03 Jul 2005

Carta do Mestre Squisito, apresentada na Camera Federal, sobre capoeira

Senhor Presidente, Senhores Deputados, Senhoras Deputadas,  Senhores e Senhoras presentes, Amigos capoeiristas e Mestres de Capoeira aqui presentes, Meu bom dia a

03 Jul 2005
Senhor Presidente,
Senhores Deputados,
Senhoras Deputadas,
 
Senhores e Senhoras presentes,
Amigos capoeiristas e Mestres de Capoeira aqui presentes,
Meu bom dia a todos!
 
Muitas vezes a paixão dos não capoeiristas pela Arte se traduz numa relação platônica,  às  vezes  atônita  e  insegura  de  ser  manifestada,  pois  essa  arte  é misteriosa, fugidia, escorregadia aos contatos indesejados, que rejeita manuseios e usurpações…
 
Na Capoeira dizemos que ela é a água de beber que jorra nas correntezas das  fontes da vida e cai como uma cachoeira: nela podemos matar nossa sede, podemos nos banhar, mas não podemos retê-la, pois ela irá escorrer por entre nossos  dedos  quando  tentamos  pegá-la  em  nossas  mãos  num  gesto  de  tentar possuí-la…!
 
No caso de Manoel, porém, há uma diferença fundamental: ao se apaixonar pela capoeira ele se tornou um ativista, um perseguidor dos conhecimentos por trás da Arte, da magia por trás da fala que entoa e encobre os seus segredos centenários.
 
Com  isso  ele  arranca  aplausos  do  mais  cético,  do  mais  frio,  do  mais incrédulo de nós, de quem nunca ousou investir nesse terreno abstrato de nosso dicionário, transformando-se assim num pioneiro de inequívoco valor.
 
Mas, acreditem, felizmente esta obra de Manoel  não é um caso isolado dentro da capoeira. Ela tem sido cultuada e cultivada, por dezenas e centenas de obstinados  solitários  que  se  atiram  nos  seus   meneios  e  buscam  lhe  dar  a sustentação documental que esteja a seu alcance!
 
Pensadores e estudiosos,  estudantes, pesquisadores, professores, mestres  e capoeiristas  em  geral, tem   se   desdobrado  e   produzido muito  trabalho e documentos, teses e monografias, discos,  filmes, textos, vídeos, peças, shows e músicas,  jornais  e  reportagens,  num  sem  numero  de  outros  artefatos  que  a materializam no terreno intelectual, acadêmico, literário, educacional, desportivo, cultural e artístico, entre outras tantas possibilidades que nossa arte abriga e com isso temos hoje milhares de registros o mundo abstrato e metafísico da capoeira, como é o caso de Manoel…
 
No entanto, essa  produção é sempre  independente, autodidata, solitária e sofrida,  complicada  e  desafiante,  pois  é  quase  sempre  o  produto  de  esforços
 
isolados e obstinados, quase contrariando as expectativas sempre pessimistas e negativas,  que  entendem  a  capoeira  como  uma  construção  desprovida  de elementos formais de sua ciência, sua História e sua linguagem e sua produção…
 
Para  se  ter  uma  idéia  dessa  produção,  em  1993,  o  MEC  apoiou  o lançamento de um trabalho sobre a Bibliografia da capoeira, onde já se registrava mais de 3.000 mil títulos publicados a seu respeito…!
 
Hoje esse número deve estar na casa de mais de 20 mil títulos publicados, haja vista a explosão em que se tornou a capoeira espalhada por literalmente todos os cantos deste país e  por centenas de países mundo afora…
 
Manoel empenha toda a sua competência e coragem no seu trabalho original e se alinha com esses guerreiros emergidos do povo brasileiro que se tornam os que   documentam   e   fazem   respeitar   mais   um   pouco   a   nossa   arte   nesse monopolizado mundo da produção intelectual em nosso país.
 
E isso é importante em particular porque temos certeza de que a capoeira é mais que um folguedo, é uma arte complexa e densa, que abriga muitas dimensões e pode oferecer muito mais do que uma prática lúdica simplesmente, desportiva ou cultural, artística ou filosófica, marcial ou plástica. Ao contrário, é tudo isso!
 
Essa produção toda não tira em nada o mérito de Manoel que com sua competência está focando num ponto absolutamente inédito dessa Arte, que é  a sua  dicionarização,  iniciando  assim  a  sistematização  e  a  classificação  de  sua terminologia e isso nos faz refletir sobre o que falta, então, acontecer na capoeira.
 
Senhores e Senhoras.
 
O que falta à capoeira, é o mesmo que nos falta enquanto povo brasileiro:
 
– nós saímos da condição de banidos pelo direito oficial deste país, até termos o direito de estar do lado de dentro oficial das coisas!
 
