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!?! Liberdade – Abolição – Escravidão ?!? – 13 de Maio – Uma data para refletir…

No próximo dia 13 de maio o Brasil completa 119 anos de Abolição.
 
Para não deixarmos esta data passar em "branco" e para fomentarmos uma reflexão em torno deste assunto, o Portal Capoeira sugere: 

!?! Liberdade – Abolição – Escravidão ?!?
 
Como tema deste mês.

 
Separamos especialmente para os leitores e visitantes do Portal uma série de textos que abordam a Abolição, a Consciência, a Liberdade e a Escravidão…
 
Fica aqui a dica de boa e proveitosa leitura!!!
 

Belém: Grupo apresenta ensinamentos da capoeira

Um forma diferente de apresentar a filosofia e os movimentos da capoeira é o que o Grupo Capoeira Brasil fará no próximo domingo (22), no Coliseu das Artes, no Espaço São José Liberto, a partir das 18 horas. Com entrada franca, a apresentação terá dois momentos bem distintos: a primeira consiste na leitura de textos que trazem a base teórica da capoeira e, na segunda etapa, a consolidação desses ensinamentos, com a mostra dos movimentos característicos da capoeira.

Segundo Fábio Fernandes, graduado corda azul do grupo, hoje o 'Capoeira Brasil' reúne, em Belém, cerca de 70 integrantes. Atuando há 10 anos na capital paraense, o grupo foi fundado há 25 anos, tendo como principais representantes os mestres Paulinho Sabiá, que está na França; Boneco (o ex-ator Beto Simas), que divulga a capoeira nos Estados Unidos, e Paulão, que está na Holanda. Os grandes mestres, frisa ele, estão no exterior, onde a capoeira é mais valorizada e incentivada como cultura popular.

Surgida no tempo da escravidão como única forma de os escravos atacarem os feitores das fazendas e capitães-do-mato (que caçavam os escravos fugidos), a capoeira foi, ao longo do tempo, ganhando novos elementos, agregando valores e se tornando contemporânea.

Durante a apresentação no São José Liberto, um ator interpretará textos sobre a escravidão e a história do negro no Brasil, para que o espectador conheça o universo da capoeira. Em seguida, serão mostradas as várias possibilidades musicais, ao som de berimbaus e violões. Na última parte, toda a evolução dos capoeiristas.

"Vamos fazer uma apresentação bem didática, para formação de platéia, fazendo com que as pessoas se identifiquem com a filosofia da capoeira", ressalta Fábio Fernandes.

Serviço: Apresentação do Grupo Capoeira Brasil. Domingo (22), às 18h, no Coliseu das Artes – Espaço São José Liberto. Entrada Franca.

Fonte: Agência Pará – http://www.pa.gov.br/noticias2007/04_2007/20_15.asp
 
Socorro Costa – São José Liberto
 
Coordenadoria de Comunicação Social do Governo do Estado
Fone: (91) 3202-0911 e 3202-0912, fax: 3202-0913
E-mail: redacao@agenciapara.com.br

Livro: Scenas da Escravidão – Breve ensaio sobre a escravidão negra em Sorocaba

Scenas da Escravidão será lançado dia 09 de dezembro
 
O livro Scenas da Escravidão – Breve ensaio sobre a escravidão negra em Sorocaba será lançado no próximo dia 09 de dezembro, às 20 horas, no Espaço Cultural Saber Viver, do Centro de Estudos Filosóficos Iluminattis.
 
A obra, escrita por Carlos Carvalho Cavalheiro, é um estudo inédito sobre a escravidão negra em Sorocaba que revela aspectos interessantes do tema e acaba por desconstruir o mito de que na cidade a escravidão foi mitigada. Carvalho Cavalheiro comprova através de farta documentação a violência inerente à escravatura também em Sorocaba. A obra revela ainda a participação do teatro sorocabano na campanha abolicionista, a relação entre o tropeirismo e a escravidão, a presença de escravos na produção fabril, a luta de classes entre os senhores e seus escravos e as cenas de crueldade na escravidão. Traz também uma reflexão acerca da cultura afro-brasileira em Sorocaba e a perseguição institucional à essas práticas através da repressão policial, edição de posturas municipais, manifestação de leitores nos jornais antigos etc.
 
Trata-se de um ensaio sobre a escravidão negra em Sorocaba, desde o séc. XVII até a abolição (séc. XIX), mostrando a discriminação e o preconceito racial em Sorocaba, buscando suas raízes históricas. Discute a falsa idéia de que a escravidão em Sorocaba foi amena, bem como as formas de controle ideológico sobre a mão-de-obra escrava. Além de discorrer sobre a escravidão em Sorocaba, o texto aborda também aspectos particulares da escravidão na região, em cidades como Itu, Porto Feliz, Araçoiaba da Serra (Campo Largo), Salto de Pirapora e até Campinas.
 
O autor pleiteou recursos da LINC deste ano para a publicação da obra, mas teve negado o projeto sob a alegação de que se trata de livro destinado ao público acadêmico. A partir da negativa da LINC, Cavalheiro buscou a publicação em formato mais econômico e tiragem reduzida. Para tanto, despendeu de recursos próprios e de apoiadores culturais como o Sindicato dos Comerciários de São Paulo, o Sindicato dos Empregados do Comércio de Sorocaba, o Psol (Diretório Municipal), a Crearte Editora, a Implastec, a AFCC Consultoria e Pesquisa, a Academia de Capoeira Nacional, o Movimento Anarquista, o Provocare, a ONG Memória Viva, o Movimento Anarco-cristão, o Centro de Estudos Filosóficos Iluminattis, a Livraria Sebo Nacional e o Escritório de Advocacia Dr. Valdecy Alves.
Livro: Scenas da Escravidão - Breve ensaio sobre a escravidão negra em Sorocaba“Esta é a única obra que trata especificamente da escravidão sorocabana em todo o período e não só na época da campanha abolicionista.
 
O único inconveniente em relação a publicação de uma tiragem reduzida é que não se tem condições de distribuir uma cota para os arquivos, museus, universidades e bibliotecas. É uma pena!” 
 
Carlos Cavalheiro
 
A tiragem dessa edição é de 300 exemplares, sendo que parte disso é destinada aos apoiadores. O restante será comercializado no dia do lançamento.
 
Scenas da Escravidão possui 185 páginas e ilustrações interessantes relacionadas a cultura e história da escravidão em Sorocaba. A revisão histórica foi realizada pelo historiador Prof. Ms. Rogério Lopes Pinheiro de Carvalho e a revisão gramatical pelo prof. Ivaldo José de Carvalho. O prefácio é de autoria de Armando Oliveira Lima, presidente do Instituto Darcy Ribeiro.
 
O autor, Carlos Carvalho Cavalheiro, é professor de História da rede pública municipal de Porto Feliz e pesquisador da História e Cultura de Sorocaba e do Médio Tietê. Escreveu e publicou os livros Folclore em Sorocaba (1999), A greve de 1917 e as eleições municipais de 1947 em Sorocaba (1998), Salvadora! (2001) e Descobrindo o Folclore (2002). Produziu ainda o CD “Cantadores – O folclore de Sorocaba e região” com a participação de grupos folclóricos como a Folia de Reis de Sorocaba, a Folia do Divino de Araçoiaba da Serra, a Dança de São Gonçalo de Porto Feliz, o Terço Cantado de Itu e o Cururu de Sorocaba entre outros. Participou ainda da produção do CD e documentário “Cantos da Terra”. Idealizou a Enciclopédia Sorocabana ( www.sorocaba.com.br/enciclopedia ) e a Reabertura do Inquérito sobre o Saci-Pererê ( www.crearte.com.br/saci.htm ). Neste ano proferiu palestra em agosto no SESC de Sorocaba sobre o Folclore de Sorocaba e do Médio Tietê. 
 
