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Junho 2017

Vendo Artigos de: Junho , 2017

Regras e Tradições

Regras e Tradição

Capoeira é beleza, capoeira é tradição…capoeira tem fundamento, capoeira é vibração” A tradição é um conceito importante no mundo e discurso da capoeira; a gente fala por exemplo da tradição que tem que ser mantida e respeitada, a tradição das vertentes da capoeira Angola ou Regional, ou os rituais dentro da tradição.

Assim, a tradição é explicada como algo que tem que ser seguido, não só porque sempre foi assim, mas porque dá uma certa estrutura, que no fim – contrariamente – nos dá uma certa liberdade: de controle, de disciplina e de autoconhecimento por exemplo. E que deixa o jogo acontecer, como falei no último texto.

Então enquanto a gente se movimenta ‘dentro da tradição’, está tudo bem: dentro da tradição existe uma certa liberdade, mas porque a gente precisa da tradição, e porque seguir os deveres nela? Porque não podemos logo partir para a liberdade?

Na verdade, na filosofia e na psicologia existe a consciência de que uma liberdade absoluta não existe, e se existe, de fato não é a liberdade. A liberdade existe sempre ao lado de algo que a limita.[1] Sabem na psicologia que uma liberdade sem limites, por exemplo a liberdade de poder escolher tudo que se quer, leva a uma ansiedade. A criança que é criada sem nenhuma regra, depois tem muitas problemas de auto-controle, e de construir uma vida própria. A pedagogia consiste em ajudar a criança em crescer e se desenvolver, e isto é feito com a aprendizado de negociar com os limites.

 

Limites portanto, são deveres. E a tradição também tem seus deveres. Fiz um teste. Tenta fazer um ‘pesquisa de palavra’ num grande documento de músicas de capoeira, e conta quantas vezes a palavra ‘tradição’ e ‘regra’ aparecem: ‘tradição’ encontrei várias, ‘regra’ somente uma: “..Mas se ficar inventando regras vou chamar o meu advogado..”

A regra não parece fazer parte do discurso lírico da capoeira, e mesmo assim tem várias regras na capoeira, regras escritas e não-escritas. Muitas delas justificadas para ajudar a ‘manter a tradição’. Então como é que é isso?

Vários (as) mestres (as) que entrevistei, costumaram explicar a regra como algo imposto, que diz o que tu podes e não podes fazer. Enquanto à tradição é algo voluntária, onde você faz porque você quer; porque dá prazer e uma sensação de criar uma certa liberdade. Tudo bem, mas deveres são deveres, não é? Você pode ou não pode. E há varias regras que estão lá para respeitar a tradição, pelo menos segundo eles que defendem-lhes. Qual a diferença então?

De fato, a tradição está dentro de um sistema maior, que determina a cosmovisão do mundo. Enquanto a regra é norma, a tradição tem ‘regra’ também, mas a função dela na tradição é diferente; suporte a perspectiva da vida. Enquanto a regra como norma é para deixar funcionar um determinado sistema.

 

Quando a gente entra numa casa que não é a nossa, precisamos respeitar as regras da casa, igual como nas escolas de capoeira. Porque a gente sabe que quando nós não fazemos, isto cria confusão e é um sinal de desrespeito. A regra é então da casa, mas respeitar essas regras da casa, não é uma regra em si: é uma tradição, que cria uma sociedade mais agradável, onde todos tem o seu espaço. O que ajuda o nosso bem estar. Uma outra analogia será um explicação dado a mim uma vez assim: a tradição é ter berimbau na roda de capoeira, uma regra é ter 3.

 

Regras são introduzidas, inventadas às vezes, por uma escola ou vertente de capoeira, mas isto não automaticamente quer dizer que fazem parte da tradição da capoeira. Voltando para o exemplo do berimbau, a regra de ter três berimbaus na roda respeita e segue a tradição de ter berimbau na roda. O numero de três não fazia parte desta tradição, vendo que há vários exemplos de grupos e escolas de capoeira onde usava mais ou menos berimbaus, dependendo das possibilidades, necessidades e preferências. E todos sabem que mestre Bimba só usava um.

Mas quem sabe, talvez um dia 3 berimbaus será tradição. Porque como as regras são postas ou inventadas seguindo as necessidades e preferências de quem lhes faz, também a tradição não é algo fixa pela eternidade. Uma tradição também se evolui.

 

O filósofo Escocês MacIntyre nós explica que a tradição na verdade é um argumento estendido pelo tempo em que algumas concordâncias são definidas e redefinidas, pelos debates externos e internos.[2] Voltamos para o exemplo do berimbau, teve um época, no início do surgimento da capoeira, onde não havia berimbau quando a capoeira era jogada. Há vários documentos históricos para testemunhar esse fato. Mas, como várias outras manifestações da cultura afro-brasileira – como o batuque e o samba de roda – a execução é feita em roda, com música e dança, consistindo de diferentes instrumentos e canto. Ter musica na roda é então uma tradição até mais antiga, podemos dizer. Mas também podemos ver que o debate não termina nunca, vendo agora também o acrescentamento de surdo e triangulo (e antigamente o violão) nas rodas de capoeira.

Segundo MacIntyre, tratando-se de tradições rivais, o relativismo não seria uma perspectiva de assimilação ou diálogo entre estas tradições rivais.[3] Ou seja, pode-se acabar em rupturas absolutas, onde nenhum debate entre as duas tradições ou vertentes acontece mais. Podemos ver isto como um risco real entre as vertentes de capoeira Angola e regional ocorrido nós últimos 15-20 anos , que hoje em dia parece estar diminuído.

 

Um debate entre tradições é então muito mais profundo e com conseqüências maiores, de que um debate entre regras; muitas vezes o debate sobre regras é baseado somente em uma tradição.

 

As regras ‘universais’ da capoeira – que incluem tanto o uso de uniforme e/ou abada, graduações e títulos, etc. – foram introduzidas na tentativa de oficializar a capoeira numa época (1920), aonde a tendência era desenvolver o aspecto esportiva da capoeira, indo por lado de dô e a pratica no ringue.

Essa tendência aparece dentro um contexto, aonde a capoeira se depara com uma concorrência forte com as lutas Japoneses, o boxe e o savate na época, como o historiador Matthias Assunção nos conta.[4] Uma das conseqüências foi a luta regional Baiana, que mestre Bimba então criou; mas paralelo ao trabalho de mestre Bimba já existia várias outras tentativas de esportizar a capoeira. Com o apelo do governo nacionalista, houve uma tendência em reduzir a capoeira aos seus movimentos ofensivos e defensivos, eliminando aspectos ritualísticos e simbólicos (que é algo cultuado dentro a tradição), a sua musicalidade original e a prática e aprendizagem baseados na tradição oral. Gerando sistematizações, baseadas em regras e princípios oriundos de uma prática didática esportiva.

