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Capoeira da Bahia

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A IMPORTÂNCIA DO TRANSE CAPOEIRANO NO JOGO DE CAPOEIRA DA BAHIA

CONSIDERAÇÕES GERAIS

Há muitos anos, cerca de 40, venho comparando o comportamento dos capoeiristas durante o jogo de capoeira da Bahia e suas atividades habituais.
O convívio com os praticantes das artes marciais orientais, do espiritismo, do candomblé; o estudo do hipnotismo, do ioga, da parapsicologia, da fisiopatologia do sono, dos estados modificados de consciência e a prática da meditação nos permitiram analisar o comportamento e o potencial do ser humano em diversas estágios de consciência.
Os registros históricos, científicos e religiosos de condições de bilocação, teletransporte, telecinesia, materializações e desmaterializações, bem como os estudos de física subatômica, nos vem atraindo a atenção para o efeito dos sons e dos ritmos sonoros sobre os níveis e estados de consciência, bem como a correspondência entre os mesmos e as manifestações motora e comportamentais daqueles sob a sua influência.
É notória a influência da música sobre o estado de humor das pessoas, basta lembrar a tristeza do toque de silêncio, a ternura da Ave-Maria, a agitação do Olodum e dos trios elétricos, os movimentos suaves do balé no “Lago do Cisne”.
É evidente que os movimentos induzido pelo “reagge” são diferentes daqueles do samba, da valsa, do cancã ou do foxblue. Sem falar da marcha forçada sob o rufar dos tambores; da tranqüilidade do silêncio; da irritação pelos ruídos; do pânico ao bramir dos elefantes, do rugir do tigre, do estrondo das trovoadas; da sensação de bem estar e conforto trazida pelo ruflar da brisa suave na folhas…
A cultura africana encontramos o uso de música, ritmo e cânticos como gerenciadores, coordenadores, estimuladores de atividades comunitárias como pesca, caça, plantio, etc.
O candomblé oferece-nos uma variedade de toques de atabaques, com diversos ritmos e andamentos, capazes de desencadearem manifestações motoras padronizadas sob categorias de orixás.
É conveniente estudar as associações de toques, ritmos e andamentos com os padrões de comportamentos dos orixás e personalidades dos “filhos de santo” para melhor entendermos a influência dos toques, ritmos e andamentos nos desenvolvimento do jogo de capoeira, consoante a variedade de temperamentos e personalidades dos capoeiristas.
O exame das fotografias de Pierre Fatumbi Verger, de cenas de candomblé colhidas na África, documenta a identidade daqueles movimentos durante o transe dos orixás, que manifestam a atividade gerada pelos toques e ritmos musicais do candomblé e destes da capoeira.
É conveniente lembrar a associação dos estados de humor com as expressões faciais e posturas do corpo para compreendermos melhor as repercussões das modificações de estado de consciência e as manifestações motoras conseqüentes.
Todos reconhecemos os ombros caídos do desânimo, o olhar de tristeza, a vivacidade dos movimentos de alegria, a expressão corporal do animal prestes a atacar, etc.
Quantos outros quadros poderíamos citar?
Portanto, se a música pode alterar o estado de ânimo e as suas manifestações motoras estáticas e dinâmicas, forçosamente teremos que concluir que o andamento, ritmo, palmas e cantos também modificam o comportamento dos capoeiristas durante o jogo.

INFLUÊNCIA DO ARQUÉTIPO COMPORTAMENTAL

Ante um mesmo toque, ritmo e andamento, os diversos arquétipos manifestam sua identidade de modo particular, especifico para cada entidade comportamental (com nuanças especiais, intrínsecas a cada ser e cada momento histórico) de modo que o comportamento é praticamente imprevisível a cada instante, porém com um fluxo natural, espontâneo, ingênito, inato… instintivo como dizia Bimba.
Assim é o próprio Bimba conhecia o fato e afirmava “é o jeitcho dêle“, permitindo que cada um jogasse capoeira com suas características pessoais.
Fato muito notório em certos capoeiristas de movimentos muito lentos, porém dotados de grande mobilidade articular e elasticidade, como Prof. Hélio Ramos, “Cascavel,” Eziquiel “Jiquié”, “Caveirinha”, entre tantos. Assim é que “Atenilo” (jocosamente conhecido como “Relâmpago”) um dos mais antigos dos alunos do Mestre, jamais modificou seu estilo tardo, lerdo, ingênuo, de praticar a capoeira.


Entretanto, ainda hoje não consigo reconhecer ou identificar os vários arquétipos de capoeiristas, mas posso perceber de modo vago, as semelhanças que se repetem independentemente de mestres, momento histórico e localização geográfica.
Assim é que venho detectando similitude do que chamamos de “jogo” (estilo pessoal, jeito particular de jogar) em alunos de diferentes mestres e em regiões diferentes, i.e., encontrando “jogos” parecidos com alguns dos companheiros de meus tempos antigos em locais diversos, como em Natal/RN, Goiânia/GO, etc.
Fato mais surpreendente foi ver, recentemente, na Academia de Mestre João Pequeno de Pastinha, aparecer um rapaz, cujo nome e mestre não consegui identificar, cerca de 17 anos, negro, alto, longilíneo; pescoço fino, elástico e forte; com um jogo incrivelmente semelhante ao do meu Mestre (Bimba), a ponto de me sugerir a sua reincarnação.

