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Ginga…

Ginga…

A palavra “ginga” possui uma origem desconhecida, contudo especula-se uma possível vinculação com o nome pelo qual ficou conhecida D. Ana de Sousa, rainha histórica dos reinos angolanos de Ndongo e Matamba. Neste sentido, mesmo não encontrando uma relação direta com a ancestralidade africana, acreditamos que possivelmente exista algum tipo de vinculação, considerando que o vocábulo em Portugal assume outra conotação diversa.

No Candomblé os termos “jika” ou “gicá” são associados a movimentos circulares executados com os ombros, em uma dança sensual, sinuosa e com muito molejo, perspectiva que nos aproxima de parte do sentido atribuído a palavra “ginga” no Brasil, em referencia a capacidade de mobilidade de um individuo, seu “meneio”, sua habilidade em desvensilhar-se de situações difíceis com a corporeidade.

Para alem da associação à mobilidade, a palavra “ginga” também assume a conotação de saber “se virar” em situações imprevistas, ou seja, a capacidade de contornar problemas no cotidiano. Assim, em capoeira, o sentido da ginga incorpora esta ambigüidade metafórica, ratificando que o referido movimento transita entre a capacidade de mobilidade corporal no jogo, mas também assume a subjetividade nos comportamentos para a superação dos conflitos em sociedade.

Tecnicamente, a biomecânica da ginga em capoeira possui uma função fluida, que mescla simultaneamente a capacidade de defesa, ataque e dissimulação de intenções, portanto, como em grande parte da cultura afro descendente, fica impossível definir um sentido único e monolítico a mobilidade no contexto cultural, pois, ao contrario da sociedade ocidental, em africanidades não separamos os diferentes momentos sociais, sendo freqüente a possibilidade de um mesmo “movimento” expressar aspectos religiosos, lúdicos, festivos e laborais, sem contudo, perder de vista o profundo respeito ritualístico a cada um destes aspectos da vida em sociedade.

E aí, vamos gingar mais?

 

Por: Mestre Jean Pangolin

Mestre Cobra Mansa: O outro lado da moeda…

O outro lado da moeda

Mestre Cobra Mansa, emitiu um comunicado oficial sobre a “denúncia de Dandara Baldez”. Após diversas conversas, aceitou nosso convite para o diálogo.

O Portal Capoeira, como um dos mais relevantes e democrático meio de comunicação especializado, pública em primeira mão o comunicado oficial, com o objetivo de entender a situação através dos olhos e dos sentimentos de “Cobrinha Mansa”.

Acreditamos que toda história deve ser contada e ouvida…

COMUNICADO OFICIAL MESTRE COBRA MANSA

Peço apenas que me ouçam (antes de me julgar)

Eu reconheço a luta das mulheres, pois tenho a convicção e conhecimento de que lutam por uma causa legítima, no sentido de impedir que atuem como coadjuvantes quando, em verdade, deveriam também ser protagonistas.

Isso não quer dizer que consegui me livrar totalmente dessa cultura machista na qual fui educado desde pequeno.


Gente, em relação ao assunto que diz respeito à Dandara, tudo não passou de um grande mal entendido. Foi um erro de julgamento meu, e só. O erro de julgamento veio do contexto no qual nos encontrávamos, que eu não quero tornar público para não expor mais pessoas e causar a estas pessoas o mesmo dano pelo qual venho sofrendo diante das conclusões e indagações completamente equivocadas.

Mestre Cobra Mansa

Nunca pensei que passaria por um “julgamento social” sem sequer ser ouvido; será que hoje sou eu quem precise lutar para comprovar minha idoneidade, que sou uma pessoa íntegra?! Pois bem, o contexto no qual se deu o mal entendido pode explicar a situação pela qual me julgam sem saber, mas admito, nunca adotei, nem insisti, em qualquer postura inapropriada que viesse a ferir a honra da Dandara.

É fato que nós homens precisamos escutar nossas irmãs e companheiras, e tento escutar. Como é que nós mudamos?  Como é que podemos juntos mudar essa cultura de masculinidade falsa? 

Eu não sei as respostas certas, mas eu sei que é o trabalho de todos nós, e como mestres e mestras, temos mais responsabilidades, inclusive para não disseminarmos a cultura do ódio e do banimento social sem que antes seja dada a oportunidade do diálogo, e não do monólogo.

Então não omito que houve um grande mal entendido com a Dandara, de modo que este mal entendido foi rapidamente corrigido, tanto assim que tivemos uma reunião com ela e três outras pessoas em 2017, na qual demos o assunto por encerrado, mas neste momento – quase 03 anos depois -, começou essa campanha contra mim, por razões que não me parecem idôneas. Estão me transformando num assediador sistemático. Até pessoas que não me conhecem estão me julgando e me massacrando.

Se coloquem no lugar do outro, usem a empatia; vocês gostariam desse tipo de julgamento sem ao menos serem ouvidas, sem que os fatos fossem apurados? Claro que não!

A pergunta que eu gostaria de colocar para quem me conhece: De todos os eventos que eu participei ao longo de muitos anos, de todos os mestres e mestras que organizaram esse eventos… tem alguma mestra ou mestre que pode reclamar do meu comportamento com suas alunas?

Peço que se manifestem para que as pessoas que estão me julgando possam ouvir outras vozes. Eu tenho plena consciência do que realmente aconteceu, e do que são acusações falsas.

Agradeço sua atenção e a possibilidade de falar a minha versão dos eventos.

