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Centro de Capoeira São Salomão & Projeto Caxinguelês

Mais uma bela história de Capoeira…

Ontem dia 12 de dezembro de 2013, por volta das 21:00h, eu, Mestre Mago, minha companheira, Contramestra Bel e nossas filhas, Gabi e Belinha testemunhamos um dos momentos mais importantes dos quase dezessete anos do Centro de Capoeira São Salomão e do Projeto Caxinguelês.
Esse momento se refere ao coroamento de Othon que ingressou no Projeto Caxinguelês aos oito anos e hoje aos 17 anos fecha o ciclo da sua educação escolar e da participação no Caxinguelês com chave de ouro.

São muitos os elementos que precisam se harmonizar para que o desafio da educação/formação de uma criança dê certo. Mas com certeza dois, são pilares fundamentais: a família e a escola. No entanto, para crianças e jovens que vivem em situação de risco social e pessoal provocado pela pobreza e seus efeitos danosos é necessário mais um elemento para formar um tripé e melhorar a base de sustentação dessas crianças e jovens. É aí que entra a Capoeira e o Projeto Caxinguelês.

O Projeto Caxinguelês há quase dezessete anos atende crianças/jovens, dos 6 aos 18 anos de idade, com necessidades diversas de aprendizagem e comportamentais, num sistema de jornada escolar ampliada, em uma parceria com as escolas públicas do bairro. Até novembro deste ano atendíamos a comunidade do Pina, através de suas escolas Novo Pina, Osvaldo Lima Filho e João Cabral.

Othon chegou pra gente, pela sua extrema timidez ou quase prisão interior. Uma criança que desde cedo apresentou grande potencial na escola, com uma família atuante, mas rodeado por uma comunidade violenta, cheia de perigos e armadilhas e que não oferece condições para que as crianças cresçam em segurança. Então foi na Capoeira, no Projeto Caxinguelês, que ele encontrou essa segurança, esse espaço de expressão e crescimento. 
Othon passou por uma transformação radical de sua personalidade dentro do Projeto Caxinguelês, quebrando as grades de sua timidez que o impedia até de reagir fisicamente em momentos que eram necessários para manutenção do seu espaço. Teve uma fase, inclusive, que ele se tornou agressivo, causando assim, preocupação da escola e dos familiares, que nos procuraram achando que a Capoeira e o Projeto poderiam está prejudicando já que ele era tão comportado e agora estava rebelde e agressivo. Então eu disse, calma, isso vai passar, ele está apenas envergando a vara para o outro lado. Isso é necessário para que ela volte ao meio e encontre o ponto de equilíbrio. Ficará tudo bem! Essa agressividade que parece ser ruim nesse caso é positiva, ele precisa desenvolvê-la, confiem; e eles confiaram… E lá se foi Othon crescendo, desenvolvendo-se e como eu previ, equilibrando-se, sem perder o seu talento para a escola. Quando chegou ao Ensino Médio resolvemos estabelecer uma parceria com o Colégio Ideia, que é uma das melhores escolas de Ensino Médio de Recife, que topou a proposta na hora doando uma bolsa de estudos para Othon.
Othon tinha a difícil missão de ter sucesso nessa etapa da sua escolaridade no Colégio Ideia. Ele era o primeiro aluno que indicávamos para sair da escola pública, que apesar de todo esforço dos seus profissionais, é muito deficitária, por problemas estruturais no sistema público de ensino, para uma escola particular de alto nível. No entanto, os desafios dessa mudança não eram apenas intelectuais eram de toda ordem, mas acreditávamos na sua capacidade e sabíamos que ele ia ter êxito nessa missão.

Othon já estava nessa época, com seis anos de Projeto Caxinguelês e se apresentava como um jovem equilibrado e com condições psicológicas para enfrentar tal desafio. Não deu outra, ele chegou lá e logo venceu as primeiras dificuldades, que talvez tenham sido as maiores, pois foi essa transição do mundo da escola pública e da comunidade que a rodeia para o mundo da escola particular de classe média alta. Já adaptado a esse novo universo foi cada vez mais se desenvolvendo e focando nos estudos. Melhorou seu desempenho em todas as áreas e no final dessa jornada de três anos nos brinda com uma tremenda vitória!!!

Othon Vinícios, para nós da Capoeira, Enferrujado, formou-se no ensino médio sendo o homenageado da turma como aluno Laureado, ou seja, alcançou a melhor média geral: 9,1 de toda turma nos três anos de ensino médio. Além disso se apresenta como um jovem bonito, equilibrado, seguro, tranquilo, saudável, muito bem educado e formado, pronto para ingressar no mundo dos adultos e fazer a diferença na sua família e comunidade e porque não dizer no mundo. Quebra-se aqui, mais uma vez, através da Capoeira e do Projeto Caxinguelês o ciclo da pobreza e suas mazelas, que esmaga a maioria do nosso povo, missão cumprida!!!

Não temos como expressar tal alegria… Somente podemos compartilhá-la com quem sempre colaborou e torceu pelo nosso trabalho. Apresentamos por isso, mais uma prova material do que a Capoeira e o Projeto Caxinguelês fizeram, fazem e sempre tentará fazer, a diferença na vida das crianças e jovens que ingressam nessa aventura de se formar como cidadãos plenos, enfrentando as dificuldades e se tornando fortes para construir um mundo melhor de se viver. Parabéns Othon! Parabéns família de Othon! Parabéns aos professores e professoras das escolas que ele passou! Parabéns a nossa equipe do Projeto Caxinguelês! 
Hoje afirmamos em nós que vale a pena lutar pela educação através da nossa arte de fazer gente: a Capoeira!

Dedicamos esse momento e esse texto a Dona Elly, nossa fada Madrinha, que de lá do outro lado do oceano, na Holanda, tem se esforçado sobre humanamente para levantar recursos e financiar nosso Projeto aqui no Brasil. Obrigado!!!! Valeu à pena tudo!!!! 

Mago 
13/12/2013 – 00:30

Pierre Verger

 

Sua obra fotográfica, baseada nas mais de 64.000 fotografias cadastradas em seu acervo, foi construída a partir das viagens que ele fez aos cincos continentes entre o ano de1932 e o final dos anos 1970. Nos primeiros anos, suas fotos foram publicadas apenas em livros de viagens, jornais e revistas franceses e, a partir do final dos anos 30, suas fotos foram utilizadas também em publicações de países de língua inglesa, espanhola e alemã. Nessas primeiras publicações, ele contribuiu apenas como fotógrafo, não interferindo na concepção e produção dos textos.

 

Biografia:

Pierre Edouard Léopold Verger (1902-1996) foi um fotógrafo, etnólogo, antropólogo e pesquisador francês que viveu grande parte da sua vida na cidade de Salvador, capital do estado da Bahia, no Brasil. Ele realizou um trabalho fotográfico de grande importância, baseado no cotidiano e nas culturas populares dos cinco continentes. Além disto, produziu uma obra escrita de referência sobre as culturas afro-baiana e diaspóricas, voltando seu olhar de pesquisador para os aspectos religiosos do candomblé e tornando-os seu principal foco de interesse

Verger nasceu em Paris, no dia quatro de novembro de 1902. Desfrutando de boa situação financeira, ele levou uma vida convencional para as pessoas de sua classe social até a idade de 30 anos, ainda que discordasse dos valores que vigoravam nesse ambiente. O ano de 1932 foi decisivo em sua vida: aprendeu um ofício – a fotografia – e descobriu uma paixão – as viagens. Após aprender as técnicas básicas com o amigo Pierre Boucher, conseguiu a sua primeira câmera fotográfica, uma Rolleiflex. Com o falecimento de sua mãe, sua última parente viva, Verger decidiu se tornar naturalmente um viajante solitário e levar uma vida livre e não conformista. Apesar de esse desejo ter surgido tempos antes, Verger tomou essa decisão apenas após a morte da mãe no intuito de não magoá-la.

De dezembro de 1932 até agosto de 1946, foram quase 14 anos consecutivos de viagens ao redor do mundo, sobrevivendo exclusivamente da fotografia. Verger negociava suas fotos com jornais, agências e centros de pesquisa. Fotografou para empresas e até trocou seus serviços por transporte. Paris, então, tornou-se uma base, um lugar onde revia amigos – os surrealistas ligados a Prévert e os antropólogos do Museu do Trocadero – e fazia contatos para novas viagens. Trabalhou para as melhores publicações da época, mas como nunca almejou a fama, estava sempre de partida: “A sensação de que existia um vasto mundo não me saía da cabeça e o desejo de ir vê-lo me levava em direção a outros horizontes”, afirmou ele.

As coisas começaram a mudar no dia em que Verger desembarcou na Bahia. Em 1946, enquanto a Europa vivia o pós-guerra, em Salvador era tudo tranquilidade. Ele foi logo seduzido pela hospitalidade e riqueza cultural que encontrou na cidade e acabou ficando. Como fazia em todos os lugares onde esteve, preferia a companhia do povo e dos lugares mais simples. Os negros, em imensa maioria na cidade, monopolizavam a sua atenção. Além de personagens das suas fotos, tornaram-se seus amigos, cujas vidas Verger foi buscando conhecer com detalhes. Quando descobriu o candomblé, acreditou ter encontrado a fonte da vitalidade do povo baiano e se tornou um estudioso do culto aos orixás. Esse interesse pela religiosidade de origem africana lhe rendeu uma bolsa para estudar rituais na África, para onde partiu em 1948.