TOQUES PACÍFICOS E TOQUES DE GUERRA

Os vários toques, ritmos, andamentos e cânticos de candomblé associam-se a modificações de estados de consciência (transe de orixás) específicos de cada arquétipo. Sendo o estado de transe provocado pela adequação, sinergia, sintonia, harmonia, da música com o arquétipo (sensibilidade do ente sob seu campo energético ou vibratório).
Assim é que uma pessoa, sujeita aos diversos tipos de vibrações orfeônicas em campo sonoro desta natureza, poderá permanecer indiferente a vários padrões orfeônicos ou exteriorizar sua sensibilidade por manifestações motoras ou psicológicas em algum momento ou padrão, com o qual seu arquétipo se harmonize.
Consoante o tipo sonoro, pacífico, belicoso, calmo, agitado, lento, vivo, moderado, rápido, a entidade em sinergia manifestará sua sintonia por movimentos calmos, majestosos, vivos, violentos, guerreiros, etc.
Dentre os toques calmos destaca-se o ijexá, pela paz, alegria, felicidade e requebro a que se associa, razão pela qual permite os movimentos do samba de roda, do afoxé, batuque e capoeira.
A importância atribuída pelo nosso Mestre ao toque era tal que o compelia a usar apenas a musica do berimbau (tocado pelo próprio), sem pandeiro, para que os aprendizes fixassem o ritmo-melodia em toda sua plenitude. A exclusão de todo e qualquer outro instrumento que não berimbau e pandeiro da orquestra também decorria desta premissa.
Freqüentemente, quando os alunos jogavam com muito açodamento e velocidade durante um toque de “banguela” o Mestre resmungava:

“Tô disperdiçandu minha banguela!
“Só merecem mesmu a cavalaria!”
E…
“virava” para o toque mais duro e bruto da “regional”…
impiedosamente mais adequado para os embrutecidos…
insensíveis e afobados.

O CAMPO ENERGÉTICO
DA ORQUESTRA, CANTO, PALMAS E JOGO

O capoeirista, como todos os demais participantes duma roda de capoeira, está encerrado num campo energético, com o qual interage e portanto sujeito a todos os seus fatores em atividade
Reflete, portanto, não só seu estado pessoal, porém aquele do complexo energético da roda, sofrendo a influência de todo o conjunto.
Toda a excitação ambiental envolve os jogadores e transtorna a condução do espetáculo, o qual poderá evoluir para um circo romano em toda sua barbárie.
Razão pela qual, a assistência do jogo da capoeira, antigamente, nas festas de largo, assistia silenciosa e respeitadora, como numa cerimonia religiosa, o desenrolar do jogo de capoeira, procurando guardar os detalhes de cada um dos lances à procura da descoberta do mais habilidoso, elegante, malicioso, inteligente, destro dentre os participantes.
O silêncio e a paz ambiental propiciam a melhor percepção da mensagem orfeônica, o desenvolvimento do transe capoeirano e portanto, o desenrolar do jogo.
As palmas, introduzidas pelo Mestre Bimba para enfatizar a participação da assistência e esquentar o ritmo, alcançam atualmente intensidade tal, que não mais permitem ouvir o toque do berimbau e muitas vezes, sequer os cânticos, desnaturando a capoeira no seu ponto mais nobre, a musicalidade, fonte do transe, ponto capital do jogo.
O atabaque, formalmente condenado pelo Mestre Bimba, durante todo o tempo em que acompanhei a sua rota, foi introduzido pelo Mestre Pastinha e ulteriormente usado pelos grupos folclóricos, a partir de Camisa Roxa, Acordeom, Itapoan, etc. para enfatizar a “africanidade” original. Tocado por quem de direito, suave e discretamente, como pelas orquestras de Mestre Pastinha e seus descendentes; conhecedores dos arcanos, fundamentos, segredos musicais africanos, marca o andamento e acompanha o toque do berimbau, instrumento-rei da capoeira, ao qual deve acompanhar e jamais suplantar, obscurecer.
Em mão desabilitadas, como ocorre na rodas da chamada regional atual, torna-se arauto de ritmo guerreiro e acarretam um transe violento, que vem matando, ferindo, lesando impiedosamente os seus praticantes, desde que provoca um transe agressivo, belicosos, guerreiro, desenfreado e deve portanto ser proscrito em nome da legitimidade da capoeira e da segurança dos seus praticantes.
O agogô e o , são excelentes marcadores de compasso, indispensáveis nas orquestras de candomblé, embora não aceitos pelo Bimba, talvez por terem sido introduzidos por Pastinha, enriquecem as charangas dos seguidores do estilo de Mestre Pastinha e ajudam (e muito!) a manter a constância do andamento do toque.
O reco-reco, também introduzido pelo Mestre Pastinha, nos parece inócuo, sem maior expressão musical, dispensável, salvo para manter a tradição do estilo.
Aviola, hoje em desuso, de ausência lamentada pelo Mestre Pastinha em seus manuscritos, também encontrada no samba de roda, nos indica a origem comum da capoeira e do samba, como indicamos em nossos escritos sobre a família musical áfrico-brasileira.
Opandeiro, com redução dos guizos com recomendado pelo Mestre Bimba, marca o compasso e mantém a constância do andamento quando em mãos habilitadas. É comum no entanto que os mais afoitos (ou despreparados?) acelerem o ritmo ou se afastem do toque do berimbau, desde que não havendo treinamento adequado (ensaio) como fazem os descendentes de Mestre Pastinha ou responsável pela direção da orquestra ou charanga (fiscal no dizer de Mestre Pastinha) é comum alguém se apropriar indevidamente do manuseio deste instrumento.
Mestre Bimba dizia que “O pandeiro é o atabaque do capoeirista“.
Oberimbau é o instrumento-rei da capoeira, vez que somente o seu aparecimento na rodas de capoeira (antigamente citadas apenas como “ capoeira” pelo próprio Mestre Pastinha, algumas vezes referidas como “capoeira de Fulano de Tal“) é que marca o surgimento da capoeira como a reconhecemos atualmente, a capoeira da Bahia, seja o estilo “angola” seja o “regional”.
Torna-se portanto, indispensável ao bom desenvolvimento do jogo que seu toque predomine no ambiente, mantendo a uniformidade do ritmo e o entrosamento entre os parceiros duma “volta” ou “jogo”, sem o qual fatalmente existirão os desencontros e a violência.