A gente conhece as críticas – justificadas ou não -, que depois surgiram contra a ‘militarização’ ou a ‘esportização’ da capoeira; regras que foram vistas como não características da capoeira, especialmente no âmbito da competição. Hoje podemos ver um desenvolvimento parecido no ‘empreendedorismo’ dentro a capoeira. Mas a idéia de ter regras na capoeira não foi atacada em si mesmo. Enquanto elas mantiverem a tradição, parece estar tudo bem.

 

Hoje em dia – talvez com o resultado das pesquisas e a realização de que ‘a união faz a força’ – haja uma maior realização de que no fundo a capoeira está inserida numa tradição cultural própria, que é baseada na tradição afro-brasileira. Uma tradição que as varias vertentes de capoeira partilham. Uma arte em que os praticantes segue uma tradição que – entre outras – cria um relacionamento com pessoas de uma outra forma que na sociedade diária; e assim dá mais liberdade aos praticantes de se movimentarem dentro desta sociedade. Uma tradição que tem deveres que são seguidos pela própria vontade e prazer, porque sentimos que nos faz bem. Cada casa tem regras que devem ser respeitados, segundo as tradições de nossa sociedade. Mas isto não quer dizer que estas regras definam a tradição da capoeira.

regul[1]


[1] Pode se explicar um pouco como a idéia que não existe o bem sem existir o mal, agora, depois há varias maneiras de ver o que é o ‘mal’; certo é que é um conceito moral, mas pode ser de uma falta de ação ou de negação, até uma ação grave, como matar ou manipular alguém.

[2] MacIntyre, A. (1988) Whose Justice? Which Rationality? Notre Dame, University of Notre Dame Press. P. 12

[3] Idem.

[4] Assunção, M. (2012) Ringue ou Academia? A emergência dos estilos modernosda capoeira e seu contexto global. No: História, Ciências, Saúde – Manguinhos. Rio de Janeiro. http://www.scielo.br/hcsm

Uma Roda de Capoeira à Francesa…!??

Uma Roda de Capoeira à Francesa…!??

No meu Caminho do Berimbau, a vida vai se desdobrando em grandes saltos, onde o aprendizado sobre nossa Arte vem o tempo todo em grandes e densas doses de surpresas e novos entendimentos dessa que parece ser uma Arte de infinitos saberes: a Capoeira!

Uma das ultimas e inusitadas paradas foi na pequena e linda Cidade de Albi, ao Sul da França, mais conhecida por sua imensa Catedral, feita há mais de trezentos anos, toda em tijolos de barro, uma obra surpreendente, sem dúvida. Fica a oitenta quilômetros de Toulouse, uma das grandes cidades francesas.

Nessa cidade fui surpreendido por uma incrível experiência, onde muitos conceitos em que acreditava se desmoronavam irremediavelmente…!

Até então, fui sempre acometido de um paradigma nacionalista e limitante (hoje admito!) de que a Capoeira depende de nossos obstinados, fortes e dedicados professores e mestres, que emprestam sua energia de maneira quase invisível aos olhos menos atentos, para que a Capoeira ande e se instale mundo afora, pelos quatro cantos do planeta!

Nunca alguém poderia lhes tirar esse mérito: o de serem os grandes protagonistas da expansão e da explosão que a capoeira teve nas últimas décadas, se incorporando aos mais estranhos e exóticos lugares e culturas do mundo!
É incrível, verdadeiramente, que possamos ter chegado tão longe!

Em outros artigos, já cheguei a comparar – e fiz essa afirmação perante a comunidade angolana de capoeiristas e escritores, que a Capoeira se tornou a Nova Diáspora da mensagem afro-brasileira pelo mundo, se incorporando aos costumes de comunidades instaladas em lugares inimagináveis, com temperaturas baixíssima, como na Noruega, ou na Finlândia, se tornando uma opção de povos que não conseguem – no primeiro momento – falar uma única palavra em Português – mas que vão se envolvendo de maneira irreversível às nossas palavras, nossos gestos, nossa História, numa simbiose impressionante, onde após algum tempo, não mais se reconhece as pessoas que originalmente se iniciaram na Capoeira e a incorporaram, tornando-a sua própria forma de vida.

Nesses recônditos lugares, quase sempre, até então, eu sempre via ou soube de um guerreiro e incansável capoeira, seja uma pessoa que já circula há longos anos, ou outros mais jovens, que se aventuraram pelo mundo, levando no coração uma missão, na mente uma ideologia e na alma um guerreiro sem medo de abandonar suas raízes e se atirar no desconhecido de outras culturas levando seu berimbau, sua Arte e sua vontade de levar as mensagens que aprendeu com seu mestre.

Conheci e a cada dia conheço inúmeros desses inveterados e obstinados guerreiros, mensageiros de nossa Capoeira. Sempre e com toda razão, cheios de orgulho de sua própria História de vida e do sucesso de seu trabalho e de sua missão.

Esses capoeiras são, com absoluta e irrefutável razão, os grandes responsáveis pelo fato de a Capoeira ter se espalhado como uma grande malha humana que une culturas e povos, elimina barreiras, supera dificuldades como idiomas, como limitações financeiras e se tornam, via de regra, grandes e consagrados representantes de nossa Capoeira por onde andam.

Após conhecer inúmeras realidades até aqui, sentia e via sempre associado ao sucesso da difusão da Capoeira, esses brasileiros mencionados, aos quais jamais será negado esse mérito.

Mas, como é um velho hábito dos pensadores, sempre acredito em perguntas mais do que em respostas…!
Por isso, me ocorreu uma grande questão: onde e como ficaria a nossa Capoeira, após sua assimilação profunda pelos nossos queridos estrangeiros? Será que eles teriam sempre a dependência de algum brasileiro que os mantivessem alinhados com nossos ideais e velhos rituais de roda?

Teriam eles a competência de organizar um evento de Capoeira sem perder nenhum dos inúmeros detalhes exigidos para tal, como seja: o lugar adequado; instrumentos afinados e suficientes; uma programação capaz de manter os participantes ocupados e animados com o evento; alegria e axé em volume e distribuição pelos três ou quatro dias que durasse o evento, etc.

