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Capoeira para todEs por Puma Camillê

Puma Camillê: Capoeira & Vogue

Negro, artista, capoeirista, digital influencer, dançarino, coreógrafo, modelo, educador social e palestrante. Mas além de todas essas funções, identidades e atributos, Puma Camillê é pioneiro à sua própria maneira, ao integrar a comunidade LGBTQIA+ na capoeiragem e após ter acesso a Vick Aisha, Mother da House of Madame Satã que já propunha as possibilidades de conexão e semelhanças entre as artes, e um dos primeiro a fundir em seu corpo a tecnologia ancestral que é a Capoeira ao Voguing.

Acompanho Puma Camillê há algum tempo e nem sempre se apresentou com esse nome. Nascido Luiz Otávio Camilo Martins, cresceu com a família e foi criado pela mãe Dona Sílvia e pela irmã mais velha Adriana, igualmente mãe, em Campinas, no interior paulista, mas nunca considerou aquele o seu lugar de origem. Tanto Luiz Otávio quanto Puma Camillê sempre foram cidadãos de lugar nenhum. Mesmo sem um local de pertencimento, ele sabia que era capoeira, desde o primeiro contato com essa cultura ancestral, aos sete anos. Foi a partir desse encontro que Puma descobriu uma nova forma de comunicar e de se conectar com o próprio corpo.

Estes últimos tempos, tão conturbados e repletos de possibilidades digitais dentro do universo da nossa capoeiragem (nunca houve tamanha oferta de informação compartilhada: cursos, aulas, workshops e lives) que todos nós tivemos uma otima oportunidade de nos aprimorarmos, revermos e até de nos reinventarmos… Nestes “tempos pandêmicos” houve de tudo… e dentro deste caldeirão fervilhante e nuclear de conceitos… ideais e idéias… foi ai que um insight me veio a cabeça…. PORQUE NÃO ABRIR UM CANAL TOTALMENTE DEDICADO A COMUNIDADE LGTB+ DENTRO DO PORTAL CAPOEIRA??? Fiquei algum tempo ruminando esta idéia e partilhei-a com alguns amigos próximos dentro do universo da capoeiragem…

Uma das primeiras conversas foi com meu grande amigo Omri Breda Ferradura que me orientou e me explicou melhor o conceito e o significado do LGBTQIA+ que até então eu, dentro da minha ignorância, desconhecia que haviam sido acrescentadas as letras QIA+ e o significado de cada uma destas letras… Depois foi a vez de um bom dedo de proza com meu irmão Gugu Quilombola que de pronto comprou a idéia!!! Em ambas as conversas houve um ponto muito forte de intersecção: Luiz Otávio – PUMA CAMILLÊ. Foram tantos adjetivos e depoimentos emocionados sobre o carácter, a causa e a luta de Puma Camillê que aquele “insigth” tomou uma nova proporção… Imediatamente pedi ao Ferra e ao Gugu que facilitassem o contato com Puma Camillê… “et voilà” fez se a luz!: De repente estávamos conectados e conversando de maneira descontraída e muito produtiva!!!

Nossa conversa foi bastante interessante e emocionada… pude constatar que Puma Camillê era verdadeiramente aquilo que eu precisava para dar vida a este projeto, dando um Rosto, um corpo e uma alma a esta nova editoria do Portal Capoeira…. Acima de tudo pude também perceber que Puma era aquilo que eu precisava para ser um ser humano melhor e trabalhar para desconstruir meus preconceitos e levar luz a minha ignorância… e desta forma poder entender melhor a luta e a causa desta comunidade que tanto pelejou e sofreu para conquistar o merecido espaço… através do coração de Puma Camillê.

