda de conversa que reuniu todos os mestres para debater sobre a capoeira e suas funções na sociedade, seguido de uma apresentação da Orquestra de Berimbaus Afinados (OBADX).

Bahia: CD reúne cantigas históricas da capoeira baiana Eventos - Agenda Musicalidade Portal Capoeira 1

O evento também promoveu uma roda de conversa entre os mestres (Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO )

O tema ‘Eu Também Canto a Bahia’, escolhido para guiar o lançamento do álbum, reforçou o ideal de que a capoeira, apesar de estruturar como um único movimento cultural, é formada por muitas outras vertentes e ritmos, cada um com sua particularidade.

“A capoeira é rica em um conjunto só. Mas, cada um faz o que é melhor para si, desenvolvendo seu estilo. Quem pratica sabe da importância de ter essa liberdade de ritmos”, disse Edenilton, 35 anos, conhecido como mestre Scooby. Neste domingo (21) como espectador, o professor pratica a arte há mais de 20 anos e dá aula no bairro de Luís Anselmo.

Para Carolina, ou melhor, a mestra Brisa, 41, o que une todas as vertentes da capoeira é a musicalidade, é o que conecta os dois corpos, dá o tom do gingado: “É o elemento fundante, que permeia o diálogo daqueles que estão ali. Mas, para você criar essa sinergia, você precisa de uma boa musicalidade”, defendeu.

O CD se tornou a materialização desse movimento. Para Tonho Matéria, além de disseminar e expandir o alcance da capoeira pelo país, a gravação coloca em pauta justamente o que o projeto insiste em discutir: a atuação da capoeira na sociedade.

 

A gente discute como levar essa música para dentro das salas de aula, falar sobre cultura, educação e até turismo. As pessoas não entendem que, muitas vezes, é essa prática que leva o jovem ao colégio, que transforma em um grande cidadão”, afirmou o mestre.

 

Capoeira de Angola x Capoeira Regional
O grande símbolo dessas vertentes apresentadas pela capoeira está na bifurcação, que separa a capoeira de Angola e a capoeira Regional. Criada pelo mestre Bimba (1899-1974) entre as décadas de 1920 e 1930, o estilo Regional da arte altera a formação da roda e como os capoeiristas se comportam dentro dela.

Com uma cadência mais acelerada, o estilo foi pensado para apresentações, e dispensava alguns instrumentos para guiar o ritmo. Entre eles, dois berimbaus, um pandeiro e o tambor, conhecido como atabaque.

Isso ia de encontro ao estilo chamado de Angola, que apresentava uma formação completa com três berimbaus, dois pandeiros e o batuque. Com isso, a musicalidade naturalmente se tornou mais complexa. Segundo Tonho, a variação Regional é “uma capoeira mais rápida e evolutiva”, que se destaca pela instrumentalização.

 

Fonte: https://www.correio24horas.com.br

 

Vinícius Harfush*

vinicius.harfush@redebahia.com.br | @_harfush

Mestre e Roda de Capoeira – Patrimônios Culturais

Rio Zoo e Iphan promovem o evento “Mestre e Roda de Capoeira – Patrimônios Culturais”

A Roda de Capoeira e o Ofício dos Mestres de Capoeira ganharam um evento em sua homenagem. A ação, fruto de parceria entre o Zoológico do Rio – Rio Zoo e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Iphan, tem como objetivo, além de dar continuidade às políticas de salvaguarda em prol do Ofício dos Mestres e da Roda de Capoeira, valorizar esses exemplares do nosso Patrimônio Cultural, homenagear os Mestres por conta de sua contribuição para a história e o desenvolvimento da Capoeira e dar posse dos membros do Conselho de Mestres de Capoeira do Estado do Rio de Janeiro.

O Conselho é constituído por 30 Mestres titulares, sendo 15 da região metropolitana e 15 do interior assim distribuídos: 3 da região médio-paraíba, 3 da região dos lagos, 3 da região serrana, 3 da costa verde e 3 da região norte-noroeste, além de 30 Mestres suplentes.

Surgida no século XVII estre os africanos escravizados como instrumento de socialização e defesa, a capoeira é hoje um dos maiores símbolos da identidade brasileira, está presente em todo o país e é praticada nos quatro continentes. A Roda de Capoeira e o Ofício dos Mestres de Capoeira foram reconhecidos pelo Iphan como patrimônio cultural imaterial do Brasil em 2008, e estão inscritos no Livro de Registro das Formas de Expressão e no Livro de Registro dos Saberes, respectivamente.

O evento, que contará com rodas de Capoeira e a presença de Baianas de Acarajé, cujo ofício também é registrado como patrimônio imaterial do Brasil desde 2005, terá entrada franca e será realizado das 10h às 15h, na entrada do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro. 

 

Serviço:

Mestre e Roda de Capoeira: Patrimônios Culturais

Data: 30 de março de 2019

Horário: Das 10h às 15h

Local: RioZoo (Parque da Quinta da Boa Vista, S/N)

O Profissional e o “papo furado”

O Profissional e o “papo furado”

Nos últimos tempos, escutando vários discursos sobre ‘ser profissional’ na capoeira, me pergunto:  – o que isso quer dizer de uma pessoa para outra e o que realmente está por trás dessa afirmação? Essa reflexão me lembra uma conversa lamentável que ouvi há uns anos atrás entre ‘profissionais’ da capoeira: “hoje em dia a gente nem está mais preocupado em o aluno ficar bom, a gente só está preocupada em ter aluno”. No momento que isso foi dito, parecia ser a constatação de um fato e que todos os presentes professores pareciam estar de acordo, sem a mínima preocupação nas consequências do conteúdo, daquela frase.