Mestre cobra mansa

O CAPOEIRA NA “RODA DA VIDA” – Pensando em Esperanças

O CAPOEIRA NA “RODA DA VIDA” – Pensando em Esperanças

Os dilemas constantes da pós modernidade, considerando a grande inconstância da realidade, tornam cada vez mais difícil discernir/escolher entre a busca pelas “coisas da vida” e o cuidado com a “vida das coisas”, pois em um fração de segundos somos capazes de acusar, julgar, condenar e até executar a pena de uma pessoa que consideramos de conduta inapropriada, segundo nossa crenças e valores.

Vivemos em permanente estado de alerta, sempre ávidos a nos escudar pela denuncia do que esta no outro, pois é muito doloroso voltar o olha para nossas próprias imperfeições. Agredimos, gritamos, difamamos e odiamos pessoas, apenas por defenderem idéias diferentes, confundindo a crença alheia com a própria personalidade de quem a professa. Onde isso vai parar?

Não somos capazes de exercitar a tão falada alteridade, pois, em fluxo continuo temos nos tornado aquilo que mais criticamos, muitas vezes utilizando as mesmas armas do excludente de outrora, para excluir outros que nos desagradam. Neste sentido, como bem dito por Paulo Freire, repetimos o comportamento do “oprimido gestando o opressor”. Reivindicamos respeito ao direito de um dado coletivo, invariavelmente, atropelando o exercício deliberativo de outros. Exigimos a possibilidade de “falar”, mas silenciamos quem pensa diferente. Reclamamos da opressão, mas na primeira oportunidade que temos, oprimimos cruelmente e ainda argumentamos que foi merecido, pois os fins justificam os meios.

As relações se tornam frágeis e volúveis, mediadas por uma linha fininha que separa o bom senso e o rancor desmedido, considerando sempre alguma disputa de poder provisória, envolvendo algo que não se sustentará no tempo. Desta forma, na maioria das vezes, os embates não são verdadeiramente sobre e/ou em favor da capoeira, mas sim, entre pessoas, como descreve Foucault, em sua obra “Microfisica do Poder”.

As pessoas envolvidas na “cena social” da capoeira, muitas vezes desconsideram a “roda da vida”, não sendo capazes de aplicar os ensinamentos da arte no exercício cotidiano de lida com sua comunidade, esquecendo de jogar “com” e não “contra” o outro, negando que é no fluxo dialógico que validamos a substituição do “argumento da força” pela “força do argumento”. Por que é tão difícil ser capoeira na vida?

Queremos colher o que não plantamos e fugimos da colheita daquilo que já foi plantado por nós mesmos, pois não aceitamos “errar”, confundindo esse “erro” com algo negativo, e não como possibilidade de emancipação pelo aprendizado de quem tentou “acertar”, ratificando a crise pós moderna do mundo em que “somos livres e podemos TUDO”, mesmo que isso não exista na totalidade material da vida, pois a liberdade sempre pressupõe responsabilidade com as conseqüências do que fazemos.

Eu guardei minha “pedra”, e você, vai continuar jogando as suas, ou me ajudará a juntar todas que jogam em nós,  para JUNTOS, construirmos nosso “castelo”?

Com esperança em dias melhores, AXÉ.:

 

Por: Mestre Jean Pangolin

Abuso de menor: Professor de capoeira é condenado a 8 anos por estuprar aluna em Brasiléia – Acre

Abuso de menor: Professor de capoeira é condenado a 8 anos por estuprar aluna em Brasiléia – Acre

O Juízo da Vara Criminal da Comarca de Brasiléia condenou um professor de capoeira (ELWIS JHONNATAN MARTINS FERREIRA) a oito anos de reclusão, em regime inicial semiaberto, por ele ter cometido o crime de estupro de vulnerável, previso no artigo 217-A do Código Penal.

 

NOTA DO EDITOR:

Após receber diversas mensagens de amigos próximos, cuja a coerêcia e respeito pela nossa arte e por este meio de comunicação ficam claros na forma polida e frontal que me abordaram, venho esclarecer e retratar informação da imagem que ilustra esta matéria(1).

Nunca é facil ou simples publicar uma matéria como esta… Existem inumeras situações e arestas que tem de ser averiguadas antes de simplesmente “lançar a bola ao alto”, dito isto, foi feita por parte deste site uma pesquisa mais abrangente aos fatos relatados em 4 meios de comunicação, cujo os dois mais relevantes estão referidos nas fontes da notícia, assim como o site da Justiça do Estado do Acre, onde encontrei o original da edição n°6.559, do Diário da Justiça Eletrônico, da segunda-feira, 23. Depois de ler e reler as informações, tentei validar a imagem, que em ambos os sites é apresentada (Acredito que os interessados também devam procurar a edição destes sites para corrigirem a imagem), porém não encontrei nada mais claro ou incontestável. Descobri que o condenado (ELWIS JHONNATAN MARTINS FERREIRA) é proprietário de uma empresa denominada Blackout Films (ver link)  Entretanto após ler diversos comentários e chegar até o Perfil do condenada através de uma das respostas do post na rede social, posso confirmar que a nova imagem desta matéria reflete a verdade e o compromisso deste importante meio de comunicação de fazer valer a seriedade e coerência dos fatos!

Muito obrigado pela parceria e confiança – Luciano Milani – Editor

 

Conforme é relatado nos autos, a adolescente tinha 13 anos de idade, na época dos fatos, e foi à casa do acusado assistir um filme, quando eles foram para o quarto. A vítima relatou, em seu depoimento, que mudou de ideia quanto a ter relações com ele.

Seguindo a legislação, que enfatiza que relações sexuais com menores de 14 anos de idade configura estupro de vulnerável, o acusado foi condenado. A sentença está publicada na edição n°6.559, do Diário da Justiça Eletrônico, da segunda-feira, 23.

