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Grupo “Capoeira Vip” convida cuiabanos para evento no colégio Presidente Médici

Fim de tarde. Pessoas saindo do trabalho, trânsito frenético, pontos de ônibus lotados, a cidade iluminada apenas pelos postes de luz. E em frente ao Colégio Presidente Médici, um tipo de rotina peculiar se desenvolve por volta deste horário.

Jovens, adultos, senhores, todos em frente à construção histórica andam de um lado para o outro ou ficam em rodas e grupos, seja esperando o transporte público, indo para casa, matando o tempo até uma apresentação ou participando do que podemos chamar de festa particular no posto do outro lado da rua. Mas no espaço redondo próximo a estrutura metálica precária que usamos como ponto de ônibus, um grupo com calças brancas, tocando berimbau, faz um tipo de dança, um tipo de luta, uma confraternização.

É o grupo “Capoeira Vip”, que em roda e cantando, praticam os movimentos harmônicos e sincronizados da capoeira. O que começou como uma arte própria dos descendentes de escravo agora convida a todos, independente de cor, classe ou ascendência para a sétima edição do “Fest Capoeira Vip”.

Neste sábado (23), com a presença de mestres que alcançaram a fama internacional, como Moreno e Juju, o grupo fará apresentações durante o dia todo, começando às 8h, no mesmo colégio onde praticam a capoeira. O evento também inclui oficinas sobre movimento e musicalidade da capoeira.

No período da tarde, com início às 15 horas, haverá show de maculelê, dança afro, dobradinha de berimbau com viola de cocho, roda de apresentações dos mestres de capoeira, formaturas e batizados.

O organizador do festival, professor Visk, acredita que a capoeira é uma arte que forma cidadãos e que hoje alcança todas as classes sociais. “Os festivais proporcionam maior credibilidade aos participantes da arte capoeira, mostrando ao público o passado, o presente e o futuro”, destaca.

A origem da capoeira

No século XVII, era costume dos povos pastores do sul da atual Angola, na África, comemorar a iniciação das jovens à vida adulta com uma cerimônia chamada n’golo (que significa “zebra” nalíngua quimbunda). 

Dentro da cerimônia, os homens disputavam uma competição de luta animada pelo toque de atabaques em que ganhava quem conseguisse encostar o pé na cabeça do adversário. O vencedor tinha o direito de escolher, sem ter de pagar o dote, uma noiva entre as jovens que estavam sendo iniciadas à vida adulta. 

Com a chegada dos invasores portugueses e a escravização dos povos africanos, esta modalidade de luta foi trazida, através do porto de Benguela, para a América, especialmente para o Brasil, onde se fixou a maior parte dos escravos africanos trazidos à América.
No Brasil, assim como no restante da América, os escravos africanos eram submetidos a um regime de trabalho forçado. Eram também forçados à adoção da língua portuguesa e da religião católica.

Como expressão da revolta contra o tratamento violento a que eram submetidos, os escravos passaram a praticar a luta tradicional do sul de Angola nos terrenos de mata mais rala conhecidos como “capoeiras” (termo que vem do tupi kapu’era, que significa “mata que foi”, se referindo aos trechos de mata que eram queimados ou cortados para abrir terreno para as plantações dos índios).

A capoeira ainda é motivo de controvérsia entre os estudiosos de sua história, sobretudo no que se refere ao período compreendido entre o seu surgimento e o início do século XIX, quando aparecem os primeiros registros confiáveis com descrições sobre sua prática.

Serviço

Fest Capoeira Vip
Local: Colégio Presidente Médici
Horário: A partir das 8h
Data: Sábado (23)
Entrada: 3Kg de alimentos não perecíveis.

 

http://www.olhardireto.com.br

Emancipação, inclusão e exclusão. Desafios do Passado e do Presente

Exposição traz fotos de negros escravos no Brasil

Até o ano de 1888, negros trazidos da África e seus descendentes viviam no Brasil como escravos. Eles trabalhavam sem receber salário e eram submetidos a compra ou troca, como se fossem objetos.

A exposição “Emancipação, Inclusão e Exclusão. Desafios do Passado e do Presente”, no Museu de Arte Contemporânea da USP, traz 72 imagens feitas entre 1860 e 80, de escravos e ex-escravos. A mostra, em parceria com o Instituto Moreira Salles, fica em cartaz até o dia 29 de novembro de 2013.

Na época em que as fotos foram tiradas, já circulavam entre os intelectuais críticas ao trabalho forçado.

Pelas lentes de brasileiros e estrangeiros, os negros –livres, escravizados ou libertos– foram retratados de diferentes formas: como modelos exóticos para análise científica, como parte do cenário ou como figuras principais.

Acervo Instituto Moreira Salles

PARA CONFERIR

Emancipação, inclusão e exclusão. Desafios do Passado e do Presente
QUANDO até 29/10; terça a domingo, das 10h às 18h
ONDE MAC Cidade Universitária (r. da praça do Relógio, 160; tel. 0/xx/11/3091-3039)
QUANTO grátis

 

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br

Matéria sugerida por: Nélia Azevedo

Escravos, Capoeira, Capoeiragem…

 

Segundo o nosso querido e saudoso Mestre Decanio “Galera et Caterva… Um bom complemento para história da capoeira…”

O escravo Felipe Angola caminhava sozinho pelas vielas do Rio de Janeiro. Naquele 10 de setembro de 1810, estava longe dos olhos do seu senhor, o comerciante Francisco José Alves, mas era observado de perto. De repente, foi surpreendido por uma patrulha da Guarda Real.

Emboscado, tentou uma manobra que dominava: atacou os guardas com um movimento de pernas. Sua habilidade e força não bastaram para conter os três policiais, que o levaram preso.

Ø      Felipe se tornou o primeiro escravo a ir para trás das grades no Rio de Janeiro por ser capoeirista.

o       A arte marcial (ainda) não era um crime.

§        Só o suficiente para transformar seus adeptos em criminosos em potencial, para uma polícia que agia à revelia da lei.

Praticada por negros de diversas origens africanas, a capoeira não era proibida no início do século 19. A elite carioca, entretanto, se sentia ameaçada pela presença marcante dos capoeiristas (ou “capoeiras”) nas ruas.

Enquanto as gangues de lutadores usavam sua arte marcial para disputar território e se defender da polícia, os brancos assistiam a essa agitação temendo que os escravos resolvessem se rebelar para valer. Esse medo tinha sido potencializado pelas notícias da revolta ocorrida no Haiti em 1791. Na ilha caribenha, os escravos tinham abandonado as plantações de cana, destruindo engenhos e massacrado proprietários de terra e colonizadores franceses.

Entre os cariocas, a proporção de escravos não parava de aumentar. Em 1808, quando a família real portuguesa chegou ao Rio fugindo dos exércitos de Napoleão, houve uma explosão demográfica na cidade.

Os mais de 15 mil portugueses que deixaram Lisboa para acompanhar o rei dom João VI fizeram crescer a demanda por cativos.

Em 1821, os escravos eram 46 mil, metade da população do Rio.

Ø      Nas freguesias onde viviam, muitas vezes isoladas pela geografia carioca, os capoeiras passaram a se reunir em “maltas”. Essas gangues, formadas por negros africanos e brasileiros, escravos e alforriados, quando se encontravam lutavam até sangrar.

Ø      “As maltas viviam uma rivalidade crônica, o que era esperado em uma sociedade regida pela violência, e não pela harmonia entre as raças”, diz o historiador Carlos Eugênio Líbano Soares, autor de A Capoeira Escrava e Outras Tradições Rebeldes no Rio de Janeiro (1808-1850).

o       Graças aos arquivos policiais que documentavam as prisões dos capoeiras[1], historiadores como Soares reconstituíram o que ocorria nas ruas daquela época.

§        Os registros da polícia também ajudaram a entender o nascimento da arte marcial. Como a maioria dos escravos brasileiros ficava na zona rural, durante muito tempo chegou-se a acreditar que a capoeira teria nascido em senzalas ou quilombos.[2]

Ø      “A capoeira aparece nos documentos do século 19 como hegemonicamente urbana”, afirma Soares, que considera o Rio como um dos berços da luta, no século 17.

o       Nos documentos históricos em que Soares fez sua pesquisa, há apenas um caso em que a palavra “capoeira” é mencionada sem se referir à luta.

§        Esse era o nome de um tipo de cesto de palha usado pelos escravos para carregar mercadorias na zona portuária do Rio[3].

·        Esses estivadores[4] negros foram os primeiros a exibir as técnicas da arte marcial, competindo entre si nas praias [5]para ver quem era o mais hábil.

§        O nome “capoeira” teria passado dos cestos para os escravos e para seus movimentos de ataque e defesa. [6]

o       Quando saiu das praias, a capoeira deixou de ser apenas diversão e passou a arma de combate. As disputas se espalharam pelas ruas que hoje formam o centro histórico da cidade. Os escravos eram obrigados a cruzar a cidade para realizar suas tarefas diárias, e as brigas entre os capoeiras costumavam ocorrer quando rivais se encontravam ao longo do caminho.

A maioria dos escravos urbanos tinha como rotina fazer compras em armazéns e quitandas, livrar-se do lixo e, principalmente, trazer água limpa para uso doméstico.

Ø      “Não havia água encanada e era preciso buscá-la todos os dias. Assim, para manter seu domínio informal, escravos de uma determinada área tendiam a repelir cativos de outros lugares”, diz Soares.

o       As fontes da cidade estavam sempre rodeadas de gente. O maior reservatório público ficava no largo da Carioca. Seu chafariz, construído em 1723 (e demolido em 1925), assistiu a exibições dos capoeiras.

A ausência de leis que proibissem a capoeira não impediu que os castigos contra seus praticantes se tornassem cada vez mais severos, principalmente após a chegada da família real portuguesa. Para as autoridades, qualquer manifestação cultural dos negros passou a ser malvista. [7]

A capoeira era alvo das patrulhas mesmo quando não provocava desordem. Em 31 de maio de 1815, por exemplo, dez escravos de uma mesma malta foram presos pela Guarda Real sob a alegação de que estavam praticando “capoeiragem”.

 

 

CHIBATADAS E SERVIDÃO

A prisão foi apenas a primeira punição para os capoeiras, que passou a ser acrescida de castigos corporais.

