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SARAU do Quilombo do Leblon

O Centro Cultural Quilombo do Leblon, localizado nas dependências do Clube Campestre da Guanabara – Alto Leblon – RJ, lançará no próximo dia 28 de março às 11hs, o projeto “Sarau do Quilombo do Leblon”, um evento de preservação e divulgação das culturas populares. Em sua primeira edição o tema será a “Viola e o Cordel”.

Teremos a participação de poetas, cantadores e violeiros, além de uma exposição de Cordéis.

O projeto acontecerá sempre no ultimo domingo de cada mês com entrada franca.

Venham participar e não deixem de conhecer o restaurante Café do Alto, um excelente representante da culinária pernambucana.

Até lá.

Leonardo Dib (Boiadeiro)

Capoeira, Pernada & Tiririca na Terra da Garoa

Hoje recebo a confirmação que este grande camarada e parceiro está de viagem marcada para as terras frias do hemisfério norte, com destino a Toronto (Canadá).

Toda a família irá fazer esta jornada em cumplicidade e nosso amigo Miltinho, como grande “paizão” estará acompanhado da companheira Keyla e do filhão Camilo (foto).

Desejamos um ótima estadia e sucesso profissional!!!

Em homenagem a este grande capoeira e amigo escolhemos uma matéria publicada no Jornal do Capoeira escrita pelo próprio Miltinho Astronauta.

Crônica sobre Capoeira, com algumas informações sobre a Pernada de Sorocaba e a Tiririca da capital paulista, ambas uma espécie de “capoeira primitiva” do Estado de São Paulo

Luciano Milani – Fevereiro de 2009

Nota do Editor:

À convite da Tribuna Metropolitana – um jornal quinzenal que circula nas zonas norte e sul da capital – tenho escrito algumas crônicas para uma coluna cujo título é Capoeireiro. O objetivo tem sido o de compartilhar informações e pontos de vistas sobre nossa Capoeira. No mês de Julho de 2005 publicamos uma crônica sob o título “Capoeira, Pernada & Tiririca na Terra da Garoa”. Com o lançamento do Documentário “Pernada em Sorocaba – Ginga Pela Arte…Ginga Pela Sobrevivência”, previsto para ocorrer dia 19 de Novembro de 2005 na Cidade de Sorocaba (SP), achei por bem republicar tal crônica também em nosso Jornal. É o que faço agora.

Capoeiristicamente,

Miltinho Astronauta


CAPOEIREIRO

Capoeira, Pernada & Tiririca na Terra da Garoa
Por Miltinho Astronauta – Julho/2005

Nota da Tribuna Metropolitana

Foi com imensa satisfação que inauguramos esta coluna Capoeireiro. Percebemos que amantes da prática da Capoeira – seja enquanto cultura, seja como esporte ou educação – já estão até colecionando nossas edições quinzenais. A seguir, respondemos algumas questões enviadas à nossa Redação: 1) nosso colunista desenvolve um trabalho de pesquisa do fenômeno da Capoeira em nosso Estado (Interior, Capital e Vale do Paraíba); 2) existe um projeto em andamento para cadastrar os mestres e capoeiras – dos mais antigos aos jovens mestres – das diversas regiões da Capital: Zona Oeste, Zona Leste, Zona Norte, Zona Sul e Centro; 3) interessados em colaborar com este projeto (Coletânea da Capoeira em São Paulo) podem escrever para nossa Redação, ou então enviar e-mail para o nosso Colunista. Como se diz na Capoeira, “vamos dar a Volta ao Mundo, Câmara…”.

Outro dia, recebi uma carta eletrônica (e-mail) muito elogiosa sobre as duas primeiras edições de nossa recém-inaugurada coluna CAPOEIREIRO. Lá pelas tantas, nosso interlocutor perguntou: “Existiu, realmente, Capoeira em São Paulo antes da chegada dos baianos e cariocas na década dos 60?”. De pronto lembrei-me de um corrido do Contra-mestre Pernalonga (Márcio Lourenço de Araújo), que hoje ensina em Bremen, Alemanha. “O meu barco virou / lá no fundo do mar / Se eu não fosse angoleiro / Eu não saia de lá”. Foi exatamente assim que me senti. Ou seja, se não estivesse amparado por documentos, lá estava levando minha rasteira.

De pronto, resolvi então trazer à público uma abordagem interessante que fiz sobre uma forma de “Capoeira a Lá Paulista”. Confesso, estava guardando o texto que ora apresento para um livro que estou escrevendo sobre a Capoeira de São Paulo. Mas para não deixar de “entrar na chamada” de nosso amigo Leitor, vamos então ao fio da meada.

1. CAPOEIRA GANHA O MUNDO

Hoje percebemos que o mundo todo se entregou aos encantos de nossa Capoeira. Ousaria dizer que nenhum esporte e/ou prática cultural levou tanto de um povo à outras nações como é o caso de nossa Capoeira.

Por exemplo, aqui no Brasil, praticamos o Box, o Judô e o Caratê, mas ninguém fala o inglês ou o japonês por conta disso. Dança-se o Balé e o Tango, mas não existem motivos para se especializar em Francês ou Espanhol.

Mas com a Capoeira é diferente. Por conta dela o português falado no Brasil tem sido falado em mais de 150 Paises. É isto mesmo! Segundo a Federação Internacional de Capoeira (FICA), presidida pelo Prof. Dr. Sérgio Vieira, nossa Capoeira já caminha para a segunda centena de paises onde a prática já faz parte do “cardápio” anual de eventos culturais e desportivos.

É até compreensível nosso português sendo falado neste “mundão de Deus”, uma vez que seria muito superficial praticar a Capoeira sem, por exemplo, compreender o real sentido de uma Ladainha, de um Corrido ou de uma Chula.

Ao mesmo tempo em que percebemos nossa Capoeira expandindo-se, dando sua magistral “Volta ao Mundo”, observa-se que mais e mais os praticantes (nacionais e principalmente do estrangeiro) estão buscando conhecer a verdadeira – e mais completa quanto possível – história da Capoeiragem.