O juiz de Direito Clóvis Lodi, titular da unidade judiciária, foi o responsável pelo julgamento. O magistrado relatou que o réu não compareceu a audiência, tendo sido decretada à revelia do acusado. Mas, o juiz rejeitou a tese da defesa dele.

“Portanto, não assiste razão à tese defensiva pela absolvição, pois as provas são robustas em demonstrar que manteve relação sexual com a vítima, mesmo sabendo ser menor de 14 anos de idade, sendo a condenação a única medida cabível ao caso.

Abuso de menor: Professor de capoeira é condenado a 8 anos por estuprar aluna em Brasiléia - Acre Notícias - Atualidades Portal Capoeira 1

 

MAIS INFORMAÇÕES: Texto retirado da Edição n°6.559, do Diário da Justiça Eletrônico, da segunda-feira, 23.

EDITAL DE INTIMAÇÃO DE ADVOGADOS – RELAÇÃO Nº 0180/2020

ADV: FRANCISCO VALADARES NETO (OAB 2429/AC), ADV: GISELI ANDRÉIA GOMES LAVADENZ (OAB 4297/AC), ADV: HADIJE SALIM PAES CHAOUK (OAB 4468/AC) – Processo 0001187-06.2018.8.01.0003 – Ação Penal – Procedimento Ordinário – Estupro de vulnerável – RÉU: Elwis Jhonnatan Martins Ferreira – Leandro Marcolino de Oliveira – (..) Ante o exposto, JULGO PARCIALMENTE ELWIS JHONNATAN MARTINS FERREIRA PROCEDENTE os pedidos formulados na denúncia para:

A) CONDENAR o réu pela prática do crime previsto no artigo 217 – A, do Código Penal; e B) ABSOLVER o réu LEANDRO MARCOLINO DE OLIVEIRA, com fundamento no art. 386, I, do CPP. Atento ao disposto no art. 68, caput, do mesmo diploma legal, passo à dosimetria da pena.

DOSIMETRIA DA PENA DO RÉU ELWIS JHONNATAN MARTINS FERREIRA

Analisando as circunstâncias do art. 59 do Código Penal, verifico : A) culpabilidade: o réu agiu com culpabilidade normal à espécie, nada tendo a valorar. B) bons antecedentes: o réu é portador de bons antecedentes. C) personalidade: não há elementos acerca de sua personalidade, logo não há o que ser valorado; D) conduta social: nada há a respeito da sua conduta social, razão que não será valorado; E) motivo do crime: é punido pelo próprio tipo penal, razão pela qual deixo de valorá-lo; F) circunstâncias: nada há a valorar. G) consequências do crime: normal à espécie, nada tendo a valorar. H) comportamento da vítima: em nada influenciou na prática do delito.

À vista das circunstâncias analisadas individualmente, fixo a pena base em 8 (oito) anos de reclusão. Ausente circunstâncias atenuantes e agravante, razão pela qual fixo a pena provisória em 8 (oito) anos de reclusão. Ausentes causas de aumento ou de diminuição de pena, pelo que torno definitiva e concreta a pena do réu ELWIS JHONNATAN MARTINS FERREIRA de 8 (oito) anos de reclusão. Na esteira do que determina o art. 33 do Código Penal, fixo, como regime inicial de cumprimento de pena, o SEMIABERTO, observada a hediondez do crime (art. 1º, VI, da Lei 8072/90). Verifico que, na situação em tela, não é cabível a aplicação da substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos, uma vez que o réu não preenche os requisitos do art. 44, do Código Penal. Impossível aplicar ao caso em tela suspensão condicional da pena, posto que o réu não preenche os requisitos do art. 77, do Código Penal.

Após o trânsito em julgado, lance-se o nome do sentenciado no rol dos culpados, oficie-se à Justiça Eleitoral para os fins do artigo 15, inciso III, da Constituição Federal, expeça-se o necessário para execução da pena e efetivem-se as demais formalidades legais.

Condeno o réu Elwis Jhonnatan Martins Ferreira pelo pagamento das custas processuais, pois defendido por advogado particular. Publique-se. Registre-se. Intimem-se.

Brasiléia-(AC), 18 de março de 2020. Clovis de Souza Lodi Juiz de Direito

 

Fontes:

Professor de capoeira é condenado a 8 anos por estuprar aluna no Acre

https://folhadoacre.com.br/policia/professor-de-capoeira-e-condenado-a-8-anos-por-estuprar-aluna-em-brasileia/

https://diario.tjac.jus.br/edicoes.php

 


(1) REPERCUSSÕES

* Para esclarecer a questão: (RESPOSTA DADA NA REDE SOCIAL)

  1. A imagem utilizada é a imagem referida na matéria original citada nas fontes da notícia.
  2. Fiz uma pesquisa exaustiva e não consegui encontrar outra imagem com o indivíduo condenado. Inclusive citei isso na legenda da foto no PortalCapoeira.com
  3. Já recebi diversas informações de amigos próximos que fazem parte do ABADA me informando do assunto e ajudando a resolver o problema.

