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Culto à memória: Xangô Rezado Alto celebra a Memória do conhecido “Quebra de 1912”

Na próxima quarta, 01 de fevereiro, uma importante página poderá está sendo escrita na história de Alagoas, enquanto outra será virada. Há 100 anos um dos episódios mais tristes do estado estava em curso, com a destruição de todas as casas de matriz africana de Maceió, o que causou feridas que até hoje estão abertas e com as quais convivemos e sofremos.

Da destruição e perseguição dos seguidores e admiradores da cultura afro-brasileira, muitos se sentiram obrigados a abandonar sua cidade e mudar-se para outros estados, ajudando a desenvolver sua cultura em novos ares em estados como Pernambuco e Bahia.

Para marcar esse centenário e trazer a discussão sobre a intolerância religiosa e cultural, a Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL) realiza neste ano o projeto Xangô Rezado Alto, uma referência antagônica do que ficou conhecida a prática de se celebrar seus ritos com os atabaques sendo tocados timidamente, ou simplesmente baixo, o que ficou conhecido por “xangô rezado baixo”.

A ideia surgiu de uma série de fatos e ações desenvolvidas por seguidores, populares, estudiosos e admiradores da cultura afro em Alagoas, como os professores universitários Edson Bezerra, Rachel Rocha, Clébio Araújo e do saudoso Marcial Lima, quando estava a frente da Fundação Municipal de Ação Cultural em meados dos anos 2000. Outros dois movimentos lembrando o episódio ocorreram em 2006 e 2007, sempre com a participação popular, mas ainda com pouca força.

O projeto “Xangô Rezado Alto – o centenário do Quebra” surgiu de uma inquietação da nova gestão da UNEAL, hoje representada pelo reitor Jairo Campos e do vice-reitor Clébio Araújo, que procurou à época (2010) o consultor para projetos culturais, Vinícius Palmeira, para formatação e tramitação do projeto no Ministério da Cultura, culminando, no fim de 2011, na aprovação e liberação de recursos federais oriundos do Fundo Nacional de Cultura.

Logo em seguida as Federações e Comunidades Terreiros de Alagoas foram convidadas a participar do projeto, e assim uma forte aliança entre a academia e o popular foi formada, em prol de uma das maiores manifestações culturais que o estado já viu, não para protestar ou festejar, mas para celebrar a memória, com paz, de um fato determinante para a formação histórico-cultural do alagoano neste último século. Além de uma grande rede de parceiros que aderiram ao projeto como UFAL, Federações e Comunidades Terreiros de Alagoas, CESMAC, Secretaria de Estado da Cultura, Secretaria de Estado da Mulher, da Cidadania e dos Direitos Humanos, ITERAL, IHGAL, IPHAN, Secretaria de Estado da Educação, BRASKEN, Articulação da Cultura Popular e Afroalagoana e IZP.

“Esse é um projeto fundamentado em diversas ações realizadas por nós e tantas outras pessoas, há pelo menos 07 anos junto ao movimento negro e manifestações culturais de matriz africana em Alagoas e isso só se concretizou graças à união de todos”, explicou o vice-reito da UNEAL, Clébio Araújo.

Segundo o Reitor Jairo de Campos, “A UNEAL vive um momento de maior aproximação com a comunidade e os movimentos sociais, e esse episódio é bastante emblemático, por isso pretendemos dar mais visibilidade às manifestações de cultura negra em Alagoas e buscamos no Ministério da Cultura o apoio financeiro para isso, com uma contrapartida nossa e juntamente com outros parceiros. Desta forma, assim, podermos demonstrar o poder de reação e resistência, elevando a auto-estima do povo alagoano, num trabalho que iniciou-se em outubro de 2010 e que agora colocamos em prática”.

O projeto inicia-se nesta próxima quarta (01), mas se estenderá até o mês de maio com ações como seminário, congressos, prêmio cultural etc… pondo em discussão tudo que cerca, não só o fato do “quebra” em si, mas também os anseios e necessidades de todo um movimento sócio-religioso e cultural.

