Capítulo 2 – Atratores Estranhos
03 Dez 2014

Capítulo 2 – Atratores Estranhos

CAPOEIRISTAS PULP FICTION TROPICAL   Nestor Capoeira capítulo 2     ATRATORES ESTRANHOS Falei da “desordem cósmica”. Será que, aqui, eu deveria

03 Dez 2014

CAPOEIRISTAS

PULP FICTION TROPICAL

 

Nestor Capoeira

capítulo 2

 

 

ATRATORES ESTRANHOS

Falei da “desordem cósmica”.

Será que, aqui, eu deveria falar dos Atratores Estranhos dos Estados Caóticos?

Não, não se trata de filme de ficção científica; trata-se da Teoria do Caos, um importante desdobramento da Física moderna; algo mais ou menos da mesma ordem da Teoria da Relatividade ou da Física Quântica.

A Teoria do Caos não se propõe à explicar o Caos, como poderíamos pensar. A Teoria do Caos estuda e explica os Estados Caóticos, ou Sistemas Caóticos, que são aqueles que, regidos por leis (como os demais), são frutos de tantas variaveis que, no passado, pensávamos que eram regidos pela Sorte, pela Chance, pela vaidade dos Deuses, ou pelo Caos Total.

Um exemplo de um Sistema Caótico são as espirais de fumaça que saem da ponta em brasa de um baseado: como conseguir as equações matemáticas para prever todas as circum-evoluções daquele fumacê?

Outro Sistema Caótico seria, por exemplo, o namôro e a paixão entre dois adolescentes.

Na verdade, a Teoria do Caos é um afastamento da Física dos 1800s, regida pela Aritmética, Geometria, Álgebra; coisas que ainda faziam sentido para o nosso “senso comum”; onde a entropia era a “medida da desorganização”.

Este ponto de vista, da entropia, já tinha derrubado a anterior Teoria de Newton – a Lei da Ação e Reação, etc. -, que não definia a irreversibilidade (e assim, em teoria, uma chícara que cai no chão poderia voltar, inteira, para cima da mesa).  Mas, apesar da evolução em relação a Newton, a entropia não conseguia mais resolver certos problemas que foram pintando nos 1900s e então surgiram outras loucuras científica e, entre elas, a Teoria do Caos com seus atratores estranhos.

 

ABRINDO SUA PRÓPRIA ACADEMIA

Vamos sair do mundo da Física, para o mundo do dia-a-dia. Especificamente para o meu mundo que gira, em grande parte, em torno da capoeira.

Poderíamos pensar, por exemplo, que estes atratores estranhos dos estados caóticos (que são forças estranhas que existem na natureza) poderiam atuar, atraindo os jovens professores de capoeira para um determinado e específico tipo de ação: abandonar seu mestre, e abrir a sua própria academia.

Isto, evidentemente, é um desgaste para a academia de origem.

Mas este desgaste, esta “desorganização local” – como ensina a Teoria do Caos -, propicia uma “organização geral”. Uma nova “organização geral” que, muitas vezes, é mais forte e mais completa que a organização anterior.

Ou seja: o mestre perdeu um aluno, ou um professor graduado; mas o universo da capoeira ganhou mais uma academia com uma ideologia e praxis diferente. E sabemos que a diversidade (tão em moda nos nossos dias, após a “descoberta” da Ecologia pelo Sistema) é um fator essencial à evolução, e à própria sobrevivência dos humanos no Planeta Terra.

 

ORGANISANDO O GERAL

Os atratores estranhos dos estados caóticos são estruturas dissipativas; mas o que dissipa as energias também é vida.

O modelo de equilíbrio não vigora absoluto.

O ser vivo e o clima não tendem ao equilíbrio.

Não se trata de imaginar uma coisa linear, de pequenos desgastes que levam, finalmente à morte; que é o pensamento “normal” do “senso comum”. Trata-se de outra coisa: de pequenas “desorganizações locais” que organizam o geral.

Os atratores estranhos dos estados caóticos são (algo misterioso) que, justamente, agenciam estas pequenas “desorganizações locais”.

Parece papo de doidão chapado?