Obrigado pela atenção e pela disponibilidade… Irei reavaliar a imagem utilizada na matéria pois parece que não reporta a verdade…

 

Professor Perninha: (através da rede social)

Boa noite Milani, tudo bem? Nos conhecemos em uma roda do Fantasma no Porto e o motivo deste contato é lhe pedir um favor. Foi veiculada uma reportagem hoje pelo seu canal Portal da Capoeira sobre um grave crime envolvendo um professor de capoeira no Acre, relacionado a abuso de um menor. Equivocadamente, a foto da reportagem é claramente de um evento da Abadá-Capoeira e inclusive encobre o rosto do rapaz que está jogando (também com uniforme da Abadá), o que induz ao pensamento de que seja ele o autor de tal crime. Este fato não é verdade, pois na reportagem cita o nome do acusado, que por acaso tem perfil no Facebook com diversas fotos, o que contraria a legenda de sua reportagem com relação a dificuldade de uma imagem do acusado. Acredito que tenha sido involuntário o erro e peço que seja corrigido o quanto antes (removendo a foto), para não prejudicar pessoas que não tem nada a ver com esse crime. Agradeço a atenção. Professor Perninha.

Obrigado também aos amigos: Cau, Marcelo Lampanche e Boiadeiro pela educação e compromisso com a verdade.

A Capoeira da Sociedade Liquida

A Capoeira da Sociedade Liquida

Para Zygmunt Bauman, a sociedade atual, pela volatilidade das “coisas”, perdeu parte de suas referencias/costumes, dando lugar a um “mar” de angústias e incertezas. Desta forma, foi possível perceber o surgimento de uma nova perspectiva para a vida em comunidade, centrada no individualismo exagerado e movida pelo consumismo, a partir da ressignificação do capitalismo global, tornado tudo “liquido”.

A tal “liquidez” se expressa para caracterizar um dado formato para as atuais relações sociais, negando a “solidez” de outrora e assumindo, pela multiplicidade de possibilidades, o “lugar nenhum”, ou seja, queremos ser “tudo”, mas não nos percebemos no exercício da vida cotidiana sendo o “nada” que tanto relutamos em perceber.

Em capoeira, invariavelmente, assumimos uma “liquidez” perigosa e travestida de respeito a autonomia decisória, pois, a todo o tempo temos dificuldades com aquilo que é fluido, volátil, desregulado e flexível. Neste sentido, percebemos que quando assumimos uma relação estável, de ordem profissional, amorosa ou de outra natureza, fica a sensação de que estamos perdendo as novidades que o mundo nos oferece, e ai se instaura a crise, pois já não sabemos lidar com escolhas, considerando que nos acostumamos com a ilusão de ter “tudo” sem viver absolutamente “nada” aprofundadamente, ou seja, se tenho uma dificuldade com meu mestre, ao invés de resolver enfrentando a situação dialogicamente, eu simplesmente troco de instituição ou crio um novo grupo, mesmo mantendo as “velhas” estruturas que geraram o conflito.

Quando Zygmunt Bauman afirma que “Vivemos em tempos líquidos. Nada foi feito para durar”, ele nos ajuda a refletir sobre a grande “dança das cadeiras” das pessoas nos grupos de capoeira e seus respectivos mestres, pois, atualmente a exceção virou regra geral, considerando que é difícil conhecer uma pessoa em capoeira que, ao invés de se perceber como “cliente” de uma instituição de capoeira, se veja como sendo a expressão viva do próprio grupo e/ou seu mestre. Assim, é fácil perceber como os conflitos sociais atuais influenciam a dinâmica da arte capoeira, pois somos incapazes de manter a mesma identidade por muito tempo, atestando uma “cultura do minuto” que fragiliza as relações humanos. Cadê a ancestralidade afrodescendente?

As relações agora se organizam em rede, negando a lógica da comunidade. Assim, os relacionamentos se transformam em conexões, podendo ser feitas, desfeitas e refeitas, com as pessoas se conectando e desconectando conforme a vontade de cada impulso, fazendo com que tenhamos dificuldade de manter laços a longo prazo, consequentemente, matando expressões populares que pressupõem tempo de convivo por sua condição iniciática.

É importante que fique evidenciado neste texto o objetivo de convocarmos a comunidade de capoeira para uma reflexão, sem qualquer apologia a repressão e sistemas de controle que inviabilizam a autonomia critica decisória de cada pessoa, pois os extremos são perigosos e inoportunos para uma sociedade mais democrática, portanto, o que desejo é que, a partir de uma autocrítica, possamos nos perceber sendo cooptados por uma lógica perversa e excludente, que, paulatinamente, vem asfixiando as possibilidades da cosmovisão latente que habita em nós, esmagando a nossa africanidade capoeirana.

 

Vamos nos conectar pela rede social “UBUNTU”? Quantos “LIKES” eu mereço por isso?

Axé.:

Mestre Jean Pangolin

Capoeira: Ensaio sobre a função da diversidade na roda

Capoeira: Ensaio sobre a função da diversidade na roda

A composição de uma roda de capoeira passa essencialmente por considerar a contribuição de diferentes personagens em distintas tarefas. Neste sentido, alguns tocam, outro canta, a dupla joga, e os demais acompanham, tudo mediado pelo mais antigo, que na lógica pedagógica pode ser comparada a “zona de desenvolvimento proximal” de Vygotsky.

Tive a possibilidade de vivenciar uma “cena” emblemática numa roda no estaleiro do Bomfim, em que foi possível aprender com o contexto, pois na roda jogando tínhamos uma japonesa e um norte americano, na bateria tínhamos diferentes mestres de múltiplas referências, atrás da roda acontecia uma cerimônia religiosa de matriz africana, e ao lado tínhamos o tradicional feijão sendo distribuído gratuitamente para alimentar a comunidade, ou seja, no mesmo momento foi possível perceber a “festa”, o lazer, o trabalho e a religião, com tudo interligado harmonicamente.

