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De São Gonçalo – Rio de Janeiro (Brasil) a Espanha: a volta do mundo de Cinzento

Quer ser universal, fale de sua aldeia – dizia o poeta russo León Tolstoi. Cinzento segue essa sugestão. Ao escrever “Interpretando a capoeira”, verdadeiro e inédito estudo semiótico da capoeira, ele foi buscar no seu torrão natal, a cidade de São Gonçalo (Rio de Janeiro), as lições para entender e explicar os signos, ícones e símbolos da capoeira. Assim, o autor fez das lições dos velhos mestres do subúrbio fluminense a sua água de beber.

Numa análise apurada, Cinzento, pisa firme na literatura de capoeira, recorrendo aos referenciais teóricos da Semiologia para interpretar a liturgia, o ritual e os fundamentos da capoeira. Ao analisar o “jogo da capoeira dentro do sistema nervoso”, o autor mergulha com coragem no terreno da neurolinguística e nos lega uma verdadeira pérola teórico- metodológica, que ajuda capoeiristas e pesquisadores a compreender significados, ícones e símbolos da capoeira:

“O lado esquerdo do cérebro sabe situar-se dentro do tempo do jogo e procura situações seguras. Já o lado direito abstrai-se do tempo e gosta de se arriscar. Para o hemisfério direito não existe a expressão “perder tempo”. O esquerdo costuma imitar, representar, fingir; o direito é criativo e autêntico. É o que é. Por ser racional e crítico, o lado esquerdo do cérebro não se aventura a criar, inventar, sonhar. Prefere a segurança do conhecido, do lógico, do aceito pela sociedade capoeiristica em que vive. Já o lado direito solta a imaginação, viaja pelas asas do sonho, cria, inventa, recria e assume ser livre”.

Na análise de Cinzento, mitos vão se desmanchando no ar, como tudo que é sólido, pois como ele próprio diz, significante e significado não tem relação estática. Ao contrário, quando interpreta a realidade, um estudioso acaba por modificá-la, pois a própria interpretação é um processo dinâmico que distorce e/ou modifica a realidade, podendo aumentar, diminuir ou acrescentar alguma coisa ao significado anterior:

“A capoeira é momento e lugar, método e estilo, estratégia e destreza, história e hipótese, perceptível sobre distintos planos de análise interpretativa”.

Então, partidário de uma capoeira laica, Cinzento ajuda-nos, com sua lucidez, a dar rasteira em paradigmas já superados na capoeira, onde para ele, não há verdade única. E, com coragem, dá rasteira em mitos:

“Afora o aspecto místico, fazer o sinal da cruz não é certo nem errado e pode ser positivo em determinados momentos, basta que uma pessoa tenha crença nele. Mesmo assim, interpretamos que o sinal da cruz está claramente conectado com a religião e não com capoeira”.

Muitos aspectos descritos neste livro são fruto das inquietudes do estreante autor, que aqui organizou suas idéias com o intuito de responder as dúvidas frequentes expressadas por seus alunos brasileiros e europeus.

Para o autor, nem todo discurso é falso, assim como nem tudo é verdadeiro e válido para a capoeira, porque cada geração exige um comportamento único do capoeirista. Por isso, a única forma possível de verificar a verdade da capoeira é interpretando cada geração capoeirista dentro de seu tempo correspondente. E é justamente isso, aponta, que faz a capoeira seguir viva e sui generis, em plena época de massificação cultural provocada pela globalização e pelo processo da revolução científico-tecnológica que está em curso.

Para Cinzento, a internacionalização da capoeira é prova de que ela se alastra em processo de simbiose e multiculturalidade:

“O jogo pode sofrer mudanças em seu ritmo por meio dos estímulos externos da roda (toques ou a canções). E ele é vivido por muitas culturas dentro de uma mesma localidade ou país, cada um com seus valores, costumes e estilo”.