Talvez.

Mas é (sem duplo sentido) baseado em “papos” como este que foi possível desenvolver a tecnologia para colocar o homem na lua; para construir os computadores e telefones celulares e ipads e ipods que o sr. e a sra. e a simpaticíssima srta. tanto apreciam.

 

VIVENDO A VIDA ALHEIA

Mas, deixa isto pra lá e vamos voltar ao roteiro.

O que interessa ao Encantado é a possibilidade de “acessar” aquele humano, e pegar carona na vivência da vida daquela pessoa.

Evidentemente isto aumenta o Axé, a força vital, e o poder daquele humano; mas aquele humano pode não ter (uma total e clara) consciência da presença do Encantado.

Voces devem ter notado que o nome deste segundo capítulo é O Mão de Faca.

Quem será este Mão de Faca?

O Mão de Faca é, justamente, um destes Encantados aos quais nos referíamos.

Um Encantado da mais Alta Hierarquia.

Um destes Encantados que, de tempos em tempos, sentia saudades dos prazeres e paradoxos da vida material no planeta Terra.

 

NOIVO-DA-VIDA

 

Meu nome é Noivo-da-Vida,

com a vida é meu compromisso;

Não me prende parede,

não me amarra feitiço.

 

Vou onde a vida me leva;

vou onde a vida levar;

Meu nome é Noivo-da-Vida,

sou filho de Oxalá.

(Nestor Capoeira, 2014; CD A balada de Noivo-da-Vida e Veneno-da-Madrugada)

 

 

 

SUAVE NA NAVE

Noivo-da-Vida acordou lentamente tipo suave na nave.

Não abriu imediatamente os olhos; sentia-se maravilhosamente bem, quase eufórico, e ficou curtindo aquela região morna e macia entre o sono e a vigília.

Uma brisa matinal acariciava seu rosto e a pele do corpo, uma luminosidade difusa ocasionalmente atravessava suas pálpebras, ouvia o múrmurio de água corrente e o alegre e animado gorjeio de pássaros.

“Deve ser começo de primavera”, pensou preguiçosamente.

Entreabiu lentamente os olhos sem se mexer, sem nem mesmo espreguiçar, e ficou ligeiramente confuso: não se lembrava daqule lençol verde brilhante que forrava sua cama.

Focou o olhar – “uma formiga?” -; não, várias formigas em teimosa e atarefada labuta.

Franziu o cenho e levantou o corpo parcialmente.

Para sua surpresa, estava deitado no gramado do que parecia a bucólica e arborisada praça de uma pequena e pacata cidade interiorana; passáros chilreavam e pulavam de galho em galho nas árvores que filtravam a suave luz matinal do sol; uma fonte esguichava jatos de água através bocas de leões de uma velha estátua de bronze; e numa coisa Noivo estava certo – era realmente o começo da primavera.

 

TUDO QUE É SÓLIDO SE DESMANCHA NO AR

Queixo-me às rosas;

que bobagem, as rosas não falam.

As rosas simplesmente exalam

o perfume que roubam de ti.

(Cartola, As rosas não falam)

Aí, Noivo viu a garrafa de cachaça caída na grama; quase ao alcance da mão; quase vazia.

Não era à toa que se sentia tão bem e eufórico: ainda estava bêbado do dia anterior. A brutal ressaca só ia pintar lá pelo fim da manhã.

Num repente lembrou de tudo; os meses que perambulava sem rumo, enlouquecido, sem saber onde estava nem como ali tinha chegado.

Noivo lembrou-se da perda de sua visão, o desmoronar dos alucinados planos que tinham orientado e sustentado sua vida durante os últimos anos, a despedida de Veneno-da-Madrugada e Toninho Ventania.

O reencontro com Ingrid no Planalto Central perto de Brasília, os meses de amor e paixão.

E então, o vazio, a desilusão, e a ferida que não cicatrizava.

Ingrid.

 

LUTANDO CONTRA O DESTINO

“… e vi longe, adiante no tempo

que, com seus vales e colinas,

cambiante,

ondulava à minha frente.”