2. CAPOEIRA, FOLCLORE & DINÂMICA

Prosa e SambaÉ fato que a Capoeira praticada em nosso Estado de São Paulo é fruto de um trabalho de resistência e divulgação realizado por mestres baianos e cariocas, vindos para cá a partir da década dos 50. Embora, sendo justo registrar que a grande maioria chegou entre meados dos 60 e início dos anos 70.

Em nossa Crônica Inaugural apresentamos o depoimento em livro do Folclorista Alceu Maynard Araújo (1967) atestando que levas de capoeiras foram soltas nas pontas dos trilhos (na cidade de Botucatu, entre 1890 e 1920, supostamente). Pelo depoimento, podemos inferir que Capoeiras (vindos da Capoeira Carioca) já perambulavam por nosso Estado, no final do século XIX e início do século XX.

Por falar em Capoeira Carioca, todo bom estudioso da cultura popular sabe que as manifestações raramente ocorrem em regiões de forma isolada geográfica e temporalmente. Tanto é que Mestre Edison Carneiro (excelente folclorista!) fez questão de deixar bem claro no título de um de seus livros (Dinâmica do Folclore), que tudo acontece dinamicamente. Em alguns casos manifestações se fundem, resultando em novas manifestações. Por exemplo, com a proibição da Capoeira em Pernambuco, aliado a questões político-social da época, resultou-se nosso Frevo! O bom capoeira sabe perceber que a “malícia” do bom “frevista” está ligado à ginga de um bom Capoeira. E é isto que eram no passado: capoeiras. No Rio de Janeiro, a perseguição à capoeiragem (que, funcional e socialmente não é o mesmo que capoeira) resultou na Pernada Carioca. Digamos que era a Capoeira que não se chamava Capoeira, mas que tinha a eficiência da mesma, tanto enquanto luta, como também como lazer.

3. PERNADA, TIRIRICA & CAPOEIRA PAULISTA

Em São Paulo também tivemos nossa “Capoeira primitiva”. Recentemente o historiador Carlos Carvalho Cavalheiro e o capoeira-pesquisador Joelson Ferreira têm se dedicado a estudar a Pernada de Sorocaba (interior paulista). Na essência, essa forma de manifestação tem todos os ingredientes básicos de nossa Capoeira: cantos (corridos e desafios); negaças; golpes desequilibrastes (rasteira!) etc. Em breve teremos um excelente documentário sobre o assunto. Aguardem.

Além da Pernada de Sorocaba, na Capital Paulista, tivemos também uma outra “espécie de capoeira”: a TIRIRICA. Aparentemente, tudo indica que, com a repressão de algumas manifestações (ai inclui-se a Capoeira, o Batuque e até mesmo a Religião Candomblé), o povo era obrigado a mascarar suas práticas, mudando formas de execução e nome de tais práticas.

A Tiririca Paulista era um misto de Capoeira com Samba. Era, então, uma capoeira com ritmo (diferente da Capoeira Utilitária do Paulista-Carioca Mestre Sinhozinho – Agenor Sampaio), mas sem a presença do Berimbau. Tinha canto de pergunta e resposta, e “jogava-se” ou “lutava-se ludicamente” em Roda.

Sobre esta “espécie de capoeira” (assim se referiam a ela os “mais antigos” da Terra da Garoa) temos alguns depoimentos relevantes gravados no Centro de Estudos Rurais (CERU) e Museu da Imagem e Som (MIS), ambos da Universidade de São Paulo (USP). Em São Paulo podemos encontrar ainda alguns praticantes remanescentes ou contemporâneos de praticantes, que acompanharam a TIRIRICA em seu auge (décadas dos 30 aos 50). Para dar uma dica, para quem estiver interessado em saber sobre a Tiririca, os bons nomes são Oswaldinho da Cuíca, Toniquinho Batuqueiro e Seu Nenê da Vila Matilde.

O Próprio Mestre Ananias – renomado mestre da capoeira angola baiana – que chegou pela capital entre 1950 e 1960, vivenciou alguns momentos da Tiririca pelas bandas do Brás; Largo da Banana, ou mesmo pelas Praças da Sé e da República (reduto de muitos sambistas, tiririqueiros e capoeiras). Mestre Ananias é grande conhecedor de Samba de Raiz e de Capoeira. Eu arriscaria dizer que uma das cantigas que só ouvi mestre Ananias cantando (É tumba, menino é tumba…) pode ter sido “colhida” durante sua vivência com alguns praticantes da Tiririca. Faço tal suposição baseado em um documentário de Mestre Geraldo Filme (também cantador de Samba, e que conviveu com exímios jogadores de Tiririca), que em depoimento para o MIS, lá pelas tantas, soltou a letra da música que comento acima:

 

“É tumba, menino é tumba

É tumba pra derrubá

Tiririca faca de ponta

Capoeira quer me pega

Dona Rita do Tabulêro

Quem derrubou meu companheiro

Abra a roda minha gente

Que o Batuque é diferente

(coro)

Abra a roda minha gente

Que o Batuque é diferente”

Será que a origem é a mesma (Rodas de Tiririca)?


Miltinho Astronauta dedica-se, de forma independente, ao projeto “Coletânea da Capoeira em São Paulo”. O projeto conta com a colaboração de alguns pesquisadores, dentre eles Raphael Pereira Moreno e Carlos Carvalho Cavalheiro. Para obter mais informações, acesse o Jornal do Capoeira (on line) www.capoeira.jex.com.br ou escreva para [email protected] A foto de Mestre Ananias é de Autoria de Adilene Cavalheiro.

Jornal do Capoeira – www.capoeira.jex.com.br

 

Um Menino de 92 Anos

No último dia 27 de Dezembro um menino ficou mais velho. Esse menino que ainda insiste em se balançar quando ouve um pandeiro ou um berimbau, seja no passo miudinho do samba que aprendeu lá no Recôncavo, ou seja na ginga malandra que aprendeu com seu Pastinha, acabou de completar 92 anos.

João Pereira dos Santos é o nome que recebeu por batismo. João Pequeno de Pastinha é o nome pelo qual é conhecido nos quatro cantos do mundo. Esse menino não é fácil mesmo não. Teimoso como ninguém, ainda insiste em jogar capoeira com a mesma malícia de sempre, enchendo os olhos de quem tem o privilégio de compartilhar esses momentos mágicos junto a ele.

