Capítulo 5 – Noivo da Vida
21 Fev 2015

Capítulo 5 – Noivo da Vida

CAPOEIRISTAS PULP FICTION TROPICAL   Nestor Capoeira capítulo 5   Finalzinho do capítlo 4 Nos 20 anos seguintes, até a morte do

21 Fev 2015

CAPOEIRISTAS

PULP FICTION TROPICAL

 

Nestor Capoeira

capítulo 5

 

Finalzinho do capítlo 4

Nos 20 anos seguintes, até a morte do Senador em circunstâncias um tanto misteriosas – murmurava-se: “queima de arquivo” -, Piu-piu e Bule viveram vida de Príncipe. 

Fim do cap. 4

  

NOIVO-DA-VIDA

 

Eu cresci na malandragem, tirei meu diploma no asfalto.
Da cobra conheço o bote, da onça conheço o salto,
do tamanduá o abraço, do escorpião a peçonha;
Dos homens, a mesquinhez e a maldade medonha.

Meu nome é Noivo-da-Vida, mas na roda da brincadeira
do Jogo de Capoeira, meu apelido é Liberdade.
E já tarda demais o amanhecer.

(Nestor Capoeira, 2014; CD A balada de Noivo-da-Vida e Veneno-da-Madrugada)

 

O MENDIGO NO ESPELHO

Noivo aremessou com raiva a garrafa que se espatifou numa árvore. Levantou-se, atravessou a praça e se embrenhou numa rua onde algumas lojas ainda estavam abrindo as portas.

Ia murmurando frases imcomprensiveis; e então lembrou-se:

“A maçaroca de notas…”

Noivo enfiou as mãos nos bolsos e, satisfeito, achou as notas amarfanhadas.

Entrou num botequin, os clientes espalhavam-se pelas mesas tomando o café da manhã.

Noivo bateu com a mão espalmada de dinheiro no balcão de alumínio.

“Ô mané, vê uma cachaça. Capricha na dose.”

“Teu dinheiro aqui não vale nada. Não tem nada de cachaça pra mendigo bebum e safado.”

Mendigo?

Noivo surpreso olhou o espelho atrás do balconista do outro lado do balcão. Constatou que, realmente, havia um mendigo imundo – a barba de meses; a roupa suja e esmolambada em pedaços, mal cobrindo o corpo.

Mas o que é que ele, Noivo-da;Vida, ttinha a ver com isso?

Noivo se virou já exorcizando – “sai fora…” -; mas não há ninguem ali . Noivo ve com asco que o mendigo é a sua própria imagem refletida no espelho.

“É isso mesmo”, diz o gordo e parrudo dono do bar, “sai fora. Vai curtir a tua cachaça em outro lugar antes que eu te arrebente a cabeça”. E puxou um grosso porrete de trás da caixa registradora.

 

PULO-DO-GATO

Noivo finalmente cai na real: mendigo bebado, imundo e ensebado.

Um murmúrio estrangulado de raiva e desgosto escapa de sua garganta.

Apoia as duas mãos no balcão e, num pulo de gato, já esta em pé na superficio de aluminio. Ele aterisa no balcão num só pé e, no mesmo movimento, chuta a cara do balconista com o outro pé, num movimento sincronisado, harmônico, perfeito.

O dono do bar cai para tras, braços abertos, esparramando-se nas prateleiras, derrubando um monte de garrafas que se espatifam no chão.

Noivo, em pé no balcão, sólido como uma rocha, murmura roucamente mais alguma coisa; gira lentamente a cabeça e circula o olhar vermelho e ensandecido pela duzia e meia de comensais que o olham boquiabertos e estupefatos.

Noivo subitamente, leve e preciso como um gato, pula  por cima do corpo estatelado do dono do bar; pega uma coxinha de galinha e a devora de um só golpe, pega outra – idem. Abre a caixa registradora e pega as notas de dinheiro; enfia nos bolsos imundos. Agarra uma garrafa de cachaça e toma dois longos goles e vai sair… mas subitamente para.

Olha longamente seu reflecxo no espelho.

Murmura mais algumas palavras imcompreensíveis.

Vai ate a pia e pega uma barra de sabão de coco que tambem enfia no bolso. E – garrafa na mão -, sai do bar sem olhar sequer mais uma vez os apavorados fregueses.