A obra, ao esclarecer dúvidas, tem caráter para-didático, pois, longe de estabelecer novas controvérsias na seara já complexa e multifacetada da capoeira, busca, ao contrário, diminuir a confusão teórica em torno dos mitos, rituais e símbolos da capoeira. “Interpretando” tem valor histórico e talvez não seja, ainda, um clássico na interpretação semiótica da velha e boa “arte da malandragem”. Mas é, com certeza, um manifesto em defesa da capoeira e dos capoeiristas:

“Neste jogo que imita a vida, além de termos um coração que pode sentir a música, é primordial uma mente e um olho que saibam evoluir de oitiva para absorver as informações de um círculo mágico chamado roda. Uma alma que saiba cultivar as emoções e mãos que possam tocar um instrumento com discernimento e sabedoria para impulsionar o jogo dos camaradas com motivação”.

Diagnosticar e valorizar a trajetória da capoeira, principalmente o seu nascimento é, de alguma maneira, dar continuidade à interpretação reflexiva daqueles que foram, em sua geração, imprescindíveis para a mesma. É entender que os problemas que encontramos hoje em dia dentro dela não surgem do nada, mas sim da atitude do próprio capoeirista. Portanto, este trabalho tem como ponto de partida o entendimento capoeirístico que o escritor construiu durante sua trajetória e com uma enorme preocupação com futuro das próximas gerações.

“Interpretando a Capoeira” é uma ferramenta que ajudará o capoeirista, o orientador e o educador desta crescente arte e, principalmente, aos jovens, a entender as interpretações, o marco e as micro e macro-estruturas organizativas e ideológicas da capoeira. Cinzento ainda não recebeu a corda preta de Mestre Guigui, seu mano de sangue e pai na capoeira. Mas ao nos brindar com essa obra de valor inestimável já é mestre que dá lição.


O Livro será lançado no “Pernada Carioca”, encontro internacional de capoeira realizado na cidade de Valência-Espanha pela Aluá capoeira.

 

Pernada Carioca 2013

O encontro além de ser uma forma encontrada para homenagear a capoeira praticada antigamente pelos mestres do Rio de Janeiro, é também uma forma de despertar a curiosidade de todos em relação a capoeira carioca e a sua mutação até os nossos dias contemporâneos.

Completamente diferente dos anos anteriores, este ano, o encontro terá a abertura feita no dia 26 de abril com vários representantes da capoeira que darão workshops e a finalização no dia 28 do mesmo mês com a celebração do batizado e troca de cordas, e um espetáculo dirigido a todos os públicos da capoeira e simpatizantes de nossa arte.

O encontro conta também com a apresentação e lançamento oficial do primeiro livro de uma trilogia “Interpretando a Capoeira” do mestrando Cinzento (presidente fundador da Aluá). Por uma parte o livro é fruto de uma investigação transcultural, e por outra, nele, o jogo da capoeira é explicado mediante processos psicofisiológicos.

Aluá capoeira acredita que com um evento dessa magnitude, a capoeira na cidade de Valência sempre será bem vista e digna de receber seu valor como arte marcial brasileira.

ÉTICA NA OU DA CAPOEIRA?

"A capoeira para mim é, entre outras coisas talvez menos importantes,
um ensino ético realizado através de situações simbólicas."