O mestre João Pequeno nasceu no município de Araci, no semi-árido baiano, mas ainda menino mudou-se com a família para Mata de São João, no Recôncavo, lugar sagrado de muitas histórias e façanhas de memoráveis capoeiras. Foi lá que o menino João teve o primeiro contato com a capoeira, através de Juvêncio, que era companheiro do lendário Besouro Mangangá, segundo nos conta o próprio João Pequeno. Em Mata de São João ele foi vaqueiro, agricultor e carvoeiro. Há alguns anos, quando fomos acompanhá-lo a uma visita a Mata de S. João, ainda ouvíamos pelas ruas algumas pessoas cumprimentá-lo, chamando-o pelo apelido pelo qual era conhecido na época: João Carvão.

Mais tarde, mudou-se para Salvador onde trabalhou durante um bom tempo como ajudante de pedreiro. Costumava vadiar em algumas rodas conhecidas da cidade como a do Chame-Chame, organizada por Cobrinha Verde ou a do Largo Dois de Julho. E foi numa dessas vadiagens pelo Largo Dois de Julho que João teve o encontro que marcou a sua vida: conheceu Vicente Ferreira Pastinha, o mestre Pastinha.

João nos conta que nesse dia, Pastinha convidou-o para participar da roda organizada por ele, que ficava no local conhecido por “Bigode”. Na semana seguinte lá estava João no “Bigode” e dali pra frente, nunca mais deixou a companhia do “seu” Pastinha, como João até hoje se refere ao seu mestre. Tornou-se então o principal trenel do Centro Esportivo de Capoeira Angola, o CECA, que depois passou a funcionar na Gengibirra e posteriormente mudou-se para o Pelourinho.

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Histórias do Recôncavo

O Recôncavo Baiano é mesmo uma região muito particular. É como se lá o tempo tivesse parado. A modernização, o progresso desenfreado, trânsito engarrafado, violência urbana, vizinhos que não se conhecem… essas coisas tão comuns na nossa vida cotidiana, lá no Recôncavo têm outra dimensão.

As pessoas têm mais tempo para as coisas, a vida é mais simples, todos se conhecem e se ajudam, há mais cooperação, solidariedade, alegria. Você ainda vê pelas ruas carroças puxadas por jegues, senhores bem vestidos com chapéu na cabeça, feiras livres onde tudo se compra, se vende, ou se troca, senhoras sentadas conversando na porta de casa enquanto crianças brincam no meio da rua…Lá o tempo passa mais devagar.

Muitos moradores juram de pé junto que a capoeira nasceu no Recôncavo. Talvez tenha nascido mesmo, como nasceu em outras partes do Brasil também, mas isso não importa pois a capoeira não tem certidão de nascimento ! O que importa é o significado que essa manifestação da cultura afro-brasileira possui para todos nós que aprendemos a amá-la e respeitá-la.

Muitos capoeiristas famosos vieram de lá, disso não tenham dúvida: Cobrinha Verde, Traira, Najé, Siri de Mangue, Neco Canário Pardo, Noca de Jacó, Gato, Atenilo, Santugri, entre tantos outros, sem falar no mais famoso de todos, o lendário Besouro Mangangá, que até bem pouco tempo não se sabia se ele tinha realmente existido, fato que foi comprovado recentemente, com a descoberta de alguns documentos que citam seu nome e seus feitos.

Há muito mistério também no Recôncavo. Muitas histórias envolvendo magia, quebrantos, patuás, corpo fechado, rezas de proteção, pessoas que se transformam em bicho ou planta. Tudo isso faz parte desse universo mítico-religioso de origem afro-brasileira que possui uma ligação muito forte com a capoeira. Não dá para compreender a capoeira de forma mais profunda, sem aprender a respeitar esse universo.

Durante as gravações do documentário “Memórias do Recôncavo: Besouro e outros capoeiras” que produzimos recentemente, tivemos a oportunidade de conviver com muitos desses personagens e muitas dessas histórias. Como por exemplo seu Aurélio, 96 anos, morador de Iguape, uma pequena cidade remanescente de um quilombo, localizada no coração do Recôncavo. Durante o seu depoimento na beira do rio, seu Aurélio se mostrou resistente em responder algumas perguntas que eu fazia, sobretudo aquelas relacionadas ao mistério que envolvia a capoeira.

Mas por sorte, eu sou daqueles admiradores de um botequim e de uma boa cachaça e quando terminamos a gravação naquele dia, a equipe de produção foi toda descansar numa pousada na cidade, enquanto eu e o cinegrafista, meu amigo Alexandre Basso – também um admirador do “espírito forte”, como a cachaça é conhecida entre os mais antigos – resolvemos ir beber a saideira justamente no bar do seu Aurélio. Já era noite e à medida que íamos nos aprofundando nas infusões de cachaça com ervas que seu Aurélio nos oferecia, a conversa foi ficando mais solta. E num dado momento, seu Aurélio nos chamou para o fundo do bar. Alexandre, muito atento, ligou a câmera e atendemos ao chamado do velho mandingueiro. Num ambiente de penumbra, somente com a fraca luz de um lampião, seu Aurélio nos revelou alguns segredos muito íntimos, mostrou-nos seu patuá, explicou-nos como fazia para “fechar” o corpo e nos revelou algumas orações de proteção que ele utilizava. Foi um dos momentos mais fortes que vivenciamos durante o longo período de pesquisa e gravação desse documentário.

Mas é assim mesmo: os mestres e velhos guardiões da cultura popular, não entregam os seus segredos assim, facilmente e a qualquer um. Eles é que decidem o que, quando, como e a quem vão revelar. E a nós, cabe ter a paciência, o respeito e a sabedoria de esperar a hora e a ocasião certa de recebermos esses ensinamentos. Essa é mais uma lição que a capoeira nos ensina

 

Pedro Abib (Pedrão de João Pequeno) é professor da Universidade Federal da Bahia, músico e capoeirista, formado pelo mestre João Pequeno de Pastinha. Publicou os livros “Capoeira Angola, Cultura Popular e o Jogo dos Saberes na Roda”(2005) e “Mestres e Capoeiras Famosos da Bahia”(2009). Realizou os documentários “O Velho Capoeirista” (1999) e “Memórias do Recôncavo: Besouro e outros Capoeiras” (2008).