De antemão convido a [email protected] a conhecerem melhor PUMA CAMILLÊ que será o responsável por esse novo Editorial:

Capoeira para todEs 🌈

Mestre Ferradura
Gugu Quilombola

TEM CAPOEIRA NA BALLROOM

Matéria de Jackson Araujo

A NOVA ESTÉTICA NEGRA PELA BOCA E CORPO DE PUMA CAMILLÊ

A primeira vez que vi e escutei Puma Camillê foi num post do Instagram. Sua fala e movimentação reverberaram na minha cabeça por dias e decidi tentar uma entrevista com essa figura inovadora e cativante dentro do ativismo negro e LGBT. Puma Camillê é pessoa pra horas de conversa. A pausa entre suas palavras pode ser entendida pela leveza escrita entre os belos e únicos movimentos que faz, misturando capoeira e vogue. Puma é pura emoção.

Pausa para uma breve explicação: “Mais que um estilo de dança marcado por poses, ‘caras e bocas’, vogue é um movimento de reafirmação de identidade de gêneros e sexualidade, tendo forte influência da moda, inspiração nas passarelas e capas de revistas, nascido dentro da cultura ballroom, em NY, nos anos 1980s/1990s)”. Assista a série “Pose” ou o documentário “Paris Is Burning” para entender mais e melhor.

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“Conseguir trazer juntamente com a capoeira, que é algo extraordinário, foi uma potência muito grande. Poder ser feminino e afeminado com toda uma potência e habilidade corporal junto ao autoconhecimento e autoaceitação. Muita gente se conecta com isso”. FOTOS | Caio Oviedo

Com a palavra, Puma Camillê!

JACKSON — Muito obrigado pela oportunidade de aprender com você por meio da sua história.
PUMA CAMILLÊ 
— Muito obrigado pela espaço de fala e a oportunidade de me escutar. Sempre é um grande aprendizado quando posso contar minha história e ao mesmo tempo exercitar a escuta e sempre aprender um pouco mais sobre mim mesmo e sobre o outro a partir das minhas falas. Salve! A todas as pessoas que vieram antes de mim. Antes de honrar meus ancestrais, quero honrar as minhas matriarcas, que me criaram, me cuidaram e possibilitaram que esse momento fosse possível: Salve Dona Silvia, minha mãe, Adriana Camilo, minha irmã mais velha, que me criou igualmente como mãe! Sou muito honrado a essas duas pessoas. E também a todas as pessoas LGBTs e pessoas negras que precisaram lutar muito para que esse espaço hoje fosse um espaço seguro de fala pra mim.

JACKSON — Quem é Puma Camillê?
PUMA CAMILLÊ 
— Puma Camillê é a jovem de 27 anos, periférica do bairro Fundação Casa Popular. Vou colocar aqui como LGBT, por mais que não consiga nesse momento me ler ou me descrever como nenhuma letrinha. Talvez esteja bem próximo do não-binário ou de uma pessoa T. Acho que estou passando por essa transição na minha mente, ainda não sei definir o que está acontecendo, mas entendi também que não preciso ter certeza de nada na minha vida, eu só preciso sentir e viver. Então não vou me declarar como nenhuma letra, mas sim dizer: me represento e me sinto acolhido pela comunidade LGBT.

Cidadão de lugar nenhum, por mais que minhas raizes, amizades e família estejam na cidade de Campinas, interior de São Paulo, que descobre cada dia mais a luz interior que se expande em volta de todas as manifestações em que esse corpo consegue se fazer presente e se expressar nos rituais, seja na ballroom ou na comunidade da capoeiragem.

Por mais que esse corpo muitas vezes e outrora fizesse parte da norma, ele a cada dia mais se liberta. E quanto mais ele se liberta, mais traz outras pessoas, servindo como farol, para que outras pessoas se enxerguem e passem também a questionar esse sistema patriarcal que já existia e que estava imposto.

Puma Camillê é a luz da trangressão dentro das comunidades, é a luz da reflexão, é a oportunidade de refletir sobre sua própria existência e como ela se dá em comunidade, pois ninguém é ninguém só.

Puma Camillê traz consigo toda uma comunidade majoritariamente formada por pessoas negras e LGBTs, tendo ganhado muita força dentro dessas comunidades. A partir desses movimentos, consegue trazer mais pautas a serem colocadas, refletidas e discutidas nos ambientes em que se faz parte.