Para nós estrangeiros o gosto pela capoeira não pode vir da sua imagem como símbolo da brasilianidade ou da africanidade dentro da brasilianidade. A história social europeia tem produzido o boxe e a savate ; nas Antilhas o Ladja (ou Danmié) apresenta tão bem a herança Afro que nem os velhos "majors" remanescentes da arte, nem os revivalistas, atraem muitos adeptos. É que em muitos municípios, mesmo com esmagadora maioria Afro-antilhesa, a prática, como todas em que o tambor participa, é proibida, por ser indigna da grande civilização francesa, a qual domina absolutamente o terreno. Esta cultura é a que tem formalizado,com a obra do Barão Pierre de Courbertin, a reativação dos Jogos Olímpicos e outras medidas de normalização dos esportes. Para isto, se valeu da tradição aristocrata do duelo, fonte do espírito de sujeição à regras, e de jogos populares pouco regrados.
Ao estudar estes jogos do passado, constatamos que se desenvolveram a partir das tenções que os praticantes sofriam no seu cotidiano. Especificamente, as formas antigas, na França ou na Inglaterra, das lutas (em suas modalidades populares) como dos jogos de bola, tinham muitas vezes um conteúdo social, que podia ocasionalmente ser considerado danoso ou subversivo. A proibição da capoeira na fase de modernização do Brasil não é um caso único. A regulação os jogos foi um esforço de controle social, exercido ou pelos especialistas tradicionais da questão, padres e pedagogos, ou pelos industrialistas. Integrados hoje na economia do espetáculo, o esporte é considerado pelos seus promotores como exercício higiénico e educativo. Higiénico, combate os efeitos da divisão do trabalho, em qual os indivíduos, particularmente os operários do sistema de produção de massa e os empregados de escritórios, vêem o seu corpo deteriorado pelas tarefas repetitivas ou o sedentarismo; educativo, pratica a concorrência para que o melhor ganhe, mostra um retorno graduado pelos investimentos pessoais; higiénico, dá espaço de esvaziamento para tensões psicológicas dirigida por ele contra um adversário ritual; educativo, coloca a ênfase sobre o respeito das regras, aprendizagem da legalidade; higiénico, põe em contato setores diversos da sociedade; educativo, ensina a cada um o seu lugar, integrando os dominados através de esportes coletivos onde os postos de comando são atribuídos aos integrantes de classe alta; higiénico, tira a mocidade da bebida e das demais drogas; educativo, ensina a dignidade na derrota e a submissão às decisões do árbitro.
No decorrer do século, a sociedade tem evoluido para uma concorrência generalizada entre estruturas equivalentes. Sem falar do mercado, onde vemos um sem-número de sabões, de biscoitos, de carros mais ou menos similares, as religião fornecem um exemplo : quantas denominações cristãs? Porque foi achado necessário separar-se tanto, quando a diferença teórica é tão pouca? Os esportes, similarmente, evoluiram para acabar todos, nos seus princípios e na sua estruturação, modalidades diversas da mesma metáfora da sociedade industrial. Ultimamente, o desenvolvimento tem chegado a um paradoxo. Não cabe aqui tentar uma explicação, mas o fato é que temos um desemprego considerável. Neste contexto, o princípio de competição para seleção dos mais aptos não permite mais a conservação de uma posição à altura da dos pais para todos os rebentos.A família, de que se falava que estava em crise, voltou a atuar para ajudar fornecendo patrocínio. O dinheiro comprou longos espaços de adaptação profissionais não pagos para que os filhos se tornassem mais atraentes, independente das suas capacidades, para os empregadores. O esporte, portanto, apresenta agora na vista comum uma projeção falsificada do funcionamento social. Como espetáculo, vira celebração de uma cultura em crise ou até em decadência, como opção pessoal, ilude o praticante. Em resposta, apareceram e foram oficializados uma série de "esportes" com ênfase diferente, onde o aspeto agonístico está quase ausente. O seu princípio comum é o do concurso acrobático. O indivíduo solitário consegue fazer algo inédito. Um júri atribui o prémio. A arbitrariedade da decisão é compensada pelo seu lado político (coletivo). No entanto, os folguedos populares que não foram integrados pelo espírito esportivos continuam (ou não) existir discretamente. Pois nem todos entraram no molde. E cada povo imigrante trouxe as suas modalidades próprias, que nem sempre se prestavam à esportivismo. Como o desemprego cria condições aventurosas em todos os setores, o número dos que procuram o sucesso em novas direções vai aumentando: decisão arriscada, mas não mais do que a participação à concorrência maior pelos postos já definidos.
A capoeira é um destes rumos, e certamente já vemos dois jeitos de integra-la ao quadro, de acordo com diversas opções pessoais. Como modalidade de luta, a única chance dela é o seu exotismo, que faz ela adotada por praticantes de um determinado esnobismo, e por galos que prefirem ser o dono de um pequeno terreno do que se expor ao vasto mundo. Como jogo acrobático, e possivelmente em conjunto com efeito de exotismo e de moda, atrai aqueles, já aludidos, que perderam os valores de competição para seleção dos melhores e se entregam à decisões coletivas (metáfora da política) para a valorização do seu esforço. Estes muitas vezes temem o contato e confronto com um outro e tornam essencial e permanente a regra de parceria que a capoeira tem no seu treino.