(Noivo-da-Vida)

Noivo, adolescente, tinha lutado contra seu destino:

“Quero ser apenas mais um; mais um capoeirista solto no mundo e na vida”.

Mas um dia, em Amsterdam, na época em que ele e Veneno e Toninho Ventania andavam fugindo do Dr. Turíbio e seus asseclas, Noivo teve mais um surto de clarividência – desta vez, uma visão tão clara e definitiva que não tinha jeito de voltar atrás.

“O lance todo está podre”, Noivo explicava, naquela época, à Toninho Ventania sob o olhar irônico e cínico de Veneno – que chamava Noivo de “nosso Mao Tse Tung de araque”.

“Você não viu o lance dos hippies  em Woodstock nos USA?”, perguntava Noivo.

“Voce não estava lá em Paris em maio de 68?”, e dava um sorrizinho misterioso, talvez lembrando-se de alguma estrepolia cometida no confronto com os gendarmes.

“Pois vai pintar um novo lance que vai botar os 1960s no chinelo; a gente vai apenas dar uma forcinha, aparar umas arestas”.

E aí, Noivo começou a criar seu exército de “teleguiados”.

Uns 20 jovens e promissores capoeiristas, bancados por Noivo para abrir academia e dar aulas nas 20 favelas mais punk do Rio. Tudo bancado com a grana que Noivo ganhava – sem fazer fôrça – na roleta, nas cartas, no Jockey, e eventualmente até na loteria (sua visão estava, cada dia, mais poderosa).

“Quem é que vai desconfiar de umas academiazinhas mambembes de subúrbio? E, daqui a 30 anos, quando o fruto estiver maduro e o bicho pegar, nós estaremos prontos.”

 

30 ANOS

Dentro de 10 anos, cada um dos 20 “teleguiados” já teria formado, no mínimo, 5 novos professores – seriam 120 caras na área.

Mais 10 anos: cada um dos 120 formando mais 5 professores – 720 malucos dando aula.

Ainda mais 10 anos, na época em que “chegasse o momento”, mais de 3.500 professores, cada um com uns 15 a 20 alunos cada – uns 50.000 jovens empolgados, com o corpo trabalhado na capoeira, e a cabeça feita pela malícia do Jogo e pelas ideias utópicas e alucinadas de Noivo-da-Vida.

Naquele momento final, Noivo e Veneno já estariam com uns 60 de idade, e Toninho com uns 50.

Mas, 60 anos para quem vive a capoeira diariamente, dia-a-dia, ano-a-ano, não é a mesma coisa dos 60 de um cara relativamente sedentário. Basta lembrar da forma física dos mestres Bimba e Pastinha aos 60; e, mais recentemente, Leopoldina que, aos 72, jogava com 4 ou 5 jovens, um atrás do outro, e dava show de bola na rapaziada; ou então do atual mestre Acordeon que em 2013, aos 69 de idade, saiu de bicicleta de San Francisco, na California, e um ano depois chegou a Salvador, na Bahia, Brasil.

 

SAPATINHO

“O único problema é querer por pra quebrar antes do tempo”, pontificava nosso Mao tropical.

“Temos de agir no sapatinho: todas as coisas e fatos e pessoas estão interligados no Tempo e na tapeçaria do devir. Por isso não  podemos fazer lances bruscos, radicais, no presente… pois certamente isto iria alterar o cenário do futuro”.

Dessa maneira, Noivo tambem explicava porque sempre acertava na roleta – “preto dezessete!” -, e no jogo de cartas – “valete de ouros!” -; mas, por outro lado, acertava menos nos cavalos, e menos ainda na loteria ou no Jogo do Bicho.

Noivo via um resultado. Mas entre o ver, e o apostar, e finalmente acontecer o lance – roleta, carta, corrida de cavalo, loteria -, rolava um tempo. Este intervalo de tempo, na roleta e nas cartas, era pequeno. Mas na loteria, por exemplo, passavam alguns dias entre comprar o bilhete e o sorteio; e nestes “alguns dias” rolavam  eventos e aconteciam fatos que se concretizam no presente, alterando toda a estrutura do porvir, uma vez que estava tudo interconectado.