É como se ele estivesse sozinho em sua própria casa e, agora, sai calmamente e ganha a rua.

As pessoas, ainda temerosas, aproximam-se lentamente da porta do bar e olham tímidos para fora.

Noivo já esta dobrando a esquina.

Um jovem comenta com seu amigo:

– Voce viu o Samurai Louco do Shaolin? Foi programa duplo com As Peitudas que Fazem de Tudo por Trás, lá no Odeon. Uns caras matam a mulher do samurai, ele enlouquece e sai pelo mundo afora caçando os caras e cortando as cabeças deles.

 

O SAMURAI LOUCO DO SHAO-LIN

Noivo dobrou a esquina e sem diminuir a marcha recolheu uma calça branca e uma camiseta riscada de vermelho que estavam penduradas num cabide tipo mostruário em frente a uma das lojas recem abertas.

Vai andando seu andar empinado, calmo, resoluto, ligeiramente gingado, a cabeça levantada e o olhar no horizonte; algo que destoa completamente do visual das roupas e da imundíce de mendigo.

Se alguem tivesse a curiosidade de olhar o corpo que transparece por baixo dos farrapos imundos, ficaria mais surpreso ainda com a musculatura trabalhada e recortada por anos a fio de treinos e jogo.

Noivo vai murmurando consigo mesmo.

Cheguemos mais perto.

Aos poucos, a algavaria ininteligivel vai se condensando lentamente, na mesma medida em que o olhar, injetado e alucinado, tambem vai clareando em lampejos de lucidez.

“Eles pensam que estou derrotado, definitivamente caído. Podem pensar o que quiserem, bando de filhos-da-puta, Mas ainda não estou acabado. Longe disso. Eles vão ver a volta que o mundo deu, e a volta que o mundo dá. Eles vão ver que eu ainda não esqueci o pulo-do-gato.”

 

VOU ONDE A VIDA LEVAR

Se voce leva uma vida seguramente balizada e sinalizada; trilhando por caminhos de seguros projetos de estudos, de trabalho; é normal que voce encontre dificuldades e obstáculos – assim é o viver.

Mas em condições normais de temperatura e pressão, o obstáculo é vencido. E mesmo que não se consiga tudo aquilo do nosso sonho e desejo – you can’t always get what you want -, vamos chegar em algum lugar onde, mesmo que intimamente insatisfatório, podemos levantar um olhar arrogante. sentado ao volante do novo carro recem comprado e mentir. Fingir estar plenamente satisfeito com a vida:

– Estou numa boa! Numa ótima! I am a winner!

Assim é o viver do proletariado bem pago; assim é o viver da classe mérdia, e da  burguesia, no mundo do dinheiro e da tecnocracia em tempos de condições normais de temperatura e pressão.

Mas se voce vai onde a vida te leva; se voce vai onde a vida levar; seguramente vai encontrar muitas encruzilhadas que desembocam em um número sem fim de trilhas e caminhos.

Cuidado!

Alguns conduzem ao abismo.

Mas, anime-se, tambem é verdade que a sorte é fada madrinha dos corações aventureiros.

 

A CANÇÃO DE NOIVO-DA-VIDA

Eu  sou Noivo-da-Vida,
angola e regional;
Já rodei o mundo
tocando meu berimbau.

Vi o sol da meia-noite
e a noite fria do deserto,
poeira de muita estrada,
amores lá longe e aqui perto.

 

(Nestor Capoeira, 2014; CD A balada de Noivo-da-Vida e Veneno-da-Madrugada)

 

NEW LOOK

Noivo dobrou a esquina e sem diminuir a marcha recolheu uma calça branca e uma camiseta riscada de vermelho que estavam penduradas num cabide tipo mostruário em frente a uma das lojas recem abertas.

Voltou à pracinha, tirou a roupa, ficou nú, entrou no laguinho e começou a se lavar com o sabão de coco. Tomou um banho longo, lento, sem pressa, enquanto ouvia o cantar dos passarinhos.

Depois deitou-se ao comprido, de barriga para cima, num dos bancos de madeira, para secar ao suave sol matinal, e cochilou.

Sentia-se bem naquela praça com suas enormes árvores centenárias e seu velho chafariz rococó despejando água por oito bocas de bronze.

