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Escola de semba

Seg, 27 de Junho de 2005 10:32 Ricardo Beliel, de Luanda 0 Comentários Publicações e Artigos
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Nas ruas de Luanda, os angolanos reaprendem sua cultura depois de 40 anos de guerra civil.
e redescobrem seus laços com o Brasil
 
 
 
 
texto e fotos: Ricardo Beliel, de Luanda
publicado: Edição 158
 
 
Os inúmeros mercados ao ar livre de Luanda, a capital angolana, há sempre um pequeno grupo de músicos cantando, em seus próprios dialetos, canções de terras distantes e esquecidas. Um desses músicos é o ex-soldado Tomás Dalakutola, que ficou cego após a explosão de uma granada num combate em Kalandula, no norte do país.
 
 
Feito a mão
Não é raro que músicos façam seus
instrumentos, como os tambores
ngoma
(acima), moldados a partir de troncos de
árvores, ou as marimbas (abaixo).


 
Ele seus amigos Joaquim Leovela e Pedro Salvador fugiram da guerra na província do Malanje para cantar as histórias de seu povo nas ruas da capital. As músicas são interpretadas por Tomás numa viola de três cordas, a kambanza, enquanto os outros dois ditam o ritmo com garrafas, zagaias e tambores ngoma. Longe dos fuzis e morteiros, os três dividem um pouco da esperança de resgatar a cultura popular oculta pela fumaça dos combates por décadas. Uma cultura que começa finalmente a ecoar na viola de Tomás e na bateria das "escolas de semba". Sim, semba, com "e" mesmo, o ritmo que ganha cada vez mais as ruas do Carnaval angolano e deixa à mostra os inegáveis laços desta terra com o Brasil.
 
O resgate da cultura angolana é um fenômeno em evidência. Como Tomás, muitos deixaram as agruras da guerra na província do Malanje para tentar a sorte na música pelas ruas da capital.
 
São quase sempre histórias dramáticas, como a do quarteto de adolescentes Tunjila Tuajokota, que faz sucesso nas transmissões da Rádio Nacional de Angola. Dois deles perderam a visão em conseqüência do sarampo contraído numa fuga pela savana que durou dois anos.
Adotados durante a guerra pelo diretor musical Dumay Missete, os garotos descobriram o sucesso, mas não perderam as raízes: o repertório no estilo diémbe só é executado depois de aprovado por um grupo de anciãs de uma comunidade de migrantes malanjinos na favela de Palanca.
Oficialmente terminada em 2002, a guerra civil angolana durou 40 anos, deixou 1 milhão de mortos e provocou danos, muitos deles irreversíveis, na diversidade cultural do país. Embora unidos pelo português, kikongos, kimbundus, umbundus, lunda côkwes, mbundas, nyaneka-humbis, helelos, ociwambos e khoisans falam cada um seu dialeto e mantêm tradições próprias. Para fugir da guerra, muitos desses grupos abandonaram suas terras ancestrais, mas não sem antes perder grande parte da população adulta nos combates. Por pouco, diversas manifestações centenárias da cultura oral não foram pelos ares numa explosão de minas.
 
Em Luanda, há sempre um pequeno grupo de músicos nos diversos mercados ao ar livre
 
Preocupado em salvar esse tesouro, um grupo de voluntários liderados por Amarildo da Conceição criou o Núcleo Nacional de Recolha e Pesquisa da Literatura Oral. Eles saem à procura dos mais velhos nas comunidades de refugiados caçando endas, contos, narrativas genealógicas, receitas medicinais e espirituais, danças, músicas e até mesmo poemas guardados há gerações. "Os depoimentos são colhidos a mão, sob o risco de perda de várias passagens desse sábio discurso", lamenta Amarildo. Embora não seja realizado um censo desde 1981, calcula-se que 60% dos 11 milhões de angolanos sejam analfabetos.
 
Os axiluandas, moradores da Ilha de
Luanda, vivem da pesca e cultivam
tradições como a festa de Kianda,
semelhante à nossa Iemanjá

 
 
 
No bairro Operário, o som do batuque anuncia
o ensaio do Grupo Experimental de Dança Tradicional Kilandukilo. Dançarinos e músicos deixam a casa branca de esquina e colocam uma grande marimba sobre um tapete de palha estendido no chão de terra e enchem as ruas com seus tambores ngoma. Sob as ordens de Maneco Vieira Dias, fundador e diretor do grupo, os dançarinos exibem a seus vizinhos as coreografias baseadas em tradições tribais. Aos poucos, platéia e dançarinos confundem-se numa grande festa. Por um momento a guerra é esquecida e são todos tomados por uma nostalgia única de suas origens. A saudade de um tempo em que viviam em paz nas florestas do Kwanza Norte e do Malanje ou nas savanas do Huambo e do Bié. Luanda é hoje uma cidade de imigrantes - só que são todos angolanos.
 