Ø      Um edital oficial de 6 de dezembro de 1817 estabeleceu a pena de 300 chibatadas aos praticantes da arte presos em flagrante.

o        Em abril de 1821, o intendente geral de polícia, Paulo Fernandes Viana, recomendou ao governo que as festas de negros (palco de prática de capoeira) fossem banidas.

No Brasil de dom Pedro I, os capoeiras detidos pela polícia do Rio de Janeiro ganharam um destino certo: os trabalhos forçados, que haviam se tornado comuns no fim da colônia, combinados às chibatadas.

Em agosto de 1824, começou a ser erguido um dique para o conserto de grandes navios na ilha das Cobras, próxima à orla carioca (a construção só ficaria pronta em 1861).

Ø      A necessidade de mão-de-obra fez com que muitos dos capoeiras presos no Arsenal da Marinha (então a maior casa de detenção do Rio) fossem obrigados a trabalhar lá[8].

o       Seus senhores ficavam indignados. Não necessariamente por razões humanitárias,  os cativos eram vistos como propriedades caras que não deviam se desgastar trabalhando de graça para o Estado.

O africano Francisco Congo foi um dos que receberam a pena de três meses de trabalhos forçados no dique da ilha das Cobras. Às 5 da tarde de 29 de setembro de 1824, foi preso com outros três escravos por praticar capoeira no cruzamento das ruas do Sabão e da Vala (atual rua Uruguaiana, no centro do Rio).

O senhor de Francisco, Domingos José Fontes, apelou ao imperador para que tivesse seu escravo devolvido. Alegou que o cativo lhe servia há mais de dez anos. Ao pedido escrito, Fontes anexou uma certidão médica dizendo que Francisco não podia com trabalhos pesados. Lamentou em vão a falta do escravo, que seguiu à disposição do Arsenal da Marinha e ainda recebeu 200 açoites, conforme estipulado por uma nova lei daquele ano.

Em poucos anos de Império, a arbitrariedade na aplicação das penas aos capoeiras parecia sem limite. O forro Manoel Crioulo, por exemplo, foi sentenciado a dois anos de trabalhos em obras públicas e mandado ao Arsenal da Marinha em 14 de maio de 1827, por ter dado “uma bofetada de mão aberta”.

Ø       Mesmo sendo considerados marginais e desordeiros pelo Estado, os capoeiras acabaram sendo solicitados para manter a ordem[9].

o       Em junho de 1828, as tropas estrangeiras do Exército Imperial, formadas principalmente por irlandeses e alemães, ameaçaram um levante militar por conta do atraso no pagamento de seus soldos.

o       Armados, com o apoio das autoridades, escravos e capoeiras formaram milícias e conseguiram conter a agitação dos mercenários amotinados.

Uma demonstração de poder e tanto!

 

 

GUERRA NAS RUAS

O ano de 1831 foi marcado pela oposição dos liberais ao reinado de dom Pedro I, que acusavam o imperador de discriminar os brasileiros e cometer abusos.

Em contrapartida, portugueses defendiam a manutenção do monarca e de antigos privilégios.

Os ânimos andavam exaltados.

Em 11 de março os portugueses enfeitaram janelas e sacadas de suas casas e comércios na região da Candelária. Saudavam o imperador, que chegava de uma viagem a Minas Gerais.

Quando passeava pela rua da Quitanda, o sapateiro negro José Antônio foi insultado por um grupo de lusos, que exigiam que ele e suas duas acompanhantes tirassem do braço os laços que ostentavam, com as cores da pátria brasileira.

Ø      Os três se recusaram e se queixaram à polícia sobre a agressão. [10]

A partir daquele momento, o acirramento entre portugueses e brasileiros entrou numa escalada sem volta.

Durante o dia 13, enquanto militares se insurgiam contra o “imperador tirânico”, um grupo de negros armados de paus ocupou as ruas ao redor do largo da Carioca bradando “constituição” e “independência”. Os monarquistas saíram a campo com o apoio de marinheiros e caixeiros portugueses.  Os xingamentos deram lugar a pedras, cacos e garrafas.Capoeiras[11] distribuíam golpes certeiros enquanto os brancos se defendiam como podiam. Foram feitos disparos de pistolas e pelo menos dois negros caíram mortos. A multidão se dispersou, temporariamente.

O temporal que caiu sobre a cidade naquela noite acalmou os ânimos, mas os conflitos seguiram. Já era madrugada do dia 15 quando uma patrulha da polícia evitou que mais de mil homens armados se digladiassem em pleno Paço Imperial.

  • A sorte de dom Pedro, contudo, foi selada por esses episódios, conhecidos como “as noites das garrafadas”.[12]
    • A elite brasileira e o Exército seguiram pressionando por mudanças no regime, até que, em 7 de abril de 1831, o monarca abriu mão do trono em favor do filho de 5 anos. Como o menino era jovem demais, os liberais assumiram o governo, no período chamado Regência.

Ø      O apoio dado pelos capoeiras [13]à queda do imperador, entretanto, não garantiu a eles nenhum privilégio.

o       Pelo contrário: o sucesso de sua atuação nos conflitos de rua acabou sendo interpretado pela elite como uma ameaça.

§        Afinal, se voltassem a agir juntas, as gangues de escravos do Rio representariam um sério perigo para os senhores.

Dessa forma, os primeiros anos do período regencial foram marcados pela expectativa de um levante da chamada “gente preta”. O temor acabou se traduzindo em repressão, mas a Polícia da Corte não fez uso só da força. Com táticas de espionagem e delação, ela sufocou uma a uma todas as agitações promovidas sob a liderança dos capoeiras.

A pior ocorreu em1835, com a repercussão da Revolta dos Malês, iniciada em 25 de janeiro, em Salvador. Contida na Bahia em dois dias, a insurreição acabou não chegando ao Rio.

Os poucos negros que tentaram insuflá-la foram detidos.

Nos anos posteriores, as gangues não conseguiram atuar de forma coesa; Isoladas, eram presas fáceis para as autoridades e não tinham força para articular um movimento que exigisse direitos e liberdade.

Ø      “Os cativos não representavam um grupo social coeso. A população escrava brasileira era fragmentada”, afirma o historiador Soares.

o       “Se aqui tivesse havido uma suposta unidade racial, pensamento só vigorante a partir do fim do século 19, a escravidão teria sido eliminada em dias, como ocorreu no Haiti.”

§        Nem mesmo a abolição da escravidão e a proclamação da República serviram para acabar com a repressão contra os capoeiras. Em 11 de outubro de 1890, foi promulgado o código penal do novo regime. Em seu artigo 402, ficou estabelecida uma pena de dois a seis meses de prisão para quem praticasse a arte marcial nas ruas.

·        Para os chefes das maltas, essa punição seria aplicada em dobro, enquanto os reincidentes poderiam ficar presos por até três anos.

Ø      A capoeira, finalmente, havia se tornado crime, para o alívio da elite que vivera amedrontada por quase um século.

 

O escravo Felipe Angola caminhava sozinho pelas vielas do Rio de Janeiro.

Naquele 10 de setembro de 1810, estava longe dos olhos do seu senhor, o comerciante Francisco José Alves, mas era observado de perto.

De repente, foi surpreendido por uma patrulha da Guarda Real.

Emboscado, tentou uma manobra que dominava: atacou os guardas com um movimento de pernas.

Sua habilidade e força não bastaram para conter os três policiais, que o levaram preso.

Ø      Felipe se tornou o primeiro escravo a ir para trás das grades no Rio de Janeiro por ser capoeirista. A arte marcial (ainda) não era um crime[14]

o       Só o suficiente para transformar seus adeptos em criminosos em potencial, para uma polícia que agia à revelia da lei.

Praticada por negros de diversas origens africanas, a capoeira não era proibida no início do século 19.

A elite carioca, entretanto, se sentia ameaçada pela presença marcante dos capoeiristas (ou “capoeiras”) nas ruas.

Ø      Enquanto as gangues de lutadores usavam sua arte marcial para disputar território e se defender da polícia, os brancos assistiam a essa agitação temendo que os escravos resolvessem se rebelar para valer.

o       Esse medo tinha sido potencializado pelas notícias da revolta ocorrida no Haiti em 1791.[15] Na ilha caribenha, os escravos tinham abandonado as plantações de cana, destruído engenhos e massacrado proprietários de terra e colonizadores franceses.

Entre os cariocas, a proporção de escravos não parava de aumentar.

Em 1808, quando a família real portuguesa chegou ao Rio fugindo dos exércitos de Napoleão, houve uma explosão demográfica na cidade.

Ø      Os mais de 15 mil portugueses que deixaram Lisboa para acompanhar o rei dom João VI fizeram crescer a demanda por cativos.

o       Em 1821, os escravos eram 46 mil, metade da população do Rio.

§        Nas freguesias onde viviam, muitas vezes isoladas pela geografia carioca, os capoeiras passaram a se reunir em “maltas”. Essas gangues, formadas por negros africanos e brasileiros, escravos e alforriados, quando se encontravam lutavam até sangrar.

Ø      “As maltas viviam uma rivalidade crônica, o que era esperado em uma sociedade regida pela violência, e não pela harmonia entre as raças”, diz o historiador Carlos Eugênio Líbano Soares, autor de A Capoeira Escrava e Outras Tradições Rebeldes no Rio de Janeiro (1808-1850).

Ø      Graças aos arquivos policiais que documentavam as prisões dos capoeiras, historiadores como Soares reconstituíram o que ocorria nas ruas daquela época.

o       Os registros da polícia também ajudaram a entender o nascimento da arte marcial.

§        Como a maioria dos escravos brasileiros ficava na zona rural, durante muito tempo chegou-se a acreditar que a capoeira teria nascido em senzalas ou quilombos. [16]

Ø      “A capoeira aparece nos documentos do século 19 como hegemonicamente urbana”, afirma Soares, que considera o Rio como um dos berços da luta, no século 17.

o       Nos documentos históricos em que Soares fez sua pesquisa, há apenas um caso em que a palavra “capoeira” é mencionada sem se referir à luta.

o       O nome de um tipo de cesto de palha usado pelos escravos para carregar mercadorias na zona portuária do Rio. Esses estivadores[17] negros foram os primeiros a exibir as técnicas da arte marcial, competindo entre si nas praias para ver quem era o mais hábil. O nome “capoeira” teria passado dos cestos para os escravos e para seus movimentos de ataque e defesa.[18]

Quando saiu das praias, a capoeira deixou de ser apenas diversão e passou a arma de combate. [19]

As disputas se espalharam pelas ruas que hoje formam o centro histórico da cidade.