TEXTOS CORRELATOS

ESTADO DE CONSCIÊNCIA MODIFICADO (TRANSE CAPOEIRANO)

 Sob a influência do campo energético desenvolvido pelo ritmo-melodia ijexá e pelo ritual da capoeira, o seu praticante alcança um estado modificado de consciência em que o SER se comporta como parte integrante do conjunto harmonioso em se encontra inserido naquele momento.
 O capoeirista deixando de perceber a si mesmo como individualidade consciente, fusionando-se ao ambiente em que se desenvolve o jogo de capoeira. Passando a agir como parte integrante do quadro ambiental em desenvolvimento. Procedendo como se conhecesse ou apercebesse simultaneamente passado, presente e futuro (tudo que ocorreu, ocorre e ocorrerá a seguir) e se ajustando natural, insensível e instantaneamente ao processo atual.
Decanio Filho, A. A. – in Fundamentos da capoeira (texto publicado em Capoeira da Bahia Online para download). 

BERIMBAU – A LIGAÇÏ ENTRE O MANIFESTO E O INVISÍVEL

O capoeirista para jogar capoeira não precisa de conhecer a história e a técnica da capoeira, por que o ritmo/melodia põe o ouvinte diretamente em sintonia com a “capoeira” abstrata, que abrange a fonte etérea dos movimentos, os paradigmas de jogos, os arquétipos de capoeiristas e talvez com a própria “tradição”. Por este motivo, poderemos aprender por ver, ouvir e dançar… como “Totônio de Maré” o fez no cais do porto de Salvador/BA.
“Itapoan” perguntou a “Maré” como aprendera capoeira e este respondeu:

“Vendo os outros jogarem. Gostei, entrei na roda e joguei!”

Conforme assisti em gravação VHS do acervo do Mestre Itapoan, em casa do mesmo.
E “Vovô Capoeira” fez o mesmo, aos 84 anos de idade, na roda de Mestre Canelão em Natal/RN.
Assim é que, aos poucos a conjugação da música com os movimentos relaxados vai orientando o capoeirista no caminho do transe que o conduzirá diretamente à fonte da capoeira, na face invisível da realidade, que não depende dos sentidos corpóreos.

COMPORTAMENTO HUMANO, VIBRAÇÃO SONORA E RITMO.

Em Ioga percebemos a importância dos mantras…
os gregos antigos atribuíram ao Logos o poder de organizar o Caos…
no Gênesis aprendemos a força do Verbo capaz de criar o Universo e a Vida…
… na África Antiga não foi diferente!

Os africanos ao divinizarem os seus ancestrais e cultua-los com ritmos e toques diferentes vinculados ou representativos de seus comportamentos, descobriram categorias fundamentais subjacentes ao nível de consciência, independentes de culturas e religiões, os arquétipos humanos, que denominaram de orixás.

O “SER” exposto às vibrações sonoras ritmadas oriundas dos atabaques entra em harmonia com as mesmas e passa a manifestar em movimentos rituais a sua consonância.
Tudo se passa como se o conteúdo musical dos toques de candomblé fosse aprofundando o nível vibracional do sistema nervoso central, especialmente do cérebro (tido como sede da consciência) e alcançando os níveis correspondentes ao arquétipo individual. Chegando a toldar a consciência e levando a um estado transicional em que o “SER” passa a manifestar, em movimentos rituais involuntários, atributos do arquétipo, através circuitos de reverberação medulo-espinhais como que gravados geneticamente na estrutura do seu sistema nervoso central.
Não é indispensável o conhecimento da doutrina e ritual do candomblé, bem como de componente genético africano para a sintonia com o ritmo do orixá correspondente, vez que já assistimos à chamada “incorporação” de entidades africanas em europeus em primeiro contacto com “exibição” de música de candomblé, portanto, fora do contexto religioso. Durante o tempo em que funcionei como “apresentador” do “show folclórico” de Mestre Bimba observei que alguns assistentes entravam em consonância ou harmonia com um determinado toque, não se deixando influenciar por outros, o que atribuí à correspondência orgânica ao arquétipo daquela pessoa, ao modo de categoria de comportamento em nível subconsciente.
Na capoeira, o ritmo ijexá, especialmente tocado pelo berimbau, conduz o ser humano a um nível vibratório, dos sistemas neuro-endócrino e motor, capaz de manifestar, de modo espontâneo e natural, padrões de comportamento representativos da personalidade de cada Ser em toda sua plenitude neuro-psico-cultural, integrando componentes genéticos, anatômicos, fisiológicos, culturais e experiências vivenciadas anteriormente, quiçá inclusive no momento.


Todos os capoeiristas conhecem o transe capoeirano, embora nem todos disto se apercebam, um estado de extrema euforia, e de integração ou acoplamento a outra ou outras personalidades participantes do mesmo evento, conduzindo a execução de atos acima da capacidade considerada como ‘normal”.

Trata-se dum estado transitório, em que não há perda total de consciência, porém existe uma liberação de movimentos reflexos, exaltação do potencial e ampliação do campo de influência vital de cada “SER”.
É interessante registrar que em outros membros da “família cultural da capoeira” (samba de roda, maculelê, afoxé, frevo, entre outros) encontramos estados transicionais assemelhados, em que os personagens ultrapassam suas limitações “normais”. De outro modo não assistiríamos a idosos desfilando em “escola de samba” ou saracoteando em frevo…
Assim cada capoeirista desenvolve um estilo pessoal, representativo do seu “EU”, manifestado de maneira imprevisível a cada jogo e a cada instante de cada jogo.