Não se dava conta de sua nudez.

 

PRAÇAS COM CHAFARIZES

Noivo sonhou um daqueles sonhos vívidos, coloridos, com enredo mais racional que seriado americano de televisão.

O cenário era o Rio Antigo dos 1800s, aquele mesmo Rio que muitos viajantes estrangeiros compararam a uma das grandes metrópoles africanas a baira-mar, e que Libano Soares tão bem descreveu:

“Uma cidade do Rio de Janeiro coalhada de africanos, atravessada por limbambos de negros acorrentados, persigangas flutuantes carregadas de condenados, pelourinhos espalhados pelas praças, onde, por muitos anos, os capoeiras sofreram o flagelo do açoite, do vergalho, cercados de quitandeiras e de negros de ganho, moradores dos zungus”.

As maltas de capoeiras dos 1800s dominavam áreas da cidade; e o capoeira se filiava a uma, ou a outra, não necessariamente por morar naquela freguesia mas por uma escolha pessoal.

 Os pontos principais de encontro eram:

– os adros de igrejas e a própria igreja; militares não entravam armados nas igrejas para prenderem delinquentes ou capturar desertores do exército e da marinha;

– determinadas tabernas que os capoeiras denominavam fortalezas;

– os zungus; casas de angu, locais onde negros moravam e se reuniam; tanto os libertos, quanto os escravos negros de ganho que saiam de manhã para o trabalho freelancer e de noite tinha de entregar uma determinada quantia a seu senhor;

– os cortiços, ocupados por mulatos e brancos pobres;

– a zona potuária; a estiva, as docas, os locais frequentados por marítmos e marinheiros nacionais e estrangeiros; local de muitas trocas culturais. 

Mas o principal ponto de encontro eram as praças com chafarizes, lugares de convivência explosiva onde os escravos – as vezes, de maltas diversas – iam constantemente buscar água para abastecer a casa senhoril. 

A capoeira era o meio de estabelecer hierarquias e áreas de domínio dentro do próprio universo escravo; algo que se via diariamente nas filas para buscar água, nas praças.

Mais do que uma “forma de resistência contra a opressão senhorial” – como desejariam alguns puristas adeptos da versão heróica dos fatos -, a capoeira foi uma ferramenta na disputa do domínio de diferentes áreas da cidade, pelas diferentes maltas.

Após a sesta, ou o almoço, e principalmente de noite e de madrugada, os negros capoeiras sorrateiramente esgueiravam-se da casa senhorial e aproveitavam a maior liberdade para dominar as vias mais importantes da cidade. O encontro de duas maltas frequentemente deixava saldo de mortos e feridos.

Vimos que esta disputa se perpetuou, até mesmo em nossos dias, com a luta pela hegemonia entre estilos, cidades, e entre os próprios mestres. Por exemplo, a transformaçãoção dos 1960s, com João Grande e João Pequeno; Peixinho, Suassuna, Acordeon e outros.

 

CRONOMETRAGEM HARMÔNICA

 Noivo acordou confuso: o sonho lembrava os lampejos de clarividência durante a época em que, junto com Veneno e Toninho Ventania, tinha armado os pelotões de seu “exército”.

Lentamente, ainda murmurando para si mesmo, vestiu a roupa nova e limpa – ao fundo, o chilrear dos passáros, e o múrmurio de água corrente -; e saiu da praça exatamente no momento da chegada de uma patrulhinha que vinha averiguar a denúncia de um homem peladão tomando banho no chafariz.

 

UMA CIDADE DENTRO DA OUTRA

Em que medida a disputa, e este “domínio”  da urbe, que a massa escrava exercia cotidianamente na cidade do Rio de Janeiro duranre o Brasil Império, nunca se manifestou numa revolução aberta; num levante generalizado, como tinha acontecido no Haiti, ou em Salvador na Revolta dos Malês de 1833?

“Assoviando e portando paus, cometendo desordens na maioria das vezes sem nenhum razão”; em 1817, o Intendente de Polícia, Paulo Fernandes Viana, faz questão de mencionar a aparente “falta de objetivos” dos capoeiras, pois não se dedicavam primordialmente ao furto e ao roubo.

