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O outro lado da história do Mestre Bimba

O outro lado da história do Mestre Bimba, por Mestre Osvaldo de Souza.

Por: Leiteiro

Mestre Bimba x Mestre Osvaldo: O Judas da Capoeira? e Conceito & Trajetória na Capoeira!

Em 1970 treinando com Mestre Bimba no Centro de Cultura Física Regional da Bahia, convidei-o a visitar Goiânia, (Goiás) e ao mesmo tempo ser paraninfo da 1ª turma de capoeiristas, formatura esta feita por mim, Mestre Osvaldo de Souza no Cine Teatro Goiânia. Ele aceitou e consegui trazê-lo através do apoio do Departamento de Cultura do Estado de Goiás para formar 15 capoeiristas!

Mestre Bimba ficou comovido com a atenção do público Goiano, pois naquela época estava atravessando uma fase difícil na Bahia, ninguém lhe apoiava e eu cheguei a ver isso de perto!

Todos falam:
Mestre Bimba prá lá, Mestre Bimba pra cá, mas ninguém procurou ajudar o Mestre dentro da maneira que correspondesse a sua expectativa, pelo número grande de discípulos que tinha em Salvador.
É importante frisar isto, pois houve/há uma grande deturpação (da verdade?) pela vinda definitiva dele para Goiás e isso posso afirmar com certeza: Mestre Bimba nunca teve apoio em Salvador, principalmente por parte de seus discípulos!

Quando eu falo assim: 
Discípulos do Mestre Bimba, não é abrangendo todo mundo, têm as pessoas de bem que sempre procuraram ajudar o Mestre, cito Mestre Decânio que foi um companheiro que ajudou o Mestre Bimba dentro de suas possibilidades!

Constatei que Mestre Bimba fazia apresentações para turistas no Nordeste de Amaralina e todo mundo sabendo das dificuldades que ele atravessava, com as despesas que tinha, ninguém correspondia, tanto é que muitos discípulos que participavam do Show com Capoeira, Maculêle, samba de roda, samba duro e apresentação de Candomblé, ficavam brigando para dividir o dinheiro!

Agora eu lhes pergunto:
Aonde é que está o coração destes discípulos?
Na (1ª?) vinda do Mestre Bimba para Goiás ele me disse:
Olha Osvaldo, se você puder me ajudar, eu quero vir trabalhar a Capoeira aqui no Estado de Goiás, porque a Bahia para mim não está resolvendo nada em termos financeiros!

Todo mundo falando e eu aqui (em Goiás) trabalhando, dando minhas aulas de Capoeira e sempre mandando uma ajuda para o Mestre Bimba em Salvador!

Voltei a Salvador e na época participei junto com outros alunos de Mestre Bimba de um documentário para a União Soviética que foi realizada no Nordeste de Amaralina e outro que foi filmado no Jardim de Alá!.
Participei junto com o Grupo Folclórico de Mestre Bimba e pude constatar o que já acontecera antes, todos querendo a partilha do dinheiro.

Na volta vim conversando com o Mestre e perguntei-lhe:
Como é que este pessoal ao invés de dar apoio ao Senhor, eles ficam exigindo pagamento, fazendo rateio entre eles para depois dar a parte do Mestre?
Chegando na Pituba aonde eu estava hospedado por causa da temporada do Curso de Especialização com o Mestre Bimba, ele tirou o dinheiro e disse:
Aqui está a sua parte!

Respondi: 
Não Mestre, nunca peguei dinheiro de apresentação e não vai ser agora que vou pegar!

Foi quando ele me disse uma coisa que nunca mais esqueci:
Se todo mundo fosse igual a você Osvaldo, que sempre está me ajudando e nunca pegou dinheiro de apresentação que você participou aqui comigo!

Em 1971 na ocasião da EXPO 71 em Goiânia-Goiás, colaborei com o pessoal da Organização e fui convidado para fazer a apresentação de Capoeira.

Sabendo das dificuldades do Mestre Bimba, pedi ao pessoal da organização para contratá-lo, para apresentar a Capoeira na abertura da Feira Agropecuária de Goiânia que é uma festa muito importante e conhecida no Brasil inteiro.

O Mestre fez três apresentações e em uma delas teve a honra das presenças do Presidente Médico e do governador do Estado de Goiás, Dr. Leonino di Ramos Caiado!

O cachê foi de dois milhões de cruzeiros e o ajudou muito a agüentar a crise que ele vinha atravessando na Bahia!
Foi um marco histórico para mim, pois consegui um avião da SUDENE com o Governo do Estado de Goiás, para ir buscar o Grupo Folclórico de Mestre Bimba em Salvador.

Fechei contrato com Mestre Bimba e tenho toda esta documentação arquivada! Tem muita gente que fica conversando o que não sabe, porque quer aparecer e viver de conversa, viver de ilusão, mentindo para os outros!

Reuni o pessoal do Mestre no Nordeste de Amaralina 07h00min horas da manhã e embarcamos para Goiânia. À volta também de avião com Mestre Bimba foi uma honra muito grande para mim, porque nenhuma dessas pessoas que conversam o que não sabem, tiveram a capacidade de fazer o que fiz pelo Mestre Bimba!

Outro grande marco que realizei, foi quando o Grupo Furacões da Bahia, fez apresentações aqui em Goiânia! Consegui a estadia de 8 dias para 40 figurantes e que era comandado pelo Mestre Camisa Roxa, discípulo de Mestre Bimba.

Fez o 1º Show com qualidade internacional aqui no ESEFEGO levando grande multidão. Consegui outro Show no Goiânia Tênis Clube e você pode tirar a conclusão: 40 pessoas e eu consegui hospedagem para todos, que ficaram muito satisfeitos comigo, com a atenção que tive para com eles.

Porque eu sempre procurei trabalhar e não ficar de conversa mole, porque conversa mole não põe ninguém para frente!

Ficar conversando e criticando é muito fácil, mas eu posso falar com todo prazer da honraria que tive de Mestre Bimba ao ele me dizer:
Você é um cara que faz alguma coisa!

Num Simpósio Brasileiro de História realizado aqui em Goiânia, veio delegações de todo o Brasil e a delegação Baiana teve problema, pois estava sem verba para a alimentação e o combustível da volta.

Juntei os meus discípulos do Grupo Folclórico do Mestre Osvaldo de Souza e junto com o pessoal do Manolo aluno de Bimba e que estava na delegação Baiana, fizemos um Show e graças a Deus, porque Deus é grande, conseguimos lotar o local e com isso conseguir a verba necessária para voltarem de ônibus!

O que eu passo para meus alunos foi o que aprendi com Mestre Bimba, nunca desvirtuei a Capoeira Regional, tanto que já re-editei o Método de Capoeira Regional (#1) aonde friso as palavras:
Discípulo e seguidor de Mestre Bimba!

Fiz todo o aprendizado de Capoeira com Mestre Bimba, as especializações e ele falavam:
Você é um discípulo que eu vou diplomar!
Tanto é que recebi os diplomas, um na época do Órgão que comandava a Capoeira, a Federação de Pugilismo e outro do Centro de Cultura Física Regional da Bahia.

No diploma do Centro lê-se:
O Sr. Osvaldo Rocha de Souza recebeu com aproveitamento os cursos de Capoeira Regional e recebeu o Título de Mestre de Capoeira!

Um dia o Mestre falou para mim:
Osvaldo se um dia eu faltar, você vai ser endeusado por uns e odiado por outros!

Quero deixar claro aqui que nunca causei dano a coisa nenhuma, apenas atendi ao pedido dele, porque o exílio dele foi espontâneo, já tinha vontade de vir para Goiás, tanto é que falou para os jornais:
Se eu não gozar nada em Goiás, gozarei ao menos do cemitério!

A decepção de Mestre Bimba com a Bahia foi muito grande, já saiu de lá abalado emocional e psicologicamente, uma pessoa já de idade, passar pelo que ele passou e não ter ajuda !!!

A minha militância na Capoeira vem desde os 13 anos, sempre estive no núcleo de bons capoeiristas na Bahia, treinei com Crispim o filho de Mestre Bimba e depois fui para a mão de Mestre Bimba que me recebeu com toda a atenção e procurou me ensinar/transmitir tudo.

Tenho um acervo muito grande, fotos de Mestre Bimba, documentação que não é qualquer um que tem.

Enquanto ele esteve aqui em Goiás sempre procurei zelar pela saúde do Mestre, porque quando ele chegou estava se sentido mal e procurei médicos alunos meus que fizeram todo o check-up no Mestre, tratamento, revisão médica! Também o Doutor Carlos ajudou dando tratamento já que ele apresentava sintomas de hipertensão, e ele tinha todos os remédios necessários, os quais ele sempre procurou tomar seguindo o que os médicos prescreviam.

As Casas

Muitos falam que foi prometido casas para Mestre Bimba e familiares, escola para os filhos….nunca falei isso e não foi firmado contrato nenhum a respeito!
Ele chegou aqui, escolheu as casas e morou nelas, só que tinha que vender as casas e Academias ( a história diz que ele vendeu-as para alunos) da Bahia para poder comprá-las.
Infelizmente para ele, vendeu-as a prestação e na 1ª cobrança veio da Bahia sem o dinheiro e o que ele ganhava aqui só dava para as despesas dele e familiares.