Consoante o arquétipo de cada praticante ou mestre, o momento histórico vivenciado, o contexto em que está se desenvolvendo, a capoeira pode assumir aspectos multifários, lúdicos, coreográficos, esportivos, competitivos, belicosos, educativos, corretivos, terapêuticos, etc.
Do mesmo modo e pelos mesmos motivos, cada tocador de berimbau manifesta a sua personalidade na afinação do instrumento, ritmo, andamento musical, impostação vocal e conteúdo do cântico.
Razões semelhantes criam a identidade de cada roda, a multiplicidade de estilos e impõe a alegria e a liberdade de criação como fundamentos da capoeira.

Por ser a própria Liberdade e a Felicidade de cada “SER” a capoeira não cabe, não pode ser enclausurada, em regulamentos e conceitos estanques, nem prisioneira de interesses mesquinhos, comerciais ou de outra natureza.
A capoeira oferece um gama infinito de representações motoras , comportamentais e musicais; de aplicações terapêuticas, pedagógicas, marciais e esportivas; além do aperfeiçoamento físico, mental e comportamental de cada praticante.
Cada um de nós cria uma capoeira pessoal, transitória e mutável, evolutiva, processual, como todos os valores humanos e poderá ser imitada, jamais reproduzida em clones, como produto industrial de fôrma, idêntico em todos detalhes.

É interessante o estudo do simbolismo dos constituintes da personalidade humana na arte iorubana que indica no mínimo a noção de níveis de consciência, pois entre os povos iorubanos a consciência (personalidade exterior) é representada pela coroa (ile ori), enquanto a personalidade íntima (ori inu) correspondente ao (subconsciente+inconsciente) é simbolizado pelo ibori, uma pequenasaliência no ponto mais alto da coroa.
Angelo A. Decanio Filhoo – Falando em capoeira, Coleção S. Salomão, CEPAC, Salvador/BA, pg: 51

https://portalcapoeira.com/downloads/transe-capoeirano

ORIGEM E PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA NA CAPOEIRA

 O estilo da capoeira depende principalmente, pela própria natureza deste jogo, do toque do berimbau, dos cânticos, do coro e do acompanhamento de palmas pela assistência, além do estado de espírito dos parceiros na roda.
No estado atual de evolução da regional o ritmo acelerado, o calor das palmas e do coro, obrigam os parceiros a um jogo extremamente rápido que não permite sequer o gingado correto, dificulta o golpe de vista, impede a execução do movimentos com segurança e a visualização do objetivo do ataque, não permitindo sequer as esquivas e defesas seguras.
A preocupação em “soltar os golpes” em detrimento das esquivas, do gingado e da sincronia com toque do berimbau vem deturpando os fundamentos do jogo de capoeira e gerando um estilo violento e potencialmente muito perigoso para os seus praticantes.
Além dos acidentes de maior ou menor gravidade durante a prática da regional, hoje infelizmente tão freqüentes, encontramos algumas falhas de caráter técnico associadas que tentaremos enumerar e discutir.

O afastamento excessivo entre os pés, o movimento de balanceio maciço do tronco e fuga para traz, impedem a distribuição do peso do corpo entre os dois pontos de apoio, impedindo os giros de cintura nas esquivas e descidas defensivas durante o gingado.
A falta dos movimentos de esquiva para baixo, negativa e cocorinha, possibilita o emprego dos movimentos de ataque de contra-ataque de membros superiores (socos. galopantes, asfixiantes, bochechos, telefone, etc.), mais fáceis e mais violentos, porém contrários à natureza e aos princípios éticos da capoeira.
A violência é decorrente da falta do gingado, da disposição mental para o ataque em lugar da predisposição à esquiva, subseqüentes ao ritmo excessivamente rápido dos toque de berimbau e predominância da atitude belicosa, levam a um jogo a extremamente agressivo, impedindo o floreio e as esquivas típicas da capoeira.
Dentre os movimentos de esquiva destacamos a falta da cocorinha, movimento muito apropriado para a prática da rasteira, outro elemento pouco encontradiço nos jogos atuais.

Um defeito que estamos observando na cocorinha é aquele do apoio nas pontas dos pés, em lugar do assentamento das suas plantas no solo, como recomendava Bimba, que além de melhor apoio, produz o alongamento dos músculos das panturrilhas melhorando a flexibilidade dos movimentos e a agilidade.
Outro defeito é a queda para traz durante a cocorinha, em queda de quatro ou movimento de aranha, sempre condenado pelo Mestre, que além de tornar os deslocamentos e esquivas lentos, expõe o peito e ventre indefesos aos ataques mais violentos do parceiro.
A defesa por bloqueio, adquirida do karatê e jiu-jitsu, em lugar da defensiva por esquiva acompanhando a direção do ataque e proteção do alvo pela mão em movimento, enrijece o corpo, diminui a agilidade, quebra o fluxo do jogo e propicia maior impacto ao receber o golpe traumático. O bloqueio reflete a falta de golpe de vista e do reflexo de esquiva característico do capoeirista, traduzindo deficiência do treinamento e antecipando a possibilidade de acidente mais grave.

O afastamento excessivo entre os parceiros do jogo de capoeira permite movimentos violentos, descontrolados, despropositados, inócuos, por não poderem atingir o alvo dada o distanciamento, porém que ao alcançarem acidentalmente pontos vitais do parceiro podem causar lesões graves ou morte.
Perdemos assim o caráter festivo da capoeira antiga e evoluímos (?) para estilo mórbido capaz de gerar a morte de parceiros que deviam estar irmanados por esporte tão belo e pacífico.
A propósito da prevenção dos acidentes e óbitos, devemos lembrar os conselhos encontrados em “A herança de Pastinha” (Decanio Filho, A. A. – Coleção S. Salomão 3) que transcrevemos a seguir:

1.4.21 – … “aprender municiosamente ás regras da capoeira”… 

“… todos aqueles que queira se dedicar a esse esporte, que como capoeirísta; quer como juiz? Deve procurar municiosamente ás regras da capoeira de angola”; para que possa falar ou dicidir com autoridade. Infelizmente grande parte de nossos capoeiristas tem conhecimento muito incompleto das regras da capoeira, pois é o controle do jogo que protege aqueles que o praticam para que não discambe exesso do vale tudo,”… (8a,15-23;8a,20-23;8b,1-2)

Pastinha sabiamente reitera…
… é indispensável o código de honra…
… a ser obedecido pelos capoeiristas…
… “é o controle do jogo”…
… pelo juiz… pelas regras… regulamentos…
… e pelo ritmo da orquestra…
… “que evita a violência e os acidentes”…
… vale a repetição!