Sim, a capoeira é uma reflexão da sociedade em que vivemos, uma sociedade que gira em torno de um esquema de acumulação, o dito capitalismo. E para quem vive da capoeira, em outras palavras, quem depende da capoeira para pagar as contas e sustentar uma família, um aluno também representa capital, sobrevivência. Mas será que a gente não pode fazer melhor do que isso? Será que os capoeiristas se deixam vencer tão facilmente por um sistema que tem base em – e é causa – da mesma miséria onde a nossa arte se criou; a escravidão? E isto mesmo, ‘ser profissional’?

O Profissional e o papo furado Capoeira Portal Capoeira 1

Para quem não tinha noção, a escravidão não só foi a situação onde a capoeira nasceu; ela também foi a base de um sistema econômico baseada na exploração do produtor da riqueza – o escravo, que, quando o sistema escravocrata foi deixado por ser ineficiente e caro demais, se tornou trabalhador ‘livre’. O racismo e a opressão das expressões culturais da população negra – contra que a capoeira sempre se resistiu – foram parte e em função do sistema económico da exploração – e a base do capitalismo.[1]A economia se desenvolveu, mas na base não se mudou – será que o papel da resistência da capoeira deveria se mudar?

 

O ‘profissionalismo’ entrou numa nova fase com o desenvolvimento das certificações e diplomas para capoeiristas que querem dar aula – e se tornar ‘profissional’ – dentro do sistema nacional de educação ou até fora dele. Com a preocupação do nível e qualidade dos professores, e o ensinamento de capoeira, os certificados arriscam virar mais um esquema de acumulação, ou capitalização – dentro da “profissionalização da capoeira”; Certificações que precisam ser renovadas de tantos em tantos anos, através dos investimentos financeiros que são justificados como investimento em conhecimento. Como um preço para o novo documento também, é claro. Assim também desprezando o tipo de conhecimento que a capoeira representa, e em que ela tem a sua base, que é o conhecimento prático através da experiência prática – a educação não-formal, da tradição oral.

Não quer dizer que o conhecimento teórico não tem lugar na capoeira, ou que não deveria existir um certo‘controle de qualidade’, especificamente fora do Brasil onde não há uma tradição enraizada, para trabalhos com crianças e nos sistemas nacionais de educação. E que um bom professor – não importa de qual modalidade – deveria estar em dia com os desenvolvimentos na sua área, e nas áreas abordadas.

Mas será que uma estrutura de certificação e educação contínua, um sistema baseado nas profissões médicas – onde o não ser em dia do médico em termos de novos conhecimentos, pode ser causa da morte do paciente – é o mais adequado? Quando a variedade de estilos, formas de pensar e ensinar a capoeira é um lado forte dela em termos de criatividade, desenvolvimento e abertura social? E essa variedade ao mesmo tempo representa uma proteção contra a dominação, qualquer que seja ela? Vamos abrir mão para um sistema de uniformização ou normatização? Sem perguntar para nós mesmos para que, e para quem, a capoeira serve? Ainda mais quando não temos um sistema de valorização do conhecimento que já existe em cada um de nós e na própria capoeira? Somente para poder ser identificado como ‘profissional’ e tentar arrumar mais trabalho?

 

O que é ser ‘profissional’? Começamos com a palavra ‘profissionalismo’, que tem dois  significados: o significado mais antigo, que a primeiro vez foi usado em 1856[2]e se desenvolveu desde então, é: “comportamento, objetivos ou qualidades que marcam ou caracterizam uma profissão ou um profissional”.[3]Um significado que tem a ver com postura, atitude, visão e preocupação com o aluno, o conteúdo ensinado e o resultado.

O segundo significado é usado hoje, por exemplo, em quase todos modalidades desportivas, que fazem uma distinção entre profissionais e amadores: “o profissional é aquele que ganha, ou tenta ganhar, a vida com o seu desporto, e faz disso a sua ‘profissão’.

 

Note bem a diferença entre o primeiro e o segundo significado: O primeiro tem conteúdo, e compromisso com a atividade. O segundo está relacionado coma acumulação de dinheiro. Quer dizer que os dois são incompatíveis? Claro que não, e há vários exemplos de bons profissionais de capoeira que também se dão bem em termos financeiros. Mas talvez é hora de se perguntar qual tipo de ‘profissional’ nós queremos ser: aquele que é mais preocupado em ganhar dinheiro, ou aquele que primeiramente tem compromisso com a sua arte; uma arte que inclui um compromisso com uma tradição de oralidade, com uma ética dentro essa oralidade e com uma transmissão do conhecimento que a arte represente. É bom ter esses princípios claros, porque o poder corrompe, e dinheiro – como a fama – são formas de poder.