O outro lado da história do Mestre Bimba Capoeira Portal Capoeira

Chegou tão contrariado que até desmaiou na rodoviária!

Falar todo mundo fala criticar todo mundo critica, mas ninguém participou, e ninguém ajudou em nada!
Procurei ajudar e dentro do possível fiz demais!
Para ele vir para cá, eu tive que pegar todo o pessoal lá, embarcar todos e encaminhá-los aqui.
Lá na Bahia o pessoal ajudou em quê?
Em nada!

Fui eu quem pagou as passagens de todos e foram 22 pessoas, e para elas dei alimentação até normalizarem as suas vidas!

A Academia

Um dia Mestre Bimba me falou:
Agora vou arrumar um local e vou dar aula para minha sobrevivência.
Enquanto esteve comigo a aula era dividida 50% para cada um e eu tinha quase 600 alunos.
Foi um negócio democrático, dividimos numa boa, sem um arranhão, sem nada de discussão!
Quando ele foi dar aula no DCE e na ESEFEGO uma parte e meus alunos foram com ele.

É importante frisar que foram alunos que começaram na minha Academia, e foi formado por mim na Formatura no Cine Teatro Goiânia, aonde Mestre Bimba foi paraninfo dessa turma.

Eles ficam falando:
Eu formei com Mestre Bimba, fui aluno de Mestre Bimba!
Iniciaram comigo na Capoeira, eu peguei na mão deles para ensiná-los e sei o nome de todos eles!

O outro lado da história do Mestre Bimba Capoeira 1

As cartas

Tenho cartas de quando ele me escrevia de Salvador, no começo da carta ele fala:
Meu aluno e Amigo Osvaldo!
As pessoas foram deturpando, falando isso e aquilo e procurando uma deturpação fora do comum.
Outro fato importante, eu sempre conversei com Dona Nair (esposa de Bimba) e ela falou-me:
O Mestre Bimba aqui em Goiás ganhou dinheiro que muito tempo ele não ganhou em Salvador! Eu admiro muito que você fez pelo Mestre, porque só eu sei as dificuldades que passamos. Todo mundo fala isso e aquilo, mas resolver o problema ninguém resolvia!

A morte

Disseram que Mestre Bimba morreu de Banzo aqui em Goiás o que não é verdade, porque o problema do Mestre Bimba foi a Bahia, que não socorreu ele em nada, que não fez nada, todo mundo foi displicente.
Agora eu pergunto a vocês aí em Salvador:
Um baluarte da Capoeira como Mestre Bimba, Mestres dos Mestres, o Lutero da Capoeira, o Papa da Capoeira moderna, vocês só ficam olhando o Homem na extrema dificuldade, vendendo as coisas para sobreviver?

Na hora do acontecimento que ele faleceu, eles entraram em pânico, porque não resolveram nada, ficaram aqui com o Mestre fazendo Shows e hoje se viram para querer me criticar!
Aí ele vem até mim, me pede e eu não posso falar que não para ele, pelo menos fiz o que me pediu e aqui ele teve trabalho, fez show, deu aula!
Quero deixar bem claro aqui, se ele falasse:
Me leva novamente!
Eu o levaria para Goiás!
Esta é a minha verdade!
Mestre Osvaldo de Souza, discípulo e seguidor de Mestre Bimba!

PS: 
Escrito sob forte emoção, tornou-se extremamente longo e repetitivo. Por isso este é um resumo do resumo, para não tornar-se cansativo!

Leiteiro

Sobre a obra

Quando Mestre Bimba veio para Goiás e a Bahia perdeu Mestre Bimba, todo mundo ficou conversando, cada um falava a sua maneira.
Tudo o que eu digo aqui é uma maneira de me defender, porque todo mundo me criticou demais!
Essa defesa é um direito meu, porque na hora só tomei cacetada, todos se viraram contra mim, eu que fiz todo o benefício!
Aos incrédulos do que eu digo e aviso que tenho documentos para provar!

Osvaldo Rocha de Souza

Ps: Recebi este Jornal da Capoeira Regional, com o sub-título Informativo da Academia Mestre Osvaldo de Souza – Ano V nº 9 de Janeiro/Fevereiro/2000 e imediatamente fiz um resumo no intuito de divulgá-lo o máximo possível. Mas brigas com o Correio local me detiveram. Mais tarde, um ano talvez, ele mandou-me o Método de Capoeira Regional de Mestre Bimba, (#1) ao qual por descuido ou não, ele acrescentaria os desenhos todos do livro Capoeira sem Mestre de Lamartine Pereira da Costa, sem informar ao leitor!
Isto me deixou com um pé atrás, daí a demora em divulgar!

Leiteiro

Sem dúvida, dois trabalhos que me dão orgulho é o resumo de “ATENILO, O RELÂMPAGO DA CAPOEIRA” e “A DEFESA DE Mestre OSVALDO”! Se o leitor não me cutuca eu não lembraria que: fica nítido no Prólogo seu terrível sofrimento pelas possíveis calúnias sofridas anos a fio!

Bimba não foi só, mestre Osvaldo levou um ônibus cheio da Bahia, então fica óbvio que muita gente viu se Bimba foi ou não explorado e quem o explorou! De minha parte, estou tranquilo ao dizer que se mestre Osvaldo atraiu/traiu Mestre Bimba, também fez o possível para que êle tivesse a mesma vida boa que tinha na Bahia.

Vou com Fernando Rabelo e acrescento sem medo: 
BANZO
Quanto a se êle atraiu, sua frase é sintomática
Aí ele vem até mim, me pede e eu não posso falar que não para ele, pelo menos fiz oque me pediu e aqui ele teve trabalho, fez show, deu aula!

Quero deixar bem claro aqui, se ele falasse:
Me leva novamente!
Eu o levaria para Goiás!
Esta é a minha verdade!
Mestre Osvaldo de Souza, discípulo e seguidor de Mestre Bimba!

http://professorleiteiro.blogspot.com/

GRÃO-MESTRE – “SER OU NÃO SER”

GRÃO-MESTRE – “SER OU NÃO SER”

Camisa Roxa, segundo me falaram, ao ser indagado num evento realizado em Siribinha – BA sobre o título de Grão-Mestre que recebera havia pouco tempo, respondeu: “existem tantos mestres de capoeira hoje em dia, que parece com a areia de um oceano! Eu sou apenas um grão desta areia”.

Muito interessante e sábia a resposta!

Conhecendo mestre Camisa Roxa, como o conheci, pois na década de 70 tive o prazer do primeiro contato com ele, quando precisou da ajuda para montar um show do seu grupo folclórico “Olodumaré”, aqui em Brasília, show do qual também participei e que depois fomos nos apresentar em Belo Horizonte. Entretanto, quando o grupo foi para o exterior, apesar do convite do Camisa, eu amarelei, fiquei no Brasil.

Interessante registrar um episódio que aconteceu, no momento em que fui recebê-lo na antiga rodoviária de Brasília, junto com mestre Adilson, quando numa daquelas coincidências ímpares, vem na nossa direção caminhando, o grande mestre Bimba, que também tive a oportunidade de ser apresentando pelo próprio Camisa, que em tempo, de maneira nervosa me disse: “não diga ao mestre qual o motivo da minha vinda aqui em Brasília”.

Naquele momento eu ainda não sabia das intenções do Camisa, uma vez que tinha acabado de conhecê-lo!

A preocupação do Camisa Roxa era a de que o mestre Bimba soubesse que ele estava montando um espetáculo de capoeira, perto do show que ele iria dar! Diga-se de passagem, que esse “perto” correspondia a 200 km de distância, que é a distância de Brasília à Goiânia, onde seria o seu show!

O que eu pude observar desse comportamento do Camisa Roxa, claro, foi o grande respeito e consideração que tinha para com o mestre Bimba!

Tenho certeza que se pudéssemos criar uma atmosfera desse encontro que já se passou o que hoje é impossível, uma vez que os dois estão no andar de cima, com toda certeza mestre Camisa Roxa, teria me pedido: “não fale nada ao mestre Bimba do título de Grão-Mestre que recebi”, pois como poderia ele explicar que seu título era superior ao do Mestre Bimba!

Por esta razão, achei interessante a resposta do mestre Camisa Roxa a respeito do grão de areia, que na verdade é um daqueles “bom rolê” do capoeira, visto que, no universo da capoeira, esse título ainda nem existe.  Portanto, a resposta em forma de brincadeira, faz sentido, tem sabedoria!

O fato de existirem muitos mestres de capoeira hoje em dia, não acho que deva ser um motivo de incomodo, como alguns mestres assim enxergam.   Isso porque, assim como existem “artistas” e artistas, “médicos” e médicos, “mestres” e mestres, assim como também existem “cachorros vira-lata” e cachorros vira-lata, quero dizer que em todos esses exemplos, sempre se sobressaem os que são “especiais”!

Mestre é um título de ofício, de trabalho, de um pescador que se destaca dentre todos na sua comunidade e é consagrado por todos! E assim acontece com todos: pintor, músico, capoeira, etc. É preciso que haja uma força maior a fim de que defina quem deva ter essa consagração dentro da comunidade que atua!

Grão-Mestre, para mim, é um título místico, dado principalmente pela maçonaria, entidade que existe há muito na nossa sociedade e que de forma secreta e fechada, tem uma normatização própria que confere esse título a alguém dos seus membros.