Foi na África que Verger viveu o seu renascimento, recebendo o nome de Fatumbi, “nascido de novo graças ao Ifá”, em 1953. A intimidade com a religião, que tinha começado na Bahia, facilitou o seu contato com sacerdotes e autoridades e ele acabou sendo iniciado como babalaô – um adivinho através do jogo do Ifá, com acesso às tradições orais dos iorubás. Além da iniciação religiosa, Verger começou nessa mesma época um novo ofício, o de pesquisador. O Instituto Francês da África Negra (IFAN) não se contentou com os dois mil negativos apresentados como resultado da sua pesquisa fotográfica e solicitou que ele escrevesse sobre o que tinha visto. A contragosto, Verger obedeceu. Depois, acabou se encantando com o universo da pesquisa e não parou nunca mais.

Apesar de ter se fixado na Bahia, Verger nunca perdeu seu espírito nômade. A história, os costumes e, principalmente, a religião praticada pelos povos iorubás e seus descendentes, na África Ocidental e na Bahia, passaram a ser os temas centrais de suas pesquisas e sua obra. Ele passou a viver como um mensageiro entre esses dois lugares: transportando informações, mensagens, objetos e presentes. Como colaborador e pesquisador visitante de várias universidades, conseguiu ir transformando suas pesquisas em artigos, comunicações e livros. Em 1960, comprou a casa da Vila América. No final dos anos 70, ele parou de fotografar e fez suas últimas viagens de pesquisa à África.

Em seus últimos anos de vida, a grande preocupação de Verger passou a ser disponibilizar as suas pesquisas a um número maior de pessoas e garantir a sobrevivência do seu acervo. Na década de 1980, a Editora Corrupio cuidou das primeiras publicações no Brasil. Em 1988, Verger criou a Fundação Pierre Verger (FPV), da qual era doador, mantenedor e presidente, assumindo assim a transformação da sua própria casa na sede da Fundação e num centro de pesquisa. Em fevereiro de 1996, Verger faleceu, deixando à Fundação Pierre Verger a tarefa de prosseguir com o seu trabalho.

WIKI:

Pierre Edouard Leopold Verger (Paris, 4 de novembro de 1902 — Salvador, 11 de fevereiro de 1996) foi um fotógrafo e etnólogo autodidata franco-brasileiro. Assumiu o nome religioso Fatumbi.

Era também babalawo (sacerdote Yoruba) que dedicou a maior parte de sua vida ao estudo da diáspora africana – o comércio de escravo, as religiões afro-derivadas do novo mundo, e os fluxos culturais e econômicos resultando de e para a África.

Após a idade de 30 anos, depois de perder a família, Pierre Verger exerceu a carreira de fotógrafo jornalístico. A fotografia em preto e branco era sua especialidade. Usava uma máquina Rolleiflex que hoje se encontra na Fundação Pierre Verger.

Durante os quinze anos seguintes, ele viajou os quatro continentes e documentou muitas civilizações que logo seriam apagadas através do progresso. Seus destinos incluíram:

 

  • Taiti (1933)
  • Estados Unidos, Japão e China (1934 e 1937)
  • Itália, Espanha, Sudão, Mali, Níger, Alto Volta (atual Burkina Faso), Togo e Daomé (atual Benim) 1935)
  • Índia (1936)
  • México (1937, 1939, e 1957)
  • Filipinas e Indochina (atuais Tailândia, Laos, Camboja e Vietnã, 1938)
  • Guatemala e Equador (1939)
  • Senegal (como correspondente, 1940)
  • Argentina (1941)
  • Peru e Bolívia (1942 e 1946)
  • Brasil (1946).

 

Suas fotografias foram publicadas em revistas como Paris-Soir, Daily Mirror (com o pseudônimo de Mr. Lensman), Life, e Match.

Na cidade de Salvador, apaixonou-se pelo lugar e pelas pessoas, e decidiu por bem ficar. Tendo se interessado pela história e cultura local, ele virou de fotógrafo errante a investigador da diáspora africana nas Américas. Em 1949, em Ouidah, teve acesso a um importante testemunho sobre o tráfico clandestino de escravos para a Bahia: as cartas comerciais de José Francisco do Santos, escritas no século XIX.

As viagens subseqüentes dele são enfocadas nessa meta: a costa ocidental da África e Paramaribo (1948), Haiti (1949), e Cuba (1957). Depois de estudar a cultura Yoruba e suas influências no Brasil, Verger se tornou um iniciado da religião Candomblé, e exerceu seus rituais.

Definição de Verger sobre o Candomblé: “O Candomblé é para mim muito interessante por ser uma religião de exaltação à personalidade das pessoas. Onde se pode ser verdadeiramente como se é, e não o que a sociedade pretende que o cidadão seja. Para pessoas que têm algo a expressar através do inconsciente, o transe é a possibilidade do inconsciente se mostrar”.

Durante uma visita ao Benin, ele estudou Ifá (búzios – concha adivinhação), foi admitido ao grau sacerdotal de babalawo, e foi renomeado Fátúmbí (“ele que é renascido pelo Ifá”).

As contribuições de Verger para etnologia constituem em dúzias de documentos de conferências, artigos de diário e livros, e foi reconhecido pela Universidade de Sorbonne que conferiu a ele um grau doutoral (Docteur 3eme Cycle) em 1966 — um real feito para alguém que saiu da escola secundária aos 17.

Verger continuou estudando e documentando sobre o assunto escolhido até a sua morte em Salvador, com a idade de 94 anos. Durante aquele tempo ele se tornou professor na Universidade Federal da Bahia em 1973, onde ele era responsável pelo estabelecimento do Museu Afro-Brasileiro, em Salvador; e serviu como professor visitante na Universidade de Ifé na Nigéria.

Verger se apaixonou pela Bahia lendo “Jubiabá” e se tornou amigo das maiores personalidades baianas do século XX, como o próprio Jorge Amado, Mãe Menininha do Gantois, Gilberto Gil, Walter Smetak, Mário Cravo, Cid Teixeira, Josaphat Marinho, dentre outros notáveis. Seu trabalho como fotográfo influênciou notadamente nomes consagrados da fotografia contemporânea como Mário Cravo Neto, Sebastião Salgado, Vitória Regia Sampaio, Adenor Gondim e Joahbson Borges, sendo que este foi seu último assistente, apontado pelo próprio Verger como sucessor natural.

Na entidade sem fins lucrativos Fundação Pierre Verger em Salvador, que ele estabeleceu e continuou seu trabalho, guarda mais de 63 mil fotografias e negativos tirados até 1973, como também os documentos dele e correspondência.

No Brasil, foi homenageado como tema de carnaval (Rio de Janeiro, 1998) do GRES União da Ilha do Governador, cuja letra fala da Trajetória de Pierre Verger a Fatumbi.

Jérôme Souty publicou um ensaio muito documentado sobre a obra e a vida de Verger : Pierre Fatumbi Verger. Do olhar livre ao conhecimento iniciático, São Paulo, Terceiro Nome (446 p., 23 fotos, em português) ; Pierre Fatumbi Verger. Du regard détaché à la connaissance initiatique, Paris: Maisonneuve & Larose, 2007 (520p., 144 fotos, em francês).

 

Capoeira e Shakespeare moldaram Loki

Capoeira e Shakespeare moldaram Loki, diz ator que faz vilão de Thor

Ao G1, Tom Hiddleston cita vilões favoritos e justifica fama de ‘showman’. – Inglês interpreta personagem pela 3ª vez em ‘Thor: o mundo sombrio’.

Tom Hiddleston surgiu como o invejoso e traidor Loki em “Thor” (2011), mas se tornou uma das maiores estrelas dos filmes da Marvel após enfrentar todos os super-heróis de “Os vingadores” (2012), filme dono da terceira maior bilheteria da história. E esse sucesso, que o ator garante ter sido “algo totalmente além e acima” de suas expectativas, deve aumentar ainda mais a partir de sexta (1º), quando ele poderá ser visto pela terceira vez no papel do “deus da trapaça” e elemento chave no roteiro de “Thor: o mundo sombrio”. Em entrevista por telefone ao G1, concedida enquanto estava na Alemanha divulgando o filme, o inglês de 32 anos não só declarou seu amor pelo personagem, mas também explicou como suas aulas de capoeira e sua experiência com Shakespeare ajudaram a compor sua versão de Loki. “Pensei em como a capoeira é tão elegante… e se Thor é como um bloco de granito, Loki é como o vento”, justificou, logo depois de citar as características dos vilões shakespearianos que o influenciaram.

Shakespeare, aliás, é uma das figuras mais importantes na carreira do ator, que já foi premiado por sua atuação em peças do dramaturgo, interpretou Henrique V em uma série da BBC no ano passado e se prepara para voltar aos palcos como protagonista de “Coriolanus”. E, indiretamente, foi também Shakespeare que o levou aos filmes da Marvel, já que o também shakespeariano Kenneth Branagh, diretor de “Thor”, foi quem fez questão de tê-lo no elenco.

Mas, além de falar sobre Loki e sua versátil carreira, que inclui papéis como F. Scott Fitzgerald em “Meia-noite em Paris”, de Woody Allen, um capitão em “Cavalo de Guerra”, de Steven Spielberg, e um vampiro no ainda inédito “Only lovers left alive”, de Jim Jarmusch, o ator justificou ainda porque se tornou um dos novos favoritos também da imprensa.

Extremamente atencioso e gentil, explicou que não se incomoda nem um pouco ao atender todos os pedidos para que cante, dance ou faça alguma de suas já famosas imitações durante entrevistas. Além disso, ensaiou algumas palavras em português e se revelou nitidamente sem graça ao falar sobre ter sido o segundo colocado na lista de “100 astros de cinema mais sexy” da revista “Empire”.

G1 – “Thor” precisava apresentar ao público o universo de Asgard e mesmo seus atores, já que você e Chris Hemsworth ainda não eram tão famosos. E em “Thor: o mundo sombrio”, qual foi o maior desafio?
Tom Hiddleston –
Acho que o maior desafio foi trazer algo novo e empolgante. Pessoalmente, foi o ponto no qual mais me esforcei. Queria ter certeza que apresentaríamos algo que soasse inovador, diferente e cativante, algo que o público ainda não tivesse visto.