E assim uma pergunta simples precisa ser perguntada cada vez de novo – no momento de aceitar e preparar um show, de fazer e vender um instrumento ou roupa, de fazer um CD ou DVD, de fazer pesquisa e escrever um livro, e de escolher em quais eventos de capoeira nós vamos participar – aquele que paga mais, ou aquele que tem e/ou segue uma tradição e filosofia, ou aquele que é do nosso amigo? Exemplos das respostas – e resultados delas – podemos achar na história da capoeira.

 

E ainda nem falei do ‘profissionalismo’ do professor da capoeira: porque um professor – de qualquer modalidade que seja – só existe pelo fato que é aquele/a que ensina. Cuja primeira preocupação então – só pela definição da palavra – sempre deveria ser a educação, e o crescimento do conhecimento e a pessoa; no caso o aluno, mas também em si mesmo. Voltando ao primeiro significado da palavra ‘profissional’ então. Que também tem nada a ver com o ego ou o abuso de poder – um tema onde eu volto nas próximas colunas.

 

Por isso iniciativas que tem como objetivo e preocupação, a educação e a pedagogia, e são baseados no princípio de democratizar o conhecimento e a informação (ao tornar lhes acessível para todos) – como por exemplo o IBCE de mestre Ferradura, ou a Capoeira à la Une de mestre Beija-Flor e alunos – são louváveis.

Porque um compromisso com uma arte, e uma preocupação com a educação, não necessariamente deveria levar ao empobrecimento; mesmo num sistema onde a educação é cada vez mais falada, e menos valorizada. Mas esse compromisso é sim fundamental. Porque um bom professor é reconhecido e valorizado com o tempo.

 


 

[1]Veja por exemplo: Beckert, S. & Rockman, S. (org.) (2016) Slavery’s Capitalism: a new history of American Economic Development, Pennsylvania, Penn Press. Cardoso, F.H. (1977) Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional, São Paulo, Paz e Terra. Williams, E. (2012)Capitalismo e Escravidão, trad. D. Bottmann, São Paulo, Companhia das Letras [1944]. Marquese, R. & Salles, R. (org.) (2016) Escravidão e Capitalismo histórico no século XIX: Cuba, Brasil, Estados Unidos, Rio de Janeiro, José Olympio. Corrêa do Lago, L.A. (2014) Da Escravidão ao Trabalho Livre: Brasil 1550-1900, São Paulo, Companhia das Letras.

[2]Em 1856 a primeira escrita expressão de ‘profissional’ é usada pela Glasgow Institute de Contabilidade, para indicar os membros como parte do instituto e então como contabilistas registradas. Que deveria representar uma certa garantia de qualidade. Walker, S. P. & Lee, T.A. (Eds.) Studies in Early Professionalism: Scottish Chartered Accountants, 1853-1918. London, Routledge.

[3]Merriam-Webster Dictionary Online. www.merriam-webster.com

A Pedagogia do Jogo na Capoeira

A Pedagogia do Jogo na Capoeira

Dentre as diversas potencialidades da capoeira no âmbito educativo, destacaremos algumas de suas possibilidades tomando como foco principal o jogo, evidenciando traços de interlocução com africanidades e a formação humano no espaço escolar.

Aprender fazendo

A capoeira nos ensina que todo aprendizado deve emergir de uma experiência vivenciada, ou seja, a perspectiva eurocêntrica do aprendizado por abstração intelectual, que nos foi apresentada na escola, não atende as necessidades funcionais da arte, pois não consegue dar conta das subjetividades pulsantes de se aprender a tocar tocando, cantar cantando, jogar jogando, e de todo o fluxo interativo de um aprendizado vivo e significativo.
Valorização do mais antigo

Socialmente fomos adestrados a encarar a pessoa mais velha como um fardo social, algo inútil, pois sua capacidade produtiva e de gerar renda estariam em franco declínio, ledo engano, pois a capoeira nos ensina que sem o mais antigo não existirá continuidade de construção do conhecimento, pois perderíamos o acesso a todo acumulo de experiências destes indivíduos. Desta forma, na roda, o mais experiente é sempre o mediador dos processos, cabendo a ele a responsabilidade da garantia da construção do novo, estando este adaptado as necessidade conjunturais de cada tempo, sem contudo, perder de vista a conexão ancestral com os fundamentos estruturantes da arte.

Perder e ganhar

Na capoeira aprendemos que o ganhador não será necessariamente aquele que anula o outro, pois o jogo nos ensina que a verdadeira vitória só surge pelo signo da dupla, ou seja, o vencedor sempre será aquele capaz de deixar o parceiro sem respostas para suas perguntas e ainda ansioso e capaz de continuar tentado responder, pois é preciso vencer em franco fluxo da dinâmica do jogo, ganhando não aquele que finaliza o outro, mas sim aquele que mantem o outro em atividade e com a crença de que poderá vencer.
Com certeza, para muitos, é difícil entender a explicação acima, pois fomos educados a pensar em uma única perspectiva de competição, aquela que para garantir a vitória precisa anular e/ou subjugar o oponente da peleja, pois esta é a lógica do sistema capitalista, privilegiando um em detrimento de todos os outros, matando a noção de comunidade e construção coletiva para o bem comum.