Recentemente um discípulo meu, que também é mestre, mestre Skysito,afirmou que o que está acontecendo na capoeira: é porque ela não tem dono!

Respondi ao “gafanhoto”, que era isso que eu achava interessante na capoeira, ela não precisa de dono, nós que vivenciamos dentro da sua energia, percebemos de maneira empírica, quando ela determina, adequa as normas, mesmo de maneira implícita, mas que sentimos que tem força de fato!

Percebo que não é preciso ser doutor na capoeira para entender isso, a grande maioria sabe diferenciar muito bem, por terem um olhar crítico natural, a capacidade de identificar o que é certo e desconfiar do que é errado!

Trago essa discussão à tona antes que algum aventureiro embarque neste navio, quando ainda há tempo de não cair nesta cilada.

Também chamo a atenção essa inversão de valores que está começando a aparecer no nosso meio! Quem está graduando o Grão-Mestre, são os próprios alunos daquele mestre e isso é no mínimo estranho, pois nesse momento, essa consagração é reconhecida somente por aqueles que estão envolvidos diretamente com o seu mestre, o universo da capoeira, não participa deste evento!

Vamos esperar meus camaradas, que como um capoeira de coração e atitude, sejamos algum “Capoeira Especial”!

Brasília, DF, 1 de janeiro de 2014

HÉLIO TABOSA DE MORAES- Mestre Tabosa

Fonte: http://mestretabosa.blogspot.com.br/

“Capoeiras” de Antigamente!

“CAPOEIRAS” DE ANTIGAMENTE!

“Quem engana aos outros, enganaprimeiro a si mesmo”.(filosofia – autor ignorado)

A vida e as façanhas de antigos “capoeiras” só podem ser encontradas em livros… ou nas páginas de crimes de velhíssimos jornais. Os fotógrafos daqueles tempos — “retratistas” ou “lambe-lambe” — não tinham interesse em registrar pobres e nem negros, apenas pintores e desenhistas, já pelos idos dos 1800 e tanto o fariam, eternizando em tela cenas das ruas das grandes cidades do Vice-Reino de Portugal e Algarves. Cronistas como Coelho Neto, Olavo Bilac e Luiz Edmundo deixaram páginas curiosas sobre a ação dos “capoeiras” cariocas, além de romancistas como Aluísio de Azevedo e historiadores também.Se a “ralé da pernada e da navalha” nascia entre o povo pobre e sofrido, no Rio dos 2 Pedros surgiu entre a nobreza também, bispos e deputados, comerciantes e senadores, jornalistas e poetas, alguns barões e condes, todos hábeis gingadores.

Nesta nossa Santa Maria de Belém do Grão-Pará — “nascida em dia azíago”, conforme o governador Mendonça Furtado, que detestava a região — tivemos “navalhistas” célebres, cujos nomes se perderam na distância. No “Compêndio das Eras da Província do Pará”, de ANTÔNIO BAENA, consta determinada passagem em que guardas rebelados fizeram (em 1754 ?) o “primeiro arrastão” de que se tem notícia, roubando as casas de nobres e abastados e “se pirulitando” lá pros lados do Amapá, de barco suponho. Nunca foram pêgos mas ía tudo para “os costados” da Capoeira. Se era ladrão, era “capoeira”… e pelos 2 séculos seguintes seria assim !Registro de berimbau soando na noite de Natal de 1584 temos no Diário do irmão Barnabé Tello que, junto com uns 20 frades, naufragou antes de chegar a Lisboa. Deixou registrado seu momento musical, talvez com o “berimbau de boca”, um ferrinho circular tendo a boca como “cabaça”. Com tal nome confirma que o verdadeiro “mbolungunga” — o BERIMBAU “de barriga” — já era conhecido.

Em recente entrevista no YouTube (2020) angoleiro da UFPA declara que um certo “Mundinho” seria o “capoeira” mais antigo de Belém, suponho que entre os vivos. Vivente ou não, é cedo para tal conclusão… desde os anos 50 vinham para Belém grupos artísticos, de música e dança, quase todos baianos, com “capoeiras” entre êles, está nos jornais da época tal informação, por vezes com fotos. Esses sujeitos quedavam por dias ou semanas e, quem sabem, até ensinavam uns e outros por aqui. O que se tem de certo é que — nos anos 70, quando alguns dos mestres atuais iniciaram — já gingavam por essas bandas um certo mestre “Decente” e um “Pula-Pula”, além do mineiro “Brinco Dourado”, em Icoaraci, segundo mestre Luís Carlos. Um tal de “Maranhão”, pelas palavras de mestre Fernando Rabelo, que “deu uns pulos lá pelo Ver-o-Peso e saltou fora”, após nocaute inesperado. Professores antigos em 1986/87 em Belém só Walcir, Romildo, Laíca, Rai, Brás, Silvério, Sapo, Waldecir e Nonato, fora um certo Edilson lá pros lados da Marambaia e o pouco visto “Pantera”, atuando junto ao Beto, isso em Marituba. Aparece agora o “intragável” “Caiçara” afirmando ser “da turma de 71″… para reprisar Nestor Capoeira. Como PROVA isso, nem me perguntem ! 

"Capoeiras de Antigamente! Capoeira Portal Capoeira
Foto Nato Azevedo – 1990


O jornalista Álvaro Martins, de O Liberal, citou em 1988 um programa da recém-fundada TV MARAJOARA, nos anos 50, protagonizado pelo hoje “Pierre Beltrand” (ou seria o prof. Klaus Keller ?) e que reunia boxeadores e “capoeiras”. Em página de um Diário do Pará muito antigo há foto de uma dupla negra (fazendo aú) que precisa ser identificada, se isso fôr possível. Entre os vivos, aqui em Belém, os mestres Marrom (no Guamá)  e Pica-pau (no Jurunas) são muito antigos, Zeca (no Bengui) e China (na Guanabara) também. Quando aqui esteve — em 1981 — meu irmão presenciou Sérgio Nazaré “Zumbi” já ensinando. Os 2 nomes “mais famosos” teriam “aportado” em Belém em 1974 e 76, encontrando aqui um certo Lourival fotógrafo e, o outro, seu amigo carioca “Babel”… acredite quem quiser ! O fato é que a ORIGEM da Capoeira em Belém ainda é… um MISTÉRIO ! 

“NATO” AZEVEDO (em 10/jan. 2021, 19hs)

Na onda do berimbau…


“Na onda do berimbau /
agitarei no Carnaval…”
OSVALDO NUNES (1965)

De repente, surgem na tela do PC da lanhouse aqui do município as imagens do vídeo “12 Horas de Capoeira”… curioso isso, novamente com a presença só de adultos, homens quase todos — tem um “verme gordo” entre êles —  e praticamente mulher alguma. Pelo visto, os modernos tempos dela não interessam mais à garotada, Roda com 12 ou 15 berimbaus (?!), nenhum pandeiro… atabaque, nem pensar ! Segundo alguns evangélicos, “abre as portas do Inferno para os anjos do Mal”. Será que Lúcifer sabe disso ?!

É claro que ninguém quer andar com aquele “trambolho” nas costas, mas daí a ELIMINÁ-LO é um exagero. Eventos oficiais daquele porte e os tais “Batizados” — pra mim terá sempre este nome ! – exigem a “bateria” (ou “cozinha” ou seja lá que nome tenha agora) completa e dentro dos Fundamentos (?!), supondo-se que a Capoeira os tenha ! “Traduzindo”… 3 berimbaus diferentes, pandeiro, atabaque e, talvez, “ganzá”, o pouco visto reco-reco. Caxixi não mão de tocador é artigo raro e berimbau “de taquara”, bambu, é ainda mais difícil de se ver, felizmente. Alunos usavam “vareta” de bambu, que “se gastava”, poía, no local da batida. “Baquetas” grandes demais incomodam, moedas ou arruelas com furo no meio são um suplício, ninguém merece… a medida da vareta era/foi de “1 palmo e 4 dedos” do tocador, sem verniz (que sai com o suor), passava-se as costas de uma vela nela toda.

Tudo isso é coisa do Passado, como o “capoeira” antigo também é ! “Meter-se” entre os atuais praticantes, só se fôr para “passar vergonha” ! Filmagem recente nos exibe “mestre velho” que já não sabe mais sair de um “martelo” e assusta-se (?!) com “queixada” ou “armada”, mais preocupado com o chapéu do que com os golpes que recebe. Tenham a santa paciência… a Capoeira nos cobra bom-senso, já que não pode nos dar “vergonha na cara”

O quanto sabiam os praticantes dos anos 70 ?! Uns 15 ou 20 movimentos dos 30 ou 35 existentes. (Leia-se Lamartine P. da Costa para conhecê-los todos.) Quanto sabem os jovens atuais ?! Mais de 30, talvez 40, de 60 ou 80 novos movimentos, que exigem deles mais VELOCIDADE, mais destreza corporal, resistência física e preparo muscular. Os antigos jogavam por distração, passatempo, após um dia inteiro (ou semana) de trabalho duro. Hoje a juventude treina hora e meia todos os dias, descansada, e vai para as Rodas tensa, pronta para disputas e não lazer. Creio que os antigos aproveitaram melhor seus tempos na Capoeira, pois nela fizeram AMIGOS que os acompanham até hoje. Vejo jovens “capoeiras” talentosos, merecendo seus títulos e troféus… mas andam sozinhos ! Os que entraram nela nos anos 70 e 80 aprenderam a tocar pelo menos 5 ritmos, senão 6, no berimbau e não “atravessam” no atabaque ou pandeiro. Também cantam melhor — pelo menos se ouve seu canto — que a rapaziada moderna, que precisa de microfone para se fazer ouvir. Não é regra geral, tem antigos que “dão vexame” quando abrem a boca !