1.4.22 – …”a capoeira vem amofinando-se”
… “e a capoeira vem amofinando-se quando no passado ela era violenta, muitos mestres, e outros nos chamavam atensão, quando não estava no ritimo, esplicava com decencia, e dava-nos educação dentro do esporte da capoeira, esta é arazão que todos que vieram do passado tem jogo de corpo e ritimo.”… (9a,1-9)

… continua a insistência na presença dum juiz…

… árbitro ou mestre de cerimônia …

… para acompanhar a evolução do jogo…

  • … advertir ou interromper a prática…
    • … ante manobras proibidas ou perigosas…
    • … desobediência ao ritmo do toque…
    • … ao cansaço do atleta…
  • … garantir a segurança física…
    • … dos praticantes…
    • … da assistência…
  • … assegurar a beleza do espetáculo…

1.4.38 – …”todos os capoeiristass são maus”… ?
…”todos os capoeiristas são maus para seus camaradas? Mais não são todos, sim, no meu Centro tenho, e como conheço muitos que são educado; e não procura irritar ao companheiro: sim, é porque o mestre não interessa a irritação, e o procura o jeito que favoresse a prendizagem, o quer aprender rapido, e não tem enfluensia.” (11b,6-13)

Na capoeira, como em todos os grupos sociais, encontramos os que semeiam a discórdia,
a violência. Alguns por falta de educação, outros por doença mental … ou espiritual?
Coitados!
A maioria da juventude é sempre boa, generosa… … não sofre as “influências” dos maus…
… disse o Mestre!

1.4.39 – …”Não é permitido”…

… “, por mestre nenhum, se ele mestre for conhecedor das regras da capoeira, não consentir jogar em roda, ou grupo sem fiscal, se não tem como pode ter controle, quem ajuda o campo? não pode entra em combate sem chegar sua vez. Todos os capoeiristas tem por dever obder <obedecer> as regras do seu esporte, cooperando para valorizar, porque, somos responsavel pelos erros, no causo de disputa, ou dezafio, procurar as autoridade é um juiz.” (11b,13-23; 12a,1)

A insistência do Velho Mestre, na obediência aos regulamentos e regras, na submissão ao árbitro, durante o desenrolar do jogo. Coibindo os abusos, frutos do entusiasmo, do calor da disputa, de diferenças pessoais, atinge aqui o seu ponto mais alto!

1.4.40 – …”Não deve ser aplicado”…

“Não deve ser aplicado <movimento proibido> e nem forçar o seu companheiro para obter recursos <vantagens> é erros gravissimo, esta sujeito o fiscal suspender o jogo.” (12a,1-4)

O reforço da autoridade do juiz, aqui chamado de fiscal, permite a interrupção do jogo para proteger a integridade física dos participantes.

…”é fau”!
disse o Mestre…

1.4.41 – …”É proibido no jogo”…

…”É proibido no jogo e prinsiparmente em baixo, fonsional <aplicar, usar, empregar> golpes, ou truque, não por, é fau.Os golpes que não pode ser fonsionado em Demonstração; golpes de pescoço”, dedo nos olhos,” cabeçada solta,” cabeçada presa,” meia lua baixa,” Balão a coitado,” rabo de arraia,” Tesoura fechada,” chibata de clacanhar,” chibata de peito de pé,” meia lua virada,” duas meia lua num lugar só,” pulo mortal,” virada no corpo com presa de calcanhar, presa de cintura,” Balão na boca da calça,” golpes de joelho e nem truques.” (12a,4-16)

Aqui está o rol dos golpes proibidos, especialmente em demonstrações ou jogos públicos, pelo risco do entusiasmo dos oponentes ou por tradição…

1.4.42 – …”é falta usar as mãos”…

“Todos os mestres tem por dever fazer ciente que é falta usar as mãos no seu adversario; se não fizer assim, não prova ser mestre, os que tem educação prova a sua decensia jogando com seu camarada e não procura conquista para enporcalhar seu companheiro, já é tempo de compreender, ajudar do seu esporte, é a judar a moralisar; levantar a capoeira, que já estava decrecendo.” (12b,1-10)

Aparece aqui a única diferença, entre os estilos de Bimba e Pastinha. Bimba ao criar um sistema de ensino da capoeira, instrumento de luta, abandonou a tradição de não usar golpes traumáticos de mão. Permissão estendida aos balões e projeções, bem aceitos, estimulados pela difusão das técnica orientaisno meio social em que pontificava.

1.4.31 – …”para valentia”…

“Não queiram a prender a capoeira para valentia, mais sim, para a defeza de sua intregridade fisica, pois um dia, pode ter necessidade de usa-la para sua defeza. Cuja defeza é contra a qualquer agressor, que venha-lhe ao encontro com navalha, faca, foice e outras armas.” (10b,17-23)
A defesa pessoal resulta dos reflexos desenvolvidos ao longo dos treinamentos diários, depende de tempo e persistência… como a sabedoria dos mais velhos, escondida sob o branco dos cabelos, surge não se sabe donde… nem como… e nos surpreende na hora certa!