Respeito as diferenças

Vivemos em um mundo que tenta a todo o momento nos enquadrar, criando padrões que facilitem o controle e nos tornem presas fáceis do consumismo, e a escola não tem, historicamente, fugido a esta lógica, pois diversos são os elementos que homogeneízam os indivíduos e tentam anular as diferenças em seu cotidiano.
Na roda de capoeira ser diferente é condição primordial, pois só poderemos constituir uma boa dinâmica, na medida em que pessoas diferentes possam executar funções diferentes, alguns tocando, outros cantando e uma dupla jugando, ou seja, a diversidade é o catalizador de aprendizado pela complementariedade que o outro, diferente de mim, poderá aportar para resolução de problemas que auxiliarão a todos daquele contexto. Desta forma, a roda de capoeira funciona como uma metáfora da roda da vida, explicitando que os diferentes são complementares para o bom andamento da dinâmica social.

O corpo como registro do saber

O nosso corpo foi historicamente negligenciado como repositório de um saber ancestral, pois o mesmo sempre foi tido como uma espécie de simples suporte para sustentar o intelecto, ou seja, um corpo para suor e músculos, como sustentáculo de uma cabeça, única responsável para construção do conhecimento. Neste sentido, crescemos com a ideia equivocada de subutilização da corporeidade como estratégia de construção do saber, negligenciando as potencialidades do movimento na pedagogia para emancipação humana.

Em capoeira aprendemos que o corpo pensa e fala por seus movimentos, interpretando realidades, expressando sentimentos e trazendo encaminhamentos para os diversos conflitos de uma dada comunidade, pois este corpo passa a ser entendido como um repositório de experiências educativas, como uma espécie de biblioteca ambulante, ratificada pela difusão de conhecimento a partir da simples observação de um grande mestre jogando.
Diversos são os exemplos de interlocução do jogo da capoeira com os processos educativos formais, portanto, acima destacamos apenas alguns, contudo, estes só terão a eficácia desejada no chão da escola, na medida em que esta se transforme numa espécie de extensão da própria comunidade, contextualizado conteúdos e atuando de forma fluida e dinâmica em favor dos anseios de cada tempo histórico.

Sonhamos com a capoeirização da escola, pois estamos cansados da inoperância transformadora da escolarização da capoeira.

 

Mais sobre: Mestre Jean Pangolin

 

 

Póvoa do Varzim: Sinhá Mandou Chamar

Póvoa do Varzim: Sinhá Mandou Chamar

Escola de capoeira VIVÊNCIA, realizará nos dias 8/9/10 de Março de 2019 o 5° encontro feminino “Sinhá Mandou Chamar” na cidade da Póvoa de Varzim, Portugal.

“O evento não tem a presunção de criar um evento só para mulheres, como se elas precisassem deste tipo de movimento para ter espaço dentro da nossa arte, o intuito do evento é valorizar as mulheres que trabalham a capoeira de forma profissional dando a comunidade em geral esta visão de que as mulheres também são grandes profissionais da nossa arte, sejam elas instrutoras, professoras, contramestres ou mestres.”  Diz Vilma (Instrutora Sindel)

A edição deste ano conta com a presença de integrantes de varias escolas de Portugal e Espanha, tais como: Muzenza, Agbara, Aruê, Jogo de Negro, Ginga Camará, Reliquia do Espinho Remoso, Alto Astral, Nagô, Sul da Bahia, Iandê, Batuqueiros, Porto da Barra, Maculelê entre outros.

Póvoa do Varzim: Sinhá Mandou Chamar Capoeira Mulheres Eventos - Agenda Portal Capoeira

Todas as aulas são ministradas por mulheres mas aberta a toda gente.

O evento é de organização da Instrutora Sindel (Vilma) da ECV – Póvoa de Varzim.

MUITO ALÉM DE… ESPORTE !

MUITO ALÉM DE… ESPORTE !

 

“Era a arma utilizada
pelos negros desnutridos…
contra branco forte, armado,
o Negro é bem sucedido”!
(trecho de ladainha / anos 70)

 

Por mais estranho que pareça, a Capoeira é vista por quase todos como Folclore — e não esporte ! — mesmo que de forma inconsciente, intuitiva. Artes Marciais antigas como Judô, KungFu, Karatê, carregam uma essência, uma mística do Passado dentro de si. Nossa Capoeira a tem de sobra, as raízes africanas continuam presentes e sua Música e canto grupal acentuam isso. Futebol tem 2 séculos, corrida e natação vêm de gregos e romanos, são milenares, mas sem carisma. Felizmente a Capoeira encerrou sua fase de “conquista de territórios”, abrindo Grupos de qualquer maneira em muitos lugares ou com professores medianos. Chega de amadorismos, a Dança-Luta está no Mundo inteiro e não pode se dar ao luxo de ser mal-vista ou desdenhada como “coisa menor”, “de quem não tem o que fazer”… nos disse um prefeito evangélico em 1989, em nosso município, quando lhe pedi ajuda.

 

Esportes têm regras — muitas delas — e a Capoeira também, por parte de Federações… segundo meu irmão, falando para um jornal de Belém em 1987, “as regras da Capoeira acabam quando começa o jogo”. A frase é “maldosa”, embora naqueles tempos até fizesse sentido ! “Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”! Hoje professores e mestres dela precisam estar atentos, não há mais leigos a assistir suas apresentações, todo mundo agora conhece os rudimentos da luta. Eventos e shows exigem os melhores, aluno iniciante é só para completar a Roda, o círculo. Canto e toques devem estar “nos trinques”, o berimbau é o elemento soberano, nada de “estapear” o pandeiro ou “socar” o atabaque, para que seja ouvido na lua.