O Espaço Cultural Saber Viver está localizado na Rua Riachuelo, 437 – Bairro Vergueiro. O lançamento será às 20 horas e a entrada é franca.
 
carlosccavalheiro@yahoo.com.br

Novo documento na seção de “Downloads da Capoeira”

O DUPLO CATIVEIRO
Escravidão urbana e o sistema prisional no Rio de Janeiro
1790 – 1821
 
Carlos Eduardo Moreira de Araújo
 
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como requisito parcial para obtenção do Grau de Mestre em História.
 
Orientador: Dr. Marcos Luiz Bretas
 
RESUMO
Resumo da Dissertação submetida ao Corpo Docente do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do Grau de Mestre em História Social.
 
Esta dissertação apresenta um estudo do sistema prisional no Rio de Janeiro no período de 1790 – 1821. Procuramos traçar um panorama dos cárceres na capital do Vice Reino do Brasil no final do século XVIII e acompanhar as mudanças e permanências a partir da vinda da Corte portuguesa. Paralelo a isso analisamos diversos aspectos da escravidão urbana e o grau de interferência do Estado nas relações senhor-escravo.
Com a expansão urbana a partir de 1808, escravos transformados em prisioneiros foram amplamente utilizados nas obras públicas. Surgia assim o duplo cativeiro. Os cativos passam a ter dois senhores: o poder privado e o poder público. Como esses escravos prisioneiros agenciaram sua convivência no interior dos cárceres? Como experiências extragrades foram fundamentais para conseguirem suportar a perda da autonomia de que desfrutavam no ambiente escravista urbano? Essas e outras questões nortearam a pesquisa.
 
Além dos cativos, outros agentes sociais urbanos estão presentes nesta análise: libertos, homens livres pobres e militares também passaram pelas prisões do Rio de Janeiro que neste período se resumiam a Cadeia Pública – posteriormente transferida para o Aljube, Calabouço e as masmorras das diversas fortalezas que circundavam a Baía de Guanabara.
A investigação se concentrou nos relatórios dos Vice Reis, na documentação da Casa de Suplicação e Correspondência da Intendência Geral de Polícia da Corte.
 
Palavras- chave: Sistema prisional, escravidão urbana, Rio de Janeiro.
 

Cortesia Bruno Souza – Teimosia
 

Entrevista e matéria especial com o autor de: A capoeira escrava e outras tradições rebeldes

A capoeira escrava e outras tradições rebeldes
Ao estudar a prática dos negros, historiador encontra aspectos desconhecidos das relações entre escravos, senhores e Estado

O historiador carioca Carlos Eugênio Líbano Soares não tem dúvidas: a capoeira nasceu na América, apesar de articulada por elementos comuns na cultura africana – entre eles a dança e a língua – e é uma resposta dos escravos a um novo ambiente urbano, que começou a ser formado no início do século 18. A tese está no livro “A capoeira escrava e outras tradições rebeldes no Rio de Janeiro (1808-1850)”, publicado pela Editora da Unicamp. Soares vasculhou arquivos em Portugal, Angola e no Brasil para fundamentar sua obra.

Não foi a primeira incursão do pesquisador pelo tema. Em “A negregada instituição: os capoeiras na corte imperial, 1850-1890” (Editora Access), livro premiado pelo Arquivo Municipal do Rio de Janeiro e sua dissertação de mestrado defendida na Unicamp em 1993, Soares promove uma leitura inédita da capoeira, ancorada na literatura e numa vasta documentação política e policial. Machado de Assis, Aluísio de Azevedo, por exemplo, foram fontes de pesquisa. A obra de Plácido de Abreu, escritor português pouco conhecido na chamada época de ouro da literatura (final do século 19 e começo do 20), foi da mesma forma objeto de análise. Abreu foi capoeira, assim como muitos imigrantes de várias nacio-nalidades na época. Depois acabou denunciando-a como algo marginal e perigoso.

Em geral, lembra o pesquisador, a capoeira era estudada como tema antropológico. “Falava-se muita bobagem da mais importante manifestação de rua do século 19 no Brasil”, testemunha Soares, que privilegiou a abordagem historiográfica da capoeira ligada à escravidão, sua área de pesquisa na Unicamp. A inserção do tema numa perspectiva histórica fez surgir até uma linha de estudo que vem conquistando adeptos, além de revelar aspectos até então desconhecidos.

Um deles, abordado em “A negregada…”, revela as ligações políticas dos escravos com a elite, sobretudo após a Guerra do Paraguai, que foi um divisor de águas na segunda metade do século 19. Os capoeiras eram uma espécie de esteio eleitoral de um grupo do Partido Conservador, que acreditava na negociação política do fim da escravidão. Conhecido como Grupo do Visconde do Rio Branco, seus integrantes promoveram a Lei do Ventre Livre e, depois, a Lei Áurea. Nesse contexto de apoio eleitoral, os capoeiras atacavam os membros do Partido Liberal e do Partido Republicano, garantindo a vitória dos conservadores nas urnas. “Não era o capanguismo clássico do meio rural, havia uma troca de favores”, diz Soares, que manteve em “A capoeira escrava” a mesma linha investigativa e de rigor na pesquisa de seu primeiro livro. A seguir, trechos da entrevista concedida pelo historiador.

Jornal da Unicamp – O que levou o senhor a voltar à primeira metade do século 19, depois de abordar um período posterior em seu primeiro livro?
Carlos Soares – Há todo um debate envolvendo a origem da capoeira, de onde ela veio etc. Fala-se muita bobagem, muita asneira. Como a capoeira do século 19 passou por um período fortemente escravista, com uma população africana muito grande, meu objetivo era palmilhar essa coisa da origem. Mas sabendo que a origem não está no século 19, e sim no século 18. Está nos primórdios da sociedade urbana. A capoeira é um fenômeno urbano, que anuncia uma leitura de negros africanos e crioulos para o mundo urbano colonial.

P – O senhor poderia precisar quando a capoeira surgiu?
R – Você tem, a partir do início do século 18, a formação de uma sociedade urbana colonial pela primeira vez, em Minas e no Rio de Janeiro. A grande cidade do ciclo do ouro era o Rio de Janeiro, para onde convergiam todas as remessas de ouro que iam para a corte. A cidade cresceu muito, tanto que virou capital da colônia. Houve ali uma espécie de revolução urbana durante o século 18, que com certeza trouxe os africanos, já que até 1700 a população escrava no Rio era quase toda indígena.

P – O senhor cita, em seu livro, a união entre grupos diferentes de capoeiras. Como vê a chamada organização de rua dentro desse contexto?
R – De um lado você tinha africanos vindos de um ponto distante do continente e que não se conheciam originalmente. Eles estavam num ambiente novo, tenso, de concentração, porque a cidade colonial era pequena, mas concentrava uma população densa. Os africanos traziam bagagens culturais diferentes, mas alguns elementos eram mais ou menos articuláveis, a língua, por exemplo. Acredito que também a dança foi importante, já que os povos se articularam nesse sentido. A capoeira, então, era uma forma de união desses diversos grupos. Agora, é importante colocar que o termo capoeira foi dado pela ordem policial. Eles eram identificados assim. Isso cria um problema, já que de certa forma você tem uma identificação grupal que não parte do grupo, mas sim do seu rival.