E o mais difícil para nós, mesmo no Brasil ou mesmo na presença de muitos e diferentes mestres: fazer uma roda com a grandeza que esperamos dela…!?

Essa roda teria que ter muitos elementos para atender a tantos requisitos que nós, capoeiristas, nos acostumamos a medir: musicalidade, volume de jogos, nível vibracional, nível técnico, participação de todos os presentes, equilíbrio emocional – para segurar os ânimos quando alguém se exaltasse – e enfim, teria o axé que a sustentaria todo o tempo do evento!?

Quem não está acostumado a conviver com capoeiristas, não tem ideia da quantidade de critérios que eles trazem no seu alforje de especialista! Um capoeirista vê e distingue vários e distintos tons de jogo, os diferentes níveis técnicos dos participantes, o axé, como genericamente a gente se refere ao padrão de uma boa roda!

Mas esses são apenas os mais óbvios questionamentos de um bom Capoeira! Os Mestres tem outros tantos níveis de percepção das coisas e mesmo o grau de entrosamento dos participantes não lhe escapa aos olhos.
Enfim, ali estava um capoeirista com uma bagagem de mais de quarenta anos de estrada, em sua humilde tranquilidade de nunca exigir muito de ninguém, ou seja, não ser muito critico com as diversas realidades já conhecidas. Não tentar corrigir gratuitamente ninguém, ou interferir sem a devida vênia dos presentes, em nada que não fosse absolutamente necessário. Ouvir muito mais e falar muito pouco. As palavras são nosso maior risco. Um observador discreto e despretensioso.

Por costume e pelo pequeno aprendizado dessa vida, tenho a mania de chegar em terra alheia e me colocar bem longe de qualquer pretensão minha de julgar, ou seja, pisar sempre devagar!

Além de ter aprendido também que em casa alheia, como o que me derem, como já ouvi muitos sábios dizerem, na voz corrente da sabedoria e da ciência de vida, ensinada pela Capoeira.

Uma primeira e agradável surpresa, foi a infinita gentileza com que as pessoas me cercaram nessa Petit Ville, como dizem os franceses. Eu recebi tanta atenção e tanto acolhimento por todos que tive o meu coração invadido por uma gratidão extrema! Logicamente isso veio acompanhado da minha grande vontade de também ser generoso e de me doar totalmente àquelas pessoas, aquele povo simples, sem opulências, sem nenhum traço exterior de riqueza material… Apenas aqueles abraços e aqueles olhos me enterneciam de um sentimento de grande emoção e de uma gratidão imensa.

 

Começa o evento…! 

 

É noite de sexta-feira e será feita uma roda de recepção apenas, para as boas vindas aos participantes, como é de praxe nos eventos. Muita gente chegando e a festa começa a ganhar seu tom…! Cada novo participante que chegava trazia sempre um sorriso… e oferecia um forte abraço aos que ali já estavam.

Começa a roda, inicio do entrosamento e preparação para os três dias que se seguiriam. A roda teve bons momentos e uma energia tranquila e equilibrada.

Para aquele primeiro momento era mais que o suficiente. Muita gente ainda chegaria no dia seguinte, pessoas que trabalhavam ou tinham outros compromissos.

Até a manhã de sábado as coisas estavam ainda mornas, como é costume em todo evento. Seguir os passos do aquecimento. A revelação dos talentos, até então contidos na expectativa de um clima que os liberte, assim como dizia sempre o Mestre Decânio, da segunda turma da Capoeira Regional de Mestre Bimba, esperar para que o transe capoeirano possa acontecer em cada um.

Não havia um plano muito rígido a ser seguido, explicava o promotor do evento, denominado WEC2k17, ou seja, Week-end Capoeira 2017, um simples fim de semana prolongado.

No sábado as coisas já foram mais animadas e, como todo bom evento, as pessoas foram se entrosando enquanto o dia corria, entre um treino, uma aula, um lanche, e o normal entrosamento cada vez mais sólido.
Então tudo seguiu seu rumo como tradicionalmente acontece no andar dos eventos.
Até então tudo pareceu seguir o mais tradicional andamento da maioria dos eventos que já estive (aproximadamente uns setecentos, nos meus quarenta e tal anos de estrada).

As rodas começaram a me chamar a atenção.

Ficava curioso com a ideia de que ali não havia outro brasileiro que não a minha pessoa.
Então comecei a prestar mais atenção ao que acontecia durante o andamento das rodas que iam acontecendo durante aquele evento, que contou com mais de uma centena de pessoas, sendo todos eles aculturados na língua francesa e a grande maioria de nacionalidade também francesa.

Como é uma roda com tanta gente, onde não há nenhum capoeirista brasileiro?

Até que ponto eu estaria vendo uma manifestação verdadeira e inquestionável da nossa Velha Arte, da Capoeira?
Aquelas pessoas teriam o domínio de todos os elementos que compõem, no minimo, uma roda?

O ritmo cresceria ao ponto de exigir um grande esforço para manutenção do equilíbrio daquela energia que pulsava no acelerar do ritmo do berimbau na execução do São Bento Grande, de Angola?

Aqueles capoeiristas, teriam o domínio da energia da roda suficiente para segurar os ânimos quando alguém se perdesse no axé da roda e quisesse se confrontar?
Não. Ninguém tinha ideia de que tudo aquilo se passava pela minha cabeça…! Nem eu!
Não estava julgando ninguém…!

Essas perguntas me ocorreram agora, enquanto escrevo o que vi, me lembrando o máximo possível dos detalhes.
Tais perguntos, eventualmente, poderia ser feitas por quem, diante de alguma incredulidade, tentasse julgar todo aquele movimento dos cidadãos franceses para com a capoeira…!

Alguns, certamente, com a intenção de emitir algum tom de crítica ao que aconteceu ali!
Nós, os brasileiros em geral e os capoeiristas em particular, temos uma vocação horrível de falar sempre só a parte ruim das coisas!!

Aquele clima, aquelas pessoas,aquela experiencia, não teria nada que ver de ruim!
Nada pode ser mais importante do que a parte boa das coisas. Eu acredito nisso.
Não só por isso, as impressões que ficaram em mim foram maravilhosas!

Aquelas Capoeiristas todos, vivendo de uma maneira integra e completa para e da Capoeira, uma das nossas mais importantes culturas populares dos últimos tempos, que tem nos transportado para nos tornar uma cultura da humanidade, como decretou a própria Unesco… Esse momento poderia ser uma boa hora para se perceber o porque dessa aclamação.

Por que a Capoeira se tornou um Patrimônio Cultural da Humanidade!?