Puma Camillê vem cada dia mais levando sua fala através de diversos veículos, como esse que estamos agora, para que outras pessoas consigam também se sentir pertencentes e se enxergarem como potência em lugares que outrora não passava nem pela mente a possibilidade de se fazer presente.

JACKSON — Como você define o movimento corporal que constrói sua presença?
PUMA CAMILLÊ — 
Como definir o que tem dentro de mim, dentro da minha alma e que meu corpo projeta em movimentação e cada dia mais isso constrói a minha presença…? Quanto mais eu entro em sintonia musical, corporal, sentimental, emocional, em equilíbrio, seja ele no meu corpo através das artes que habitam nele, equilíbrio com esses parâmetros que acabei de dizer, isso abre um leque de possibilidades pra experienciar sentimentos até abstratos, difíceis de distinguir e que só consigo experienciar quando eu estou em movimento.

Às vezes dentro de elementos ritualísticos, como a capoeira, conseguir essa sintonia juntamente à movimentação é uma oportunidade imensa de experienciar esses sentimentos dos quais eu talvez não consiga nem dar nome. E quando eu tô nessa sintonia, obviamente as pessoas que fazem parte presencialmente, também conseguem acessar sentimentos dentro delas. Quanto mais elas estão conectadas comigo e com o todo e com elas mesmas, mais possível é essa oportunidade de conseguir experienciar sentimentos que passam muito por vulnerabilidade, por autoaceitação, autoconhecimento, força, potência…

Então a movimentação que compõe o meu corpo é um todo de tudo o que eu consigo vivenciar e expressar a partir dele. Nossa que complexo conseguir definir o que meu corpo expressa em movimentação…

Por muito tempo, acreditei que a movimentação já tava pronta, pra gente simplesmente passar pelos caminhos que foram ensinados e descobertos até aqui. Mas quanto mais eu me acesso e acesso também o meu corpo, eu percebo a possibilidade de fluidez e de sempre dar continuidade, obviamente a partir das artes que foram conectadas e reconectadas com a minha vida. Então a movimentação é uma oportunidade de experienciar vida e a vida é movimento, é conseguir expressar amor a partir disso. Amor é movimento e movimento é vida. Vida é fluidez, é movimento.

A movimentação que define a minha presença é a possibilidade de projetar exatamente a luz que tem dentro de mim. O movimento é a possibilidade de experienciar sentimentos. Minha movimentação é uma oportunidade de sentir a vida em sua essência.

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“O meu corpo dentro da comunidade da capoeira conseguiu experienciar o que o vogue estava querendo dizer: que também era luta de corpo, também era luta contra um sistema”. FOTO | Caio Oviedo

JACKSON — Qual a agência da capoeira sobre você?
PUMA CAMILLÊ 
— Quando falo de ética e respeito, na capoeira isso não tem a ver só comigo exclusivamente. A capoeira é a oportunidade de experienciar você mesmo a partir do outro, de trazer o movimento como cura. Jogar capoeira é você entender o outro em você. Enxergar o outro como espelho. De enxergar a minha ética, de como eu enxergo o mundo a partir do outro. Me enxergar em comunidade. Ler o outro a partir de mim. Pra além da movimentação que corre em meu corpo, eu faço os outros corpos se movimentarem a partir do que existe em mim.

JACKSON — Quando você virou a chave pra unir capoeira e voguing?
PUMA CAMILLÊ 
— Capoeira e voguing se misturaram dentro da minha cabeça e no meu corpo em momentos diferentes. A capoeira faz parte da minha essência, da minha maneira não só de movimentar o corpo, mas de enxergar o mundo. Ela passa pelos conceitos capoeirísticos; existe uma comunidade que leva esse estilo de vida. Então, desde o momento que eu me acordo, que eu me alimento, que eu agacho, que eu subo, que eu penso, que eu converso, o jogo da capoeira tá acontecendo na minha mente e nas minhas ações a todo momento. A capoeira já fazia parte de quem eu era.