 

Há na platéia pessoas com noções de canto e música, observando o andamento do show e as falhas, quando houver. Quem canta, mantenha sempre o ar nos pulmões para a voz não sair ríspida, seca, desagradável. Palmas firmes, “respostas” vivas, a fim de que o mestre não tenha que passar pelo vexame de intimar… “abre a boca, gente”! Tudo isso é Passado, Capoeira agora tem que ser excelente, é o que o público espera dela !

 

Nessa busca pela modernidade como ficam os símbolos ? Dormem “em berço esplêndido”, criados a 30 ou 50 anos atrás por professores, “treinéis” e mestres “paus para toda obra”, que tinham que fazer TUDO no Grupo, desde pintar as paredes do local de treinos até… criar e DESENHAR o símbolo. Daí termos ainda hoje verdadeiros “garranchos” como símbolos. É hora de mudar, capoeiristas jogam, desenhistas desenham ! Quem quizer algo mais exclusivo faça uma foto posada do movimento e leve-a a um bom desenhista. Programas de computador já “transformam” foto em desenho… quer fazer isso você mesmo ?! O caminho mais simples é XEROCAR sua foto, ampliada. Se conseguir papel carbono tanto melhor, seu desenho sairá completo na página por baixo da risca, a ampliação original. Marque na xerox somente as partes escuras, vá circundando essas partes negras. Use fita DUREX para manter bem unidas as 2 folhas, a de baixo em branco. Terminou ?! Aí está em tamanho grande o novo desenho do Grupo, a partir da tal foto… você tem apenas traços, “riscos”, se quizer sombra e cores terá que acrescentá-las. Fiz um “esboço” a partir de foto colorida de um cantor, poeta e cordelista mineiro, “Zé Ribeiro”, que “baixei” do Facebook. Para inverter “vire o carbono” ao contrário ou use os recursos do próprio PAINT, program do WINDOWS.

 

A “quadriculação” da foto original é o caminho mais curto… aumenta-se os quadradinhos no papel de reprodução da imagem.

 

MUITO ALÉM DE... ESPORTE ! Publicações e Artigos Portal Capoeira

 

De minha parte, insisto: é preciso “quebrar a estética” do símbolo redondo, que soa antigo, pouco criativo. Mesmo que seja mantido, é possível modernizá-lo, embora hajas resistências. Em junho/1988 fizemos meu irmão e eu um concurso aberto entre os “capoeiras” de Belém para eleger o símbolo do nosso Centro Cultural – CCCP. Além de nós, só 2 desenhos externos, entre êles o vencedor, mal desenhado mas com o mapa do Pará (e colorido !). Usando as vantagens da xerox em colagens criativas a partir de fotos de Rodas e movimentos — com os rostos de Pastinha ou de Bimba — fizemos 13 desenhos, muito mal votados, por sinal. (Cada pessoa presente podia escolher 3 desenhos e venceria a obra com mais pontos.) Recusaram quase todos os meus 10 desenhos, dos 3 de meu irmão o REDONDO teve mais votos e um “bairrismo” tolo falou mais alto, premiando a bandeira do Estado sobre o mapa, com 2 “capoeiras” em cima. É a Vida !

 

“NATO” AZEVEDO (em 25/jan. 2019)

…TERIA SIDO SONHO ?!

 …TERIA SIDO SONHO ?!

“YÊ, ‘TAva lá em CAsa, sem
penSÁ nem ‘MAgiNÁ… (…)
ISso pra MIM é conVERsa
pra viVÊ sem TRAbaIÁ” !
me. PASTINHA (trecho de LP)

Quando ouvi o disco de depoimentos de mestre Pastinha pela primeira vez — por volta de 1972, eu acho — na casa do exímio jogador de Capoeira “Rubinho” (“nasceu pra la”, diria Vicente Ferreira !) pensei ser cantado em gêge ou yorubá, nem percebi que era em Português. Foi preciso que o depois “Tabajaras” “me soletrasse” o que estava sendo cantado. Rubinho sabia muitos toques de Berimbau, tinha facilidade para aprender as coisas nessa área de percussão e canto, andou frequentando um “centro de macumba” na Ladeira — na época, “Centro Espírita”, a Umbanda era mal vista !– onde tocava atabaques, muito bem por sinal, como “ogan”. A partir deles entendi que qualquer sujeito pode até não ser um grande professor desta Dança-Luta, mas tem obrigação de dominar a parte musical que a mantém enquanto folclore,,, isso é o mínimo que a Capoeira exige !

Nesses tempos eu frequentava o Grupo Senzala, de mestre “Peixinho”, como curioso, acompanhando “Rubinho”, que lá treinou por um período, por volta de 1974, calculo. Alguns sábados à noite voltava para assistir a Roda de bambas da Zona Sul, todos conhecidos por “Peixinho” e gozando de sua hospitalidade e gentileza. Um “gentleman”, MARCELO AZEVEDO jamais fechou as portas de sua Academia para quem quer que fosse, jamais questionou o fato de eu ficar ali, sentado num canto hora e meia, só observando. Isso é o “terror” de alguns, mestres medíocres que sequer merecem o título.