Por que todos esses anos de sua história ela não foi devidamente desvinculada de nossa cultura popular brasileira, então?!

Mal podemos imaginar que seria possível uma unica roda acontecer sem a presença de um capoeirista brasileiro para coordenar as coisas fazer acontecer o clima que esperamos de uma roda!!
Muitos de nós mantem estrangeiros cativos de sua presença, intimidando-os para não tenham competência própria para se organizar e crescer…!

Mas a Capoeira é Mágica!
Ela chega onde é chamada!
Dialoga com qualquer realidade!

Se os franceses não tem os nossos problemas para justificar algumas coisas que fazermos acontecer através da Capoeira, como reintegrar socialmente pessoas, ajudar pessoas de comunidades pobres,, tornando a Nossa Arte uma das esperanças que essas pessoas precisam, para dar sentido a suas vidas!

Ou se nós temos hoje uma quantidade tão grande de mestres e de graduados na capoeira, que os eventos são praticamente feitos  para eles!

Desde há muitos anos, tenho falado na pirâmide social da capoeira, no Brasil pelo menos, onde a maioria dos presentes são mestres ou graduados.. onde isso cria uma estranha competição entre tantas pessoas importantes naquele momento, naquela roda!

Por isso muitas disputas acontecem. Muitas vezes em desequilibro emocional visível.
Mas não se trata da ausência de alguém para ensinar!!!

Se trata de dizer até mesmo que esses capoeiristas tiveram excelentes professores e mestres!!
Alguns já bem antigos na prática da Capoeira se tornam naturalmente os lideres daquele evento, destacando-se os indiscutíveis méritos do organizador daquele evento, o Furrupa, uma pessoa que merece um capitulo a parte, que vamos tratar mais abaixo.

Estou falando de um grupo de capoeiristas mais antigos que ali estavam, todos eles empenhados e dando o seu melhor, para que a Capoeira estivesse à altura de qualquer outra roda no Brasil… ou em qualquer outro lugar!
O evento, como qualquer outro, teria que ter uma sustentação de capoeiristas mais graduados. Essa foi uma das coisas mais incríveis que presenciei:
– espontaneamente, as pessoas foram se envolvendo e os mais graduados, independente o titulo que tivessem – professor, monitor, instrutor, etc;
– os papéis existentes numa roda de Capoeira, normalmente representados por uma única pessoa, que coordena e cobra as ações que deem suporte ao momento, são inúmeras, pois a Capoeira é uma cultura coletiva, inclusiva e integrativa…! todo mundo vai ocupando seus lugares em volta da roda, dentro dela, fora dela, jogando ou simplesmente fazendo o coro para que outras pessoas possam jogar, alguém precisa preparar os instrumentos, outros precisam cuidar da retaguarda, outros da limpeza, da administração, dos microfones, do lanche, do almoço, etc… são infinitas pessoas que cuidam de tudo que é necessário para que aconteça uma boa roda, um bom evento.

Ali eu presenciei todos esses papéis acontecerem sem nenhum comando aparente…!

O organizador do evento, Furrupa, parecia mais um grande incentivador do clima todo e da alegria ali reinante, além, é claro de usufruir bastante também naquelas rodas todas que aconteceram!

Sua parceira e também capoeirista, conhecida como Cha-Chá, era uma das forças invisíveis que operava o milagre de todo aquele evento!

Ela era discreta e efetiva! Trazia sempre alguma solução debaixo do braço e não parecia perder nada do que acontecia, ou seja, as rodas as aulas, os números que foram preparados e depois apresentados e que encantaram a todos os presentes, inclusive me tocando profundamente… era uma grande presença… suave e constante! Acordando super cedo para ir buscar pessoas que chegavam… organizando espaços para acomodar todos os convidados… fazendo compras e organizando as refeições dos participantes…!

Outros destaques só foram percebidos, porque fiquei o tempo que pude como observador, depois que me dediquei a resgatar da memória todas essas perspectivas que aqui coloco.

Capoeira de corpo e alma, que joga vivendo e vive gingando

Os capoeiristas, em geral, são apaixonados por essa Arte e se dedicam a ela longos anos de sua vida, alguns a sua vida todas. Isso pode ser verificado com inúmeros casos de mestres que entregaram sua vida à prática e a divulgação da capoeira, além de muitas outras formas de sua produção, como músicas, textos, instrumentos, palestras, livros e, principalmente, ensinar outras pessoas.

No entanto, existem pessoas que, mais do que amar, se tornam a si mesmos, a própria Capoeira!
Essas pessoas são tão estritamente associadas à capoeira, que transformam suas vidas em uma dedicação extensiva à Capoeira. Pessoalmente conheço muitas pessoas assim e admiro profundamente a capacidade de se doar a própria vida para aprender e serem porta-vozes da Capoeira. Essa arte parece cativar de modo irremediável incríveis personalidades, fortes, criativas, dedicadas, disciplinadas, expressivas, artistas, poetas, pensadores, estudiosos, enfim, pessoas que entregam toda sua energia vital a essa Arte.
E elas não recuam diante de dificuldades… nem restrições… nem competições… nem falta de apoio… nem nada…!!!
Essas pessoas ampliam ainda mais o seu carisma, quando impregnadas da capoeira em seu corpo e em sua alma!
No Brasil existem muitos capoeiristas assim!

O que foi uma grande e grata surpresa foi encontrar pessoas com essa personalidade capoeirista tão absolutamente destacada, cidadãos não brasileiros, que falam corretamente o idioma, dominam a arte, se entregam sua vida a aprender e a divulgar a Capoeira…!

Encontrei diversas dessas pessoas durante esse tempo na França!

Quero deixar registrado aqui o nome de alguns deles, me perdoem os que eu não mencionar, o que se dá exclusivamente pela limitação da minha memória…!!