Vamos dividir a capoeira como entidade e manifestação. Capoeira entidade é algo muito além da gente, é uma inteligência. Mas a maneira como é manifestada nos espaços, academias, dentro de um sistema patriarcal, oprime tudo o que tem a ver com sensibilidade, flexibilidade, com afeto, com tudo que roda em volta da energia feminina. Isso ficou bloqueado dentro de mim, minha história periférica, de negro em espaços majoritariamente masculinos e masculinizados.

A ballroom diferente da maneira como a capoeira foi introduzida na minha vida, foi introduzida fora do espaço acadêmico. Eu vivenciei com as pessoas trans e LGBTs nas ruas, principalmente porque isso aconteceu no momento pandêmico, em que a gente não podia estar em lugar fechado. Então, eu vivenciei isso nas praças.

Quando eu acessei a ballroom, eu precisei relembrar e reviver traumas. Eu lembro de quando eu não podia afeminar, falando do que é feminino em sociedade. Eu não podia afeminar cintura, mão, voz, trejeitos… Acessar a ballroom foi um reencontro comigo mesmo nesse sentido. De entender que não havia problema nisso e trazer força pra isso. A força de transgredir aquilo que a norma aponta como errado.

Conseguir trazer juntamente com a capoeira, que é algo extraordinário, foi uma potência muito grande. Poder ser feminino e afeminado com toda uma potência e habilidade corporal junto ao autoconhecimento e autoaceitação. Muita gente se conecta com isso.

No momento em que viro a chave, percebi que o meu corpo simplesmente fazia. Quando entendi na mente o que era movimentação dos elementos do vogue femme, a capoeira já tava presente, porque os caminhos que o vogue me proporcionava eu já conhecia a partir da capoeira. O que eu não conhecia era eu mesmo nesse lugar. O meu corpo nesse lugar sendo feminino sempre foi bloqueado, mas aquelas passagens de conexão, o corpo já sabia fazer com a mão nas costas. A capoeira já tinha me proporcionado isso. As duas culturas sempre conversaram, só que elas estavam sendo ditas e ditadas por pessoas extremamente diferentes em comunidades que não se misturavam por estratégia.

O meu corpo dentro da comunidade da capoeira conseguiu experienciar o que o vogue estava querendo dizer: que também era luta de corpo, também era luta contra um sistema.

Quando eu consigo entender movimentações e cada vez mais me aceitar, passo a me amar, me potencializar a partir do meu andar, das minhas roupas, da minha maneira de me apresentar ao mundo, minha maneira de entender gênero e sexualidade.

Na capoeira, obviamente, eu enfrentei milhões de coisas por ser LGBT, quando eu entrei na ballroom, isso já não era mais uma questão, só se potencializou um pouco mais.

Já entendia em mim essa questão da comunidade, que ganhei dentro da capoeira. Eu já tinha viajado para mais de 25 países ao redor do mundo, mais de 15 estados brasileiros, eu já tinha passado a ser acolhido, me sentia muito amado dentro desse espaço, mas a minha sexualidade sempre foi uma questão e a ballroom vem como a gotinha d’água que eu precisava na vida.

Quando eu trago isso pra mente, começo a dar entrevistas, a falar e a refletir sobre os pilares estruturantes que mantém os dois rituais: o meu corpo e o corpo do meu camarada ou do oponente. Na capoeira, há a presença de uma ancestralidade que orienta, na ballroom há a bancada do júri; na capoeira, os próprios mestres julgam nossa estabilidade que está ali na bateria, no ritmo; na ballroom, é o DJ a pessoa que traz a vida para isso; em ambos é a própria musicalidade que traz conexão com algo secular, mas poderia dizer também abstrato, uma conexão para além daqui; é o chanteur que traz em formato de mantra em repetição. Tem os ritmos de Angola e as pessoas que energizam isso em volta, o público, a roda das pessoas que com pólo energético, com as mãos, conseguem fazer isso se intensificar; há o espaço físico da House e na capoeira, as comunidades dos quilombos. Então eu entendi que as duas práticas estavam falando sobre as mesmas coisas.