Ainda existe outro caso — o meu, por sinal. Gosto da capoeira porque a capoeira, vadiação, brinquedo, baderna, jogo, NÏ É um esporte, dos que são uma simples projeção metafórica da sociedade industrial : regrados, sem acesso dos indivíduos à definição das regras; burocráticos, policiados, insensíveis às pequenas variações locais.
A perspetiva de ver regras impostas à capoeira olho com muita suspição. A capoeira não tem regras? Acredito que sim, tem; mas, isso é importante, a capoeira não tem regulamento, não tem regras EXPLÍCITAS. A diferença da expressão do que é o certo através de símbolos e através de explicitação num discurso é capital.
Pretendo elaborar alguma coisa no assunto, mas a não ser a falta de tempo para um escrito do qual quero que obedece às regras formais da cientificidade e mantenha um rigor no seu raciocínio, existe uma contradição no meu propósito. É preciso alguma meditação antes de explicitar a necessidade de não explicitar regras.
Em defesa da ausência de regras, já posso destacar que isso permite adaptação às mutações do meio social. Certamente, a capoeira já mudou, e muito do Brasil colonial para cá. Segundo, o juridismo de normas, de regras escritas é integral da cultura europeia — para ser mais preciso, da cultura dos mestres, dominantes europeios. Não é só no Brasil que os dominados tem tentado burlar regras para quais não foram consultados. Não sou anarquista. Não dou valor geral à eliminação de regras. Não julgo o resultado do espalhamento (violento) da cultura dita ocidental. Mas o fato atual é que o crescimento da civilização industrial, da divisão do trabalho, da especialização inclusive das tarefas de dominação, da burocratização, fazem que não existe mais lugar de decisão, onde se determinariam regras. Os moradores da aldeia planetar são dominados por regras que sempre, qualquer seja o nível onde estão endereçados os protestos, são determinadas um além. Existe, em consequência, uma crise da aceitação dos regulamentos.
Ponto de vista, isto, que pode muito bem não ser dos capoeiristas, brasileiros socialmente dominados, suburbanos, biqueiros, donos de ofícios desvalorizados, em ânsia de merecido reconhecimento social, que procuram-lo através de organização oficialmente padronizada. Aceitam estes constrangimentos mais do que construem-los — na vida tem que ter jogo de cintura.
Mas não é o caso, se não me engano, dos organizadores do grupo Palmares da Paraíba de quem recebemos a comunicação sobre a ética, nem dos autores de textos sobre a ética que encontramos no Internet. Se trata de pessoas já bem integradas, já que o acesso ao Web requer alguns recursos financiais e sobretudo uma determinada familiaridade com a lógica do escrito e dos computadores.
O que vemos na rede é expressão de un desejo de colocação de regras éticas oriundas do estado (ética cívica) ou da sociedade civil (éticas esportivas, religiosas, liberais, étnico-culturais) para a capoeira. É uma ação similar à do barão de Courbertin, que pode muito bem se chamar de violência simbólica.
Simbólica, porque exercida sobre os símbolos, isto é, são as ferramentas mentais que permitem às pessoas de constituir uma visão do mundo própria. Violência, porque aproveitam da dominação do verbo na sociedade e do prestígio da fala bem construída para apagar os comportamentos que constituem, de fato, expressão de outra construção simbólica do mundo. Sei que muitas pessoas, particuliarmente as "educadas", ficaram, devido à educação especializada no domínio do discurso, insensíveis aos símbolos não verbais. Não digo que isto não seja certo. O discurso é mesmo a chave para todos os caminhos do sucesso social. Mas não é o único meio de constituir símbolos. Todo mundo se vale do seu corpo para soltar mensagens, e os letrados, que em consequência da sua especialização não entendem estes sinais antes de verbaliza-los, precisam de reconhecer com alguma humildade que a reação direita ao fluxo de símbolos corporais é mais eficiente no relacionamento social. É mais rápida, mais precisa, e reage às variações do intercâmbio. Para estes, como para bom número de europeios, o treino na capoeira é verdadeira reeducação.
Mas para aprender, é preciso de um professor. Não pode ser o aluno que dita as regras — um fenómeno, digo passando, que encontramos muito por aí, o do aluno que acredita que aquilo que aprendeu na vida é válido sempre, portanto válido na capoeira, portanto que já sabe tudo e só precisa de algumas técnicas. No caso do textos sobre a ética, sem tirar nada da capoeira que os autores já tem, assistimos à manobra do mesmo cunho. Sendo que existem regras éticas; sendo que essas regras são universais; sendo que a capoeira é parte do universo; declaram os autores: as regras éticas devem se aplicar à capoeira. Mas não é nada disso. A capoeira não precisa de ética. A capoeira tem ética. A capoeira para mim é, entre outras coisas talvez menos importantes, um ensino ético realizado através de situações simbólicas.
Por enquanto, não quero explicitar mais. Isto já é demais para os praticantes não letrados, que são os primeiros usuários deste ensino da capoeira, que nem por isso deixa de ser útil para os outros, mais formados e deformados para e pelo discurso. Se, porém, subsidisse uma dúvida sobre o fato que a capoeira tem ética em si, indicarei, simplesmente, que se a ética é prescrição de uma atitude certa frente à vida social, então, a atitude capoeira é adaptada para quem não pode ou não quer competir por um dos poderes centrais da sociedade : uma PARTICIPAÇÃO DESCONFIADA.
Ponho este exemplo de transcrição discursiva par convencer aqueles que não entendem assunto qualquer se não é traduzido em discurso, para incentivar eles a comecer a aprender.