… não se aprende com violência e descontrole…
… “a pressa é inimiga da perfeição”…

1.5.6 – …”a capoeira está dividida em trez parte”…

… “note bem, amigo… a capoeira está dividida em trez parte, a primeira é a comum, é esta que vêr ao publico, a segunda e a terceira, é rezervada no eu de quem aprendeu, e é rezervada com segredo, e depende de p tempo para aprender. a prova está no conhecimento da capoeira do passado, e do prezente, a do passado era violenta era violenta, para malandragem, e a de hoje, é como todos verem, rezevamos a mizeria, pela Democracia. nos queremos divirtimento. E tudo mas depende da raça, de quem aprende a capoeira; e a minha raça ja envelec.ceu, tambem sou tradicional, vivo na Historia da capoeira; e amo ela,”… (14b,8-23
As três faces da capoeira, aqui referidas são:

  • a manifestação exterior, o jogo.

Aparente, exposta a todos presentes, visível

  • nos treinos (mesmo nos chamados secretos)…
  • nas exibições…
  • nas demonstrações…

… a parte física… corporal… … Yin, diriam os orientais!

… as duas restantes são invisíveis, sutis, subjetivas..

… escondidas “no eu de quem aprendeu”… Yang na linguagem oriental!

… o inconsciente e o subconsciente capoeirano…

“istinto” nas palavras de Bimba…

… as partes secretas, rezervadas” disse Pastinha…

… e assim devem ser preservadas!.

Uma é mais superficial, psicomotora, os reflexos de defesa…… a manha… a malícia

A outra é mais profunda, filosófica, mística…a modificação do modo de viver…

… o Axé da Capoeira!
diria minha Ialorixá Konderenê!
… Taoista!… diria LaoTsé!

2.2.4 – …”destruir os falsos principios”…

“Eu nada aceito, que me venha destruir a teorias arquitetadas, é dever destruir os falsos principios que não constituiram ensinamento: …” (69a,6-10)

Sábia advertência, aos que procuram inovar sem respeitar as tradições, sem conhecer a razão dos rituais, sem conhecer a cultura dos povos que trouxeram os fundamentos musicais e místicos da capoeira. É indispensável estudar a evolução da capoeira, desde as tradições orais africanas preservadas em nossa cultura pelos seus descendentes até nossos dias, para resguardar o seu precioso valor!

2.2.5 – …”procure os bons mestres”…

“Todo ser sabio, procure os bons mestres, e va igualar a esse, porque não é aprendiz dos falso ensino; nào possuem em compensação a vaidade, nem orgulho, porque tudo que ele ensina; não é errado: eles tem experiença, e esta observando.” (69a,13-17)

Procurar bons mestres, para não aprender falsos princípios, nem servir de pasto ao orgulho e à vaidade dos falsos mestres!

Sábias palavras!
Capazes de impedir o retorno à barbaria do circo romano, dando a volta por cima do mundo que Deus quis fosse belo e amoroso, diria nosso Mestre Pastinha.
“Eu tirei a capoeira de baixo da pata do boi e vocês estão jogando fora de novo! Não foi para isso que eu criei a regional e deixei de herança para vocês!” – exclamaria nosso Mestre Bimba, triste e inconformado!

GINGANDO COM PESO

A prática dos movimentos de capoeira carregando halteres auxilia o desenvolvimento muscular, naturalmente com pesos adequados (permitindo os movimentos naturais a partir da cintura), como vemos Decanio procurando recuperar uma lesão dos ombros (atrofia dos músculos do ombro). Devemos lembrar o movimento é realizado no balanço do gingado, a partir da cintura e envolvendo todo a musculatura corpórea.

ENVELHECER…

Lembrar sempre que envelhecer é uma benção divina!
Para envelhecer é indispensável estar vivo.
Estar vivo é ótimo para saúde, diria Mestre Pastinha.
A única exigência para se jogar capoeira (regional naturalmente…) é estar vivo, dizia Mestre Bimba.
Feliz é quem não morre antes da velhice.
O envelhecimento é a trilha da sabedoria.
O amadurecimento do espirito e a clareza da mente acompanham o envelhecimento do corpo sadio.

A CAPOEIRA NA TERCEIRA IDADE

A pratica da capoeira,

  • pela multiplicidade de seus movimentos,
  • pela facilidade de ajustamento às condições pessoais de cada praticante,
  • pelas modificações mentais que acarreta,
  • pela integração entre os vários componentes do Ser,
  • por ser uma atividade fundamentalmente lúdica e portanto prazerosa,
  • por desenvolver uma estado transicional de consciência capaz de escapar aos bloqueios de natureza mental e às limitações físicas do praticante,
  • por se prestar a inúmeros níveis de carga de trabalho,

pode ser usada como método de manutenção da aptidão física, de capacitação ou de recuperação da aptidão física, correção de desgastes pela idade ou seqüela de complicações decorrentes de doenças próprias do envelhecimento.

Cumpre entretanto realçar que sua prática depende de avaliação prévia das condições orgâncas e funcionais do cadidato e acompanhamento médico adequado para impedir possíveis complicações por sobrecarga de esforço.

Preconceito

E-mail de Dani recebido em 28/10/2002
Formatação/editoriação AADF

Repassando…
Adorei essa crítica irônica ao eufemismo barato de chamar os pretos de "de cor". O que há de errado em ser preto, que faz com que queiramos evitar chamar alguém assim ? Evitar chamar alguém de preto delata que consideramos "ser preto" um defeito, uma característica ofensiva e por isso, deve-se evitar dizer para não "ofender"… Quanto preconceito! Só um detalhe que há muito tempo está preso na minha garganta que, para o bem de todos e felicidade geral da nação, eu vos informo:

Não existe RAÇA entre os seres humanos! Raça é uma especificação biológica para (e somente para) os animais irracionais. Ou seja, os humanos (nós homens) não se distinguem por raça. Não houve na espécie humana distinção histórica, geográfica, genética, temporal ou evolutiva que permitisse sua diferenciação em espécies. O que difere geneticamente um nórdico dinamarquês de um preto do Congo é tão insignificante que pode ser muito menor que a diferença entre  indivíduos de mesma cor.