G1 – E a familiaridade do público com os personagens facilita ou faz com que exista mais pressão?
Tom Hiddleston –
Em certo nível fica mais fácil, porque tenho mais confiança no personagem, ele já está estabelecido, todo mundo sabe quem ele é. Então posso me divertir com isso, porque posso fazer certas coisas mais afiadas e com cores mais brilhantes, mas também posso mudar e surpreender as pessoas, tentar descobrir todas as características que ainda não mostrei. E acho que isso é uma das coisas mais empolgantes deste filme. Loki é o mesmo cara de “Os vingadores”, mas ele está um pouco diferente, ele é perigoso de uma forma diferente, engraçado de uma forma diferente. Eu amo interpreta-lo, espero que as pessoas consigam perceber o quanto me divirto.

“Pensei em como a capoeira é tão elegante, quase um tipo de balé. Se Thor é como um bloco de granito, Loki é como o vento, meio que dançando ao redor”Tom Hiddleston, ator de ‘Thor'”

G1 – A cada vez que vemos Loki ele parece mais confiante. Agora que, tentando não revelar spoilers, podemos dizer que ele consegue algo que desejava, como você imagina que será seu futuro? O que ainda podemos esperar de Loki?
Tom Hiddleston –
Acho que é interessante perguntar o que acontece quando você ganha um jogo, porque acredito que Loki é um personagem que se satisfaz mais em jogar do que em ganhar ou perder. Estou interessado em saber o que vai acontecer a seguir e tenho algumas ideias malucas para ele… mas, em geral, acho que existe uma frase chave neste filme, que é quando ele diz “satisfação não faz parte da minha natureza”. Satisfação não o fará feliz. Ele nunca fica parado. Ele é como mercúrio, como um elemento, e sempre que você pensa que o pegou, ou sempre que pensa que Loki é algo sólido, ele muda sua forma e te engana. E ele é um encrenqueiro nato.

G1 – Ao aceitar o papel, você imaginava que Loki seria tão querido pelo público? E por que você acha que isso acontece?

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Tom Hiddleston –
Eu não fazia ideia. Foi algo totalmente além e acima das minhas expectativas e tem sido extraordinário. Sempre que você assume um personagem espera que ele vá estabelecer uma conexão com o público, mas nunca tive nada parecido antes. As pessoas costumam me perguntar sobre isso, e nunca tenho muita certeza sobre qual a resposta. Acho que talvez seja porque existe tanta diversão inerente ao personagem. Thor é o deus do trovão, Loki é o deus da trapaça, e se você procurar a palavra “mischief” no dicionário vai ver que está escrito algo como “inclinação para travessuras, brincadeiras”. Então é minha tarefa surgir e me divertir. E ele é muito charmoso, é um rebelde. Loki gosta de provocar o caos, mas, ao mesmo tempo, é também muito vulnerável e motivado por fraquezas humanas. Ele é furioso e solitário e triste, disfarça sua mágoa e seu coração partido. Espero que, mesmo que o público não tenha uma simpatia profunda por ele, ao menos entenda porque ele é quem é.

G1 – Loki pertence a uma classe de vilões queridos pelo público. Quais são seus vilões favoritos do cinema? E quais vilões te influenciaram?
Tom Hiddleston –
Amo os dois Coringas, Jack Nicholson e Heath Ledger são extraordinários interpretando o mesmo personagem de formas diferentes, eles estão certamente no topo da lista (veja no quadro acima os outros vilões favoritos do ator). Mas, acho que minha inspiração veio, em sua maior parte, de vilões shakespearianos. Loki tem muito de minha experiência acumulada com Shakespeare. Ele é obsessivo pela ambição, o que é bem “Macbeth”. É manipulador e dissimulado, como Iago em “Otelo”. É um filho que tem inveja de seu irmão mais velho, como Edmund em “Rei Lear”. E tem muito de Cassius em “Julio Cesar”, com seu olhar faminto. Acho todas essas coisas muito inspiradoras, elas foram uma espécie de ponto de partida. Mas Loki tem seu próprio repertório de truques.

Ele é como mercúrio, como um elemento, e sempre que você pensa que o pegou, ou sempre que pensa que Loki é algo sólido, ele muda sua forma e te engana”Tom Hiddleston, ator de ‘Thor’

G1 – É verdade que você treinava capoeira e usou isso quando estava se preparando para o papel? Como foi?
Tom Hiddleston –
Sim, eu treinei, foi maravilhoso. Acho que é uma arte marcial extraordinária. Eu pratiquei pela primeira vez quando estava na escola de teatro, quando tinha vinte e poucos anos. Tinha um amigo que adorava capoeira e íamos treinar em uma academia em Londres para manter a forma. Então, quando comecei a imaginar o estilo de luta de Loki, pensei nisso. Chris Hemsworth estava treinando boxe com pesos-pesados, você pode ver que Thor gira seu martelo como um boxeador, um peso-pesado, ele tem um estilo de luta muito atlético, forte, firme, e eu queria ser diametralmente oposto a isso. E pensei em como a capoeira é tão elegante, quase um tipo de balé. Se Thor é como um bloco de granito, Loki é como o vento, meio que dançando ao redor. Então sim, eu quis usar um pouco de capoeira.

G1 – E você é bom nisso?
Tom Hiddleston –
Er…não (risos). Eu era apenas ok. Mas, de qualquer forma, quando tive que vestir o figurino percebi que “hmm… é, acho que não vou conseguir mais jogar capoeira” (risos).

G1 – Embora Loki seja um personagem tão popular, você conseguiu não ficar marcado apenas por ele, fazendo filmes de vários gêneros e com diretores como Woody Allen e Steven Spielberg. Qual seu critério na hora de escolher seus trabalhos?
Tom Hiddleston –
Bem, eu sempre tento buscar uma experiência nova, todas as vezes. E acho que isso é bastante útil, já que significa que estou sempre procurando, sempre sendo curioso e aprendendo. Então tento escolher coisas que sejam completamente diferentes, porque, na verdade, não há nada que eu adore mais do que aprender algo novo, estudar uma nova pessoa, uma nova história. E, no final, é sempre uma coisa instintiva. Leio um roteiro e simplesmente sei que quero ou não explorar aquela possibilidade. Em meu próximo trabalho eu vou voltar aos palcos, serei Coriolanus (mais um personagem de Shakespeare) no teatro, em Londres. Depois, vou trabalhar com Guillermo del Toro em um romance gótico (“Crimson peak”), uma história muito, muito sofisticada sobre uma casa assombrada.

G1 – Em “Crimson peak” você vai fazer um papel que inicialmente seria de Benedict Cumberbatch, um dos atores mais requisitados atualmente por Hollywood. E, assim como você, ele tem esse perfil tão tipicamente britânico. Você acha que este é especificamente um momento de “alta” para os ingleses?
Tom Hiddleston –
(risos) Talvez. Mas acho que sempre há atores britânicos por aí, não penso que seja algo específico em relação a mim e Benedict, que, aliás, é meu amigo desde que fizemos “Cavalo de guerra” juntos. No próprio “Thor: o mundo sombrio” temos Anthony Hopkins e ele é brilhante e tem sido há tanto tempo. E eu já trabalhei também com Jeremy Irons e Kenneth Branagh, e temos ainda pessoas como Alan Rickman, Hugh Laurie, Andrew Lincoln, Tom Hardy e Michael Fassbender (nascido na Alemanha, mas criado na Irlanda). Então acho que sempre há atores ingleses fazendo trabalhos brilhantes. Mas, se é que este é realmente um momento especial, fico feliz por fazer parte dele, juntamente com Benedict. Não sei o que estão colocando na água, mas está funcionando (risos).

G1 – Mas são você e ele os dois primeiros colocados na lista “100 astros de cinema mais sexy” da  “Empire”.
Tom Hiddleston –
(risos) Sim, eu sei, isso é muito embaraçoso (risos). Vai servir como combustível para incendiar a zombaria das minhas irmãs para o resto da minha vida.

G1 – Bem, há alguns leitores contestando a escolha de Benedict, mas não me lembro de ver ninguém reclamando sobre você.
Tom Hiddleston –
(risos) Sério? Não sei o que dizer sobre isso (risos).

G1 – Suas imitações tem feito sucesso na internet, e existem vídeos com você cantando, dançando e falando outros idiomas em entrevistas e, aparentemente, se divertindo em todos eles. Mas, agora que isso se tornou uma espécie de tradição, não se cansa do fato de as pessoas sempre te pedirem alguma “gracinha”?
Tom Hiddleston –
Bem, aí é que está. O que eu mais amo em relação a atuar é criar uma conexão. Talvez eu acredite na velha escola do entretenimento, adoro entreter as pessoas. Então acho que não, não me incomoda. Tudo que você pode desejar como ator é se conectar com as pessoas e parte da diversão proporcionada pelas turnês de divulgação é que você tem a chance de conhecer o público. E eu tenho mesmo essa coisa de tentar aprender o idioma das pessoas com quem estou falando. Então é por isso que falo em francês e espanhol nesses vídeos (risos). Mas meu português não é assim tão bom, sabe… sei dizer “obrigado” (risos). Lembro-me de que meus avós moravam em Portugal e eles costumavam dizer “dois mais” (ele fala com o sotaque de um português de Portugal) quando queriam mais dois copos de vinho ou algo assim. Mas, sabe, amo aprender idiomas, é realmente uma grande curiosidade que eu tenho. E a razão pela qual adoro fazer imitações é que sou interessado em gente, me interesso pelo modo como as pessoas se sentam, caminham e falam, e isso é parte da razão pela qual amo ser um ator.