É preciso NÃO ABANDONAR a música, ela é a ALMA da Capoeira… quem já treinou sem canto ou som sabe do que estou falando ! Antigamente os professores “escalavam” 3 ou 4 alunos para “sustentar o som” enquanto os demais treinavam. E havia AULAS de toque, também !

Na onda do berimbau... Capoeira Portal Capoeira

Na Era da Comunicação desconheço como a Capoeira está sendo ensinada, mas vejo no YouTube vídeos para tudo, auto-explicativos, para se “aprender em casa”. Em longínquos tempos “uma imagem valia por mil palavras”, o Mestre raramente falava, ensinava pelo exemplo, quem estivesse prestando atenção aprendia. No berimbau do professor ninguém mexia, era sagrado… aprendia-se a tocar num outro qualquer, a maior parte dos alunos tinha o seu em casa, para desespero de pais e vizinhos. Os 3 toques básicos todos sabiam, o de Angola era pouco tocado, a maioria preferia o São Bento Grande. Além destes, “Cavalaria” e “Samba de Roda”… não serviam para jogo, mas treinavam o aluno nas ‘VIRADAS”, essenciais para acompanhar os dois S. Bento. Depois vinham o “Panha a laranja” e “Santa Maria”… dizem que é o mesmo toque com 2 nomes; este comentário vale para “Idalina” e “Banguela”, que alguns falam “Benguela”. Finalmente, os mais dedicados aprendiam também o “Iúna” — para jogo de mestres ou alunos formados — e um certo “Amazonas”, que poucos sabem como era. Tive-os todos gravados em fita cassette por meu amigo “RUBINHO Tabajaras”, alguns LPs da época traziam boa parte deles. Ouvi dizer que o toque “Iúna” era usado no enterro de um mestre ! (*1)

Todo este rico acervo de conhecimentos vem se perdendo, ignorado pelos mais jovens e, aos poucos, sendo esquecido pelos mais antigos, a ponto de eu ter presenciado um suposto mestre em 1990 — hoje “paparicado” aqui em Belém, desconheço o motivo — usando toca-disco com defeito na rotação para “animar” sua aula ! E é uma “praga” dessas que formara — creio eu que nem aulas dá — alunos que serão mestres, adiante.

Deixei de fora da relação o “toque de S. Bento da REGIONAL”… esse toque surgiu na Zona Sul carioca lá pelos anos 70, mas foi criado (nos anos 40 ?) por mestre “BIMBA”. Me parece que os Grupos da Zona Norte usavam o S. Bento tradicional. Frequentei poucas vezes a academia de mestre “Peixinho”, na Travessa Angrense, nos sábados e não me lembro do uso dele nas famosas “Rodas Livres” lá. Suponho que teria sido mestre “Camisa” — já no CEU-Casa do Estudante Universitário ou no Clube Guanabara — o divulgador da “novidade” ! Não estou afirmando nada ! “Na Bahia tem, / vou mandar buscar / berimbau de ouro, / ferro de engomar” ! Nem mesmo os “corridos” antigos resistem ao avanço dessa modernidade (?!) que tudo “destrói” !


“NATO” AZEVEDO (em 10/jan. 2021, 15hs)

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OBS: (*1) EM VIDEO DE FINS DOS ANOS 80 (1988? 90?) num Batizado de mestre “Canjiquinha” em Salvador, este nos apresenta um certo “Muzenza”, toque que reproduz o som dos atabaques do Candomblé. Afirma que era usado para a “Capoeira-luta”, isso na academia dele. Meu irmão argumenta que o “IÚNA” repete o toque de tambores chamado de ANGOLA, no Candomblé… nada sei a respeito

A IMPORTÂNCIA DO TRANSE CAPOEIRANO NO JOGO DE CAPOEIRA DA BAHIA

CONSIDERAÇÕES GERAIS

Há muitos anos, cerca de 40, venho comparando o comportamento dos capoeiristas durante o jogo de capoeira da Bahia e suas atividades habituais.
O convívio com os praticantes das artes marciais orientais, do espiritismo, do candomblé; o estudo do hipnotismo, do ioga, da parapsicologia, da fisiopatologia do sono, dos estados modificados de consciência e a prática da meditação nos permitiram analisar o comportamento e o potencial do ser humano em diversas estágios de consciência.
Os registros históricos, científicos e religiosos de condições de bilocação, teletransporte, telecinesia, materializações e desmaterializações, bem como os estudos de física subatômica, nos vem atraindo a atenção para o efeito dos sons e dos ritmos sonoros sobre os níveis e estados de consciência, bem como a correspondência entre os mesmos e as manifestações motora e comportamentais daqueles sob a sua influência.
É notória a influência da música sobre o estado de humor das pessoas, basta lembrar a tristeza do toque de silêncio, a ternura da Ave-Maria, a agitação do Olodum e dos trios elétricos, os movimentos suaves do balé no “Lago do Cisne”.
É evidente que os movimentos induzido pelo “reagge” são diferentes daqueles do samba, da valsa, do cancã ou do foxblue. Sem falar da marcha forçada sob o rufar dos tambores; da tranqüilidade do silêncio; da irritação pelos ruídos; do pânico ao bramir dos elefantes, do rugir do tigre, do estrondo das trovoadas; da sensação de bem estar e conforto trazida pelo ruflar da brisa suave na folhas…
A cultura africana encontramos o uso de música, ritmo e cânticos como gerenciadores, coordenadores, estimuladores de atividades comunitárias como pesca, caça, plantio, etc.
O candomblé oferece-nos uma variedade de toques de atabaques, com diversos ritmos e andamentos, capazes de desencadearem manifestações motoras padronizadas sob categorias de orixás.
É conveniente estudar as associações de toques, ritmos e andamentos com os padrões de comportamentos dos orixás e personalidades dos “filhos de santo” para melhor entendermos a influência dos toques, ritmos e andamentos nos desenvolvimento do jogo de capoeira, consoante a variedade de temperamentos e personalidades dos capoeiristas.
O exame das fotografias de Pierre Fatumbi Verger, de cenas de candomblé colhidas na África, documenta a identidade daqueles movimentos durante o transe dos orixás, que manifestam a atividade gerada pelos toques e ritmos musicais do candomblé e destes da capoeira.
É conveniente lembrar a associação dos estados de humor com as expressões faciais e posturas do corpo para compreendermos melhor as repercussões das modificações de estado de consciência e as manifestações motoras conseqüentes.
Todos reconhecemos os ombros caídos do desânimo, o olhar de tristeza, a vivacidade dos movimentos de alegria, a expressão corporal do animal prestes a atacar, etc.
Quantos outros quadros poderíamos citar?
Portanto, se a música pode alterar o estado de ânimo e as suas manifestações motoras estáticas e dinâmicas, forçosamente teremos que concluir que o andamento, ritmo, palmas e cantos também modificam o comportamento dos capoeiristas durante o jogo.

INFLUÊNCIA DO ARQUÉTIPO COMPORTAMENTAL

Ante um mesmo toque, ritmo e andamento, os diversos arquétipos manifestam sua identidade de modo particular, especifico para cada entidade comportamental (com nuanças especiais, intrínsecas a cada ser e cada momento histórico) de modo que o comportamento é praticamente imprevisível a cada instante, porém com um fluxo natural, espontâneo, ingênito, inato… instintivo como dizia Bimba.
Assim é o próprio Bimba conhecia o fato e afirmava “é o jeitcho dêle“, permitindo que cada um jogasse capoeira com suas características pessoais.
Fato muito notório em certos capoeiristas de movimentos muito lentos, porém dotados de grande mobilidade articular e elasticidade, como Prof. Hélio Ramos, “Cascavel,” Eziquiel “Jiquié”, “Caveirinha”, entre tantos. Assim é que “Atenilo” (jocosamente conhecido como “Relâmpago”) um dos mais antigos dos alunos do Mestre, jamais modificou seu estilo tardo, lerdo, ingênuo, de praticar a capoeira.


Entretanto, ainda hoje não consigo reconhecer ou identificar os vários arquétipos de capoeiristas, mas posso perceber de modo vago, as semelhanças que se repetem independentemente de mestres, momento histórico e localização geográfica.
Assim é que venho detectando similitude do que chamamos de “jogo” (estilo pessoal, jeito particular de jogar) em alunos de diferentes mestres e em regiões diferentes, i.e., encontrando “jogos” parecidos com alguns dos companheiros de meus tempos antigos em locais diversos, como em Natal/RN, Goiânia/GO, etc.
Fato mais surpreendente foi ver, recentemente, na Academia de Mestre João Pequeno de Pastinha, aparecer um rapaz, cujo nome e mestre não consegui identificar, cerca de 17 anos, negro, alto, longilíneo; pescoço fino, elástico e forte; com um jogo incrivelmente semelhante ao do meu Mestre (Bimba), a ponto de me sugerir a sua reincarnação.

