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Cultura e Cidadania

Vendo Artigos de: Cultura e Cidadania (categoria)

Projeto transforma geladeiras velhas em bibliotecas

Movimento Periferia&Cidadania busca incentivar leitura em comunidades carentes do Grande Recife de forma simples

O que faz uma geladeira colorida em uma academia de capoeira, em Jardim Brasil II, em Olinda? O eletrodoméstico, grafitado pelos próprios alunos, crianças com idade entre 6 e 13 anos, desperta a curiosidade de quem entra no Centro Cultural Dinda. “Eu digo que tem água. O que mais poderia ter numa geladeira? Mas aí eles abrem e se surpreendem”, diz o mestre Arquimedes Nogueira, responsável pelo local. O conteúdo, realmente, é para um tipo diferente de sede e fome: a do saber. Cerca de 100 livros e gibis ficam guardados ali, usados pelos meninos e meninas que praticam capoeira, provenientes de comunidades carentes. A ação faz parte do projeto Geladeira Cultural, desenvolvido pelo movimento Periferia&Cidadania, e tem o objetivo de incentivar a leitura de uma maneira simples.

A ideia é do técnico em microscopia eletrônica do Departamento de Física da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Sergio Santos, 41 anos. Quando tem tempo livre, ele compra as geladeiras em ferro-velho e recolhe doações de livros infantojuvenis. “Levo os eletrodomésticos para associações de moradores e sedes de movimentos sociais em comunidades carentes do Grande Recife. Também estão no Colégio Militar e no IFPE (Instituto Federal de Pernambuco). A última geladeira foi entregue à comunidade Vila Santa Luzia, na Torre (Zona Oeste recifense). A ideia é promover o gosto pela leitura. Depois de instalada, deixo as crianças personalizarem do jeito que quiserem, com grafite”, revela.

O Centro Cultural Dinda recebeu uma das 27 geladeiras-bibliotecas há um ano e meio, para alegria da criançada. Luiz Henrique da Silva, 14, aluno de capoeira, acredita que os livros ajudaram no aprendizado. “Quando o professor atrasa, a gente pega um gibi para ler. Acho muito bom, porque tenho dificuldades para ler. Na minha escola, não tenho biblioteca”. O mestre Arquimedes mantém o espaço no quintal da casa desde 2010 e atende a 25 crianças. Ele reconhece a importância do equipamento. “Quando chegou, foi uma febre. A meninada pega pra ler e adora. Eles não têm outro acesso à leitura. Procuro incentivar”, comenta.

O maior desejo de Sérgio Santos é levar o projeto para escolas públicas. “Já apresentei a ação no III Fórum Mundial da Educação a pessoas de 22 países e a ideia foi adotada em outros sete Estados brasileiros, mas não consigo mostrar o projeto para a gestão local. Não demanda muito espaço, ajudaria a diminuir o déficit de 130 mil bibliotecas no País”, lamenta. A maior dificuldade é arrumar livros. “Compro o eletrodoméstico por R$ 30, algumas recebo como doação. Arco com muitos custos e não tenho condições de comprar muitos livros”, explica. Segundo dados do Censo Escolar realizado em 2013 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), apenas 36% das 9.861 escolas públicas e privadas da educação básica em Pernambuco dispõem de bibliotecas. 

Quem quiser ajudar pode fazer doações na Associação de Moradores de Jardim Brasil II, na Praça Alvorada, bloco N, apartamento 102, ou na sede do 29º Grupo de Escoteiros do Mar (Gemar) Exército da Salvação, na Rua Conde de Irajá, nº 108, bairro da Torre. Para entrar em contato, basta ligar para o telefone (81)98804-9745. 

 

Fonte: http://jconline.ne10.uol.com.br/

Quilombos urbanos de Belo Horizonte

Documentário retrata comunidades quilombolas de Belo Horizonte assistidas pela DPU.

Belo Horizonte – O documentário Vozes da resistência: os quilombos urbanos de Belo Horizonte, com argumento e direção de conteúdo do defensor público federal Estêvão Ferreira Couto – titular do Ofício de Direitos Humanos e Tutela Coletiva da Defensoria Pública da União em Belo Horizonte – e direção geral de Zuleide Filgueiras, servidora da unidade, é um longa-metragem, com 1 hora e 40 minutos de duração, que tem como tema central a questão da regularização fundiária do território de três comunidades quilombolas da capital mineira: Luízes, Mangueiras e Manzo Ngunzo Kaiango.
 
Assistidas pela DPU em Belo Horizonte, as comunidades buscam a segurança jurídica do direito à propriedade, resistindo e lutando pela garantia de salvaguarda de seu território.
 
Apesar do termo quilombo remeter ao passado histórico do Brasil colonial e imperial e evocar a ideia da resistência à escravidão, o conceito de quilombo, abordado no documentário, ultrapassa o significado do binômio fuga-resistência, trazendo a atenção do espectador para a contemporaneidade, a partir da luta dos movimentos sociais por direitos e reparação no contexto atual das relações interétnicas brasileiras.
Além do enfoque na titulação das terras, o documentário mostra a importância do espaço do quilombo para a identidade quilombola, já que as comunidades relacionam-se com o território ocupado há muitos anos, compartilhando em grupo tradições e práticas culturais herdadas dos antepassados.
 
Participam como depoentes do documentário os defensores públicos federais Estêvão Ferreira Couto e Giêdra Cristina Pinto Moreira e algumas cenas foram filmadas nas dependências da DPU em Belo Horizonte.
 
Assista um fragmento de 6 minutos do documentário, cujo enfoque é a atuação da Defensoria Pública da União na causa quilombola.
O documentário completo, com 1 hora e 40 minutos de duração, tem previsão de finalização e lançamento para agosto de 2015.
 
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O vídeo mostra CAPOEIRA E MACULELÊ.
 

 
GMF/MGM
Assessoria de Comunicação Social
Defensoria Pública da União

Música: LADODALUA Apresenta Primeiro Álbum

RITMO, POESIA E MÚSICA BRASILEIRA DE QUALIDADE MARCAM O DISCO DE ESTREIA DO LADODALUA

Um projeto amadurecido por sete anos, sem a pressa habitual de se abrir ao mundo da indústria cultural. É com este espírito que o LADODALUA brinda o público com seu disco de estreia, intitulado com o nome do grupo. O trabalho está disponível em lojas físicas e virtuais com preços entre R$23 e R$25.

“Com um time experiente liderado pelo percussionista Dalua, grupo inova com intensa mistura de estilos”

O grupo, liderado pelo percussionista e mestre em capoeira Dalua, conta ainda com Emilio Martins (percussão), Cello Resende (cavaquinho e voz), Elder Costa (guitarra e voz), Edy Trombone (trombone, bombardino e percussão) e Dr. Otavio Gali (contrabaixo acústico e elétrico). No álbum LADODALUA, apresentam um repertório que mescla músicas autorais – gravadas pela primeira vez, mas já conhecidas do público do grupo -, como “Capoeira Camará” e “Eu sou desse chão”, e releituras de músicas da MPB, a exemplo de “Baião”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.

A marca do disco é a percussão, assim como a simbiose entre ritmos afro-brasileiros e a influência do jazz, soul, funk, samba e rock. “Ficou acertado entre nós que a voz principal do nosso som seria a percussão, que é a matriz das reações corpóreas para o ritmo. Viemos da capoeira, que é um ponto comum entre os gostos de todos do grupo”, diz Dalua.

Para Dalua, produtor musical do grupo, o novo trabalho traz a possibilidade de colocar em prática uma identidade construída ao longo de sua carreira como músico de apoio nas bandas de Lenine, Luciana Mello, Jair Rodrigues, Ana Carolina e Maria Rita, entre outros: “A minha escola, além da capoeira, é a diversidade de artistas com que trabalhei. Para mim, e para todos os instrumentistas do grupo, já era chegada a hora de colocar nossas influências em prática com um trabalho em que pudéssemos nos escolher como parceiros”. 

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Outro ponto de destaque do disco é o trabalho gráfico de Gringo Cardia, que soube entender e valorizar as principais características do LADODALUA em um interessante encarte. Percebe-se uma minuciosa escolha nas figuras, sobretudo da capa; uma enigmática imagem de 1906 no interior de Minas Gerais. Trata-se de um retrato de época, flagrada em uma inauguração de igreja.

 

O disco pode ser adquirido na Livraria Cultura, por R$24,90, na loja Pops discos por R$23,00, e nas plataformas digitais ‘Itunes’, Spotify e Deezer.

