Violência e Capoeira – Parte 2
21 Jan 2018

Violência e Capoeira – Parte 2

Na última coluna escrevi sobre violência e a capoeira, e como muitas vezes o discurso sobre a violência, está relacionado ao estilo

21 Jan 2018

Na última coluna escrevi sobre violência e a capoeira, e como muitas vezes o discurso sobre a violência, está relacionado ao estilo de capoeira que alguém joga. Um discurso que inclui facetas ligados à historia da nossa arte.

Mas, podemos nos perguntar se tudo é tão simples assim: se a violência é uma coisa relacionada ao estilo, à interpretação do jogo, ou se existem outras dimensões a serem abordadas

Para compreendermos melhor do que estamos falando, quando falamos de violência e a capoeira, é preciso ver a origem e definição da palavra ‘violência’ em si mesma. E como ela é entendida nas várias outras áreas da nossa existência que também encontram (formas de) violência diária.

Então, o que é a violência, no fato?

Na verdade, não há mesmo uma definição ‘geral’, ou comum, de violência, como há por exemplo de amor, felicidade ou ódio. Claro, que há uma definição no dicionário[1], mas parece estar sempre relacionado ao contexto (sentido) e ao objecto (a direcção da violência). Talvez esses são dois aspectos ‘gerais’ aplicados em qualquer tipo de violência.

É o contexto que decide se um ato é violento ou não; porque o mesmo ato pode ser violento num contexto quando não é em outro – a mesma banda dada em um iniciante pode ser muito mais violenta do que em um capoeirista avançado, ou ter uma outra significação numa outra roda.

E a violência é sempre direcionada à algo; seja um objecto, outra pessoa, ou à si mesmo. Quando falamos sobre direcção, prendemos também em conta o efeito e a intenção do ato. Por exemplo, a definição da Organização Mundial de Saúde (WHO) mostra que a violência não é só o ato, mais inclui necessariamente o efeito, e a intenção:

o uso intencional da força física ou poder, ameaçados ou reais, contra si mesmo, contra outra pessoa ou contra um grupo ou comunidade, que resultem ou tenham grande probabilidade de resultar em ferimento, morte, dano psicológico, mal desenvolvimento ou privação.”[2]

Mas aí já não só falamos sobre atos físicos: falamos também sobre a violência psicológica, ou mental, que muitas pessoas sofrem toda dia e seus efeitos muitas vezes são mais profundos, mais danificadores e duram mais tempo. É uma das razões por exemplo porque a violência sexual é tão desastroso, ainda mais quando é feito contra crianças. E isto não é só limitado ao físico também não; ofensas, ameaças e manipulações também causam sequelas mentais (que depois podem causar outras sequelas físicas).

Não foi o Mahatma Gandhi, grande lutador pelo paz, que falou que toda tentativa de parar com as guerras no mundo será fútil enquanto a gente continuar usar a violência psicológica diária entre nós (as pequenas guerras)? Que todo movimento contra a violência física irá se enfraquecer enquanto a gente não resolver a raiz de todo mal – que é o ganância – e a pobreza, que para ele era a pior forma de violência?[3]

De certa maneira, isto também se relaciona com o que o filósofo e educador Americano John Dewey falou, que a violência é uma força que tomou um rumo errado, ou até uma força destrutiva e danificadora. “Energia se torna violência quando derrota ou frustra propósitos em vez de executar ou realizar isto. Quando a dinamite faz explodir humanos em vez de pedras, quando seu resultado é lixo em vez de produção, destruição em vez de construção, nós não chamamos isto energia ou poder, mas violência.”[4]

Precisamos abrir a nossa concepção do que é a violência, e como isto se relaciona à capoeira. Pior que o ato é o efeito da violência; o mal que faz. Isto pode ser a lesão física, claro, mas também a humilhação, o medo e – o que sempre acompanha o medo – o ódio.

E aí os discursos sobre a violência e estilos e interpretações da capoeira já ficam diferentes: porque o golpe ou a queda já não dói tanto do que a humilhação. Aí começamos a ver quem joga com o medo do parceiro, e quem o cria. E quem leva ate ódio. E começamos a entender as várias dimensões e intensidades da violência, que na verdade tem pouco a ver com um estilo de capoeira.

Essas reflexões também levam às consequências para o ensinamento da capoeira, para as crianças, e para os adultos. O que é aquele ‘tapa educadora’ ? Quando estamos treinando a resistência do aluno, e quando estamos criando medo? Deveríamos tocar -lhe para ensinar a esquivar mesmo? E qual será a intensidade da força usada?

Me lembro a historia que o saudoso mestre Leopoldina várias vezes falou: que quando ele começou a aprender a capoeira, o seu professor da época – Quinzinho – um dia deixou ele treinar com um capoeirista mais antigo no jardim, e quando este capoeirista bateu o novo Leopoldina uma vez, logo meteu um revólver na testa do cara para indicar de não lhe bater, para ele não desenvolver o medo.

Vamos ver o que isto significa para nós nos dias de hoje, na próxima.

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[1] Dicionário do Aurélio: A. A qualidade do que é violento (ex. violência da guerra) e B. Acção o efeito de empregar força física ou intimidação moral contra; ato violento. C. Exercício injusto ou discricionário, gerado ilegal, de força ou de poder. D. Força súbita que se faz sentir com intensidade; fúria, veemência. E. Constrangimento físico ou moral exercido sobre alguém, para obrigá-lo a submeter se à vontade de outrem; coação. F. Cerceamento da justiça e do direito; coação, opressão, tirania

[2] Krug et al. (2002) World Report on Violence and Health, World Health Organisation, Geneva.

[3] Gandhi, M.K. (1942), Non-Violence in Peace and War, Vol. 1. Navajian Publishing House

[4] Dewey, J. (1980) ‚Force, Violence and Law’ and ‚Force and Coercion’, in: J. A. Boydston (ed.), John Dewey, The Middle Works, 1899-1924, Volume 10: 1916-1917. Carbondale, Southern Illinois University Press, pp. 211-15 e pp. 244-51. Tradução para Português é minha.

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