P – E como eles chamavam a dança?
R – Os termos da documentação são o “jogo do capoeira”. Agora, da dança é o seguinte: todos esses povos trazem uma bagagem cultural com diversas danças e artes marciais. Eu estive em Angola pesquisando em 1995 e, no Museu Etnográfico de Luanda, pude perceber que essas danças, por mais diferentes, tinham um ponto comum. Possivelmente essas semelhanças fossem articuladas na América. Quer dizer: capoeira, na minha hipótese, nasceu na América. Ela não nasceu na África. Ela foi formada com elementos africanos e articulada de forma inédita no território escravista.

P – Como as nações étnicas se relacionavam com a capoeira?
R – Eles criaram uma coisa nova em cima de elementos já tradicionais. Foram muitos os elementos. A capoeira nunca foi uma prática de um grupo ou nação determinada. Ela sempre foi um pólo de união de diversos grupos. É um espaço mais ou menos aberto. Você tem os grupos com diversas origens: os benguelas, os cabindas. Isso aponta que ela era um ponto de união de grupos diferenciados, e não uma coisa étnica, determinada. Ela foi transformada pelas interações africanas.

P – Muitos estudiosos relacionavam a capoeira aos meios de resistência dos escravos no mundo rural. Como se originou essa teoria?
R – No início do século 20, sobretudo na Semana de Arte Moderna, quando há uma tentativa de se resgatar a história do negro, não mais como inferior e perigoso, mas como pertencente à nacionalidade, nasce também o estereótipo da resistência. Isso era novo para a época. E nesse mito da resistência, o principal era o quilombo, numa visão até idílica. Tornou-se até mais idílica depois. Estudiosos estavam naquela época presos ao modelo da escravidão rural – que durou mais tempo e que, por isso, seria o modelo principal –, a escravidão agrária, da senzala, onde estava a maioria quando houve a Abolição.

P – E a escravidão urbana?
R – Estava um pouco esquecida. Aí colocaram a capoeira dentro desse modelo da escravidão rural, que plasmou mesmo a memória da Abolição, com a fazenda, a senzala, o cafezal e tudo o mais. Então se criou uma versão da história da capoeira no século 20 ligada ao quilombo, à história da resistência. Fora isso, o movimento negro pegou esses elementos também e os trabalhou meio que embolados. Durante muitos anos foi passada essa coisa de que a capoeira era não sei o quê do quilombo, que era uma espécie de panacéia para todos os elementos da cultura negra. As fontes de época, tanto na primeira como na segunda metade, são muito claras: a capoeira é urbana. Aliás, cheguei nela através da escravidão urbana. Quando comecei a pesquisar, antes mesmo de entrar no mestrado, meu objetivo era mostrar a escravidão urbana. Em geral, a nossa academia está muito presa a esse modelo do quilombo, da questão rural. E há poucos trabalhos sobre escravidão urbana.

P – Nesse contexto, a capoeira passa também a ser um elemento de resistência?
R – A capoeira é uma resposta de escravos urbanos a um novo ambiente. O quilombo é importante, mas não se misturava muito. Havia uma visão idílica de que o capoeira queria fugir para o quilombo, distante, nas montanhas. E ali que se criava um reino isolado. Os escravos do quilombo têm contato com os escravos da senzala; então, não é uma coisa isolada. Muito menos a fuga é uma coisa da liberdade, abstrata. O capoeira não é um escravo que vai fugir. Ele vive dentro do ambiente urbano e tem ganhos dentro desse ambiente. Existem casos, lógico, ligados à fuga, mas em geral isso é raro, porque, invariavelmente, é uma forma de luta adaptada a esse meio urbano.

P – Como os capoeiras transitavam nesse meio urbano?
R – A cidade colonial era repleta de becos, de vielas, de ruas estreitas, uma cidade congestionada. Uma cidade de pequenas fachadas e grandes quintais, com toda uma ordenação labiríntica. A capoeira é uma forma de luta adaptada a esse ambiente. O objetivo não é destruir o inimigo, mas sim possibilitar que ele fuja daquela cena em que foi agredido. É uma forma de defesa.


P – De certa forma, eles se prevaleciam da topografia da cidade?

R – Esse mundo urbano era um mundo violento. Sendo assim, era preciso dominar uma forma de luta para se manter nele. O escravo não era só atacado por policiais brancos, mas sim por outros escravos também. Para usufruir as regalias da cidade, ele precisava de uma forma de defesa. Quando um senhor colocava um escravo na rua – como artesão ou até para buscar água –, esse africano tinha que ser safo, tinha que se livrar, ser esperto, se não ele era roubado facilmente. E aí o senhor perdia mercadoria. O próprio senhor estimulava o escravo a se defender. A capoeira não era uma coisa contra o senhoriato. Era uma forma até de maximizar os lucros, já que o capoeira era um escravo que se defendia.

P – Como se estabeleciam as relações entre polícia e senhores?
R – Os senhores reclamavam das prisões porque, bem ou mal, os escravos geravam lucros. Havia fuga é lógico, mas dentro da cidade. Ele sabia que se chegasse na casa senhorial sem o pagamento, seria castigado. Ele fugia então para conseguir o dinheiro. Fugia também por causa de mulher, festa etc. Os escravos tinham muitas relações fora da escravidão. Eles tinham a figura do padrinho, em geral outro homem branco, que empenhava a palavra para o senhor em caso de fuga, intermediando a volta do escravo, conseguindo a garantia de que não seria castigado. Eles se relacionavam com libertos, com escravos, com ciganos, com todo o mundo.

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Jogando com a Liberdade: A linguagem na capoeira

Lucimar Medeiros de Faria(1)
Redação/Editoração/Formatação modificadas por Angelo Augusto Decanio Filho


“..A arte é um construto existencial humano tanto quanto a filosofia. Se não for a imitação barata da arte de outrem,a arte será sempre genuinamente nacional, tenha ela a forma que tiver na nação em que vier a existir e, ao mesmo tempo, universal, como é universal o homem que a construiu…”
(Ferrarezi,2000)
 