 

FAIXAS:

  1. Baião (Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira)
  2. Eu sou desse chão (Dalua / Cello Resende)
  3. Capoeira Camará (Paulo Cunha)
  4. Samba Cubano (Lucas Santanna e Plinio Profeta). Participação especial: Shamarr Allen – voz e trompete
  5. Onde tem tambor tem gente (Elder Costa)
  6. Todo dia era dia de índio (Jorge Bem Jor)
  7. Saudade das minas (Dalua / Elder Costa / Emilio Martins / Celle Resende / Edy Trombone / Augusto Albuquerque)
  8. Parabolicamara (Gilberto Gil)
  9. Laço (Cello Resende)
  10. Berimbau (Baden Powell / Vinicius de Morais)
  11. Eu não tenho onde morar (Dorival Caymmi)
  12. Ladodalua (Cello Resende)

 

 

 

Mais informações: http://www.ladodalua.com.br/

 

Vídeos:                                                                                                                                                                             


Capoeira Camará: https://www.youtube.com/watch?v=o1EALrK0UAg

 

Teaser temporada Bourbon Street em 2010: https://www.youtube.com/watch?v=x2CD-ovBOfo


Facebook: https://www.facebook.com/ladodalua

 

Fonte: Luciana Zacarias | Pedro Sant’Anna           

Baobá Comunicação, Cultura e Conteúdo

Uma janela de exibição para as culturas de matriz africana

Mostra CineAfroBH explora religiosidade afrobrasileira hoje em quilombo urbano no Santa Efigênia

Atuante na área audiovisual em Belo Horizonte já há algum tempo, Carem Abreu dirigiu em 2012 o documentário “Paz no Mundo Camará: a Capoeira Angola e a Volta que o Mundo Dá”, sobre a tradição e a prática da capoeira Angola no Brasil. O média-metragem teve lançamento em alguns locais, mas a diretora encontrou bastante dificuldade em colocá-lo em mostras e festivais.

 

 

“E conversando com colegas do meio artístico afrodescendente e do audiovisual em BH, sempre comentamos dessa dificuldade de janelas de exibição. Então, tive a ideia de criar uma voltada especificamente para realizadores afrobrasileiros belo-horizontinos, já que as próprias mostras da cidade não dedicam um espaço exclusivo para nós”, argumenta Abreu. O resultado é a mostra CineAfroBH, que realiza sua sétima sessão hoje, a partir das 19h, no bairro Santa Efigênia.

Além de “Paz no Mundo Camará”, o festival traz sempre obras de outros diretores afrodescendentes da capital relacionados às comunidades onde ocorrem as exibições. Na sessão desta noite, os curtas “Os Mestres”, realizado pela Associação Imagem Comunitária, e “O Boi Foi Beber Água Até Chegar no São Francisco”, de Gercino Alves, Carolina Canguçú e Bernard Monteiro, completam a sessão.

Cada edição conta ainda com uma homenagem. “O ‘Paz no Mundo Camará’ foi gravado em cinco Estados. Aqui em BH, entrevistamos grandes mestres da cultura afrobrasileira, e estamos exibindo o filme nas casas de tradição onde eles foram entrevistados”, explica a diretora.

A homenageada desta noite é Dona Efigênia, cujo terreiro se transformou no primeiro quilombo urbano de Belo Horizonte reconhecido pelo Instituto Palmares e pelo Iepha , o Manzo Ngunzo Kaiango. O CineAfroBH vai acontecer na rua São Tiago, em frente ao quilombo. “A ideia é desvincular a ideia negativa vinculada ao candomblé pelo senso comum. Queremos demonstrar que se trata de uma expressão cultural muito importante para a formação da identidade brasileira”, propõe Abreu.

Não por acaso, religiosidade é o tema desta edição da mostra. No próximo sábado, o CineAfroBH acontece no Espaço Tambor Mineiro, com o tema Samba e a homenagem a Maurício Tizumba. E no dia 21, é a vez da Fundação Internacional de Capoeira Angola (Fica), com a homenagem ao mestre Jurandir e o tema Capoeira Angola.

2 de Fevereiro é dia de Iemanjá

A Festa de Iemanjá do dia 2 de fevereiro é uma das mais populares e valorizadas festas de cariz religioso, repleta de sincretismos, Dona Janaina cativa e atrai multidões que lhe trazem oferendas dos mais diversos tipos…

Iemanjá goza de grande popularidade entre os seguidores de religiões afro-brasileiras e até por membros de religiões distintas. Em Salvador, ocorre anualmente, no dia 2 de fevereiro, a maior festa do país em homenagem à “Rainha do Mar”. A celebração envolve milhares de pessoas que, trajadas de branco, saem em procissão até o templo mor, localizado no bairro Rio Vermelho, onde depositam variedades de oferendas, tais como espelhos, bijuterias, comidas, perfumes e toda sorte de agrados. Todavia, na cidade de São Gonçalo, os festejos acontecem no dia 10 de fevereiro.

Outra festa importante dedicada a Iemanjá ocorre durante a passagem de ano no Rio de Janeiro e em todo litoral brasileiro. Milhares de pessoas comparecem e depositam no mar, oferendas para a divindade. A celebração também inclui o tradicional “banho de pipoca” e as sete ondas que os fiéis, ou até mesmo seguidores de outras religiões, pulam como forma de pedir sorte à orixá. Na umbanda, é considerada a divindade do mar.

Yemanjá, Iemanjá, Janaína, Rainha do Mar, Aiucá, Dona Janaína, Inaê ou Maria princesa do Aioká é um orixá africano cujo nome deriva da expressão ioruba Yéyé omo ejá (“Mãe cujos filhos são peixes”). É identificada no jogo do merindilogun pelos odusejibe e ossá. É representado no candomblé através do assentamento sagrado denominado igba yemanja.

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Iemanjá, rainha do mar, é também conhecida por dona Janaína, Inaê, Princesa de Aiocá e Maria, no paralelismo com a religião católica. Aiocá é o reino das terras misteriosas da felicidade e da liberdade, imagem das terras natais da África, saudades dos dias livres na floresta.

Jorge Amado

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Sincretismo

Existe um sincretismo entre as santas católicas Nossa Senhora dos Navegantes, Nossa Senhora da Conceição e Nossa Senhora da Glória, e aorixá da Mitologia Africana Iemanjá. Em alguns momentos, inclusive em festas, as santas católicas e africanas se fundem. No Brasil, tanto Nossa Senhora dos Navegantes como Iemanjá têm sua data festiva no dia 2 de fevereiro. Costuma-se festejar o dia que lhe é dedicado, com uma grande procissão fluvial.

Uma das maiores festas ocorre em Rio Grande, no Rio Grande do Sul, devido ao sincretismo com Nossa Senhora dos Navegantes. No mesmo estado, em Pelotas a imagem de Nossa Senhora dos Navegantes vai até o Porto de Pelotas. Antes do encerramento da festividade católica acontece um dos momentos mais marcantes da festa de Nossa Senhora dos Navegantes em Pelotas, que em 2008 chegou à 77ª edição. As embarcações param e são recepcionadas por umbandistas que carregavam a imagem de Iemanjá, proporcionando um encontro ecumênicoassistido da orla por várias pessoas.

No dia 8 de dezembro, outra festa é realizada à beira mar baiana: a Festa de Nossa Senhora da Conceição da Praia. Esse dia, 8 de dezembro, é dedicado à padroeira da Bahia, Nossa Senhora da Conceição da Praia, sendo feriado municipal em Salvador. Também nesta data é realizado, na Pedra Furada, no Monte Serrat, em Salvador, o presente de Iemanjá, uma manifestação popular que tem origem na devoção dos pescadores locais à Rainha do Mar – também conhecida como Janaína.

Na capital da Paraíba, a cidade de João Pessoa, o feriado municipal consagrado a Nossa Senhora da Conceição, 8 de dezembro, é o dia de tradicional festa em homenagem a Iemanjá. Todos os anos, na Praia de Tambaú, instala-se um palco circular cercado de bandeiras e fitas azuis e brancas ao redor do qual se aglomeram fiéis oriundos de várias partes do Estado e curiosos para assistir ao desfile dos orixás e, principalmente, da homenageada. Pela praia, encontram-se buracos com velas acesas, flores e presentes. Em 2008, segundo os organizadores da festa, 100 mil pessoas compareceram ao local.