...TERIA SIDO SONHO ?! Capoeira Portal Capoeira

De Peixinho só belas lembranças… Deus sabe o que faz mas, por vezes, leva os melhores para sentar ao Seu lado no Céu. “Peixinho” esteve em Belém graças ao então contramestre Luís Carlos por volta de 2005… a mesma e eterna simplicidade, título e importância não lhe subiram à cabeça, contudo “não ensinou aqui” sua entrada “de tesoura” (ou “vingativa”) na “meia lua” alheia nem o “aú duplo” no mesmo lugar, exclusividades suas. Também tinha um “giro em pé”, braços abertos feito Cristo Redentor, mas como vi “Camisa” usá-lo quase na mesma época, não posso afirmar que foi “invenção” dele.

Ainda como praticante pouco esforçado no “CÉU” — Casa do Estudante Universitário, no Flamengo — vi mestre “Camisa” em ação várias vezes… levei caderno e lápis para tentar reproduzir alguns dos seus movimentos, em vão. Enquanto “rabiscava” perdia momentos geniais dele, isto por volta de 1974, talvez meados de 1975. Enfim, o Destino nos deu oportunidade de comprar pequena filmadora, com rolinho de 5 minutos, na bitola Super8. Adiante, adquirimos um miniprojetor, que “lixava” a fita, estragando-a em pouco tempo. Entretanto, conseguimos registrar esses 2 ASES da Capoeira carioca na sua melhor fase, no auge de sua forma física e técnica, provavelmente em 27 de setembro de 1975, na “Caixa d’Água” (em Santa Teresa ou Cosme Velho)e em 77… segundo meu irmão, seria em 1976 e 77.

Remontados precariamente, os 8 ou 12 rolinhos de 5 minutos fizeram um registro sem igual do Grupo SENZALA na época, quase todo êle em peso, com a presença de um certo Caio, de São Paulo, isto em 1977. A fita “viajou” por 3 MIL KMs sobre o mar e graças ao mestre “Guará”, em Paris, voltou com qualidade suficiente (em 3 partes) para ser admirada. “Camisa” e “Peixinho” juntos, mais o “meteoro” mestre “Lua” — que só se via a cada 2 ou 3 anos — todos mantendo viva a aura de excelência do Grupo SENZALA.

 

Capoeiragem no Rio de Janeiro dos anos 70 parte 1

 

Afinal, onde entra o SONHO nessa estória ?! Explico já: me vejo numa tarde sentado ao lado do então “Camisinha”, por volta de 1974 suponho, numa das “torres” abandonadas do prédio do CÉU. Êle preparava os berimbaus de um Batizado à noite, provavelmente um sábado. Não comeu nem bebeu nada até o fim da festa, lá pelas 22 horas… naquele os mestres torciam as cordas das graduações, entregues DE GRAÇA conforme o merecimento de cada um. “Camisa” andava só na época, não dava espaços para intimidade de aluno nenhum, nem os mais graduados. Como se explica que eu — tímido e reservado — estivesse ali, inútil, sem sequer cortar pneus : “Teria sido um sonho”? Êle nunca soube, mas na época criei um enredo de filme com êle (ao estilo “Bruce Lee”, seu ídolo, tenho certeza !) bem antes do filme “Cordão de Ouro”, no qual meu irmão gêmeo “Leiteiro” atuou por 10 segundos. 

Falando nisso, é com “NESTOR Capoeira” a outra parte do tal “sonho”… estou num casarão antigo, bela fogueira no varandão e o Rio iluminado lá embaixo. Seria Santa Teresa ? Há “capoeiras” antigos  novos circulando por ali… Nestor se aproxima e me diz que “canto bonito” !” E agora, José ? Eu não me atreveria a cantar ali, nem que me pedissem ! Não havia Roda alguma talvez nem berimbau… parecia ser aniversário de alguém importante na Capoeira ! Infelizmente, essa Internet de “ratos” e pilantras cria um monte de perfis FALSOS e ficamos sem ter certeza se o do “CAMISA” e os 3 com o nome de “NESTOR CAPOEIRA” seriam verdadeiros.

Vou continuar em saber se… “teria sido SONHOS” ?!

 

“NATO” AZEVEDO (em 21/jan. 2019, 15 hs)

Mulheres da Pá Virada

Mulheres da Pá Virada

Caladas Nunca Mais! Documentário sobre luta e resistência de mulheres na capoeira.

O projeto

Olá a todas e todos, somos o Grupo de Estudos e Intervenção Marias Felipas. Somos um grupo de mulheres capoeiristas, pesquisadoras, educadoras, feministas e ativistas. Nosso encontro nas intersecções entre a pequena roda da capoeira e a grande roda da vida resultou na criação desse coletivo. Partilhamos interesses em aprender e atuar nas diversas esferas do universo da capoeira e o desejo de lutar criativamente contra as relações de opressão sexista que perpassam a capoeira. Realizamos encontros, estudos e atividades com foco nas questões de gênero, educação e capoeira e organizamos Rodas de Capoeira Feminista como forma de intervenção política. Participamos de eventos culturais, acadêmicos e também político-sociais, como o Fórum Social Mundial que ocorreu em Salvador em 2017.