Eu descobri que eu sou a essência da capoeira e quanto mais eu me conecto com a ballroom, mais eu descubro que essa essência também existe dentro de mim.

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“Descobri que eu sou a essência da capoeira. Mais eu me conecto com a ballroom, mais descubro essa essência dentro de mim”. FOTO | CAIO OVIEDO

JACKSON — Já pensou em coreografar um espetáculo?
PUMA CAMILLÊ — 
Minha vida vai ser compartilhada a partir de espetáculos. Aproveitando a sua pergunta para já abrir (nem vou usar a palavra sonho!) os meus planos futuros. O meu próximo passo é levar a minha vida juntamente com a minha comunidade, claro, amigos, família e pessoas que cruzaram o meu caminho de alguma forma, a partir de espetáculos. Imagine eu contando a minha história com capoeiristas, instrumentistas, cantores e cantoras, dançarines, cabeleireiros, maquiadores, produtores, todas as pessoas que cruzaram e fazem parte da minha vida. Não falo só de movimentação, mas também falo de um filme, um teatro… A minha vida acontecerá nesses lugares. Eu farei filmes em em Hollywood! Terá filme de super-herói e eu vou ser super-herói de salto alto para as crianças. Vai ser um choque! As crianças vão brincar com os meus bonequinhos, que não vão se quebrar, porque eles vão mover as articulações, fazer posições de capoeira, posições de Vogue. Eu já vejo isso. Eu serei o herói, herói mesmo, tipo da Marvel.

É isso: a minha vida vai acontecer assim. Além dela ser muito interessante e inovadora, é uma oportunidade das pessoas realmente se libertarem a partir dela.

Para além disso, o que eu construo com a capoeira é uma oportunidade para os hospitais, onde as pessoas vão se reabilitar fisicamente e mentalmente usando as técnicas que eu tenho desenvolvido. Isso vai ser muito interessante e para além de interessante no sentido de alcance, e quando eu digo alcance não é só em quantidade, porque isso também vai ser muito grande, mas em profundidade. O potencial do que está sendo construído é muito grande e pensar em coreografar isso é o próximo passo.

Eu falo de participações em grandes shows: abertura de Copa do Mundo, abertura de grandes eventos, ali na ONU. Imagina o show da Beyoncé e daí existe uma participação de Puma Camillê e não é Puma Camillê dançando para Beyoncé, é ela parando um pouquinho do show e apresentando “Ladies and gentlemen, Puma Camillê!”. É isso sabe, Puma Camillê entrando com um espetáculo, um espetáculo acontecendo em volta disso. Esse é o próximo passo, esse é o futuro que a humanidade vai assistir.

Então sim, eu já pensei em coreografar espetáculos e até já coreografei porém espetáculos que já existiam na capoeira, mas cada vez mais eu percebo que a minha própria vida é um espetáculo, minha vida é o meu palco e eu estou construindo isso. E gratidão mais uma vez pela oportunidade de me escutar de me potencializar a partir da escuta de quem eu sou. Estou emocionado de verdade, em poder estar aqui falando sobre isso. Obrigado.

JACKSON — O que diz um corpo negro?
PUMA CAMILLÊ 
— É muito forte responder a isso, vamos lá. Pensando então historicamente esse corpo que para se empoderar precisa se ressignificar, precisa se camuflar para se encontrar com esse lugar que, muitas vezes, passa pela marginalização, pela inferiorização e quando isso é introjetado, se mutila para conseguir se “”sentir bem””, com quatro aspas em volta.

Então, é importante pensar que esse corpo, historicamente, conseguiu resistir e precisou fazer muitas coisas pra isso — eu tô falando do macro primeiramente, para depois falar de mim então. Pensar que historicamente o meu corpo e a minha história hiperpassam por mutilação, por vários machucados internos ou até, vamos colocar aí, na cabeça, com alisamento, com produtos de alisamento, com ferro de passar no cabelo, com afeto, enfim…

Quem é negro no Brasil sabe, o que conecta uma pessoa negra com outra, e eu não consigo encontrar outro elemento, é a dor. Porque o que define que alguém é negro é o quanto de dor a essa pessoa passou.