– nós temos o direito de estar aqui,  nesta casa, discutindo nosso  futuro e nosso espaço de existência, e temos que agradecer por esta oportunidade e respeito manifestado aqui e agora;
 
– nós temos a gloriosa e  histórica  resistência contra a alienação dessa malfada globalização, onde o  que se pretende é na verdade nos alijar de nossa própria identidade para nos tornar robôs compradores de subprodutos da indústria da cultura americana…!
 
– nós temos uma História secular de dignidade e de luta contra todas as formas de opressão, que não pode ser negada nem  mesmo quando contada pelo opressor…!
 
– nós temos hoje o segundo maior numero de praticantes e seguidores de práticas desportivas neste país, só perdendo para o futebol;
 
– nós já estamos em  milhares de instituições de ensino de todos os níveis deste país e do exterior;
 
– nós somos uma das mais importantes forças de inserção social de todos os tempos e trabalhamos com pessoas de todas as idades em praticamente todos os lugares desta Nação;
 
– nós temos consciência de um sem-número de jovens e adultos que temos tirado das ruas, em situação de risco social,
 
– temos canalizado energias de jovens de todas as faixas sociais, induzindo- os a se concentrarem numa atividade que os oferece espaço  para exercitarem e conquistarem a sua vitalidade, a sua felicidade e a sua auto-estima;
 
– nós ocupamos os espaços que nos oferecem nos teatros, nas praças, nos shoppings,  nos  salões,  nas  festas  de  largo  e  de  rua,  nos  trios  elétricos,  nos momentos  solenes  de  celebrações  de  toda  natureza  deste  país  e  também  no exterior;
 
–  nos  comícios,  nos  festejos,  nas  igrejas,  nas  comunidades  de  todas  as matizes políticas, religiosas ou espirituais, estamos também;
 
–  temos  estimulado  e  subsidiado  estudos  de  Sociologia,  Antropologia, História, Música, Educação Física, Pedagogia, Medicina, Arte, etc., do  mundo inteiro…
 
– enfim, vou me contentar em parar aqui para não cansá-los…!
 
O  que  quero  aproveitar  neste  momento  é  para  trazer  aos  Senhores  e Senhoras  uma  mensagem  bem  simples  sobre  o  que  nos  falta.  O  que  falta  à Capoeira…
 
E acreditem, é bem simples mesmo: falta uma iniciativa legislativa oficial e definitiva que produza, aprove, publique e faça cumprir uma lei que transforme a capoeira em parte oficial da educação brasileira!
 
Nós queremos respeito pela nossa necessidade intelectual e espiritual!
 
Queremos ter acesso à produção dos que estudam a capoeira em todos os seus  viéis,  pois  somos  corpo  e mente  que  tem  sede  de  existir harmonicamente e sabemos que os livros são o alimento da alma;
 
A indústria cultural prefere publicar o lixo da subcultura globalizada a dar  algum  tipo  de  atenção  a  nossa  própria  produção  intelectual  da capoeira e isso tem que ser revisto e modificado;
 
Nós estamos nas instituições de ensino deste País inteiro, mas temos que sair dos pátios e das portas das escolas e ir pra dentro das salas de aula, pois a reflexão e a dimensão intelectual tem que se privilegiada e isso não pode ser feito nas condições de prática informal;
 
Queremos e podemos ser parte oficial do currículo  de  nossas escolas, inerente  ao  instrumental  dos  professores  para  falar  de  Brasil  e  de brasilidade, de História e da atualidade, de sociedade e de exclusão social na prática…
 
Podemos sim nos tornar uma disciplina sucessora atualizada e moderna da  deposta  educação  moral  e  cívica,  pois  temos  o  que  falar  sobre cidadania  e  sobre  civismo,  já  que  ensinamos  isso  todos  os  dias  a centenas  de  milhares  de  pessoas,  só  que  numa    prática  informal  e improvisada;
 
Sabemos  que  a  capoeira  pode  ser  o  grande  instrumento  capaz  de demonstrar tanto a desigualdade (como foi e como é…) como também a igualdade, como ela deve ser…
 
Queremos estar inseridos dentro da discussão oficial da educação no Brasil, temos experiências concretas  e efetivas, em número e grau de quantidade e qualidade dessa educação  integral de  fato que a capoeira tem  exercido  para  uma  grande  parcela  da  população  brasileira  e  de muitos estrangeiros…!
 