Coluna: “Crônicas da Capoeiragem” por Pedro Abib

Mais um envolvente texto da Coluna Crônicas da Capoeiragem, sob a tutela do nosso grande camarada e parceiro, Pedro Abib, que de modo ímpar nos descreve os causos e histórias do Recôncavo Baiano e seus “Personagens” as vezes quase lendários… Pedrão, como prefere ser chamado nos leva de modo solto e intuitivo ao universo da capoeiragem com uma narrativa simples e repleta de mandigagem…

Luciano Milhoni*

* (Pedrão em referência a um tipo/marca de cachaça e fazendo analogia ao grande camarada Plínio – Angoleiro Sim Sinhô, que em sua envolvente e alegre presença sempre brincava com o termo “teimando” em chamar-me pelo nome da cachaça, pela qual ambos, Pedrão e Plínio tem imenso apreço, apesar de eu ser um eterno abstêmio.)

O Surpreendente João Pequeno

O mestre João Pequeno de Pastinha é mesmo uma figura fantástica, é um desses representantes da nossa cultura popular que merece ser imortalizado na galeria dos grandes personagens do povo brasileiro.

Faz história na capoeira, pois do alto de seus 91 anos de idade, ainda comanda as rodas em sua academia lá no Forte Santo Antonio (atualmente denominado “Forte da Capoeira”, mas eu prefiro o nome antigo), em Salvador. Quem não conhece João pode até duvidar, mas esse ancião quase centenário ainda joga sua capoeira angola, com toda astúcia que Deus lhe deu e a mandinga que Pastinha lhe ensinou. E ai de quem descuidar !!! A cabeçada certeira de João continua fazendo vítimas até mesmo entre os mais hábeis angoleiros !

Nesses quinze anos de convivência com João Pequeno, tenho aprendido as lições mais profundas de humanidade. Esse homem de poucas palavras, mas de muita inspiração, está sempre a nos ensinar, de várias formas, jeitos e maneiras, até mesmo quando está calado. Quem tem luz própria não precisa dizer mesmo muita coisa. Aí vai uma dica pra muitos mestres da atualidade que falam, falam, falam….

Numa certa feita, estávamos acompanhando João numa gravação de uma matéria para a televisão em Salvador, em que o objetivo era mostrar o processo de retirada da biriba (madeira própria para a construção do berimbau) na mata. Nos deslocamos junto com a equipe de filmagem até Mata de São João, no Recôncavo Baiano, local onde João Pequeno passou boa parte de sua juventude. Ele conhecia tudo por lá e foi nos guiando pelos caminhos abertos na mata virgem, até encontrarmos a biriba. A equipe da televisão gravou todo o processo de corte da madeira, entrevistou João, fez belas imagens e se despediu de nós para voltar a Salvador.

Estávamos nos preparando para voltar também, pois fomos num carro separado da equipe da TV, quando João nos perguntou: “Pra onde é que vocês vão ???”.  “Ora mestre, pra Salvador, vamos voltar, a gravação já terminou !!!”, respondi eu, já abrindo a porta do carro para que ele entrasse. Ele então, com toda naturalidade disse: “Não, não…nós num viemo aqui pra apanhá biriba ??? Então vamo apanhá !!!”, e foi se embrenhando novamente no mato, decidido. Não nos restou outra alternativa, senão acompanhá-lo.

Era um fim de tarde, acompanhamos João mata adentro. Começava a escurecer. Já estávamos nos preocupando quando ele nos disse: “Vamos dormir por aqui hoje e pegar as biribas amanhã, logo cedo…eu lembro de uma casa de farinha abandonada que tem aí pra dentro – apontando para o meio do mato cerrado – a gente pousa lá e amanhã vai pegar mais biriba”, disse sem se deter na caminhada.

Andamos um bom tempo pelo meio da mata fechada, abrindo caminho no facão, já com pouca luz e bastante apreensivos com a possibilidade de João não encontrar a tal casa de farinha. Já estávamos duvidando que um homem de oitenta e poucos anos, que não voltava para esse local há pelo menos uma década, pudesse encontrar essa tal casa no meio da mata atlântica. Mas para o nosso alívio, com apenas a luminosidade da lua, João encontrou o local ! Dormimos no chão da casa de farinha, nessa noite enluarada ouvindo histórias desse homem fantástico e surpreendente. No dia seguinte, logo cedo, estávamos no mato a apanhar biriba. Afinal, não foi pra isso que fomos pra lá ???

Pedro Abib (Pedrão de João Pequeno) é professor da Universidade Federal da Bahia, músico e capoeirista, formado pelo mestre João Pequeno de Pastinha. Publicou os livros “Capoeira Angola, Cultura Popular e o Jogo dos Saberes na Roda”(2005) e “Mestres e Capoeiras Famosos da Bahia”(2009). Realizou os documentários “O Velho Capoeirista” (1999) e “Memórias do Recôncavo: Besouro e outros Capoeiras” (2008).


Coluna: “Crônicas da Capoeiragem” por Pedro Abib

Mais um envolvente texto da Coluna Crônicas da Capoeiragem, sob a tutela do nosso grande camarada e parceiro, Pedro Abib, enfocando histórias, casos, experiências, opiniões, críticas, enfim, um texto de uma lauda sobre o universo da capoeiragem.

VII ANO DO 1° BLOCO DE CAPOEIRA DO MUNDO

BLOCO DO BERIMBAU

Carnaval em Pernambuco… Carnaval em Recife… Carnaval em Olinda…

Como nossas tradições bem pedem, estamos na folia… Folia do Rei Momo, do Galo da Madrugada, dos Quatro Cantos…!

É das velhas raízes, das bandas de músicas, dos passistas em meio ao frevo rasgado e dos nossos capoeiras que vem o Bloco do Berimbau – Primeiro Bloco de Capoeira do Mundo – fundado em maio de 2002 pelo então Mestre Ulisses Cangaia (Grupo Lua de São Jorge). Inicialmente, o Bloco tinha como objetivo principal a culminância das ações sociais do Grupo Lua de São Jorge, mas tomou uma proporção cultural significativa, quando, de sua manifestação de maior essência – a capoeira, os capoeiristas juntaram-se, outros grupos passaram a somar energias, lá estava o Bloco emancipando a nossa arte!