Os escravos eram obrigados a cruzar a cidade para realizar suas tarefas diárias, e as brigas entre os capoeiras costumavam ocorrer quando rivais se encontravam ao longo do caminho.

A maioria dos escravos urbanos tinha como rotina fazer compras em armazéns e quitandas, livrar-se do lixo e, principalmente, trazer água limpa para uso doméstico.[20]

“Não havia água encanada e era preciso buscá-la todos os dias. Assim, para manter seu domínio informal, escravos de uma determinada área tendiam a repelir cativos de outros lugares”, diz Soares.

As fontes da cidade estavam sempre rodeadas de gente. O maior reservatório público ficava no largo da Carioca. Seu chafariz, construído em 1723 (e demolido em 1925), assistiu a exibições dos capoeiras.

A ausência de leis que proibissem a capoeira não impediu que os castigos contra seus praticantes se tornassem cada vez mais severos, principalmente após a chegada da família real portuguesa.

Ø      Para as autoridades, qualquer manifestação cultural dos negros passou a ser malvista.

o       A capoeira era alvo das patrulhas mesmo quando não provocava desordem.

Ø      Em 31 de maio de 1815, por exemplo, dez escravos de uma mesma malta foram presos pela Guarda Real sob a alegação de que estavam praticando “capoeiragem[21]“.

 

 

CHIBATADAS E SERVIDÃO

A prisão foi apenas a primeira punição para os capoeiras.,que passou a ser acrescida de castigos corporais.

Ø      Um edital oficial de 6 de dezembro de 1817 estabeleceu a pena de 300 chibatadas aos praticantes da arte presos em flagrante.

Ø       Em abril de 1821, o intendente geral de polícia, Paulo Fernandes Viana, recomendou ao governo que as festas de negros (palco de prática de capoeira) fossem banida[22]s.

No Brasil de dom Pedro I, os capoeiras detidos pela polícia do Rio de Janeiro ganharam um destino certo: os trabalhos forçados[23], que haviam se tornado comuns no fim da colônia, combinados às chibatadas.

Em agosto de 1824, começou a ser erguido um dique para o conserto de grandes navios na ilha das Cobras, próxima à orla carioca (a construção só ficaria pronta em 1861).

A necessidade de mão-de-obra fez com que muitos dos capoeiras presos no Arsenal da Marinha (então a maior casa de detenção do Rio) fossem obrigados a trabalhar lá. Seus senhores ficavam indignados. Não necessariamente por razões humanitárias, os cativos eram vistos como propriedades caras que não deviam se desgastar trabalhando de graça para o Estado.[24]

O africano Francisco Congo foi um dos que receberam a pena de três meses de trabalhos forçados no dique da ilha das Cobras.

Às 5 da tarde de 29 de setembro de 1824, ele foi preso com outros três escravos por praticar capoeira no cruzamento das ruas do Sabão e da Vala (atual rua Uruguaiana, no centro do Rio).

O senhor de Francisco, Domingos José Fontes, apelou ao imperador para que tivesse seu escravo devolvido. Alegou que o cativo lhe servia há mais de dez anos.

Ao pedido escrito, Fontes anexou uma certidão médica dizendo que Francisco não podia com trabalhos pesados.

Lamentou em vão a falta do escravo, que seguiu à disposição do Arsenal da Marinha e ainda recebeu 200 açoites, conforme estipulado por uma nova lei daquele ano.

Em poucos anos de Império, a arbitrariedade na aplicação das penas aos capoeiras parecia sem limite. O forro Manoel Crioulo, por exemplo, foi sentenciado a dois anos de trabalhos em obras públicas e mandado ao Arsenal da Marinha em 14 de maio de 1827, por ter dado “uma bofetada de mão aberta”.

Ø      Mesmo sendo considerados marginais e desordeiros pelo Estado, os capoeiras acabaram sendo solicitados para, manter a ordem.

Em junho de 1828, as tropas estrangeiras do Exército Imperial, formadas principalmente por irlandeses e alemães, ameaçaram um levante militar por conta do atraso no pagamento de seus soldos.

Ø      Armados, com o apoio das autoridades, escravos e capoeiras formaram milícias e conseguiram conter a agitação dos mercenários amotinados.

Uma demonstração de poder e tanto!

 


[1] Grifo AADF

[2] Idem

[3] Idem

[4] Observe-se que esta é uma atividade da população portuária. Grifo e observação de AADF.

[5] Idem

[6] Capoeira como sinônimo de capoeirista. Nota AADF

[7] Grifo AADF

[8] Idem

[9] Idem

[10] Grifo AADF

[11] Idem

[12] Idem

[13] Capoeirstas.Nota AADF

[14] Grifo AADF

[15] Idem

[16] Idem

[17] Idem

[18] Por metonímia. Nota AADF

[19] Idem

[20] Grifo AADF

[21] Idem

[22] Idem

[23] Idem

[24] Idem

 

Texto: Angelo Augusto Decanio Filho – 16/01/2007

RJ: Capoeira volta ao Valongo

Após mais de um século enterrado, cais onde escravos aportavam no Rio de Janeiro vira ponto de encontro de roda de capoeira com projeto de difusão cultural e ensino de História

Cultura africana, memória dos escravos, arqueologia e ensino de história. Tudo isso reunido em uma roda de capoeira em uma das áreas mais representativas para os negros da região Sudeste, o Cais do Valongo. Essa é a proposta do Grupo Kabula, que realiza neste sábado (17), às 10h30, sua quinta roda na zona portuária do Rio de Janeiro.

Partidários do estilo de capoeira Angola, os participantes promovem o trabalho desde junho, em parceria com outras rodas que já aconteciam no Centro da cidade. Carlo Alexandre Teixeira da Silva, mestre de capoeira e organizador do evento, explica o cunho educativo e cultural das rodas, que acontecem mensalmente: “A gente decidiu pensar a ocupação do espaço público, pensar o Rio e este momento desenvolvimentista que estamos vivendo”.

“A roda é importante para falar sobre a história da cidade, especialmente as descobertas arqueológicas”, diz, referindo-se aos diversos artefatos e sítios que vêm sendo encontrados na zona portuária por causa das obras para a Olimpíada de 2016. Um desses locais desenterrados é o próprio Cais do Valongo, onde aportavam os escravos que chegavam ao Brasil até o século XIX.

Outras rodas tradicionais do Centro do Rio que se uniram à do cais foram a da Cinelândia e a da feira do Lavradio. “Queremos transformá-la em um pontão cultural, que integre vários grupos de capoeira. Um pontão onde possamos continuar esse movimento, oferecer oficinas paralelas e trazer a consciência crítica sobre o que está acontecendo na cidade”, comenta o mestre. O grupo Kabula tem uma ONG sediada em Londres, onde promove o intercâmbio cultural, levando as nossas raízes africanas para a terra da rainha: durante o verão, algumas rodas movimentam a capital inglesa.

 

Roda que vem de longe

A capoeira Angola, jogada nas rodas do Valongo, guarda fortes conexões com as raízes africanas: tem foco maior na dança e na ludicidade em detrimento à luta. É possível notar que o movimento é peculiar, diferente do estilo mais popular, conhecido como ‘Regional’. “Mal comparando [os dois estilos], é como se fosse o samba do morro e o pagode. O do morro é mais tradicional, usa elementos mais próximos às raízes africanas, assim como a capoeira Angola. Ela tenta não utilizar recursos de outras tradições, não usa lutas marciais orientais”, explica Mestre Carlo Alexandre. Segundo ele, isso a torna mais próxima da prática dos escravos na época do surgimento da dança. “Muda a forma de cantar, de jogar. Todo o ritual é mais complexo. Há um equilíbrio da parte dançante, teatral, marcial, cultural. Ela não é só luta”, conclui.

Mas a capoeira Angola não recebe este nome por ser originária do país africano. Mestre em História Social pela USP e integrante do Grupo Capoeira Santista, Pedro Figueiredo da Cunha lembra que o estilo só ganhou este nome em meados do século XX. E no Brasil mesmo.

Em 1928, Manoel dos Reis Machado, o Mestre Bimba, decidiu adaptar a capoeira e focar mais na vertente marcial, anunciando a criação da Luta Regional Baiana. Assim surgiu o estilo. “Ele queria mostrar a eficiência da capoeira em relação a outras artes marciais que estavam ganhando fama no Brasil, como o jiu-jitsu”, lembra o pesquisador. Antes disso, segundo ele, não havia um ensino metódico. As lições passavam de mestre para discípulo e podiam variar. “Ele enxergou uma necessidade de melhorar a metodologia de ensino para valorizar a capoeira como luta”, afirma. Em resposta ao movimento de Mestre Bimba, Mestre Pastinha – Vicente Joaquim Ferreira Pastinha – institucionalizou a capoeira tradicional com o nome de ‘Angola’, em 1941. Ele também criou Centro Esportivo de Capoeira Angola, que hoje é uma referência para os seguidores do estilo.

Mas não é preciso se prender a um estilo para praticar a dança ou luta. “Assim como em cada região tem um sotaque diferente, a gente também percebe isso no corpo. Muitas pessoas, para tentar se encaixar em um estilo, acabam ignorando o seu ‘sotaque corporal’. O principal seria cada grupo valorizar as suas raízes e procurar desenvolver um trabalho bem fundamentado para não virar nem uma cópia malfeita de outro estilo nem uma deturpação do que é a capoeira”, aponta Figueiredo.

Se no passado o Cais do Valongo foi considerado um lugar de sofrimento para os negros que chegavam acorrentados para uma vida de penúria no Brasil, agora se torna um ambiente de confraternização e celebração da cultura africana.

O cais fica na Avenida Barão de Tefé, Centro. Se chover, o evento acontecerá sob o elevado da Perimetral, na esquina da avenida. O tema da roda que acontece neste sábado será “O batismo de africanos adultos no recôncavo do Rio de Janeiro”, com apresentação pela professora Denise Vieira Demétrio, pesquisadora do assunto e doutoranda em História pela UFF.