 

O Cortejo

 

No dia 01 de fevereiro acontecerá um grande cortejo reunindo babalorixás, yalorixás, ogãs, artistas, grupos, admiradores e populares que juntos sairão, vestidos de branco, às 15h da Praça D. Pedro II (Praça da Assembleia), percorrendo a Rua do Sol, fazendo duas homenagens: uma à Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, que nasceu capela, e foi edificada por iniciativa dos negros em 1820; e outra homenagem ao prédio do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL) onde hoje está guardada a Coleção Perseverança, composta de peças que escaparam ao fogo à época e foram recolhidas pelos pesquisadores Abelardo Duarte e Théo Brandão junto à Sociedade Perseverança e Auxílio dos Empregados do Comércio de Maceió, onde ficaram guardadas durante décadas,compondo hoje o acervo do IHGAL.

Após essas homenagens o cortejo seguirá para a Praça Mal Floriano Peixoto (Praça dos Martírios) onde uma grande congregação cultural acontecerá, após a realização de um fato inédito na história do Brasil, quando o Governador de Alagoas, Teotônio Vilela Filho, assinará um ato onde, oficialmente, o Governo de Alagoas pedirá perdão às comunidades terreiros e ao povo alagoano pela barbárie cometida em 1912. Não se tem registro de nada parecido. Um chefe do executivo estadual pedindo perdão por um ato de extrema crueldade e intolerância religiosa. “Não há dúvidas que este será um fato que ficará para a história, pois pela primeira vez o governo estará reconhecendo a violência praticada no passado, dando-lhe um caráter oficial, e ao mesmo tempo, pedindo perdão por isso”, constata o Antropólogo e Sociólogo Edson Bezerra, estudioso do assunto e um dos incentivadores e colaboradores de todo esse movimento.

Após esse ato oficial segue uma programação cultural que se estende também ao dia seguinte, conforme a programação abaixo:

 

Dia 01 de fevereiro

18h – Hip hop – Guerreiros Quilombolas

19h – Afoxé Oju Omim Omorewá

20h – Wilma Araújo “70 anos de Clara Nunes”

21h- Igbonan Rocha em “Coisa de Nêgo”, com participação especial da Escola de Samba Girassol

22h- Orquestra de Tambores

23h- Vibrações

 

Dia 02 de fevereiro

Praça Mal. Floriano Peixoto (Praça dos Martírios)

17h- Banda afro Gifá Lomin

17:30h– Malungos do Ilê

18h- Maracatu Raiz da Tradição

18:30h- Projeto INAÊ

19h – Guerreiro Vencedor Alagoano (Mestre Juvenal)

19:30h-Afoxé Odô Iyá

20:30h- Jurandir Bozo com o show “Pros pés”, com participação dos grupos de coco de roda “Xique-xique”, do Jacintinho e “Pau-de-arara”, da Pitanguinha

21:30h- Mariene de Castro (BA)

 

Segundo a organização, a ideia é que essa celebração aconteça anualmente, como lembra o Diretor Geral do projeto, Vinícius Palmeira: “O que queremos é que essa data se firme no calendário de eventos de Alagoas para que possamos dar mais visibilidade ao movimento, mas também contribuir para o aumento da auto-estima do alagoano… pois o que queremos é criar a Noite do Xangô Rezado Alto”, concluiu.

Quem quiser mais informações, é só acessar o blog do projeto, que já se tornou em pouco tempo, uma ferramenta essencial de pesquisa sobre o tema: www.xangorezadoalto.blogpost.com

 

Para entender o Quebra

 

Por Rachel Rocha*

 

O episódio conhecido como Quebra de Xangô foi um ato de violência praticado em 1º de fevereiro de 1912 contra as casas de culto afrobrasileiras de Maceió e que se estendeu pelo interior de Alagoas. Naquele dia, babalorixás e yalorixás tiveram seus terreiros invadidos por uma milícia armada denominada Liga dos Republicanos Combatentes, seguida por uma multidão enfurecida, e assistiram à retirada à força dos templos de seus paramentos e objetos de culto sagrados, que foram expostos e queimados em praça pública, numa demonstração flagrante de preconceito e intolerância religiosa para com as nossas manifestações culturais de matriz africana.