Fabiana de CarvalhoDo G1, em São Paulo

Fonte: http://g1.globo.com

Teresina: Pacientes do CEIR participam de batizado de capoeira

Superação e reconhecimento através do esporte. Esses foram os sentimentos estampados no rosto dos 24 pacientes do Centro Integrado de Reabilitação (CEIR) – que praticam capoeira – durante o batizado e troca de cordas de capoeira nesse sábado (25). O evento contou com a participação de dez grupos de capoeira de Teresina.

Realizado na Unidade Escolar Profª Maria do Carmo Reverdosa da Cruz, bairro Renascença, zona Sudeste de Teresina, o V Batizado e Troca de Cordas dos pacientes do CEIR, ocorreu juntamente com o VII Batizado e Troca de Cordas do Grupo Iê Berimbau, E faz parte das comemorações da Semana da Consciência Negra.

A alegria era visível nos olhos do pequeno Marcus Vinícius, de 3 anos, que após cinco meses na capoterapia, conseguiu, finalmente, a primeira corda. “O batizado na capoeira foi um momento maravilhoso”, relata a mãe de Marcus Vinícius, Marília Amorim.
“Meu filho sofre de paralisia cerebral, mas desde que começou o tratamento no CEIR tem melhorado bastante a coordenação motora e isso tem me ajudado muito também. Vinícius faz arte, fonoaudióloga e piscopedagogia, mas a capoeira é que ele mais gosta de fazer”, ressalta Marília.

O ritual de batizado e a troca de cordas é um momento simbólico que representa uma ascensão dentro do esporte, baseada na maturidade dos alunos, na freqüência e tempo de pratica da capoeira.

De acordo com coordenador do setor de Reabilitação Desportiva do CEIR, Childerico Robson, o evento de batizado e troca de cordas para os pacientes vem abrilhantar e fechar com chave de ouro o excelente ano que os jovens da capoeira tiveram.

“Este evento serve para somar as energias dos nossos jovens para mostrar que a capoeira não é só uma luta, capoeira é cultura, é ginga, é musicalidade e tudo isso tem sido muito importante no tratamento e na reabilitação desses jovens”, destaca Childerico Robson.

Na última quinta-feira (21), o Centro Integrado de Reabilitação (CEIR) se consagrou como o grande vencedor do Prêmio Piauí de Inclusão Social 2013. O prêmio foi conquistado pelo setor de Reabilitação Desportiva do centro, que disputou com 24 outras iniciativas de inclusão social.

Atualmente, a capoeira do CEIR conta com 35 pacientes, com idade entre um ano e meio e 25 anos. A Reabilitação Desportiva do Ceir atende uma média de 150 pacientes e oferece a prática de esportes em modalidades como natação, futebol, basquete e capoeira.

 

Fonte: cidadeverde.com
Redação: [email protected]

Fotos: Eduardo Marchão/CidadeVerde.com

Bahia – Histórias de Resistência: Mestre de capoeira enfrenta desafios para preservar herança africana

João Carlos Lopes Almeida é o cordão branco do grupo Kilombolas, nome que faz referência a outro tipo de resistência do povo negro

João Carlos Lopes Almeida, 47 anos, funcionário público, ou simplesmente João do Morro, mestre de capoeira. O cordão branco do grupo Kilombolas abriu as portas de um dos seus núcleos, na escola Madre Judite, no Alto da Bola, no bairro da Federação, para o iBahia e contou as dificuldades que enfrenta todos os dias para manter o projeto social e fazer com que uma das maiores heranças africanas no Brasil resista ao tempo.

“Nasci no bairro da Fazenda Garcia e tive pais linha dura. Só pude praticar capoeira quando tive meu primeiro emprego, já que, enquanto eu era dependente deles, era regulado para onde eu iria. Minha liberdade eu só conquistei quando passei a trabalhar”, apresentou-se.

Para a capoeira, ele se apresentou aos 18 anos e, desde então, não se vê sem a roupa branca. O agente de fiscalização de meio ambiente já está à frente do projeto Kilombolas há 23 anos, mas tornou-se mestre apenas em 2013. Segundo João do Morro, o trabalho é árduo e por vezes já pensou em desistir, mas a consciência e a necessidade de resistir sempre falou mais alto. “Eu fui convidado por alguns amigos para participar de uma lavagem aqui no Alto da Bola, que existia na época. Dessa lavagem, o pessoal gostou e quis colocar a capoeira em um patamar mais sério dentro da comunidade, por não existir nenhum tipo de cultura do gênero. Eu aceitei e fui ficando, ficando. Não vivo da capoeira, o que é até bom para mim. Se eu vivesse talvez não desse para fazer isso com o amor que eu faço. Saio da minha casa todos os dias para dar aula às crianças às 18h e só retorno às 22h, então é cansativo, mas é gratificante”, diz.

Para João, o tempo no projeto foi importante para ele entender a importância da sua presença na vida dos seus alunos. O mestre do Morro viu de tudo em seu centro cultural — nome dado por ele mesmo —, mas graças a sua persistência e resistência, pôde participar ativamente da formação de jovens que hoje já cursam o nível superior. 

“A estrada foi longa e encontrei muitas pedras. Comecei novo com esse trabalho e foi muito difícil porque a área aqui é muito violenta. Perdi alunos por causa das drogas, com os policiais agindo, às vezes, até de forma truculenta. Isso me fez pensar por vezes em desistir. Muitas vezes, eles se envolvem [com o crime] porque dá o que a capoeira não dá, que é a parte financeira, aí o aluno cai no erro. Isso me deixava muito triste, então foi difícil segurar isso. Hoje, sou feliz porque tenho alunos que estão em faculdade federal, estadual. Para mim, isso é gratificante porque quer dizer que mudei um pouco a visão da comunidade aqui”, revelou.

Consciência x Preconceito

Para João, o Dia da Consciência Negra representa mais um dia de reflexão e resistência aos preconceitos e dificuldades enfrentados pelo povo negro até aqui. “A consciência está na cabeça de cada um. Temos que ter consciência do que é certo e do que é errado, mas no geral, só é certo quando não afeta negativamente uma outra pessoa. É uma data simbólica, que está aí para a gente lembrar e está cada vez mais alerta. A gente precisa refletir. Não é só esse momento de euforia, de festa, como muitos estão vivendo a data. É o ano todo, todos os dias, temos que ter consciência e buscar fazer sempre o melhor. Se todos buscarem o seu objetivo, como eu tive o da capoeira, não tem preconceito que derrube”, analisa.

“A capoeira me fortaleceu muito em relação ao preconceito, pois é o local onde eu sinto que tenho mais valor. Onde eu chego sou respeitado. Ganhei um título através da capoeira e me sinto potente por causa dela. Sempre que presencio uma atitude racista eu penso: ‘poxa, sou um mestre de capoeira’. Isso tem valor para mim, então preconceito nenhum me abate”, acrescentou. A luta do Mestre João do Morro não acontece dentro da roda de capoeira. Na opinião dele, uma das grandes brigas que ele tem é com o preconceito de outras classes sociais à prática: “eles gostam do esporte, da luta, da dança, mas tem medo da origem. O que gera medo ou receio é de onde a capoeira vem”, opina.

Dificuldades

Sem muitos recursos para melhorar o projeto, João conta que a união sempre fez a força no grupo. “O projeto é de graça para todos os alunos. O pessoal não paga nada, mas muitas vezes arrumei um parceiro que arrumava as calças, as camisas. Hoje em dia, treinam filhos de ex-alunos meus e eles têm uma consciência. Eles viraram homens aqui, começaram a trabalhar. Não vou dizer que eles pagam, mas colaboram sempre para manter a escola. O que a escola nos oferece é apenas o espaço físico. Tudo o que temos é com o nosso próprio custo. Tem a manutenção no banheiro, água para os meninos beberem, instrumento para eles aprenderem a tocar e tudo isso é com o nosso próprio bolso. Eu, quando posso, compro, mas geralmente chamo os meus alunos mais antigos, fazemos uma vaquinha e compramos os materiais”, revelou.

O mestre acredita que o esporte pode tirar as pessoas da criminalidade e das drogas, mas finalizou a conversa com o iBahia fazendo uma crítica à falta de apoio do poder público aos projetos sociais. “A capoeira já está no mundo todo. Fiz um evento que a Bahia toda estava lá, mas isso ainda não foi visto pelos órgãos públicos. Acho que está faltando um apoio. O povo criou uma consciência aqui de que eu estou contribuindo para a formação desses jovens, mas eu não sei até quando eu vou aguentar isso. Tenho a minha vida particular, que às vezes fica até à parte. Posso até não chegar em casa porque, infelizmente, a violência está aí, mas sinto que se eu não estivesse aqui seria pior. Então queria que existisse um apoio dos órgãos públicos, para que isso se torne maior e melhor ainda”, pediu.

Mestre João do Morro segue em frente com duas certezas: o trabalho desenvolvido por ele é de fundamental importância para os jovens da comunidade e tem papel fundamental na preservação da cultura negra ao resistir a qualquer tipo de dificuldade financeira e ao mais perverso preconceito. Mais um exemplo de resistência e consciência a ser aplaudido.

*Sob a orientação de Diego Mascarenhas e Rafaele Rego.

Fonte: http://www.ibahia.com/

Grupo “Capoeira Vip” convida cuiabanos para evento no colégio Presidente Médici

Fim de tarde. Pessoas saindo do trabalho, trânsito frenético, pontos de ônibus lotados, a cidade iluminada apenas pelos postes de luz. E em frente ao Colégio Presidente Médici, um tipo de rotina peculiar se desenvolve por volta deste horário.