Mas Libano Soares no seu Capoeira Escrava explica brilhantemente a motivação: a construção de “uma cidade dentro da outra”:

“Primordialmente, a existência de um grande aparato militar…e a heterogeneidade étnica e cultural (dos escravos que vinham de diferentes regiões da Africa) era contrária à um levante geral… as maltas de capoeira eram a concretização possivel deste inconformismo escravo.

Ao invés de reinvindicarem uma unidade dos cativos, as maltas lutavam por espaços limitados, restritos, pedaços do estreito mundo urbano colonial. Os conflitos com agentes do Estado colonial, ou imperial, não eram incoerentes com a guerra crônica entre as maltas de escravos: tanto uns quanto outros (os policiais e as outras maltas) eram invasores, beligerantes, se bem que em planos diferentes…

A cidade era sua, mas não toda a cidade, ou toda de uma vez… eles forjaram uma cidade dentro da outra.”

 

 O MÃO DE FACA

 

He was looking for the card
that is so high and wild
he’d never need to deal another.

(Leonard Cohen)

Nossa estória – além de Veneno-da-Madrugada, Noivo-da-Vida, e Toninho Ventania; além dos mestres Bimba e Pastinha; de João Grande e Pequeno, Decânio e Jair Mora; Peixinho e Acordeon e Suassuna -, tambem é a estória de um destes raros Encantados de Alta Hierarquia que resolveu encarnar e viver uma longa vida terrena.

E fez isto mais de uma vez.

A curtição deste Encantado não é, nem nunca foi, desempenhar um papel como, por exemplo, o de Alexandre Magno ou Genghis Khan, que com seus exércitos dominaram a quase totalidade do mundo “civilizado”.

Nem tampouco um Ghandi que, sozinho, enfrentou, derrotou, e tomou a Índia das mãos do arrogante e violento Império Britânico – the sun never sets over the British Empire – sem dar um ünico bofetão. 

Este Encantado preferiu atuar em papéis menores, muitas vezes “dentro” e perto do núcleo dos principais acontecimentos da época; e outras vezes, nem tanto.

Por outro lado, este Encantado não deletou completamente as personalidades das crianças na qual encarnou. O Encantado “conviveu” – dentro do corpo e da mente e do espírito – com aquelas crianças; e mais tarde, com os adolescentes e adultos que elas se tornaram. Algo que é visto quase como uma obscenidade no Mundo Espiritual.

Quer dizer, nos Mundos Espirituais Médio e Não-tão-Alto, pois lá tambem existem estes prolegômenos,  estas regrinhas de “devemos nos comportar assim ou assado”.

No entanto, nos níveis mais elevados da Hierarquia… tanto faz, como tanto fez; o que realmente interessa é o Axé, a força criativa e de realização de determinado Ser.

 

MEU BRASIL BRASILEIRO

O Encantado escolheu o Brasil mais de uma vez.

Porque?

Difícil dizer.

Tim Maia dizia que, no Brasil, puta goza, cafetão se apaixona, e traficante é viciado. Parece que o nosso espaço é um tanto especial.

A tal ponto que, embora a última encarnação de qualquer humano, antes de deixar a Gira Terreste para encarnar em outras mais evoluidas, sempre ser na Índia; depois, ele ainda vem mais uma vez, a passeio, dar um rolê no Brasil.

O Encantado provavelmente escolheu o Brasil devido à geografia, ao clima, e à concentração excepcional e única de energias locais que permitiram que ele curtisse ao máximo os melhores aspectos e paradoxos e prazeres do material world.

Alem disto, apesar do Nelson Rodrigues afirmar, com razão, que a função das massas é parir o gênio e, depois que o pariu, voltavam a babar na gravata; a verdade é que até mesmo as massas daqui – miseráveis, proletários, classe mérdia, pequena e alta burguesia – tem um certo suíngue. A figuração do filme é boa.

O Encantado escolheu o Brasil, mas sempre depois de 1800: aquele negócio de vida de índio, de Brasil Colônia, e até mesmo o mundo aristocrata de D. Pedro I e de D. Pedro II, realmente nunca foi a sua onda. Se, por acaso, ele tambem esteve por aqui no Brasil Império, foi somente para curtir a chegada dos 1900s e, mais especificamente, as últimas décdas do século e a entrada dos 2000.

 

O nome deste Encantado no mundo espiritual é Mão de Faca.

 

Fim do capítulo 5

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