"Polô"

ÉTICA NA CAPOEIRA?

“A capoeira para mim é, entre outras coisas talvez menos importantes,
um ensino ético realizado através de situações simbólicas.”

Ética na ou da capoeira ?

Para nós estrangeiros o gosto pela capoeira não pode vir da sua imagem como símbolo da brasilianidade ou da africanidade dentro da brasilianidade. A história social europeia tem produzido o boxe e a savate ; nas Antilhas o Ladja (ou Danmié) apresenta tão bem a herança Afro que nem os velhos “majors” remanescentes da arte, nem os revivalistas, atraem muitos adeptos. É que em muitos municípios, mesmo com esmagadora maioria Afro-antilhesa, a prática, como todas em que o tambor participa, é proibida, por ser indigna da grande civilização francesa, a qual domina absolutamente o terreno. Esta cultura é a que tem formalizado,com a obra do Barão Pierre de Courbertin, a reativação dos Jogos Olímpicos e outras medidas de normalização dos esportes. Para isto, se valeu da tradição aristocrata do duelo, fonte do espírito de sujeição à regras, e de jogos populares pouco regrados.
Ao estudar estes jogos do passado, constatamos que se desenvolveram a partir das tenções que os praticantes sofriam no seu cotidiano. Especificamente, as formas antigas, na França ou na Inglaterra, das lutas (em suas modalidades populares) como dos jogos de bola, tinham muitas vezes um conteúdo social, que podia ocasionalmente ser considerado danoso ou subversivo. A proibição da capoeira na fase de modernização do Brasil não é um caso único. A regulação os jogos foi um esforço de controle social, exercido ou pelos especialistas tradicionais da questão, padres e pedagogos, ou pelos industrialistas. Integrados hoje na economia do espetáculo, o esporte é considerado pelos seus promotores como exercício higiénico e educativo. Higiénico, combate os efeitos da divisão do trabalho, em qual os indivíduos, particularmente os operários do sistema de produção de massa e os empregados de escritórios, vêem o seu corpo deteriorado pelas tarefas repetitivas ou o sedentarismo; educativo, pratica a concorrência para que o melhor ganhe, mostra um retorno graduado pelos investimentos pessoais; higiénico, dá espaço de esvaziamento para tensões psicológicas dirigida por ele contra um adversário ritual; educativo, coloca a ênfase sobre o respeito das regras, aprendizagem da legalidade; higiénico, põe em contato setores diversos da sociedade; educativo, ensina a cada um o seu lugar, integrando os dominados através de esportes coletivos onde os postos de comando são atribuídos aos integrantes de classe alta; higiénico, tira a mocidade da bebida e das demais drogas; educativo, ensina a dignidade na derrota e a submissão às decisões do árbitro.
No decorrer do século, a sociedade tem evoluido para uma concorrência generalizada entre estruturas equivalentes. Sem falar do mercado, onde vemos um sem-número de sabões, de biscoitos, de carros mais ou menos similares, as religião fornecem um exemplo : quantas denominações cristãs? Porque foi achado necessário separar-se tanto, quando a diferença teórica é tão pouca? Os esportes, similarmente, evoluiram para acabar todos, nos seus princípios e na sua estruturação, modalidades diversas da mesma metáfora da sociedade industrial. Ultimamente, o desenvolvimento tem chegado a um paradoxo. Não cabe aqui tentar uma explicação, mas o fato é que temos um desemprego considerável. Neste contexto, o princípio de competição para seleção dos mais aptos não permite mais a conservação de uma posição à altura da dos pais para todos os rebentos.A família, de que se falava que estava em crise, voltou a atuar para ajudar fornecendo patrocínio. O dinheiro comprou longos espaços de adaptação profissionais não pagos para que os filhos se tornassem mais atraentes, independente das suas capacidades, para