O detalhe é que a japonesa, jogou muito bem, cantou e tocou, e sua condição de estrangeira , não negra e mulher , não foram argumentos para justificar uma incompetência no trato com a arte, muito pelo contrário, ela soube com maestria usar isso em seu favor naquele ambiente….Sem dúvidas, essa pessoa entendeu o que é a capoeira.

Por outro lado temos sido bombardeados por uma série de iniciativas que nos convocam a um sentido contrário de trato com o potencial dessa diversidade, pois não é estranho que possamos nos deparar com uma chamada de evento…”Encontro de mulheres, negras e angoleiras”….Parece piada, mas é verdade, pois isso lamentavelmente existe, e se não bastasse, também é possível encontrar chamadas como…”Encontro de marxista da capoeira “, ou “Encontro de capoeira gospel”, ou seja, salvo melhor juízo, isso me parece uma tentativa de reinvenção do “negócio” capoeira.

Não desejo fazer uma escrita ingênua que desconsidera a estratégia antiga dos movimentos sociais , em se reunir por afinidades de luta para congregar com o “todo”, mas o problema é que essa tal congregação com o “todo” não chega, pois não é bom para o “negocio”.

Como é possível transformar o “todo” na segregação das “partes” menos favorecidas? É realmente uma estratégia de militância ou apenas mais forma de marketing de um novo/velho “negócio”?

Na verdade a complemetariedade dos diferentes é a força motriz da arte capoeira, e qualquer coisa fora disso, pode atentar contra este princípio estrutural.

Precisamos parar de repelir, excluir o diferente que incomoda, ao passo que, com generosidade intelectual, possamos ter a humildade de reconhecer que juntos somos melhores.

Entre o que acalanta meu ego e o que me tira da “zona de conforto”, optei pelo enfrentamento dialógico, e tenho colhido esse plantio, hora com coisas boas e hora com coisas terríveis para mim, mas pagando o preço pela possibilidade/realidade de contribuir com a arte capoeira.
Vamos lá!!! Vamos expandir a mente para além do “espelho de narciso”?

 

Axé
Mestre Jean Pangolin

Ações & Repercussões: Coronavírus – COVID-19

Ações & Repercussões: Coronavírus – COVID-19

Uma das definições mais utilizadas na capoeiragem para descrever a essência da nossa arte: CAPOEIRA É PERGUNTA E RESPOSTA…

Sempre acreditei na preservação e na valorização da arte e da cultura popular, acredito que o universo da capoeira é parte integrante deste contexto, um elemento “vivo” e multifacetado, envolto na mágica e no mistério da oralidade, entranhado no corpo e na memória de todo brasileiro… acredito também que  “A toda ação sempre há uma reação de mesma intensidade e direção, porém sentidos opostos.”

Terceira Lei de Newton (princípio da ação e reação): 

Quando um capoeirista “negaceia ou aplica um golpe”, ele consegue mudar a trajetória/comportamento do companheiro de jogo pois exerce uma força/ação sobre ele. No entanto é razoável pensar que outro capoeirista também exerce uma força/ação sobre o 1º capoeirista, afinal ele sente o impacto ou reage ao “movimento”, criando um novo contexto e uma infinidade de possibilidades daquilo que entendemos por “PERGUNTA E RESPOSTA”.  Ao sentar sobre uma cadeira, a gravidade exerce uma força sobre nós da mesma forma que cadeira também o faz, pois não atravessamos a cadeira e caímos no chão – a cadeira nos “segura”.

Então, podemos concluir que cada vez que um corpo A exerce uma força sobre um corpo B, este mesmo corpo B exerce uma força sobre o corpo A. Essa, então é a Terceira Lei de Newton (ou princípio da ação e reação ou capoeirísticamente falando “PRINCIPIO DA PERGUNTA E RESPOSTA”).

É claro que esta reflexão nos leva ao outro lado da moeda: Toda a expansão da capoeira, que encontrou um amplo nicho de mercado, a ser explorado pelos grupos de capoeira, que em meados da década de 70 iniciaram o processo de “internacionalização da capoeira” que incluia rodas, apresentações e shows, em hotéis, pousadas, resorts e praças públicas, culminou em uma massiva globalização da nossa cultura e da nossa arte-luta. Hoje somos milhões de praticantes e estamos espalhados pelos quatro cantos do mundo… grande parte desta enorme comunidade (os profissionais), vive exclusivamente da capoeira (eventos, aulas, viagens, workshops, etc…).

SERÁ UMA DURA BATALHA SOCIAL E ECONÔMICA PARA TODOS NÓS!

Nossa capoeiragem é patrimonio imaterial… é cultura… é desporto… é cidadania… é social… é digital… é tradição… é amor… enfim a capoeira é VIVA…

Toda nossa comunidade tem agora um duro e importante passo pela frente: TEMOS DE LUTAR COM AFINCO, GINGAR E NEGACEAR, PARA CONTER O SURTO E A PANDEMIA DO COVID-19.

Chegou o momento de dar uma resposta clara, de agir com ética e responsabilidade social!!!

 

Fica a reflexão, na certeza que depois da tempestade virá a calmaria e melhores dias virão…

Luciano Milani

 

 

A RESPOSTA:
Ações & Repercussões: Coronavírus – COVID-19

Ações & Repercussões: Coronavírus - COVID-19 Capoeira Portal Capoeira

 

Por todo o mundo nossos amigos e companheiros vem dando sua “RESPOSTA”, agindo de forma coerente e responsável… parabéns a todos os profissionais que estão lutando e fazendo sua parte para ajudar nesta luta contra o coronavírus.