 

Serviço:
Onde: Cais do Valongo, Avenida Barão de Tefé, Centro. Rio de Janeiro
Horário: 10h30

 

Fonte: http://www.revistadehistoria.com.br

Aracajú: Atleta da PMA brilha na capoeira sergipana e brasileira

O atleta bolsista da Prefeitura de Aracaju, por meio da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer (Semel), Elivelton José de Oliveira Santos, 20 anos, é um dos grandes nomes da capoeira sergipana e brasileira. Em setembro, o capoeirista disputará o Campeonato Brasileiro, em Salvador-BA.

“Sinto-me um privilegiado no esporte, porque já conquistei alguns títulos importantes na minha carreira. Fui campeão dos três últimos campeonatos nacionais e já venci alguns estaduais. Este ano, por exemplo, fui bicampeão sergipano e garanti a vaga para o Brasileirão”, afirmou o jovem atleta.

De acordo com Elivelton, os treinamentos têm sido planejados e incluem a parte funcional, academia e rodas de capoeira. “Sempre estou motivado para treinar e trazer mais títulos para a cidade da qualidade de vida e para Sergipe. Agradeço a todos que me ajudam e que incentivam a difundir o esporte”, explicou.

Segundo ele, hoje a capoeira está em ascensão em Aracaju e no estado. “É óbvio, que está muito melhor do que já foi, principalmente, depois do apoio também da prefeitura e da Semel, com o Programa Bolsa-Atleta. Nuca teve algo parecido no desporto sergipano . Na capoeira, esse benefício nos proporciona mais motivação para seguir em frente”, ressaltou.

O secretário de Esporte do Município, Antônio Hora Filho, disse que ter um atleta bolsista jovem, como o Elivelton, que se destaca nacionalmente,fortalece bastante. “Desejo que ele sirva de exemplo para tantas outras crianças e adolescentes que passem a praticar também a capoeira,como expressão natural da nossa cultura e prática esportiva com a finalidade de incentivar aos hábitos saudáveis e melhoria da qualidade de vida”, declarou.

“Este esporte é reconhecido como um patrimônio cultural brasileiro e, de certa forma, os praticantestêm uma maneira de fazer com que a nossa cultura não seja apagada”, salientou o secretário.

 

Início de carreira

“Comecei nesta prática esportiva em 1996 e não parei mais. Quando nasci meu pai era contra mestre, ou seja, uma graduação anterior a mestre. Por isso, despertou em mim a vontade de sempre está competindo”, enfatizou Elivelton.

O jogo foi criado aqui mesmo no Brasil, mas a origem cultural veio de Angola, um país da África. A capoeira vem do Tupi e significa Mato Ralo de pequenos arbustos, lugar preferido dos negros e escravos para o jogo. No Brasil, Zumbi, que era um negro guerreiro do Quilombo dos palmares, foi o primeiro mestre. A arte marcial despertou os brasileiros na época da escravidão, quando os escravos eram massacrados pelos patrões e utilizavam o esporte como uma autodefesa.

 

Fonte: Ascom Semel

Mestre de Capoeira Marajoara fala sobre cultura afro-brasileira no japão

Nesta primeira viagem ao Japão, Bira Marajó falou a estudantes universitários sobre os projetos mantidos pela Associação Cutimboia (Pará), e jogou capoeira com os japoneses

O jogo começa cadenciado com um canto que quase sempre fala da escravidão. Assim é o estilo de Angola, muito próximo de como os negros escravos jogavam a capoeira. Além de história, hoje ela carrega projetos sociais. “A gente não trabalha só a movimentação do corpo, que dá a estética na visão externa. OS elementos que existem na capoeira fazem a gente estudar um pouco da história, de onde a gente veio, onde estamos e para onde vamos”, explica o mestre Bira Marajó.

Através da capoeira de Angola, ele ajuda as comunidades quilombolas, formadas por descendentes de escravos, que no passado fugiram dos engenhos para formar pequenos vilarejos.

A oficina de capoeira é uma parte do trabalho. “Eu acredito muito na capoeira, no trabalho que a gente vem fazendo, na socialização, lição de vida, espírito, respeito e meio-ambiente também”, conta. As crianças aprendem a fabricar seus próprios instrumentos e recebem lições de preservação do meio ambiente e respeito aos mais velhos.

Nesta primeira viagem ao Japão, Bira Marajó falou a estudantes universitários sobre os projetos mantidos pela Associação Cutimboia, e jogou capoeira com os japoneses. “Quando a gente vê eles praticando, a gente não consegue ver uma diferença, a gente consegue ver uma integração só. Eu quando estou aqui, na prática da capoeira, é como se estivesse no Brasil”, finaliza. Ele também deve participar de uma oficina para crianças brasileiras neste domingo, dia 17. Começa 12h30 no prédio Lounge de Tsurumi, em Yokohama, Kanagawa.

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Debate na Rio +20 relembra trabalho escravo que recuperou a Floresta da Tijuca

A Rio+20, Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, começou oficialmente na quarta-feira (13) e todas as atenções já estão voltadas para os debates e propostas que devem definir a agenda do desenvolvimento sustentável e da proteção ao meio ambiente para as próximas décadas.

Há 151 anos, muito antes de se pensar em uma conferência dessa abrangência, o Brasil já dava exemplo com um dos casos mais bem sucedidos de ecologia e recuperação: o reflorestamento da Floresta da Tijuca, que após anos de desmatamento, principalmente devido ao plantio de café, foi reflorestada graças ao trabalho iniciado por apenas seis escravos.

Comandados pelo Major Gomes Archer, primeiro administrador da Floresta, esses homens plantaram, entre 1861 e 1872, mais de 100 mil mudas no que depois viria a se tornar o Parque Nacional da Tijuca, um território com mais de 3953 hectares – área que corresponde à cerca de 3,5% da área do município do Rio de Janeiro.

Restauração da natureza – Pensando em relembrar ao mundo esse momento da história, o Ministério da Cultura (Minc) apresentará, no próximo domingo (17), às 16h, a mesa de debate “O Reflorestamento da Floresta da Tijuca: modelo de restauração da natureza”. O evento acontece no Galpão da Cidadania, um espaço voltado para debates sobre a importância da cultura como eixo estratégico do desenvolvimento sustentável.

Segundo Carlos Fernando Delphim, coordenador do Patrimônio Natural – IPHAN, o objetivo do evento é homenagear e relembrar os escravos que trabalharam para que a cidade do Rio de Janeiro não ficasse sem água. “Mais do que recordar a recuperação realizada na Floresta da Tijuca, nós pretendemos mostrar que seis escravos fizeram o mais lindo, mais raro e mais bem sucedido trabalho que nós já tivemos nesse segmento. A Tijuca só é lembrada pela parte bonita, da floresta artificial, mas e quem plantou todas aquelas árvores? E o valor do trabalho dessas pessoas?”, questiona o arquiteto.

O presidente da Fundação Cultural Palmares (FCP), Eloi Ferreira de Araujo, que também participará do debate, destaca que a recuperação da Floresta da Tijuca “foi uma iniciativa no século XIX que exemplificou a necessidade de se agir rápido para a sustentabilidade do planeta e no combate aos danos ao meio ambiente. Os negros escravos tiveram uma contribuição especial para a preservação ambiental da Floresta da Tijuca, o que demonstra a intensa participação do negro na história do Brasil e que ainda é pouco conhecida”.

Para Carlos Alberto Xavier, do Ministério da Educação, não se pode permitir que a participação da população negra na construção do Brasil fique para trás e se perca no tempo. “Quando falamos de escravidão, temos que lembrar que as grandes obras que hoje fazem parte do nosso patrimônio cultural nasceram das mãos de negros, como o Parque Nacional da Tijuca, que nasceu de uma paisagem natural reconstruída pelo homem negro”, afirma.

Maior floresta urbana do mundo – Ao longo dos séculos XVII e XVIII, a área onde hoje fica o Parque Nacional da Tijuca foi, em sua maior parte, devastada através da extração de madeiras e da utilização em monoculturas, especialmente o café, gerando sérios problemas ambientais à cidade.

Em 1861, após uma iniciativa de conservação ordenada por D. Pedro II, comandada pelo Major Gomes Archer e executada por apenas seis escravos, um processo de reflorestamento que plantou cerca de 100 mil mudas ao longo de uma década propiciou a regeneração natural da vegetação.

Graças ao trabalho de restauração realizado no século XIX, a Floresta tornou-se, posteriormente, um Parque Nacional tombado pelo IPHAN, foi declarada Patrimônio Natural Mundial pela UNESCO como Reserva da Biosfera e hoje é conhecida como a maior floresta urbana do mundo.

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A capoeira desde o descobrimento do Brasil – A Origem da Capoeira

A CAPOEIRA DESDE O DESCOBRIMENTO DO BRASIL: A CAPOEIRA sem sombras de dúvidas é uma arte genuinamente brasileira, ou seja, uma arte criada no Brasil.

Embora seja uma arte riquíssima que existe nela, música, dança, luta, artezanato, composição, poesia, literatura, história, filosofia de vida e muito mais valores, tem a sua origem despersa, onde estudiosos no assunto buscam respostas para essa questão, A ORIGEM DA CAPOEIRA.

Em várias revistas, livros, sites de grupos de capoeira, podemos observar um texto de autoria desconhecida que diz o seguinte:

“A discussão é interminável: pesquisadores, folcloristas, historiadores e africanistas ainda buscam resposta para seguinte questão: a Capoeira é uma invenção africana ou brasileira? Teria sido uma invenção do escravo com fome de liberdade? Ou uma invenção do indígena?