Esse evento, que intimidou o povo de santo e suas práticas nas décadas subsequentes proporcionou o surgimento de uma manifestação religiosa intimidada, denominada Xangô Rezado Baixo, uma modalidade de culto praticada em segredo, alimentada pelo medo, sem o uso de atabaques, e animada apenas por palmas. Essa violenta ação contra o povo de santo tem repercussões contemporâneas e pode ser apontada como uma das fortes causas da invisibilidade de uma prática religiosa que é extremamente expressiva na capital e no interior de Alagoas, pois as pesquisas de estudiosos do tema apontam para a existência de cerca de 2 mil terreiros em todo o Estado.

O evento que hoje celebramos em memória ao episódio do Quebra dos terreiros, denominado Centenário do Quebra – Xangô Rezado Alto, recupera esse passado e reivindica da população alagoana e dos poderes públicos constituídos, atenção e compromisso para com as causa das populações afro-descendentes que não podem, não devem e não irão mais se intimidar frente às injustiças históricas praticadas no passado e que relegaram nossa população afrodescendente a situações de exclusão e de extrema dificuldade.

Por isso Xangô Rezado Alto, para que nunca mais em Alagoas, as comunidades afroreligiosas se sintam intimidadas ou envergonhadas de professar sua religião que é um grande e reconhecido contributo para a formação da cultura alagoana e que muito nos orgulha.

 

*Rachel Rocha (Jornalista, Antropóloga, professora e Vice-reitora da UFAL)

 

Serviço:

Xangô Rezado Alto

Dia 01/02

Cortejo a partir das 14h, da Praça da Assembleia

Praça dos Martírios

Assinatura do pedido oficial de perdão do Governo do Estado

Apresentações artísticas

Dia 02/02

Praça dos Martírios

17h- Apresentações artísticas locais

21:30h Show com Mariene de Castro

 

Informações: (82) 3315-7892

www.xangorezadoalto.blogpost.com

A LENDA DOS ORIXÁS

 "As lendas africanas dos orixás"

Um balalaô me contou:
"Antigamente, os orixás eram homens.
Homens que se tomaram orixás por causa de seus poderes.
Homens que se tomaram orixás por causa de sua sabedoria.
Eles eram respeitados por causa da sua força
Eles eram venerados por causa de suas virtudes.
Nós adoramos sua memória e os altos feitos que realizaram.
Foi assim que estes homens se tomaram orixás.
Os homens eram numerosos sobre a terra.
Antigamente, como hoje,
muitos deles não eram valentes nem sábios.
A memória destes não se perpetuou.
Eles foram completamente esquecidos.
Não se tomaram orixás.
Em cada vila um culto se estabeleceu
sobre a lembrança de um ancestral de prestígio
e lendas foram transmitidas de geração em geração
para render-lhes homenagem."

 

Pierre Fatumbi Verger e Carybé

AS AFIRMAÇÕES CONTRADITÓRIAS DOS ALUNOS DE BIMBA

Todos estão certos!
Todos estão errados!

As palavras de Bimba devem sempre serem analisadas dentro do contexto, com seus componentes temporal (do momento), social (as pessoas envolvidas) e pessoais de Bimba (humor, antipatia, dissimulação, engodo, etc.).

Os conceitos, definições e nomenclatura usados pelo Mestre variaram muito no tempo e no espaço.

Para entender Bimba é indispensável a convivência com os acontecimentos, se possível, além de estudar e situar o fato no ambiente do momento em que ocorreu, raciocinar e então concluir…

Quando mal humorado, por antipatia ao interlocutor, por pressa ou ou simplesmente desatenção, o Mestre truncava ou trocava a resposta, além de que muitas vezes respondia propositadamente de modo incorreto, para não revelar o que não queria, ou não devia, a quem não merecia ou não convinha.