TOQUES PACÍFICOS E TOQUES DE GUERRA

Os vários toques, ritmos, andamentos e cânticos de candomblé associam-se a modificações de estados de consciência (transe de orixás) específicos de cada arquétipo. Sendo o estado de transe provocado pela adequação, sinergia, sintonia, harmonia, da música com o arquétipo (sensibilidade do ente sob seu campo energético ou vibratório).
Assim é que uma pessoa, sujeita aos diversos tipos de vibrações orfeônicas em campo sonoro desta natureza, poderá permanecer indiferente a vários padrões orfeônicos ou exteriorizar sua sensibilidade por manifestações motoras ou psicológicas em algum momento ou padrão, com o qual seu arquétipo se harmonize.
Consoante o tipo sonoro, pacífico, belicoso, calmo, agitado, lento, vivo, moderado, rápido, a entidade em sinergia manifestará sua sintonia por movimentos calmos, majestosos, vivos, violentos, guerreiros, etc.
Dentre os toques calmos destaca-se o ijexá, pela paz, alegria, felicidade e requebro a que se associa, razão pela qual permite os movimentos do samba de roda, do afoxé, batuque e capoeira.
A importância atribuída pelo nosso Mestre ao toque era tal que o compelia a usar apenas a musica do berimbau (tocado pelo próprio), sem pandeiro, para que os aprendizes fixassem o ritmo-melodia em toda sua plenitude. A exclusão de todo e qualquer outro instrumento que não berimbau e pandeiro da orquestra também decorria desta premissa.
Freqüentemente, quando os alunos jogavam com muito açodamento e velocidade durante um toque de “banguela” o Mestre resmungava:

“Tô disperdiçandu minha banguela!
“Só merecem mesmu a cavalaria!”
E…
“virava” para o toque mais duro e bruto da “regional”…
impiedosamente mais adequado para os embrutecidos…
insensíveis e afobados.

O CAMPO ENERGÉTICO
DA ORQUESTRA, CANTO, PALMAS E JOGO

O capoeirista, como todos os demais participantes duma roda de capoeira, está encerrado num campo energético, com o qual interage e portanto sujeito a todos os seus fatores em atividade
Reflete, portanto, não só seu estado pessoal, porém aquele do complexo energético da roda, sofrendo a influência de todo o conjunto.
Toda a excitação ambiental envolve os jogadores e transtorna a condução do espetáculo, o qual poderá evoluir para um circo romano em toda sua barbárie.
Razão pela qual, a assistência do jogo da capoeira, antigamente, nas festas de largo, assistia silenciosa e respeitadora, como numa cerimonia religiosa, o desenrolar do jogo de capoeira, procurando guardar os detalhes de cada um dos lances à procura da descoberta do mais habilidoso, elegante, malicioso, inteligente, destro dentre os participantes.
O silêncio e a paz ambiental propiciam a melhor percepção da mensagem orfeônica, o desenvolvimento do transe capoeirano e portanto, o desenrolar do jogo.
As palmas, introduzidas pelo Mestre Bimba para enfatizar a participação da assistência e esquentar o ritmo, alcançam atualmente intensidade tal, que não mais permitem ouvir o toque do berimbau e muitas vezes, sequer os cânticos, desnaturando a capoeira no seu ponto mais nobre, a musicalidade, fonte do transe, ponto capital do jogo.
O atabaque, formalmente condenado pelo Mestre Bimba, durante todo o tempo em que acompanhei a sua rota, foi introduzido pelo Mestre Pastinha e ulteriormente usado pelos grupos folclóricos, a partir de Camisa Roxa, Acordeom, Itapoan, etc. para enfatizar a “africanidade” original. Tocado por quem de direito, suave e discretamente, como pelas orquestras de Mestre Pastinha e seus descendentes; conhecedores dos arcanos, fundamentos, segredos musicais africanos, marca o andamento e acompanha o toque do berimbau, instrumento-rei da capoeira, ao qual deve acompanhar e jamais suplantar, obscurecer.
Em mão desabilitadas, como ocorre na rodas da chamada regional atual, torna-se arauto de ritmo guerreiro e acarretam um transe violento, que vem matando, ferindo, lesando impiedosamente os seus praticantes, desde que provoca um transe agressivo, belicosos, guerreiro, desenfreado e deve portanto ser proscrito em nome da legitimidade da capoeira e da segurança dos seus praticantes.
O agogô e o , são excelentes marcadores de compasso, indispensáveis nas orquestras de candomblé, embora não aceitos pelo Bimba, talvez por terem sido introduzidos por Pastinha, enriquecem as charangas dos seguidores do estilo de Mestre Pastinha e ajudam (e muito!) a manter a constância do andamento do toque.
O reco-reco, também introduzido pelo Mestre Pastinha, nos parece inócuo, sem maior expressão musical, dispensável, salvo para manter a tradição do estilo.
Aviola, hoje em desuso, de ausência lamentada pelo Mestre Pastinha em seus manuscritos, também encontrada no samba de roda, nos indica a origem comum da capoeira e do samba, como indicamos em nossos escritos sobre a família musical áfrico-brasileira.
Opandeiro, com redução dos guizos com recomendado pelo Mestre Bimba, marca o compasso e mantém a constância do andamento quando em mãos habilitadas. É comum no entanto que os mais afoitos (ou despreparados?) acelerem o ritmo ou se afastem do toque do berimbau, desde que não havendo treinamento adequado (ensaio) como fazem os descendentes de Mestre Pastinha ou responsável pela direção da orquestra ou charanga (fiscal no dizer de Mestre Pastinha) é comum alguém se apropriar indevidamente do manuseio deste instrumento.
Mestre Bimba dizia que “O pandeiro é o atabaque do capoeirista“.
Oberimbau é o instrumento-rei da capoeira, vez que somente o seu aparecimento na rodas de capoeira (antigamente citadas apenas como “ capoeira” pelo próprio Mestre Pastinha, algumas vezes referidas como “capoeira de Fulano de Tal“) é que marca o surgimento da capoeira como a reconhecemos atualmente, a capoeira da Bahia, seja o estilo “angola” seja o “regional”.
Torna-se portanto, indispensável ao bom desenvolvimento do jogo que seu toque predomine no ambiente, mantendo a uniformidade do ritmo e o entrosamento entre os parceiros duma “volta” ou “jogo”, sem o qual fatalmente existirão os desencontros e a violência.

TEXTOS CORRELATOS

ESTADO DE CONSCIÊNCIA MODIFICADO (TRANSE CAPOEIRANO)

 Sob a influência do campo energético desenvolvido pelo ritmo-melodia ijexá e pelo ritual da capoeira, o seu praticante alcança um estado modificado de consciência em que o SER se comporta como parte integrante do conjunto harmonioso em se encontra inserido naquele momento.
 O capoeirista deixando de perceber a si mesmo como individualidade consciente, fusionando-se ao ambiente em que se desenvolve o jogo de capoeira. Passando a agir como parte integrante do quadro ambiental em desenvolvimento. Procedendo como se conhecesse ou apercebesse simultaneamente passado, presente e futuro (tudo que ocorreu, ocorre e ocorrerá a seguir) e se ajustando natural, insensível e instantaneamente ao processo atual.
Decanio Filho, A. A. – in Fundamentos da capoeira (texto publicado em Capoeira da Bahia Online para download). 

BERIMBAU – A LIGAÇÏ ENTRE O MANIFESTO E O INVISÍVEL

O capoeirista para jogar capoeira não precisa de conhecer a história e a técnica da capoeira, por que o ritmo/melodia põe o ouvinte diretamente em sintonia com a “capoeira” abstrata, que abrange a fonte etérea dos movimentos, os paradigmas de jogos, os arquétipos de capoeiristas e talvez com a própria “tradição”. Por este motivo, poderemos aprender por ver, ouvir e dançar… como “Totônio de Maré” o fez no cais do porto de Salvador/BA.
“Itapoan” perguntou a “Maré” como aprendera capoeira e este respondeu:

“Vendo os outros jogarem. Gostei, entrei na roda e joguei!”

Conforme assisti em gravação VHS do acervo do Mestre Itapoan, em casa do mesmo.
E “Vovô Capoeira” fez o mesmo, aos 84 anos de idade, na roda de Mestre Canelão em Natal/RN.
Assim é que, aos poucos a conjugação da música com os movimentos relaxados vai orientando o capoeirista no caminho do transe que o conduzirá diretamente à fonte da capoeira, na face invisível da realidade, que não depende dos sentidos corpóreos.

COMPORTAMENTO HUMANO, VIBRAÇÃO SONORA E RITMO.

Em Ioga percebemos a importância dos mantras…
os gregos antigos atribuíram ao Logos o poder de organizar o Caos…
no Gênesis aprendemos a força do Verbo capaz de criar o Universo e a Vida…
… na África Antiga não foi diferente!

Os africanos ao divinizarem os seus ancestrais e cultua-los com ritmos e toques diferentes vinculados ou representativos de seus comportamentos, descobriram categorias fundamentais subjacentes ao nível de consciência, independentes de culturas e religiões, os arquétipos humanos, que denominaram de orixás.