As opiniões tendem para o lado brasileiro e aquí vão alguns exemplos: no livro A Arte da Gramática da Língua mais usada na Costa do Brasil, do Padre José de Anchieta, editado em 1595, há uma citação de que “os índios tupi-guarani devertiam-se jogando Capoeira”. Guilherme de Almeida no livro Música no Brasil, suatenta serem indígenas as raízes da Capoeira. O navegador português Martim Afonso de Souza observou tribos jogando Capoeira. Como se não bastasse, a palavra Capoeira (Caá-Puera) é um vocábulo tupi-guarani que significa “mato ralo” ou “mato que foi cortado”…”

Fui a campo para pesquisar as referências do texto, e tive acesso a obra original do Jesuita, o livro A ARTE DA GRAMÁTICA DA LÍNGUA MAIS USADA NA COSTA DO BRASIL, editado em 1595, desta primeira edição, impressa em Coimbra por Antonio de Mariz, são conhecidos doze exemplares, lí o livro umas quarenta veses, trata-se de um livro escrito em um portugues muito antigo, além de várias citações em Latim, tem apenas 60 páginas, e trata-se de um livro espécie de dicionário traduzindo e ensinando a língua Tupi guarani, que na época do descobrimento era um dialeto falado pela maioria dos povos indígenas, só que a citação que índios divertiam-se jogando capoeira não existe, algo que me espantou, por eu ser um defensor de que a capoeira seja dos índios brasileiros, e sempre ter usado tal referência em debates sobre a origem. Procurei então pesquisar o navegador Martim Afonso de Souza que também é citado no texto, e descobri que todos os detalhes sobre a primeira expedição colonizadora, fora relatado pelo irmão do navegador e não por Martim Afonso de Souza, e os relatos encontram-se no diário de bordo de Pero Lopez, onde algumas veses é relatado o contato com os índios, mas em nenhum momento ele relata sobre tribos jogarem Capoeira, mas uma vez fiquei espantado pelo que não achei, e então fui até a casa Guilherme de Almeida no bairro de Sumaré em São Paulo/SP para pesquisar o livro Músicas no Brasil, e fui informado que não existe nenhuma obra do autor com esse tema, por fim uma coisa é certa sobre o texto acima, a palavra CAPOEIRA, é sim de origem Tupi guarani, mas preciso descobrir agora além da Origem da CAPOEIRA, o autor de tal texto que usou tais inexistentes referência, como sou um jóvem historiador com apenas 18 anos de pesquisas sobre a origem da capoeira, venho através deste artigo, esclarecer esses fatos citados, e ainda dizer que vestígios indígenas sobre a origem da capoeira, encontrei muitos, mas nenhum com certeza absoluta, e de certeza absoluta, apenas minha opinião de que a capoeira já existia no Brasil na época do descobrimento, essa opinião, é pelo fato de que além de historiador, sou também capoeirista, e quando pesquiso livros antigos, artigos, cartas, tudo que possam me levar a alguma pista, observo com olhar técnico de conhecedor da arte Capoeira, onde encontrei inclusive, no que se diz a certidão de nascimento do Brasil, ou seja, a Carta do escrivão Pero Vaz de Caminha, alguns indícios relatado por ele, que para mim possa ser Capoeira.

Não posso deixar de citar, que houve no Brasil, mais de 200 anos de escravidão indígena, e abolida inicialmente pelo Marques de Pombal, mas no início da colonização do Brasil, os colonos portugueses escravizaram os índios, e de 1556 a 1567, ocorre a primeira grande guerra em terras brasileiras, conhecida na história por CONFEDERAÇÃO DOS TAMOIOS, onde a maioria dos Tupinambás, que foram os primeiros índios a serem escravos no Brasil, são dizimados quase que no total, e os poucos índios sobreviventes da guerra foram feitos escravos, e é nessa época que inicia-se a diáspora africana para o Brasil, pois os portugueses achavam que os negros eram mais dóceis para lidar do que os indígenas, e índios e negros são colocados juntos nas senzalas.

Em livros históricos sobre A CONFEDERAÇÃO DOS TAMOIOS, também encontrei vestígios sobre a presença da capoeira, e novamente olhando com olhares técnicos, nota-se isso no livro Duas viagens ao Brasil, escrito por Hanz staden, publicado orinalmente em 1557, Hanz Stadem foi um alemão que ficou refém dos Tupinambás por quase dois anos. este livro conheceu sucessivas edições onde existem descrições de costumes exóticos e rituais antropofágicos.

Por outro lado e lógica quando afirmo que a CAPOEIRA SEJA UMA ARTE GENUINAMENTE BRASILERIA E QUE JÁ EXISTIA NO BRASIL NA ÉPOCA DO DESCOBRIMENTO, a começar é pela própria palavra que é de origem indígena, pois se fosse oriunda da Africa ou de misturas de artes africanas, a lógica é que a CAPOEIRA teria também um nome africano, coisa que não ocorre, outro aspecto muito lógico também, é que as etnias de negros trazidas para o Brasil para serm escravos, também foram levados para vários outros países para também serem escravos, e a capoeira nunca veio a se manifestar em algum outro lugar a não ser no Brasil, além de que nunca existiu CAPOEIRA na Africa, a não ser atualmente que existe, devido a brasileiros terem levados a CAPOEIRA para lá.

Algumas outras lógicas interessantes: Queixada, que é um golpe de capoeira, tem seu nome originado também do Tupi guarani, e significa aquele que corta, bem típico do movimento, IÊ, que é uma palavra muito usada em rodas de capoeira como um alerta, também é uma palavra oriunda do Tupi Guarani, e seu sigificado é o mesmo das rodas de capoeira, significa: Olhe, veja, preste atenção, interessante isso, e além todas estas lógicas, pessoas ainda buscam a origem do berimbau, que é o instrumento principal das rodas de capoeira, onde sua aparição em rodas também não sabe-se ao certo, e muitas teorias surgem sobre a semelhança com o URUCUNGO que é um instrumento africano, mas tocado parecidamente como se toca um violino, então o violino teria que ser oriundo do urucungo e não o berimbau, pois berimbau sempre foi berimbau e nunca derivou de nenhum outro instrumento, e berimbau também é uma palavra Tupi guarani, que significa do morro furado.

Embora as lógicas são tantas, infelizmente ainda ensistem brasileiros com falta de conhecimento e patriotismo, que preferem falar que a nossa rica CAPOEIRA seja oriunda de transformações de culturas vindas da africa.

 

Douglas Tessuto (PROFESSOR PELICANO, Historiador da arte CAPOEIRA)

 

Agradecimentos ao Mestre Wellington pela oportunidade de expôr este assunto tão polêmico que é a origem da CAPOEIRA.

 

Fonte: http://www.rabodearraia.com/capoeira/blog

O legado das senzalas

Filha de escravos africanos e nascida em terras brasileiras, a capoeira camufla arte marcial em dança, contagia e gera paixões aqui e no resto do mundo.

A história da capoeira se funde com a própria história do Brasil. Embora seja possuidora de raízes africanas, é no solo brasileiro que ela realmente se firmou e floresceu até os dias de hoje.

Causadora de grandes polêmicas, a mesma capoeira que gerou – e ainda gera – certa resistência e preconceito, também suscita grandes paixões. Nilson Rosa, 45, conheceu a arte cedo – aos 16 anos – e se identificou. Hoje, além de diretor da Secretaria Municipal de Cultura eTurismo, Nilson é mestre de capoeira, algo que para ele é um sonho que se tornou realidade.

Assim como os outros esportes, este também traz vários benefícios à saúde. Dentre eles, a melhora da condição física e o retardo do envelhecimento. Mas o diferencial também está presente nos benefícios não físicos. “A capoeira ensina o ser humano a ser mais humano. Ela é o tempo inteiro igualdade e união”, conta o mestre Nilson.

Mas se há tantas vantagens, qual é o motivo de o preconceito ainda existir? Para o mestre, é simples: “As pessoas tem resistência ao que é invisível e desconhecido. Por ter sido criada pelos escravos, a capoeira tem a famade ser algo para os desocupados”. Embora muita coisa da história não esteja escrita, o mestre Nilson passa seu conhecimento aos alunos, contando para eles as histórias do folclore brasileiro e o legado deixado pelos escravos. “Ainda que a capoeira pareça distante, esta arte originada como forma de autodefesa camuflada em dança está mais do que presente em nossasvidas.

Se antes os escravos viviam em senzalas e tinham como inimigo comum o senhor de engenho, hoje moramos em cidades e enfrentamos a dureza do cotidiano”.

Em Jaú, a capoeira está em sua sexta geração. A primeira delas contou com o mestre Bimba, que treinou diretamente com os escravos e passou seus conhecimentos ao mestre Suassuna. O mestre Suassuna ensinou Nino, que por sua vez foi mestre de Betão.

Quando Betão faleceu, Nilson – que já treinava há cerca de 10 anos – se tornou mestre, e hoje passa aos seus alunos a arte capoeirística, até o dia em que alguém se levante e então seja um mestre da sétima geração em Jaú.

A capoeira é uma mistura de tradições e segredos, de golpes e gingas. É como disse o mestre Pastinha, “jeito de escravo com ânsia de liberdade. Seu princípio não tem método, e o seu fim é inconcebível ao mais sábio dos mestres”.

 

Fonte: http://www.redebomdia.com.br/Noticias/Viva/62690/O+legado+das+senzalas

Escravidão

A ESCRAVIDÃO NA ÁFRICA

A escravidão, na África, começa com seu próprio povo; as tribos brigavam entre si, e as populações derrotadas, nestas guerras, serviam como recompensa. Os derrotados viravam escravos, para servirem ali mesmo ou para serem embarcados para outras regiões. Havia guerras com o exclusivo fim de produzir cativos; o reino do Sego, a confederação Ashanti, o reino do Dahomé e as cidades-estados iorubas foram nações escravizadoras, que anualmente, lançavam seus exércitos em operações de envergadura. Guerreiros promoviam rápidos ataques nos territórios vizinhos, onde aprisionavam um punhado de aldeãos. As operações escravizadoras destruíam e desorganizavam a produção artesanal e pastoril de comunidades inteiras, fora as perdas de vidas motivadas pelos combates. Para cada africano desembarcado vivo nas Américas, dois outros teriam morrido, na África ou em alto mar, em decorrência das violências, diretas ou não movidas pelo tráfico.

Eram muitos os caminhos que levavam um africano ao cativeiro. Uma enorme quantidade de cativos vendidos aos escravistas resultava do seqüestro furtivo de crianças e jovens por africanos em busca de lucro fácil. Crianças eram trocadas pelos pais, em momentos de carestia, por alimentos. Africanos viciados em jogos de azar perdiam filhos, esposas e a própria liberdade em apostas. A justiça africana também foi responsável pelo envio de milhares de homens e mulheres ao cativeiro. Inúmeros atos eram punidos com a perda da liberdade e com a venda do culpado. Um criminoso era entregue aos parentes do falecido para ser vendido. O adultero passava a ser propriedade do marido traído, os casais espertos faziam verdadeiras armadilhas à jovens inexperientes, que pegos se transformavam em escravos. Homens e mulheres acusados de feitiçaria, o roubo, dividas não pagas, em fim qualquer tipo de delito faziam com que estes indivíduos virassem parte da carga de um tumbeiro.