Jovens, adultos, senhores, todos em frente à construção histórica andam de um lado para o outro ou ficam em rodas e grupos, seja esperando o transporte público, indo para casa, matando o tempo até uma apresentação ou participando do que podemos chamar de festa particular no posto do outro lado da rua. Mas no espaço redondo próximo a estrutura metálica precária que usamos como ponto de ônibus, um grupo com calças brancas, tocando berimbau, faz um tipo de dança, um tipo de luta, uma confraternização.

É o grupo “Capoeira Vip”, que em roda e cantando, praticam os movimentos harmônicos e sincronizados da capoeira. O que começou como uma arte própria dos descendentes de escravo agora convida a todos, independente de cor, classe ou ascendência para a sétima edição do “Fest Capoeira Vip”.

Neste sábado (23), com a presença de mestres que alcançaram a fama internacional, como Moreno e Juju, o grupo fará apresentações durante o dia todo, começando às 8h, no mesmo colégio onde praticam a capoeira. O evento também inclui oficinas sobre movimento e musicalidade da capoeira.

No período da tarde, com início às 15 horas, haverá show de maculelê, dança afro, dobradinha de berimbau com viola de cocho, roda de apresentações dos mestres de capoeira, formaturas e batizados.

O organizador do festival, professor Visk, acredita que a capoeira é uma arte que forma cidadãos e que hoje alcança todas as classes sociais. “Os festivais proporcionam maior credibilidade aos participantes da arte capoeira, mostrando ao público o passado, o presente e o futuro”, destaca.

A origem da capoeira

No século XVII, era costume dos povos pastores do sul da atual Angola, na África, comemorar a iniciação das jovens à vida adulta com uma cerimônia chamada n’golo (que significa “zebra” nalíngua quimbunda). 

Dentro da cerimônia, os homens disputavam uma competição de luta animada pelo toque de atabaques em que ganhava quem conseguisse encostar o pé na cabeça do adversário. O vencedor tinha o direito de escolher, sem ter de pagar o dote, uma noiva entre as jovens que estavam sendo iniciadas à vida adulta. 

Com a chegada dos invasores portugueses e a escravização dos povos africanos, esta modalidade de luta foi trazida, através do porto de Benguela, para a América, especialmente para o Brasil, onde se fixou a maior parte dos escravos africanos trazidos à América.
No Brasil, assim como no restante da América, os escravos africanos eram submetidos a um regime de trabalho forçado. Eram também forçados à adoção da língua portuguesa e da religião católica.

Como expressão da revolta contra o tratamento violento a que eram submetidos, os escravos passaram a praticar a luta tradicional do sul de Angola nos terrenos de mata mais rala conhecidos como “capoeiras” (termo que vem do tupi kapu’era, que significa “mata que foi”, se referindo aos trechos de mata que eram queimados ou cortados para abrir terreno para as plantações dos índios).

A capoeira ainda é motivo de controvérsia entre os estudiosos de sua história, sobretudo no que se refere ao período compreendido entre o seu surgimento e o início do século XIX, quando aparecem os primeiros registros confiáveis com descrições sobre sua prática.

Serviço

Fest Capoeira Vip
Local: Colégio Presidente Médici
Horário: A partir das 8h
Data: Sábado (23)
Entrada: 3Kg de alimentos não perecíveis.

 

http://www.olhardireto.com.br

Frede Abreu: O Grande pesquisador da Capoeira

Todos aqueles que amam a capoeira e se interessam em conhecê-la mais a fundo, suas histórias, seus personagens, os fatos importantes, enfim, todos aqueles que buscam compreender melhor essa rica manifestação da cultura afro-brasileira, devem muito àquele que foi um dos maiores, senão o maior pesquisador da capoeira de todos os tempos: Frederico José de Abreu, ou simplesmente Frede Abreu, como era conhecido no meio.

Frede Abreu não está mais entre nós, partiu pras “terras de Aruanda” em julho de 2013, mas deixou como legado uma obra importantíssima, através dos muitos livros, artigos, crônicas e textos que escreveu, além de um enorme e rico acervo organizado por ele composto de documentos, livros, fotografias, filmes, revistas, jornais, etc., que pode ser considerado o maior acervo sobre capoeira existente.

Mas o mais importante, é que Frede sempre foi um sujeito muito generoso. Ele sempre abriu as portas de sua casa – onde todo esse acervo era guardado – pra qualquer um que desejasse pesquisar e se aprofundar no conhecimento sobre a capoeira. Ele sempre acolheu de forma muito amável todos que o procuravam: pesquisadores, estudantes, capoeiristas, historiadores, e contribuiu de forma efetiva para a maior parte de toda a pesquisa produzida sobre capoeira no Brasil e também no exterior. É muito difícil encontrar algum livro, artigo, documentário, tese de mestrado ou doutorado sobre capoeira no qual ele não seja citado ou não tenha colaborado de alguma forma.

Frede viajou por todo o Brasil e também para o exterior, onde sempre era convidado a participar de eventos, conferências, seminários, palestras ou simples “bate-papos” sobre capoeira. E fazia isso sempre com muita boa vontade, prazer, simpatia e bom humor que caracterizavam esse baiano que nunca se recusou a dividir o seu amplo conhecimento sobre a nobre arte da capoeiragem, quando era requisitado, por quem quer que fosse.

Mas a contribuição de Frede Abreu para a capoeira vai ainda mais além: ele foi um dos responsáveis pelo retorno do mestre João Pequeno à capoeira. João tinha se afastado  da capoeira no início da década de 1980, depois da morte de Pastinha, e se dedicava a vender legumes e verduras numa barraca na Feira de São Joaquim, junto com sua esposa, a querida  “Mãezinha” como é conhecida por todos. Frede então articulou a volta de João, e foi o responsável pela organização da sua academia, que foi instalada no Forte Santo Antonio além Carmo, e se constituiu como o centro de todo o movimento de recuperação da capoeira angola, que nessa época passava por um momento difícil, num processo de franca decadência. Pela academia e sob a liderança de João Pequeno, passaram todos os mestres que foram importantes para o movimento de renovação e revigoramento da capoeira angola, desse período histórico em diante.

Há alguns anos, Frede conseguiu apoio do governo federal para enfim organizar o seu vasto acervo, criando o Instituto Jair Moura que durante algum tempo funcionou no bairro do Garcia em Salvador. Mas esse apoio não teve continuidade e todo o acervo voltou para a sua casa, num quarto onde tudo continua a ser guardado com muito zelo pela sua família.

Esperamos que as autoridades se sensibilizem com a importância da preservação e organização desse verdadeiro tesouro sobre a memória da capoeira que Frede reuniu com  tanto carinho e dedicação, durante tantos anos, e está ameaçado de se degradar pela falta de um local adequado sob a orientação de profissionais especializados.

Frede se foi, mas seu sorriso franco, seu fino senso de humor, sua disponibilidade e generosidade, seu carisma como ser humano e seus inestimáveis serviços prestados à capoeira ficarão eternizados entre todos aqueles que valorizam a memória social de um país que sofre de “esquecimento crônico”, como é o caso do Brasil.

Um axé meu amigo, onde quer que você esteja !

Acre: Boxe, capoeira e kung fu: musa concilia lutas com estudo e profissão

Boxe, capoeira e kung fu: musa concilia lutas com estudo e profissão

Acreana que se destaca pela beleza é apaixonada pelo ringues e pela passarela. Conheça a musa do MMA acreano: Thayrine Mello, 19 anos

A atleta ressalta que no início teve dificuldades em ajustar os horários e o cansaço físico, mas os benefícios trazidos pelo esporte a fizeram superar os obstáculos. Para a acadêmica de direito, os três tipos de luta se complementam.

A beleza é o principal atributo, mas ela chama atenção mesmo é pela versatilidade no esporte. A acreana Thayrine Mello, de 19 anos, adiou suas competições no MMA, mas continua apaixonada por lutas. Agora, além do boxe, ela pratica capoeira e kung fu, em Rio Branco. O que começou por diversão virou vício. Sete meses após a estreia nos ringes, a bela jovem concilia os treinos das três modalidades, os estudos e a profissão de modelo.

VEJA ENSAIO FOTÓGRAFICO COM A MUSA DO MMA ACREANO!

– No começo foi difícil, mas com o tempo meu corpo se adaptou. Sou apaixonada pelo boxe, é meu preferido, ele me deu postura e defesa e isso ajudou nas outras modalidades. O kung fu me deu mais concentração. Surpreendeu-me. É uma arte aparentemente fácil, mas todos os movimentos são calculados e exigem muita força e resistência – explica.

Thayrine reconhece o valor da arte no esporte e define a importância da capoeira no seu dia a dia: uma mistura de todos os movimentos que pratica no boxe e no kung fu, com uma pitada a mais de ritmo e agilidade.

– A capoeira faz parte da cultura brasileira. Além de mesclar todas as artes é uma luta mais completa, mais artística, porque envolve um ritmo, uma dança, além de toda energia que existe nas rodas – frisa.

Pausa nos ringues

Thayrine estreou no MMA em abril deste ano contra a boliviana Miliane. Mas com apenas três meses de treino, a atleta perdeu o duelo. Apesar da derrota, ela destaca que a luta representa uma vitória pessoal.

– Lutei comigo mesma e contra o cansaço. Foi difícil, mas desci com a sensação de trabalho cumprido, com pouco tempo treinando, perdi por pontuação no ultimo Fight para alguém bem mais experiente.  Quando minha adversária me deu o primeiro knock down, logo no final do segundo Fight, meu corpo pedia para parar, mas não ia desistir, eu queria lutar até o fim – lembra.

A modelo afirma que a falta de tempo para treinar  para as competições adiou seu sonho de lutar profissionalmente. No entanto, a atleta  faz planos para voltar às disputas estaduais e destaca o aprendizado que obteve quando enfrentou a rival.

-No momento, não tenho condições de treinar para competir. Ano que vem talvez eu arrisque. Tirei uma grande lição da luta, adquiri mais disciplina e aprendi que derrotas também são necessárias. Foi um grande desafio absolver, mas teve grande importância no meu crescimento na arte – conclui.