Capoeira é jogo, arte, dança, luta, brincadeira, uma das mais ricas formas de interação social na qual os participantes têm a oportunidade de desenvolver suas potencialidades físicas e intelectuais de forma agradável e descontraída. Contudo, o preconceito contra as manifestações culturais negras, impede que uma significativa parcela da população brasileira tome conhecimento e posse dessa riqueza.
Se o imaginário brasileiro dita que o que é nosso não tem valor, o que dizer então, de algo que é fruto da perspicácia, audácia e criatividade do negro escravo, a quem nossa História fornece gratuitamente um atestado de total incapacidade intelectual, moral, e espiritual? Desejar que o povo brasileiro gratuitamente atribuísse ao negro e à capoeira, uma de suas mais singulares manifestações culturais, uma conotação positiva e construtiva seria querer que o povo brasileiro abrisse mão da aparente necessidade que tem de continuar negando seu próprio valor, sua raiz, num contínuo alimentar de subordinação “cultural” de um país que nunca deixou de ser colônia; seria a tentativa de destruir um aprendizado que nos foi incutido desde o princípio por nossos pais, avós, pela escola, e todos os demais segmentos sociais – a negação daquilo que pensamos que somos.
“Capoeira é coisa de preto”, “de gentinha”, “dessa negrada que não tem o que fazer”, “é macumba, cruz credo!” – estes são apenas alguns exemplos – dos menos agressivos (sic!) – ‘leves’, uma pequena amostra do que ouvimos por aí. Esse desprezo nasce da ignorância. Não se pode amar ou valorizar aquilo que não se conhece e não se pode conhecer de verdade, o que se despreza. Os fatos do passado estão mortos e não têm nenhum poder para modificar o presente, a não ser que deles tomemos conhecimento para dar-lhes vida e poder de ação.
Falar criticamente sobre capoeira, é rever a História do Brasil colonial e, mais especificamente, a História do negro brasileiro, com uma visão científica, buscando perceber onde os historiadores omitem, tentam mascarar ou diminuir a importância de fatos ocorridos durante esse período. A escassez de documentos sobre a escravidão nos estimula a fazer um estudo lingüístico-pragmático dos textos e contextos que temos a nossa disposição sobre o assunto, procurar o dito no não-dito, na tentativa de resgatar a história e a importância dessa complexa manifestação cultural que continua resistindo após quatrocentos anos de descaso por parte de uns, perseguição por parte de outros e marginalização por parte de quase todos. *
 
O Negro
Pois, muito bem: os negros foram arrancados dos seus lugares, vendidos aos traficantes, amontoados em navios superlotados e trazidos para o Brasil, não sem antes passar por centros estratégicos de triagem, nos quais muitos já eram sumariamente descartados como mercadoria de segunda qualidade. A má alimentação, a falta de higiene, as doenças, enfim, os maus tratos e sofrimentos intensos levavam à morte, durante a travessia, de uma grande quantidade deles. “Segundo padre Vieira, os navios negreiros eram popularmente chamados de tumbeiros (de ‘tumba’, sepultura ou caixão) em função do grande número de mortes” (Rodrigues, 1997 p. 37).
Foram trazidos escravos de diferentes partes da África, capturados das centenas de tribos que falavam dialetos e línguas diferentes, variando também em outros aspectos culturais, “…populações inteiras, com cultura desenvolvida, capacidade criadora e participantes de uma estrutura complexa em termos de organização social e política. (…) Não existem povos primitivos, mas povos que elaboram uma estrutura social diferente do modelo do povo observador.” (D’Amorim, 1996, P.12).
Essas populações poderiam ser divididas em três grandes grupos quanto aos tipos culturais:
“O primeiro, das culturas sudanesas, é representado principalmente pelos grupos
Yoruba – chamados nagô;
pelos Dahomey – designados geralmente como gêge e
pelos Fanti-Ashanti – conhecidos como minas;
Além de muitos representantes de grupos menores da Gâmbia, Serra Leoa, Costa da Malagueta e Costa do Marfim.
O segundo grupo trouxe ao Brasil culturas africanas islamizadas, principalmente:
os Peuhl,
os Mandinga e
os Haussa, do norte da Nigéria, identificados na Bahia como negros malê e no Rio de Janeiro como negros alufá.
O terceiro grupo cultural africano era integrado por tribus Bantu, do grupo congo-angolês, provenientes da área hoje compreendida pela angola,e a ‘contra costa,’que corresponde ao atual território de Moçambique.”
(Ribeiro, 1995. p.113,114).
 
Em decorrência desta diversidade lingüístico-cultural somada ao cuidado que os senhores tinham de não comprar muitos negros vindos de uma mesma família ou tribo e somada às repressões sofridas com as proibições de suas manifestações culturais, o negro não teve outra solução senão aprender o português dos feitores, capatazes e senhores.
Este fato pode fundamentar a idéia de alguns pesquisadores que se referem a um processo de aculturação ou deculturação, pelo qual o negro simplesmente imita e absorve o sistema lingüístico do dominador, bem como outros aspectos dos padrões culturais do branco. Teria, então, a escravidão transformado o negro em “tabula rasa”? Prontinho para que nele fosse impresso todo e qualquer conteúdo cultural provindo de seus amos?
Darcy Ribeiro chega a afirmar que o negro quilombola era aculturado, que ajudou a construir a sociedade nacional, se desfez nesse esforço, mas que ao fim só nela sabia viver em razão de sua total desafricanização e ainda que o negro se re-humanizou aprendendo a falar português. No entanto, afirma que o negro refez a nova língua emprestando-lhe singularidade.
(Cf. Ribeiro, 1996, p.220.)
Ao contrário do que faz pensar Darcy Ribeiro, o negro exerce um papel fundamental no processo de formação de uma nova linguagem. Não apenas assimilou meramente outra língua em um processo de desfazimento em face da escravidão.
Nesta luta pela reconstrução ou talvez, eu prefira usar aqui o termo preservação, de sua identidade, o negro segue, acrescentando seu modo individual de falar ao falar lusitano e ainda que timidamente, incorporando à cultura do branco, de forma discreta, sua herança cultural africana(2).
O negro desempenhava um papel que lhe foi imposto. Embora sentisse ódio, desprezo, muitas vezes, nojo de seus senhores, demonstrava grande capacidade de adaptação, coexistia, interagia culturalmente com seu meio e resistiu construindo sentidos novos dentro de um cenário novo e obrigando também, os senhores, senhoras, sinhazinhas, feitores, o comerciante dono da venda ou qualquer outro que com ele convivesse, ou de seu trabalho dependesse, à criação de novos sentidos para um cenário novo, modificado por suas palavras ou pelo seu silêncio, pela sua ação, ou simplesmente pela sua presença.
Assim como não existe cultura primitiva, também não existe linguagem primitiva(3), no sentido de mais complexa ou menos complexa, de maior ou menor valor, de melhor ou pior. O que existe, é cultura e  linguagem. Toda linguagem é construída dentro de uma sociedade, através da interação e consenso entre seus membros. Para Bakhtin, a língua se apresenta como uma corrente evolutiva ininterrupta, é o produto da interação social. Resumindo essa linha de pensamento, Ferrarezi afirma que “a língua é um construto sócio-cultural”.
 
Os jesuítas bem que tentaram europeizar o Brasil através da tentativa de impor o uso de um padrão culto da língua (o que ainda acontece hoje em nossas escolas – jesuítas continuam se reproduzindo aos montes por aí…), e o que disso resultou foi a grande disparidade entre a língua escrita e falada.
 
“Mesmo a língua falada conservou-se por algum tempo dividida em duas: uma das casas grandes; outra das senzalas. Mas a aliança da ama negra com o menino branco, da mucama com a sinhá-moça, do sinhozinho com o muleque acabou com essa disparidade.(…) No ambiente relasso da escravidão brasileira, as línguas africanas sem motivos para subsistirem à parte, em oposição à dos brancos, dissolveram-se nela, enriquecendo-a de expressivos modos de dizer; de toda uma série de palavras (…) muitas vezes substituindo com vantagem vocábulos portugueses (…) verificaram-se alterações ‘bastante profundas não só no que diz respeito ao vocabulário, mas até ao sistema gramatical do idioma’” (Freyre, 1998 p. 333).
 