Wikipédia

 

Dois de Fevereiro

Dia dois de fevereiro
Dia de festa no mar
Eu quero ser o primeiro
A saudar Iemanjá
Dia dois de fevereiro
Dia de festa no mar
Eu quero ser o primeiro
A saudar Iemanjá
Escrevi um bilhete a ela Pedindo pra ela me ajudar
Ela então me respondeu
Que eu tivesse paciência de esperar
O presente que eu mandei pra ela
De cravos e rosas vingou
Chegou, chegou, chegou
Afinal que o dia dela chegou
Chegou, chegou, chegou
Afinal que o dia dela chegou

Dorival Caymmi

Coleção com 100 imagens de Lampião lançada em São Paulo

Virgulino Ferreira, o Lampião, Maria Bonita e seus comanheiros, estão presente em diversas manifestações populares… Cantado e Louvado na nossa capoeiragem o “Rei do Cangaço” é sem dúvida um dos heróis populares que conquistaram o multifacetado cancioneiro popular, assim como Besouro, Lampião tem um lugar de destaque na cultura capoeirística…  E na pisada em me criei… 

Luciano Milani

 

Coleção com 100 imagens de Lampião lançada em São Paulo

As histórias do cangaço e dos cangaceiros povoam a memória do brasileiros. Narrados em lendas, canções populares e cordéis, seus feitos passaram a fazer parte de nossa cultura. O fenômeno, que remonta ao século 18, se tornou mais conhecido e comentado no momento em que os meios de comunicação passaram a divulgar os feitos de Lampião, Maria Bonita, Corisco e tantos outros. Mais do que todos, Virgulino Ferreira, o Lampião (1898-1938), fez uso desses meios, em especial da fotografia, para popularizar o movimento – levando-o para as páginas dos jornais -, e também apresentar os seus seguidores.

Na maioria das vezes, as imagens foram realizadas por anônimos, que se encontravam com o bando no meio do sertão, ou por fotógrafos como Pedro Maia e Lauro Cabral de Oliveira, que registraram uma viagem de Lampião a Juazeiro do Norte, em 1927. Mas quem se consagraria como o “fotógrafo oficial” de Lampião seria o mascate libanês Benjamin Abrahão (1890-1938), que acompanhou a saga do rei do cangaço, fotografando e filmando seus feitos. Parte desse acervo, já reunido no livro Iconografia do Cangaço (Editora Terceiro Nome/2012), pertence ao pesquisador Ricardo Albuquerque, diretor do Instituto Cultural Chico Albuquerque, em Fortaleza.

Agora, Ricardo Albuquerque selecionou 100 entre as melhores imagens, feitas por vários profissionais, para lançar a Coleção Cangaceiros, um registro sistematizado sobre o movimento no Brasil que não deixou de fora as volantes, que eram grupos de policiais disfarçados contratados pelo governo para perseguir os cangaceiros.

Com texto de apresentação de Rubens Fernandes Jr., no total, foram criadas 40 caixas destinadas a um público colecionador: “Muitas das imagens não têm grande qualidade técnica, mas possuem um incrível valor histórico. É um álbum fotográfico. São imagens soltas, sem texto ou legenda”, comenta Albuquerque.

A coleção foi lançada na Mira Galeria de Arte, em São Paulo. Além das imagens, acompanha a caixa um audiovisual de 14 minutos que mostra Lampião, filmado pelo próprio Benjamin Abrahão.

Material histórico

A relação de Ricardo Albuquerque com o acervo não é gratuita, visto que ele pertence a uma família que, desde sempre, esteve ligada à fotografia e ao cinema. Seu pai, Chico Albuquerque, foi um dos pioneiros da foto publicitária no Brasil, e seu avô, Adhemar Albuquerque, foi quem ensinou o mascate libanês Benjamin Abrahão a fotografar, na década de 1930: “Meu avô gostava muito de fotografar e fazer documentários”, explica Ricardo. “Em 1934, ele foi filmar o funeral do Padre Cícero e ali conheceu Benjamin Abrahão, que, na época, era o secretário do Padre Cícero.”

Abrahão já conhecia Lampião desde 1926, quando Virgulino foi até Juazeiro do Norte pedir proteção para ele e seu bando. Após a morte do padre, o libanês solicitou permissão ao rei do cangaço para acompanhar suas andanças e registrar seus feitos. Foi aí que ele foi em busca de Adhemar Albuquerque, que, além de lhe ensinar a utilizar a câmera fotográfica e a filmadora, ainda lhe emprestou o equipamento.

A maior parte das imagens é de fotografias posadas, retratos e, muitas vezes, até encenações de batalhas. Um material historicamente importante, um inventário que desvenda o cotidiano desse movimento tão perseguido pelo governo de Getúlio Vargas. A maioria dos registros foi entre 1936 e 1937, captando os últimos dois anos do bando. Cenas do dia a dia que apresentam seus costumes, como viviam suas mulheres, a alimentação, as danças, os esconderijos, até a clássica imagem das cabeças cortadas dos sete líderes do cangaço, após a dissolução do movimento pelas forças governamentais.

Um registro histórico que foi sendo enriquecido com o tempo e acabou por tornar visível e perpétuo o que a clandestinidade deveria esconder.

A Mira Galeria de Arte fica na rua Joaquim Antunes, 187. As fotografias do livro estão expostas e podem ser vistas até o dia 13 de fevereiro. Amanhã a abertura é para convidados, quando ocorre o lançamento da Coleção Cangaceiros.

Fonte: http://www.onordeste.com/

Carnaval – Nova Rainha do Ilê Aiyê: A capoeira me aproximou da dança afro

Eleição da Deusa de Ébano foi realizada na Senzala do Barro Preto. Vencedora é casada, tem uma filha e é professora de Educação Física.

As aulas de capoeira e o universo ao redor da luta africana, que possui características de dança, foram o que levou a professora de Educação Física Alexandra Amorim, 33 anos, eleita no último domingo (25) a Rainha do Ilê Aiyê 2015, a gostar de dança afro.

Ao todo 15 candidatas concorreram ao posto de Deusa do Ébano, no tradicional concurso que é realizado há 36 anos, na Senzala do Barro Preto, sede do Ilê Aiyê, localizada no bairro do Curuzú, em Salvador.

Em entrevista ao G1, Alexandra conta que quando era criança, queria fazer balé, mas acabou na capoeira por causa de problemas financeiros da família. “Eu tinha 11 anos e queria muito fazer balé, mas minha mãe e minha avó disseram que a capoeira era mais barato. Então fui, e quando cheguei na capoeira conheci o maculelé e a história afro. Foi a capoeira que me aproximou da dança afro”, relata.

Depois de iniciada nas manifestações culturais afro, Alexandra contou com o incentivo determinante do pai, que desfilava no Ilê durante o carnaval de Salvador.

 

“Quando ele saía no Ilê, dizia: ‘Quero que minha filha seja rainha’. Esse foi um dos grandes motivos que me fez participar da seleção”, disse.

A nova rainha do Ilê conta que já disputou o concurso quatro vezes, e até já foi rainha do Malê de Balê em 2008, outro bloco afro do carnaval de Salvador.

Para ser rainha do Ilê este ano, Alexandra disse que dedicou o ano de 2014 inteiro ao concurso.

“Dessa vez não contei a ninguém que ia participar, só falei quando fui selecionada como finalista. Eu me dediquei à dança afro e fortaleci a consciência crítica de ser mulher negra”, diz. “Acho que conquistei pelo sorriso também e pela maneira que dancei para o público. Acredito que tudo isso contribuiu para a minha vitória”, acrescenta.

 

“A capoeira me aproximou da dança afro’, diz nova Rainha do Ilê Aiyê”

 

Alexandra é casada e tem uma filha de três anos. Ela conta que recebeu bastante apoio do marido, que também é professor de Educação Física. “Ele me deu uma grande ajuda para tudo. Foi um personal para mim. Eu tive uma alimentação diferenciada e equilibrada, fazia treino de resistência pela manhã, pela tarde treinava técnicas da dança e à noite assistia vídeos de outras candidatas, lia as histórias do bloco, conhecia as músicas”, conta.

A nova rainha do Ilê disse que mesmo com a dedicação ao concurso e com a rotina pesada de trabalho como professora, a filha não reclamou da ausência dela.

 

“Ela não me sentiu minha falta porque viajo toda semana para dar aula no interior. Sou professora da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) em Jacobina e professora da educação infantil”, explica.

O Concurso

A banda Aiyê abriu o evento de premiação do concurso, realizado no último domingo.

Além de Alexandra, o segundo lugar ficou com a manicure Larissa Oliveira, 21 anos, e o terceiro com a universitária Milena Sampaio, 30 anos. Elas receberam o título de princesas que, neste ano, pela primeira vez, irão desfilar no bloco durante o Carnaval.

O presidente da instituição, Vovô do Ilê, lembrou que a eleição da Deusa do Ébano é uma das principais ações afirmativas do o grupo. “Vivemos em uma terra muito racista, então fazer uma festa com essa estrutura é uma grande conquista’, ressaltou.