A única distinção que se vê, em alguns casos, é a cultural. Normalmente, quando há um agrupamento espacial de indivíduos de mesma cor (ou outra característica qualquer) existe aí uma cultura específica que aglutina traços vários além da cor, como folclore, musicalidade, alimentação, língua,religião etc…

A esse "conjunto de características culturais e fenotípicas"(fenótipo=aparência física), damos o nome de ETNIA.

Portanto, se você quiser se referir a um preto ou a um branco ou a um amarelo, indígena, etc… se refira não à  raça, mas, se for o caso, à etnia.

Ex: "…no Brasil existe um conflito étnico…", etc…

É muito comum você ver o próprio movimento negro se referir a uma "valorização da RAÇA negra".

É uma pena que eles próprios estão se chamando de um suposto subgrupo biológico que não existe. Acabam sendo preconceituosos sem saber ou querer.

Da mesma forma o são quando dizem: "preto é cor, negro é raça"
… coitados, erram duas vezes! Essa frase é totalmente idiota.
Preto é cor, sim. Mas qual é a cor deles? Preta! Ora bolas!
Se um branco pode ser chamado de branco sem constrangimento,
por que o preto não pode?
E "negro" não é raça,

na melhor das hipóteses, é apenas uma das características, que somada a outras, forma uma etnia.

E no Brasil fica difícil de enxergar essa diferenciação, já que:

não há no nosso país uma distinção cultural significativa
que diferencie os brancos e pretos em etnias diferentes).

De forma geral, partilhamos todos uma mesma cultura, pelo que somos todos iguais.

Gente, isso é só uma dica, ok?

Ouçam se quiserem.

Abçs, Dani

Poema Africano
Meus caros irmãos
Quando nasci eu era negro
Agora cresci e sou negro
Quando tomo sol fico negro
Quando estou com frio fico negro
Quando tenho medo fico negro
Quando estou doente fico negro
Quando morrer ficarei negro
E você homem branco,
Quando nasce é rosa
Quando cresce fica branco
Quando toma sol fica vermelho
Quando sente frio fica roxo
Quando sente medo fica verde
Quando está doente fica amarelo
Quando morre fica cinza
E ainda tem a "cara de pau"
de me chamar de "homem de cor"?
TOMA VERGONHA!

O GAROTO DE JULIANE

A mensagem de Juliane é linda!

"Olá ! gostei muito da sua página, e gostaria de parabenizá-lo.
Gostaria também que você dissesse que em Juiz de Fora (MG) o grupo de capoeira Oficina da Capoeiragem está fazendo um ótimo trabalho com a capoeira, com direção do mestre Ray e do professor Kamuanga.
Gostaria também de dizer e mandar uma idéia para todos os outros capoeiristas:

" Ontem, dia 26/02/00, eu presenciei um exemplo de força de vontade para todos, principalmente os capoeiristas. Um garoto de cadeiras de rodas, com problemas mentais, entrando e jogando em um batizado.
Não levantava, não chutava, não dava au nem mortal, mas se protegia com a mão no rosto e quase não mexia os pés …
Bem, ele fez muita gente chorar quando disse:

"na capoeira ninguém pode ter preconceito
naquela roda não havia ninguém igual a ele,
mas também não tinha ninguém diferente."

E depois disso tudo que vi e vivi, mais vontade me deu de jogar e de um dia jogar uma "iuna" (roda para graduados). Sei que falta muito para mim, pois tenho 14 anos e estou na corda branca, mas um dia, eu sei, tenho fé em DEUS e em BIMBA, que irei conseguir.
Por favor fale ao menos do garoto, pois isso é verdade e uma lição de vida.

Juliane S. Machado ( da família de Bimba)
Juiz de Fora/ Minas Gerais
Oficina da Capoeira
[email protected]

Obrigada !!!!!"

demonstra nitidamente a euforia, o estado de felicidade plena que a prática da capoeira provoca em todos nós; a mudança do nível de consciência, o estado modificado de consciência que o ritmo-melodia ijexá provoca e que pode e deve ser usado como terapia.

Menina Juliana,
Deus lhe conserve
O dom de amar ao próximo
A humildade de ver em tudo o dedo do Senhor!
Você já nasceu capoeirista pela lei de Deus!
Um dia será formada pela lei dos Homens
Jogará sua "Iuna" na Roda da Vida
Com o aprumo da Mestra que mora em Você!

Axé Babá!

COMO POSSO ENCONTRAR A VERDADEIRA CAPOEIRA?

Mensagem Original
De: Juliana Chahoud
Para: [email protected],br
Enviada em: Sábado, 14 de Agosto de 1999, 23:03
Assunto: capoeira
Oi!! Sou estudante e capoeirista, sou apaixonada por esta arte e queria parabenizá-lo por sua página. Gosto muito da tradição da capoeira, o que está sendo muito raro encontrar ultimamente, por isso gostaria de pedir uma sugestão de como posso encontrar a verdadeira capoeira !!
Gostaria de saber sobre o que o Mestre Bimba dizia, e também se ainda é possível encontrar o disco dele.
Desde já agradeço e mais uma vez parabéns por resgatar a verdadeira capoeira ( quase chorei quando vi os manuscritos de Pastinha !).
Um abraço e Salve !
Juliana.

Juliana:
Grato pela msg.

A verdadeira capoeira de cada um de nós e
aquela que mora no corpo de cada qual.
Existem padrões éticos, técnicos
e musicais, porém a capoeira é
a manifestação comportamental
de cada ser
expressão maior da individualidade humana.

Só é capoeirista quem se liberou de todas as amarras culturais e bloqueios psicodinâmicos, inclusive dos mestres e deixa apenas a "capoeira" fluir livre e suavemente pelo próprio corpo, aparecendo nos seus movimentos e estado de espírito.

Os fundamentos estratégicos da capoeira são simples
música, esquiva, parceria e amor.