Entre eles quero destacar:
Furrupa, um capoeirista de corpo e alma! Grande responsável pelo evento e que se tornou o pivô de toda a grandiosidade do mesmo! Gratidão e reconhecimento! Furrupa dedica sua vida totalmente à capoeira! Tornou-se Capoeirista independente desde quando percebeu que estava limitado em sua necessidade de crescer e de se integrar com outros movimentos e outras escolas de capoeira. É pilhado ao extremo e tem uma hiperatividade visível! Tem uma veia critica e criativa e não admite erros básicos como o desrespeito aos alunos, assédio ou outras formas de macular a Capoeira, como uma Arte de Família, de todas as idades. Furrupa é super produtivo e tem diversas atividades dentro da Capoeira, como dar aulas, criar músicas, manter um programa na internet, um vídeo-blog onde ele debate abertamente, em francês, as questões da capoeira que ele percebe e que vive (ver link abaixo).
Ferrugem: um grande capoeirista, grande pessoa e que tem um dom em particular o de manter o equilíbrio das energias na roda… Toda vez que um pequeno desequilíbrio começava a se formar, o Ferrugem rapidamente comprava o jogo, impedindo a evolução para um problema maior! Grande pessoa, bem-humorado e gente boa!
Porco-Espinho: capoeirista sério, com um grande domínio do ritmo e do axé da roda, sempre que pegava o berimbau fazia as coisas ganharem novo fôlego na roda. Excelente capoeira. Longos anos de aprendizado.
Mestre Bem-ti-vi: Um dos primeiros mestres estrangeiros que conheço! Tem um português perfeito, ao ponto de eu perguntar se ele era brasileiro! Um dos maiores exemplos que o Bem-ti-vi deu durante o evento, foi se manter tranquilamente, exatamente como eu, sem interferir nas coisas! Essa atitude é difícil de se ver, pois quase sempre nossos graduados tentam dominar as coisas e se tornarem os grandes responsáveis pelos eventos!
Medusa – um capoeirista excelente, de uma presença forte e segura, que foi muito presente nas rodas, nas aulas e que apresenta uma grande e natural liderança por onde chega e onde anda!
Esses e outros tantos que ali estavam mantiveram uma incrível atmosfera durante todo o evento e me pareceram muito próximos entre eles!

Alunos e participantes do WEC2k17: todos merecem o meu aplauso, mas escolhi alguns dos momentos foram emocionantes durante o evento! Um deles estou compartilhando o link abaixo, quando as capoeiristas apresentaram um lindo teatro da capoeira no contexto da escravidão no Rio de Janeiro e depois fizeram uma linda interpretação de músicas de capoeira usando um violoncelo, um teclado e um acordeon! simplesmente sensacional! Confiram no link!

Conclusão…

Após tantas percepções aqui registradas, posso afirmar que a Capoeira cumpre seu papel onde ela chega! Destaco, novamente, o papel das pessoas que ensinaram essas pessoas foi cumprido! Eles transpiram capoeira da maneira mais nobre, mais fiel, mais entusiasmada, mais dedicada e mais contagiante!
Posso perceber que uma roda à Francesa, é uma roda de capoeira de valor!

Posso ainda, para finalizar, me apropriando da percepção de meu amigo Mestre Jean, com quem comentei esse texto, que os franceses encontraram uma saída á francesa para os problemas que enfrentamos na capoeira no Brasil! Gente graduada demais disputando as rodas, os comandos, os jogos, onde os egos se multiplicam e competem entre si para ver quem fica mais em evidência, pois nossos camaradas da França fazem o melhor de dois mundos: tem uma capoeira excepcional, um clima amigável e rico, ao tempo em que eleva o axé até onde podem, se que haja nenhum desequilíbrio por animosidades desnecessárias!
Obrigado pela oportunidade, amigo Furrupa!

Obrigado galera presente no WEC2k17, foi uma honra estar presente num momento tão lindo desses para a nossa Arte…!

À tout à l’heur, France!

Reginaldo Silveira Costa – Mestre Skisyto

https://www.facebook.com/mestre.squisito

 

Veja também: Nosso Encontro Évora 2017 – Presença do Mestre Skisyto confirmada

Uma Roda de Capoeira à Francesa...!?? Geral Portal Capoeira

Cadu e as histórias de Bantu

Cadu e as histórias de Bantu, é fruto de um longo período de pesquisa e escrita e já foi adotado por várias escolas. Esse livro fala sobre nossas raízes afro-brasileiras.

A história começa num vilarejo do Sul da Bahia, onde os ventos atlânticos trazem o cheiro do mar impregnado de lembranças da África…

 

Alexandra Barcellos, autora de oito livros do gênero infanto-juvenil é professora de literatura em Curitiba.

 

E-book – Cadu e as histórias de Bantu

E-book sobre a história de um menino que cresce num vilarejo do Sul da Bahia. Sua família tem uma pequena fábrica de berimbau: atividade que é passada há gerações de pais para filhos e que não é só um negócio, mas uma forma para manter as tradições familiares vivas.

Cadu cresce nesse ambiente, e vive o seu vilarejo como se ele fosse um lugar mágico, até que grandes eventos começam a transformá-lo.

 

Mais:

E-book afro-brasileiro sobre nossas raízes.

Alexandra Barcellos é professora de literatura e autora de diversos livros de temática ambientalista.

alexandra-barcellos@hotmail.com

Nota de Falecimento: Mestre Boinha

Nota de Falecimento: Mestre Boinha

 

Mestre Boinha – Boaventura Batista Sampaio.

 

DISCÍPULO DE MESTRE BIMBA, DEFENSOR DA IDEOLOGIA DA CAPOEIRA REGIONAL E GRANDE CAPOEIRISTA.

 

Sobre Mestre Bimba:

“Mestre Bimba para mim é um pai. É um pai porque ele não foi para mim somente um mestre de capoeira, um educador e um orientador.”

 

[…] quando cheguei lá na Academia no início da década de sessenta para aprender Capoeira, não foi para adestrar o meu corpo, fui aprender pra brigar, meu objetivo na Capoeira era brigar, mas chegando lá em poucos meses, eu vi que era completamente diferente, eu queria aprender algo que não condizia com as normas de Bimba, percebi que estava fora das normas, então o mestre, um dia ao terminar a aula falou. Todo mundo pode ir, Boinha você fica sentado naquele banco. Os colegas saíram intrigados com aquela atitude do mestre. Então o mestre me passou um sabão, me deu um puxão de orelha, dizendo que a Capoeira era para educar e não simplesmente agressão.

 

 

Nossos mais sinceros pêsames a toda a família e a todos os “Filhos de Bimba”.

 

Texto do site Capoeira da Bahia de Mestre Decanio:

Nota de Falecimento: Mestre Boinha Geral Portal Capoeira

O capoeirista ao gingar deve estar relaxado! Para estar relaxado deve estar calmo. Para estar calmo deve estar confiante em si. Para confiar não pode ter medo. Para não ter medo necessita confiar no parceiro e em si mesmo. Para confiar no parceiro deverá obedecer ao ritual e aos preceitos de ética implicitos no jogo da capoeira da Bahia!
As fotos acima exibem a tranqüilidade e o prazer de Boinha, já na terceira idade jogando capoeira com um antigo parceiro.

