Marinheiros, Moleques e “Heroes”: A capoeira do Maranhão na Primeira República | Capoeira

Marinheiros, Moleques e “Heroes”: A capoeira do Maranhão na Primeira República

Por Roberto Pereira. (fonte: https://capoeirahistory.com/)

Marinheiros, Moleques e “Heroes”: A capoeira do Maranhão na Primeira República

Quando a Canhoneira Lamego, da Marinha de Guerra do Brasil, deixou São Luís, em 18 de junho de 1887, a cidade suspirou aliviada. O navio, vindo do Rio de Janeiro oito anos antes para proteger os mares da província do Maranhão, não trouxera consigo a paz prometida. Era na verdade um “presente de grego”, “cavalo de Troia”. Entre seus tripulantes, chamados “Lamegos”, havia nada menos que uma malta de capoeira.

A antiga capital federal fervilhava capoeiragem por todos os poros, becos e ruas. O Jornal do Commercio (RJ), de 3 de dezembro de 1875, registrou a atuação desses capoeiras que deixaram marcas nas diversas cidades portuárias por onde passaram:

Ontem, às 4 horas da tarde, na ocasião em que a guarda de honra se recolhia ao campo da Aclamação, um foguista da canhoneira Lamego, que ia na frente da música numa malta de capoeiras deu uma punhalada no pardo Alexandre Fernandes vulgarmente conhecido pela alcunha de Antonio Macaco.”

Os navios, como afirmam Peter Linebaugh e Marcus Rediker (2008), eram viveiros de rebeldes e local de encontro de várias tradições. A bordo circulavam não apenas mercadorias e pessoas, mas as variadas culturas das ruas, como a capoeiragem.

Nos anos em que permaneceram estacionados na ilha negra de São Luís, a conduta dos Lamegos não foi diferente daquela apresentada no Rio. Em pouco tempo, conseguiram construir uma grande má fama de desordeiros e inimigos do sossego público – algo que regozijava os capoeiras -, e se tornaram temidos nas mais diversas freguesias da cidade. Um de seus legados foi apensar mais um sinônimo à palavra capoeira: Lamego.

Canhoneira Lamego, Da Coleção Museu Histórico Nacional
Canhoneira Lamego, pintura da coleção Museu Histórico Nacional.

A capoeira que existia em São Luís

Todavia, a capoeiragem em São Luís não era algo novo. Quando os imperiais marinheiros fundearam seu navio no Cais da Sagração e subiram a rampa Campos Melo em direção às tabernas da Praia Grande, São Pantaleão e Desterro, encontraram em seu caminho uma capoeira jovial e pujante. O achado, quem sabe, os fez lembrar de casa. Eram maltas de moleques “de todas as cores” que singravam a cidade, como a um mar, em correrias, com pedras e cacetes em punho, provocando tumulto e desordem. Ameaçando pessoas e causando pânico, em especial entre as elites, e dando muito trabalho aos “mantenedores” da ordem pública.

Não! Não se tratava de dois ou três moleques – escravizados, livres ou libertos – que deixavam seus afazeres diários e cruzavam as ruas estreitas e sujas de São Luís causando alvoroço ou que se deixavam ficar pelos cantos, à noite, realizando impunemente “exercícios de capoeiragem”. Tratava-se, segundo fontes da época, de dezenas e mesmo centenas de jovens de diversas idades, incluindo meninas:

Os jornais se referiam a eles sempre no coletivo: “maltas”, “batalhões”, “centenas”. Para termos uma ideia aproximada, o Diário do Maranhão de 25 de abril de 1876, em uma grande nota intitulada “Os moleques dando a lei” denunciava a presença “na quinta das Laranjeiras”, de “uma malta de alguns trezentos moleques saltando e uivando como desesperados, dirigindo insultos e as maiores obscenidades que se pode imaginar, sendo-lhe alvo principal os passageiros dos três bondes […] (Pereira, 2019, p. 25).

Por longos anos, essas maltas de moleques e capoeiras dominaram as ruas de São Luís, juntamente com uma leva de “heroes”, como comumente os alcunhava de maneira irônica a imprensa: mulheres “metidas à bamba”, marinheiros, “valentões”, “turbulentos”. Foram, com toda a certeza, uma das maiores dores de cabeça para elites das últimas décadas do XIX. Até desaparecerem, pelo menos nas fontes, já nos primeiros anos do novo século.

Pacotilja, 23 De Janeiro De 1884

A imprensa da época publicava notícias sobre as maltas de moleques

Recorte de Pacotilha – Jornal da Tarde, n. 21. Publicado no Maranhão, em 23/01/1884. Fonte: Hemeroteca da Biblioteca Nacional.

De modo semelhante ao ocorrido no Rio de Janeiro ou em Belém, do Pará, os capoeiras do Maranhão eram habitués dos portos, docas, tabernas, ambientes de boemia e de trabalho; usavam facas, pedras, cacetes e navalhas, além de habilidosos pontapés, cabeçadas e rabos de arraia para resolver desentendimentos do dia a dia; deixaram seus rastros para a posteridade a partir dos registros policiais, processos e muitas queixas publicadas em notas de jornais a pedido das pessoas das “boas famílias”.

As evidências e pesquisas recentes ratificam São Luís, do Maranhão, como mais uma das cidades em que vicejou a capoeira antiga, conforme já haviam indicado os historiadores Carlos Eugênio L. Soares e Matthias Assunção. A circulação de pessoas em embarcações, e em particular de marinheiros, vindas de áreas mais ao norte (Belém, Manaus, etc.) e ao sul (Recife, Rio, Santos, etc.), proporcionou o intercâmbio de diversas capoeiragens, como demonstra o caso dos Lamegos. A presença de maltas de moleques e capoeiras, na ilha do Maranhão, assim como as “quadrilhas de moleques” de Salvador – apontadas pelo eminente pesquisador da capoeira Frede Abreu -, evidenciam que essa prática não se restringiu à antiga capital federal.