Mantendo uma tradição singular, o Bloco vem desfilando e anunciando a festa da capoeira, berimbaus entoando O SEU LOUVOR pelas ladeiras da Salve, Capoeira Olinda!

O bloco nasceu para fortalecer e difundir a capoeira, assim como aproximar as culturas presentes no âmbito carnavalesco. Colocando pelo 7° ano nas ruas de Olinda uma capoeira de paz, de união, de berimbaus ao alto anunciando a chegada dos capoeiras – mestres entre os foliões – sai em todo domingo de carnaval o Bloco do Berimbau… Sua concentração, na Igreja do Rosário dos Homens Pretos (em Olinda), às 9 hs, marca o início de um percurso que vem sendo histórico, que passou a incluir obrigatoriamente a agenda cultural da nossa OLINDA!

Ritmos são tocados, rodas são formadas e lá vem o estandarte anunciando: SALVE O BLOCO DO BERIMBAU…!!!!

O MESTRE ULISSES CANGAIA – MESTRE DE CAPOEIRA, MÚSICO, RABEQUEIRO E POETA – VEM TRAZENDO, JUNTAMENTE COM O BLOCO DO BERIMBAU, UM TRABALHO DE POLARIZAÇÃO DA CAPOEIRA ENQUANTO INSTRUMENTO DE CONSTRUÇÃO SOCIAL

"ESTE ANO O BLOCO DO BERIMBAU VESTE SUA CAMISA EM COMEMORAÇÃO AOS 50 ANOS DO MESTRE JUAREZ", UM GRANDE COLABORADOR DA NOSSA ARTE E UM DOS FUNDADORES DO BLOCO!

Maiores informações: Mestre Ulisses Cangaia

Contato: (081) 9165.4938 / 8701 – 2413 / 34386978

E-mail: [email protected]

Capoeirista Borracha pede mais apoio do poder público

O capoeirista piauiense Rômulo Wagner Trindade Marques, o "Borracha", 32 anos, começou na capoeira em 1979 e de lá para cá tem praticado essa arte e forma de cultura divulgado a capoeira Brasil afora. Rômulo esteve na redação do 45Graus onde falou sobre a falta de apoio do poder público para com a capoeira. "Tudo o que é em prol da capoeira recebe o meu apoio, mas é preciso que seja muito bem feito e eu não estou vendo o apoio do poder público para a capoeira local e para mim enquanto capoeirista", comenta.

Borracha está com um projeto para a abertura de um Centro de Formação de Capoeira Zumbimba em Teresina com o objetivo de formar capoeiristas. "O centro deve atuar diariamente na formação dos capoeiristas e para isso precisamos do apoio do poder público", disse.

Borracha segue para a Europa no dia 12 de dezembro para participar dos Jogos Europeus e espera contar com a ajuda do governo do Estado, Prefeitura e secretarias de Esporte Municipal e Estadual para concretizar sua viagem. "Estarei viajando para representar o Piauí através da capoeira lá fora e espeto ter o apoio necessário das autoridades piauienses", comenta.

O capoeirista diz que um apaixonado pela arte e a ginga presente na capoeira "Nossa meta é sempre a capoeira, tudo o que faço, só penso em capoeira, luto por ela e pela Filosofia do mestre Camisa, um dos grandes mestres da capoeira", finaliza.

Fonte:  http://45graus.com.br

Mestre Russo & O ZELADOR

No próximo dia 25 de setembro(quinta feira) as 19 horas será exibido no TEATRO RAUL CORTEZ (Praça do Pacificador-Centro de Duque de Caxias-RJ) o longa metragem O ZELADOR. Este documentário conta um pouco da trajetória de mestre Russo como uma das figuras mais importantes da tradicional roda de capoeira que já acontece desde 1973 no centro de Caxias.

Mestre Russo: "a valorização atual da capoeira está ligada ao fato de ela estar fazendo sucesso no exterior. “É como aconteceu com o samba, que ganhou força ao ir para fora. O reconhecimento lá fora faz o reconhecimento aqui dentro”, diz. Ele próprio foi destaque no jornal inglês The Times no último dia 5 de julho, por causa do filme O Zelador, produzido por ingleses, sobre ele e sua tradicional roda de rua em Duque de Caxias, RJ. “Lá fora ninguém me pede documento”, garante o mestre, que viaja no mínimo duas vezes por ano para o exterior, “fazendo turnezinhas”.

{youtube}feB6J_JBhsA{/youtube}
Pequeno depoimento sobre a capoeira como Patrimonio Imaterial

 

O ZELADOR ( Para ver o trailer do Filme, clique aqui )

O Zelador was filmed in an extremely under-privileged suburb of Rio de Janeiro (Baixada Fluminense). In 1971-1976 the United Nations made a study of trouble spots worldwide …their conclusion was that Belford Roxo in Baixada Fluminense was the most violent place on earth. Even today the homicide investigation rate is only 1.3%. Mestre Russo grew up in this environment. He is a 50 year-old Carioca (man from Rio) who has led a capoeira existence for close to 40 years. At the age of 11, fatherless and from a family of 9 brothers he gave himself to capoeira.

Russo used this capoeira culture as an instrument for education and survival. He met his wife Eliane and has 2 sons.

“…capoeira…it is his mission in life…” remarked his 11 year-old son.

Mestre Russo not only uses the capoeira culture as a didactic for himself, but has integrated this powerful culture into his family totally. Russo is a ‘zelador’ (caretaker) of culture.

The manifestation of this cultural devotion can be seen in a place called Caxias, where every Sunday for 33 years Mestre Russo has met with other capoeiristas to play, sing dance and fight in the street.

Mestre Russo has defended the integrity of this roda many times, enduring many forms of discrimination and has even been stabbed. The significance of the traditional Roda de Caxias is that it was juxtaposed directly against the political turmoil of the 70s and 80s in Brazil. The street capoeira environment was a form of cultural expression that was eyed with great suspicion by the right wing military hard liners who ran the country with a rod of steel. The Roda de Caxias survived this repression and is now one of, if not, THE most traditional street rodas in Brazil today.