Apesar de ser “mercadoria”, “peça”, “coisa”, que podia ser comprada, vendida, trocada, alugada, emprestada, hipotecada ou qualquer outra coisa própria daquilo que não se pertence e que não escolhe seu destino, o negro estava lá, “…sempre presente em todas as áreas e setores de atividades. Nas lavouras do norte e do sul, nos serviços domésticos, nas aglomerações urbanas, foi a força fundamental para a economia brasileira na época colonial.” (Queiroz, 1990, p. 34)
 
Este negro, porém, humano que era, não se sentia “coisa”. Não permaneceu passivo, diante da escravidão. Ele se rebelou, resistindo ao trabalho, cometendo suicídios, abortos, além dos assassinatos de feitores, de senhores e de suas famílias e fugindo. Mesmo sendo extremamente vigiado, sofrendo ainda os mais sofisticados castigos não apenas punitivos, mas também “preventivos”, durante seus sete a dez anos de vida produtiva – esta era a média de vida de um escravo, tempo suficiente para que os maus tratos de uma existência dolorosa, explorada, violentada dessem cabo de sua resistência física. O negro fugia sozinho ou em grupo, e se aquilombava.
 
Por mais que nossa História de brancos para brancos pelos brancos – se é que se possa realmente usar este termo para designar um brasileiro – não se sinta confortável em aceitar estes fatos, os quilombos eram comunidades onde o negro plantava, colhia, dançava, se preparava para a guerra, se organizava politicamente e mantinha sua tradição africana somada aos novos aprendizados, lugar onde fazia valer sua condição humana e autenticidade cultural.
Eduardo d’Amorim nos mostra em sua obra África essa mãe quase desconhecida, que Palmares parecia ser uma continuação fiel da cultura africana. E Clóvis Moura afirma:
“O certo é que, onde quer que a escravidão tivesse se instalado, os quilombos eram uma constante(…) Não foi manifestação esporádica de pequenos grupos de escravos marginais, desprovidos de consciência social, mas um movimento que atuou no centro do sistema nacional, e permanentemente.”
(Moura, 1993, p.31).
 
Gilberto Freyre registra que os europeus no Brasil viveram cercados de negros desde o nascimento. As sinhás-moças eram dadas em casamento logo no início da puberdade, “algumas fisicamente incapazes de ser mãe em toda sua plenitude.(…) um filho atrás do outro”.
(Freyre, 1992 p.360).
Muitas morriam antes do tempo, quando então o marido tomava em casamento a irmã mais moça ou uma prima.
Os filhos quase sempre eram criados pelas amas-de-leite. Estas modificavam as cantigas de ninar, alterando nelas palavras, adaptando-as às condições regionais; ligando-as às crenças dos índios e às suas. Modificavam também as histórias portuguesas e acrescentavam as histórias africanas, as quais eram espalhadas através do Akpalô.
As sinhazinhas normalmente eram entregues às mucamas. Logo aprendiam os segredinhos do amor e a cantar as modinhas das senzalas. Os negros foram os músicos da era colonial.
Várias casas-grandes tinham bandas de música negras, e muitos meninos brancos tiveram professores negros.
Os escravos trabalhavam também como barbeiros, dentistas, e executando acrobacias em circos.
Não sei se seria certo dizer que essa interação cultural desafricanizou o negro ou deseuropeizou o Português. Mas, no que diz respeito à linguagem, se as línguas africanas, por seu lado, se “dissolveram” no português, por outro, também, o falar lusitano já não existe no Brasil.
 
Cantigas de Capoeira
“A consciência só se torna consciência quando se impregna de conteúdo ideológico (semiótico) e, conseqüentemente, somente no processo de interação social.”
(Bakthtin, 1990: p.32)
A Capoeira, como disse anteriormente, não é uma mera manifestação folclórica desprovida de sentido, é um conhecimento construído socialmente, é uma linguagem, que se constrói através de movimentos corporais, num jogo de perguntas e respostas de bailarinos que duelam ao ritmo da orquestra, em que o berimbau comanda a brincadeira enquanto as palmas animam a roda e as palavras das músicas reúnem fragmentos de uma história que a nossa História tenta encobrir.(4)
Na época colonial, esta arte já fazia parte da sociedade como uma comunidade que prestava serviços às classes dominantes, Nestor Capoeira registra que:
“Por volta da Abolição (1888) as maltas locais dividiam-se em dois grandes grupos: Os Nagoas, ligados aos monarquistas do partido conservador,(…) Os Guaiamus, ligados aos republicanos do partido liberal”.
(Capoeira, 1998 p. 41/2)
 
As maltas de capoeira eram reprimidas e perseguidas pelas autoridades e toda a classe dominante porém, eram usadas por elas para satisfazer seus interesses – fazer o trabalho sujo.
Por volta de 1822, começa o movimento de branqueamento do povo brasileiro, a tentativa de criar um Brasil caboclo, já que um Brasil branco era impossível a estas alturas, com tantos negros, crioulos, mulatos e pardos compondo a população brasileira.
Não podemos estabelecer o número exato de negro-africanos trazidos para o Brasil, já que houve muito contrabando.
As estimativas variam muito e os historiadores tendem a diminuir esses números devido à falta de estatísticas“ e também porque alguns historiadores procuram branquear a nossa população.”
(Moura, 1992: p.9 – Grifo do autor)
Os ataques constantes aos quilombos, a repressão aos capoeiras e a outras manifestações culturais negras, a abolição do trafico negreiro em 1850, a Guerra do Paraguai, quando o Brasil arregimentou negros forros e esvaziou os canaviais e cafezais em decadência para formar os principais quadros de infantaria, entre eles, o Batalhão de Zuavos, onde todos eram capoeiristas(5), especialistas na luta corpo a corpo, prontos a conquistar trincheiras inimigas, todos estes fatos contribuíram para diminuir em número a população negra, “branqueando” assim – o povo brasileiro.
 
Mas a capoeira resiste, o Negro “volta-se para o lado cultura, que se torna fundamental: o cultural torna-se arma
(Capoeira, 1992 p. 28)
Os textos das músicas da roda de capoeira retratam a dinâmica inerente a esta forma de expressão cultural; além de contar a história do povo afro-brasileiro, estes textos mostram os conflitos gerados dentro do contexto desta arte e ressaltam as tradições e fundamentos desta luta-jogo, onde o capoeirista procura construir sua identidade e alcança legitimidade.
Segundo Luiz Renato Vieira, a análise dos cânticos apresentados no desenrolar das rodas, permite:
“…a identificação de três funções básicas: Uma função ritual, fornecendo a animação da roda, juntamente com palmas e instrumentação. No tocante ao seu conteúdo, o cântico de capoeira cumpre o papel de elemento mantenedor das tradições, reavivando a memória da comunidade da capoeira acerca dos acontecimentos importantes em sua história (as lutas pela libertação, os quilombos, a ida – forçada, obviamente – dos capoeiristas à Guerra do Paraguai, as fugas da polícia, etc.) e dos nomes famosos nas rodas de capoeira.(…) o cântico da capoeira atua como espaço dinâmico de constante repensar dessa mesma história, dos princípios éticos nas rodas e da inserção da capoeira e do elemento negro na sociedade.”
(Vieira,1998, p.45)
A ausência de registros – (até o momento) – nos impede de afirmar quando exatamente, e onde começou o jogo da capoeira. Mas, trabalhos de Thomas Ender, intitulado Negros, (1817); de Rugendas, Jogo de capoeira, (1834); de Debret, Negro volteador à frente de um enterro,e ainda Tocador de berimbau(1834) são obras do período da escravidão negra que mostram manifestações culturais africanas em território brasileiro.
Tomando como base a concepção Bakhtiniana – da linguagem, posso afirmar que aqui, negros de diferentes nações e tribos – se obrigaram – a uma interação para a construção de sua resistência e de uma nova consciência, com um conteúdo ideológico específico, onde a palavra – que enquanto signo neutro a disposição deles – foi usada para comunicação, impregnada portanto de um conteúdo ideológico específico, “…absorvida por sua função de signo. (…)
Cada domínio possui seu próprio material ideológico e formula signos e símbolos que lhe são específicos e que não são aplicáveis a outros domínios.”
(Bakthin , 1990: p. 36/7)
A capoeira possui uma linguagem própria; apenas aquele que se integra neste contexto – é capaz de alcançar sua dimensão.
Ao ver uma roda de capoeira, três pessoas tocando berimbaus, alguém batendo um pandeiro, os componentes batendo palmas, enquanto duas pessoas jogam, dançam e lutam, mas raramente se tocam ou se machucam… pode-se pensar que se trata de uma manifestação sem uma lógica – e sem sentido internos; pode-se crer que não se trata de uma manifestação representativa de algo. Mas, certamente, não é este o caso.
Alguns exemplos simples mostram isso:
quando alguém cai, ouve-se o canto:
A canoa virou marinheiro;
Oi no fundo do mar tem dinheiro.
Se esse observador não alcança as representações deste grupo, não entenderá que este é um incentivo e consolo para o capoeirista que caiu, tentando lembrar a ele que ir ao chão, pode não significar necessariamente uma queda, mas sim uma oportunidade para a aplicação de outro golpe que tem chance de ser bem sucedido.
Ou ainda:
Macio feito uma mola;
Capoeira é de valor;
Põe mandinga nesse jogo;
Berimbau já reclamou.
 
