A Boca do Rio é "BOCA DE ZERO NOVE" | Capoeiras de Salvador

A Boca do Rio é “BOCA DE ZERO NOVE”

CAPOEIRAS DE SALVADOR
A Boca do Rio é “BOCA DE ZERO NOVE”
Por: Mestre Jean Pangolin

Uma parte significativa de minha formação em capoeira devo aos capoeiras da Boca do Rio e toda cena cultural desta localidade de Salvador – Bahia. O bairro, no passado, era denominado de Boca do Rio das Pedras, pois ali era a foz desse rio, e sua origem esta vinculada à atividade de pescadores, remanescentes do antigo quilombo do Cábula e a migração de pessoas que foram expulsas de bairros como Pituba e Ondina, ou seja, a cultura afrodescendente sempre “pulsou” neste lugar mágico.

Na Boca do Rio vivi do “luxo ao lixo” da capoeira, pois ali pude experimentar situações muito complicadas nas diversas “rodas”, mas também conviver com grandes nomes da arte capoeira, tais como: Mestre Vermelho (Moenda), Mestre Nô, Mestre Bozó Preto, Mestre Barúlino, Mestre Lázaro, Mestre Dalmo, Mestre Touro, Mestre Dendê, Mestre Jelon Vieira, Mestre Valdir (Axé), Mestre Lazinho, Mestre Jones (Birro Doido), Mestre Bura, Mestre Marreta (Augusto), Mestre Agulha, Bira Gaguinho, Macaiada, Grossinho, Tifun, Pinho, dentre outros. Neste sentido, pela impossibilidade de falar especificamente de todos os citados, vou me ater aos “causos” de alguns destes comigo, sem, contudo, nenhum demérito aos demais.

Mestre Vermelho foi meu patrão no Restaurante Moenda, no tempo em que fiz parte do quadro de show parafolclórico da casa. Ele e sua esposa (Édva Barreto) me ajudaram muito a entender os meandros da “capoeira de palco”, e isso foi fundamental para que eu pudesse transitar entre os “grandes nomes” que também faziam parte do quadro de artistas….. Só para terem uma noção do que descrevo…Mestre João Grande foi membro do mesmo grupo durante muito tempo.

Mestre Lázaro sempre me inspirou positivamente, pois, mesmo em minha fase de mais vaidade por preparo técnico e força física, precisei me curvar a condição de capoeira dele…..Lembro que organizei ema roda em meu espaço cultural e convidei diversos capoeiras, e neste dia, ofuscado pela soberba desavisada de um capoeira “suor e músculos”, me arvorei a tentar jogar “duro” com Lázaro…..Rsrsrsrsrsr…… Quando dei por mim, já estava no chão, e ele sorrindo e com as mãos estendidas para me levantar da rasteira que havia me dado…..A queda foi tão bem dada, que eu só consegui agradecer pelo jogo e apertar a mão dele…. Grande lição de capoeira aprendi neste dia…. “Calça do homem não cabe em menino”…. Obrigado meu amigo!

Mestre Valdir (Axé), o “comandante” da capoeira no Circo Picolino (espaço cultural importante na Boca do Rio). Exímio capoeirista, com flexibilidade e destreza corporal invejável. “Boa praça”, sempre sorridente e amigável, me ajudou muito a entender a combinação entre belicosidade (perigo de jogo) e cuidado com a estética dos movimentos.. Eu, por imaturidade capoeiristica, confundi meu papel de mero “aprendiz” deste “gigante da arte” e acabamos nos desentendendo, fazendo com que ficássemos um tempo sem nos falar, fato com corrigi anos atrás, restabelecendo contato e pedindo PERDÃO, que faço questão de reforçar agora publicamente….. Valdir, generoso como sempre, me acolheu e, como bom amigo, finge não lembrar de absolutamente nada de negativo, elevando nossos papos sempre com boas memórias… O mundo precisa de mais MESTRES assim, cheios de AXÉ.

Mestre Lazinho é minha inspiração da capoeira de “forma sem forma”, pois ele é o cara mais imprevisível que já vi jogar, tirando golpes do nada, de onde se menos espera vai sair a meia lua….Com ele tive o “vislumbre” para desenvolver a Técnica da “Base Paralela” na execução movimentos contrários (contragolpes)…. Meu pai dizia que aprendemos na “dor” ou no “amor”…Rsrsrsrs… Na Boca do Rio, por minhas limitações, geralmente aprendi na “dor”. A “base paralela” nasceu da experiência em uma roda na antiga “festas dos pescadores”, que acontecia nas quadras da Boca do Rio… Neste dia fui jogar com Lazinho, depois de um dia inteiro treinando com ele na praia, e em determinado momento, no meio de um giro para fazer uma armada, recebi uma “sapatada” no rosto, fruto de uma meia lua contrária que ele executou “do nada”….. Depois, quando eu estava sentado e passando gelo, ele veio e me disse…”Jean, o que derruba é CONTRAPÉ”….Rsrsrsrsrsrsrs…. Aprendi ali que a capoeira é “dura” para quem é “mole”, fui para casa e no outro dia já havia desenhado toda a cinesiologia Técnica da “Base Paralela”…. OBRIGADO LAZINHO!!!!

Mestre Jones (Birro Doido) é o cara que me ensinou a combinar profissionalismo, inteligência e empreendedorismo, pois ele sempre estava a frente de seu tempo. No tempo em que todos pensavam em gastar, ele poupava grana, no tempo em que todos pensavam em “trocar porrada”, ele fazia dinheiro com show, no tempo em que a maioria tinha preconceito contra a universidade, ele foi estudar e se fez grande também naquele lugar….. Meu RESPEITO a BIRRO DOIDO, que de “doido” não tem absolutamente NADA….

Mestre Bura foi uma das pessoas que mais teve paciência para me ensinar. Sempre tive muita dificuldade para aprender capoeira, e ele, com muita generosidade, passava horas na praia me explicando a maneira mais fácil para sobreviver entre as “cobras” sem ser picado…. Rsrsrsrs….. Capoeira “duríssima”, com golpes precisos, se destacava entre os capoeiras por sua capacidade técnica e por sua Bike Caloi, que só ele tinha no bairro…Rsrsrsrsrs…… VALEU MEU IRMÃO!!!!

A todos os outros citados, reforço a gratidão de VERDADE… Marreta, obrigado pela cantiga “Lagoa do Abaeté”…. Agulha, obrigado pelas rodas na praia…. Grossinho, ainda lembro do martelo na orelha, na roda do alto da Nona…Rsrsrsrs…. Por essas e outras, a Boca do Rio é “BOCA DE ZERO NOVE”.

Axé:.

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