Além da premiação, a cerimônia também prestou tributo a mulheres negras que fizeram história. As homenageadas foram a atriz Zezé Motta, que protagonizou o filme Xica da Silva (1976); Mãe Hilda Jitolú, que foi dirigente espiritual do Ilê por muitos anos; e Dona Ivone Lara, matriarca do samba e uma das primeiras intérpretes do gênero.

Fonte: http://g1.globo.com/

Jovens músicos levam a cultura baiana para fora do Brasil

De volta às terras soteropolitanas desde 23 de novembro, após um intercâmbio em Viena, Áustria,  os alunos da Escola de Educação Percussiva Integral – EEPI, Gladson Conceição e Edson Mota, planejam mostrar o que aprenderam durante a viagem com  aulas e workshops.

Eles foram para a capital austríaca a partir de um processo seletivo promovido pela EEPI e seus parceiros. Os rapazes já passaram por todas as etapas de formação  e seguem os passos do idealizador e diretor da instituição, o percussionista Wilson Café.

A oportunidade surgiu durante as avaliações rotineiras da escola, onde estudam há nove anos. Eles  não imaginavam que, em meio às provas, estava um teste que terminaria  em um intercâmbio de duas semanas em Viena, capital da Áustria.

Lá – onde Wilson Café foi nomeado Embaixador da Paz em julho deste ano pela Abrasa, associação civil que fomenta o intercâmbio cultural entre Brasil e Áustria -, os jovens participaram dos workshops ministrados por Café, dando suas próprias aulas e abordando aspectos da cultura do Norte e Nordeste. “Edson falou para uma plateia explicando sobre a cultura, a diversidade cultural do Brasil. Gladson falou da parte da música”, diz Café.

No outro lado do mundo

Gladson e Edson desembarcaram em Viena com a temperatura beirando os 3º C. Entre visitas à Escola de Música de Mozart, à casa onde o compositor nasceu e  à Embaixada Brasileira na Áustria (onde levaram de presente uma peça da exposição Máscaras, uma homenagem da EEPI ao centenário de Abdias do Nascimento, que culminou na criação do Acervo Para Matrizes Africanas da Cultura Brasileira na embaixada em 20 de novembro), Edson e Gladson se surpreenderam com o interesse do povo austríaco pela cultura baiana.

“Eles não tinham conhecimento algum que aquele instrumento de uma corda só tinha várias notas”, diz Edson Mota sobre a curiosidade dos alunos de Viena pelas notas musicais produzidas pelo berimbau.

O interesse pelo português, em seu aprendizado e exercício, foi um dos aspectos de maior choque para os estudantes baianos, como conta Gladson Conceição. “Eu fiquei besta de ver um alemão cantando as músicas da capoeira limpinhas em português”.

Em meados de agosto de 2015, será a vez da  Escola de Educação Percussiva Integral receber alunos da Áustria. Na ocasião, 20 estudantes europeus virão ao Brasil para ver de perto o que lhes foi contado pelos garotos.

Antes do embarque

Gladson e Edson descobriram em outubro que representariam a escola no exterior. Em 9 de novembro,  acompanhados de Wilson Café, deixaram o Brasil para conhecer um novo país e levar um pouco da bagagem cultural de Salvador.

“O que eu espero é conhecer os lugares e ter mais informações”, disse Edson Mota um dia antes do embarque. Aos 20 anos e cursando  Letras/Espanhol na Universidade Federal da Bahia, ele tinha 11 anos de idade quando ingressou na EEPI.

Prestes a embarcar para Viena, a expectativa de estar em um lugar novo era difícil de ser ignorada. Gladson Conceição, que, aos 18 anos, tem uma forte ligação com a música e com a capoeira, mostrava sua preocupação com o clima frio da região enquanto fazia planos para a viagem. “Quero passar um pouco do que eu aprendi para outras pessoas”, conta.

Durante a viagem de duas semanas, os garotos acompanharam o percussionista e professor Wilson Café em seus workshops, ministrados inteiramente em língua portuguesa, aos estudantes interessados em conhecer sobre a cultura afro-brasileira, a capoeira e os instrumentos de percussão.

Educação com o tambor

O percussionista Wilson Café realizava workshops sobre instrumentos percussivos no Brasil e no exterior quando foi convidado por Roberto Corriea Lima, do Banco Interamericano de Desenvolvimento, para  um projeto social destinado a crianças e adolescentes de Salvador. A ideia, no começo, parecia assustadora. “Eu nunca esperava ter uma escola”, conta Café.

Mas, em 2001, a Escola de Educação Percussiva Integral foi inaugurada no bairro do Cabula, em um espaço até então abandonado, cedido pela Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia.  O funcionamento, no entanto, só aconteceu dois anos depois, quando a EEPI foi equipada.

Com cerca de 150 estudantes, a Escola é voltada para jovens de 12 a 16 anos, com renda familiar menor do que um salário mínimo, e  matriculados na rede pública de ensino. Os jovens são estimulados a empreenderem em sua formação como um músico completo. “Não é só chegar e tocar. Tem que entender toda a filosofia”, explica Café.

Fonte: http://atarde.uol.com.br/

Portugal deve pagar indemnizações pela escravatura?

“Os países que escravizaram devem compensar os escravizados?” (Gilberto Gil, sugeriu a leitura através da sua página oficial do Facebook)

 

Os países que escravizaram devem compensar os escravizados? Há quem diga que sim e até aponte um valor para uma indemnização: 30 triliões de dólares vezes 10 mil. Há quem diga que não, porque isso seria voltar à menorização dos colonizados. Antes disso, Portugal deve debater o seu passado esclavagista, dizem historiadores.

É um tema que tem vindo a debate regularmente, mas de que pouco se fala em Portugal. Devem os países que participaram na escravatura pagar indemnizações? Quem o deve fazer, quem deve ser indemnizado?

Em Maio, a organização Comunidade das Caraíbas (Caricom) reuniu-se na conferência da Comissão de Compensações/Reparações e incluiu Portugal na lista dos países europeus aos quais querem exigir indemnizações. Chegaram, na altura, a um programa de dez pontos que consideram essenciais para o processo de reparações: passa pelo pedido de desculpas formal, apoio ao repatriamento para África, criação de programas de desenvolvimento para indígenas, criação de instituições culturais, erradicação da iliteracia ou cancelamento das dívidas dos países africanos.

Há três semanas, a Caricom voltou a reunir-se em Antígua e Barbuda numa segunda edição da conferência e voltou a fazer as mesmas reivindicações. As negociações continuam e estão agora nas mãos do comité liderado pelo primeiro-ministro de Barbados, Hon Frendel Sturat, diz Verene Shepherd, presidente da Comissão Nacional para as Reparações da Jamaica e uma das três vice-presidentes da Comissão de Compensações.

Apesar de estar incluído na lista, Portugal ainda não terá tido uma abordagem formal da parte da Caricom, pelo menos que Shepherd saiba. Os países da Caricom são Antígua e Barbuda, Baamas, Barbados, Belize, Dominica, Granada, Guiana, Haiti, Jamaica, Montserrat, Santa Lúcia, São Cristóvão e Neves, São Vicente e Granadinas, Suriname e Trindade e Tobago. Além de Portugal, são pedidas indemnizações a Espanha, Reino Unido, França, Holanda, Dinamarca ou Suécia.

O próximo passo da Caricom será o envio de uma carta aos governos destes países europeus e uma terceira conferência com a Universidade de Essex em data a definir, mas que esperam ser em 2015, revela Shepherd. Assim, a revindicação não vai ficar por aqui. “A escravatura e o comércio de escravos foram um crime contra a humanidade”, diz a também professora de História Social, por email. “Houve uma política de genocídio deliberado contra os indígenas das Caraíbas. Aqueles que cometeram crimes contra a humanidade ou que se envolveram em actos de genocídio devem primeiro pedir desculpas e depois integrar um programa de justiça reparatória. Não há limite estatutário para um crime contra a humanidade e portanto os países europeus colonizadores nas Caraíbas e na América Latina devem responder por isso. A reparação é uma questão de justiça.”

 

“No mínimo, aquilo de que precisamos é de maior transparência sobre quem beneficiou da escravatura e quanto”
Thomas Piketty, economista

Nesta resposta, Shepherd aborda vários pontos polémicos que têm provocado acesos debates entre quem defende e quem é contra as reparações: é a escravatura um crime contra a humanidade? Pode ser considerada genocídio? Devem os governantes dos países comerciantes de escravos pagar hoje por um crime cometido até há dois séculos? O que há a reparar e como?