 

APOIAR ESTE PROJETO

Um dos nossos projetos mais ousados, para o qual estamos aqui pedindo a sua ajuda, é a execução de um documentário chamado “Mulheres da pá Virada”. Nosso objetivo com este documentário é dar visibilidade à história das mulheres dentro da capoeira, e também denunciar a violência de gênero que, infelizmente, vem atrelada a essa história. Para isso dividiremos com o público histórias e trajetórias dessas mulheres, junto com uma pesquisa histórica sobre o papel da mulher na capoeira. Esse filme conta com a participação e colaboração de mais de dez mulheres capoeiristas, com perfis, gerações e linhagens de capoeira diferentes que irão mostrar as suas trajetórias.

Para realizar este ambicioso projeto procuramos editais públicos de apoio a Capoeira e ganhamos o Prêmio Capoeira Viva ano II, através da Fundação Gregório de Mattos com apoio da Prefeitura de Salvador. Este edital nos proporcionou uma verba de R$20.000,00 com a qual orçamos um curta metragem de 20 min, com um valor mínimo simbólico para as mulheres capoeiristas participantes.

No entanto, a importância política deste projeto dentro a luta maior pela emancipação da mulher é muito grande e nós precisamos ampliar a duração deste documentário para poder incluir mais entrevistas e relatos das capoeiristas, assim como material de pesquisa histórica. Queremos também levantar fundos para remunerar melhor as capoeiristas, mestras de saberes populares, artistas, professoras, estudantes que disponibilizaram do seu tempo e da sua energia para fazer parte desta luta conosco.

Precisamos de mais R$19.097,00 para fazer com que este documentário vire um longa-metragem, ampliando assim as diárias de gravação de 2 para 5 dias e alugando equipamentos de tomada de som de alta qualidade. Usaremos esta verba para ampliar a curadoria histórica, e desta forma resgatar a história não contada da mulher na capoeira. E, finalmente, iremos garantir uma contribuição real para essas mulheres participantes do documentário, que vivem da capoeira e pela capoeira, e vão se disponibilizar para contar essa/nossa história. Precisamos da sua ajuda para que isso aconteça. Se você é a favor da igualdade de gênero, da liberdade da mulher de se expressar e buscar sua felicidade livremente, ajude com qualquer quantia!!

Este projeto tem uma enorme importância política. Na atualidade vemos uma nova onda conservadora querendo nos extirpar dos nossos direitos adquiridos depois de muita luta e muitas perdas. O movimento das mulheres não é exceção, cada vez mais relatos de violência, tanto física quanto simbólica, aparecem nas redes sociais. A capoeira também é um desses cenários de relações machistas; encobertas pelo manto do discurso da “tradição”, as práticas sexistas de discriminação e violência contra a mulher se multiplicam.

Precisamos dar voz a essas mulheres, dividir com o público suas trajetórias e estratégias de luta. Mostrar como mulheres viram capoeiristas, viram alunas, professoras, contramestras, mestras. Mesmo que muitas vezes não reconhecidas “oficialmente”, são mulheres guerreiras que toda a comunidade de mulheres na capoeira aceita e abraça enquanto referência. A luta pelo berimbau, pelo canto, pela liberdade de expressão corpórea, contra o assédio sexual, em prol do crescimento profissional dentro desse campo, é constante, é violenta e é extremamente necessária.

Queremos produzir um material que nesse sentido será inédito, pois trará a tona não só a história invizibilizada da mulher na capoeira, como também mostrará exemplos, referências de mulheres capoeiristas dentro dos seus diferentes contextos de prática e ensino da capoeira. Além disso, queremos denunciar a violência de gênero dentro da capoeira e apontar estratégias de luta e resistência neste campo.

Já passamos do momento silenciador e angustiante do ato violento, agora estamos indignadas, unidas somos mais fortes e queremos dizer ao mundo: Caladas nunca mais!

 

As Mulheres da Pá Virada, que participarão deste documentário são:

 

Adriana Albert Dias, conhecida como Pimentinha, nascida em 1975, começou capoeira em 1994, É historiadora, feminista, pesquisadora da capoeira. Escreveu o livro “Mandinga, Manha e Malícia: uma história sobre os capoeiras na Capital da Bahia”. Hoje faz seu doutorado na UFBA sobre capoeira e masculinidades. Co-fundadora do Grupo de Estudos e Intervenção Marias Felipas.

Alessandra Mattioni, conhecida como Alematt, nasceu em 1971. Começou capoeira angola em 2001 e é integrante do grupo Angoleiros do Mar. Alematt é professora de capoeira e co-fundadora do movimento Mulheres do Mar que realiza vários festivais em prol da valorização das mulheres na capoeira.

Catarina Aguirre, carinhosamente, chamada de Cata, nasceu em 1984. Começou capoeira regional no Sul da Bahia em 1998 e a partir de 2001 iniciou sua trajetória na capoeira angola. Faz parte de dois grupos de vadiação: Bando Maré de Março & Bando Anunciador. Atualmente Cata é professora de capoeira angola e dá aula no ginásio do Colégio Edgar Santos que fica no Garcia.