Para se perceber o elogio e ao mesmo tempo a exortação que o mestre /ou professor está fazendo ao jogador para que este tente jogar com mais graça e malícia, é preciso que a significação de cada signo tenha o mesmo conteúdo ideológico.
A carga semântica destas frases e a poesia contida nesta comparação, metáfora e personificação, capazes de provocar arrepios, são resultado de uma interação social
Bakhtin, confirma:
“a significação não está na palavra, nem na alma do falante, assim como também não está na alma do interlocutor, é o efeito da interação do locutor e do receptor…”
(op. cit. p.132)
 
Mestre Deputado avisa:
“As cantigas trazem uma característica comum: a linguagem, em geral, é figurada, sendo sua compreensão restrita ao âmbito dos capoeiristas.
Com isso,para aqueles que ignoram, são “apenas” cantigas…”
(Deputado, p.48)
Outro tipo de construção cultural interessante é o registro da história da escravidão negra nas canções como esta, – parte do maculelê – onde se vê:
Negro nagô quando morre vai pra cova de bangüê;
Amigo tão dizendo que urubu vai te comer;
Aqui-ba-bá aqui-lê-lê;nêgo nagô fede mais que sariguê
Este extrato, de domínio público, remonta a realidade sobre o enterro de negros na era colonial, quando “Muitos negros eram enterrados na praia: mas em sepulturas rasas, onde quase sem esforço os cachorros achavam o que roer e os urubus o que pinicar.”
(Freyre,1992; p. 439).
Muitos capoeiristas dividem os cantos de capoeira em três tipos:
Ladainhas (cantos de entrada, chulas),
Corridos e
Quadras,
Outros preferem denominá-las:
Ladainhas,
Chulas e
Corridos.
Mas não trataremos dessa divisão agora.
Por hora, nos importa perceber que estas canções nos contam, como já foi mencionado acima, a história de um povo.(6)
Do povo que construiu um país, enquanto a uma grande parte deste mesmo povo – foi e tem sido negado o direito a uma vida digna. “A história na verdade das coisas, se passa nos quadros locais, como eventos que o povo recorda e a seu modo explica.”
(Ribeiro,1996, P.269)
 
Conclusão
Muitas destas canções, ao cair no domínio público, sofrem modificações e sua complexidade e riqueza artística são ampliadas cada vez que capoeiristas se reúnem para jogar. Mas elas não perdem suas características tradicionais. Principalmente o fato de serem um elemento de interação, de mobilidade, em que num processo cíclico, se renovam e fazem as adaptações necessárias para manter viva essa arte que desempenhou um papel de grande importância no processo de conquista da liberdade do escravo brasileiro, não somente no que tange à liberdade física, posterior, mas especialmente no que tange à liberdade psicológica, muito anterior àquela.
Ainda hoje a capoeira continua promovendo um espaço de libertação do ser que a pratica enquanto forma de conscientização do próprio corpo, de desenvolvimento de suas capacidades físicas e intelectuais.
Necessário se faz que mais pesquisas sejam conduzidas, no sentido de documentar com bases científicas – o que se passou e se passa no mundo da capoeiragem, para que a sabedoria de velhos Mestres, seja colocada ao alcance de um número maior de pessoas. E para que o encanto dessa arte tão rica, que é nossa – e não uma mera cópia dos moldes europeus – possa chegar até o brasileiro que ainda não a conhece e, com a sua magia, despi-lo de seu preconceito.
 
BIBLIOGRAFIA
   1. AREIAS, Anande das. O que é capoeira. São Paulo, Tribo, 1993
   2. BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da Linguagem. São Paulo, Hucitec, 1999.
   3. CAPOEIRA, Nestor. Capoeira Galo já cantou. Rio de Janeiro, Record, 1990.
   4. ________. Capoeira Pequeno Manual do Jogador. Rio de Janeiro, Record, 1998.
   5. ________. Capoeira: Os fundamentos da malícia. Rio de Janeiro: Record, 1981.
   6. D’AMORIM, Eduardo. África essa mãe quase desconhecida. São Paulo, FTD, 1996.
   7. FERRAREZI Jr.,Celso. Considerações sobre a arte no Brasil. Guajará-Mirim: Cepla Working Papers, 2001.
   8. FREIRE, Gilberto. Casa, Grande Senzala. Rio de Janeiro, Record, 1992.
   9. MACEDO, Joaquim Manoel de. As vítimas algozes. São Paulo, Scpione, 1991.
  10. MOURA, Cloves. Quilombos. São Paulo, Ática.
  11. QUEIROZ, S. R. R. de. Escravidão Negra no Brasil. São Paulo, Ática, 1993.
  12. REIS,Letícia vidor de Souza. O Mundo de pernas para o ar: A capoeira no Brasil. São Paulo, Publisher Brasil, 1996.
  13. RODRIGUES, Jaime. O Trafico de escravos para o Brasil. São Paulo, Ática, 1997.
  14. RIBEIRO, Darci. O povo brasileiro. São Paulo, Schwarcz LTDA, 1996.
  15. SOUSA, Walace/Mestre Deputado Capoeira arte folclore. Oficinas do Estado de Goiás Empresa Gráfica e Jornalística Ltda.
  16. VIEIRA, Luiz Renato. O jogo da Capoeira – Cultura Popular no Brasil. Rio de Janeiro, Sprint, 1998.
 