 

Fonte: http://globoesporte.globo.com

Jovens pacientes superam limites em aulas de capoeira inclusiva na AACD

Inclusão através do esporte para a superação de muitos limites. Essa é a fórmula para um grupo de 35 jovens pacientes da AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente), na Ilha Joana Bezerra, Zona Central do Recife. Todas as segundas, das 14h às 15h, eles têm encontro marcado com o mestre de capoeira voluntário Severino Santos de Almeida Júnior, o Mestre Júnior, responsável por levar ao universo das crianças a adaptação, do jogo, da luta, da tradição da Capoeira, criada pelos escravos africanos e trazida ao Brasil na época em que o País era uma colônia portuguesa.

O projeto, chamado de capoeira inclusiva, foi levado à entidade em Pernambuco pelo mestre em 2006, após um evento sobre a prática da capoeira na AACD de São Paulo, focada em pacientes amputados. “O que começou meio suspeito é, hoje, uma verdade”, comemora Mestre Júnior, de 44 anos, também professor de educação física e história, com 35 anos voltados à prática desse esporte e sua história, onde ele cita a seguinte máxima dita pelo Mestre Pastinha: “Capoeira é tudo que a boca come”. Confira videorreportagem do NE10:

A dinâmica da aula é desenvolvida após análise da ficha médica de cada aluno, assim como as atividades fisioterapêuticas desenvolvidas com a equipe da AACD. A partir dessa avaliação, o professor trabalha o lado lúdico do esporte e o enriquecimento muscular, já que a Capoeira trabalha o sistema Cardiovascular, Sistema auditivo que por sua vez aguça os reflexos do paciente e o Sistema Neurológico, através da música com os instrumentos da Capoeira (berimbau, pandeiro, atabaque e etc.) e ao som mecânico com CDS de Capoeira, associado aos valores desenvolvidos nos atletas: disciplina, superação e motivação. Apesar das diferentes especificidades, mestre Júnior garante: “A aula de um é para todos”. Para um dos alunos, Pedro Lucas, de 9 anos, conseguir entrar nas aulas, há três anos, foi a realização de um desejo. Entre risos envergonhados, o jovem afirma: “Eu queria muito entrar nesse grupo e minha mãe conseguiu”, conta. Quando questionado sobre de qual parte gosta mais, é taxativo: “Gosto mais de cantar”.

A capoeira inclusiva, além de desenvolver a habilidade social, auxilia na fisioterapia recomendada para cada aluno e contribui com a reabilitação do paciente. É o caso de Brenda Carlla, uma das mais velhas do grupo. “Eu percebi que desenvolvo mais. Antes da capoeira, eu caía muito quando pegava carona em bicicleta, agora não caio mais”, conta a jovem de 17 anos, que desde os dois anos de idade faz tratamentos na AACD e começou as aulas com o mestre Junior há seis anos. As aulas semanais são aguardadas ansiosamente não apenas pelos alunos, mas também por suas mães. Para Jacira Muniz, 45 anos, mãe de Thiago, de 14 anos, os resultados são gratificantes. “A gente que é mãe vê a evolução. A questão que ele faz de vir. Ele até mostra os movimentos que aprendeu. A capoeira faz a diferença”, comemora Jacira, que se dedica exclusivamente aos cuidados com o filho.

Marília Lima, 31 anos, mãe de José Ricardo, 7 anos, chegou a pensar em desistir de acompanhar os filhos na aula. O pequeno é portador da Síndrome de Lesch-Nyan, uma doença hereditária e metabólica rara que causa disfunção neurológica, cognitiva e alterações de comportamento. “Eu queria desistir, mas o mestre não deixou. Com a continuidade, ele melhorou bastante. Antes de entrar na capoeira, quase não tinha contato com outras pessoas. Agora, ele até pede para vir”, conta.

“Para mim foi muito importante. O pouco que eu consegui é muita coisa”

O outro filho, Matheus Guilherme, de apenas um ano e nove meses, também é portador de Lesch-Nyan. Se depender da mãe, será o mais novo paciente a ser apresentado ao poder de reabilitação da capoeira inclusiva.

Pedro Lucas já participa da capoeira inclusiva há três anos. O que mais gosta nas aulas é de cantar

AULAS – Para participar das aulas, o aluno precisa ser paciente AACD e enfrentar uma fila de espera com cerca de 70 pessoas. O requisito para começar o tratamento na entidade é a apresentação de um laudo médico que comprove a necessidade do paciente em realizar procedimentos de reabilitação física.

 

Além das aulas semanais, a instituição promove o Encontro de Capoeira Inclusiva. O evento marca o batismo e a troca de cordas das crianças e adolescentes que formam o grupo de capoeira da AACD. “Temos desde a graduação infantil especial, que são seis cordas, até a graduação adulta, com nove cordas”, explica Severino Júnior.
A Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) é uma instituição sem fins lucrativos que atende crianças e jovens de 0 a 16 anos com deficiência física e adultos amputados e lesionados.

Inaugurada em 1999, a AACD Pernambuco já ultrapassou 149 mil consultas clínicas e 833 mil terapias realizadas para crianças de todo o Norte e Nordeste. Atualmente, é mantida através de parceria com o Sistema Único de Saúde (SUS) e realização de projetos com venda revertida à instituição.  Para marcar a triagem específica para cada patologia na AACD, o paciente ou seu responsável deve apresentar ao setor de Serviço de Atendimento Médico e Estatístico (Same) um relatório médico que descreva o diagnóstico e tratamento realizado na fase aguda ou inicial da doença, além das condições atuais em que o paciente se encontra. Após avaliação de uma equipe multidisciplinar, será elaborado o tratamento de reabilitação na AACD. Se por acaso a patologia não for tratada na associação, o paciente e família são orientados a realizarem o tratamento em instituições especializadas na deficiência relatada.

 

AACD Pernambuco
Endereço: Avenida Advogado José Paulo Cavalcanti, 155, Ilha Joana Bezerra Recife  Telefone: 3419.4000

Mestre Junior: (81)977018889/86192109

Foto: Malu Silveira / NE10

 

Capoeira e Educação Libertária para Formação de Sujeitos Autônomos

CAPOEIRA E EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA PARA FORMAÇÃO DE SUJEITOS AUTÔNOMOS
as práticas de ensino nas rodas de rua do RJ Omri Ferradura Breda Professor especializado em capoeira na Educação Infantil

 

Introdução

O ensino da Capoeira como ferramenta educacional foi amplamente difundido a partir da década de 1990, da creche à universidade em todo o território nacional. Entretanto, é associado a uma visão restrita que considera apenas os aspectos motores, musicais e artísticos da prática. O papel libertário histórico da Capoeira é geralmente negligenciado. O trabalho visa caracterizar a Capoeira como prática educativa transformadora no desenvolvimento da autonomia. São analisadas experiências educativas espontâneas em rodas de Capoeira desenvolvidas nas ruas. Os conceitos de autonomia, autoritarismo, liberdade e disciplina em nível político, social e individual são aqui enxergados em sentido amplo e relacionados diretamente com as teorias de educação libertária. Nesse sentido, tendo em vista a pluralidade de visões acerca do tema, recorri aos estudos de Michael Alexandrovich Bakunin, Alexander Sutherland Neill, Paulo Freire, Maurício Mogika e Silvio Gallo, entre outros. Concluo apresentando como a Capoeira se legitima em poderosa ferramenta pedagógica para uma educação democrática.

Se existe uma palavra que define o papel da Capoeira nas lutas sociais de que tomou parte, determinando seu papel como arma de resistência cultural, essa palavra é liberdade.

Por ser esse conceito tão temido e oprimido ao longo da História, o negro capoeirista1 sempre representou uma ameaça ao sistema político brasileiro, conhecido pela seletividade com que contempla as liberdades individuais e coletivas da elite social e das camadas populares.

A Capoeira, pela sua própria origem e ancestralidade, foi duramente perseguida, e seus praticantes foram dizimados pela ação do Estado. A partir da Era Vargas, contudo, a ideologia ufanista foi paulatinamente incorporando-a como símbolo da Pátria, “Esporte Nacional”. O turismo passou a consumi-la e a determinar uma nova estética, baseada em acrobacias impressionantes. A prática rebelde passou a ser aceita, mas somente de forma normatizada, regulamentada, institucionalizada. Formas sutis de arregimentação social se revelaram mais profícuas do que a mera repressão.

O objetivo de conceder legitimidade sob os auspícios do Estado era melhor para poder controlar, vigiar e, em última instância, suprimir o caráter transgressor da Capoeira. Não obstante, a capacidade de adaptação, de disfarce, de camaleonização da cultura negra permitiu a ela mudar em muitos aspectos, preservando sua essência, seu caráter libertário.

Neste trabalho serão analisadas as potenciais contribuições da Capoeira na área da Educação, especialmente no tocante ao desenvolvimento da autonomia, nos níveis individual e político, tendo em vista o ensino socialmente comprometido.

A relevância do tema é afirmada levando em conta a abrangência nacional da Capoeira, sua aplicabilidade e presença em todos os ambientes educacionais formais e não formais nos mais diversos níveis sociais e a efetividade dos resultados atingidos em inúmeras instituições educativas.

Os objetivos deste trabalho são: analisar as contribuições da Capoeira para a construção da autonomia; caracterizar a Capoeira como prática educativa libertária e refletir sobre a sabedoria ancestral da educação espontânea não institucionalizada das rodas de Capoeira realizadas na rua.

