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Jornalismo com ginga e berimbau

Jornalismo com ginga e berimbau

Hoje, apresento para aqueles que não conhecem um dos mais importantes portais de notícias que tratam especificamente sobre o universo da capoeira. Mas antes de falar sobre o Portal Capoeira, vou comentar como conheci o portal em questão e como fiquei mais íntimo desse universo fazendo pesquisa sobre capoeira no doutorado (MARCELLO, 2023).

A princípio, em minha tese, a ideia inicial era realizar uma etnografia diretamente com mestres e mestras de capoeira, mas por causa do contexto pandêmico da Covid-19, tive que abandonar essa ideia e partir para a análise de uma mídia impressa. E diante de todos os desafios que uma tese de doutorado pode fornecer, para mim, o mais difícil foi encontrar uma mídia tradicional (Folha, Estadão, O Globo etc.) que tivesse matérias para analisar os discursos sobre a prática da capoeira e que relacionassem com o racismo, mas que de certa forma me aproxima-se dos mestres e mestras de capoeira, tal como fosse uma etnografia.

A pesquisa de doutorado é algo individual, porém, infalivelmente conta com a ajuda de diversas formas, desde apontamentos de orientadores/as até preciosas sugestões da banca de qualificação, e o que acabou sucedendo foi um grande fármaco para o meu problema.

Sendo assim, na minha banca de qualificação, tive como sugestão do prof. Dr. Luciano Maluly que se abandonasse a análise de uma mídia tradicional, pois seria mais interessante analisar algum formato de mídia que tratasse de maneira mais íntima o universo da capoeiragem. Acabou que o prof. Maluly citou o nome do Portal Capoeira.

Prontamente, fui verificar a sugestão, e fiquei encantado com a riqueza de informações sobre a capoeira, mas o que foi uma boa surpresa era que o portal tinha uma enorme gama de informações além da capoeira, e o mais interessante era que essas informações eram escritas em sua maioria por mestres e mestras de capoeira, ou seja, desta forma conseguiria sanar meu problema inicial, me colocando em certa medida o mais próximo possível dos discursos dos/as mestres/as de capoeira.

Diante dessa grande dica, uma das primeiras coisas que fiz foi entrar em contato com o mestre Luciano Milani, criador e responsável pelo portal. O mestre logo me respondeu e marcamos uma reunião online, pois ele mora em Lisboa. Na nossa reunião, consegui informações fundamentais sobre o portal e percebi como ele era importante para a trajetória da capoeira.

O Portal Capoeira é o maior site com informações sobre a capoeira em língua portuguesa, contando com uma periodicidade de 10 a 15 dias para novos conteúdos, tendo um grande número de colaboradores/as que estão envolvidos em algum grau com a capoeira, sendo em sua maioria mestres e mestras. Isso é um dado importante, pois, como Pedro Abib (2015) menciona, é na memória do/a mestre/a de capoeira que a capoeira se mantém viva, sendo ele/a um “guardião da memória”.

Atualmente, o portal conta com mais de 5,8 mil notícias/artigos publicados e a parceria de mais de 659 grupos/academias/escolas de capoeira, representando cerca de 32,6 mil capoeiristas registrados/das. No entanto, o site não se resume apenas ao conteúdo escrito; a sua estrutura engloba diversos tipos de linguagens, como fotos, vídeos e rádio.

Sem prolongar nossa prosa, vou trazer uma das informações mais interessantes sobre o portal: a sua criação. Na conversa com o mestre Luciano Milani, mencionado anteriormente, ele me relatou a gênese do site. O mestre sempre foi uma pessoa envolvida com a capoeira desde a infância. No entanto, teve um período em que ficou afastado da arte, pois foi morar e trabalhar em um país (Portugal) com uma cultura diferente da sua. Sendo assim, viu-se impossibilitado naquele momento de praticar e ensinar a capoeira, o que acabou deixando o mestre com saudades de sua terra e da arte que sempre o acompanhou.

No entanto, o mestre Milani buscou um meio para se aproximar da capoeira e de seus/as amigos/as, mesmo que distantes. A solução foi começar a escrever sobre a capoeira em um blog. Segundo relato do mestre, o mais impressionante para ele foi descobrir que seus textos tinham um público bastante interessado, o que o incentivou a continuar e expandir o blog para um portal de notícias em 2005. O ato de escrever acabou sendo uma forma de praticar capoeira para o mestre Milani, que hoje em dia voltou a ensinar capoeira, mas agora em Lisboa.

Fazendo uma breve reflexão sobre esse relato, podemos compreender que um esporte também pode ser construído por palavras, basta tomarmos ciência desse relato, no qual um mestre de capoeira que buscou, através do fazer jornalismo, estar mais próximo da capoeira, e não apenas dela, mas de seus amigos e amigas, de seus alunos e alunas, de sua cultura e de seu país de origem. Isso acabou dando forças para voltar a dar aulas de capoeira em uma terra longínqua.

E para finalizarmos, não poderia deixar de fazer o convite para o/a leitor/a visitar o Portal Capoeira, um site que ainda é mantido com muito esforço e dedicação pelo mestre Luciano Milani, sendo um prato cheio para quem quer conhecer um pouco mais sobre a capoeira.

Conheça mais:

Portal CapoeiraDisponível em: https://portalcapoeira.com/

Referências

ABIB, Pedro. Conversas de capoeira. Salvador: Editora da Universidade Federal da Bahia, 2015.

MARCELLO, Murilo Aranha Guimarães. Racismo, decolonialidade e crítica à ideologia: uma análise de discurso do Portal Capoeira. 293f.  Tese (Doutorado em Comunicação e Cultura) – Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura, Universidade de Sorocaba, Sorocaba-SP, 2023.

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*Murilo Aranha Guimarães Marcello é Doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade de Sorocaba.

Fonte: https://www.usp.br/esportivo/?p=4135

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