Na pronvíncia de Huila,
as mulheres pastoras
mumuilas indicam seu
status social pelo
número de colares
que ostentem

 

  
 
 
Luanda lembra a Salvador baiana. Tem também sua Cidade Baixa. Aqui, num velho sobrado construído pelos portugueses no século 19, reúne-se o mais antigo grupo de capoeira do país, o Abadá. Ao contrário do que possa parecer, a capoeira não nasceu em Angola. Foi trazida para cá pelo mestre brasileiro Camisa em 1996, quando fundou o grupo. Mas Cabuenha, Galo, Zinga, Catorze, Zindungo, Índio e Muxi, os decanos do Abadá, reconhecem na capoeira brasileira as influências de lutas seculares praticadas por seus ancestrais - como a ginga da bassula, da Ilha de Luanda, o jogo da kambangula e o n'golo, ambos de Benguela. O berimbau é idêntico ao que se toca no Brasil, embora por aqui eles o chamem de hungo.Samba, cafuné, canjica, capoeira, cuíca, farofa, fubá, ginga, jongo, quilombo e macumba são todas palavras que têm origem em Angola. Foram trazidas até nós nos porões dos navios negreiros, embarcadas com os escravos comprados no porto de Luanda há quatro séculos. Se mais de 5 mil quilômetros de Oceano Atlântico não conseguiram apagar a vigorosa e mágica influência da cultura bantu dos angolanos em nosso país, 40 anos de guerra civil também não puderam exterminar uma diversidade de manifestações culturais que na Angola de hoje continuam quase idênticas às da época em que navegaram os mares da escravidão.
Poemas, cantigas e lendas estão sendo gravados e anotados por voluntários na tentativa de manter viva a cultura
 
É também na Baixa que acontece o Carnaval de Luanda. Durante três dias, diversos grupos desfilam ao longo da Avenida Marginal, ladeada por um belo casario colonial. O ritmo preferido é o semba - que, como o nome propõe, é a origem do nosso samba. Há quem já sugira o nome de "escola de semba" a essas agremiações, embora o Carnaval angolano seja na verdade regado a uma verdadeira democracia de ritmos: kabetula, kazukuta, ndimba, varina, cidrália, dizamba e, é claro, o semba. Grupos como o Unidos do Caxinde, a União Operária Kabocomeu e a União Mundo da Ilha chegam a desfilar com mais de mil integrantes, acompanhados por uma pequena bateria composta por tambores, dikanza (reco-recos), cornetas, bumbos de lata, chocalhos e puítas (cuícas).
Os primeiros registros do Carnaval angolano datam de 1857, segundo um boletim oficial do Governo Geral. O documento chamava a atenção para a festa popular dos kimbundus que ocorria em Luanda e nas cidades de Cabina, Malanje, Benguela e Lobito. Por influência dos portugueses, os personagens principais da festa são reis, rainhas, princesas, condes, vice-condes e comandantes. Todos negros e com o semba no pé. As mulheres que dançam vestidas com panos multicoloridos são, em geral, peixeiras da Ilha de Luanda ou das comunidades de Samba Grande e Corimba ou quitandeiras dos bairros de Sambizanga e Kilamba Kiaxi. Mas há também mulheres no meio da bateria. Uma delas é Luciana Pedro, do União 54, que começou a tocar com a mãe na década de 40. Ela diz sentir-se satisfeita entre os homens. "Sem o som da banheira (uma espécie de bacia) que toco, eles não conseguem extrair bem a batida do batuque, porque a banheira serve para dar ritmo ao semba."
Passados os sangrentos anos de guerra civil, o Carnaval de Luanda ganha sabor de festa e se reaproxima cada vez mais da alegria dos carnavais de Salvador ou do Rio. Enquanto redescobrem o prazer de festejar, os angolanos também restauram os laços históricos com o Brasil. Lampejos de memória já surgem no país inteiro. Na Ilha de Luanda, 50 mil pescadores homenageiam em setembro as yanda, as sereias do mar, num culto que lembra muito a festa de Iemanjá. 
 
No passado, Angola influenciou a cultura e a língua no Brasil; hoje importa a capoeira e o amor pela música
 
 
Os reis e rainhas dos
grupos carnavalescos
remontam aos tempos
da colônia

 
 
 
 
 
No Arquivo Nacional estão guardados os registros de venda de escravos para o Brasil, com nomes que podem dar pistas da árvores genealógica de muitas famílias brasileiras. Na Baía do Mussulo fica o misterioso Museu da Escravatura, no mesmo lugar onde por três séculos levas de cativos eram vendidos e embarcados em navios negreiros rumo ao outro lado do Atlântico. Os músicos cegos do Malanje talvez nunca tenham lido as palavras do escritor angolano José Eduardo Angalusa. Mas certamente eles concordariam com o trecho em que ele afirma: "O passado é como o mar; nunca sossega".
 
 
Museu da Escravatura onde funcionou o
mercado de escravos que iam para o
Brasil


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