Mulheres na capoeira de São Luís

Outro ponto a destacar se refere à presença feminina. Nos últimos anos, diversos pesquisadoras e pesquisadores têm visitado velhas e novas fontes em busca da contribuição de mulheres no universo eminentemente masculino da capoeiragem. Mais uma vez, Frede Abreu merece destaque, com suas indicações e preocupações pioneiras. O estudioso baiano já havia chamado a atenção para as gravuras do pintor alemão Johan Moritz Rugendas que evidenciam a presença feminina nos locais e ambientes das rodas. Segundo Abreu:

Nos jornais da época, muitas vezes, figuravam responsabilizadas por muitas das cotidianas “desordens” que grassavam nas cidades. […] Mulheres que em atos de defesa pessoal usaram de gestos e golpes de lutas de homens – a capoeira – com os quais poderiam ter intimidade”. (Abreu, 2005, p. 156, apud Pereira, p.76).

Mulher Capoeira Herbert Reis
Mulher capoeira. Ilustração de Herbert Reis.

No caso do Maranhão, “os indícios que apontam para a participação feminina em meio à capoeiragem também estão relacionados ao uso da violência em situações do dia a dia” (Pereira, 2009, p. 77). Eram “ganhadeiras, molecas, desordeiras” e outras mulheres que viviam e trabalhavam em áreas como como a Praia Grande, Desterro, Rampa Campos Melo, Fonte do Ribeirão, Codozinho, Madre Deus, etc, habitadas e frequentadas por capoeiras, que resolviam seus problemas do cotidiano à base de rasteiras pontapés e cabeçadas. Registre-se ainda um episódio raro, publicado pela imprensa, de uma mulher presa por capoeiragem, em São Luís, em 1928.

O arrefecimento da capoeira em São Luís

O caso da capoeira maranhense talvez seja útil em termos comparativos para se compreender o desaparecimento das diversas capoeiras de rua que vicejavam por todo o Brasil até as primeiras décadas do século XX. De uma prática com características mais coletivas até o fim do século XIX, a capoeira em São Luís, ao que tudo indica, diante do enquadramento legal e da repressão aos vadios e capoeiras em âmbito nacional e local, foi arrefecendo.

Além disso, como em quase todo o país, exceto na Bahia, a capoeira maranhense não se adaptou aos novos tempos, com dificuldades para se traduzir em forma de esporte ou espetáculo, seja subindo em ringues, ou em palcos de teatros, estrelando no cinema ou na TV. Os agentes de sua modernização – como foram Bimba, Pastinha e outros na Bahia – faltaram ao seu encontro. Por conseguinte, a nossa capoeira não se modernizou,

[…] permaneceu desde meados do século XIX até as primeiras décadas do século passado como uma de prática de rua, eminentemente masculina, com uma pequena participação de mulheres, que emergia geralmente nos ambientes frequentados pela maioria negra e pobre: os bairros populares, com suas tavernas, festas, chafarizes, praias, etc. além da região portuária da cidade (Idem, 2019, p. 118).

Roberto Pereira Livro

Por volta do fim dos anos 1930, foram desaparecendo das páginas policiais da imprensa diária as queixas contra a presença incômoda dos capoeiras, assim como os relatos de suas aventuras pelas ruas do Norte, São Pantaleão, Madre Deus e adjacências. A era dos marinheiros, moleques e “heroes” havia chegado ao fim.

A capoeira do Maranhão: entre as décadas de 1870 e 1930

Aproveite e leia na íntegra o livro de Roberto Pereira, editado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Maranhão, em 2019 .

Roberto Pereira é documentarista, capoeira e Doutor em História Comparada pela UFRJ. Dirigiu e roteirizou O Dono da Capoeira (2014); Do Ringue aos Palcos e O Jogo da Navalha (2023). Fez estágio doutoral no Departamento de História da Universidade de Harvard, de 2009. É autor dos livros: A capoeira do Maranhão: entre as décadas de 1870 e 1930. São Luís: IPHAN-MA, 2019 e Rodas Negras: capoeira, samba, teatro e identidade nacional (1930 – 1960); prefácio, Flávio Gomes, 1a. ed. – São Paulo, Perspectiva, 2023.

Roberto Pereira

Referências:

ABREU, Frederico José de. Capoeiras – Bahia, séc XIX: imaginário e documentação. Salvador: Instituto Jair Moura, 2005. v. 1.

ASSUNÇÃO, Mathias Röhrig. Capoeira. The history of an Afro-brazilian martial art. Routledge: London, 2005.

LINEBAUGH, Peter; REDIKER, Marcus. A hidra de muitas cabeças – marinheiros, escravos e plebeus e a história oculta do Atlântico revolucionário. Tradução de Berilo Vargas. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

PEREIRA, Roberto Augusto. A capoeira do Maranhão: entre as décadas de 1870 e 1930. São Luís: IPHAN-MA, 2019.

SOARES, Carlos Eugênio Líbano. A negregada instituição: os capoeiras no Rio de Janeiro 1850-1890. 1993. 451f. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1993.

______. A capoeira escrava e outras tradições rebeldes no Rio de Janeiro (1808-1850). 2. ed. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2004.

Fonte: https://capoeirahistory.com

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