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“Eu farei filmes em em Hollywood! Filme de super-herói. Vou ser super-herói de salto alto para as crianças. Vai ser um choque!” FOTO | Caio Oviedo


Não sei se vocês já pararam para pensar nisso, mas o que define uma pessoa negra é se ela sofreu. Não é de fato meu nariz, a minha pele, não é, não é. Então pensando colorismo, pensando tudo isso, no final das contas o que define vai ser a dor.

Agora pensando num povo que se conecta nesse país que realmente trouxe estereótipos que até hoje são perpetuados. Quando consigo se expressar — agora trazendo pro micro, no meu caso — me desconectando do macro, me entendendo como um ser único, obviamente em comunidade, mais eu não me identifico mais com a dor do outro, a dor do outro não precisa ser a minha dor. Eu não mais me identifico com os meus irmãos e irmãs através da nossa dor e sim com a luz que existe dentro de nós

Quando consigo me expressar pensando toda essa história de um povo e trazendo essa comunicação sendo e representando e estando negro e LGBT — que também é um agravante social, expressando feminilidade, masculinidade, transcendendo os conceitos de gênero — é uma oportunidade não só para mim, mas para o todo repensar o que a gente viveu até os dias de hoje.

O corpo negro quando consegue se expressar, é um choque. Ele dá bug na mente das pessoas. Porque é uma realidade que não estava sendo contada, ou melhor, estava sendo contada mas não para o todo, só entre nós. E quando conseguimos alcançar esse lugar de contar nossa história, a partir da movimentação física, seja ela musical ou corporal, pode ser na caneta também, então a gente traz a possibilidade de reflexão do novo, a possibilidade de refletir sobre o que não foi contado.

O corpo negro quando ele fala mostra um um outro lado do prisma que não estava sendo contado, traz reflexão e a possibilidade de uma nova forma de existir, para você mesmo e em comunidade.

Realmente para mim é muito complexo pensar o meu corpo. Primeiramente dentro das estéticas negras, pensando estética a partir de minha pele retinta, do meu cabelo afro, das minhas roupas e tecidos vindos de Nigéria e de Angola, pensando quem fabrica isso, pensando como eu me expresso a partir da minha estética e das artes que estão dentro de mim, que são capoeira e vogue.

É pensar a minha fala e de onde vêm os meus estudos. Não tenho nada contra a academia que é extremamente importante, eu acho que completa muita coisa, mas o meu saber é oral, é da oralidade mesmo. Não tenho esse saber da academia, tanto na capoeira quanto na dança, quanto estudantil, o meu saber é dos mestres das mestras, dos antigos e dos velhos.

Quando um corpo como esse e com essa história consegue contar, eu transcendo. E transcendo não no sentido de ir além, porque eu não estou quantificando. Eu transcendo a norma, transcendo o que está posto. O corpo negro quando conta, vindo desse lugar, ele vai para outro lado que não estava sendo ditado, nem contado, nem refletido, nem questionado.

O corpo negro é uma oportunidade de questionamento.

Siga no instagram: @pumacamille.
Assista abaixo Puma Camillê em ação:

DW NEWS: Puma Camille: Mixing capoeira and voguing

“A gente se conecta a partir da dor, e quando isso acontece é perigoso, pois a gente acaba reproduzindo nossas próprias dores. Hoje, entendo que minha militância é a minha própria existência. Com esse olhar, meu ativismo tem um alcance muito maior. Não falo em questão de números, mas de profundidade. A fusão de ballroom com capoeira me traz a percepção de quem eu sou”, 

Puma Camillê

Fonte: https://jacksonaraujo.medium.com/tem-capoeira-na-ballroom-7a03cfc0bbcc

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