Sem dúvida alguma, o primado pertence ao amor…
Pela vida, pela capoeira, pela arte, pelo prazer de apenas "jogar" com a pureza e a inocência da eterna criança que existe escondida no coração de cada um de nós.

A postura comportamental de esquiva ao impacto de movimentos, simulados ou não, de ataque ou que envolvam perigo de qualquer natureza trás no bojo a segurança da sua prática, ao lado de reflexos inconscientes de preservação da integridade física e da vida, gerando um sistema de defesa pessoal "sui generais", "instintivo" nas palavras de Mestre Bimba.

A parceria é fundamental.

Sem o parceiro não se pode jogar, nem aprender, a capoeira.

Somente a presença do parceiro permite o desenvolvimento da autoconfianca na capacidade de improvisar os movimentos de esquiva ante a movimentos partidos doutro alguém cuja vontade e intenção não controlamos.
Para conhecermos os pensamentos e movimentos subsequentes de alguém precisamos deste alguém como parceiro-adversário.

A música é a própria essência, a raiz mística da capoeira. Responsável e guia do estado modificado de consciência do capoeirista, comanda a natureza e a dinâmica dos seus movimentos. Controla a agressividade, desfaz os bloqueios psico-dinâmicos e gera o prazer lúdico da sua prática.

A associação destas forças primárias comanda o ritual,
garante o cavalheirismo e esportividade do jogo da capoeira!
O mestre é apenas o maestro,
comanda o balé da vida que chamamos de capoeira!

Existe no mercado um CD "Curso de Capoeira Regional", reprodução digital do disco original de polivil de Bimba, com alguns defeitos técnicos.
Para seu treinamento pessoal recomendo o CD de Moraes "Capoeira Angola de Salvador", que uso para prática individual capoeira como ginástica aeróbica e manutenção da aptidão física.
As palavras de Bimba você encontrará em A HERANÇA DE MESTRE BIMBA
Os nossos comentários de trechos selecionados de Mestre Pastinha encontram-se em A herança de Pastinha.
"Falando em capoeira" encerra minhas observações pessoais, depoimentos, pesquisas, experiências e lições (que recebi de mestres, de capoeiristas e da vida) como médico e como criatura.
Axé!
Decanio.

O QUE É CONCEIÇÃO?

Pergunta de Jean Paulo:

< o que é conceicao? ouvi dizer que era uma prisao, queri mais informacoes, tudo que tiver muito obrigado jean paulo >

Resposta:
O "Engenho da Conceição" citado na quadra cantada no disco de Bimba era uma prisão denominada de Engenho da Conceição, onde eram recolhidos os desordeiros e condenados outros.
Tradicionalmente um lugar temido pelo povo e portanto, também pelos capoeiristas, que muitas vezes eram injustamente carreados para o seu interior, sem esquecer as tantas outras em a Justiça os encaminhou justa e merecidamente por bebedeiras e brigas.
Quando Bimba reporta

"o Mesti Qui m’insinô…
<tá nu> Ingenho da Cunceiçãum!
Só devu saúdi i obrigaçãum"

está apenas exaltando a valentia do seu mestre… sempre brigando, e de vez em quando freqüentemente?) recolhido no Engenho da Conceição… naturalmente. para esfriar a cabeça. Enquanto na última estrofe a gigantesca dívida dum aluno ao mestre: tudo que possui … "saúde" pela prática do esporte… "obrigação" divida que não se paga senão pela eterna gratidão – pelos ensinamentos orais (sabedoria), pelos movimentos da capoeira, defesa nas horas difíceis, esquiva e proteção ante os perigos, armadilhas e agressões nos caminhos e descaminhos desta vida aventurosa.
Desconheço a origem do nome, que provavelmente indica o local onde foi construído prédio.
Durante minha juventude algumas vezes fui jogar futebol com os presidiários e assim passei a conhecê-la "por dentro". Um prédio muito grande, lembrando um convento com suas celas de monges, cercado por muros muito altos, com uma grande área livre onde se localizava o campo de futebol.
Atualmente é o Manicômio Judiciário.

AGARRAMENTOS NA REGIONAL

Vanessa, Itabuna
 
seu e-mail
< Parabéns por este texto sobre os agarramentos!!! Vou levar para a academia e colocar no mural.
Acredito que as pessoas que se dizem capoeiristas e usam os agarramentos, na verdade não conhecem a Capoeira e suas técnicas e por esta falta utilizam outros recursos.
Muitos "mestres" dizem estar fazendo uma inovação na Capoeira colocando golpes (imobilizações) do jiu-jitsu e ainda têm a cara de pau de mencionar o nome do Mestre Bimba, dizendo que ele também introduziu golpes de outras lutas.
Na minha opinião, Mestre Bimba não deixou se perder as principais características do capoeira que é a agilidade, a destreza, a malícia… e nenhum destes que se dizem importante chegam aos pés da figura que foi o Mestre Bimba, pelo seu carisma, personalidade e inteligência que deu impulso à Capoeira.
Acredito que devemos manter a tradição e a criatividade pode ser usada dentro da roda, através da própria liberdade de expressão que a Capoeira permite, mas não para descaracterizar esta ARTE.
Axé, camará!
Vanessa Capoeira RAÇA (Itabuna/Ba) >
fez-me voltar 60 anos e lembrar palavras de Bimba a propósito de agarramento:

O verdadeiro capoeirista não se deixa agarrar…
sai de baixo… esquiva… foge… escapa…
Por que
quando solto… o capoeirista salta, desce, sai de au…
quando agarrado fica imóvel… indefeso… inerme…
solto o capoeirista salta… desce e arrasta… sai de au…
preso, imóvel, agarrado poderá ser esfaqueado…
estrangulado… chutado… apedrejado… baleado… estuprado… violentado…
Em resumo
BOBO É QUEM SE DEIXA AGARRAR…
E…
MAIS TOLO AINDA É QUEM AGARRA !