“No mínimo, aquilo de que precisamos é de maior transparência sobre quem beneficiou da escravatura e quanto”, diz o economista francês Thomas Piketty, autor do best-seller O Capital no Século XXI, numa curta resposta por email à Revista 2. “Isto implica a abertura dos arquivos públicos e privados e a criação de museus”, acrescenta.

Piketty, que em 2013 escreveu sobre a escravatura na sua coluna de opinião no Libération, defendendo “uma reparação pela transparência”, é a favor, “em alguns casos”, das “reparações directas e da transferência de bens”, esclarece à 2. Por exemplo, através da “reforma agrária em algumas antigas ilhas escravas como Reunião, Martinica ou Guadalupe, no caso francês”, ilhas que têm altos níveis de “desigualdade entre descendentes de escravos e descendentes de donos de escravos”. “A dimensão destes casos ainda está por saber”, conclui o perito em concentração e distribuição de riqueza.

Quanto renderam e valiam os 12 milhões de escravos que se calcula terem atravessado o Atlântico não se sabe. Mas há dados sobre as indemnizações “ao contrário”, como o valor pago pelo Estado britânico aos donos de escravos, quando a Inglaterra aboliu a escravatura em 1833: 20 milhões de libras (25,5 milhões de euros).

Isto é um dado relevante para uma discussão sobre as compensações, sublinha o britânico Nick Draper, autor de livros como Slave Compensation Records, The Price of Emancipation: Slave-Ownership, Compensation, Capitalism and Slave Ownership, ou British Society at the End of Slavery. “Mostra que os donos de escravos foram indemnizados, enquanto os escravos não receberam nada — hoje podemos dizer que a indemnização foi para as pessoas erradas.” Nick Draper é um dos investigadores associados do projecto Legacies of British Slave-Ownership, da University City of London, que disponibiliza online uma base de dados dos britânicos envolvidos no comércio de escravos — mas não toma posição sobre o tema das compensações. “Esses 20 milhões representavam entre 40% e 45% do valor das pessoas escravizadas”, acrescenta. Quanto vale isso hoje? “Depende do que se mede na inflação, qual o preço do pão agora e qual o preço do pão na altura: os 20 milhões da altura equivalem a 1,6/1,7 mil milhões de libras hoje. Se pensarmos em termos de salários e da média, esse número é dez vezes mais — seria 16/17 mil milhões de libras. E se pensarmos em termos de PIB e dívida pública os números ainda aumentam mais.”

Ser a favor ou não das reparações é uma questão que não tem uma resposta directa, nem simples. “O mundo hoje reflecte o que fizemos colectivamente como europeus há 200 anos, e uma das coisas que fizemos foi contribuir para o não desenvolvimento das Caraíbas”, reconhece Draper. “Sinto vontade de voltar atrás e tentar abordar algumas das heranças da escravatura? Claro. O programa da Caricom é sobre transferência de pagamentos da Europa para as Caraíbas. Não lida com a questão das diásporas no resto do mundo. A questão de como é extraordinariamente difícil, mas ainda nem estamos lá — estamos a debater o princípio. O resto é detalhe.”

Independentemente de tudo, o primeiro passo deve ser o reconhecimento da história britânica, acrescenta. “A identidade britânica está muito ligada à abolição e isso é importante, mas tende a minimizar a escravatura e o comércio de escravos. Os primeiros passos no Reino Unido são reconhecer, colectivamente, que a nossa história é marcada pela abolição, mas também pela escravatura.”

Em 2009, um parque de estacionamento estava a ser construído em Lagos, junto à Cerca Nova, no Vale da Gafaria, quando foram encontrados 150 esqueletos. Tratava-se de um cemitério de escravos africanos do século XV, o mais antigo conhecido no mundo e o único na Europa, segundo peritos.

Com a descoberta, o Comité Português do projecto UNESCO A Rota do Escravo propôs a criação do Museu da Escravatura, já que este achado “impunha uma atenção e uma preservação adequada do sítio”. Foi desenhado um pré-projecto de museu, com três núcleos — o mercado do escravo, um memorial no local do cemitério e um centro de estudos sobre a escravatura —, aprovado pela autarquia em 2011. Hoje, no local está um minigolfe, uma obra que teve parecer favorável do Igespar (Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico) em Dezembro de 2011, segundo a Câmara Municipal de Lagos. Diz a vereadora da câmara Fernanda Afonso que “o executivo continua determinado a projectar toda a temática que envolve a descoberta do cemitério, bem como o Museu da Escravatura”. Mas para Isabel Castro Henriques, historiadora especialista em escravatura, e presidente do comité, se a autarquia se tem preocupado com o museu, “já no caso do cemitério parece interessar -se mais por preservar o parking e o minigolfe”.

Isabel Castro Henriques conta este episódio para ilustrar o desinteresse que existe em Portugal pelo tema da escravatura, algo que começa no poder público. Se um achado arqueológico desta importância não gera interesse, então falar de reparações é um tema ainda mais obscuro. “A escravatura não é considerada uma questão que interesse à sociedade. Continua a haver uma desvalorização dos africanos”, diz.

Porque é que não houve em Portugal um debate sério e aprofundado sobre o envolvimento do país no tráfico de escravos e na escravatura?, pergunta o historiador Miguel Bandeira Jerónimo, que nota uma “reserva colectiva em abordar inúmeros aspectos relativos ao nosso passado colonial”, aos quais chama “lutos inacabados”, que têm sido sujeitos a todo o tipo de mistificações.

Dá como exemplo negligenciar-se o facto de não terem existido movimentos abolicionistas “com um mínimo de importância” no Portugal de 1800, e ignorar-se, sobretudo fora da academia, a existência da escravatura e de “condições análogas à escravatura” no “terceiro império colonial português” (1822-1975). O trabalho forçado só é legalmente abolido em 1962, diz. “Do mesmo modo, a história do envolvimento do Estado português no tráfico de escravos e na escravatura é um assunto relativamente ocultado.”

Por outro lado, como lembra Isabel Castro Henriques, é comum referir-se que Portugal foi o primeiro país a abolir a escravatura, pois o Marquês de Pombal, em 1761, decreta-a, mas “fá-lo para evitar que os escravos venham para Portugal, sendo desviados do Brasil, onde são essenciais ao desenvolvimento económico”.

Este não é um tema de debate, porque continua a predominar um olhar luso-tropicalista, um discurso oficial atenuante, analisa Rui Estrela, activista da Plataforma Gueto, uma associação contra o racismo e racismo institucional. Licenciado em Ciência Política, diz: “Portugal foi o primeiro país a levar a cabo esta engenharia financeira — porque as pessoas foram tratadas como activos financeiros — e é o único país onde não se debate esta questão.”

Se em Portugal o debate não existe fora da academia, nos países colonizados e emissores de escravos comercializados por Portugal o tema também não tem estado em cima da mesa. Miguel Bandeira Jerónimo lembra as palavras do representante angolano Georges Chikoti (hoje ministro das Relações Exteriores) na Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerâncias Relacionadas em Durban, em 2001, como um marco, ao dizer que era “necessário que a conferência identificasse a escravatura como crime contra a humanidade e que reparações têm de ser feitas às vítimas dessa tragédia”. O envolvimento dos portugueses, os “pioneiros do tráfico transatlântico de escravos”, devia ser notado, acrescentou.

Esta não é, porém, uma posição consensual. Em Luanda há o Museu Nacional da Escravatura desde os anos 1970, situado numa capela do século XVII onde se baptizavam os escravos antes de embarcarem. O historiador angolano Patrício Batsikama refere-o para dizer que serve de memória aos escravos que partiram de Angola. Porém, há muito por saber no estudo da escravatura, que “ainda não é exaustivo”, há apenas “algumas teses pouco sólidas para especificar a desumanização do angolano fora de Angola”.

“Se colocarmos na cabeça que alguém tem de reparar, estamos a sofrer um complexo de inferioridade”
Patrício Batsikama, historiador angolano

Esse conhecimento é essencial antes de se “pensar no que se deve reparar”, defende, por telefone. “Se colocarmos na cabeça que alguém tem de reparar, estamos a sofrer um complexo de inferioridade.” O autor de O Reino do Kôngo e a Sua Origem Meridional defende que “talvez” as reparações devam começar pelos museus internacionais no Reino Unido, Portugal, Estados Unidos devolveram as peças “que foram roubadas” a países africanos como Angola. “Não é a minha geração nem a geração vindoura que vai saber o que de facto foi estragado com os escravos angolanos e que é preciso reparar.”

A partir da instituição que dirige, a Escola Portuguesa em São Tomé, e com o som do recreio como barulho de fundo, a historiadora Isaura Carvalho diz-nos ao telefone que “não faz sentido pedir reparações a estas gerações, cujos dirigentes não participaram directamente” na escravatura. “Há coisas que são irreparáveis: pior do que os danos materiais foram os danos a nível da nossa auto-estima, das mentalidades e da capacidade de decidirmos por nós”, acrescenta.