ISSN 1517-5421    lathé biosa
ANO I, Nº 149 – MAIO – PORTO VELHO, 2003
UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO)
CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE
EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA
 


(1) Aluna do Mestrado em Lingüística – UFRO  jacintaclodomir@hotmail.com
(2) Grifo AADF
(3) Grifo AADF
(4) Aluna do Mestrado em Lingüística – UFRO  jacintaclodomir@hotmail.com
(5) ? Nota AADF.
(6) Grifo AADF

A ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL

:: A ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL (13/05/1888) ::

História – Professor Luizão

Hoje estamos comemorando os 117 anos de abolição no Brasil.
Automaticamente associamos “abolição” ao momento em que os escravos no Brasil conquistaram a sua liberdade.
Até que ponto essa idéia pode ser verdadeira?
Se considerarmos o termo “liberdade” como uma expressão que designa meramente igualdade jurídica entre todos os cidadãos, de fato a escravidão acabou em 13 de maio de 1888. Se entendermos, no entanto, “liberdade” no sentido de igualdade de oportunidades e tratamento, então a abolição ainda não aconteceu.

Deixando de lado aspectos meramente semânticos, o que devemos questionar é o seguinte: como aconteceu a abolição no Brasil? Que interesses estavam envolvidos? E, acima de tudo, quais foram os resultados dessa nossa abolição?

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LEI ÁUREA

"Lei 3.353 de 13 de Maio de 1888 Declara Extinta A Escravidão no Brasil".

A Princesa Imperial Regente, em nome de Sua Magestade o Imperador, o senhor D. Pedro II faz saber a todos os súditos do Império que a Assembléia Geral decretou e Ela sancionou a Lei seguinte:

Art 1o – É declarada extinta desde a data desta lei a escravidão no Brasil.

Art 2o – Revogam-se as disposições em contrário.

Manda portanto a todas as autoridades, a quem o conhecimento e execução da referida Lei pertencer, que a cumpram e façam cumprir e guardar tão inteiramente como nela se contém.

O Secretário de Estado dos Negócios da Arquitetura, Comércio e Obras Públicas e interino dos Negócios Estrangeiros, bacharel Rodrigo Augusto da Silva, do Conselho de Sua Magestada o Imperador, a faça imprimir e correr.

Dada no palácio do Rio de Janeiro, em 13 de Maio de 1888, 67 da Independência e do Império. Princesa Regente Imperial – Rodrigo Augusto da Silva.

Desde 1 hora da tarde de anteontem começou a afluir no Arsenal da Marinha da corte grande número de senhoras e cavalheiros que ali iam esperar a chegada de Sua Alteza a Princesa Imperial Regente.

As 2 horas e 3/4 da tarde chegou a galeota imperial trazendo a seu bordo Sua Alteza a Princesa Regente acompanhada de seu augusto esposo Sua Alteza o Sr. Conde d’Eu, general Miranda Reis, e chefe de divisão João Mendes Salgado e dos ministros de agricultura e império.

Sua Alteza trajava um vestido de sêda cor de pérolas, guarneado de rendas valencianas. Ao saltar no Arsenal foi Sua Alteza vistoriada pelas senhoras que ali se achavam, erguendo-se vivas a Sua Alteza e a Sua Magestade o Imperador.

Às 2 1/2 horas da tarde já era difícil atravessar-se o perímetro compreendido nas proximidades do paço da cidade. Calculamos para mais de 10.000 o número de cidadãos, que ali aguardavam a chegada de Sua Alteza Princesa Regente. (…)

Pouco antes das 3 horas da tarde, anunciada a chegada de Sua Alteza por entusiasmáticos gritos do povo, que em delírio a aclamava, abrindo alas, ministério, camaristas e damas do paço vieram recebê-la à porta.

Acompanhada de seu augusto esposo, subiu a princesa, tendo formado alas na sacada grande número de senhoras que atiravam flores sobre a excelsa Regente.

Em seguida a comissão do senado fez a sua entrada na sala do trono para apresentar a Sua Alteza os autógrafos da lei. Nesta raia acham-se à direita do trono ministros e à esquerda os semanários e damas do paço. A comissão colocou-se em frente ao trono, junto ao qual estava Sua Alteza, de pé, então o sr. Senador Dantas, relator da comissão, depois de proferir algumas palavras, entregou os autógrafos ao presidente do conselho, para que este, por sua vez, os entregasse a Sua Alteza.

O sr. ministro da agricultura, depois de traçar por baixo dos autógrafos o seguinte: – Princesa Imperial Regente em nome de S.M. o Imperador, consente – entregou-os a Sua Alteza que os assinou bem como o decreto, servindo-se da riquíssima e delicada pena de ouro que lhe foi oferecida.

O povo que se aglomerava em frente do paço, ao saber que já estava sancionada a grande Lei chamou Sua Alteza, que aparecendo à janela, foi saudada por estrepitosos vivas. (…)"
Gazeta da Tarde, 15 de maio de 1888.

"Durante o dia e a noite de ontem continuavam cheios de animação as festas comemorativas da liberdade nacional. A rua do Ouvidor, constantemente cheia de povo, apresentava o belo aspecto dos grandes dias fluminenses. As casas marginais primorosamente ornamentadas estavam repletas de senhoras. De tempos em tempos, aqui, alí, acorria um viva aos heróis da abolição cortava os ares estridentes.

De ocasiões em ocasiões, um prestito passava saudando as redações dos diversos jornais. Geral o contentamento, enfim, transbordando da grande alma popular, que andava cantando a epopéia homerica da redenção."
Cidade do Rio, 18 de maio de 1888.

"A sessão do senado foi das mais imponentes e solenes que se tem visto. Antes de abrir-se a sessão, o povo que cercava todo o edifício, com justificada avidez de assistir ao que ali se ia passar, invadiu os corredores e recintos da câmara vitalícia.

As galerias, ocupadas por senhoras, davam um aspecto novo e entusiasmático ao senado, onde reina a calma imperturbável da experiencia.

Ao terminar o seu discurso, o senador Correia, que se congratulou com o país pela passagem do projeto, teve uma ovação por parte do povo.

Apenas o senado aprovou quase unanimemente o projeto, irrompeu uma salva prolongada de palmas, e vivas e saudações foram levantadas ao senado, ao gabinete 10 de março, à absolvição, aos senadores abolicionistas e a S.A. Imperial Regente.

Sobre os senadores caiu nessa ocasião uma chuva de flores, que cobriu completamente o tapete; foram saltados muitos passarinhos e pombas. (…)
Gazeta de Notícias, 14 de maio de 1888.

"Continuavam ontem com extraordinária animação os festejos populares. Ondas de povo percorriam a rua do Ouvidor e outras ruas e praças, em todas as direções, manifestando por explosões do mais vivo contentamento o seu entusiasmo pela promulgação da gloriosa lei que, extingüindo o elemento servil, assinalou o começo de uma nova era de grandeza, de paz e de prosperidade para o império brasileiro. (…) Em cada frase pronunciada acerca do faustoso acontecimento traduzia-se o mais alto sentimento patriótico, e parecia que vinham ela do coração, reverberações de luz.

Mal podemos descrever o que vimos. Tão imponente, tão deslumbrante e magestoso é o belíssimo quado de um povo agitado pela febre do patriotismo, que só d’ele poderá fazer idéia quem o viu, como nós vimos. Afigura-se-nos que raríssimas são as histórias das nações os fatos comemorados pelo povo com tanta alegria, com tanto entusiasmo, como o da promulgação da gloriosa lei de 13 de maio de 1888." – Gazeta de Notícias, 15 de maio de 1888.
"Carbonário – Rio 14 de maio de 1888 : –

Coube ainda a muito dos descrentes desta reforma vê-la realizada em nossos dias. Daí essa alegria imensa, maior mesmo do que era dado esperar, de fato tão auspicioso. Maior, porque a alegria de nossa população é tão sincera, que não tem dado lugar a mais leves exprobação ao povo em sua expansão. Muitos eram os que desejavam de coração, ardentemente, anciosamente, mas não supunham vê-la tão cedo realizada. Foi talvez a isso devido a expansão relativamente acanhada do primeiro momento da lei. O golpe era muito profundo, a transformação era tão grande como se fosse um renovamento da sociedade.