os empregadores. O esporte, portanto, apresenta agora na vista comum uma projeção falsificada do funcionamento social. Como espetáculo, vira celebração de uma cultura em crise ou até em decadência, como opção pessoal, ilude o praticante. Em resposta, apareceram e foram oficializados uma série de “esportes” com ênfase diferente, onde o aspeto agonístico está quase ausente. O seu princípio comum é o do concurso acrobático. O indivíduo solitário consegue fazer algo inédito. Um júri atribui o prémio. A arbitrariedade da decisão é compensada pelo seu lado político (coletivo). No entanto, os folguedos populares que não foram integrados pelo espírito esportivos continuam (ou não) existir discretamente. Pois nem todos entraram no molde. E cada povo imigrante trouxe as suas modalidades próprias, que nem sempre se prestavam à esportivismo. Como o desemprego cria condições aventurosas em todos os setores, o número dos que procuram o sucesso em novas direções vai aumentando: decisão arriscada, mas não mais do que a participação à concorrência maior pelos postos já definidos.
A capoeira é um destes rumos, e certamente já vemos dois jeitos de integra-la ao quadro, de acordo com diversas opções pessoais. Como modalidade de luta, a única chance dela é o seu exotismo, que faz ela adotada por praticantes de um determinado esnobismo, e por galos que prefirem ser o dono de um pequeno terreno do que se expor ao vasto mundo. Como jogo acrobático, e possivelmente em conjunto com efeito de exotismo e de moda, atrai aqueles, já aludidos, que perderam os valores de competição para seleção dos melhores e se entregam à decisões coletivas (metáfora da política) para a valorização do seu esforço. Estes muitas vezes temem o contato e confronto com um outro e tornam essencial e permanente a regra de parceria que a capoeira tem no seu treino.
Ainda existe outro caso — o meu, por sinal. Gosto da capoeira porque a capoeira, vadiação, brinquedo, baderna, jogo, NÏ É um esporte, dos que são uma simples projeção metafórica da sociedade industrial : regrados, sem acesso dos indivíduos à definição das regras; burocráticos, policiados, insensíveis às pequenas variações locais.
A perspetiva de ver regras impostas à capoeira olho com muita suspição. A capoeira não tem regras? Acredito que sim, tem; mas, isso é importante, a capoeira não tem regulamento, não tem regras EXPLÍCITAS. A diferença da expressão do que é o certo através de símbolos e através de explicitação num discurso é capital.
Pretendo elaborar alguma coisa no assunto, mas a não ser a falta de tempo para um escrito do qual quero que obedece às regras formais da cientificidade e mantenha um rigor no seu raciocínio, existe uma contradição no meu propósito. É preciso alguma meditação antes de explicitar a necessidade de não explicitar regras.
Em defesa da ausência de regras, já posso destacar que isso permite adaptação às mutações do meio social. Certamente, a capoeira já mudou, e muito do Brasil colonial para cá. Segundo, o juridismo de normas, de regras escritas é integral da cultura europeia — para ser mais preciso, da cultura dos mestres, dominantes europeios. Não é só no Brasil que os dominados tem tentado burlar regras para quais não foram consultados. Não sou anarquista. Não dou valor geral à eliminação de regras. Não julgo o resultado do espalhamento (violento) da cultura dita ocidental. Mas o fato atual é que o crescimento da civilização industrial, da divisão do trabalho, da especialização inclusive das tarefas de dominação, da burocratização, fazem que não existe mais lugar de decisão, onde se determinariam regras. Os moradores da aldeia planetar são dominados por regras que sempre, qualquer seja o nível onde estão endereçados os protestos, são determinadas um além. Existe, em consequência, uma crise da aceitação dos regulamentos.