Mestre Russo is an organic academic and poet. He strives to share his knowledge and love equally with his family and a group of young men from his region, who, like him, endure tremendous hardships and danger. These young men form the core of his group, or his extended family as he calls it. This part of his work started in 1996 and has given hope and joy to all associated with it.

This film O ZELADOR is a record of his life. How, as a youth, he discovered the value of his ancestral culture and recognized its power. He and his students continue with the development of capoeira and provide a link to a culture that has existed for many years within this impoverished region of Rio de Janeiro. The film is a social document of one man and his family living with the unique culture of Afro-Brazilian capoiera and charts its significance within the political and cultural history of Brazil. It is the story of a man who has gained the love and respect from students and contemporaries alike, who all owe so much to this remarkable person, teacher, father and a true master.

Genre Documentary

Running time Approx 84 minutes

Format DV Cam / Super 8

Language Brazilian Portuguese (English Subtitles)

Production Company Bantam Films

O Zelador is an independently funded production

Capoeira, prostitutas e ronaldinhos

Nesta matéria retirada do conceituado Jornal O Estado de São Paulo, Mônica Manir, faz uma dura critica a atual situação de rispidez” e o “espiríto da xenofobia e intolerância” que reina entre o Brasil e a Espanha. A jornalista ainda faz uma analogia ao estereótipo cultural brasileiro, produto de exporação e coloca a Capoeira junto com a MPB como nossa principal diplomata.

Leiam o texto e reflitam…

Luciano Milani

Para estudiosa da xenofobia, a imagem do País lá fora pode influenciar decisões na alfândega

Mônica Manir – O Estado de S.Paulo

SÃO PAULO – A professora da Unesp Dalva Aleixo Dias morou na Espanha de dezembro de 1996 a agosto de 1999. Foi fazer doutorado em ciências da informação, cujo foco era “imprensa e imigrantes, a questão da xenofobia e do racismo”. Confirmou o que supunha: muitos jornais associavam manchetes negativas ao imigrante, ainda que o imigrante estivesse apenas fazendo uma ingênua festa de aniversário na sua comunidade. Por uma ingenuidade, Dalba, como era oficialmente chamada, quase foi extraditada depois de uma resposta atravessada a um funcionário da estrangería, que desabafou: “Não preciso de documento algum seu, só quero que vocês todos voltem para o seu país”.

Conseguiu ficar até o final dos estudos. Conseguiu, inclusive, fazer amigos na Espanha. A lição que aprendeu é que a cultura da xenofobia contamina o institucional, principalmente em tempos de desemprego e de eleição no país de destino. Ainda que se cumpram as regras para passar pela fronteira, sobrevive uma imagem petrificada, que pode contaminar o futuro do imigrante. No caso do Brasil, a prostituição, o mundo do entretenimento e o futebol ainda compõem a moldura do nosso espelho. Que, aparentemente, deu uma trincada. Dalva reclama que só conhece acordos feitos para proteger o país de destino. “Tirando o dos exilados, não sei de um tratado que se preocupe com os imigrantes.”

A Espanha barrou a entrada de aproximadamente 950 brasileiros em pouco mais de dois meses, quase um terço do total de deportados ao longo de todo o ano passado. Há uma perseguição espanhola contra os brasileiros?

Existe uma lista de documentos que precisa ser preenchida quando se viaja para um determinado país. Ela deve ser cumprida, daqui para lá e vice-versa. A triagem, aliás, deveria ser feita no próprio consulado. Melhor do que deixá-la na mão de um funcionário da alfândega, que tem poder de polícia e pode barrar um imigrante durante 27 horas até a entrevista ou mesmo chamá-lo de cachorro (filhote) ou perro (cachorro). Muitas vezes esse funcionário não conhece a cultura do estrangeiro e baseia o aval ou a deportação numa visão preconceituosa.

Qual é a imagem dos brasileiros na Espanha?

Não somos vistos como latino-americanos, e sim como uma mescla de indígenas com africanos, junção de homem selvagem com homem irracional. Lembro de um documentário espanhol sobre o Brasil em que se lia a carta de Pero Vaz de Caminha com mulatas de fio dental ao fundo. Esse é o estereótipo. Quando vêem que alguns de nós têm traços que fogem ao padrão, recorrem a nossa ascendência para nos enquadrar como europeus. Vale a lei do sangue. Dizem: “Você não é mulata nem dança samba, então não é brasileira”. Mostrar que temos várias identidades, que as mulheres brasileiras podem, por exemplo, fazer faculdade, mestrado, doutorado parece inconcebível.

Contribui para esse estereótipo o fato de as brasileiras serem prostitutas muito requisitadas lá?

Sim, elas são as prostitutas mais bem-sucedidas. Recebem cerca de 20 salários mínimos por mês. Conheci cubanas que se faziam passar por brasileiras para conseguir mais clientes. A maioria já era prostituta no Brasil, algumas delas com filhos e muitas delas migrantes internas. Saem do Nordeste, do Norte e do Centro-Oeste em direção ao Rio e São Paulo atrás de um lugar para ganhar o pão. Quando requisitadas para trabalhar na Europa, vão contratadas legalmente como dançarinas. Trabalham de março a dezembro, das 22h às 5h, na sala de fiestas, onde fazem shows seguidos de programas. Ganham bem, mas à custa de uma vida socialmente clandestina.

Elas não são donas de seus passaportes?

Não. O passaporte é retido pelo proprietário da boate, para quem elas já partem daqui devendo o dinheiro da passagem. Vivem sob vigilância cerrada. Até mesmo o taxista que as leva para o apartamento onde moram é contratado pelo dono da sala. As prostitutas não saem por nada, não convivem com a comunidade, compras de supermercado chegam até elas. Passam o dia assistindo à televisão, onde a imagem que se vê do Brasil é das piores.

Saem enganadas daqui?

O jogo para elas é claro. E as condições ruins nas quais sempre viveram as mantêm, de certa forma, conformadas com a nova situação. Mas acalentam o sonho de comprar uma casa para a família que ficou no Brasil e de casar com um europeu que aceite seu filho.

Há muitos garotos de programa também?

Sim, embora eu saiba de mais garotos de programa em Portugal. São contratados como animadores de festas na Espanha. Vi muitos com 18, 20 anos. As prostitutas têm entre 21 e 32 anos, média de idade dos jogadores de futebol.