Temos incentivado muito mais do que movimento das pernas e dos braços na capoeira, pois a produção de projetos de eventos, a produção de textos e músicas, a expressão corporal, o teatro, o convívio pacífico e harmonioso entre pessoas de todas as camadas sociais, a produção de roupas e uniformes, a construção de instrumentos, a música e o exercício musical, o discurso e a auto-estima, tudo isso é produto direto da prática da capoeira;
 
Senhores Deputados, Senhoras Deputadas, vocês tem o instrumento que precisamos  para  atingir  a  nossa                                                                    cidadania  plena:  a  delegação  da sociedade para formularem leis que beneficiem os nossos cidadãos e essa é uma questão de Estado, é uma questão crucial:
 
Digam  por  escrito  através  de  leis  que  a capoeira  é  um  assunto educacional e que pertence à prioridade do ensino para todos os níveis de ensino deste País em nosso País;
 
Oficializem  o  que  já  ocorre  em  centenas  de  espaços  extra-oficiais, extracurriculares, informais em escolas de inúmeras cidades de nosso Brasil, que doravante a Capoeira é  matéria oficial do ensino de nosso povo!
 
Digam que isso abrange todos os níveis de ensino, da pré-escola até o ensino superior de nossa Nação, sejam quais forem os  meios que isso requeira para ser efetivado, pois sabemos que antes de qualquer coisa é preciso ser dito e escrito que isso é uma vontade política de quem faz as leis e elege as prioridades deste País…!
 
Digam agora que o Ministério da Educação tem que viabilizar os meios para que a capoeira se torne essa disciplina, pois é ele que define o que será produzido para alimentar os currículos das nossas escolas;
 
Não, senhoras e senhoras, não precisa ser amanhã, isso pode demorar o tempo que for, desde que seja perseguido e que abra o debate sobre como isso deve acontecer, em cada nível, em cada região, em cada tipo de instituição, para cada público alvo e de acordo com as disponibilidades e interesses de tantas abordagens da alma holística da capoeira;
 
Assegurem-se  de  que  todas  as  matizes  e  variantes  que  compõem  a capoeira   na       sua   interculturalidade   e   interdisciplinaridade   serão respeitadas;
 
Digam que a nenhuma autoridade por mais importante e reconhecida que seja  será  outorgada  a  condição  de  dona  dos  desígnios  da  capoeira enquanto disciplina, pois se isso  acontecer vai  mutilar a sua alma e transformá-la  em  um  monte  de  regras  frias  e  dispensáveis,  pois  o principal interesse é a reflexão que a escola abriga e a diversidade como regra, como principio;
 
Acreditem, se houver uma tentativa  que  seja de amordaçar a capoeira, ela se ocultará de novo dos olhos oficiais, pois não será jamais sufocada por políticas ou atitudes tacanhas, limitantes, opressivas e arbitrárias, pois a sua essência é a de ensinar e pregar a liberdade humana;
 
Digam, enfim, que a capoeira  é plural, como nosso povo, como nossa cultura nacional, como o é nossa riqueza regional brasileira, tendo o direito de se manifestar em todas as extensões que assim queiram os seus seguidores;
 
Senhores  e  Senhoras,  isso  é  o  que  esperamos  que  possa  realmente acontecer…!
Confiamos em Vossas Senhorias.
Obrigado.
Brasília – DF, 22JUNHO2005
Reginaldo da Silveira Costa
Mestre Squisito


Resposta de Luciano a carta do Mestre Squisito
Salve Mestre,
Parabéns pela iniciativa…
Admiro esta ideia e a vejo, pois não posso
deixar de ver… de uma maneira
bastante carinhosa…
No meio de tantos interesses, de tantos
joguetes, e politicagens… que
envolvem a nossa capoeira… vejo neste prisma
uma das mais importantes
vertentes para a disseminação e entendimento da
capoeira em nossa
sociedade…
Tantos discutem a esportivização… fazem disto
bandeiras e metas de vida…
mais a minha critica não é essa… Pois é
natural que com a esportivização
da capoeira… todo o mecanismo tende a se
capitalizar… nascem
associações… federações… campeonatos…
Criam-se pequenas guerras, discussões nada
positivas, conflitos de
interesses e vaidades…
Todo este processo é natural… é inerente a
sociedade em que vivemos…
cabe a nós darmos a seu devido valor… é apenas
uma questão de "prioridade"
Então vejo alguém levantar uma bandeira onde
consigo ler: Educação.
Inclusão do organismo capoeira, de forma viceral
dentro de instituições…
fazendo parte do curriculum e a cultura de um
povo… (é praticamente uma
vergonha que ainda não faça parte)
Muitos de nós já fazemos isso… é claro que
informalmente… pois acredito
que acima de tudo, acima de ser um capoeirista
responsável por um grupo,
devo ser também um educador… praticar a
capoeira e a democracia…
Minha principal bandeira é a Paz e União na
capoeira!

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