O TRÁFICO

Terminada a compra dos cativos, os negreiros começavam os preparativos para travessia atlântica. Os alimentos e a água eram embarcados em quantidades mínimas. O espaço útil se destinava a ser atulhado de escravos. Um copo de água a cada três dias, para alguns capitães, era suficiente para manter em vida, por meses, um negro. Eram comuns as lutas e disputas nos porões escuros dos navios, por um pouco de espaço. Como mercadorias, antes de subirem aos navios os negros eram carimbados. Sinetes de ferro ardente marcavam os braços, as nádegas, os rostos ou qualquer outra parte do corpo o sinal do proprietário ou da nação escravista. Negros aterrorizados jogavam-se ao mar ou organizavam desesperadas revoltas. Cativos negavam-se a comer, e enlouqueciam. Os negreiros encerravam os cativos nos porões, quando da partida dos tumbeiros. O que além de prevenir desesperadas rebeliões, impedia que os negros vissem como se manobravam os navios. Nos movimentos de revoltas, dentro dos navios, os chefes identificados, eram torturados e executados. Houve revoltas que levaram à destruição dos navios e à morte dos tripulantes e escravos.

Os primeiros africanos foram transportados em caravelas ou naus; e as mais variadas embarcações – charruas, carrancas, patachos, chumacas etc. começaram a ser utilizadas como tumbeiros, e transportavam em média de 100 a 400 indivíduos. Já no final do séc. XIX, eram usados modernos navios a vapor com capacidade para transportar até 1.000 escravos. Era altíssima a mortalidade de escravos transportados por estas embarcações, a taxa de mortalidade chagava a 14% do total, pois uma viagem da costa ocidental ao Brasil durava de 30 a 40 dias; e os navios que partiam de Moçambique viajavam em torno de 2 meses.
Embarcados os cativos eram alimentados duas vezes ao dia, pela manhã por voltas das 10 horas e das 4 horas da tarde, quando recebiam para comer arroz, farinha de mandioca, feijão, milho e pequena quantidade de peixe salgado. Geralmente os alimentos eram mal preparados e sem temperos, os cativos sofriam, então, de vômitos e disenteria durante e após a travessia. Como os escravos doentes defecavam, urinavam e vomitavam sem que pudessem aproximar-se das precárias latrinas ou dos baldes; mandavam-se lavar, duas vezes por semana, as cobertas com vinagre ou água do mar; mesmo assim, na chegada dos navios se constatava um fedor aterrorizante que escandalizavam os espectadores nos portos. Os homens nus, os sexos desproporcionadamente grandes nos corpos magérrimos, a balançarem entre as pernas; as mulheres curvadas, esqueléticas, os peitos caídos, as barrigas chupadas, as crianças, pequenos zumbis, só olhos e pescoço.

Os tumbeiros saídos da costa da África aportavam no Brasil, após uma viagem que variava de 30 a 40 dias, e os provenientes de Moçambique, por diversos motivos, chegavam a demorar quatro meses no mar. O sofrimento e a mortalidade da carga, em um e outro caso, diferiam significativamente. Muitas vezes, ao avistarem a costa, até os negros batiam palmas e cantavam de contentamento. Terminava a viagem infernal. Nas proximidades dos portos, os negreiros sentiam-se mais seguros, distribuíam as reservas de água e de alimentos, permitiam que os cativos permanecessem mais tempo ao ar livre. Rio de Janeiro, Salvador, Recife e São Luis eram os portos que recebiam os navios chegados da África, quando estes não se dirigissem diretamente para os portos Rio Grande (RS), Desterro, Belém e outros.

A ESCRAVIDÃO NO BRASIL

No ano de 1432 o navegador português Gil Eanes introduziu em Portugal a primeira leva de negros escravos, e a partir desta época os portugueses passaram a traficar os escravos com as ilhas Madeiras e em Porto Santo, logo levaram o negro para os Açores e depois para Cabo Verde e finalmente para o Brasil.

A primeira expedição colonizadora chegou ao Brasil em 1532, dando inicio à escravatura, que se desenvolveu em solo brasileiro em função da estrutura econômica e social do regime colonialista. A principio os índios foram à mão-de-obra escrava mais usada. Em seguida começaram a chegar ao Brasil os primeiros escravos vindos da África; alguns autores datam a chegada dos primeiros escravos em 1532, com a expedição de Martim Afonso de Sousa, e em outros estudos dizem ser por volta de 1550; independente de datas, o fato é que os navios negreiros aqui chegaram e fizeram deste tráfico a atividade importadora mais lucrativa do comércio exterior brasileiro, dando forças ao cultivo do açúcar, do fumo e do algodão, e também foram absorvidos pela economia mineradora e pelo serviço doméstico.

A escravidão é o regime social definido pela lei como a forma mais absolutamente involuntária de servidão humana, na qual os serviços de um escravo são obtidos pela força, e a pessoa é considerada propriedade de seu dono, o qual dispõe de sua vida; no caso do negro, é um absurdo o fato de transformar uma pessoa num ser inferior apenas por que ela tem outra cor, ou principalmente por que ela tem outra formação, esta escravidão racista transformou o negro em mercadoria, deslocando-o para um lugar estranho ao seu viver, onde não falavam a sua língua, onde não tinham os seus costumes, onde ele foi desumanizado, coisificado, animizado por seu senhor de escravo.

Mesmo sofrendo todas estas injustiças, e todas estas pressões o negro continua um ser humano, e aqui procurou continuar a amar, a ter filhos, a ter amizades, a trabalhar a sua maneira, a manter a sua religião, procurou manter a sua língua, procurou fugir, procurou sabotar o trabalho de seu senhor de escravo, procurou comprar a sua liberdade e procurou construir o seu mundo fora da escravidão. A escravidão só é aceita por quem escraviza.
O negro, na África, era encurralado pelo próprio negro; havia tribos que capturava o inimigo para vender, um Yorubá não considerava um Fon como seu semelhante, o considerava como inimigo e como individuo inferior que podia ser escravizado, e assim também acontecia entre outras tribos inimigas.

O escravo negro era uma mercadoria cara, valia muito dinheiro; e havia recomendações de como carregar os navios, só que a cobiça das pessoas que praticavam o tráfico era tão grande que colocavam nos navios muito mais gente do que cabia, de maneira que havia uma mortandade muito grande dos escravos embarcados. Havia um mercado especial para o escravo jovem, o chamado escravo português ou escravo do ouro, por que era comprado, geralmente, com ouro; e o escravo de boa aparência, de boa qualidade física que tinha entre 17 e 25 anos de idade, valia muito mais do que os outros

Embora toda esta maldade da escravidão, houve casos em que o escravo se afeiçoava ao seu senhor e a família a qual servia, pois mesmo sendo regime de escravidão, é uma relação entre seres humanos; sabe-se de escravo que virou homem de confiança de seu senhor, e até chagava a representá-lo em algumas ocasiões, como na compra e venda de mercadorias, no transporte de seus valores etc..; houve casos de formação de sociedade do escravo com seu dono; claro que estes são fotos raros , havia diferenciação entre o escravo que trabalhava no campo cortando cana e plantando café, e o escravo que estabelecia um determinado tipo de relação pessoal com seus senhores, que podia até ser afetiva; contudo no geral o escravo vivia nas senzalas, quase sempre com excesso de trabalho e em condições precárias de higiene e salubridade, o que reduzia a vida útil à cerca de sete anos nas áreas de açúcar e do ouro. A mentalidade escravocrata era muito difundida na colônia e no império, provocando a desvalorização do trabalho manual e a presença do escravo em quase todas as atividades, como a extração de diamantes, a lavoura do tabaco, o artesanato e o trabalho doméstico.

Escravos e escravas eram também alugados por seus proprietários para a realização de atividades remuneradas, é claro que os valores passavam a seus senhores que compravam mais escravos com o ganho. Admitiam-se casamentos entre escravos e ocorriam também alforrias, quando o escravo era libertado, através de compra da própria liberdade ou por ocasião da morte de seus proprietários.
Os negros eram vendidos por seus sobás (chefes de tribos africanas) aos portugueses, e trazidos para o Brasil, principalmente para as regiões de Pernambuco e Bahia, até meados do séc. XVII; e no inicio do século XVIII seus maiores compradores passaram a ser o Rio de Janeiro e Salvador, e ainda neste mesmo século foram introduzidos nas regiões cafeeiras do Pará e do Maranhão e logo para o sul do Brasil; muitos destes deslocamentos eram feitos a pé, de um estado para o outro.

O grupo mais importante introduzido no Brasil foi o sudanês, que dos mercados de salvador, se espalhou pelo país, deste grupo a etnia mais notável foram os yorubás ou nagôs, da Nigéria, e os Jêjes do Daomé, seguindo-se os minas da costa norte-guineana, além dos tapás, bornus, galinhas, hauças, fulas ou fulanis e os malês ou mandingas. Esta presença comum dos grupos de idioma yorubá explica a maior influencia desta cultura principalmente nos segmentos religiosos . Dentro da própria África, a cultura yorubá predominava do Golfo da Guiné ao Sudão; tinham uma civilização adiantada, os costumes sociais, a organização política e a religião serviam de modelo a muitos outros povos. Os yorubás dominavam bem a agricultura, aliás, boa parte do que sabemos sobre agricultura tropical e sobre o pastoreio extensivo do gado, devemos ao povo africano, que dominava também a lida com o ferro e a produção de um aço de alta qualidade, o artesanato em cobre, madeira e as técnicas de mineração do ouro. É preciso saber que, antes da descoberta do ouro no Peru, no México e no Brasil, sobretudo o grosso do ouro que alimentava o sistema financeiro Europeu, Árabe e Islâmico vinha da África, principalmente de Burê, Bambuc, do País Ashanti, Sofala e Zimbábue, a África era o grande centro produtor de ouro.

Os bantos de Angola, tinham técnicas mais primitivas de agricultura praticadas por mulheres, e os homens criavam gado, e se vestiam com cascas de arvores, já na parte sudoeste, usavam vestimentas de couro e mantinham hábitos de caçadores e usavam armas de ferro; banto é uma família lingüística, ao qual faziam parte, também, os negros do Congo, Guiné e Moçambique; também faziam parte deste grupo os cabindas, benguelas, macuias e angicos. Por não terem nações identificadas e serem misturados de maneira aleatória, os bantos tiveram dificuldades de se integrar culturalmente. Alguns, escravos selecionados pelos senhores de terra, desempenhavam tarefas domésticas, e deste contato próximo, no interior da casa-grande, entre negros bantos e a elite branca que começou a se formar o sincretismo de raças, culturas e idiomas. Muitos hábitos, costumes, linguagem e alimentos do Brasil contemporâneo origina-se na cultura banto.