Metodologia

Os principais marcos teóricos utilizados na conceituação das relações entre liberdade e autonomia foram os estudos de Bakunin, Alexander Neill, Paulo Freire, Maurício Mogika e Silvio Gallo. Os autores pesquisados divergem em relação a várias questões. O objetivo neste trabalho não é analisar a obra deles, e sim dialogar com eles, relacionando seus estudos à potencial contribuição da cultura afro-brasileira à educação.

Foram analisados, in loco, aspectos relacionados à didática da Capoeira em rodas de rua, na condição de professor-pesquisador dessa arte desde 1991. As observações específicas quanto ao caráter politicamente transformador da Capoeira nas práticas institucionalizadas ou não estão baseadas nessa experiência pessoal.

Desenvolvimento

O trabalho interliga o campo da educação ao da política, da sociologia e do saber popular. Esse modelo se justifica pela impossibilidade de explicar os fenômenos ligados à Capoeira fora de uma visão sistêmica. Segundo Mogika (1999), “na pedagogia e na psicologia humanistas o ser humano é entendido como um organismo complexo, no qual são indissociáveis mente, corpo e sociedade, isto é, ele é um ser bio-psico-social” (p. 61). Esta também é uma das principais características da cosmovisão africana: encarar o homem como um ser integral, no qual mente-corpo-espírito-sociedade estão interligados. A Capoeira como prática educativa situa a África na vanguarda do pensamento humanista, muitos séculos à frente da filosofia compartimentalizada ocidental só recentemente voltada ao holismo.

Definindo a Capoeira

Tentar conceituar a Capoeira requer um exercício de imaginação, dada a pluralidade de perspectivas assumidas pelos diversos praticantes e estudiosos do tema.

É na própria diversidade, na capacidade de assumir perspectivas opostas sem que uma anule a outra, que reside a força da Capoeira. Arte marcial, esporte, dança, teatro, folclore, todas essas definições parciais já foram utilizadas na tentativa de conceituá-la. É necessário afirmar essas diferenças como facetas de um todo para compreendê-la como arte que pode e deve se adaptar às diversas contingências históricas e sociais. Mestre Pastinha2, poeticamente chamou-a de “mandinga de escravo em ânsia de liberdade”. Ao afirmarmos que a Capoeira é caracterizada por uma atitude de afirmação da liberdade desde a sua gênese (“mandinga de escravo em ânsia de liberdade”), acreditamos que solidificar conceitos seria restringir essa arte a uma doutrina estanque; “provocar o seu sepultamento, negar sua principal força seria a negação do princípio básico da liberdade” (GALLO, on line). Ou seja, podemos apresentar aspectos da Capoeira, não defini-la.

Aceitando essa premissa iremos, sem assumir reducionismos, priorizar para fins deste trabalho um corte epistemológico que afirme a Capoeira como arte educativa libertária e socialmente comprometida com a mudança.

Autonomia e educação para a liberdade

A prática libertária da Capoeira tem como objetivo favorecer o desenvolvimento da autodisciplina e da autonomia no educando. Não obstante, a vivência dessa filosofia na prática diária não ocorre sem conflitos. Sendo assim, antes de analisarmos as relações de ensino-aprendizagem na Capoeira é fundamental definir como iremos trabalhar os conceitos de autonomia, liberdade, licenciosidade, autoridade, autoritarismo e disciplina.

Liberdade e autonomia

Bakunin defendia a liberdade como:

o direito absoluto de todo homem ou mulher de só procurar na própria consciência e na própria razão as sanções para os seus atos, de determiná-los apenas por sua própria vontade e de (…) serem responsáveis primeiramente perante si mesmos, depois, perante a sociedade (p. 74). Para Mogika, o termo liberdade significa irrestrição; já a autonomia seria

a capacidade de definir suas próprias regras e limites, sem que estes precisem ser impostos por outro: significa que aquele agente é capaz de se autorregular. Logo, na palavra autonomia estão implícitos, simultaneamente, a liberdade relativa do agente (…) e a limitação derivada da relação com o mundo natural e social (MOGIKA , 1999, p. 59). Na roda de Capoeira o jogador não é proibido de fazer o que quer que seja, pois se trata de um jogo sem regras formais; porém a liberdade do indivíduo é contingenciada por acordos tácitos estabelecidos na relação com as liberdades dos demais. Exemplificando: um capoeirista não é proibido de, num acesso de raiva, gratuitamente arrancar os dentes de outro com um chute, mas se o fizer será punido pelo meio social. A decisão e a responsabilidade pelo autocontrole ficam a cargo do indivíduo. É nesse sentido que a prática da Capoeira vai auxiliar na formação da autonomia, posto que, segundo Freire (1996, p. 107), ela se constitui

“na experiência de várias, inúmeras decisões, que vão sendo tomadas” e que “uma pedagogia da autonomia tem de estar centrada em experiências estimuladoras da decisão e da responsabilidade, vale dizer, em experiências respeitosas da liberdade”. É no domínio da decisão, da avaliação, da liberdade, da ruptura, da opção, que se instaura a necessidade da ética e se impõe a responsabilidade (idem, ibidem). Liberdade individual e licenciosidade

Concordo com Neill (1980) nas suas premissas básicas: 1) A liberdade trata dos direitos da pessoa; e 2) a licenciosidade consiste em ultrapassar os direitos alheios.

No exemplo citado, é clara a escolha que o indivíduo tem entre assumir um ou outro extremo; na prática da Capoeira, a capacidade de se disciplinar é o que garante ao jogador o gozo de sua própria liberdade.

Liberdade como valor político

A liberdade individual pregada pela Capoeira só se realiza em comunhão com a liberdade de todos, ou seja, esse conceito só pode ser vivido se estendido a todos. Bakunin (1980) entendia a liberdade de cada um como um valor que, longe de ser delimitado pela liberdade alheia, encontrava nela “sua confirmação e sua extensão ao infinito; a liberdade ilimitada de cada um pela liberdade de todos, a liberdade pela solidariedade, a liberdade na igualdade” (op. cit., p. 41). E ainda:

Não é verdadeiro que a liberdade de um homem seja limitada pela de todos os outros. Só sou livre quando minha personalidade, refletindo-se, como em inúmeros espelhos na consciência de outros homens livres (…), retorna-me reforçada pelo reconhecimento de todos. A liberdade de todos, longe de ser um limite da minha (…), é, ao contrário, sua confirmação, sua realização e sua extensão infinita (idem, p. 33). Portanto, nessa visão não há contradição entre a liberdade individual e conscientização política; pelo contrário, a primeira é condição complementar à segunda. Somente cidadãos autorregulados, autodisciplinados serão capazes de viver em “uma democracia participativa, em que cada pessoa participe ativamente dos destinos políticos de sua comunidade” (GALLO, on line).

Autoridade, autoritarismo e disciplina

A autoridade é uma qualidade que se demonstra pelo exemplo, pelo conhecimento e pelo respeito e empatia com o aluno. Ela não pode ser confundida com o autoritarismo, que se impõe na pressuposição de que o professor “sabe mais” (Capoeira, Biologia, Matemática) e deve ser “respeitado” por isso. Respeitado aqui significa ser ouvido sem contestação alguma por parte do aluno. A autoridade democrática, segundo Freire (1996), não necessita fazer discurso sobre si mesma, pois ela é uma realidade, assim como uma cadeira ou um sentimento.

Freire defendia que a autoridade do professor deve sempre ser acompanhada pela liberdade do aluno; somente dessa forma ela se legitima e oferece as condições para o surgimento da única disciplina que merece ser chamada como tal, a autodisciplina.

Resultado da harmonia ou do equilíbrio entre autoridade e liberdade, a disciplina implica necessariamente o respeito de uma pela outra. (…) O autoritarismo e a licenciosidade são rupturas desse equilíbrio (…), são formas indisciplinadas de comportamento. Assim como inexiste a disciplina no autoritarismo e na licenciosidade, desaparece em ambos, a rigor, autoridade ou liberdade (FREIRE, 1996, p. 89). A Capoeira de rua

A relação mestre-discípulo do período anterior era caracterizada pela liberdade dada ao aprendiz. A imensa maioria dos Capoeiras antigos passou por diversos tipos de ensinamento com diferentes mestres, sempre de forma não sistemática. Era no Mundo (e não na Academia) que se aprendiam os conhecimentos a serem aplicados no Mundo: a malícia, a malandragem, a violência, a arte. A Capoeira “acadêmica” sempre teve como contraparte as práticas livres de capoeiristas free-lancers, autônomos, desvinculados do sistema, que faziam da rua seu meio de expressão. Diferentemente de hoje, quando a maioria dos capoeiristas realiza rodas em seus próprios espaços, até a década de 1960 a norma eram as rodas de rua, feitas em praças públicas, feiras e festas populares. Essas manifestações espontâneas foram diminuindo de frequência nas décadas seguintes.

A Capoeira como capital cultural

Iremos analisar agora como as chamadas “rodas de rua” se caracterizam por espaços educacionais democráticos.

Tomemos como referência a chamada Roda Livre de Caxias, manifestação cultural realizada desde a década de 1970 no município de Duque de Caxias. Veremos como a trajetória da roda se confunde com a de seus fundadores. É a partir de seus exemplos concretos que demonstrarei o potencial transformador da Capoeira.

Rabelo (2005) narra o caminho traçado por esse grupo de jovens criados em áreas desfavoráveis da Baixada Fluminense, que souberam por meio da Capoeira transformar a adversidade em oportunidade.

Não bastasse a discriminação sofrida pela sua cor e classe social por parte da sociedade, esses jovens, por se recusarem a assumir os valores militarizados vigentes na época, eram também marginalizados no próprio meio da Capoeira institucionalizada. Buscaram, então, como alternativa, levar a Capoeira para a rua e dela fizeram a sua escola.