Isaura Carvalho lembra que a seguir à escravatura veio o domínio colonial, ou seja, foram séculos em que o povo são-tomense foi impedido de pensar, de ser livre, de decidir, e isso é algo interiorizado, que passa de geração em geração. “Ainda hoje há dificuldade de dirigentes africanos se afirmarem junto de dirigentes europeus. São conhecidos pelos corruptos que não gerem bem as finanças e não conseguem tomar em mãos as decisões do país, que continuam a depender do exterior.” Resume, partilhando um ponto de vista parecido com o de Batsikama, que a reparação, “nos moldes em que tem estado a ser vista, cria mais uma forma de dependência”. “Porque vamos continuar a depender desses países para resolver os nossos problemas. [É dizer]: ‘Okay, eles estiveram a explorar-nos durante anos, eles que tratem de nós.’ E voltamos à menoridade. Sabemos que estamos a sofrer as consequências do passado, mas temos que ter uma outra atitude. Se continuarmos com o discurso dos coitadinhos, não vamos lá, é uma boa facada na nossa auto-estima outra vez.”

O historiador Luís António Covane, que foi vice-ministro da Cultura (2000-2004), vice-ministro da Educação e Cultura (2005-2009) e é reitor da Universidade Nachingwea desde 2011 (uma instituição privada da Frelimo), lembra que no estudo da história de Moçambique se classifica a exploração mercantil portuguesa em três fases: a fase do ouro, a do marfim e a dos escravos. “A nossa escravatura culminou com um processo de colonização e, em vez de se mandarem as pessoas para fora, elas passaram a ser exploradas dentro do seu próprio território: o trabalho forçado e outro tipo de escravatura interna, pessoas que trabalhavam sem salário, violência das exportações de pessoas para as plantações, para as minas de ouro e diamante na África do Sul e principalmente aqui dentro.” O sistema colonial português, principalmente durante a fase do fascismo e do nacionalismo económico que impôs medidas para a produção de matérias-primas nas colónias, foi alimentado com este esquema, acrescenta.

Pensar em reparações exige fazer contas. E estas, diz, “serão as contas mais difíceis que a humanidade será obrigada a fazer”: “Quanto custa uma vida? Quanto custa uma grávida? Quanto custa um homem que era chefe do seu povo e foi exportado? Abrangeu imperadores, príncipes, rainhas, soldados, generais que foram deportados de forma indiscriminada. Estas contas entram naquela página que são os erros cometidos no passado e devemos fazer tudo para que não se repita.”

As contas seriam difíceis de fazer também por uma questão territorial, lembra o historiador guineense a viver em Portugal Julião Sousa. “Não creio que haja lugar a indemnização de ninguém: a Guiné era uma grande extensão de território que foi variando ao longo do tempo, não tinha limites definidos. Se houvesse uma indemnização, Portugal iria entregar isso a quem? Os países que existem agora ao longo da costa africana não existiam enquanto países com fronteira definida… Teria de pagar a quem? À Guiné actual? E o Mali? E o Gana? E o Senegal?”

Com uma realidade diferente de países como a Guiné onde já existia uma população residente, Cabo Verde foi sendo habitado por população trazida de outros países africanos e por portugueses brancos. André Corsino Tolentino, embaixador cabo-verdiano, sublinha que “a escravatura se deu de forma diferente” neste arquipélago. “Em 1466 houve os primeiros núcleos destinados à América do Sul e Central. Eram iniciados em Cabo Verde até para acrescentar valor comercial. O escravo boçal, considerado inferior, era usado para ser ladinizado — ou seja, para ensinar a cultura ocidental, fazer a conversão à religião católica, ensinar as artes de servir. Um escravo ladino valia mais do que um escravo boçal. Depois de iniciado em actividades agrícolas, artesanais, etc., o escravo continua a ser exportado e reexportado para o Brasil e Caraíbas.”

Mas Tolentino toca num ponto polémico que é usado por quem é contra as reparações: o facto de os próprios africanos terem participado no comércio de escravos. Diz: “Os escravocratas foram nacionais e estrangeiros.”

É Miguel Bandeira Jerónimo quem recorda a posição do académico afro-americano de Harvard Henry Gates num artigo escrito em 2010 para o New York Times, sustentada nos trabalhos dos historiadores John Thornton e Linda Heywood (centrados na história colonial, sobretudo relativa ao Congo e a Angola): só uma “complexa cooperação comercial entre elites africanas e comerciantes e agentes comerciais europeus” permitiu o tráfico transatlântico de escravos com a dimensão que teve. Uma teoria que Henry Gates continua a defender, cinco anos depois, como disse à Revista 2 por email. Bandeira Jerónimo comenta: “Esta é uma ‘verdade triste’ [expressão de Gates] que agrada pouco a cada um dos lados da barricada. Mais, torna a resposta prática à questão das reparações incómoda. Face ao que sabemos com rigor, quem deve pagar?”

O americano Ron Daniels, do Institute of the Black World 21st Century (IBW), responde indirectamente a Gates, por telefone: “A questão é: quem iniciou e quem beneficiou? Não foram os africanos.” Rui Estrela defende que a participação dos africanos não retira o cunho racial à questão. “É como discutir se um polícia negro pode ser racista — sim, pode. Esse foi, aliás, o trabalho de Frantz Fanon sobre as mentalidades coloniais, sobre quanto tempo depois perdura a mentalidade servilista e colonialista.”

Em casos como o Brasil, por exemplo, a questão das reparações torna-se mais complexa, como faz notar a historiadora Ana Lúcia Araújo, professora na Howard University, em Washington: “Seria complicado pedir a Portugal e não ao Brasil, porque sabemos que os brasileiros nascidos no Brasil estavam envolvidos no tráfico atlântico de escravos desde o começo — então Portugal e Brasil eram parte da mesma questão.”

O que tem existido no Brasil são várias iniciativas “com intento de reparar as atrocidades [vividas] na escravatura”, como as medidas de acção afirmativas. “No Brasil, mais de metade da população é afro-descendente, mais de 100 milhões de habitantes, e a única maneira de reparar os erros do passado é através do aprofundamento de medidas que já estão sendo desenvolvidas”, como as acções afirmativas, com cotas raciais nas universidades. “A escravidão durou praticamente 400 anos no Brasil, todas as esferas da sociedade estavam envolvidas. Fica difícil: para quem pedir e quem deve receber?”

Isabel Castro Henriques lembra que dar reparações financeiras implicava “ir a todos os países de onde eram originários os negreiros”. “E não estou a desculpabilizar os portugueses de quem sou muito crítica e que não têm feito nada.” “Mas como identificá-los? E todos os outros crimes praticados ao longo da história ?”

Apesar de não estarem directamente no programa de dez pontos, as compensações financeiras têm sido referidas em algumas reivindicações. Em 1999, a Comissão Africana Mundial para as Reparações e Repatriamento exigia que o Ocidente pagasse cerca de 777 triliões de dólares a África.

Argumentos: a desigualdade entre países africanos e caraíbas, por um lado, e ocidentais, por outro, e os diferentes níveis de desenvolvimento são consequência da escravatura. Nos Estados Unidos, o debate já foi mais aceso, mas quem advoga reparações refere igualmente as desigualdades sociais entre brancos e afro-americanos e a necessidade de compensar as comunidades negras no país. É o caso de Adjoa A. Aiyetoro, activista, jurista, professora na University of Arkansas, que escreveu um artigo em que considera que as reparações aos afro-descendentes americanos são essenciais à democracia. “Continua a existir discriminação até hoje”, diz-nos ao telefone. Aiyetoro, que fez parte da National Coalition of Blacks for Reparations in America, explica ainda que para colocar as vozes dos afro-americanos ao mesmo nível das dos outros americanos é preciso reparar. “As nossas vozes têm sido marginalizadas de inúmeras maneiras, desde o emprego à educação até à prisão.”

Integrado numa série que se pode traduzir como Descolonizar a Mente, 20 Questions and Answers about Reparations for Colonialism, o novo livro do activista holandês Sandrew Hira, director do International Institute for Scientific Research, faz um cálculo do valor das reparações que os países colonizadores deveriam pagar pela escravatura e pelo colonialismo. Dá um número esmagador: “O total seria 10 mil vezes o PIB de todos os países europeus, 30 triliões de dólares vezes 10 mil.”