Celidalva Pinho Encarnação, conhecida como contramestra Brisa, nasceu em 1973 e começou capoeira em 1999. É uma das lideranças no grupo Angoleiros do Mar e co-fundadora do movimento Mulheres do Mar, ministra aulas de capoeira e participa de workshops de capoeira no Brasil e na Europa.

Christine Zonzon, cujo sobrenome virou apelido de capoeira, nasceu em 1958 e é capoeirista desde 1989, antropóloga, feminista, e pesquisadora da capoeiragem. É autora do livro “Nas rodas da capoeira e da vida: Corpo, experiência e tradição”, e atualmente desenvolve seu pós-doutorado na UFBA sobre experiências e representações de mulheres neste universo. Co-fundadora do Grupo de Estudos e Intervenção Marias Felipas.

Cleonice Damasceno Silva, conhecida como mestra Preguiça, nasceu em 1976. Começou capoeira em 1987, é e professora da Escola de Capoeira Regional Filhos de Bimba onde ministra aulas na sede que fica no Nordeste de Amaralina. Também desenvolve um trabalho com capoeira para meninas num projeto social na Ilha de Itaparica.

Isabela Maria Severo Nascimento Santana, conhecida como contramestra Tartaruga, nasceu em 1977. Em 1992 começou capoeira no grupo de capoeira Angola Palmares do qual faz parte até os dias de hoje. Atualmente ministra aula de capoeira na Academia Saúde em Patamares e participa de um projeto social em Castelo Branco.

Ivanildes Teixeira de Sena, carinhosamente chamada de Nildes, nasceu em 1968. Começou capoeira em 1986 no Centro Esportivo de Capoeira Angola, é idealizadora do Otá, Espaço de Convivência Sócio Cultural Cosmoafricana que é um ateliê de artes e estéticas literárias, visuais e corporais. Desenvolve atividades práticas e pesquisas com mitologia africana e capoeira angola em Foz de Imbassaí (BA).

Joana Pointis Marçal, Jô, como gosta de ser chamada, nascida em 1989, é capoeirista desde 2012, feminista e pesquisadora da capoeira. Joana realizou o seu mestrado na Pós-Afro, em Estudos Étnicos e Africanos, sobre Capoeira, identidade e Patrimônio Cultural Imaterial. Co-fundadora do Grupo de Estudo e Intervenção Feminista Marias Felipas.

Maria Luísa Pimenta, contramestra Lilu, nascida em 1973, iniciou capoeira em 1992 em Belo Horizonte. Em 2000 mudou-se para a Bahia para vivenciar melhor a capoeira. É co-fundadora do grupo de cultural Capoeira Malta da Serra em Lauro de Freitas. É, também integrante do Bando Anunciador da Capoeira Angola de Rua desde 2000. Escreveu e idealizou o livro “CAPOflora FaunaEIRA: uma arte brasileira”. É mestranda da faculdade de Educação da UFBA e co-fundadora do Grupo de Estudo e Intervenção Marias Felipas.

Rita de Cássia Santos de Jesus, conhecida como Mestra Ritinha, foi uma das primeiras mulheres a iniciar-se na capoeiragem. Nascida em 1964, começou capoeira em 1983 na Academia de mestre João Pequeno no Forte do Santo Antônio, no bairro onde nasceu e vive até hoje. Atualmente participa de eventos e realiza workshops no Brasil e no exterior.

Olivia Roberta Lima Silva, conhecida como formada Negona, nasceu em 1981, pratica capoeira desde 1996 e faz parte do grupo de Capoeira Porto da Barra. Também participa ativamente do Movimento Mulher na Capoeira tem Axé e em breve iniciará uma turma de capoeira apenas para mulheres em Salvador.

Viviane Santos Oliveira, conhecida como formada Princesa, nasceu em 1978. Começou capoeira em 1993 no grupo UNICAR (União Internacional de Capoeira Regional) na Pedra Furada onde dá aula no núcleo na Cidade Baixa. Faz parte do Coletivo Fortalece Capoeira, Orquestra de Berimbaus Afinados e do grupo percussivo Mãos no Couro. É integrante da Salvaguarda da Capoeira na Bahia ( GT SSA), na função de presidenta.


Orçamento

O montante arrecadado com essa campanha será utilizado para complementar o Prêmio Capoeira Viva ano II: dobrando o valor do cachê das capoeiristas participantes, transformando o documentário de um curta para um longa metragem adicionando mais 3 dias de gravações, ampliando o acesso e distribuição do documentário através da inclusão de legendas em inglês e português e cobrindo os demais custos adicionais referentes à ampliação do projeto, como locação de espaço, transporte e alimentação, além de uma ajuda de custo para as voluntárias.

Descrição/Valores

  • Gravação e edição5.750
  • Cachês capoeiristas7.050
  • Alimentação equipe500
  • Transporte500
  • Custos para exibição800
  • Legendas em inglês300
  • Transcrição do áudio500
  • Tarifa banco200
  • Ajuda de custo voluntárias300
  • Locação da Casa Rosada1.000
  • Sub total16.900
  • Total com 13% 19.097

 

Saiba Mais: https://www.catarse.me/mulheres_da_pa_virada