O “SER” exposto às vibrações sonoras ritmadas oriundas dos atabaques entra em harmonia com as mesmas e passa a manifestar em movimentos rituais a sua consonância.
Tudo se passa como se o conteúdo musical dos toques de candomblé fosse aprofundando o nível vibracional do sistema nervoso central, especialmente do cérebro (tido como sede da consciência) e alcançando os níveis correspondentes ao arquétipo individual. Chegando a toldar a consciência e levando a um estado transicional em que o “SER” passa a manifestar, em movimentos rituais involuntários, atributos do arquétipo, através circuitos de reverberação medulo-espinhais como que gravados geneticamente na estrutura do seu sistema nervoso central.
Não é indispensável o conhecimento da doutrina e ritual do candomblé, bem como de componente genético africano para a sintonia com o ritmo do orixá correspondente, vez que já assistimos à chamada “incorporação” de entidades africanas em europeus em primeiro contacto com “exibição” de música de candomblé, portanto, fora do contexto religioso. Durante o tempo em que funcionei como “apresentador” do “show folclórico” de Mestre Bimba observei que alguns assistentes entravam em consonância ou harmonia com um determinado toque, não se deixando influenciar por outros, o que atribuí à correspondência orgânica ao arquétipo daquela pessoa, ao modo de categoria de comportamento em nível subconsciente.
Na capoeira, o ritmo ijexá, especialmente tocado pelo berimbau, conduz o ser humano a um nível vibratório, dos sistemas neuro-endócrino e motor, capaz de manifestar, de modo espontâneo e natural, padrões de comportamento representativos da personalidade de cada Ser em toda sua plenitude neuro-psico-cultural, integrando componentes genéticos, anatômicos, fisiológicos, culturais e experiências vivenciadas anteriormente, quiçá inclusive no momento.


Todos os capoeiristas conhecem o transe capoeirano, embora nem todos disto se apercebam, um estado de extrema euforia, e de integração ou acoplamento a outra ou outras personalidades participantes do mesmo evento, conduzindo a execução de atos acima da capacidade considerada como ‘normal”.

Trata-se dum estado transitório, em que não há perda total de consciência, porém existe uma liberação de movimentos reflexos, exaltação do potencial e ampliação do campo de influência vital de cada “SER”.
É interessante registrar que em outros membros da “família cultural da capoeira” (samba de roda, maculelê, afoxé, frevo, entre outros) encontramos estados transicionais assemelhados, em que os personagens ultrapassam suas limitações “normais”. De outro modo não assistiríamos a idosos desfilando em “escola de samba” ou saracoteando em frevo…
Assim cada capoeirista desenvolve um estilo pessoal, representativo do seu “EU”, manifestado de maneira imprevisível a cada jogo e a cada instante de cada jogo.

Consoante o arquétipo de cada praticante ou mestre, o momento histórico vivenciado, o contexto em que está se desenvolvendo, a capoeira pode assumir aspectos multifários, lúdicos, coreográficos, esportivos, competitivos, belicosos, educativos, corretivos, terapêuticos, etc.
Do mesmo modo e pelos mesmos motivos, cada tocador de berimbau manifesta a sua personalidade na afinação do instrumento, ritmo, andamento musical, impostação vocal e conteúdo do cântico.
Razões semelhantes criam a identidade de cada roda, a multiplicidade de estilos e impõe a alegria e a liberdade de criação como fundamentos da capoeira.

Por ser a própria Liberdade e a Felicidade de cada “SER” a capoeira não cabe, não pode ser enclausurada, em regulamentos e conceitos estanques, nem prisioneira de interesses mesquinhos, comerciais ou de outra natureza.
A capoeira oferece um gama infinito de representações motoras , comportamentais e musicais; de aplicações terapêuticas, pedagógicas, marciais e esportivas; além do aperfeiçoamento físico, mental e comportamental de cada praticante.
Cada um de nós cria uma capoeira pessoal, transitória e mutável, evolutiva, processual, como todos os valores humanos e poderá ser imitada, jamais reproduzida em clones, como produto industrial de fôrma, idêntico em todos detalhes.

É interessante o estudo do simbolismo dos constituintes da personalidade humana na arte iorubana que indica no mínimo a noção de níveis de consciência, pois entre os povos iorubanos a consciência (personalidade exterior) é representada pela coroa (ile ori), enquanto a personalidade íntima (ori inu) correspondente ao (subconsciente+inconsciente) é simbolizado pelo ibori, uma pequenasaliência no ponto mais alto da coroa.
Angelo A. Decanio Filhoo – Falando em capoeira, Coleção S. Salomão, CEPAC, Salvador/BA, pg: 51

https://portalcapoeira.com/downloads/transe-capoeirano

O papel da capoeira na educação

O papel da capoeira na educação

O que significa começar a jogar capoeira para uma criança? Essa pergunta pode ter muitas respostas diferentes, mas todas elas costumam convergir para um mesmo sentido: a importância da capoeira no processo de educação de um ser humano. Mas para que isso faça total sentido, é importante entendermos que, quando falamos de educação, não falamos simplesmente de um aprendizado formal, mas da formação de pessoas para viver em sociedade.

E para que tal formação seja completa, é preciso também entender qual é o papel que a capoeira cumpre (ou pode potencialmente cumprir) na vida de uma pessoa.

Preservação da cultura

Capoeira não é apenas uma tradição rica. Ela carrega consigo história e, principalmente, resistência de uma cultura que é ameaçada até os dias de hoje. Mesmo com a roda de capoeira declarada Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco, sempre há mais para se aprender da sua cultura e do porquê de se jogar capoeira até os dias de hoje.

Ao entrar em uma roda de capoeira, uma criança aprende, aos poucos, o que é a história da dança, da luta, da cultura, das gírias, dos movimentos e de tudo que envolve aquele ambiente. É por meio disso que ela também aprende a importância de se preservar essa cultura.

Lições como o respeito e a resistência são aprendidas no dia-a-dia da capoeira, seja com crianças que acabaram de fazer sua primeira aula ou mesmo aquelas que nasceram no meio. Tudo isso faz parte da construção das crianças como cidadãs, o que nos leva ao próximo ponto.

Capoeira e cidadania

A roda de capoeira é um local onde se pode aprender, entre outras coisas, lições importantes sobre como viver em sociedade. Cada pessoa tem uma função nesse momento. Alguns cantam, outros tocam berimbau, atabaque ou pandeiro, alguns acompanham, enquanto dois jogam. Em outro momento, as funções se invertem.

Por isso, além de aprender sobre o respeito, uma roda de capoeira pode ser um local para aprender sobre diversidade e divisão de tarefas. Não se trata de simplesmente respeitar uma hierarquia, mas aprender que cada um precisa exercer sua função para que o todo funcione.

Benefícios para o corpo

Praticar atividades físicas é algo importante no desenvolvimento de qualquer pessoa. E, por mais que isso seja deixado de lado por muitos, o desenvolvimento físico e a disciplina com o próprio corpo também são elementos fundamentais da educação.

Com a capoeira, uma pessoa aprende a ter mais elasticidade, um melhor condicionamento físico, uma melhor coordenação motora, mais velocidade, entre diversos outros benefícios para o corpo.

A importância das estratégias de ensino

Ensinar alguém exige traçar um caminho para alcançar o objetivo. É como um jogo que precisa ser vencido, da mesma forma que jogadores utilizam estratégias básicas para o blackjack como as das mãos duras e suaves, para o xadrez como o controle do centro do tabuleiro e a conexão das torres, ou para qualquer outro jogo que exija planos e táticas para vencer. Fato é que é importante que se saiba quais caminhos serão traçados nesse ensino. Para isso, é importante ter em mente por que a capoeira está sendo ensinada.

Há um papel fundamental de preservação cultura. Há um papel importante de formação de cidadania. Há também a importância da atividade física na vida de qualquer pessoa. Mas para que essa mensagem chegue até quem está aprendendo, estratégias devem ser traçadas pelo mestre.

A realidade é que o papel da capoeira na educação não se dá por esses elementos existirem separadamente, mas por sua união. Entender a importância de preservar a cultura te ajuda a entender seu papel como cidadão, que por sua vez tem relação direta com a forma como você se comporta em meio a outras pessoas. Tudo isso praticando uma atividade física, mas que vai muito além de um simples exercício.

É claro que todos esses elementos não são assimilados da noite para o dia. Mas é importante entender que a educação é um processo – e que precisa continuar a acontecer por toda a nossa vida.

Nato Azevedo: 1990 – REGISTRO HISTÓRICO

“A CAPOEIRA, filha da Terra, está sendo esmagada de pé!”
mestre NATANAEL, 1972, SP

Escrevo às 3 da manhã desta quinta-feira, já no final de um ano que só trouxe tristezas para todos, principalmente para quem votou em 2018. Escrevo ainda impactado pela filmagem de evento de 30 ANOS atrás que, pela ordem natural das coisas, nem deveria existir… mera fita VHS, perdida entre 20 outras, em maleta que nossos gatos decidiram transformar em impróprio “mictório”. Por mais de 30 dias nos assaltou a dúvida: as imagens nela teriam resistido ao Tempo, “devorador” de tudo ?! Pois aí está, graças mais uma vez ao Grupo MUZENZA — que trouxera à vida filmagem nossa de 1975/77 no Rio — esse registro da Capoeira “de Belém” em 1989/90, no então bairro de Marituba, pertencendo naquele tempo a Ananindeua. Na verdade, apenas pequena parte dos jogadores nessa fita era da Capital. Anote-se o fato de que o “Batizado” de Capoeira de mestre “BETO”, no qual virou mestre de fato, foi muito concorrido… não sei se houve outro com tantos professores, contramestres na época, um ou outro já se afirmando mestre. 