Observem a foto de conjunto e os detalhes do contexto… tudo é alegria e prazer… o resto é lucro!
A capoeira-jogo pode e deve ser praticada na terceira idade para a manutenção da vitalidade e da alegria de viver!

FOTO-ANÁLISE – GINGADO Decanio e Boinha

Nota de Falecimento: Mestre Boinha Capoeira Notícias - Atualidades Portal Capoeira

Museu Itinerante Balaio da Capoeira

Museu Itinerante Balaio da Capoeira

Velho ônibus escolar roda pelo Brasil divulgando a arte marcial brasileira criada pelos escravos

Pilotado por Mestre 90, o museu itinerante tem até navalha de Cintura Fina

 
Nesta grande roda da capoeiragem… neste mundo de meu Deus… cada qual é como cada qual… assim é Mestre 90 e seu #balaiodacapoeira!!!

 

No começo dos anos 1970, época de sua fabricação, ele fazia a linha Centro-Carrefour Contagem. Na década seguinte, passou a servir ao transporte escolar e circulava pelos bairros da Região Oeste de Belo Horizonte – Grajaú, Gutierrez e Barroca. Por volta de 2003, assumiu função inusitada: virou museu, viajando para vários cantos de Minas Gerais e para fora do estado. Estamos falando de um ônibus Mercedes-Benz de 1972 – apelido “Dino”, alusão aos dinossauros. “Com mais de 40 anos, ele roda que é uma beleza. Tudo é original de fábrica. Precisa ver que maravilha é o motor”, celebra o proprietário do “balaio”, Rudney Ribeiro Carias, de 61 anos, o Mestre 90, um dos ícones da capoeira em Minas Gerais.

Capoeirista desde menino, ao longo dos anos Mestre 90 foi acumulando não só conhecimento, mas milhares de objetos relacionados à arte, que mistura esporte, luta, dança, cultura popular, música e brincadeira. “A maioria de nós só se preocupava em jogar. Eu não. Jogava e guardava qualquer coisa ligada à capoeira, porque sempre fui muito organizado. Daí a ideia de criar um museu. Hoje, tenho cerca de 4 mil itens no meu acervo. O interessante é que fui criando a consciência nas pessoas de guardar coisas ligadas a essa manifestação. Muitos dos meus companheiros fornecem material para o museu”, ressalta.

O acervo conta com livros, revistas, quadros, fotos, discos, berimbaus e outros instrumentos, além de armas usadas nas rodas. Uma delas é a navalha que pertenceu ao travesti Cintura Fina, mito da zona boêmia de Belo Horizonte nos anos 1950. Ficou famoso pelas brigas, era temido pela destreza com que manejava a navalha, sempre amarrada a um cordão. “Ele foi muito valente, mas a gente não tem provas de que foi capoeirista. Porém, o Cintura faz parte da história das rodas e das lutas da cidade”, explica Mestre 90.

Depois de se aposentar como motorista, ele decidiu aproveitar o veículo escolar com o qual ganhava a vida para preservar a história da capoeira. “Já que as pessoas não vão muito a museu, decidi levar o museu até elas. Nunca ganhei nada com a capoeira. Pelo contrário: sempre gastei muito (risos). Mas não me arrependo e daí a ideia de criar esse espaço”, destaca Mestre 90, que conta com a colaboração dos mestres Gaio, Luiz Amarante (Mineiro) e Toninho Cavalieri.

Sempre que é convidado para algum evento, o capoeirista leva o ônibus. Quando o “busão” chega, vira festa. “Ele é uma grande novidade. As pessoas, sobretudo a criançada, ficam fascinadas. O comentário que mais ouço é: nossa, não sabia que a capoeira tinha tanta coisa e tanta história”, repara.

 

 

A divulgação da iniciativa tem apoio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Em 2012, a pedido dos mestres, o historiador, documentarista e videomaker Daniel Porto elaborou o projeto Museu Itinerante Balaio da Capoeira, contemplado no Programa Nacional do Patrimônio Imaterial (PNPI). Daniel participa da Rede Catitu Cultural, associação em defesa de artistas e mestres populares voltada para conhecimentos tradicionais e étnicos.

“Recebemos recursos para fazer toda a catalogação e identificação do material, realizamos um documentário e agora aguardamos para reformar o ônibus e inaugurá-lo oficialmente junto ao Iphan. Vai deixar de ser o ônibus do 90 e se transformar num museu de verdade, com sustentabilidade. Vai sair por aí visitando escolas e instituições, cair na estrada mesmo. A expectativa é de que isso ocorra este ano”, afirma Daniel Porto. O Iphan informa que tem interesse em concretizar a iniciativa e aguarda alguns trâmites burocráticos para viabilizá-la. Porém, não há data definida.

Museu Itinerante Balaio da Capoeira Cidadania Curiosidades Portal Capoeira 1

“Mestre 90 fez algo fantástico. Se você não contar a sua própria história e a história do seu grupo, ninguém vai contá-la. Se você não se organizar para resguardar sua memória, ninguém fará isso. Daí a importância de um projeto como este”, conclui Daniel Porto.

MUSEU DA CAPOEIRA
Visitas agendadas e informações: (31) 99997-69473.

 

Carta para um jovem negro e capoeirista assassinado na Amadora

Carta para um jovem negro e capoeirista assassinado na Amadora

Lenine Sanches nasceu em Cabo Verde e veio para Portugal aos nove anos de idade. Tal como muitos jovens oriundos de famílias africanas, a sua vida não era fácil, marcada por intempéries e dificuldades. Foi por volta de 2010 que o conheci num projeto social na freguesia de Caneças, no concelho de Odivelas, onde ele atuava como dinamizador junto ao projeto Távola Redonda, em conjunto com outros jovens de origem africana. O projeto social Távola Redonda foi criado em parceria com instituições locais para desenvolver atividades lúdicas e culturais junto aos jovens do bairro. Lenine fazia parte de um grupo de jovens que já praticava capoeira, mas que na altura não possuía professor. As aulas aconteciam na Casa da Cultura de Caneças e no dia em que o vi pela primeira vez, ele estava na aula que, por falta de professor, era dada por um dos jovens que tinha um pouco mais de experiência. Aceitámos conduzir as classes de capoeira em regime voluntário, realizando uma parceria entre o projeto Távola e a nossa Associação Ginga Brasil capoeira.