Hoje como que nos sentimos em uma pátria nova, respirando um ambiente mais puro, lobrigando mais vastos horizontes. O futuro além se nos mostra risonho e como que nos acena para um abraço de grandezas.

Nós caminhavamos para a luz, através de uma sombra enorme e densa, projetada por essa assombrosa barreira colocada em meio da estrada que trilhavamos – a escravidão. Para que sobre nós se projetasse um pouco dessa luz interna, que se derrama pelas nações cultas, era preciso que essa barreira caisse.

Então, apareceram para a grande derrubada os operários do bem – uns fortes operários, no parlamento e nas associações ateram ombros à assombrosa derrubada. E venceram! Foi ontem! Quando a grande barreira monstruosa da escravidão desabou e caiu, sentiu-se a projeção de uma luz, que nos ilumina. Ficamos atônitos, deslumbrados, como se saissemos de um recinto de trevas para um campo de luz. Bem hajam os que tanto trabalharam por essa grande lei! Não se poderia descrever o entusiasmo do povo desde o momento da promulgação da lei. A cidade vestiu-se de galas, o povo encheu-se goso, o governo cobriu-se de glória!

Nas casas, como nas ruas, a alegria tem sido imensa, indizível, franca e cordeal. Nenhum festejo organizado, nenhuma estudada e falsa manifestação de regozijo; de cada peito rompe um brado, de cada canto surge um homem, de cada homem sai um entusista. E por toda a parte o regozijo é o mesmo, imenso, impossível de descrever.

É que a felicidade que rebentou nesse dia imensamente grande, que completou para o Brasil a obra da sua independência real, é do tamanho de muitos anos de escravidão.

Devia ter sido assim tão grande, tão santa, tão bela, a alegria do povo hebreu quando para além das margens do Jordão, perdida nas névoas do caminho à terra do martírio, ele pôde dizer ao descansar da fuga:

– Enfim, estamos livres, e no seio de Abraham!

Tanto podem hoje dizer os ex-escravos do Brasil, que longe do cativeiro, encontram-se finalmente no seio de irmãos.

Grande e santo dia esse em que se fez a liberdade da nossa pátria!
O Carbonário, 16 de maio de 1888.

"Está extinta a escravidão no Brasil. Desde ontem, 13 de maio de 1888, entramos para a comunhão dos povos livres. Está apagada a nódoa da nossa pátria. Já não fazemos exceção no mundo.

Por uma série de circunstâncias felizes fizemos em uma semana uma lei que em outros países levaria nos. Fizemos sem demora e sem uma gota de sangue. (…)

Para o grande resultado de ontem concorreram todas as classes da comunhão social, todos os partidos, todos os centros de atividade intelectual, moral, social do país.

A glória mais pura da abolição ficará de certo pertencendo ao movimento abolicionista, cuja história não é este o momento de escrever, mas que libertou províncias sem lei, converteu ambos os partidos à sua idéia, deu homens de Estado a ambos eles e nunca de outra coisa se preocupou senão dos escravos, inundando de luz a consciência nacional.(…)"

"Em todos os pontos do império repercutiu agradavelmente a notícia da promulgação e sanção da lei que extingüiu no Brasil a escravidão. Durante a tarde e a noite de ontem fomos obsequiados com telegramas de congratulações em número avultado e é com prazer que publicamos todas essas felicitações, que exprimem o júbilo nacional pela áurea lei que destruiu os velhos moldes da sociedade brasileira e passou a ser a página mais gloriosa da legislação pátria."

"O júbilo popular explodiu ontem como bem poucas vezes temos presenciado. Nenhum coração saberia conter a onda entusiasmo que o inundava, altaneira, grandiosa, efervescente.

Desde pela manhã, o grande acontecimento, que será sempre o maior da história brasileira, agitava as massas e as ruas centrais da cidade e imediações do senado e paço imperial tinham festivo aspecto, constante e crescente movimento de povo, expansivo, radiante. Era finalmente chegado de atingir-se ao termo da grande conquista, campanha renhida, luta porfiada, sem tréguas, em que a parte honesta da população de todo o império se tinha empenhado desde há dez anos.O decreto da abolição tinha de ser assinado e para isso reuniu-se o senado extraordinariamente. (…)

É inútil dizer que no rosto de toda gente transparecia a alegria franca, a boa alegria com que o patriota dá mais um passo para o progresso da sua pátria. Fora como dentro o povo agitava-se irrequieto, em ondas movediças, à espera do momento em que se declarasse que apenas faltava a assinatura da princesa regente para que o escravo tivesse desaparecido do Brasil. (…)

Logo que se publicou a notícia da assinatura do decreto, as bandas de música estacionadas em frente ao palácio executaram o hino nacional, e as manifestações festivas mais se acentuaram prolongando-se até a noite. O entusiamo popular cresceu e avigorou-se rapidamente, e a instâncias do povo Sua Alteza a Princesa Imperial assomou a uma das janelas do palácio, em meio de ruídos e unânime saudação de mais de 10.000 pessoas que enchiam a praça D. Pedro II . (…)" –
O Paiz, 14 de maio de 1888.

"No meio do entusiasmo do povo pelo sucesso do dia, revelava a multidão a sincera satisfação pelas boas notícias que se haviam recebido acerca do estado de Sua Magestade o Imperador. O povo brasileiro não podia esquecer, nessa hora em que o pátria festejava a iniciação de uma nova era social, que em país estrangeiro estava enfermo o seu Monarca, aquele que, verdadeiramente dedicado aos interesses nacionais, tem o seu nome inscrito nos fatos da história do progresso do Brasil. (…)" –
Diário de Notícias, 14 de maio de 1888.

"Continuaram ontem os festejos em regozijo pela passagem da lei áurea da extinção da escravidão. A rua do Ouvidor esteve cheia de povo todo o dia e durante uma grande parte da noite, sendo impossível quase transitar-se por esta rua.

Passaram encorporados os estudantes da Escola Politécnica, os empregados da câmara municipal e o Club Abrahão Lincoln, composto de empregados da estrada de ferro D. Pedro II, todos acompanhados de bandas de música.

Uma comissão desta última sociedade, composta dos Srs. Henrique do Carmo, Lourenço Viana, Bartolomeu Castro e Eduardo Dias de Moura, subiu ao nosso escritório, sendo nessa ocasião abraçada pela redação. (…)"

"O tribunal do juri, ontem, manifestou de maneira eloqüente que também se associava no regozijo geral pela extinção da escravidão. (…)

Os empregados e despachantes da câmara municipal organizaram ontem uma esplêndida e estrondosa manifestação aos vereadores, em regozijo à extinção total dos escravisados no Brasil.

À 1 hora da tarde mais ou menos, achando-se presentes todos os srs. vereadores, penetraram os manifestantes na sala das sessões, precedidos pela banda de música do 1o batalhão de infanteria. (…)" –
O Paiz, 15 de maio de 1888
.  


Fonte: www.escoladeartecapoeira.com.br

"Lei 3.353 de 13 de Maio de 1888 Declara Extinta A Escravidão no Brasil".