Então o negócio, segundo Noivo, era “fazer tudo no sapatinho”; lentamente e sem dar bandeira. Nem os “teleguiados” mais chegados podiam saber dos alucinados planos do nosso Ghandi brasileiro.

Os “teleguiados” deveriam pensar que “éramos apenas mais um Grupo de Capoeira; um grupo de sucesso, e em expansão”, sob o inspirado e competente comando de Noivo e Veneno, e tambem do jovem Toninho Ventania.

 

TRES LONGOS GOLES

Mas o Tempo é foda, meu amigo; e as coisas não se passaram como Noivo tinha previsto

Agora, alguns anos depois, separado de seus camarás, perdida a sua  visão clarividente, desiludido e ferido por seu grande amor – Ingrid -; Noivo, sentado na grama da pracinha no suave sol da manha de primavera, esvaziou a garrafa de cachaça em três longos goles.

 

FLASH BACK

Noivo recordou, em lampejos de flah-back, o rosto rude e violento de um homem que lhe falava de algo do qual ele não tinha a mínima ideia – “… por bem ou por mal, sabendo ou não, tu vai me pagar essa grana”.

Quando teria acontecido?

Ontem?

Um mês atrás?

Noivo lembrava que estava completamente embriagado e, alem de tudo, tinha acabado de fumar um grosso baseado. E aí deu um branco.

Um daqueles brancos que acontecem quando o cara está completamente alcoolisado de cachaça e chapadão de maconha.

Noivo recordou que, quando voltou à realidade, havia o tal estranho à sua frente; violento, gritando “tu vai me pagar essa porra dessa grana”.

Noivo tinha saído do ar – alguns segundos? minutos? horas? -; mas o Tempo não parou. E, ao que tudo indicava, as coisas tinham rolado indiferentes à presença ou ausência de Noivo no mundo real.

Noivo lembrou-se de um brilho selvagem nos olhos do estranho; e. então, sua visão voltou num breve lampejo e Noivo previu o futuro imediato.

Noivo viu, junto com o brilho nos olhos do estranho, um brilho da faca. Noivo viu, a si mesmo, descendo rápido na rasteira, a queda do inimigo; Noivo num , perfeito todo aberto, contornando o corpo que rola no chão; uma banda na mão do homem que tentava se levantar, mais uma queda; uma violenta calcanheira por baixo do queixo, o estranho caindo desmaiado.

Praticamente em seguido à visão, as coisas aconteceram igualzinho, como se fossem um dejá vu.

Finda a ação, Noivo olhou ao redor:

“Mais alguem, ‘por bem ou por mal’?”

As pessoas afastaram-se temerosas, mas com olhar de espantada admiração.

Seria difícil alguem que tivesse conhecido o elegante e cool Noivo-da-Vida, tempos atrás, reconhece-lo nesta sua nova persona de Dr.Jekyl e Mr. Hyde; brutal, arrogante, o olhar ensandecido. 

Mais um branco.

Noivo ia e vinha, saindo e voltando da realidade, apesar de seu corpo continuar a agir.

Uma maçaroca de notas de dinheiro na mão de Noivo; o estranho continuava caído no chão, mas com os bolsos das calças revirados para fora.

Noivo olha novamente ao redor, as pessoas afastavam-se mais um pouco, mas agora com um olhar de reprovação – “algum problema?” -, e a pequena plateia vai se dispersando.

Quando tinha sido isto?

Semanas atrás, ou ontem?

 

DE VOLTA `A PRACINHA

Noivo, sentado na pracinha, relembra os eventos; sua mente está confusa.

Um grupo de quatro ou cinco colegiais passa do outro lado da rua e, ao verem Noivo com a garrafa, apressam o passo, cochicham entre si, dão risadinhas, e desviam o olhar.

“Qual é? Vão cuidar de suas vidas! É isso aí! Vão correndo pra não chegar atrasadinhos na bosta do colégio!”.

 

Noivo aremessa com raiva a garrafa que se espatifa numa árvore, levanta-se, atravessa a praça e se embrenha numa rua onde algumas lojas ainda estão abrindo as portas.

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