Na nossa associação, Lenine atuava junto a um vasto grupo de amigos de origem africana com quem tinha fortes laços de amizade, privava e dividia o dia-a-dia de um entusiasta da capoeira. Para muitos deles, a capoeira era a felicidade das suas vidas, uma saída para a diversão, o lazer de que eram privados como pobres e negros e, porque não dizer mesmo, uma saída profissional. Nos trabalhos da associação alguns já atuavam em breves atividades remuneradas, remuneração que, sendo pouca, poderia significar ter o que comer num dia difícil.

Em 2010 a associação Ginga Brasil organizou o 1.º Encontro Gingando pela Cidadania que constava de um intercâmbio de jovens entre dois países, Portugal e Estónia. Foi possível aos jovens estonianos e africanos participarem numa série de atividades em Portugal e na Estónia que envolviam a música, a dança, a construção de instrumentos e a prática da capoeira. Em 2011 a Associação Lusofonia, Cultura e Cidadania lançou, em parceria com a Associação Ginga Brasil e o projeto Távola Redonda, o projeto Diferentes Origens, Uma Cidadania, no âmbito do programa Juventude em Ação. Lenine, bem como os seus companheiros, eram ativos participantes e envolvidos em todas as atividades e projetos da associação.

Lenine Sanches, “o Laranjinha”, como era carinhosamente chamado por todos, era um dos nossos, do “gangue” da capoeira. Era alegre, divertido, prestativo e cheio de vida. Era pai de uma criança de tenra idade, fruto de uma relação que mantinha com uma jovem do bairro e com quem tinha grande proximidade, como pai, companheiro e provedor das parcas condições financeiras que ajudavam a sustentar a criança.

Na entrevista que conduzi junto ao seu grupo de amigos, todos afirmaram ter tido problemas com as forças policiais e sentiam-se, por vezes, inconformados com as relações sociais desiguais das quais eram vítimas pela sua condição racial e social. No seu depoimento sobre o racismo e a intolerância, “o Laranjinha” utilizou as seguintes palavras para definir o que sentia sobre o assunto:

“Quando nos discriminam, sentimo-nos em baixo, mas temos de mostrar que não somos inferiores a eles. Mas às vezes, ao mostrar que somos iguais, há negros que partem para a violência. Acho errado, por vezes acontecem coisas que não deviam acontecer.”

Ao reler o seu depoimento, dei comigo a pensar que ele não faria ideia de que seria vítima da intolerância que concebia como incorreta.

Há algum tempo, ele tinha sido condenado a trabalhos comunitários por ter sido apanhado sem passe nos transportes públicos de Lisboa. Ficou designado pelo juiz que trabalharia num campo de futebol junto à escola em que foi assassinado e era isso que estava a fazer, quando foi confrontado com a disputa litigiosa entre grupos de indivíduos com quem nada tinha a ver. Não é possível afirmar que a tal contenda era um acerto de contas de gangues, como publicitou a imprensa. O julgamento é precipitado e incorreto até, uma vez que faltam informações que atestem o facto. Consta que Lenine, que estava a trabalhar no momento, sentindo o perigo que o rodeava, correu em direção à escola. Como era negro, tal como os demais, acabou por ser confundido e esfaqueado pelos seus próprios pares de cor.

No dia de sua morte, ao terminar o trabalho comunitário que lhe foi atribuído, ele dormiria na casa de um dos diretores da nossa associação para que, no dia seguinte, tomasse parte numa ação educativa junto a crianças. “O Laranjinha” tinha um dom especial no trato com os alunos e crianças, uma alegria inata, natural e honesta, razão pela qual era sempre chamado a cooperar na lida educativa do quotidiano da Associação Ginga Brasil.

O que me entristece, como capoeirista e imigrante, é saber como a sua condição de negro e imigrante o inseria, à partida, num grupo de alto risco – seja pelos seus algozes, também negros, que lhe retiraram a vida, seja pela polícia ou pela imprensa que o classificou, sem o menor escrúpulo, como membro de um gangue. Para mim, ele é tão vítima quanto os que o mataram, todos em busca de um espaço na urbe lisboeta que os rejeita, como seres humanos e cidadãos negros. Para a imprensa portuguesa, bem como para a maioria dos que viram os telejornais, ele era mais um tipo de cor, revoltado e marginal que talvez até fizesse por merecer o triste fim.

Entretanto, acalenta-me saber e dizer que ele era um de nós, capoeirista, e isso fez grande diferença na sua vida, na sua existência, na sua educação e na sua consciência como negro. Para quem não conhece a capoeira como prática social, cultural e desportiva, isso fará pouco sentido, mas para nós é o que anima as nossas almas, o nosso viver em sociedade.

Dentro de uma semana o nosso “Laranjinha” receberia uma nova graduação, dada no âmbito de um evento anual realizado pela nossa associação. Faremos esse ritual simbólico, para o lembrar e para recordar que a capoeira é também a luta em favor do oprimido. Ele estará nos nossos corações e memórias sempre que o berimbau tocar numa roda de capoeira na velha Lisboa.

 

Sorocaba: o historiador, Carlos Carvalho Cavalheiro, lança o livro “Notas para a História da Capoeira em Sorocaba”

Sorocaba: o historiador, Carlos Carvalho Cavalheiro, lança o livro “Notas para a História da Capoeira em Sorocaba”

Carlos Carvalho Cavalheiro: ‘Notas para a História da Capoeira em Sorocaba’

O livro foi contemplado pelo Edital PROAC (Programa de Ação Cultural), da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.

Sorocaba: o historiador, Carlos Carvalho Cavalheiro, lança o livro "Notas para a História da Capoeira em Sorocaba" Eventos - Agenda Portal Capoeira 1

 

O livro “Notas para a História da Capoeira em Sorocaba (1850 – 1930)”, de autoria do escritor e historiador Carlos Carvalho Cavalheiro foi lançado no dia 10 de junho (sábado), às 15h, na Biblioteca Infantil de Sorocaba.

 

Resultado de quase 20 anos de pesquisa, a obra trata do desenvolvimento da luta capoeira numa cidade do interior de São Paulo. O ineditismo da pesquisa serviu de base para outros pesquisadores, como Pedro Cunha que publicou sua dissertação de Mestrado, “Capoeiras e valentões”, no ano de 2015.

 

Esse mesmo pesquisador escreveu o prefácio para Cavalheiro, evidenciando que seu livro “consolida um trabalho pioneiro”, iniciado em fins da década de 1990, e que seus estudos “vem inspirando diversos outros pesquisadores como eu a romperem o silêncio da historiografia da capoeira”.