Nota Oficial:

A Associação Herança Cultural Capoeira tem acompanhado as notícias sobre o COVID-19 (Coronavírus), e seus impactos na rotina e saúde de todos. Focada na segurança e no bem-estar não só de seus participantes, mas de toda a comunidade com quem também a associação está bastante preocupada estamos seguindo os conselhos e orientações da Organização Mundial da Saúde, do Ministério da Saúde e da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo.
Neste sentido segundo decreto nº 64.862, de 13 de março de 2020 de São Paulo o governador JOÃO DORIA, GOVERNADOR DO ESTADO DE SÃO PAULO, no uso de suas atribuições legais e considerando a existência de pandemia do COVID-19 (Novo Coronavírus), nos termos declarados pela Organização Mundial da Saúde, Decreta:

Artigo 4º – No âmbito de outros Poderes, órgãos ou entidades autônomas, bem como no setor privado do Estado de São Paulo, fica recomendada a suspensão de: Ver tópico

I – aulas na educação básica e superior, adotada gradualmente, no que couber; Ver tópico

II – eventos com público superior a 500 (quinhentas) pessoas. Ver tópico

Assim, por ser o XIV Encontro Associação Herança Cultural Capoeira um espaço que reunirá número expressivo de participantes, por ter a participação de alguns dos grupos de risco da pandemia como Mestres com mais de 60 anos de idade o conselho de Mestres da Associação, na pessoa de seu presidente senhor Carlos Alberto Lanatovitz, Mestre Catitu, vem com pesar por meio desta nota informar que o XIV Encontro Associação Herança Cultural Capoeira está ADIADO.

 

A Associação prima pela saúde e bem-estar de todos e está comprometida em encontrar uma nova data para realização desta festa, que é tão importante no cenário da capoeira. Adotamos as medidas necessárias, e seguiremos tomando decisões de acordo com as diretrizes dessa associação.

Qualquer dúvida ou informação, favor entrar em contato pelos emails: [email protected] e [email protected], telefones: (11) 983818056 e (11) 9 84549924.

Atenciosamente,

Associação Herança Cultural Capoeira

 


 

Espero que estejam todos bem…

Temos um grande problema e uma enorme responsabilidade pela frente…

Todos somos diretamente responsáveis por este processo e devemos ter muita atenção e coerência…

Atitudes, que segundo aquilo que acredito, devem ser tomadas de imediato:

  • Cessar imediatamente as aulas
  • Cancelar todo e qualquer tipo de evento.
  • Deixar de viajar.
  • Respeitar as remomendacões da OMS e do Governo local.
  • Nas próximas semanas restringir ao máximo os contatos sociais.

Sei que tudo isso é algo muito difícil de digerir e implementar, visto que nossa classe profissional depende em sua grande maioria desta relação aula/evento/viagens para ganhar o sustento diário.

Estamos passando por uma fase nuclear e muito complicada… Tenho quase a certeza de que ainda vai piorar antes de melhorar… (historicamente documentado).

Cabe a cada um de nós fazer a nossa parte…

Atitudes corajosas e responsabilidade social… Este é nosso norte!

Parabéns aos amigos e aos responsáveis por trabalhos que já se posicionaram de forma coerente…

Todos vamos sofrer e não será fácil, mas tenho a certeza que estamos unidos em prol da superação…

Axé

CAL – Capoeira Arte e Luta
Luciano Milani

 


 

Por motivos de prevenção e de aconselhamento por parte das entidades competentes, as aulas e treinos de Capoeira Regional do CCCB-GMR em Guimarães, Portugal estão encerradas a partir de “12 de Março” (Quinta-Feira) até que a situação do Covid-19 se estabilize. Relembramos a todos que é importante seguir as orientações da Direção Geral da Saúde, neste momento difícil que estamos a atravessar, adotando medidas básicas de prevenção tais como:

-Desinfectar e lavar bem as mãos com álcool 70 ou desinfetante apropriado.
– Evitar locais fechados e aglomerações de pessoas.
Se tiver sintomas suspeitos, tais como febre ou tosse, mantenha-se em casa em resguardo e ligue para a linha saúde 24 do SNS (808 24 24 24), para que lhe sejam dadas as devidas orientações, caso tenha dificuldades respiratórias dirija-se as urgências mais próxima de si e evite o máximo o contato com outras pessoas, principalmente idosos.

Em breve mais informações sobre o retorno das atividades. Tentaremos compensar todos os alunos quando retomarmos o normal funcionamento.

Obrigado pela compreensão.

Att,

Centro Cultural Capoeira Baiana-CCCB
Mestre Careca
Guimarães, Portugal

 

Todos somos responsáveis!!! Faça sua parte!!!

 

Ver também: OMS https://www.who.int/

O triste fim de um Mestre(a) de Capoeira

O triste fim de um Mestre(a) de Capoeira

“Pastinha… Pastinha você tá aí??? Pastinha o que é que voce está sentindo agora???”

“Quando ele moreu mandaram um caixão de indigente!!!!”

Vicente Ferreira Pastinha (Salvador, 5 de abril de 1889 — Salvador, 13 de novembro de 1981), foi um dos principais mestres de Capoeira da história.

Parece uma sina.

Parece uma sina… Aconteceu com Bimba, Pastinha, Waldemar, Cobrinha Verde, Gigante e tantos outros… anonimos ou ícones da nossa capoeiragem, morrem na pobreza, sem o devido amparo, respeito e dignidade da comunidade e reconhecimento governamental.

 

Iêêêêê…. já foram embora…. camará….
Iêêêêê…. não voltam mais…. camará….
Iêêêêê…. já foram embora….  E AGORA camará?!?!?

 

A história se repete…

Mestra Saruê foi a primeira mulher capoeirista de Ribeirão Preto, prestou serviços em prol das comunidades de sua região uma vida inteira.