O negro não apenas povoou o Brasil, mas também contribuiu com o crescimento econômico, com as diversas matrizes culturais que serviram como fonte de desenvolvimento para o nosso país. Em 1830 se faz a proibição do tráfico de escravos no Brasil, porém esta proibição só pega em 1850, e a partir de 1852, não desembarcam mais escravos no Brasil; o último navio negreiro vindo para o país é uma corveta americana que é aprisionada em águas brasileiras; e aí começa haver um tráfico interno no Brasil, os negros começam a serem vendidos para o sul do país, para serem mão de obra na plantação de café; então há um relativo esvaziamento da escravatura no norte e uma grande marcha em direção ao sul; este foi um tráfico pouco estudado, mas extremamente feroz, violento, difícil.
O número de africanos introduzidos no Brasil durante o período superior a três séculos, em que houve a realização do tráfico, estima-se um total de 6.700.000 entrados no Brasil do séc. XVI ao XIX. De uma forma geral o negro era muito mal tratado, as senzalas eram constituídas.

Por uma serie de barracões, pequenos e abafados, com uma só porta e sem janelas, com chão de terra batida, que servia de lugar para dormir; a alimentação era racionada e geralmente eram servidos de feijão, farinha de mandioca e um pedaço de carne seca. Qualquer erro era cobrado com os mais severos castigos, desde a palmatória às chicotadas, que deixavam as costas e nádegas dos negros em carne viva, e ainda colocavam, nas feridas, montes de sal para que a dor se prolongasse por dias, para não ser esquecido o castigo recebido. Por esses motivos e muito mais, logo no inicio do século XVII, cerca de quarenta escravos fugitivos dos engenhos de Pernambuco, chegaram à serra da Barriga. Uma região de solo fértil, com extensas palmeiras; seus novos habitantes por isso deram o nome ao lugar de Palmares. A população dos Palmares, inicialmente era composta de escravos masculinos. Com o decorrer do tempo a aldeia começou a crescer; já havia criação de animais, lavraram-se campos, plantaram milho, feijão e mandioca, que passou a constituir a sua alimentação, além da criação de aves e porcos.

Com o crescimento da aldeia, já com a presença das mulheres, Palmares se transformou no quilombo mais importante da história da escravidão no país. As aldeias eram distanciadas umas das outras, tinham vidas independente, com chefes próprios, a principio estes chefes haviam pertencido à nobreza na África. Seus principais lideres foram Ganga Zuma e Ganga Zona, chefes das aldeias mais importantes, eram tios daquele que mais tarde se tornou o maior chefe dos Palmares, o negro guerreiro chamado Zumbi.
Várias expedições foram organizadas, durante anos, contra Palmares, todas sem sucesso. Palmares torna-se o centro de resistência contra a escravatura, em pleno séc. XVII, os negros eram considerados livres neste local. Outras expedições foram organizadas contra Palmares, e aos poucos iam enfraquecendo os quilombos, mas, apesar de já estarem com menos poder os negros, chefiados por Zumbi, continuam a fazer frente aos ataques inimigos.
Finalmente em seis de fevereiro de 1694, ajudados pelos canhões, os soldados abriram caminho, encurralando os negros contra um precipício. Mesmo ferido Zumbi consegue fugir e só foi aprisionado quase dois anos depois quando um negro, preso no caminho de Recife, em troca da vida, indicou o lugar onde o líder Zumbi estava. No dia vinte de novembro de 1695, Zumbi foi morto, teve sua cabeça decepada, e levada para Recife, por seu algoz, André furtado de Mendonça.

O quilombo dos Palmares, embora tenha sido o mais importante, não foi o único; no séc. XVIII, formaram-se quilombos no Maranhão, em Minas Gerais, às margens do rio das Mortes e em Araxá, todos destruídos.
Em 1807, a Inglaterra aboliu seu tráfico de escravos, e passou a reprimir o tráfico de outros países, inclusive Portugal. Para reconhecer a Independência do Brasil a coroa inglesa exigiu o fim do comércio de escravos, e o Brasil assinou um acordo em 1827, comprometendo-se a acabar com o tráfico de escravos, mas esse acordo não foi cumprido, e o tráfico continuou até 1850. O movimento abolicionista foi crescendo e depois de várias leis paliativas, finalmente foi promulgada a Lei Áurea, em 13 de maio de 1888.

A RELIGIÃO DOS ESCRAVOS

Os escravos africanos eram proibidos de praticar suas várias religiões nativas. A igreja Católica Romana deu ordem para que os escravos fossem batizados, e eles deveriam participar da missa e dos sacramentos. Apesar das instituições escravagistas e da igreja, entretanto, foi possível aos escravos, comunicar, transmitir e desenvolver sua cultura e tradições religiosas. Houve vários fatos que nos ajudaram a manter esta continuidade: os vários grupos étnicos continuaram com sua língua materna; havia um certo número de líderes religiosos entre os escravos; e os laços com a África eram mantidos pela chegada constante de novos escravos.

Desde o começo pais e mães de santos buscavam reafricanizar a religião. Isto foi possível em parte, por que a rota dos navios entre a África e o Brasil conservou viva a conexão entre os povos. Isto continuou mesmo depois da abolição da escravatura em 1888. Escravos libertos que puderam viajar para as áreas iorubás foram iniciadas no culto dos orixás e então, ao retornar ao Brasil puderam fundar terreiros e revitalizar a prática religiosa.
A partir da segunda metade do séc. 19, surgiram grupos organizados, que recriavam no Brasil cultos religiosos que reproduziam não somente a religião africana, mas também outros aspectos da sua cultura na África. Nascia a religião afro-brasileira, primeiro na Bahia, conhecida como Candomblé, e depois pelo país afora, recebendo nomes locais como Xangô em Pernambuco, tambor-de-mina no Maranhão e batuque no Rio Grande do Sul. Os principais criadores dessas religiões foram negros de nações Yorubás ou nagôs, especialmente os provenientes de Oyó, Lagos, Queto, Ijexá, Abeocutá e Iquiti, os das nações Fons ou Jêjes, sobretudo os mahis e os daomeanos, e os Bantos de Angola e Congo. Os ritos se desenvolveram na Bahia, em Pernambuco, Alagoas, maranhão, Rio Grande do Sul e, posteriormente no Rio de Janeiro e mais tarde em São Paulo.

As religiões afro-brasileiras ainda carregam os efeitos de sua interação com outras tradições religiosas, especialmente o catolicismo. Os Orixás, Voduns e Inquices, foram justapostos com santos católicos e o interior dos terreiros possuía numerosos elementos católicos, incluindo estátuas de santos, enquanto os objetos religiosos africanos eram escondidos. As religiões afro-brasileiras eram proibidas , e os terreiros eram freqüentemente visitados pela policia. Por isso seus participantes deviam sempre buscar caminhos para fortalecer a aparência católica dos orixás e dos terreiros. O sincretismo se tornou assim estratégia de sobrevivência por um longo período.

A MULHER ESCRAVA

A escravidão desenraizava o negro de seu meio social e desfazia seus laços familiares. O tráfico negreiro, enquanto pôde operar livremente, garantiu a reposição dos braços escravos indispensáveis ao funcionamento da sociedade colonial. Enquanto durou o tráfico, foram os senhores indiferentes à duração da vida de seus escravos. A situação da escrava empregada no trabalho produtivo, esteve necessariamente determinada pela sua condição de “coisa”, propriedade do senhor. Mas esta condição, compartilhada com o homem escravo, soma-se a particularidade advinda do fato de ser mulher, isto é, ocupar um papel privilegiado de reprodução biológica. A realização combinada dos potenciais produtivos e reprodutivos da escrava privilegiou o lucro imediato e conduziu objetivamente ao consumo de escravos no processo de produção.

Compreende-se que sas “negras pejadas” e as que amamentavam não eram poupadas do trabalho: duras fadigas impediam em algumas o regular desenvolvimento do feto, em outras minguava a secreção do leite, em quase todas geravam o desmazelo pelo tratamento dos filhos, e daí as doenças e a morte das pobres crianças. A negra quando grávida, não recebia condições mínimas necessárias ao desenvolvimento do feto; e quando a gravidez vingava, estas condições levavam, muito freqüentemente, a matarem os próprios filhos. A mulher escravizada, sobrepondo-se aos naturais impulsos maternos, interrompia sua gestação ou eliminava o recém nascido. Assim o fazendo, quebrava o implacável elo que prendia sua descendência à escravidão. O aborto voluntário e o infaticídeo eram tidos pelos escravistas como formas conscientes de oposição ao cativeiro.
A mulher escrava fazia ponte entre a senzala e o interior da casa grande e representava o ventre gerador. As negras mais bonitas eram escolhidas pelo senhô para serem concubinas e domésticas. Objeto dos desejos sexuais sádicos dos homens, do senhor de engenho ao menino adolescente, a negra sofria por parte da mulher branca os castigos mais variados. Se a beleza dos seus dentes incomodava a desdentada sinhá, esta mandava arrancá-los. A escrava adoçava a boca do senhor e recebia chicotadas à mando da senhora, mas cumpria as tarefas que normalmente estariam destinadas à mãe de família.

A negação dos escravos enquanto seres humanos implicaram necessariamente na negação de sua subjetividade, que foi violada, negada, ignorada, principalmente nas relações entre eles: mãe escrava – filhos, pai escravo – filhos e homem-mulher escravos. Era o senhor quem decidia sobre a possibilidade e qualidade da relação entre o homem e a mulher escrava, sobre se haveria ou não vida familiar, se casados ou concubinos seriam ou não separados, se conviveriam com os filhos e onde, como e em que condições morariam; não era certo a convivência em família. A legislação a respeito do casamento escravo era apenas mais um aspecto no qual prevaleceria o poder de fato do senhor sobre seus escravos. Ao ser mãe a mulher negra estava ameaçada com a separação eterna de seus filhos, pois o seu destino era incerto; se fosse vendida perderia a ligação com os filhos para sempre. Mesmo comprometida com um negro, a escrava, ainda assim, estava sujeita aos desejos sexuais de seu senhor, ; e um escravo não poderia queixar-se da infidelidade de sua mulher e vingar-se de seu sedutor.