Mestre Cinésio Peçanha “Cobra Mansa”4 (radicado em Washington-DC, EUA), Mestre Rogério Peixoto (radicado em Kassel, Alemanha), e Mestre Jurandir Nascimento (radicado em Seattle – EUA), por meio da Capoeira, saíram da Baixada Fluminense para se tornarem “embaixadores culturais” brasileiros. Seus passaportes estão carimbados pelas dezenas de países por onde passam anualmente ministrando cursos de nossa cultura: Inglaterra, França, Alemanha e Finlândia. Para compreendermos como a Capoeira possibilitou uma educação autônoma para esses mestres, precisamos analisar as condições em que se deu a sua “formação escolar” na roda de rua. Tomaremos como exemplo a prática de seu atual guardião, Mestre (ou “Zelador”) Russo5.

A jornada de um intelectual orgânico brasileiro

Russo afirma em seus discursos públicos: “Só tive oportunidade de estudar até a admissão ao ginásio, os cinco primeiros anos; o resto foi a Capoeira que me fez “correr atrás”. Aprendi a oratória na prática de artista de rua, contando piada para manter o publico entretido ente um salto e outro por dentro de argolas incrustadas com facas”.

Russo é um orador popular; como percebido em seu discurso, a oratória pública foi exercitada inicialmente com o humor. Posteriormente, Russo refinou sua arte utilizando a própria Capoeira para suas reflexões filosóficas.

Durante a execução da roda, não raro interrompe seu andamento e mantém o povo que passa por lá atento às suas observações sobre variados temas. Por exemplo, partindo da discriminação sofrida no meio da Capoeira, Russo utiliza a indução, indo do particular para o genérico, para falar sobre a discriminação em geral, tocando publicamente em temas tabus, como preconceito de classe, cor, gênero, religião.

Após provocar a reflexão no público não capoeirista, Russo faz o caminho inverso: parte do geral para o particular, narrando como a sociedade de controle6 atua de tal forma que o Capoeira passa a reproduzi-la no seu campo individual, sem mesmo perceber a contradição entre a sua prática autoritária e a premissa básica da Capoeira, que é a liberdade.

Sem ter ouvido falar de Focault, Freire ou Gramsci, ele justifica a necessidade de falar em praça pública com o argumento de que “a palavra também é poder”; portanto, o povo pode e deve se utilizar dela. Sua erudição já lhe rendeu um livro publicado (RABELO, 2005) e diversos estudos acadêmicos sobre sua prática.

Howell (2004), a seu respeito, escreveu: “Russo é um “intelectual orgânico” respeitado pela coletividade. Apesar de pobre, já foi à Europa e aos EUA como convidado de honra. Sua formação foi puramente cultural e é um exemplo do potencial sucesso da educação cultural preconizada por Paulo Freire” (p. 21). A prática espontânea da Capoeiragem em espaços públicos e orientada para o povo auxilia na formação de uma consciência crítica em relação à cidadania e no desenvolvimento da autonomia. Mestre Russo é a prova viva disso.

Outro exemplo é a chamada Conexão Carioca de Rodas de Rua, liderada por diversos mestres de Capoeira desde o ano 2010. Esse movimento inclui, em um ambiente de não violência e de respeito mútuo, praticantes de diversas linhas de Capoeira, num processo educativo a que chamo “didática libertária das rodas de rua”.

A didática libertária da roda de rua

A maior parte das rodas de Capoeira leva o nome de quem as comanda, isto é: “Roda do Mestre Fulano ou Mestre Beltrano”. Isso não se dá nas rodas de rua. Em geral, elas se colocam com nomes dos logradouros que ocupam, muitas vezes escolhidos por serem locais representativos da cultura negra: Caxias, Arco do Telles, Cais do Valongo etc.

Em geral, a didática libertária da roda de rua tem como características principais a liberdade de ação igualitária; a descentralização da autoridade; a participação popular; e o internacionalismo, assim:

A liberdade de ação igualitária é a possibilidade de qualquer capoeirista, independentemente de seu grupo de Capoeira, idade, nacionalidade, tempo de serviço, status, posto dentro da Capoeira (mestre, professor, aluno) ou habilidade, se expressar musical, artística ou fisicamente sem receio de ser coagido ou reprimido por conta de sua condição. Na prática da roda isso se expressa no chamado “jogo de compra”, em que o capoeirista adentra a roda no momento em que julga apropriado, sem necessidade de pedir permissão a quem quer que seja. Na maioria das rodas esse procedimento resulta em desordem ou é desencorajado por conta da vaidade dos jogadores mais graduados, que insistem em se exibir um sem-número de vezes, nas rodas de rua não raro um jogo pode levar até vinte minutos sem interrupção. Minha teoria é de que a liberdade oferecida tende a gerar a autodisciplina. A descentralização da autoridade – Apesar da presença constante de diversos mestres na roda, estes não interferem constantemente em seu andamento, tampouco regulam a entrada ou o tempo de jogo dos participantes com a mesma rigidez autoritária que muitas vezes praticam em suas escolas. O controle é feito de forma tácita pela própria coletividade dos capoeiristas. Tende a imperar na rua o respeito pelo outro e, quando há excesso individual por parte de algum dos presentes, os demais zelam pelo bom andamento da roda, dialogando com este ou inibindo-o fisicamente. Acredito que essa falta intencional de uma autoridade central cria um clima de responsabilização coletiva pelo bem comum. “Neste sistema já não há propriamente poder. O poder baseia-se na coletividade, e torna-se a expressão sincera da liberdade de cada um, a realização fiel e séria da vontade de todos” (BAKUNIN, s/d, p. 60). A participação popular – Segundo Mestre Russo, um dos principais objetivos da roda de rua de Caxias é “devolver ao povo o que ao povo pertence: a sua própria cultura”. Ao contrário das rodas organizadas por grupos de Capoeira na rua, nas quais a participação popular costuma se restringir à condição de espectador, as rodas abertas caracterizam-se por serem de rua, ou seja, abertas ao povo, que ali atua de forma ativa. É comum a participação de mendigos, crianças de rua, esfarrapados e loucos lado a lado com capoeiristas profissionais. A liberdade é tão prezada que até mesmo “entidades espirituais” jogam7. O internacionalismo – Caracteriza-se pela afirmação da aceitação da alteridade e, consequentemente, pela negação a qualquer forma de discriminação na roda. A inimaginável cena de finlandeses, ingleses, americanos ou japoneses visitando a Baixada Fluminense é comum todos os domingos, na Praça do Pacificador, em Caxias, ou nas diversas rodas espalhadas pelas ruas do Rio. Esses estrangeiros são aceitos e participam de forma igualitária dentro de uma cultura notadamente brasileira. A Capoeira, sob essa ótica, de certa forma deixa de ser um “bem”, uma “posse” brasileira, e passa a ser uma cultura “brasileiro-universal”, pois essas pessoas são parte integrante do meio. É interessante perceber que, no imaginário popular, desde a fundação do Estado Novo a Capoeira tem sido representada como símbolo da Pátria, mas, paradoxalmente, atualmente tem botado em xeque a noção de identidade nacional, quando se une o enaltecido passado africano ao presente internacionalismo.

Segundo Gallo, a noção de identidade nacional foi concomitante à criação do Estado-nação:

a constituição dos Estados-nações europeus foi um empreendimento político ligado à ascensão e consolidação do capitalismo, sendo, portanto, expressão de um processo de dominação e exploração”; portanto, “é inconcebível que a construção de uma sociedade libertária possa se restringir a uma ou a algumas dessas unidades geopolíticas às quais chamamos países (on line). Ainda a esse respeito, no ideal de Bakunin (1980), seria necessário reduzir

o assim chamado princípio da nacionalidade, princípio ambíguo, cheio de hipocrisias e de armadilhas, princípio de Estado histórico, ambicioso, ao princípio muito maior, muito simples e único legítimo, da liberdade: cada um (…) tem o direito de ser ele próprio, e ninguém tem o direito de impor-lhe seus costumes, sua vestimenta, sua língua, suas opiniões e suas lei; cada um deve ser absolutamente livre em si.< Todas estas ideias estreitas, ridículas, criminosas, de grandeza, de ambição e de glória nacional são boas apenas (…) para enganar os povos e amotiná-los uns contra os outros, para melhor submetê-los (idem, ibidem, p. 57-58). A liberdade e a prosperidade das nações deveria levar à superação das diferenças regionais, “à comunicação entre todos os países, à abolição das fronteiras, dos passaportes e das alfândegas” (idem, ibidem, p. 91).

Ao defender a igualdade entre capoeiristas brasileiros e estrangeiros, a Capoeira supera o nacionalismo e se afirma como elo entre os povos. As rodas de rua são um encontro ecumênico, pluriétnico e multicultural. A didática da rua é a didática da Capoeira libertária, e em sua vivência a democracia se afirma.

Conclusão

As práticas da Capoeira ilustram o modo como se poderia aplicar o conhecimento popular na Educação, em uma concepção libertária e democrática. Porém, para que a autonomia individual se realize em ato político democrático, é necessário que o indivíduo se imbua de responsabilidade social, o que, entre outras coisas, num país como o Brasil significa fazer da ação pedagógica um instrumento de transformação social.

A ação política na Capoeira se caracteriza pela luta social em prol de uma sociedade justa que recuse a discriminação e as desigualdades sociais. Cada sujeito tem responsabilidade pela conscientização dos demais. Por isso é fundamental encarar a formação do sujeito autônomo como condição para a mudança.

Segundo Bakunin (s/d, p. 31), “a liberdade dos indivíduos não é absolutamente um fato individual (…). Nenhum homem pode ser livre fora e sem o concurso de toda a sociedade humana”.

O educador cultural deve estar sempre a favor da mudança, se quiser se fazer merecedor de seu papel. A mudança estimula seu aluno homem-mulher-criança a não se resignar diante dos inúmeros mecanismos de controle da liberdade que nos impedem de viver nossa condição humana em plenitude.

 

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