Os cálculos são feitos a partir da área dos continentes colonizados, do período de colonização, do ouro extraído das Américas, do número de escravos trazidos para as Américas, das estimativas da população indígena, do número de nascimentos, do valor à hora para seis dias de trabalho. “O impacto do colonialismo é gigante”, diz, por telefone a partir da Holanda. “Os países europeus não podem pagar isto, mas podem pensar na forma como lidam com o colonialismo. Idealmente, um dia atingem o nível de civismo dos alemães, que tiveram a atitude de dar uma indemnização às vítimas do Holocausto.” “[Foram] 70 mil milhões de dólares até agora, sem qualquer lei, pagos por uma questão de moralidade, de justiça.”

No seu livro, Sandrew Hira construiu uma série de argumentos que desmontam as críticas às reparações. O mais usado é que a escravatura e o colonialismo aconteceram há muito tempo. “O meu contra-argumento é que se trata de uma questão de herança. Se o seu bisavô roubou a minha casa, a minha terra, o meu carro e se hoje nos conhecermos, o que é que vamos dizer um ao outro?” Outro argumento é que quem deve pagar a indemnização deve ser quem cometeu o crime. “Nos Estados Unidos a Al-Qaeda cometeu o crime do 11 de Setembro — foram os contribuintes americanos que pagaram reparações às famílias das vítimas e às companhias aéreas. Na Europa, as pessoas aceitam que, se abrirmos um negócio na propriedade de alguém, se deve pagar algo — os colonialistas europeus abriram muitos negócios nas terras dos colonizados sem pagar renda. Se alguém trabalha para si, deve ser remunerado por isso. Os países colonizadores puseram as pessoas a trabalhar e, não tendo pago por isso, têm hoje uma dívida para com os seus descendentes. Se for ao supermercado, paga pelo que leva, os colonizadores chegaram aos países colonizados e levaram coisas sem pagar.”

A quem pagar é sempre a questão que se coloca sobre as reparações. Hira sugere que se olhe para o modelo judeu. “No caso do colonialismo, pode começar-se a negociar com o Estado e com as organizações. Em Israel, além de dinheiro, houve também apoio a infra-estruturas, bens que vieram da Alemanha, há uma cadeia de apoios até agora e é uma questão de montar a estrutura para isso. O dinheiro foi também usado para programas que ensinavam aos alemães por que se deviam fazer reparações.”

“No caso da escravatura a memória foi enterrada e há um silêncio em relação ao Holocausto dos negros”
Sandrew Hira

 

O Chafariz d’El Rey no século XVI, de autor desconhecido

“O Holocausto é considerado um crime contra a humanidade. Toda a gente no mundo sabe e leu sobre o Holocausto. No caso da escravatura a memória foi enterrada e há um silêncio em relação ao Holocausto dos negros.” 

Vantagens? “O Holocausto é considerado um crime contra a humanidade. Toda a gente no mundo sabe e leu sobre o Holocausto. No caso da escravatura a memória foi enterrada e há um silêncio em relação ao Holocausto dos negros.” A questão, para Hira, é que na Europa “ainda existe a ideia de que se fizeram muito boas coisas com o colonialismo, em vez de se assumir que foi um crime”.

Autor de várias obras sobre escravatura, João Pedro Marques descreveu como em Portugal persistiu uma forte corrente toleracionista da escravatura e uma ausência de abolicionistas, pois “temia-se geralmente que ela lesasse os interesses nacionais e equivalesse à perda das colónias”. Existia também complacência social em relação aos implicados na escravatura ilegal. “Mesmo na década de 1840, quando os governos se esforçavam por acompanhar o ritmo do abolicionismo britânico, vários indivíduos reconhecidamente implicados no comércio negreiro receberam recompensas do poder central”, escreveu.

Mas João Pedro Marques “é completamente contra a ideia de reparações” pela escravatura. “A história é um tecido enorme de injustiças e horrores, [só que] não podemos aplicar retrospectivamente os nossos conceitos a épocas distanciadas de 200, 300, 400 anos”, diz à Revista 2. “Não faz qualquer sentido julgar, criminalizar ou pedir indemnizações de coisas que não eram entendidas como crimes. Se fingimos que somos Deus e começamos a aplicar ao passado as nossas próprias ideias, onde é que a gente pára? Então, temos de nos começar a indemnizar todos uns aos outros. Imagine que resolvemos pedir uma indemnização aos franceses pelas invasões. Podemos dizer que foi por causa das invasões napoleónicas que a corte teve de fugir para o Brasil, etc., etc., até chegarmos à troika.”

Algo completamente diferente das reparações aos judeus, defende, porque os crimes nazis eram vistos como crimes, quando foram cometidos, “enquanto aquilo que se passou com os escravos não era entendido como crime em parte nenhuma do mundo, nem na América, na Europa, em África”. Louis-Georges Tin contra-argumenta: “As pessoas que eram escravizadas consideravam-no um crime… Mais uma vez, quando se diz isso, está a dizer-se que os africanos na altura não eram seres humanos, não tinham importância e o que eles dizem não tem importância. Até entre europeus era considerado um crime; em França no século XIII, havia uma lei que dizia que a terra do reino não podia ter escravos.”

Porém, João Pedro Marques defende: a ideia de abolir a escravidão de forma universal é ocidental e foram os ocidentais “que pagaram para acabar com a escravidão”.

Foi no Congresso de Viena, em 1815, que o comércio de escravos foi condenado. Em 1836 é abolido o comércio em Portugal, mas o tráfico continua clandestinamente. Na década de 1850, Sá da Bandeira decretou a abolição da escravatura e estabeleceu um prazo de 20 anos até que os libertados fossem efectivamente livres. “E portanto passaram de escravos a libertos e continuaram a trabalhar para os mesmos senhores. Só ao fim de 20 anos se tornaram livres”, contextualiza. O fim oficial da escravatura é em 1878.

Ao contrário de no Reino Unido, em Portugal não existiu qualquer indemnização. Desde 1500 que há uma consciência do crime da escravatura e isto está registado por vários estudiosos, defende, por seu lado, Rui Estrela. É com convicção que diz ser preciso discutir a legalidade do termo jurídico reparação — e “assumir que houve uma acção criminosa, é preciso pôr isto nos livros de História”. A palavra “genocídio” ou “negrocídio” deve ser usada para falar da escravatura e do comércio de escravos, afirma.

A verdade é que hoje há uma hierarquia racial herdeira do sistema esclavagista que se reflecte na hierarquia social, nota Estrela: em Portugal, a maioria das pessoas que saíram dos países colonizados por Portugal vive em guetos. “Com as questões do racismo e do racismo institucional, há uma certa continuidade. Há toda uma psicologia herdeira do sistema colonial e temos de assumi-la e travá-la. Discutir a reparação vai obrigar a discutir uma série de temas relacionados com o que Portugal é agora e com o que quer ser.”

Nascido no Haiti, o activista Louis-Georges Tin, presidente do Conseil Représentatif des Associations Noires de France (CRAN), explica que, “quando um crime é cometido, deve existir reparação” e a História tem inúmeros exemplos disso: “Muitas reparações aconteceram depois da I e II guerra mundiais; os nativos americanos tiveram reparações para o genocídio que é mais antigo do que a escravatura; o Quénia teve reparações do Reino Unido pelos mau-mau. Não há prescrição para um crime contra a humanidade e este é um exemplo.”

Por isso, primeiro devia ser feito um pedido de desculpas formal, depois devia haver indemnização para ajudar a reparar e, finalmente, quando a justiça for feita, pode existir reconciliação, afirma Ron Daniels. Quem pagaria? Nos Estados Unidos, os governos, instituições e empresas que estiveram envolvidas na escravatura. Quem recebe? “Com os afro-americanos é difícil, mas temos defendido que não interessa uma compensação individual mas a um grupo — por exemplo, um fundo para ser usado em instituições de Educação, de Saúde ou noutra estrutura comunitária.”

Embora não concorde com as reparações financeiras, Isabel Castro Henriques advoga manifestações públicas que mostrem uma consciência europeia sobre a natureza e dimensão da escravatura e do tráfico negreiro — por exemplo, acções pedagógicas, homenagens, memoriais. A criação de debates, produção cultural, tudo o que possa eliminar o que chama “silêncios envergonhados” e contribuir para “a assunção dos erros cometidos, o reconhecimento do preconceito e do racismo” seriam iniciativas a desenvolver.

Já Rui Estrela defende que parte da cooperação internacional — “que é tratada como filantropia, humanismo, solidariedade” — “poderia ser tratada como reparação jurídica”.