As brasileiras que seguem os jogadores na Espanha acentuam esse rótulo de “mulheres fáceis”?

Eu diria que é o contrário: as espanholas é que ficam doidas pelos jogadores brasileiros. O que acontece é que muitos desses jogadores também passam a imagem de escravos. Em geral ganham mais do que ganhavam no Brasil, mas sofrem uma pressão terrível – desde o processo de contratação, quando a imprensa noticia que um clube está oferecendo certa quantia, mas o outro pode cobrir a oferta milionária. Ao chegar, precisam mostrar forma física impecável e corresponder de imediato ao investimento. Como as prostitutas, também ficam isolados, concentrados, longe de sua cultura, de sua comida, da mãe e do pai. A gaiola parece de ouro, mas é uma gaiola.

Como vive o grande número de músicos que migra para a Espanha?

A MPB entrou no circuito do jazz, da elite. O samba é sinônimo de alegria, de liberação. A música é a nossa maior diplomata, ao lado da capoeira. Muita gente aprende o português só para jogar com os capoeiristas. A capoeira se expandiu na modalidade angolana e numa mais rápida, que envolve saltos mortais, lembrando o circo chinês. Os capoeiristas se apresentam em hotéis de luxo com maculelê, tudo bem bonito, mas depois fazem uma performance com danças tribais africanas. Estamos literalmente ligados à África, de novo. Vale lembrar que esses capoeiristas, quando se machucam, não têm apoio nenhum do governo nem de quem os contratou.

A Comissão Européia estuda um pacote de leis para penalizar quem emprega imigrantes ilegais até com a prisão. A senhora acredita que ela levará isso adiante?

A clandestinidade não interessa a ninguém, a não ser àqueles que se beneficiam da mão-de-obra barata. Se estão dispostos a legalizar os imigrantes, parabéns! A Europa precisa de trabalhadores estrangeiros para crescer, seja na agricultura, nos trabalhos ditos domésticos, na pesquisa científica. Há lista de espera de mais de seis meses na Espanha para contratar um pedreiro. Falta mecânico, encanador, empregadas domésticas, babás, até enfermeiras. Se legalizadas, essas pessoas passariam com dignidade pelas fronteiras, diminuiria o preconceito social. Elas poderiam dizer: eu contribuo, no mínimo, com a seguridade social, não sou um peso para seu país.

Fonte: Mônica Manir – O Estado de S.Paulo – http://www.estadao.com.br/suplementos/not_sup140915,0.htm

Bahia: Forte protegido

Vigilante, a capoeira tem no Santo Antônio uma espécie de lar com o qual mantém relação de amparo mútuo

“Nasci para ser contestadora”, diz a capoeira, sentada aqui em frente, personificada sobre o banco de madeira no salão que aguarda os pingos de suor se tornarem muitos na roda de logo mais. Ela agora está tranqüila, é mestre Moraes, honra e glória do Forte do Santo Antônio, seu lar. Quase um quartel de convivência naquele quadrilátero que um dia foi erguido para defender a cidade, ocupado por gente que queria manter a arte nobre, negra, necessária para deixar acesa a chama da História da Bahia. Hoje são tempos melhores e o mestre abre o sorrisão durante a conversa. Mas nem sempre foi assim.

O Ato Institucional no5 fazia pipocos ecoarem pelas avenidas, mas Pedro Moraes Trindade estava em alto-mar, na viagem entre a sua terra e o Rio de Janeiro, o fuzileiro naval segue para fazer curso pela Marinha. Na recém-destituída capital federal, iria dar seqüência ao que tinha aprendido anos antes, nas ruas ocupadas por prostitutas e meliantes. Era ali, em uma portinha original de um casarão remanescente, no Largo do Pelourinho, 17, na academia do mestre Vicente Ferreira, o Pastinha, hoje restaurante do Senac, que os mestres João Grande e João Pequeno o ensinaram a voar no molejo da luta batizada com aquele país irmão-colônia. “Mas lá no Rio ninguém conhecia Angola”, reverbera, indignado, com o estilo que o acompanha até hoje. A solução foi passar o conhecimento, estava formado o primeiro grupo para fluminenses, que começaram a perceber que a Bahia é mais África do que aparenta. O som do berimbau no clube Gurilândia, escola primária de classe média, ecoava em Botafogo.

O AI-5 pára tudo no país, mas ela avança. E já em 80, ainda no Rio, mestre Moraes funda o Grupo de Capoeira Angola Pelourinho, o GCAP. “Não me interessava perder a identidade com as minhas origens”, diz como quem dá um martelo, marca terreno. Três anos depois, volta às raízes e busca, em Salvador, um espaço para dar continuidade ao grupo. É o pós-ditadura, o recomeço.

O forte é legal, é mais ou menos perto do velho largo, mas está repleto de moradores de todos os becos imaginários, verdadeiros sem-tetos que ocupam e fazem a história em Salvador. Ainda assim, foi entrando. “A escola funcionava ali em cima, era o lugar de mestre Ezequiel antes de ele morrer”, aponta para o céu, na direção do antigo primeiro andar, onde existiam celas, derrubado na mais recente reforma do espaço, motivo de controvérsia, conforme dito.

A situação era difícil. “Teve dia de eu entrar aqui e o tiroteio começou a acontecer”, lembra ele, resistente.

Abandonado, o forte vivia ao léu, não havia chaves para trancar o portão principal. Cada um tinha a da sua cela, da sua sala.

A essa altura, já havia acontecido a transferência dos presos, realizada em 1978, para o Presídio Regional, no bairro da Mata Escura. O Estado inicia as investidas, como uma batalha na qual, dessa vez, o forte não é parte na contenda, e sim, o objeto a ser conquistado. Em 80, é feita a proposta de transformar o forte em centro de cultura popular, sob o projeto do arquiteto Paulo Ormino. No ano seguinte, são iniciadas as obras de limpeza e reparo para o centro, que não vinga.

E os anos passam. Ilê Aiyê deixa a senzala do Barro Preto e ali faz os ensaios. Grupos de rock encontram no lugar palco bom para shows. Antes, o bloco carnavalesco Os Lord’s também ensaia para, na época, os três dias de Carnaval. A capoeira dali não sai, sempre à espreita, vigilante. Assiste a tudo, certa. “Foram cortadas água, luz, não tinha segurança. E a gente segurou a onda”, orgulha-se o mestre Moraes.