O triste fim de um Mestre(a) de Capoeira Capoeira Portal Capoeira

Mestra Saruê – Ana Lúcia Graciano Lopes da Silva – Ribeirão Preto / SP

Atualmente se encontra desempregada por motivos de saúde e perto de perder sua casa de cohab, precisando de ajuda urgentemente de amigos e simpatizantes da causa.

É conhecida como uma grande capoeirista e uma das mais velhas em todo território brasileiro.

Mas assim como grandes mestres, esta passando dificuldades extremas, pois não tem ajuda do governo, o INSS ainda não foi liberado, mesmo tendo trabalhado por mais de 30 anos e estando com problemas sérios de saúde, o que acarretou em grandes dificuldades, gerando muitas dividas por exemplo de sua casa.

Prestes a perder a casa, vem pedir ajuda! Qualquer colaboração será de grande feito nessa causa, contamos com a ajuda e sensibilidade de todos os capoeiristas, amigos, colegas, conhecidos e simpatizantes.

Fica aqui a sensibilização e o link para quem quiser participar deste movimento de cidadania e ajuda ao próximo.

SOLIDARIEDADE / PESSOAS / SAÚDE / CARIDADE

https://www.vakinha.com.br/vaquinha/ajuda-para-nao-perder-a-casa-ana-lucia-graciano-lopes-da-silva

 

 

  • VER TAMBÉM:

Mestre Pastinha – Revista Placar Dezembro 1979

Revista Placar 505 – 28 Dezembro 1979

Se liga capoeira!!! Fica a reflexão…

Carioca nota 10: Mestre Ferradura

Carioca nota 10: Mestre Ferradura

À frente de organização que prepara e certifica novos professores, mestre de capoeira oferece aulas gratuitas a moradores em situação de rua

O berimbau é um dos elementos cruciais da capoeira. Ele comanda a roda, dita o ritmo e o estilo de jogo. Ao produzir diferentes texturas de sons, o instrumento guia movimentos precisos de ataque, defesa e esquiva. Para jogar capoeira, é preciso ter desenvoltura e habilidade, sim, mas não é só isso que está em jogo. Misturando elementos de luta, dança e música, a modalidade promove a interação social, melhora a autoestima e evidencia a importância da defesa — e não do ataque. Apostando nesses valores, Omri Breda, mais conhecido como Mestre Ferradura, 44 anos, criou, há dois anos, o projeto Capoeira de Rua, dedicado à população sem teto do Rio.

“Pela sua própria natureza, o olho no olho, o contato físico, a integração com o grupo, a relação com a música, com a religiosidade e a cultura negra, a capoeira faz com que essas pessoas se sintam menos invisíveis dentro da nossa sociedade”, diz o mestre, à frente do Instituto Brasileiro de Capoeira-Educação, organização que prepara e certifica novos professores.

Mestre Ferradura

Mestre Ferradura: “Capoeira ajuda a fazer com que algumas pessoas se sintam menos invisíveis dentro da nossa sociedade” Leo Lemos/Veja Rio

 

As aulas acontecem três vezes por semana, logo após o café da manhã oferecido pelo Projeto Voar.

Às segundas, o encontro é no Aterro do Flamengo; às quartas, na Praça São Salvador; e às quintas, na Praça Paris. Por dia, cerca de quinze pessoas costumam frequentar as rodas, e a ideia do Mestre Ferradura é ir muito além da atividade recreativa:

“Busco fazer com que os alunos sintam que são capoeiristas e que podem se apropriar disso para buscar novas oportunidades”.

Está dando certo. Dois alunos do projeto, ex-­moradores de rua, já conseguiram reestruturar a vida depois que entraram na capoeira. O professor também dá aulas para crianças do Instituto Benjamin Constant e jovens do Departamento Geral de Ações Socioeducativas (Degase) e faz parte do grupo Gingando pela Paz, que desenvolve ações em diversos países, como o Congo e o Haiti.

No caso do Capoeira de Rua, mais seis voluntários se revezam no comando das aulas, que acabam de ganhar mais um ponto na cidade, o Museu de Arte Moderna.

 

Fonte: https://vejario.abril.com.br/cidade/capoeirista-aulas-populacao-situacao-rua/

 

Mais:

 

“Responsabilidade Social” é um programa da TV ALERJ voltado à projetos que fazem a diferença no Rio de Janeiro.
Na última semana o programa focou nos projetos realizados na rua, especialmente o Yoga de Rua. Como parceiro, o @capoeiraderua1 também entrou na dança!

“Responsabilidade Social” 

 

Ver também:

https://portalcapoeira.com/tag/ferradura/

https://capoeirariodejaneiro.com.br/

https://capoeiraibce.com/

https://brincadeiradeangola.com.br/

Guarujá-SP: Uma comunidade à procura do mestre

Guarujá-SP: Uma comunidade à procura do mestre

Um exemplo de ser e estar… Capoeira uma escola de cidadania… Um verdadeiro MESTRE na arte da capoeiragem e da vida!!!

Nos trabalhos de resgate do Morro do Macaco Molhado, no Guarujá, no litoral de São Paulo, chama a atenção a presença de jovens na faixa dos 20 anos. Grande parte está ali à procura daquele a que se referem como “padrinho”, “irmão” ou “mestre”, com quem aprenderam sobre a capoeira, a cultura afro-brasileira e a vida: o líder comunitário Rafael Rodrigues, de 33 anos, um dos desaparecidos no temporal que atingiu a Baixada Santista. Até a noite desta quarta-feira, 4, eram 25 os mortos na Baixada Santista por causa das fortes chuvas.