A MÃE PRETA

Enquanto a amamentação da criança escrava serve a preservação da “mercadoria escrava-leiteira”, dela pode se beneficiar o filho da ama. A existência de mães pretas revela mais uma faceta da exploração da senzala pela casa-grande, cujas conseqüências inevitáveis foram a negação da maternidade da escrava e a mortandade de seus filhos. Para que a escrava se transformasse em mãe preta de criança branca, foi lhe bloqueada a possibilidade de ser mãe de seu filho preto. A proliferação dos nhonhôs implicava o abandono e a morte dos negrinhos. Além disto os pais – senhores – são por hábito bárbaros e castigam fortemente os seus escravos à vista de seus filhos, que facilmente também se habituam à crueldade: é assim que se viam meninos e meninas esbofetearem a cara da escrava-ama que lhes dava o leite, é assim, que milhares deles castigam com cruéis açoites aqueles mesmos escravos que lhe os carregaram, que os alimentaram, que os embalaram na infância. Numa sociedade cuja ideologia dominante atribui à maternidade o papel de função básica da mulher, a escrava transformada em ama de leite conhece, na negação de sua maternidade, a negação de sua condição de mulher. Mesmo em contato estreito e continuo com a família branca, a ama escrava não recebia benefícios sequer dos cuidados mínimos que lhe pudesse garantir uma boa saúde. Nem mesmo quando era constantemente acusada de ser portadora de doenças graves, principalmente a sífilis. No entanto, seria igualmente possível que muita mãe preta tenha sido contaminada pelo menino de peito, alastrando-se também por esse meio, da casa grande à senzala, a mancha da sífilis. A sifilização da ama de leite, entretanto, não teve origem unicamente na criança branca. À apropriação e a utilização da escrava como ama de leite da criança branca raramente deixaria de se acrescentar, assim para mucamas, cozinheiras, amas-secas etc., também a apropriação de seu corpo como objeto sexual do homem branco.

OBJETO SEXUAL

A sexualidade possível à senhora é aquela que lhe impõem as relações familiares patriarcais, norteadas pelos rígidos preceitos religiosos e morais. A escrava escapa a essas determinações que cerceiam as mulheres de classe dominante; sua sexualidade não está a serviço da procriação e da reprodução ideológica da família branca. Estar fora do círculo familiar e do jugo patriarcal sobre ele exercido representa, para a escrava, estar além dos limites e normas que regulam a sexualidade da mulher branca. A sexualidade da escrava aparece para o senhor livre de entraves ou amarras de qualquer ordem, alheia à procriação, às normas morais e a religião, desnudada de toda série de funções que são reservadas às mulheres brancas, para ser apropriada num só aspecto: o objeto sexual. As escravas aparecem aí sem honra e sem religião, ou seja totalmente à margem dos padrões morais e religiosos dominantes na sociedade. A utilização sexual da escrava pelos senhores, determinaria, em grande parte, o tipo de relação que cada membro da família patriarcal estabelece com ela.

Assim, às escravas também passam ser as iniciadoras sexuais dos filhos do senhor. As relações sexuais entre o filho do senhor e a escrava parecem ter sido discretamente consentidas pela senhora. Mas, que tipo de relação sexual poderia emergir entre seres igualizados sob o chicote? A escrava era obrigada a ceder os desejos libidinosos se seu senhor para não se expor, com a recusa, a toda sorte de torturas; não poderia guardar a honra de sua filha, nem mesmo a sua contra tentativas do seu poderoso senhor e nem o escravo poderia queixar-se da infidelidade de sua mulher, e vingar-se de seu sedutor.

A CRIANÇA NEGRA E A ESCRAVIDÃO

Bem pouca atenção é dada ao estudo da criança escrava. Isto talvez se deva, em parte, ao fato de a população escrava, no Brasil, ter sido composta majoritariamente por homens e mulheres em idade produtiva. A baixa taxa de crescimento da população cativa, devido a menor proporção de mulheres do que de homens escravos, e as dificuldades de sobrevivência da criança escrava tem certamente contribuído ainda mais para ocultar este segmento

Varias razões têm sido apontadas para a venda de crianças na África como escravas: eram consideradas como bocas inúteis em certas regiões e determinados períodos; outras foram trocadas por prisioneiros; em épocas de carência, famílias se vendiam espontaneamente para não morrerem de fome, entre outros motivos.

A falta de interesse por este tráfico devia-se ao fato de os escravinhos não serem imediatamente produtivos, aliado a isto, as altas taxas de mortalidade infantil e infanto-juvenil acarretavam riscos de grande prejuízos. Apesar desses fatores, o percentual de crianças embarcadas nos portos africanos chagou a representar, em certas épocas, cerca de 20% do total dos escravos traficados.

No Brasil, as crianças nascidas eram logo batizadas e ainda assim consideradas gente sem alma. A Igreja, esteio dos poderosos, agia da mesma forma no tratamento dado aos negros. O moleque, pequeno escravo, companheiro do sinhozinho em brincadeiras e aventuras, servia também de saco de pancadas. A vida de trabalho da criança escrava começava cedo. Depois de cinco ou seis anos de idade, essas crianças eram entregues a tirania dos outros cativos que os domavam a chicotadas, habituando-se à força aos rigores da vida escrava. Muitas vezes, desde pequenas as crias eram obrigadas a acompanhar suas mães ao campo e com elas compartilhavam várias atividades agrícolas: tiravam ervas daninhas, semeavam, apanhavam frutos, cuidavam de animais domésticos.

Aos sete ou oito anos iniciava-se uma nova etapa na vida das crianças escravas: passavam a fazer os serviços mais pesados e regulares. Deixavam para trás as ultimas regalias infantis, aquelas que viviam na casa grande e começavam a desempenhar funções especificas para sua idade ou já eram treinadas para a função que desempenhariam posteriormente. As crianças que ficavam na casa grande eram empregadas no serviço do senhor e de seus familiares, trabalhando como pajem, moleque de recado ou criada. Buscavam jornal, encilhavam os cavalos, lavavam os pés das pessoas da casa e mesmo de visitantes, escovavam as roupas, engraxavam os sapatos, serviam a mesa, espantavam os mosquitos, balançavam a rede, buscavam água no poço e carregavam pacotes e outros objetos. Nas fazendas, nos engenhos e nas chácaras, aos oito anos as crianças eram enviadas às plantações, colhiam e beneficiavam café, descaroçavam algodão, descascava,m mandioca, fabricavam cestos e cordas.

Assim como as meninas eram enviadas às “escolas de mucamas”, os meninos eram mandados para aprender algum oficio mecânico, como de sapateiro, barbeiro, marceneiro ou alfaiate. Meninas escravas carregavam os bebes brancos no colo, sendo obrigadas a cuidar das demais crianças. Mais barata, a criança escrava tornava-se uma mercadoria acessível às camadas intermediárias, dedicadas ao pequeno comércio e ao artesanato doméstico. Assim como havia mercado de trabalhos para as crianças africanas escravizadas, também havia para as crianças escravas nascidas no Brasil. Para muitos senhores era mais rendoso criar negros do que plantar café. Os rapazes de certa idade eram mandados para a cidade e entregues ao oficio pelos quais ganhavam dez vezes mais do que se fossem utilizados trabalhando na terra. Algumas crianças que trabalhavam descascando e lavando mandiocas, tinham os dedos duros, mutilados, tortos e calejados: “como as mãos dos escravos, pareciam haver perdido as características humanas.

A condição de criança escrava não livrava os escravinhos dos maus tratos: eram castigados, separados de seus familiares, trabalhavam duro, ficando muitas vezes com marcas físicas dos castigos e do excesso de trabalho.
Alguns proprietários compravam crianças escravas como brinquedos para seus filhos; essas crias, transformadas em “tetéias por causa da pouca idade, ignoravam a distancia respeitosa que havia entre eles e seus senhores moços” e acabavam por se rebelar e fazer ameaças contra as dentadas, beliscões e outras tiranias em relação à idade mais ou menos avançada dos senhorzinhos; os pais, em vez de repreenderem seus filhos, castigavam rigorosamente a criança negra, cujo único crime o mais das vezes era fugir e não deixar o senhorzinho morder-lhe à vontade.

A Lei do Ventre Livre, na verdade não teve grande eficácia para melhorar as condições de vida da criança negra no Brasil. Ao lado da denuncia de perpetuação de fato de sua condição de escrava, destacou-se o prognóstico do aumento do número de abandono dos filhos de suas cativas, por parte dos senhores. No Rio de Janeiro, paralelamente à escravização de fato dos filhos de escravos após 1871, teve um significativo aumento do abandono de crianças negras, como conseqüência não desprezível da Lei do Ventre Livre.

Nas sociedades do antigo regime europeu era bastante difundido o costume de entregar recém-nascidos a amas de leite, que cuidavam da criança durante a primeira infância. Transplantada para o Brasil, esta prática tornou generalizados o aluguel e a compra de escravas para amamentarem os bebês das famílias brancas. Esse costume tinha como contrapartida a desintegração da frágil família escrava, separando as cativas de seus filhos. Desde a terceira década do século XIX, os médicos e sanitaristas da Academia de Medicina iniciaram uma vigorosa campanha contra o uso das amas-de-leite escravas, atribuindo dificuldades de aprendizagem, difusão de doenças como a sífilis e até mesmo apego a superstições, ao contato prolongado e íntimo das crianças brancas com as amas-de-leite negras, sobretudo as de origem africana. Em suas teses esses médicos evidenciavam o papel utilitário da Roda dos Expostos para os senhores que comercializavam escravas amas-de-leite, dando assim, um extraordinário aumento de crianças enjeitadas, principalmente na cidade do Rio de Janeiro. Não era de se estranhar que os senhores preferissem auferir os lucros proporcionados pelo aluguel das amas-de-leite do que arcar com o ônus da criação de seus filhos, correndo o risco de só poderem aproveitar-se mais tarde do trabalho de metade das crianças que havia sustentado, por causa das altas taxas de mortalidade da época.

 

Fontes diversas, entre as mais relevantes Wikipédia, a enciclopédia livre.