Eu tinha visão depreciativa de alguns deles enquanto praticantes… me penitencio com 3 décadas de atraso, vi-os em suas Academias num dia em que não estiveram bem. Nessa fita estão todos MAGNÍFICOS !Você que DETESTA Capoeira, que a julga sem conhecê-la, “coisa de vagabundos, de quem não tem o que fazer” — no dizer de nosso prefeito, evangélico, no início de 1989 — tem a obrigação de ver esse vídeo, admirar a extrema habilidade dos então professores e surpreender-se com o aproveitamento de alunos de 7, 9 ou dez anos, enfrentando sem temor alguns oponentes bem mais velhos.

Foi essa Capoeira — com esta qualidade ímpar — que sonhamos mostrar em junho de 1988 no CENTUR, inaugurando um Centro Cultural que só nos trouxe decepção e frustrações. Era essa Capoeira, essas imagens, que seriam enviadas ao Exterior na época, para vários países, pessoas do Canadá, Polônia e Alemanha, que nos escreveram curiosas para conhecer a Capoeira “do Brasil”. E essas imagens estariam ainda em cadernos, toalhas, postais, onde pudesse… sonhos que evaporaram, não tendo ficado nem as cartas do CCCP que, segundo soube ontem de noite, os cupins devoraram. Com isso, perdi a chance de identificar com exatidão a data da “formatura” do admirado “Beto”, benquisto por todos. Tentara eu conseguir junto a deputada federal Socorro Gomes — na época em campanha eleitoral aqui — ajuda que diminuísse as despesas do mestre, num tempo em que o professor arcava com o peso da compra das diversas cordas, com fotos, salgadinhos, refrigerantes, aluguel do espaço, etc. Talvez só ela, se viva fôr, possa esclarecer a data exata, provavelmente entre setembro e novembro de 1989 (período eleitoral), para a qual enviei 2 ou 3 cartas com a “chancela” do CCCP, pedindo apoio para o Grupo de Capoeira “ESCRAVO BRANCO”. Como ficou “me cozinhando em banho-maria” mandei ela e seu dinheiro às favas, porque “para o LIXO que era a Política ela não hesitava em gastar, doar”! Hoje, 2020, com dinheiro federal a rodo, continuo vendo a Capoeira FORA de todas essas benesses, esses projetos de auxílio, essa ajuda oficial. Não mudou coisa alguma em 30 anos, quem diria !


Mas, estamos bem pagos ! Ouvimos o registro emocionado de mestre DILSON BRITO, sempre em Marituba, se vendo quase menino, com todas as recordações que as imagens lhe trouxeram, trarão a quantos as assistirem. Resposta do côro segura, festa sem confusão, jogos belíssimos, inesquecíveis quase todos, com movimentos antigos lindamente recuperados. Surpresas de todo tipo, pessoas que nunca mais vimos, alguns poucos largaram a Capoeira ou morreram ! 

A registrar, um certo MAX, aluno do Imar naqueles tempos, hoje mestre “MAR”, com seu Grupo (no SESC em 1990) se expandindo Pará a fora. Adiante, o tal Max iria para o MMA, com carreira curta mas expressiva, para a Capoeira não tinha muito jeito. Minha contribuição nessa histórica fita foi levar o escritor Carlos Ano Bom para registrar o evento. Ao final, falo minuto e meio — que ninguém ouviu — e tem-se o raro registro de meu irmão “Carioca” / “Leiteiro” (em 1h13 min. da filmagem) jogando… sabe-se lá o quê, meio Angola, meio Regional, muito “Lua Rasta”, quase uma “xerox” do famoso Mestre, aluno que foi.  ASSISTAM!

Embora o assunto me entristeça (e aborreça), preciso esclarecer — com 3 DÉCADAS de atraso — equívoco que eu mesmo provoquei, ao declarar ao jornal DIÁRIO DO PARÁ em 4/jan. 1990 o recebimento “em breve” de 1 MILHÃO de cruzeiros da época, algo entre 120 e 150 mil reais hoje. Era o “trôco” que eu dava porque certo Ministro de Collor viera ao nosso bairro e distribuíra 32 contratos de verba para diversas ONGs (nem tinham esse nome), meras farsas boa parte delas, além de Centros (ditos) Comunitários que sequer possuíam mesas ou cadeiras, 1 TV velha para distração, pingpong, jogos de dama ou dominó de 5 reais… NADA, absolutamente nada, só “funcionando” em época eleitoral, ou seja, a cada ano e meio. Devo ter dado enorme susto ao tal Ministro, que acordou certa manhã vendo/lendo página inteira de projetos PARA A CAPOEIRA, êle que nada destinara à atividade. Mesmo assim não negou a “doação” fantasma, “cacifou” a “fake news” a seu favor ! Entretanto, com a gente morando numa “favela” do Icuí (“invasão”, aqui no Pará) julgaram alguns que os gêmeos cariocas “estavam nadando em dinheiro” e que o tal Centro – CCCP… “era só bandalheira, safadeza e picaretagem”.

São águas passadas que nem valem a pena recordar… curtam pois estas belas imagens produzidas graças ao contramestre SAN, deem LIKE no canal CTC SAN MUZENZA, ( https://youtu.be/qMaob-RI1Ss ) divulguem, compartilhem. E aguardem que vem mais aí, há dúzia e meia de fitas VHS esperando a hora de serem reveladas, Tem muita surpresa para chegar !

Esse RESGATE da História da Capoeira paraense necessita continuar e ampliar-se sempre mais !   

“NATO” AZEVEDO (em 17/dez. 2020, 3hs)

OBS: por suprema ironia do Destino, a pessoa que mais criticamos (e combatemos em 90/92) é a que mais impressiona, com um jogo objetivo e criativo, fazendo jus ao título / corda / graduação de MESTRE, que lhe negávamos naquela época.

Como essa filmagem o engrandece… ESTAMOS QUITES ! (NATOAZEVEDO

Capoeira em Tempos de Pandemia

Capoeira em Tempos de Pandemia

O ano de 2020 foi desafiador, uma Pandemia mundial fez com que aprendessemos a valorizar o olho no olho. A arte e a cultura foram essenciais para nossa saúde mental e a Capoeira se reinventou e ajudou muita gente a passar melhor por essa tempestade que assolou o mundo.

Durante o período de isolamento social Capoeiristas do mundo inteiro produziram vídeo aulas, tutoriais, eventos, bate papos, lives no YouTube, Instagram e Facebook. Aprenderam a utilizar programa de estreaming e edição para que a Capoeira sobrevivesse mesmo sem sua principal motivação de ser que é a reunião da comunidade de Capoeiristas. Por aqui não foi diferente eu produzi mais de 50 vídeos com aulas divertidas e com uma linguagem toda adaptada para que as crianças não deixassem de continuar gingando dentro de suas casas, foi um trabalho difícil, desafiador mas que permitiu que as pessoas continuassem se conectando a Capoeira e a comunidade de Capoeiristas.

Capoeira em Tempos de Pandemia Capoeira Portal Capoeira

É isso o que acredito ser Capoeira, a capacidade de se reinventar e descobrir novas formas de conectar as pessoas em volta do Berimbau. Você pode assitir a todo material produzido no meu canal do YouTube (Lucas Buda Capoeira) youtube.com/lucascdcr venha fazer parte dessa roda virtual com a gente.

Por: Lucas Buda

Fonte: https://capoeirainfantil.org/

A CAPOEIRA “SOFISTICADA” DO SÉCULO XXI: Entre a felicidade da potência e a potência da felicidade

A CAPOEIRA “SOFISTICADA” DO SÉCULO XXI: Entre a felicidade da potência e a potência da felicidade

Por: Mestra Brisa e Mestre Jean Pangolin

Você já parou pra pensar um pouco nos infinitos jogos que fez, ou vistes fazerem, onde a sua preocupação, ou a do(a) outro(a), estava mais no olhar do espectador da roda, do que “efetivamente” na conexão com o (a) parceiro(a)? Já percebeu que as vezes a gente fica mais preocupado com a beleza do movimento, do que com sua eficiência no jogo? Neste texto falaremos um pouco desta “sofisticação”, que nem sempre está a serviço do objetivo central do jogo – o diálogo. Vamos lá?!

Buscando algo que pudesse fazer analogia com esta temática, fomos beber na fonte do termo “sofisticação sexual”, que está cunhado na obra de Alexander Lowen – discípulo de Wilhelm Reich, em seu livro “Amor e Orgasmo”, e este define que, em contraponto à um passado de proibições e restrições das questões relativas a sexualidade (seja na infância e adolescência, seja nas civilizações que nunca preparavam-nos para mergulhar neste universo como tabú), atualmente vivemos uma fase em que é preciso fazer sexo o tempo inteiro, gostando disso sobre todas as coisas, explorando todas as variações de parceiros e de técnicas sem a mínima implicação afetiva e cuidado consigo, sendo todos aqueles que escapam desta nova faceta, considerados sexualmente problemáticos ou fora do tempo.