Rafael estava preocupado com os efeitos da chuva desde a noite de segunda. Naquele dia, às 23h59, fez a última publicação em uma rede social, na qual alertava sobre a situação, e saiu de casa em plena madrugada para ajudar no resgate de vítimas em uma encosta do bairro vizinho, no Morro do Macaco Molhado, também chamado de Morro Bela Vista.

O professor de capoeira Rafael Rodrigues subiu o morro, em Guarujá, no dia do temporal e tentava ajudar pessoas soterradas. Houve um segundo desmoronamento e ele foi um dos atingidos. No mesmo morro, outro Rafael, marido de Gisele, também perdeu a vida tentando salvar outras pessoas. Ele levou os 7 filhos para um lugar seguro e decidiu voltar para ajudar os demais moradores.

Chuvas na Baixada Santista: conheça a história de duas vítimas que tentaram ajudar outras pessoas

Foi atingido por um segundo deslizamento com outro voluntário e dois bombeiros, os cabos Moraes e Batalha. Com exceção de Moraes, os demais estão desaparecidos, soterrados sob a lama e o entulho.

Rafael se tornou o mestre de outros tantos meninos e meninas ainda adolescente, quando começou a dar aulas de capoeira em um abrigo há mais de 20 anos. O projeto cresceu e mudou de nome algumas vezes até se tornar a Associação Cultural Afroketu, de capoeira, percussão e danças afro-brasileiras, que atende hoje mais de cem crianças e adolescentes. “Ele é um pai para todo mundo, um amigo, irmão. Dá conselho, briga quando precisa, faz tudo”, diz mestre Sandro, de 41 anos, outra liderança do Afroketu. “Vieram (pessoas do projeto para o resgate) porque ele sempre se doou para todo mundo.” Hoje professor do Afroketu, Daniel de Moura, de 28 anos, começou como aluno há 12 anos. “(A associação)é uma família, um pelo outro até hoje. E o Rafael é um pai para todo mundo.”

Atuação

Produtor cultural, Rafael tem filhos e estava no último ano da graduação em Direito. É assessor de Políticas Públicas Para a Juventude na prefeitura do Guarujá há três anos. “Encontrei com ele na última semana e estava feliz, empolgado com os conhecimentos que ganhava (no curso de Direito), em como isso poderia ajudar mais a comunidade”, diz a professora Roseli Alexandre, de 54 anos, que acompanha o trabalho de Rafael desde a adolescência. “Todo dia, passava às 21, 22 horas na frente da sede do projeto e via aquela gente toda envolvida. Agora nem imagino como vai ser.”

Também professor, Luiz Alexandre, de 60 anos, diz que Rafael tem atuação que vai além do Guarujá, envolvendo-se em projetos em outras cidades da Baixada e do Estado. “É um verdadeiro Zumbi da modernidade, ele nos dignifica, nos representa. Um cara que não espera acontecer.”

 


TRAGÉDIA: Guarujá registra 26 mortes

Na Baixada Santista, foram contabilizados 32 óbitos e 47 desaparecidos

A Defesa Civil do Estado informa que as chuvas extremas que incidiram sobre a região da Baixada Santista na madrugada de terça-feira, 3 provocaram, até o momento, 32 óbitos e 47 não localizados, nos seguintes municípios: Guarujá (26 óbitos e 42 não localizados), Santos (4 óbitos e 4 não localizados) e São Vicente (2 óbitos e 1 não localizados). O número atual de desabrigados é de 249 em Guarujá e 185 em Santos.

Foram disponibilizadas 30,5 toneladas de materiais de ajuda humanitária aos municípios afetados, sendo: 15,6 toneladas (colchões, cobertores, cestas básicas, roupas, água sanitária, kits de limpeza, kits de higiene e água potável) para o depósito do Fundo Social de Santos de onde serão distribuídos, mediante solicitação, às defesas civis municipais; 11 toneladas (colchões, kits higiene, vestuário e limpeza, cestas básicas, água potável e fita de isolamento) a Guarujá; 2,9 toneladas (colchões, cestas básicas, kits de higiene, limpeza e vestuário) a Peruíbe; 1 tonelada (colchões) a Santos.

Além disso, foram disponibilizados equipamentos de proteção individual (luvas de raspa e capacetes) e baldes para o mutirão de voluntários que está atuando em apoio às equipes de salvamento nos cenários de ocorrência de Guarujá.

O Diretor do Departamento Estadual de Proteção e Defesa Civil, Tenente-Coronel PM Henguel Ricardo Pereira, e equipe, permanecem na região, em reuniões com o Gabinete de Crise, avaliando as necessidades e a atuação das equipes de salvamento.

No Diário Oficial do Estado do último dia 4, o Governador João Doria homologou sumariamente os decretos municipais de situação de anormalidade de Guarujá (estado de calamidade pública), Santos e São Vicente (situação de emergência). No dia seguinte, esses decretos foram reconhecidos sumariamente no Diário Oficial da União.

Nas últimas 24 horas, a contar das 6h de hoje (6), foram registrados mais 2mm em Guarujá (65mm em 72h), 12mm em Santos (46mm em 72h) e 7mm em São Vicente (53mm em 72h).

A sexta-feira (6) começou com sol na Baixada Santista. No entanto, devido aos ventos úmidos que continuam soprando do oceano em direção à costa, continua a previsão de chuva fraca no período da tarde e noite, porém sem risco de temporais e grandes acumulados. Já para amanhã (7), a mesma condição permanecerá e, no período da noite, haverá condição para chuviscos bem isolados por toda a região.