Em 97, surge novo projeto que tenta transformar o forte em casa das filarmônicas. Após o início das obras, são descobertos elementos de valor arquitetônico, como a cisterna que hoje ocupa o centro do pátio. Nova paralisação dos trabalhos.

A bandeira angolana, pregada que está no teto do salão, começa a tremular justamente quando acontece a virada da história da capoeira no Forte de Santo Antônio. Finalmente, as tratativas são iniciadas com a Secretaria de Cultura para transformar o lugar em forte da capoeira, em 2004, ano em que Moraes, multi-artista, concorreu ao Grammy – um dos prêmios mais importantes da música mundial –, com o disco Brincando na roda. Dessa vez, as obras seguem em ritmo alucinante para, no final do ano passado, estarem prontas.

Nesse ínterim, nem tudo são flores. Relações tensas nasceram naturalmente. E briga boa é com ela. Quiseram criar crachás para quem fosse jogar no forte. “Dizer quem é quem? Para um capoeirista? Todos são capoeiristas e basta”, esbraveja o mestre. “Ela não é para ser vista como folclore. Ela questiona a postura do poder”, abre a meia-lua inteira, sopapo, ele que é professor da língua inglesa, na rede estadual de ensino médio e fundamental, além de mestrando em história social na Ufba, o que o também credencia para aqui falar o idioma da sua gente, vencedora.

E ao lado de Moraes, no salão ali ao lado, está o mestre João Pequeno de Pastinha, o discípulo nonagenário. Completou no último dia 27. A dupla da salvação. “Se não fossem esses dois capoeiristas, o forte já estaria destruído”, altiva a voz outra personificação. Agora, estamos no vale que um dia foi palco de manifestações do candomblé, terreiro famoso, lá está outro adepto. José Leal trabalha hoje na Cesta do Povo do Ogunjá e traz na lembrança aquelas recordações de quando ficou à frente das obras para a recuperação do forte como o burocrático gerente de patrimônio imobiliário do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (Ipac). “Eram diversas famílias entre drogados, homicidas, prostitutas, traficantes e alguns por necessidade que ocupavam o local”, lembra. “Algumas famílias tiveram indenização pecuniária, enquanto outras foram relocadas para outras partes da cidade”.

Leal informa que o forte encontra-se situado na área poligonal traçada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) para o tombamento do Centro Histórico de Salvador. “Lá é o ponto limítrofe”, explica ele, que participou das terceira, quarta e quinta etapas de reforma do Pelourinho.

Recorda de dois grandes aprendizes e braços-direitos do mestre Pastinha. João Pequeno e João Grande, que resolveu mudar de ares e hoje está na Califórnia, nos Estados Unidos. De Pequeno, reverencia-o como o pioneiro no espaço ao fundar, em 1982, o Centro Esportivo de Capoeira Angola (Ceca). “Tudo aquilo ali é fruto da capoeira, ela e o forte historicamente se complementam”, diz.

O mundo também é uma roda. Jogam capoeira aproximadamente oito milhões de pessoas no mundo em mais 180 de países. Só na rede mundial de computadores, já são mais de três mil sítios.

O entusiasmo cresce. A idéia é criar uma forma compartilhada de gestão entre o Estado e a Capoeira, com maiúscula mesmo, elevada à condição agora oficial de transformadora da sociedade. E recrudescem os esforços para que ele se torne uma política pública, independente do governo que esteja aí. “É uma obrigação constitucional preservar a memória de um povo e a capoeira está nesse contexto”, advoga Leal.

Existem ainda propostas nobres a serem postas em prática como a preservação da biriba, árvore da qual se faz o berimbau. “Se não for dela, o instrumento é falso”, determina.

A agora vibração está presente ao falar dos mestres que hoje dão seqüência à arte e à luta dos irmãos Moraes e João Pequeno: Curió, Boca Rica, Nenel. E, claro, dos trabalhos de reforma.

“Eram mesmo lendas as histórias de túneis que ligam o forte de Santo Antônio ao do Barbalho e para o Comércio, que teriam sido feitos pelos jesuítas, não tem nada lá.”, esclarece. “E a cisterna descoberta tem autonomia para até 750 mil litros de água”. E conclui, conclamando: “a capoeira não aceita tutela, ela parte para o confronto. Que agora é o político”.

De volta ao forte, em uma confortável sala recém-inaugurada na antiga administração, sente-se o choque térmico com o ar-condicionado trabalhando bem. O atual gestor do lugar, Magno Neto, representante da Secretaria da Cultura, rabisca as prováveis futuras atrações do Santo Antonio, que não se resumirão à capoeira. “Vamos fazer alguns shows aqui, mas nada muito pesado, algo mais intimista para preservar o lugar”, adianta.

A presença constante de um representante do Estado dentro do forte é algo novo. E, antes de se ajustarem – capoeira e o Poder Público, – tensões se formam. Os capoeiristas ainda não engoliram a rusga criada no último 20 de novembro, dia da Consciência Negra. Com uma programação definida, com várias rodas para comemorar a data, receberam ofício 48 horas antes solicitando que a programação fosse suspensa para que fosse realizada uma premiação de uma regata internacional que acabava de acontecer. “Foi um desrespeito e não mudamos nada”, reclama o mestre Moraes. Os dois eventos aconteceram simultaneamente.

Um mês depois, a paz está selada. Ou não, pode ser apenas uma trégua. E a renovação é necessária e aí gritam lá do largo perguntando ao seu vigia se o espaço está aberto à visitação.

Resposta afirmativa, lá vem curioso o carpinteiro Leonardo Cruz, já sem as mãos dadas com o filho Júnior, 9 anos. Pára na cisterna recém-descoberta, espia as grandes fechadas que dão acesso aos salões. “Quero que meu filho seja capoeirista”, diz ele. “Já joguei muito, gostava daquela capoeira malandra”, sorri.

A noite chega. Com ela, mestre Moraes.
O Forte de Santo Antônio terá ainda muitos anos de vida.

Fonte: Correio da Bahia, Brasil – http://www.correiodabahia.com.br