Nesta nova forma de vida, o desempenho performático é mais importante do que a experiência em si, pois os sentimentos cedem lugar a uma necessidade exagerada de impressionar a outra pessoa, sendo o ato sexual uma grande encenação e não a manifestação de sentimentos pelo parceiro. Neste sentido, para Lowen, este comportamento é uma camuflagem que oculta a imaturidade, os conflitos e as ansiedades sexuais provocadas pela neurose da vida em sociedade.

Para Reich, a lógica do patriarcado, a sociedade de consumo, as restrições da sexualidade nas crianças e nos jovens, por uma “moral” castradora, tem desenvolvido neuroses nos adultos que são desdobradas em problemas por exemplo como a ejaculação precoce para homens ou dificuldade de ereção, sendo estas expressões da “sofisticação sexual” que nos acomete, pois a necessidade de impressionar o outro determina uma busca desenfreada pela performance esvaziada de implicações ritualísticas com tudo que se faz, sendo este mesmo comportamento ocasionado por ansiedades, medos, culpas e frustrações que impedem a plena realização orgástica/felicidade.

Pense conosco… Quando observamos as rodas de capoeira na atualidade seria possível perceber uma analogia perfeita com a “ejaculação precoce“, pois os jogos duram uma fração de segundos (com suas exceções), e estão investidos de uma grande dose performática, são tensos, e, na maioria dos casos, representam a expressão neurótica do século XXI, pois são protagonizados por pessoas que, em comparação ao ato sexual, estão mais preocupadas em chamar a atenção (vaidade) do que com a experiência ritualística daquilo que o berimbau determina no contexto do jogo, do que um “diálogo que permita a conexão, ou uma conexão que permita o diálogo”.

Estes traços neuróticos, que estão em mim, em ti, ali, são fruto desta nossa sociedade, infectada pelo moralismo castrador que gera uma busca desenfreada por compensações, desenvolvendo uma autoconfiança artificial e afetada, gerando uma necessidade extrema de demonstração de uma “potência fake”, tudo isso para diminuir a infelicidade inconsciente pela impotência orgástica (assumamos aqui a potência orgástica como a incapacidade de acessar a felicidade segundo Reich).

Ou seja, a impossibilidade de desfrutar um bom jogo de capoeira – com perdas, ganhos e muita sintonia, pelo medo ou ansiedade na exposição e na possibilidade de demonstrar minha fragilidade daquele minuto, dificulta uma experiência no tempo necessário de amadurecimento da dinâmica ritualística, ocasionando uma eterna frustração que faz com que eu, você ou o(a) outro(a), todos capoeiras “adoecidos”, tenhamos que comprar sucessivas vezes o jogo numa tentativa de sanar o vazio interior por sua “incapacidade” de se conectar com o contexto para além de si mesmo.

Para nós, salvo melhor juízo, a busca por alternativas ao problema dos jogos de capoeira de poucos segundos e as compras desenfreadas está em dois fatores principais, sendo o primeiro deles o reconhecimento de que a capoeira, não sendo uma ilha social, não funciona “isolada” das mazelas psicológicas que afligem os seres humanos no mundo “civilizado”, logo, a solução precisa ser conjuntural.

Este primeiro fator nos conduz a segunda estratégia que é focada na especificidade da capoeira e seus praticantes, ou seja, educando os mestres para uma referência ancestral iniciática que respeite o tempo de amadurecimento ritualístico da arte e referende o “sentir” em detrimento de uma performance esvaziada e artificial, estaremos preservando grandes valores ancestrais que de fato edificam uma prática de capoeira mais genuína.

Concorda? “Sem”corda? Faça uma breve pesquisa e veja a “capoeira das antigas”, passei pelo jogos filmados das primeiras décadas deste século. Onde estava a intencionalidade dos capoeiras? Na câmera que o filmava? Na plasticidade do movimento? Ou majoritariamente no cuidado com a belicosidade do outro? No cuidado com todos os meneios que o parceiro de jogo poderia ofertar como desafio? De certo que nestas décadas já eram fortes as tendências que falamos acima porém, veja como tudo parece que tomou rumos mais neuróticos, menos conectados – em contrapondo a era da conexão tecnológica?

É gozado… (risos)… Mas a real é que não conseguimos “gozar” de um bom jogo de capoeira exatamente como temos dificuldades de “gozar” com plenitude a vida em sociedade. Que possamos aceitar que, como dizia Vinicius de Moraes… “A vida não é brincadeira, amigo… A vida é arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida.” Saravá!

Axé!

 

Ei, psiu, gostou? Então por favor compartilha, para que juntos possamos ajudar nossa capoeira a refletir!

(DES)CAMINHOS DA CAPOEIRA: Entre o que queremos e o que fazemos

(DES)CAMINHOS DA CAPOEIRA: Entre o que queremos e o que fazemos

O antigos sempre diziam…”fulaninho mirou no peixe e acertou no gato”…”eita pessoa de sorte”… Seria bom se fosse sempre assim, ou seja, se o descompasso entre o objetivo final e o caminho para alcançá-lo pudesse sempre ser corrigido pelas mãos do “destino”. Neste sentido, trataremos nas linhas que seguem de alguns desencontros vivenciados na capoeira, considerando a diferença entre o que queremos e aquilo que, de fato, estamos fazendo para alcançar dado objetivo.

É comum ouvirmos de vários capoeiras que os mesmos sonham com a emancipação da arte e conseqüente valorização das culturas populares de matriz africana, contudo, muitas vezes, aqueles que sonham com a tal mudança, são os protagonistas diretos de comportamentos humanos que depreciam a capoeira e toda sua comunidade.

Não é difícil encontrar capoeiras que tem atitudes extremamente violentas em roda, e que quando conversamos com eles sobre suas metas dentro da arte, eles afirmam que desejam ver mais respeito no jogo e valorização dos fundamentos….oxente!….O que é isso? Uma espécie de catarse coletiva?…. O fato concreto é que muitos nem sequer conseguem perceber o disparate entre sua fala e suas atitudes.

Outro dia conheci um cidadão que FORA da roda era calmo, manso, falava sobre educação e respeito em suas aulas, defendia a cultura de paz em suas palestras dizendo que a capoeira é um excelente instrumentos para este objetivo, até mantinha uma vida saudável, alimentação vegetariana, fazia Yoga, e, pasmem, quando ADENTRAVA o espaço da roda, se transformava no pior dos indivíduos, despropriado de qualquer senso de cuidado consigo e com o outro, só querendo jogar pra cima, veloz e sempre fora do ritmo da bateria, em franco “ataque epiléptico”, combinando vaidade e desatenção com o que fala e deseja em seu estado de “repouso”. Quantas vezes você se deparou com um capoeira destes?… Pois é!?

Outro dia li um texto de um destes “revolucionários do minuto”, aqueles que não conseguem nem equilibrar suas próprias vidas, mas se arvoram a “lutar” pela humanidade… (só rindo)… No texto, este indivíduo, em tom eloqüente, defendia a importância dos editais públicos para os antigos mestres de capoeira, mas, contraditoriamente, a mesma figura do discurso bonito estava envolvida com atos ilícitos na gestão de verba pública de editais… Epa!!! Pára tudo !!! É muita loucura e/ou falta de caráter…

Em tempos de forte discussão sobre a regulamentação profissional da capoeira, por exemplo, tenho visto muitas pessoas defendendo o respeito as diferenças e o amplo exercício democrático, contudo, ao mesmo tempo, apóiam uma lógica de gestão para a capoeira que estabelece uma reserva de mercado controlada por uma CRECA (Conselho Regional de Capoeira) que, possivelmente, será capitaneado por pequenino “grupinho” de egos desfilantes… Ahhhh, CRECA foi um termo cunhado pelo amigo, Mestre Jones Birro Doido, que retrata com maestria a “ferida” aberta em nossa arte… Minha gente, cadê o bom senso dos defensores da tal CRECA?

Pense comigo outra situação… Quando algum capoeira, dizendo-se “ativista étnico” em favor do povo preto, jogam com identidade totalmente vinculada a lógica de ocidentalização da capoeira, valorizando exageradamente a performance individual, a espetacularização do jogo e um profundo esvaziamento ritualístico, negando muitos dos princípios afrodescendentes, o que ele DE FATO representa? Se nem ao menos se percebem fortalecendo um formato de capoeira que NEGA e negligencia sua própria ancestralidade, NÃO estaria ele depondo CONTRA sua “bandeira de luta”? Isso é ingenuidade ou má fé?

Ou seja, qual a ligação entre o que falo e o que faço? Entre o que desejo e o que faço para alcançar? Se pudermos lembrar que “Quem planta colhe”, que “Se plantas limão, só poderás colher limão”, e que “tudo que semeias, cedo ou tarde, terás que colher” TALVEZ comece a se perguntar “O que estou plantando?” para ver se, de fato, COLHERÁS o que desejas!

Axé!

Ei, psiu, gostou? então compartilha, ajude nossa arte a refletir e crescer!

 

Por: Mestra Brisa e Mestre Jean Pangolin

 

Coletivo Capoeiragem