É também de cooperação, mas com um propósito oposto, que fala o embaixador Corsino, ao considerar que a questão das reparações deveria ser colocada “no plano da cooperação/colaboração e não da reivindicação”. Por outro lado, “uma coisa com custo zero, mas que teria um impacto simbólico muito grande seria Portugal, Grã-Bretanha, ou Bélgica, etc., reconhecer que esvaziar a região africana ou transportar os escravos do continente africano provocou os prejuízos tais e tais”.

De qualquer modo, a questão das reparações deve ser debatida, declara convictamente Rui Estrela. É verdade que em Portugal não têm aparecido, até agora, movimentos que reivindiquem activamente as reparações. O activista não sabe explicar porquê. Na geração anterior, diz, dos seus avós, o discurso “era muito feito para a questão da independência”. “Só agora, passado o capítulo da descolonização, é que há a questão de eu nascer em Portugal e de haver uma comunidade nascida em Portugal, amadurecida, com sentido de comunidade africana ou de afro-descendentes.”

Sandrew Hira e Louis-Georges Tin referem que mais cedo ou mais tarde este tema será colocado em cima da mesa dos países europeus. “Pagar as reparações custa dinheiro, mas não pagar vai custar ainda mais — muitos países africanos dizem que não querem fazer negócios com países que nos negam justiça”, diz Tin. Sandrew Hira conclui: “Os portugueses podem esperar que o tema apareça ou podem fazer como os alemães e pensar na questão da moralidade. Comecem a debater a história do colonialismo, porque senão os fantasmas irão perseguir-vos quando menos esperarem.”

 

Fonte: http://www.publico.pt/portugal

 

Joana Gorjão Henriques

Entrei para o PÚBLICO, no final de 1999, para estagiar na Cultura, onde fiquei durante dez anos, cobrindo um pouco de tudo e muito de teatro. Nessa altura, as vozes de contestação às medidas dos ministros eram diárias e a cobertura da política cultural intensa. Ao mesmo tempo, sempre escrevi sobre outras áreas. Em 2007 participei no lançamento do novo Ípsilon, onde estive como editora adjunta até 2009. A seguir fiz uma pausa na profissão e no país. Primeiro, ganhei a bolsa de um ano da Nieman Foundation for Journalism na Universidade de Harvard, EUA; depois, fui estudar Sociologia na London School of Economics, em Londres, e nesses dois anos foi quase como aprender tudo de novo. Desde o meu regresso em Julho de 2011 que escrevo sobre várias áreas, cá dentro e lá fora.

V Prêmio Zumbi de Cultura 2014

Como comemoração da Consciência Negra, o V Prêmio Zumbi de Cultura vai premiar as personalidades de 2014

O objetivo da premiação é mostrar a verdadeira imagem do negro brasileiro, sua beleza e altivez.

No mês da consciência negra, V Prêmio Zumbi de Cultura 2014 comemora os 319 anos de Luta e Morte de Zumbi de Palmares e contemplará 10 pessoas (mestres e artistas) que atuam nas artes negras em Minas Gerais. O prêmio foi idealizado pela Companhia Baobá Minas.

A votação é feita através das entidades que indicam 03 (três) nomes de pessoas para concorrer ao V Prêmio “Zumbi de Cultura“ no ano de 2014. Uma comissão formada com representantes da sociedade civil, classe artística, poder público e a representante da Cia Baobá, Júnia Bertolino, idealizadora do Prêmio que elegerá os premiados deste ano. O prêmio é distribuído nas seguintes categorias: dança, teatro, música (canto, samba, percussão, hip hop), religiosidade, literatura, educação, manifestação cultural, personalidade negra, menção honrosa e atuação política.

Para a quinta edição, o Prêmio Zumbi de Cultura irá reconhecer mais importantes nomes da cultura negra brasileira. A abertura da premiação será no próximo dia 17 às 19h no Centro Cultural Banco do Brasil.

Sobre a Companhia Baobá Minas: criada em 1999, por Júnia Bertolino, a Companhia busca abordar o cotidiano do negro, a cultura, ritmos, poesia e dança afro-brasileira no intuito de trazer para o público uma imagem do negro em toda sua beleza e altivez. Além disto, mostrar a cultura popular das diversas comunidades do território nacional ressaltando valores e temáticas importantes nesta cultura como a oralidade, memória, ancestralidade e identidade, sobretudo notório saber dos mestres populares e a valorização da cultura de matriz africana.

 

A seguir a programação completa:

 

17/11/14 (segunda) – 19h às 22h – CCBB – Abertura do Prêmio Zumbi de Cultura 2014 – Roda de conversa – Política Públicas e  grandes  eventos

– Exibição do vídeo: Prêmio Zumbi de Cultura 2013– Cia Baobá Minas – comemoração da Consciência Negra

 

– Debatedores:

Cesária Macedo – Ministério da Cultura Regional Sudeste(BH)

Eliana Parreiras – Secretaria de Cultura do Estado de Minas gerais (MG)

Lindivaldo Junior- Diretor de Fomento da Fundação Cultural Palmares (BSB)

 Leônidas José de Oliveira – Presidente da Fundação Municipal de Cultura (BH)

Representante da coordenação do 7ªFAN2013(BH)

Junia Bertolino – Idealizadora do Prêmio Zumbi de Cultura(BH)

Fomentadora: Rosângela Silva – Coordenadoria Municipal de Promoção de Igualdade Racial ( BH)

 

– Encerramento: Roda Djembê – coordenação de Mateus Bahiense e Cia Baobá Minas.

 

18/11/14 (terça) 19h às 22h – Sesc Palladium – Entrega do Prêmio Zumbi de Cultura 

– Exibição de Vídeo: IV Prêmio Zumbi de Cultura 2013 – Cia Baobá Minas

– Abertura: saudação aos ancestrais

Grupo Afoxé Bandarerê

– Solenidade com autoridades e representante do projeto Prêmio Zumbi de Cultura

– Abertura:

Eliane Parreiras – Secretaria de Estado de Cultura

 Leônidas José de Oliveira (Presidente da Fundação Municipal de Cultura)

Júnia Bertolino (Idealizadora do Prêmio Zumbi de Cultura/Cia Baobá Minas)

Representante do Sesc Palladium

– Entrega do prêmio

– Shows 

– Performance Ricardo Aleixo e Djalma Correia

– Mestre Conga

– Carla Gomes

– Solo de dança Mestre João Bosco

– Performance dos alunos do CEFAR  2014

– Tom Nascimento

– Bateria Imperatriz –  NECUP

– Cia. Baobá Minas

–  Pata de Leão

 

25/11 (terça) 14 às 22h – Sala Juvenal Dias – Palácio das Artes –  O artista na arte contemporânea com sua tradição

Elissandra Flávia  – (Sandrinha)– Encrespa BH

Rubens Giaquinto – (músico – Banda João Andante)

Fomentadora: Lu Dioh (artista plástica e arte educadora da Rede Municipal)   

 

– 18 às 19h – Mostra CineAfroBH

 

– 19 às 22h –  Performances e shows

As  Damas  do  Soul

Elenice  Zuim e  Jonathan

Rodrigo Jerônimo

Cia  Baobá  Minas

Contação  de  História

 

26/11 (quarta) 14 ás 22h – Funarte-MG – Rede, Juventude e Diversidade Cultural

Roda de Conversa – 14h às 17h

 – Zaika dos Santos – Cantora e produtora cultural

 – Aruanã Leonne – Levante Popular da Juventude – Técnico Artes Visuais

– Vanicléia Silva Santos – (doutora pela USP e professora da UFMG)

Fomentadora: Vanessa Beco –  Negras Ativas

 

– 17 ás 19h – Exposição Moda, cabelo e artigos diversos

– 18 às 19h – Mostra CineAfroBH

– 19h às 21h – Roda de Conversa-  Mulher Negra, beleza e resistência

Neusa Santos – Atriz

Érica Janusa – jornalista

Etiene Martins –  Jornalista Revista Raça

Fomentadora:  Júnia Bertolino – capoeirista e bailarina afro

 

– 21h Encerramento:  Performances, Cia Primitiva de Arte Negra  e  Samba da Meia Noite

 

28/11 (sexta) 19h30 a 22h – Centro de Referência da Moda – CR Moda – Empreendedorismo nas artes negras – moda, legado e cabeça feita    

– Énia Dara –  Feira Ébano

– Mara Catarina Evaristo – ( Relações Étnico Racial -SMED/BH)

– Betina Borges –  Beleza Negra

– Edna  –  Moda   África IN

Fomentadora: Makota Kizandembu –  ANAMAB- Associação Nacional da Moda Afro-Brasileira

Encerramento: Performance e Desfile de produtores  negros

 

Assessoria de Imprensa

Luciana Braga

(31) 8742-9632

 
 
Crédito fotos: Pedro Vilela