Ponto de vista, isto, que pode muito bem não ser dos capoeiristas, brasileiros socialmente dominados, suburbanos, biqueiros, donos de ofícios desvalorizados, em ânsia de merecido reconhecimento social, que procuram-lo através de organização oficialmente padronizada. Aceitam estes constrangimentos mais do que construem-los — na vida tem que ter jogo de cintura.
Mas não é o caso, se não me engano, dos organizadores do grupo Palmares da Paraíba de quem recebemos a comunicação sobre a ética, nem dos autores de textos sobre a ética que encontramos no Internet. Se trata de pessoas já bem integradas, já que o acesso ao Web requer alguns recursos financiais e sobretudo uma determinada familiaridade com a lógica do escrito e dos computadores.
O que vemos na rede é expressão de un desejo de colocação de regras éticas oriundas do estado (ética cívica) ou da sociedade civil (éticas esportivas, religiosas, liberais, étnico-culturais) para a capoeira. É uma ação similar à do barão de Courbertin, que pode muito bem se chamar de violência simbólica.
Simbólica, porque exercida sobre os símbolos, isto é, são as ferramentas mentais que permitem às pessoas de constituir uma visão do mundo própria. Violência, porque aproveitam da dominação do verbo na sociedade e do prestígio da fala bem construída para apagar os comportamentos que constituem, de fato, expressão de outra construção simbólica do mundo. Sei que muitas pessoas, particuliarmente as “educadas”, ficaram, devido à educação especializada no domínio do discurso, insensíveis aos símbolos não verbais. Não digo que isto não seja certo. O discurso é mesmo a chave para todos os caminhos do sucesso social. Mas não é o único meio de constituir símbolos. Todo mundo se vale do seu corpo para soltar mensagens, e os letrados, que em consequência da sua especialização não entendem estes sinais antes de verbaliza-los, precisam de reconhecer com alguma humildade que a reação direita ao fluxo de símbolos corporais é mais eficiente no relacionamento social. É mais rápida, mais precisa, e reage às variações do intercâmbio. Para estes, como para bom número de europeios, o treino na capoeira é verdadeira reeducação.
Mas para aprender, é preciso de um professor. Não pode ser o aluno que dita as regras — um fenómeno, digo passando, que encontramos muito por aí, o do aluno que acredita que aquilo que aprendeu na vida é válido sempre, portanto válido na capoeira, portanto que já sabe tudo e só precisa de algumas técnicas. No caso do textos sobre a ética, sem tirar nada da capoeira que os autores já tem, assistimos à manobra do mesmo cunho. Sendo que existem regras éticas; sendo que essas regras são universais; sendo que a capoeira é parte do universo; declaram os autores: as regras éticas devem se aplicar à capoeira. Mas não é nada disso. A capoeira não precisa de ética. A capoeira tem ética. A capoeira para mim é, entre outras coisas talvez menos importantes, um ensino ético realizado através de situações simbólicas.
Por enquanto, não quero explicitar mais. Isto já é demais para os praticantes não letrados, que são os primeiros usuários deste ensino da capoeira, que nem por isso deixa de ser útil para os outros, mais formados e deformados para e pelo discurso. Se, porém, subsidisse uma dúvida sobre o fato que a capoeira tem ética em si, indicarei, simplesmente, que se a ética é prescrição de uma atitude certa frente à vida social, então, a atitude capoeira é adaptada para quem não pode ou não quer competir por um dos poderes centrais da sociedade : uma PARTICIPAÇÃO DESCONFIADA.
Ponho este exemplo de transcrição discursiva par convencer aqueles que não entendem assunto qualquer se não é traduzido em discurso, para incentivar eles a comecer a aprender.

“Polô”

 

Pol Briand, Paris/FR