Só assim podemos entender a informação de que o toque de Santa Maria fosse o hino da capoeira, como se acaso houvesse algum…. ou a negação do uso da Cavalaria como toque de jogo duro e restrição do seu emprego a um toque de alerta…

As listas de golpes e as regras de prática afixadas nas paredes da "academia" também mudavam muito…

Profundamente interessado na origem da capoeira, como todos iniciantes da sua prática, sempre ouvi de Bimba que esta era uma luta guerreira africana, especificamente dos escravos provenientes de Angola, dada a tradição de valentia dos mesmos.

Desde meus primeiros tempos na roda de Bimba comecei a pesquisar a relação entre o candomblé e outros fenômenos culturais africanos, porquanto aquele me parecia a origem dos demais.

A grandiosidade da Natureza, a extrema dependência do Homem dos seus recursos e de suas mutações, levam ao culto dos fenômenos naturais e dos integrantes das paisagens, animais, vegetais e seres inanimados, aos quais a humanidade empresta poderes, inteligência e vontade à sua semelhança.

É notória a associação da religião com todas as atividades humanas nas sociedades primitivas, sobretudo com a música, o ritmo e a dança, manifestações primárias da Personalidade.

Entre os africanos, a unidade social repousa sobre ritmo e melodia.
A percussão e o canto unem os indivíduos e criam a unidade do grupo, coordenando os trabalhos comunitários, as festas e o culto dos Senhores Invisíveis, aos quais a Humanidade atribui o comando dos fenômenos naturais.

Assim o Homem reflete na Natureza os mesmos sentimentos e poderes que esta lhe impõe pela grandiosidade de suas forças.
Nos sistemas culturais africanos, talvez os mais antigos do atual ciclo vital, o candomblé é o fulcro em torno do qual giram as demais atividades humanas, religiosas, produtivas e sentimentais (festivas ou funerárias), não cabendo exceção à capoeira.

Bimba acreditava e propagava, com o apoio de Sisnando, a origem guerreira da capoeira, reflexo da belicosidade de ambos, porém estranhamente não conhecia terminologia africana específica da capoeira.
Durante todos os anos em que gozei da intimidade familiar e acadêmica do Mestre não observei aproximação da prática da capoeira com os rituais religiosos, sendo a mesma uma atividade profana mais associada às libações alcoólicas que aos cultos religiosos, como o candomblé.

Até à festa da casa de Camilo, em novembro de 1946, não houve exibição conjunta de candomblé, samba e capoeira; porém o lucro propiciada pela demonstração para os neurologistas e psiquiatras em congresso "encheu os olhos"(e os bolsos…) do Mestre, que adotou prazerosamente a nova fonte de renda.
Esta é a origem da associação desenvolvida posteriormente pelo Mestre no Sul da capoeira com os costumes de terreiro de candomblé… para atrair os turistas…

Como o Mestre pretendia usar o candomblé como fonte de renda adicional começou a introduzir a prática de seus rituais em associação com a capoeira, como o ato de incensar do ambiente antes de jogar capoeira. Provavelmente procurando trazer os assistentes para a consulta de Ifá, a adivinhatória pelos búzios…

O Salve introduzido por Mestre Senna como saudação foi adotado, apesar do Mestre me haver sugerido os termos "Xuba" ou "Axé" de origem africanas quando da ocasião dos estudos para o ante-projeto de regulamentação esportiva da capoeira.
A propósito, Itapoan informa que o "salve" foi sugerido por André Lacé

Os exemplos são muitos e se repetem através o decorrer das gerações que se sucederam e das múltiplas oportunidades de convívio.
Jesus Assuero me informou que Bimba lhe dissera que seu pai (do Mestre) era quem dava "sartu " na boca de caixote de sabão, enquanto a mim fora dito pelo próprio, em ocasião anterior, que esta habilidade pertencera ao Mestre Bentinho!
Ezequiel afirma que Bimba intitulo o toque de "Sta.Maria" como o "hino" da regional e que "cavalaria" não se prestava para o jogo … usava-se apenas como aviso…

Os exemplos e citações seriam infinitos e enfadonhos… resta apenas apreciar e selecionar cuidadosamente os que nos parecerem consentâneos e coerentes com a lógica, a história, a tradição e se enquadram no contexto atual, abandonando as questiúnculas e discussões estéreis.