 

Já o apresentador do livro, o escritor e pesquisador André Luiz Lacé Lopes, deixa em evidência que “Mais do que consagrar de vez um espaço para Sorocaba no Mundo da Capoeira, Cavalheiro, talvez até de modo inconsciente, faz com que o seu livro, em princípio concentrado no período de 1850/1930, ajude a entender ainda mais o Brasil de todas as épocas, inclusive o Brasil de hoje”.

 

 Estudo inovador

 

 Ao iniciar as suas pesquisas sobre a capoeira paulista, em 1998, Carlos Carvalho Cavalheiro inaugurou uma linha de pesquisa inovadora, saindo do eixo tradicional do Rio-Bahia-Pernambuco, e concentrando-se não apenas no território da Província e depois Estado de São Paulo, mas, sobretudo, procurando os vestígios dessa arte/luta da capoeira em Sorocaba, cidade interiorana.

 

Com isso, Cavalheiro trouxe aspectos do cotidiano da cidade, cujo contexto explica melhor a existência da capoeira na cidade. As fontes consultadas pelo historiador demonstram uma cidade sulcada pelas relações tensas entre grupos sociais, cujo ápice se dá na emissão de leis (Posturas Municipais) que procuravam coibir as práticas populares, acima de tudo afro-brasileiras, das quais a capoeira é uma das expressões máximas.
“Mais importante que provar a sua existência nos séculos passados é entender o porquê da capoeira ter existido em Sorocaba naqueles idos”, comenta o historiador.

 

O livro de Carlos Carvalho Cavalheiro, “Notas para a História da Capoeira em Sorocaba” foi contemplado pelo edital do PROAC (Programa de Ação Cultural), da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. O fato de ter sido contemplado por esse importante programa de incentivo à cultura define, de certa forma, a importância da obra para o entendimento da história da capoeira, tanto em Sorocaba como para o Estado de São Paulo. Foram impressos 1000 (mil) exemplares da obra, que deverá ter parte doada para diversas bibliotecas e, ainda, outra parte disponibilizada para venda a interessados no assunto. O projeto foi apresentado ao PROAC pela Editora Crearte, a qual editou o livro. Com 270 páginas, repletas de informações e ilustrações, a obra será comercializada a preço abaixo de mercado, por R$ 20,00. A ideia é tornar o livro mais acessível ao grande público.

 

O autor

 

Carlos Carvalho Cavalheiro nasceu em maio de 1972, em São Paulo. Residente em Sorocaba, o autor é professor de História na cidade de Porto Feliz, trabalhando na EMEF. Coronel Esmédio.
Autor de mais de duas dezenas de livros, Cavalheiro tem publicado obras que tratam da História e da Cultura Popular regionais, mas também obras de ficção. Mestre em Educação pela UFSCar, é ainda graduado em História, em Pedagogia e Bacharel em Teologia.
Possui ainda Especialização em Gestão Ambiental e em Metodologia do Ensino de História. É colunista dos jornais “Tribuna das Monções” e “Jornal ROL”.

 

Fonte: Jornal Rol.

Praça Nelson Mandela tem aula grátis de capoeira para crianças

Praça Nelson Mandela tem aula grátis de capoeira para crianças

Iniciativa é um desdobramento do movimento ‘Ocupa Praça Nelson Mandela’, promovido pela Associação de Moradores e Amigos de Botafogo

RIO — As crianças que forem à Praça Nelson Mandela, em Botafogo, quarta-feira, entre 17h e 17h30m, poderão participar de uma aula gratuita de capoeira. A atividade usará o método “Brincadeira de Angola”, criado pelo Mestre Ferradura, com ênfase na aprendizagem significativa através de brincadeiras.

A iniciativa é um desdobramento do movimento “Ocupa Praça Nelson Mandela”, promovido no início de maio pela Associação de Moradores e Amigos de Botafogo (Amab) com o objetivo de cobrar reforços na segurança da praça e, ao mesmo tempo, iniciar um processo de revitalização da área.

De acordo com números do Instituto de Segurança Pública (ISP), o número de roubos a transeuntes disparou no intervalo de um ano na área da 10ª DP, que abrange os bairros de Botafogo, Humaitá e Urca. Em março deste ano, foram registradas 88 ocorrências, contra 30 no mesmo período de 2016, o que representa uma alarmante alta de 193%. Em relação a fevereiro de 2017, mês em que foram registrados 40 roubos a transeuntes, o crescimento desse tipo de crime foi de 120%.

 

ver também:

  • CAPOEIRA ANGOLA EM BOTAFOGO – AULAS PARA INICIANTES

 

Fonte: O Globo

Berlin – Integração e muita capoeiragem

Berlin – Integração e muita capoeiragem

Como sempre, esta complexa e multicultural capital Europeia, proporciona experiências únicas… Reencontrar amigos… Sentir os sons, saborear as cores… Digerir o ímpar e prolixo emaranhado sócio cultural… Berlin sempre Berlin!

Terra de muita vadiação… terra das diversas tribos… terra de capoeira, candomblé, afoxé e muito axé!!!

No meio de tanta pluralidade Berlin se destaca pelo vasto leque de opções pela sua ofegante e prolixa disritimia do CAOS… por suas rodas movidas por pernas… e pelas pernas movidas por rodas…

Mestre Saulo, que já reside em Berlin há mais de 30 anos foi o criador de um conceito de evento de capoeira que só poderia vir de dentro deste ser humano ímpar… o NOSSO ENCONTRO, por seu formato único e informal, inspirou até o mestre Umoi a “importar” o formato para Portugal, na cidade de Évora.

Agora quem segura o leme do Encontro em Berlin, é o meu grande amigo e parceiro Mestre Bailarino, que deu nova roupagem e um novo nome: INTEGRAÇÃO BERLIN.

Fica aqui algumas imagens e momentos do encontro…

Bichinho da Roda

Na capoeira temos de ter aquele bichinho… Aquele que tem fome de jogo… Aquele que se alimenta da energia da Vadiação… As vezes temos de ter a ousadia de pedir aqueles que admiramos, por tudo aquilo que já fizeram e ainda irão fazer para e pela capoeiragem, um simples: “Mestre me dá a honra de dar um pulinho”… As vezes é mais do que suficiente para que esse mesmo bichinho seja alimentado da forma intensa e verdadeira… Obrigado Mestre Bocka Bocka, Capoeira Angonal, pela capoeira eu poder jogar…

 

 

Roda de encerramento do evento. Contramestre Milani, Professor Fungui, Professor Dackour, Professor Caranguejo, Chino. #capoeira #capoeiragem #naestrada #berlin #roda #rodaboa